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O QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA

CAPÍTULO XI

Naquela manhã não houve despertador. Era dia de Natal e feriado como sempre. Mário acordou atordoado e dorido com a noite quente que tivera. Olhou para o relógio e percebeu que já restava muito pouco da manhã. Seguidamente, os seus olhos viram Joana a dormir tranquilamente a seu lado, o que o fez sentir uma enorme felicidade.

Habituando os olhos à claridade e andando aos zig-zags, Mário caminhou até à casa-de-banho e foi tomar um duche. Logo depois, regressou ao quarto para se vestir. A meio do arranjar a camisa dentro das calças e apertar o cinto, Joana acordou.

─ Que se passa? ─ perguntou ensonada.

Ele direccionou o olhar para a cama e ajoelhou-se perto dela, ficando à altura de Joana. Ofereceu-lhe um beijo carinhoso na boca e disse:

─ Dormiste bem?

─ Maravilhosamente! ─ exclamou, encantada.

─ Foi uma noite maravilhosa! ─ afirmou ele. ─ Foste maravilhosa!

─ Também tu.

Mário acariciou-lhe o cabelo, encarando-lhe o olhar terno.

─ Fazes-me sentir algo que nunca senti com ninguém. ─ confessou ele, perante o semblante meio envergonhado dela. ─ Estou apaixonado por ti, Joana!

Joana baixou a cabeça como se ficasse desiludida.

─ Que foi? Disse alguma coisa que...

─ Não, não. ─ interrompeu ela. ─ Surpreendeste-me!

─ Porquê? ─ interrogou ele. ─ É assim tão estranho, estar apaixonado por ti?

Joana suspirou ligeiramente.

─ A vida magoou-me muito no campo afectivo. ─ explicou ela. ─ Não ponho em causa que estejas a ser sincero. Apenas sinto alguma relutância... ou melhor, alguma desconfiança. É mais forte que eu, o levantamento de todas as defesas que fui criando.

─ Não partilhas dos meus sentimentos?

─ Pelo contrário. Talvez esteja tanto ou mais que tu! Só peço que tenhas paciência comigo.

─ Eu amo-te Joana!

─ Eu também.

Logo que disse aquilo, Joana desviou o olhar para o ar arranjado dele.

─ Onde vais? Passa-se alguma coisa? Algum problema?

Mário lançou-lhe um sorriso apaixonado e respondeu:

─ Não! Preciso de sair para resolver uns assuntos. Deixa-te estar aí. Aproveita e dorme mais um pouco.

─ Vais demorar?

─ Penso que sim. Quero passar pela casa dos meus avós para lhes dar um beijo e desejar um Feliz Natal. ─ comunicou ele, dando os últimos retoques no seu visual. ─ Não tenho sido um bom neto e vou tentar emendar isso, passando algum tempo com eles. Devo voltar ao fim da tarde. Queres vir comigo?

─ Não! ─ recusou ela. ─ Os teus avós devem ter muitas saudades tuas e não deverão querer partilhar-te com mais ninguém. E também não me sentiria muito à vontade.

─ Tudo bem. ─ aceitou ele. ─ Fica à vontade! Faz como se estivesses em tua casa.

─ Se quiseres, posso ir contigo noutra altura. Terei muito gosto em os conhecer.

─ Eu também gostarei que tu os conheças, querida! ─ Deu-lhe um beijo na testa e acariciou-lhe novamente o rosto. ─ Estás com cara de quem dormia mais umas horas.

─ Lá isso é verdade.

─ Não te preocupes! Estarei de volta ao fim da tarde.

E com aquelas palavras, deu-lhe um acalorado beijo na boca e seguiu o seu caminho.

Seguindo no elevador, Mário assobiava sozinho, alegremente, sentindo-se inundado de felicidade. Esperava que aquilo não fosse um sonho. E não era certamente, pois o olhar de Joana quando o observava não deixava dúvidas do que sentia por ele.

Quando as portas do elevador se abriram, Mário deparou-se com o enorme espaço de garagem, onde todos os carros dos proprietários ficavam arrumados. Caminhou pelo cimento pintado com tiras brancas, localizando as zonas de estacionamento e de andamento, até chegar junto ao seu carro. Carregou na chave e os farois amarelos piscaram duas vezes. Abriu a porta e entrou, ligando a ignição e partindo rumo aos objectivos que traçara para esse dia.

Logo que o Audi A3 alconçou a saida das garagens, Mário franziu o rosto com o brilho do Sol que resplandecia o ambiente citadino, condizendo com o seu estado de espirito. Virou à direita no primeiro cruzamento, seguindo em direcção à Rua Joaquim António Aguiar.

