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NUNCA NEVA NO MEU ANIVERSÁRIO

IX

A cerimónia tornou-se demasiado morosa. Não me parece que seja fácil encarar um funeral com simplicidade, mas aquele estava a ser longo. As minhas pernas começavam a fraquejar, pois ainda não estava restabelecido dos problemas físicos resultantes do acidente.

A manhã amena, iluminada pelo Sol de Verão, corria com a mesma paz de sempre na ilha do Faial. Se a morte é paz, quem ali encontrava a sua última morada deveria ter o seu espírito tranquilo para toda a eternidade.

O caixão desceu e as primeiras pás de terra foram atiradas sobre ele. Nunca é fácil despedirmo-nos de quem sabemos que nunca mais iremos ver. E a sua filha Clara soluçou naquele instante, no último adeus, entre duas doses de solo fofo.

As pessoas começaram a dispersar. Eu proferi uma oração mental, desejando paz à sua alma. De súbito, o ruído de uma travagem na estrada chamou a atenção de todos. Alguém não respeitara um sinal de trânsito e quase houvera um acidente. Não, pensei, outro não. Nem mesmo somente como testemunha suportaria ver dois carros colidirem, não depois daquele… Meu Deus! Sónia…

Mais ao longe, a sirene de uma ambulância apitou pelas ruas da Horta, cortando de forma dilacerante a tranquilidade do ambiente. E a minha memória retornou, fazendo-me pensar nas últimas horas antes de…

 

 

 

Aquela noite em que não conseguira falar com Sónia fora um tormento e mal dormi nas primeiras três horas que estivera na cama. Em consequência disso, quando despertei na manhã seguinte, já era quase hora de almoço.

Não se ouvia nada em casa e nem lá fora as vozes das vizinhas ecoavam pelo exterior. Levantei-me da cama a tentar adivinhar onde estaria Sónia. Estaria ainda a dormir? Estaria na sala à espera que eu acordasse? Vesti uma camisola e saí do quarto para obter a resposta.

Todo o interior estava tão silencioso que não me pareceu que estivesse mais alguém em casa para além de mim. Pensei em ir espreitar ao outro quarto, mas uma folha de papel sobre a mesa da sala chamou a minha atenção. Caminhei até lá e li a mensagem que Sónia me deixara, informando que só voltaria após o almoço e que me deixara comida no frigorífico para eu almoçar.

Não tinha dúvidas que ela continuava a fugir de mim.

Larguei a folha onde a encontrara e fui tomar um banho, pensando sempre no que haveria de dizer quando a voltasse a ver. Sónia poderia tentar adiar o assunto, mas não poderia fugir eternamente a ele.

Nesse dia, vesti umas calças de ganga e uma camisola larga de manga curta. Não me preocupei com calções de banho, pois era pouco provável que o dia incluísse algum mergulho.

Almocei sem dar pelo tempo passar, lavei a louça que sujara e sentei-me no sofá olhar para a televisão, mudando de canal de forma aleatória e quase inconsciente.

Cerca de uma hora mais tarde, senti uma chave entrar na fechadura da porta da rua. Esta abriu-se e por ela entrou a mulher que eu amava de uma forma que se arriscava a transformar em dor. Sónia parecia ter vindo da praia, pois trazia um vestido fresco e o cabelo húmido despenteado.

─ Olá! ─ cumprimentou com pouca entoação e rosto triste.

─ Olá! ─ retribuí com um sorriso para quebrar o gelo. ─ Foste à praia?

Sónia passou pelo sofá sem ter intensão de me dar um beijo como fazia todas as manhãs. Largou a mochila com a toalha no chão e respondeu:

─ Aproveitei para passar a manhã com a Clarinha, no Varadouro.

─ Vi o teu bilhete, quando acordei.

─ Estavas a dormir, quando saímos.

─ Sim… Não dormi nada de noite.

─ Eu também não.

Ela continuava a furtar-se a encarar o meu rosto. Sentado, coloquei a mão no lugar do sofá ao meu lado e convidei-a a sentar. Sónia sentou-se, mas com espaço para duas pessoas entre nós.

