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O QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA

DIA 24 DE DEZEMBRO 

CAPÍTULO I

Devia ser o terceiro dia consecutivo que a chuva caia, quase sem parar, sem dar tréguas. Que Natal iríamos ter nesse ano?

A véspera de Natal amanheceu carregadinha de chuva e vento, fazendo ecoar trovões matinais, abalando os que seguiam para os seus empregos.

Tudo molhado, humidade por toda a parte, poças, lamaçais... Um daqueles dias em que a última coisa que apetece é sair de casa. Àquela hora, só mesmo por obrigação se andava na rua. Mesmo os que ainda iam fazer as últimas compras de Natal, reservariam para mais tarde a aventura alagada que os aguardava.

A claridade da manhã mal dera as primeiras passadas, ainda a luz alaranjada dos cadeeiros de rua tomava conta do ambiente, já Joana deixava a sua casa em Fernão Ferro.

Sentindo o frio gélido do ar e as gotas grossas despenharem-se furiosamente sobre si, Joana segurava com força o guarda-chuva e caminhava pelo passeio até à paragem do autocarro que a levaria para a estação ferroviária do Fogueteiro, onde seguiria para Lisboa.

Se já era dificil o percurso, e com aquele tempo, o facto de o ter de fazer num dia em que muitos patrões abdicavam dos funcionários, transformava a tarefa ainda mais dura. Joana trabalhava como telefonista numa agência de publicidade, ali para os lados da Avenida da Liberdade.

A chuva não dava descanso e Joana sentia os pés húmidos com as constantes vagas de água, atiradas pelos pneus dos carros que passavam. As botas estavam a ceder e ela já imaginava que, quando chegasse ao emprego, lá teria de as descalçar e trabalhar sem elas algum tempo.

Na paragem, mais... ninguém.

Nos outros dias, ainda tinha a companhia de algumas pessoas, gente conhecida dos encontros diários naquele local. Haviam tido mais sorte com os patrões e puderam passar o dia com a familia. Por aí não lhe faria diferença, pois vivia sozinha desde que viera estudar para Lisboa, três anos antes.

Vinte e dois anos, a sua idade, e desde pequena que tinha aquele gosto pela Medicina. Sonhava ser médica, mas a tarefa era árdua para uma jovem longe de casa e da familia que ficara para trás, em Ponte da Barca, Viana do Castelo.

Nem a chuva parava, nem o autocarro chegava.

Dias antes, pedira ao chefe se lhe dava uns dias para ir passar o Natal com a familia. Após o Natal era fim-de-semana e sempre mataria as saudades da mãe e do irmão mais novo.

O chefe recusara o pedido sem grandes explicações.

A sua mão doia-lhe por segurar o guarda-chuva fustigado pelo vento. O cabelo castanho longo voava perdido, em volta da sua cabeça. Os olhos verdes procuravam um sinal do autocarro, ao fundo da rua. Olhou para a roupa e viu a saia comprida já molhada nas pontas. A camisola de lã bege mantinha-a quente, mas o blusão estava encharcado pelas gotas de água atiradas pelo vento.

Após mais de vinte minutos naquele temporal, o autocarro apareceu.

Joana subiu para o interior e mostrou o passe ao motorista com semblante antipático. Parecia que a culpava por o fazer trabalhar. Teve vontade de lhe dizer: “Não tenho a culpa! Queixe-se ao meu patrão e ao seu! Eles é que nos fizeram vir.”

Normalmente cheio, naquele dia, o longo autocarro levava meia dúzia de pessoas. Joana sentou-se junto a uma das janelas e ficou a olhar para as gotas que embatiam no vidro.

No primeiro ano de estudante, Joana conseguiu alugar um quarto em Lisboa. Encontrara um quarto para alugar numa casa de um casal de idosos, os quais possuiam uma casa com três quartos para além do seu. Tinham mais duas hóspedes, para além dela, a quem cobravam os mesmos cento e cinquenta euros que a si. Era um negócio lucrativo para os velhotes que, com aquilo, tiravam quatrocentos e cinquenta euros das hóspedes e pagavam pouco menos de cem ao senhorio. Contudo, a vida na capital tornara-se demasiado dispendiosa. Acabou por passar a estudar à noite e a trabalhar durante o dia, ao mesmo tempo que alugava um T0 em Fernão Ferro, quase ao preço que lhe custava o quarto em Lisboa. Mas era estafante, aquele trajecto diário, ainda pior em tempo de aulas, quando saia do emprego e ia para a Faculdade e só regressava a casa noite dentro. No entanto, Joana tinha um sonho. E jurou a si própria, contra todas as adversidades, que o realizaria.

O autocarro parou junto à estação. Joana saiu, voltou a abrir o guarda-chuva e caminhou em passada apressada para a zona onde o comboio aguardava.

Por vezes, tinha vontade de abandonar tudo e regressar às origens. Contudo, a sua teimosia não a deixava. Talvez fosse defeito, talvez virtude. Joana sabia que o era e orgulhava-se disso.