A sua primeira escala seria a esquadra da Policia de Segurança Pública, na zona da Avenida da Liberdade. Poucas pessoas se viam nas ruas e até a densidade de carros diminuira consideravelmente. Mário não teve dificuldades em estacionar a poucos metros do edificio da PSP.

Saiu do carro e ingeriu uma lufada de ar fresco com gosto, olhando para tudo como se estivesse perante todas as belezas do mundo. Tudo era belo, tudo era lindo, tudo lhe fazia lembrar Joana.

Entrou no pequeno prédio e dirigiu-se à recepção, onde um agente o recebeu.

─ Bom dia! ─ cumprimentou Mário, olhando para a envolvencia do local, como se se interrogasse onde estaria Sandrine.

─ Bom dia! ─ retribuiu o policia, aguardando o motivo da sua entrada ali.

─ Está cá uma mulher, presa, chamada Sandrine, não está? ─ perguntou Mário.

─ Quem é o senhor? ─ interrogou o agente, pouco disponivel para informações.

─ Dr. Mário Ferreira! ─ apresentou-se.

─ É o advogado?

─ Não! Fui eu quem fez a queixa.

O policia olhou para ele, desconfiado, não percebendo o seu interesse em ali estar. Mário, sem que lhe perguntassem, disse:

─ Gostaria de retirar a queixa.

─ Retirar a queixa? ─ repetiu o agente, em jeito de pergunta. ─ Quer retirar a queixa?

─ Sim.

O policia levantou-se da sua cadeira, atrás do balcão da recepção, e foi procurar uma pasta no meio de diversos processos. Encontrou a queixa relativa a Sandrine e disse:

─ Diz aqui que o senhor apresentou queixa contra a jovem por esta o ter tentado apunhalar. É verdade?

─ Sim, eu apresentei a queixa...

─ Então, porque a quer retirar? Ela não o tentou apunhalar?

─ Houve uma discussão entre nós, senhor guarda. ─ tentou explicar Mário. ─ Os ânimos exaltaram-se e perdemos a cabeça. Ela acabou por pegar numa faquinha de cortar papel, mas... Não acredito que fosse capaz de ir até ao fim. Ela errou, mas penso que uma noite na prisão, ainda para mais no Natal, já foi castigo suficiente.

─ Isso compete ao juiz decidir. ─ contrapôs o agente, pouco receptivo à vontade de Mário.

─ Mas, eu não posso retirar a queixa? ─ questionou Mário. ─ Eu fui o visado pela acção dela e estou a perdoá-la. Que necessidade há em arrastar isto para os tribunais? A rapariga é jovem e impulsiva, teve o acto irreflectido, mas não magoou ninguém. Não acha que esta noite já foi castigo suficiente?

─ O juiz é que decide.

Perdendo a calma, Mário olhou para o policia e argumentou:

─ Não acredito que seja necessário levar o caso a tribunal, nem acredito que não se possa retirar uma queixa. Será necessário telefonar ao meu advogado e fazê-lo vir aqui para esclarecermos isto?

Quase que fulminando-o com o olhar, o agente encarou-o no regresso à cadeira, onde se voltou a sentar. Sem dizer uma palavra, puxou de uma folha de papel e colocou no topo do balcão.

─ Preencha isso! É uma declaração de renuncia à queixa que efectuou.

Mário pegou na folha, segurou-a com a mão esquerda e retirou uma caneta, do bolso interior do casaco, com a mão direita com a qual escreveu o que entendeu. Não havia muito a completar naquela declaração, onde se transcreviam os dados pessoais e se assinava uma declaração que serviria para justificar a finalização de processo de queixa-crime. Não demorou muito tempo a completá-la, entregando-a seguidamente, num acto continuo, ao agente.

─ Qual é o passo seguinte? ─ indagou Mário.

A postura de pouca receptividade a diálogos não se alterou no agente. Sem olhar para Mário, o homem retirou a folha de cima do balcão e respondeu:

─ Teremos que executar algumas formalidades, mas ainda hoje será libertada.

─ Obrigado! ─ agradeceu Mário. ─ Seria possivel vê-la?

O policia lançou-lhe um olhar de reprimenda, como se lhe propusesse algo estapafurdio.

─ Vou partir em viagem e gostaria de lhe dar uma palavrinha, antes de ir. ─ insistiu Mário.

Olhando em redor, o policia fê-lo ver que não havia mais ninguém ali, dizendo:

─ Lamento, mas não posso sair daqui para o levar lá. Se quiser, pode aguardar que chegue algum colega...

─ Se me indicar o caminho, posso ir sozinho. ─ sugeriu Mário.

