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NUNCA NEVA NO MEU ANIVERSÁRIO

VIII

O parque de estacionamento era recente, pois tinha um desenho preocupado em parecer moderno. Bem diferente era o farol meio enterrado desde a erupção dos Capelinhos.

A nossa paragem na praia não se estendera demasiado, o suficiente para um banho e secar ao Sol. Sónia queria que eu conhecesse o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos e toda a história que envolvia o evento do século passado, ocorrido entre 1957 e 1958.

Sendo assim, quando partimos da praia, só voltámos a parar no parque empedrado à entrada do acesso ao farol.

O vulcão dos Capelinhos era imponente. Contudo, o que me causava mais espanto era pensar que cerca de meio século antes aquela montanha não estava ali.

Deixámos o carro e caminhámos por uma linha de lajes enterradas no chão, delineando o percurso até um grande círculo.

─ O que é aquilo? ─ perguntei, apontando para o círculo que parecia a tampa de um enorme poço.

─ Aquilo é o topo do centro de interpretação. A estrutura está enterrada no chão.

Concordo que para a paisagem, terem construído um edifício ali teria sido chocante. Por isso, aprovei a opção de uma estrutura construída no subsolo.

Após caminharmos pelas lajes, observei os vidros que se escondiam numa espécie de fosso e que permitiam a entrada da luz natural no interior. Depois, continuámos a andar pelo chão de terra até ao edifício do farol desactivado desde a erupção. O farol da ponta dos Capelinhos era a imagem de marca do local. Observei as janelas do rés-do-chão e achei curioso não ver nenhuma porta até me aperceber que estava a olhar para o que fora o primeiro andar, uma vez que os andares abaixo haviam ficado enterrados pela chuva de cinza e poeiras.

O farol estava abandonado. Na minha opinião, pareceu-me pouco cuidado para um marco tão importante da história do local. Contornámos o edifício e eu fiz algumas fotografias.

Olhando de uma forma abrangente para a paisagem desde aquele ponto para o interior da ilha, o contraste de cor entre o verde da vegetação e o solo coberto de poeira da zona envolvente ao vulcão era bastante grande, dando uma sensação de terra sem vida, o que não era o caso. Na realidade, aquele era um bom exemplo do que foi a formação do planeta após toda a cobertura de lava começar a dar lugar à vida. Ali, ainda só tinha passado pouco mais de meio século.

Logo que circundámos o velho farol, Sónia indicou-me a descida para a entrada no Centro. Todo o solo estava forrado por areias escuras.

O acesso parecia a entrada de um túnel descoberto. Existia uma outra estrada por ali, a mesma por onde havíamos passado na noite anterior e que ia desembocar num largo de alcatrão junto ao mar, onde vi o céu estrelado mais bonito da minha vida. O piso em pedra em frente à entrada ligava-a ao parque numa linha que, vista de cima, fazia um ângulo de quarenta e cinco graus em relação ao passadiço de lajes que nos levou ao farol.

O Sol permanecia intenso e brilhante, continuando o dia quente. Soube bem entrar na sombra das paredes que furavam o monte em direcção ao edifício escondido. Ao fundo, duas portas de vidro.

O edifício estava submerso nas areias vulcânicas e pretendia ser um percurso pela história da erupção do Vulcão dos Capelinhos.

Ao entrar, observei o interior que parecia uma nave espacial. Fotografei o espaço circular com um pilar central que parecia abrir em forma de funil para o tecto.

Este primeiro espaço interior era enorme, um pavilhão circular, o espaço exacto do círculo que vira lá em cima. À nossa direita, as escadas para descer, uma vez que as portas ficavam no equivalente a um piso acima do interior da exposição. À esquerda, a descida fazia-se por uma rampa que acompanhava a parede numa curva de quase metade da área total até virar num ângulo de cento e oitenta graus para nova rampa mais pequena, encostada à primeira. Pretendia-se que a percentagem de inclinação não fosse muito grande para quem tivesse que descer por ali, por exemplo, numa cadeira de rodas.