─ Olha para mim! ─ pedi de forma carinhosa. Ela acedeu, apesar da dificuldade em o fazer, abalada por uma timidez que nunca existira entre nós ─ Estás com um olhar tão triste. ─ Encolheu os ombros e abanou a cabeça. Pareceu querer justificar, mas não encontrou palavras. ─ Sinto que sou a razão de toda essa tristeza.

─ Não! Pelo menos, não de uma forma intencional.

─ Não planeei nada do que aconteceu.

─ Eu sei. ─ concordou sem qualquer dúvida. ─ A grande responsável fui eu. Fui eu quem sugeriu que o fizéssemos.

─ E é por isso que estás triste?

Voltou a encolher os ombros.

─ Não sei explicar. Não consigo olhar para ti da mesma forma e sinto-me como se tivesse perdido um amigo.

─ Mas não perdeste.

─ Não consigo ver-te da mesma forma. ─ repetiu. ─ Éramos o Tubbs e o Crockett, duas crianças a fazer de adultos amigos para sempre. Não dois adultos apaixonados. ─ Olhou para o tecto. ─ Há coisas que nunca me passaram pela cabeça contigo. Há sentimentos que antes de ontem eram surreais pensar em partilhar contigo, Ricardo. E depois daquele beijo, foi como ter aberto a caixa de Pandora, revelou-se algo com o qual eu não sei lidar.

─ Que fazemos, então? ─ questionei, procurando compreendê-la. ─ Eu continuo a ser teu amigo, mas mentir-te-ia se dissesse que é só isso que sinto por ti.

─ Eu sei, Ricardo.

─ Porque é tão difícil de aceitar que possa existir amor entre nós? ─ A pergunta frontal fê-la retrair-se. ─ É por causa do teu ex? Ainda gostas dele? ─ Ela abanou negativamente a cabeça. ─ Então?

─ O difícil desta situação está entre tu e eu. ─ tentou explicar. ─ Está entre a forma como vamos lidar um com o outro, a partir de agora.

─ Por muito que me custe a acreditar, não deixarei de ser teu amigo, se o teu problema for não gostar de mim como eu gosto de ti. ─ Sónia olhou-me nos olhos, mas não se manifestou. ─ Sê sincera comigo, Sónia. Mesmo que isso me parta o coração, não deixarei de gostar de ti, nem de te apoiar como amigo, sempre que precisares.

Desviou o olhar para as mãos onde entrelaçava os dedos de forma nervosa. Dei-lhe o tempo que necessitou para falar. Por fim, voltou a encarar-me.

─ Conhecemo-nos há vinte e cinco anos. ─ lembrou, sorrindo. ─ És a pessoa que melhor me conhece, és capaz de me ler, saber o que estou a pensar sem que eu diga uma palavra. Queres que eu acredite que tu tens dúvidas em relação ao que sinto por ti? Tu sabes tão bem como eu, que o que aconteceu ontem foi surpreendente e reciproco. Se foi bom? Claro. Se gostei? Adorei. O problema é que consequência terá isso para o meu futuro ou para o teu futuro. ─ Eu ia a responder, mas ela fez um gesto para que não a interrompesse. ─ Sempre te vi como um irmão, um ombro onde me refugiar quando a vida se torna numa tempestade. Desde ontem, penso em ti como homem, penso no beijo, penso… Sim. Nisso também. ─ Não consegui evitar um sorriso por ela confessar que me desejava. ─ Mas… E depois? Daqui a uns dias tu vais embora e…

─ Vem comigo! ─ convidei com toda a certeza do que queria.

Sónia abanou a cabeça, agastada.

─ Sê realista, Ricardo. Tu tens uma vida diferente da minha. Vais para Singapura. Eu sou uma mãe, uma mulher que desde que voltou aos Açores, nunca mais saiu. Tenho a minha vida aqui. ─ A minha mente funcionava num ritmo alucinante na busca de argumentos para a convencer. Porém, a última frase arrasou-me. ─ Sejamos francos. Sei como és nos relacionamentos. Não quero ser mais uma das tuas conquistas. Sempre me orgulhei de ver as mulheres passarem pela tua vida e eu ficar. Não quero passar para esse lado.