Congratulou-se por não ser a única naquele comboio. Havia mais gente com a triste sina de trabalhar naquela véspera de Natal tão chuvosa. Era uma especie de solidariedade silênciosa. Todos com semblante aborrecido.

Sentiu vontade de gritar: “Animem-se!”

A vida tem coisas bem piores que trabalhar num dia de chuva. Ela bem o sabia. Viu o reflexo do seu rosto no vidro e reparou que também o seu continha o mesmo aborrecimento.

Quem a conhecia mais de perto, dizia que era uma rapariga com um coração enorme repleto de generosidade. Abdicara de um pouco do seu tempo, todas as semanas, para fazer voluntariado na Pediatria do Hospital de Santa Maria, junto das crianças. Não ia fingir que era médica, nem nada que se pareça. Ia apenas contribuir com um pouco de boa-disposição para com aqueles que tanto sofriam.

Um enorme coração generoso e solitário.

Quase não tinha amigos, apenas aqueles de ocasião que precisam de alguma coisa. Joana tinha consciência que era uma pessoa bastante fechada e raramente deixava alguém entrar no seu mundo equilibrado e pouco propenso a realidades que alterassem os padrões da sua vida simples e atarefada. Relações amorosas? Tivera um namorado nos primeiros tempos na capital, ainda iludida com as pessoas e muito com ele. Durou algum tempo e terminou da pior forma, sentindo-se trocada por outra, a qual se revelou de maior interesse para o individuo em determinada altura.

Vendo a chuva a embater no vidro, recordava as lágrimas que chorou com o desespero de quem se sentiu usada. E não fôra fácil ultrapassar aquela fase, ela que se lhe entragara de corpo e alma, acreditando na reciprocidade de sentimentos, e ele dispensara-a friamente. Soube como a solidão podia ser cruel, abandonada e com os que a amavam verdadeiramente, demasiado longe para a apoiarem.

Ainda tivera que conviver com a presença dele, naquele ano, na Universidade. Não muitas vezes, pois era finalista de outro curso. E terminado esse primeiro ano de caloira, nunca mais o vira.

No entanto, a relação marcara-a. E em Lisboa, nunca mais dera abertura ao minimo relacionamento de amizade, preferindo a solidão, ao medo de nova traição.

Uma voz surgiu nos altifalantes do comboio, fazendo-a despertar das recordações:

─ Senhores passageiros! Devido ao mau tempo, este comboio ficará retido na estação do Pragal, aguardando uma melhoria climatérica para atravessar o rio. Obrigado.

A mensagem repetiu-se.

Sentindo o comboio parar na chegada à estação, Joana levantou-se e procurou quem lhe pudesse dar uma explicação. Como chegaria ela a Lisboa?

Abriu o guarda-chuva debaixo de um temporal avassalador e dirigiu-se às bilheteiras, procurando informações. Encontrou apenas uma em funcionamento.

─ Bom dia! ─ cumprimentou.

A funcionária, sem olhar para ela, disse:

─ Que deseja?

─ Quando é que volta a haver ligação com Lisboa? ─ perguntou Joana, tentando fazer-se ouvir através do vidro do cubiculo.

A outra folheava uma revista sem lhe prestar grande atenção. Acabou por dizer:

─ Quando o tempo melhorar.

─ Mas eu preciso de chegar a Lisboa, senão chego atrasada ao emprego. ─ insistiu.

─ Não posso fazer nada. ─ disse a mulher com frieza. ─ Logo que a ligação seja reatada, será comunicado pelos altifalantes da estação.

Joana encostou a mão ao vidro e interrogou:

─ E como vou chegar eu ao emprego?

A mulher encolheu os ombros como se isso não fosse problema seu.

Furiosa, Joana bateu com a palma da mão no vidro e disse:

─ Olhe para mim, quando eu estou a falar consigo! Eu trabalho! Tenho de chegar ao emprego. Como é que atravesso o rio?

A funcionária olhou para ela, chamada à atenção pela pancada no vidro, e respondeu:

─ Não posso fazer nada, senhora. E agradeço que não bata no vidro.

─ Eu devia era bater em si, sua improdutiva! ─ exclamou Joana, irada com a adversidade.

A mulher fulminou-a com o olhar e avisou:

─ Já lhe disse que não posso fazer nada. Queira fazer o favor de se afastar, antes que chame a segurança. ─ E voltou à leitura.

Joana teve vontade de tornar a bater no vidro, mas não serviria de nada. Deixou a bilheteira para trás e procurou uma solução.

A estação estava quase deserta. Olhou para o relógio e viu que se começava a fazer tarde para chegar a horas ao emprego.

Sentou-se num dos bancos da estação e aguardou o reatamento da ligação, desejando que fosse rápido.

Passados uns vinte minutos, viu um funcionário da estação. Levantou-se e caminhou na direcção do senhor de meia-idade que controlava as movimentações das composições.