Descemos as escadas e reparei num balcão e vários sofás e mesas junto à parede, à direita da entrada. A luz passava pelos vidros colocados em toda à volta do topo do círculo. Havia diversos suportes informativos, desde jornais, revistas ou ecrãs com imagens do local. Para lá do pilar, fora colocada uma réplica do farol para os visitantes poderem observar numa perspectiva superior a estrutura e como ela se posicionava na costa, antes do evento. Pelo meio do recinto, diversos cartazes continham textos com curiosidades acerca do local e de pessoas famosas da região que tiveram papéis importantes ao longo da História. Quase em posição oposta aos sofás, num espaço já fora do sector circular, um balcão com duas funcionárias encarregues da bilheteira.

Sónia comprou dois bilhetes para visitarmos o Centro de Interpretação. Uma das senhoras explicou como deveríamos percorrer o percurso da exposição, entregando os bilhetes e o folheto informativo do que iriamos ver. Por fim, abriu a porta e nós entrámos para um corredor.

O Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos é, na minha opinião, um local fundamental a visitar na ilha. O seu objectivo principal é fazer uma exposição interpretativa do que acontecera na altura da erupção e como se formara aquela zona. Vimos apresentações multimédia com a recriação do evento, onde se pode perceber como as primeiras erupções formaram pequenas ilhas até à ilha maior que por fim se ligou ao Faial. Tinha descrições das principais actividades vulcânicas do planeta e como se formara o arquipélago.

Parámos no auditório para assistir a um filme sobre os Açores, ficando eu a conhecer mais alguns dados acerca da região.

Numa outra sala, diversos painéis com fotos de lugares emblemáticos de cada uma das ilhas do arquipélago, acompanhadas de descrições e sempre com um convite a uma visita.

Por fim, tal como acontece em todos estes locais, a visita terminava na loja de recordações, onde se poderia comprar desde os postais, a livros, canetas, pins… Um sem número de objectos alusivos ao Vulcão dos Capelinhos, ao Faial e aos Açores.

A visita ainda incluía uma subida ao farol. No entanto, a hora a que terminámos já não nos permitiu subir, pois o Centro ia fechar.

Novamente cá fora, Sónia interrogou:

─ Gostaste, Tubbs?

─ Sim. Muito. E agora, Crockett?

Sónia olhou em volta. O Sol já não estava tão forte e o calor tornara-se mais suportável.

─ Podíamos subir ao vulcão. ─ sugeriu. ─ Existe um caminho que se pode percorrer até lá acima.

Eu concordei com a sugestão e caminhámos para lá do farol, onde o terreno descia para o mar. Ao fim de uns bons quinhentos metros, vi um caminho ladeado por paus espetados na terra, ligados entre si por cordas, delimitando a área para onde não se deveria passar, pois o solo era mais instável e quem o fizesse correria o risco de cair para as rochas fustigadas pelo mar.

Quase não havia vegetação por ali, somente rochas enterradas na areia vulcânica mortiça. A cerca de paus e cordas terminou quando a proximidade do mar deixou de ser perigosa. Prosseguimos a nossa caminhada até o percurso se tornar numa rampa pela encosta do vulcão.

─ Tens a certeza que queres subir? ─ questionei, olhando para as suas sandálias.

─ Sim. Não é tão difícil quanto parece. ─ Sorriu divertida. ─ Em casa lavo os pés.

Por mais cuidado que tivéssemos a andar, os passos nas areias levantavam pó e os nossos pés começaram a mudar de cor.

A dimensão do vulcão tornou-se mais evidente quando reparei em meia dúzia de pontos que não eram mais que pessoas a subir o traçado que nós estávamos a iniciar.

Aquela escalada levou alguns minutos, não sei bem quantos, mas não houve preocupação em sermos rápidos. O vulcão formara uma estrutura rochosa que pareciam três ou quatro montes em volta de um ponto central, o qual alcançáramos após a subida. O solo era tão despido de vegetação que parecia a superfície lunar, ou o que eu imaginava ser a superfície da Lua. Dali de cima, tirei uma foto panorâmica do mar com a costa da Ponta dos Capelinhos e o pequenino farol a vincar a sua posição na paisagem.