─ Achas que é isso que significas para mim? Mais uma?

─ Não sei, Ricardo.

Sentado no sofá, aproximei-me dela até ficar quase sem espaço entre nós. Olhei-a nos olhos e acariciei-lhe uma madeixa de cabelo húmido.

─ Não percebes que em todas as minhas relações eu te procurava a ti? Sempre fui apaixonado por ti, Sónia. E mesmo parecendo um tipo confiante com as mulheres, sempre fui inseguro contigo. Tu sempre foste demasiado preciosa para me arriscar a perder-te com uma confissão de amor não correspondida. ─ Os nossos rostos encararam-se de forma tão próxima que lhe sentia a respiração. ─ Porque será que os meus namoros não duravam? Porque te procurava a ti neles e nunca te encontrei. Não existe ninguém como tu, ninguém que me faça sentir tão bem como tu. Ando há mais de vinte anos a esconder uma paixão e agora descubro que sou correspondido. Como achas que me sinto? Feliz, muito feliz. ─ O meu sorriso perdeu-se. ─ Só que depois essa felicidade morre porque te vejo encarar o meu amor com mágoa.

Se pensava que já nada me surpreendia, a lágrima que brotou dos seus olhos deixou-me confuso. Pensei que as minhas palavras só aumentavam a sua angústia, até ela dizer:

─ Nunca me disseram nada tão bonito.

Aproximei mais o meu rosto do seu e beijei-lhe a face riscada pelas lágrimas. Ela abraçou-me. Senti a sua boca procurar a minha. Os nossos lábios voltaram a tocar-se. O beijo teve um sabor salgado pelos restos das lágrimas.

Tombámos abraçados no sofá, trocando beijos apaixonados. Não pensámos em mais nada para além da paixão, do desejo, do carinho e do amor. Apesar de toda a excitação, suspendi o beijo.

─ Quero fazer amor contigo! ─ Ela hesitou, assustada. ─ Não queres?

─ Nunca estive com outro homem.

─ Nada tens a recear, comigo.

Ela tocou os meus lábios com a ponta dos dedos. A seguir, empurrou-me com suavidade para que a deixasse levantar.

─ Eu sei. ─ A ternura da sua voz era igual ao carinho da sua mão no meu rosto. ─ Aqui não.

Fiquei a vê-la levantar-se do sofá, expectante. Estendeu-me a mão e convidou-me a acompanhá-la. Seguimos para o quarto onde eu passara as noites em sua casa.

Sónia conduziu-me para o interior e fechou a porta. Só me largou a mão quando me indicou a cama para que me sentasse. Não disse uma palavra. Observei os seus movimentos. Puxou o vestido até à cintura e sentou-se ao meu colo, de frente para mim. Percebi que estava tensa. Eu tremia com a ansiedade de estar com ela.

Coloquei as mãos nas suas pernas. Sónia observava-me com um olhar vulnerável, como se ponderasse a cada gesto se aquilo seria correcto. Voltou a acariciar-me o rosto e as nossas bocas tocaram-se, reiniciando a partilha de paixão.

A nossa respiração ofegante era reveladora do desejo que se espalhava pelos nossos corpos. Sónia voltou a levar as mãos ao vestido e despiu-o, puxando-o pela cabeça. Pela primeira vez, vi o seu corpo em biquíni sabendo que o podia acariciar sem receio.

Logo que atirou a peça de roupa para o lado, travou as minhas mãos que lhe subiam pelas ancas. Sorriu e mordeu o lábio inferior. As suas mãos seguraram a parte inferior da minha camisola e puxaram-na para cima. Eu levantei os braços, facilitando a sua acção para me despir.