─ O senhor, desculpe! ─ interpelou-o. ─ Já há previsões para que os comboios partam para Lisboa?

─ Não, menina. ─ respondeu-lhe com simpatia.

─ Preciso de chegar ao emprego antes das nove horas. ─ desesperou. ─ Como vou eu atravessar o Tejo?

Sensibilizado com o seu desespero, o senhor apontou para a saída da estação e informou:

─ Disponibilizaram autocarros para atravessar a ponte. Veja se ainda o apanha.

Apressadamente, Joana agradeceu-lhe e correu para o local que lhe indicara. Ao passar pela porta, foi atingida por uma rajada de vento que lhe partiu os cabos do guarda-chuva, inutilizando-o e que quase a derrubou ao chão.

Com as gotas fortes alvejando-a sem piedade, atirou o que restava do objecto para o lixo e correu para a paragem. Ao virar a esquina, para seu desespero, viu o autocarro partir.

─ Merda! ─ gritou, fazendo as pessoas que passavam, olhar para ela e tomá-la por doida. ─ Que merda!

Caminhou desalentada e encharcada até à paragem, onde se poderia resguardar da chuva. Olhou novamente para o relógio e decidiu telefonar para o emprego.

─ Estou atrasada, Olivia. ─ alertou Joana à sua colega de funções. ─ Não há ligação ferroviária para Lisboa. Vou ver se apanho um autocarro para Cacilhas e apanho o barco.

─ Não vale a pena. As ligações maritimas também foram cortadas. ─ informou a colega.

Joana puxou o cabelo encharcado para trás e fechou os olhos, desesperada.

─ Isto não me pode estar a acontecer.

─ Ouve, Joana! Eu vou aguentando o serviço e falo com o chefe.

─ Obrigado, Olivia.

Ao desligar, viu um novo autocarro dobrar a esquina e aproximar-se da paragem.

A roupa pingava por todo lado, como se tivesse tomado banho com ela. Entrou no autocarro, puxou do passe e perguntou estafada:

─ Serve para aqui?

O motorista assentiu com a cabeça e arrancou, antes que ela pudesse chegar a um lugar para se sentar.

Os vidros do autocarro estavam embaciados pela respiração das pessoas. O veiculo não ia cheio, mas levava mais de metade da sua lotação. A chuva caia e mal se via o exterior. Lá à frente, as escovas limpa-pára-brisas lutavam contras as torrentes de água que se abatiam sobre o longo vidro frontal, permitindo ao motorista ter o minimo de visibilidade.

Que dia estava a ser aquela véspera de Natal. Sentia a roupa húmida no corpo, o cabelo molhado colar-se ao rosto e o cansaço provocado pelas adversidades. Abriu a mala e tirou um lenço de papel para secar o rosto. Olhou para o relógio e viu que já estava quinze minutos atrasada.
 

A chuva abrandara ligeiramente.

Devia passar das dez, quando Joana entrou no escritório. Sentia-se arrasada e molhada, apesar da roupa se ter praticamente secado no seu corpo. Ao chegar ao seu local de trabalho, encontrou o seu chefe com ar irritado, juntamente com a sua colega Olivia, a qual lhe fez sinal que as coisas se haviam complicado.

─ Ricas horas! ─ exclamou ao vê-la.

Joana olhou para ele, mantendo uma postura defensiva, mesmo perante aquele seu aspecto vulnerável. Na sua frente, o seu chefe, um homem de cinquenta e tal anos que a olhava sempre como se fosse um doce por desembrulhar. Metia-lhe nojo, aquela forma como lhe respondia quando ela lhe pedia algo, falando sempre com a sugestão indirecta de como lhe poderia obter os favores. Velho porco e nojento.

─ Tive problemas com os transportes para Lisboa. ─ justificou.

─ Eu sou testemunha disso, pois ela...

─ Não lhe perguntei nada, pois não? ─ interrompeu o homem, o testemunho de Olivia.

Joana acenou-lhe com a cabeça para que ela não se prejudicasse com aquele assunto.

O chefe tornou a olhar para Joana e disse:

─ Vocês, jovens, acham que o trabalho é só para ganhar dinheiro. Vão para as borgas, saiem com os namorados. E esquecem-se que têm de trabalhar no dia seguinte, entrar a horas no emprego.

─ Mas...

─ Cale-se!

O chefe não deixou Joana falar, continuando:

─ Veja se arranja esse aspecto desmazelado e vai trabalhar. E que isto não se repita!

E virou-lhe as costas, regressando ao seu gabinete.

Olivia aproximou-se da amiga e perguntou:

─ Como estás?

Joana encolheu os ombros.

─ Mal chegou, deu logo pela tua falta. ─ relatou. ─ Tentei explicar-lhe que estavas atrasada e que tinhas telefonado...

─ Tudo bem. ─ atalhou Joana, forçando um sorriso. ─ Vou à casa-de-banho secar-me e arranjar o “aspecto desmazelado”.

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