Os nossos passos levaram-nos por um vale no coração da montanha, onde caminhámos com o Sol e o azul do mar pela frente. O caminho rasgava o terreno vulcânico onde milhares de pequenas rochas de diferentes tamanhos pareciam ter sido atiradas indiscriminadamente. Esse caminho terminou num penhasco, onde se avistava o mar infinito e as rochas altas. Tivemos cuidado, pois um passo em falso poderia atirar-nos para uma queda fatal.

Quem quer que nos tivesse precedido na subida não seguira o mesmo rumo que nós, optando por outras vistas.

─ O pôr-do-sol daqui deve ser lindíssimo. ─ calculei, observando o astro cada vez mais perto da linha do horizonte.

─ É magnífico. ─ concordou, observando o mesmo que eu. ─ Podemos ficar aqui a ver. ─ Olhou para mim e sorriu divertida. ─ Tubbs e Crockett a partilhar o momento tão romântico como o Sol a pôr-se no mar. ─ Ignorei o seu tom gozão e ela voltou a olhar para o mar. ─ Só espero que no fim não digas “que nojo”.

Percebi de imediato ao que se referia ela. Sónia recordava o momento, quando eramos crianças, em que me roubara um beijo nos lábios, curiosa com a sensação de beijar um rapaz, após ter visto um filme. Como já vos relatei, a minha reacção foi um “que nojo”.

─ Já não somos crianças. ─ disse eu, fotografando o horizonte. ─ E foi uma forma estupida de reagir ao teu beijo. ─ Baixei a máquina e olhei para ela. ─ Pensar que depois, fui eu que desejei beijar-te.

Sem tirar os olhos do horizonte, Sónia confessou:

─ Acredito. Eu própria voltei a ter esse desejo contigo. ─ Fiquei surpreso com a revelação. ─ Eras o meu melhor amigo. Por isso, talvez a melhor pessoa para testar um beijo. Tinha a certeza que se corresse mal, não me irias ridicularizar. ─ Sorriu com a lembrança. ─ Só que tu reagiste daquela forma… “Já viste o Crockett e o Tubbs aos beijos?”

─ Era um puto… ─ justifiquei, sem ter noção que a olhava atentamente. ─ Podias ter tentado roubar outro.

Ela dirigiu os seus olhos para os meus.

─ Nessa altura, não era um toque de lábios. Nessa altura, queria experimentar um daqueles beijos com língua. ─ Sorriu como se se sentisse ridícula por revelar aquilo. ─ Não podia roubar-te um beijo assim. Teria de ser dado de comum acordo. Era uma adolescente a começar a conhecer o meu corpo, os meus desejos… Era insegura e não suportaria ser recusada. Nem mesmo por ti.

─ Não te teria recusado.

─ Teria sido absurdo, Tubbs! ─ afirmou, desviando de novo o olhar para o horizonte. ─ Somos como irmãos.

Procurei calcular quanto tempo demoraria o Sol a tocar no mar, sentindo uma mistura de paixão com raiva por ela me comparar a um irmão e eu não ter coragem de lhe revelar os meus sentimentos. Agia como se tivesse treze anos.

─ Nós não somos irmãos!

─ És o meu melhor amigo. ─ corrigiu com naturalidade.

Como um puto apaixonado ao lado da amiguinha que adora, disse das coisas mais parvas que poderia dizer:

─ Há amigos que se cumprimentam assim.

Quase que parecia que estava a implorar o beijo.

Sónia pensou que eu estava a brincar, uma vez que justificara da mesma forma que ela fizera em criança. Não acredito que em momento algum, ela tivesse ponderado a hipótese de eu continuar a desejar aquele beijo.

─ Deixa lá. Não aconteceu porque não teve de acontecer.

Voltei a olhar para ela e retorqui:

─ O que não quer dizer que eu não o lamente.

Sónia abandonou a observação do horizonte para voltar a encarar-me. Notei que, de alguma forma, se sentiu confusa por eu dizer aquilo.