Em tronco nu, aguardei que ela contemplasse o meu corpo. Acariciou-me os ombros, o peito… O seu toque era suave, cheio de ternura. Voltou a olhar-me nos olhos. Novo sorriso. Sem nunca desviar o olhar, as suas mãos afastaram-se para se esconderem atrás da sua cabeça, por baixo do cabelo. Percebi que estava a desapertar o nó que sustinha a parte superior do biquíni. Quando as suas mãos voltaram a aparecer, traziam as pontas dos fios libertas do nó. Sem hesitar, o rosto fez uma expressão languida e os dedos largaram os fios, deixando-os cair desamparados e levando com eles os dois triângulos de tecido que lhe cobriam o peito. Perante os meus olhos revelavam-se os seios mais perfeitos que alguma vez observara.

Aquilo que partilhámos nos minutos seguintes foi demasiado íntimo e profundo para poder descrever com justiça. As sensações de prazer ultrapassaram em muito, qualquer ideia que pudesse ter feito em toda a minha vida de como seria fazer amor com Sónia.

O nosso envolvimento naquela cama foi tão apaixonante, tão carregado de desejo e ternura que percebi que pela primeira vez, eu estava a fazer amor. Tantos relacionamentos e nunca atingira a profundidade de sensações que encontrava ali. Fora sempre sexo, fora sempre procura de prazer. Nunca houve a troca de olhares que tive com a mulher da minha vida, como se visse a minha alma espelhada nos olhos dela, enquanto a sentia a receber-me.

Não fomos só nós que nos amámos, os nossos espíritos fizeram amor, as nossas almas fundiram-se quando os nossos corpos suados se colaram um sobre o outro, movendo-se à força da paixão.

Parecia uma fantasia, mas nenhuma das que tivera na juventude alcançara o encanto que a realidade me oferecera.

Transcendental. Não consigo descrever de outra maneira, o orgasmo que explodiu em nós.

Não sei quanto tempo passou. Não fora só uma vez. Uma paixão aprisionada em tantos anos não sacia a sua sede de liberdade num único momento. Os seguintes não foram tão atléticos, tão vibrantes na descoberta da novidade. Foram mais amorosos, mais carinhosos, mais prolongados e suaves, sem perder o prazer do auge.

Deitados na cama, nus, olhávamos o tecto sem dizer nada. Ficámos assim alguns minutos, recuperando o fôlego.

─ Falei com a minha mãe, hoje de manhã. ─ informou Sónia, quebrando o silêncio. Eu olhei para ela. ─ Precisava de falar sobre o que tinha acontecido ontem.

Aquilo não me surpreendeu. Sónia sempre fora muito próxima da mãe e encontrava nela uma conselheira quando procurava tomar decisões.

─ E então?

─ Só lhe falei no beijo. ─ continuou. ─ Não quis adiantar mais nada, só que nos tínhamos beijado e que tinha sido estranho. ─ Virou a cabeça para mim, empurrando a almofada para que não lhe tapasse a visão. ─ Contei-lhe que tu estavas apaixonado por mim.

─ E que disse a tua mãe?

Sónia voltou a olhar para cima.

─ Perguntou-me o que sentia por ti.

─ E tu?

─ Não lhe soube responder. ─ Olhou de novo para mim. ─ Tinha de conversar contigo primeiro.

─ E ela?

─ Sorriu. Disse que sempre gostara de ti e que eu deveria refazer a minha vida. ─ Ofereci-lhe um sorriso, feliz por saber aquilo. ─ Só que não lhe contei que vais para Singapura.

─ Depois do que aconteceu, aqui, esta tarde, não penso ir.

Sónia encarou-me quase zangada.

─ Achas que eu quero isso? Achas que quero que desperdices a tua vida profissional para ficares aqui comigo?

─ Então vem comigo. ─ sugeri com toda a calma. ─ Tu e a Clarinha podem vir viver comigo para Singapura.

Sem responder, ela levantou-se da cama e procurou a roupa espalhada pelo chão. Agarrou no vestido e voltou a enfiar-se nele.

─ Não posso fazer isso, Ricardo. Não posso largar tudo para ir contigo. Não posso afastar assim a Clara dos avós, de a submeter a uma realidade nova num país diferente só para ficarmos juntos.