Percebendo que não se livraria facilmente dele, o policia acabou por o levar até à entrada do corredor dos calabouços e indicar-lhe a “última cela, ao fundo”.
 

Quando ouviu os passos no corredor, Sandrine levantou-se da pequena cama onde se sentara. Passara uma noite horrivel e tinha sinais evidentes no rosto da noite mal dormida. O som das solas a embater no piso frio fizeram-na constatar que não era nenhum agente, pois o som da passada era diferente. Os seus olhos iluminaram-se e o seu coração bateu mais depressa com a possibilidade de Jacinto ter regressado. De entre tanta pouca sorte, congratulava-se por toda a situação lhe ter permitido conhecer uma pessoa maravilhosa como ele.

Os passos aproximavam-se. Sandrine compôs a roupa, aprumando-se no seu aspecto desmazelado de quem passara a noite numa cela da esquadra da PSP. Mal segurou as grades de ferro, deu de caras com Mário. Assustou-se. Seguidamente, tomou consciência da frustração por não ver quem queria e ver quem não queria. E ódio apossou-se dela.

─ Que fazes aqui? ─ interrogou irada.

─ Tem calma! ─ aconselhou Mário.

─ Calma? ─ questionou Sandrine. ─ Como podes pedir calma, depois de me teres feito passar a noite de Natal na prisão? És um filho da puta, meu cabrão de merda!

Por incrivel que pudesse parecer, Mário mantinha-se calmo.

─ Vim retirar a queixa. ─ disse-lhe secamente e sem esperar algum agradecimento ou mudança de atitude.

A noticia também apanhou Sandrine de surpresa, apesar de não a fazer alterar a agressividade. Contudo, não soube o que dizer e permaneceu calada, limitando-se a encará-lo com toda a cólera no olhar.

Aproveitando o seu silêncio, Mário disse:

─ Retirei a queixa contra ti. Não sei quando te vão libertar, mas informaram-me que será ainda hoje. Estou disposto a esquecer o que aconteceu. Acho que esta noite, aí, já foi castigo suficiente. Devo avisar-te também que na próxima Segunda, falarei com o Bragstad para que te readmita na empresa.

─ Qual é a tua ideia, estupor? ─ inquiriu ela, segurando com tanta raiva as grades que quase esmagava as mãos contra o ferro. ─ Que te leva a pensar que quero o que quer que seja de ti? Tiraste a queixa? Não sei o que te motivou a fazê-lo. Mas, não será isso que fará com que te deixe de odiar.

─ Podes odiar à vontade. É um direito teu. ─ ripostou ele. ─ No entanto, é isso que farei. Se quiseres aceitar novamente o cargo, ele é teu. Se não o quiseres... Bom, é uma decisão tua. Não tenho nada com isso. Porém, estou disposto a ajudar-te na empresa.

─ Ouve, pulha! ─ chamou Sandrine. ─ Achas que sou estupida? Pensas que acredito nessa personagem de bom samaritano? Sei quem tu és e o que és. Não olhas a meios para atingir os fins a que te propões. Que queres em troca?

─ Nada! ─ exclamou, encolhendo os ombros. Sabendo que dificilmente a faria alterar a ideia que tinha dele, optou por abandonar o local. ─ Até Segunda!

Sandrine ficou a vê-lo afastar-se, com os olhos carregados de ira e estupfacção.
 

Logo que saiu a porta da esquadra, Mário deu de caras com Jacinto.

─ Mário? ─ interrogou o outro espantado, como se a presença do primeiro, ali, fosse mais estranha que a neve numa tarde de Verão.

─ Feliz Natal, Jacinto! ─ desejou-lhe Mário sem parar a passada.

Isso deixou ainda mais incrédulo Jacinto que não foi capaz de proferir uma palavra que fosse.

Sem perder muito tempo, Mário entrou no Audi A3 e ainda teve tempo de ver Jacinto entrar na esquadra. Pegou no telemóvel e digitou os algarismos correspondentes ao numero de telefone do Dr. Tomé.

Ouviu o sinal de chamar, mas sem que ninguém aparecesse do outro lado da linha. Mário sentia-se impaciente, pois traçara determinados pontos que queria resolver, os quais queria que ficassem tratados o mais rapidamente possivel.

Era estranha a forma como passara a ver as coisas nas últimas vinte e quatro horas, como se tivesse ficado curado de uma cegueira de consciência. Recriminava-se constantemente para si, cada vez que se lembrava das atitudes que tomara para com todos os que o rodeavam. Sentia uma necessidade terrivel de remendar os males do passado com uma urgência louca.

Foi necessário voltar a tentar a ligação uma segunda vez para que o Dr. Tomé atendesse.