─ Não me digas que ao fim de vinte anos ainda pensas nisso. Ainda o sentes como uma falha entre nós?

─ Não é uma falha. ─ corrigi. Olhei para o vazio, procurando as melhores palavras. ─ É daquelas coisas que recordas da juventude e lamentas não ter feito. ─ Sorri. ─ Acho que preferia ter a recordação de um estalo teu por te tentar beijar, a esta de nunca o ter feito.

─ Nunca te daria um estalo por me quereres beijar, tonto.

─ Pois… Acredito. Só que agora… Já não sou adolescente para te roubar um beijo.

Sónia virou-se para mim. Senti o seu olhar profundo nos meus olhos. Nesse instante, reparei como o meu coração batia descompassadamente. Num acto reflexo, virei-me para ela.

─ Não quero que isso seja uma lacuna entre nós. ─ disse ela num tom neutro que não me permitiu perceber se falava a sério ou não. ─ Estamos aqui os dois, cara a cara um com o outro. Vamos esquecer que passaram vinte anos. Podemos matar a curiosidade de saber como será beijarmo-nos.

─ Não me gozes!

─ Não estou a gozar, Ricardo! ─ exclamou, séria. ─ Queres beijar-me? Estou aqui.

─ E tu, Sónia? Queres beijar-me?

─ Não estaria a propô-lo, se fosse contra vontade.

O Sol quase tocava o mar e tudo aquilo parecia surreal. A mulher por quem me apaixonara na juventude e por quem continuava apaixonado ao fim de quinze anos distante, ali estava, perante mim, com os lábios prontos a receber os meus. Não parecia possível.

Não pensei nas consequências de sucumbir ao desejo. Sónia nunca imaginou nas consequências que teria aquela experiência. Sim, para ela era só uma experiência. A que saberiam os lábios do amigo de sempre? Como seria beijar o Ricardo? Era mera curiosidade. Se ela por algum momento, nos instantes que antecederam o beijo, ponderou como seria, deveria ter pensado num toque de lábios, um beijo carinhoso na boca um do outro, quase fraternal. O resultado? Bom…

Os nossos lábios tocaram-se e o sabor que senti nos dela foi mais doce que algum dia poderia imaginar. Sabia o quanto a amava da mesma forma que tinha a certeza que não era correspondido. Daí que a reacção esperada fosse quase um “toca e foge”. Porém, ela beijou-me com carinho, com o mesmo carinho com que agia comigo, fosse num abraço ou numa carícia. Beijou-me lentamente e, sem pensar, colocou os braços à volta do meu pescoço. Eu envolvi o seu tronco com os meus, mantendo a máquina fotográfica na mão.

Foi um beijo de olhos fechados, os sentimentos à flor da pele, cheio de atracção. Prolongou-se por alguns segundos até se tornar mais intenso, mais profundo. As nossas línguas tocaram-se, a saliva misturou-se, o abraço ficou mais apertado.

Sónia parou, abriu os olhos e os braços, afastando-se um passo. Olhou para mim, surpresa e sem saber o que dizer. Depois, olhou para o horizonte e alertou:

─ Se não aproveitares agora, vais perder o pôr-do-sol.

Encolhi os ombros.

─ Não existe nada mais bonito, para mim, que a pessoa que está agora na minha frente.

Sónia voltou a olhar para mim. Ia a falar, mas hesitou. Abanou a cabeça, confusa.

─ Que aconteceu aqui? ─ interrogou, fugindo aos meus olhos.

─ Demos um beijo.

─ Sim… Eu sei. Mas…

Apaguei o passo que nos separava e voltei a beijá-la da mesma forma. E ela correspondeu da mesma maneira. Afinal, a paixão entre nós não existia só em mim.

Não sei quanto tempo demorou o beijo, ou os beijos. Sei que o Sol já se escondera no mar, quando ela interrompeu o momento de forma abrupta. Parecia arrependida.

─ Que foi?

─ Temos que regressar. ─ disse ela, meio transtornada, virando-me as costas e iniciando o caminho de regresso.