─ Que sugeres que façamos? ─ questionei, pensando que a conversa tinha o objectivo de planear o nosso futuro em conjunto.

Sónia não respondeu, mas o seu rosto triste não deixou dúvidas. Não havia futuro em conjunto. Aquela tarde fora um momento para recordar. Percebendo isso, saltei da cama e coloquei-me na sua frente.

─ Eu amo-te, Sónia! Não vou para Singapura se tu não fores comigo.

─ Eu não vou contigo.

─ Então, continuarei no meu cargo em Lisboa. ─ informei, adaptando o futuro a uma vida em comum. ─ Tu e a Clarinha ficarão a duas horas e meia dos teus pais. Podem vir cá todos os meses, se quiseres.

─ Não vou viver às tuas custas.

─ Também existem empregos em Lisboa.

─ Com a minha idade…

─ Eu arranjo-te um emprego na minha empresa.

─ E ser a amante do patrão?

─ Não digas disparates! ─ irritei-me por ela só me retribuir obstáculos ao nosso amor. ─ Tens qualificações suficientes para trabalhar na nossa área.

Sónia abanou a cabeça e disse:

─ Isto não é uma telenovela, Ricardo. Nem este é o último episódio em que milagrosamente tudo se encaixa para vivermos felizes para sempre.

─ És tu quem não deixa as peças encaixar.

─ Sou realista.

─ Podes ser o que quiseres. ─ lamentei. ─ Mas, garanto-te que não vou desistir de ti. Não esperei vinte anos para te amar e agora partir sem lutar por ti.

─ Não podes fazer nada para alterar a realidade das coisas.

─ Casa comigo! ─ O pedido atingiu-a com toda a força da surpresa. ─ Não estou a brincar, Sónia. Eu amo-te! Queres casar comigo?

Por alguns instantes, ela não foi capaz de articular as palavras. O espanto, a confusão, a dificuldade em saber o que responder mergulharam-na num completo desnorte. Meio engasgada, sussurrou:

─ Eu sou casada.

─ Vais divorciar-te. ─ lembrei, mantendo-me firme. ─ Eu espero. Esperei vinte anos, posso esperar mais umas semanas.

Parecia uma estátua a olhar para mim. Eu avancei alguns passos até ela, segurei o seu rosto nas minhas mãos e voltei a encontrar a minha alma espelhada no seu olhar.

─ Queres casar comigo? ─ Ela continuava a não responder. ─ Tu és mais importante que qualquer outra coisa na minha vida. Nada faz sentido se for para ficar novamente longe de ti. Adaptarei o que for preciso para que possamos ser felizes juntos. ─ Uma pausa. ─ Sónia! Casas comigo?

Os nossos olhos observaram-se mutuamente. Dos seus, as lágrimas voltaram a surgir, uma em cada canto, escorrendo devagar pelo rosto. Sorriu como uma menina frágil e respondeu:

─ Sim… Sim!

Selámos o desenlace com um beijo apaixonado.

A tarde ia bem avançada e a hora de ir buscar Clarinha a casa dos avós aproximava-se. Fomos tomar banho, em separado, pois o contrário poderia levar a um atraso ainda maior.

Quando nos reencontrámos na sala, Sónia vinha ainda mais deslumbrante que o habitual.

─ Quando penso que não é possível ficares mais linda, tu surpreendes-me.

Ela sorriu, envergonhada com o elogio.

─ Ricardo! ─ chamou, como se quisesse dizer algo antes de sairmos.

─ Sim.

─ Queria pedir-te que não disséssemos nada aos meus pais. ─ Percebendo que eu poderia não compreender aquele pedido, justificou. ─ Quero falar com eles com calma. Não que possam discordar, bem pelo contrário. Mas, isso vai causar mudanças nas nossas vidas…

─ Eu entendo. Faremos ao ritmo que pretendes.

─ Obrigado… amor.

Abracei-a com ternura e dei-lhe um último beijo, antes de deixarmos casa e caminhar até ao carro.