─ Tou? ─ respondeu uma voz trémula.

─ Dr. Tomé?

─ Sim.

─ Fala o Dr. Mário Ferreira. ─ identificou-se Mário, usando do mesmo ar altivo de sempre, apesar de não o ter feito propositadamente. ─ Onde é que o senhor andava? Estava a ver que ninguém atendia.

O outro sabia quem lhe estava a telefonar, talvez fosse isso mesmo que o fez hesitar em atender da primeira vez. Gaguejava ligeiramente, cada vez que dizia uma frase a Mário, quase como se tivesse medo dele.

─ Então? Fez o que lhe mandei, ontem? ─ interrogou Mário.

O Dr. Tomé não respondeu de imediato, deixando antever que não o fizera e procurava uma explicação para o sucedido.

─ Vejo que não o fez. ─ respondeu Mário a si próprio.

─ Não tive coragem de despedir as pessoas na véspera de Natal. ─ confessou o Dr. Tomé num lamúrio. ─ Assumo a responsabilidade por isso. Garanto-lhe que o farei na próxima Segunda.

─ Não vai nada. ─ contrapôs Mário.

─ Vou sim. ─ insistiu o outro. ─ Tem a minha palavra...

─ Não é preciso. ─ interrompeu Mário. ─ Eu próprio tratarei do assunto.

Continuando num gaguejar nervoso, o homem disse:

─ Peço-lhe que me deixe tratar disso. Prefiro que saibam a noticia por mim, a recebê-la de um estranho que não conhecem.

─ Oiça, Dr. Tomé! ─ chamou Mário, enfadado com tanta lamúria. ─ Não vamos despedir ninguém!

Seguiu-se um silêncio que denunciava toda a surpresa do Dr. Tomé do outro lado da linha. Mário não se pronunciou até que o outro dissesse:

─ O quê? Como assim?

─ Fui sensivel aos seus argumentos, relativamente à empresa. ─ explicou Mário. ─ Pensei noutra solução e penso ter encontrado uma hipotese para mantermos essa empresa e os seus trabalhadores.

─ Espero que não seja uma brincadeira de mau gosto?! ─ receou o Dr. Tomé.

─ Acha que sou homem de brincadeiras, Dr. Tomé? ─ indignou-se. ─ São assuntos sérios! Estamos a falar do futuro de muitas pessoas. Acha que ia brincar com isso?

─ Mas, ainda ontem...

─ Esqueça o ontem, homem! Pense no amanhã.

Mais uma pausa, na qual pareceu a Mário ouvir um soluçar por entre o silêncio. Como já transmitira a sua mensagem, acabou por dizer:

─ Tenho de desligar, Dr. Tomé.

─ Muito obrigado! ─ balbuciou o outro. ─ Deus o abençoe! Um Feliz Natal para si, Dr. Ferreira!

─ Feliz Natal para si também, Dr. Tomé! ─ desejou ele. ─ Segunda, falaremos melhor.

E desligou a chamada.

Deitou mais uma olhadela ao edificio na esquadra e imaginou a surpresa que Jacinto teria, quando soubesse que ele desistira da queixa contra Sandrine.

Sem perder mais tempo, colocou o telemóvel no kit mãos-livres e ligou a ignição. Arrancou com o carro e dirigiu-se ao cruzamento, de forma a regressar à Avenida da Liberdade. Parou no sinal vermelho e contemplou as ruas citadinas desertas.

Olhando para o telemóvel, marcou o número de casa dos seus avós. Ouviu o toque de chamada, simultâneamente que a luz vermelha apagava e a verde se acendia.

─ Tou? ─ ouviu a voz da avó a dizer.

─ Olá, avó! É o Mário.

Quase automaticamente, retomou o movimento do veiculo, dirigindo-se na direcção do Marquês do Pombal.

─ Estava a pensar passar por aí, esta tarde. ─ disse-lhe o neto. ─ Vão estar por aí? Não vou incomodar?

─ Claro que não, Mário. ─ respondeu-lhe a avó emocionada. ─ Temos tantas saudades tuas. Eu e o teu avô gostamos muito que cá venhas.

Mário já havia contornado a rotunda e começara a subir em direcção às Amoreiras. Não se dirigia para casa. Ia tomar o caminho para a Ponte 25 de Abril, no desvio antes do Viaduto Eng. Duarte Pacheco.

─ Sabe, avó? Aconteceu-me uma coisa maravilhosa!

─ O quê? ─ interrogou a idosa. ─ Tens que me contar quando cá chegares.

─ Posso contar-lhe já. ─ sugeriu ele. ─ Vou relatando, enquanto me dirijo para aí.

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