Eu segui atrás de si, optando por não dizer nada. Descemos em silêncio, aproveitando os últimos focos de claridade do ambiente.

Subitamente, formara-se uma barreira de gelo invisível.

Onde estava a paixão dos beijos? Onde estava o desejo correspondido de minutos antes? Sónia quebrara o momento como se tivesse tido um súbito rebate de consciência.

Mesmo com cuidado para não escorregar, ela procurava manter-se à minha frente, evitando confrontar o meu olhar ou ter o seu rosto observado por mim. A sua abrupta alteração na forma de agir acabou por me deixar também confuso.

Respeitei o seu silêncio durante todo o retorno ao parque de estacionamento deserto, no regresso ao carro e na viagem até casa dos seus pais.

Não sei o que a teria perturbado mais, se perceber o quanto eu era apaixonado por ela ou constatar que também o era por mim.

O silêncio dentro do carro só se extinguiu com a presença de Clarinha, após a termos ido buscar a casa dos avós. A pequena foi relatando mais um dia com as amigas ao longo do caminho até à Horta.

Em casa, as cenas dos dias anteriores repetiram-se, tomar banho, fazer o jantar, pôr a mesa… Tudo sem Sónia e eu voltarmos a trocar uma palavra que fosse.

Durante o jantar, Clarinha notou que algo não estava bem, pois ninguém falava. Na sua honestidade de criança, confrontou-nos com isso. Sónia respondeu que estava tudo bem e, para o provar, começou a relatar o nosso dia de passeio.

Eu ajudei no relato com a noção que Sónia evitava encarar os meus olhos, concordando com o que eu dizia sem virar o pescoço.

Naquela noite, tudo me pareceu irritantemente padronizado, todas as tarefas domésticas dela se revelavam um refúgio para me evitar. Como sempre fizera, ajudei a limpar a louça sem receber um olhar que fosse.

Chegou a hora de Clara parar de ver a novela e ir para a cama. A mãe dissera-lhe duas vezes para ir lavar os dentes e ir deitar-se. Dei por mim a ansiar ficar de novo sozinho com Sónia, o que costumava acontecer após deitar a filha.

Clara deu-me um beijo e recolheu ao quarto na companhia da mãe. Quando Sónia voltasse, tínhamos de falar.

Esperei a olhar para a televisão sem ver o que estava a passar na imagem. Pensava no que havia de dizer para quebrar aquele fosso que surgira entre nós.

Quando voltou, aproximou-se do sofá e disse:

─ Vou para a cama. Boa noite, Ricardo!

Só o simples pormenor de me tratar pelo nome próprio, e não pela alcunha, era revelador de como se queria manter distante.

─ Espera! ─ pedi, levantando-me do sofá. ─ Temos de falar.

─ Não, Ricardo. ─ recusou com um esforço para não desviar os olhos. Receava tudo o que eles pudessem denunciar. ─ Por favor, hoje não.

─ Temos de falar, Sónia. ─ Foi a minha vez de a tratar pelo nome, pois nunca usávamos as alcunhas em assuntos sérios. ─ Não consigo ir para a cama sem conversarmos sobre o que aconteceu.

Sónia abanou negativamente a cabeça.

─ Estou a pedir-te, Ricardo. Hoje não! Estou confusa e tenho medo do rumo que possa seguir a nossa conversa.

─ Somos… ─ As palavras morreram-se na minha boca. Ia a dizer “amigos”, mas esse conceito pareceu-me inoportuno para o diálogo. No entanto, ela encarou-me com maior firmeza, esperando que completasse. ─ Somos pessoas que gostam muito uma da outra.

─ Isso não está em causa.

─ Então o que está em causa?

─ Aquilo que aconteceu.

─ Aconteceu um beijo… vários beijos.

─ Por favor, Ricardo. ─ reclamou. ─ Hoje não!

─ Do que tens medo? ─ inquiri, procurando perceber. ─ Receias o que o beijo possa ter trazido ao de cima entre nós?