O fim de tarde no Faial estava ameno e agradável. O Sol despedia-se de nós com a mesma passividade de sempre, inundando o ambiente com tons alaranjados.

Na rua não havia tanto movimento como durante o dia. Não que a Horta tivesse assim uma grande movimentação de pessoas, mas de manhã e à tarde, via-se sempre mais gente por ali. Com o anoitecer, só perto da marina e nos restaurantes o fluxo humano era mais significativo.

Conduzindo o carro, Sónia levou-nos pela estrada de sempre, rumo a Varadouro. Como sempre fazia, circulámos tranquilamente a uma velocidade de passeio.

─ Há pouco, menti-te. ─ revelou, quando passámos Castelo Branco. Franzi o rosto. Ela sorriu com carinho. ─ Quando te contei a conversa com a minha mãe. Ela perguntou-me o que eu sentia por ti.

─ E tu disseste que tinhas de falar comigo.

Sem tirar os olhos da estrada, ela abanou negativamente a cabeça, confessando:

─ Eu disse-lhe que também estava apaixonada por ti.

Passámos a zona do aeroporto e entrámos numa longa recta.

─ E ela?

─ Como qualquer mãe que ama uma filha, ficou feliz por eu amar e ser amada.

Em todo o trajecto, não vimos mais que dois carros no sentido inverso ao nosso. Ao fundo da recta, uma curva à esquerda.

─ Eu amo-te, Sónia!

─ Eu também te amo, Ricardo!

Entrámos na curva, ao mesmo tempo que vimos um carro vindo do outro lado aproximar-se. Quase nem reparávamos nele, não fosse ele guinar subitamente, tendo o condutor perdido o controlo do carro.

As recordações seguintes são algo confusas, mas lembro-me que, mesmo tentando, Sónia não se conseguiu desviar. O carro desgovernado acertou em cheio no nosso, mesmo na porta do lado de Sónia, projectando-nos para fora da estrada. Houve pancadas, vidros partidos, barulho de chapa amassada até o carro parar no terreno lateral, junto a grandes rolos de pasto, arrumados a poucos metros.

Tentei ordenar as ideias, depois de tanto rodopiar. Porém, o pânico foi avassalador, quando olhei para Sónia. O seu rosto estava coberto de sangue que lhe escorria por uma ferida na cabeça. Perdera a consciência e quase me pareceu morta, antes de lhe confirmar os sinais vitais. Também sangrava do braço e da perna, devido a bocados de chapa da porta que a tinha atingido.

Fiquei tão desesperado que a minha única preocupação foi encontrar o meu telemóvel no bolso das calças. Os movimentos eram dolorosos, quando o puxei para fora e marquei o 112. Enquanto aguardava, vi o outro carro para lá da estrada, todo amolgado e com o condutor caído sobre o volante.

Atenderam-me. Tropecei nas palavras com o desespero pelo estado de Sónia. Tentei explicar o melhor que consegui a nossa localização. A senhora da emergência pediu que eu me mantivesse calmo que já iria uma ambulância a caminho.

Enjoo e tonturas, foi o que me fustigou nos segundos seguintes. O estado de Sónia pareceu-me tão grave que me esqueci de mim próprio. Também estava a sangrar, mas não me preocupei. Olhava para Sónia inanimada e a sangrar. As lágrimas começaram a correr pelo meu rosto. Como poderia a vida ser assim tão cruel ao ponto de me deixar amar a mulher da minha vida para a ver morrer logo a seguir?

Comecei a ouvir a ambulância ao longe. Os minutos tinham passado e o arrefecimento das feridas trouxera as dores.

O acidente fora num sítio tão isolado que ninguém se apercebera. Ali à volta era terreno de pasto, onde só andavam as vacas a passar o tempo. A casa mais próxima ficava mais para cima a uns quinhentos metros da estrada. Se não estivessem à janela e a olhar para ali, jamais teriam noção do acidente.

O som da sirene aumentou, mas eu comecei a ver tudo a andar à roda. Usei todas as forças para me manter consciente ao lado de Sónia, só que também eu perdi os sentidos.

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