─ Não! ─ negou meia confusa. ─ Receio o que ele possa ter apagado entre nós. ─ As suas palavras fizeram-me arregalar os olhos. Não esperava aquela resposta. ─ Estás ver? É por isso que não quero falar hoje. Não quero que a conversa nos leve a dizer coisas sem retorno. Por favor, Ricardo! Deixa-me ir, deixa-me ir dormir. Preciso de descansar para pensar em tudo isto.

─ Em nós?

─ Em ti e em mim.

Não fui capaz de dizer mais nada para além da retribuição dos votos de boa noite. Corrigir um “nós” com um “tu e eu” não era um bom pronúncio para quem estava apaixonado.

Sónia afastou-se para o corredor. Doía observá-la tão linda, tão sensual, tão querida e tão apaixonante sem poder amá-la como desejava. Antes de voltar a entrar no quarto, parou como se tivesse esquecido algo. Regressou à sala.

─ Ricardo! Gosto muito de ti.

─ E eu amo-te, Sónia!

Vi-a abanar a cabeça em desalento e a afastar-se para desaparecer atrás da porta do quarto.

Fiquei sozinho na sala, envolvido pelo som dos diálogos pouco criativos da telenovela. Decidi desligar tudo e também recolher ao meu quarto.

Na cama, não consegui dormir, pois a incerteza do futuro com Sónia atormentava-me a mente. Mesmo com as luzes apagadas, a escuridão não ajudava a trazer o sono e com o passar dos minutos, o quarto pareceu menos escuro, revelando os vultos provocados pelos móveis. Temia o que os beijos poderiam ter feito à nossa relação, à nossa amizade. No entanto, nem mesmo com a possibilidade de perder a amiga, eu me arrependia de a ter beijado.

Para ver se estimulava o sono, peguei no telemóvel e fui consultar o meu correio electrónico, saber se haveria alguma novidade. Talvez isso me distraísse e me fizesse dormir.

Não havia quase nada de novo, apenas uma mensagem de um colega a perguntar se já decidira aceitar o projecto de Singapura. Não sabia. Naquele momento, nem eu sabia o que iria fazer em relação a isso. Escrevi uma mensagem como se estivesse bem-humorado, a informar que estava a gozar as minhas férias e não queria pensar em trabalho.

Contudo, aquilo que era um facto consumado, tornava-se agora uma incógnita. Iria para Singapura sem qualquer hesitação se não tivesse acorrido ao chamado da minha amiga, aquela que já não tinha dúvida que era a mulher da minha vida. E como se pode ir para o outro lado do planeta e deixar o amor da nossa vida para trás? Não se pode. Não se consegue.

Singapura era uma grande oportunidade profissional, já para não falar em rendimento. E valeria a pena recusar isso por alguém que não me pareceu tão entusiasmado com a ideia do amor do amigo de sempre? Tornava-se complicado obter respostas sem conversar com Sónia, olhos nos olhos, e esclarecer a verdadeira essência dos nossos sentimentos.

Sempre pensei que a revelação do meu amor fosse como uma pedra que se atira à água. Criava o impacto, distorcia a superfície plana e esperava. Depois a água voltaria ao que era, mas a pedra continuava lá. Em parte, até fora isso que acontecera. O conhecimento do que sentia por si, ficou em Sónia. Só que ao contrário da água, a distorção continuava infinitamente, sem saber se voltaria a ficar tranquila com esse amor ou em constante sobressalto e renúncia.

Não sabia o que fazer. E naquele instante, mergulhado na insónia, nada poderia fazer para além de esperar o novo dia e nova oportunidade para conversar.

Talvez não devesse ter acontecido… Não. Ainda bem que aconteceu. Foram beijos tão bons. Poderia beijá-la para toda a eternidade sem me cansar. Nunca senti nada como as sensações que se espalharam pelo meu corpo, quando trocámos aqueles beijos. Em nenhuma relação que tivera, houvera uma noção de encaixe tão perfeita, uma fusão de espíritos, uma entrega tão profunda. Se aquilo era o amor, então Ricardo, tu nunca amaste ninguém.

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