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NUNCA NEVA NO MEU ANIVERSÁRIO

VII

A conversa na rua estava animada, entre a vizinhança de Sónia. No meu quarto com janela para aquele lado, eu vestia a roupa que iria usar, baseando a escolha nas intensões de passeio para esse dia.

Na noite anterior, quando chegámos a casa, Sónia sugeriu que fizéssemos um passeio em volta da ilha para me mostrar alguns sítios interessantes que ainda não vira. Aconselhara-me roupa fresca sem esquecer os calções para um mergulho.

Não tive dificuldade em dormir, ainda extasiado com aquele magnifico céu estrelado. No entanto, naquele instante em que me preparava, não pude deixar de pensar em como estivera perto de lhe confessar o meu amor. O que sentia por ela estava a tornar-se tão forte que seria impossível partir da ilha sem o confessar. Só que sempre que tentava fazê-lo, o medo de estragar a amizade tinha mais força. E nos poucos momentos em que me preparava para a confissão sem pensar nas consequências, algo me interrompia e impedia de falar.

Vesti uns calções de banho e umas calças leves por cima. Juntei-lhe uma t-shirt clara e calcei chinelos estilo havaiano. Guardei nos bolsos a carteira e o telemóvel e coloquei às costas a mochila com a máquina fotográfica e a toalha de praia.

Pronto para a aventura do dia, saí do quarto e encontrei mãe e filha prontas para sair. Sónia no seu típico ar singelo, humilde e veraneante, conseguia surgir sempre deslumbrante. Vestia um top esverdeado que lhe cobria todo o tronco, deixando os ombros nus e prendendo-se em volta do pescoço por duas finas tiras de tecido que se juntavam num nó perto da nuca e era comprido o suficiente para deixar a barriga e o umbigo a descoberto. O nó atrás do pescoço tinha a companhia de outro nó de outros dois fios de outra cor que reconheci como sendo do biquíni dela. A acompanhar, uma saia escura curta, larga e lisa que apertava em volta da cintura com dois botões no lado direito, perto da anca. Por fim, as sandálias que moldavam os seus pés com pequenas tiras, as quais findavam em volta dos tornozelos e se seguravam com um fecho de mola.

O nosso passeio só começou depois de deixarmos Clarinha em casa dos avós, como era costume. Desta vez, para não perdermos muito tempo, nem cheguei a subir e acenei um cumprimento à mãe de Sónia. Esta também não se demorou.

A manhã estava bastante quente, talvez mesmo a mais quente desde que chegara ao Faial. Sónia conduziu o carro no sentido oposto ao que nos trouxera.

─ Vou levar-te a conhecer o Morro de Castelo Branco. ─ informou, apontando para o enorme penhasco no mar.

Alguns quilómetros pela estrada principal até desviarmos na direcção apontada por uma placa castanha com as letras “Morro de Castelo Branco”. Só circulámos alguns metros, uma vez que a estrada era ingreme. Sónia estacionou em frente a um pequeno condomínio com meia dúzia de casas de construção recente, muito coloridas.

A partir daquele ponto, a estrada era uma mera linha estreita de alcatrão mal tratado. A vista do mar era tão maravilhosa como todas as outras que a ilha nos oferecia.

─ Anda! ─ convidou ela, dando passos cuidadosos naquele piso descendente.

Não conseguia ficar indiferente ao seu aspecto atraente, sedutor de mulher linda que era e por quem estava tão apaixonado. De máquina na mão, fotografei a paisagem envolvente, fotos sempre intercaladas por registos da minha modelo preferida. Toda aquela beleza envolvente, o ar puro, a tranquilidade do local, pensei se não seria uma boa oportunidade para retomar a questão da tarde anterior e do porquê de hesitar em ir para Singapura.

Sónia continuava envergonhada com a lente. Porém, em vez de reclamar, optou por caminhar ao seu ritmo sem esperar se eu a acompanhava. Isso fez-me ser mais criterioso nas fotos para que ela não ficasse longe.

A estrada descia, entrando na vegetação não muito alta. Naqueles campos verdes, as vacas passeavam e pastavam livremente, indiferentes a quem quer que por ali passasse. Não avistámos uma única pessoa, apenas um motociclista que se cruzou connosco numa luta intensa com a mota para conseguir subir o caminho.

O morro era uma formação rochosa imponente, mas quanto mais nos aproximávamos, mais espantados ficávamos com a dimensão daquela rocha saída do mar, pois o terreno descia até determinado sítio, local onde começava a subir em direcção ao topo do morro, como se fosse uma ligação da ilha ao rochedo branco.

Após umas centenas de metros, o alcatrão deu lugar a um caminho de terra batida, muito poeirenta.

Não havia muito a fotografar por ali, nada de muito diferente ao que já registara antes. Por isso, caminhámos lado a lado.

─ Então? Já te decidiste? ─ interrogou Sónia, quebrando o silêncio. ─ Vais aceitar o cargo em Singapura?

Senti-me grato por ser ela a retomar o assunto, mas ao mesmo tempo amedrontado com a forma como deveria encarar a conversa.

─ Ainda não.

─ Devias aceitar. É uma excelente oportunidade.

Curioso, o facto de ela repetir exactamente a frase que dissera na tarde anterior e que despoletara a minha quase confissão de apaixonado. No entanto, notei que ela se furtou a referir o facto de eu ter justificado a minha hesitação com ela. Por isso, fui eu quem o recordou:

─ Já te disse o que me faz hesitar.

Sónia olhou para mim e ofereceu-me o seu sorriso encantador.

─ Não percebo porque sentes esse medo, Tubbs, quando estivemos tanto tempo longe e nunca deixámos de ser amigos.

─ Não sei explicar. ─ disse eu, evitando confrontar o seu olhar. ─ Voltar a estar contigo ao fim de quinze anos deixa-me… Como hei-de explicar? Parece que se voltar a partir te vou perder para sempre.

─ Que parvoíce, Tubbs. ─ contestou, abanando a cabeça. ─ Que vais fazer? Deixar tudo e vens viver para o Faial?

Não respondi, pois ela colocara a sugestão como se fosse o maior absurdo que alguma vez ouvira.

O caminho descendente terminou e parámos numa pequena clareira. Convidei-a para uma foto juntos com o morro atrás. Ela acedeu. Depois, subimos alguns metros pela estreita linha de terra que só terminaria no topo do rochedo.

─ É melhor não passarmos daqui. ─ sugeriu, apontando para as escarpas perigosas de ambos os lados do caminho.

Eu concordei.

Sónia sentou-se numa grande pedra rectangular, enquanto eu aproveitei para fotografar a perspectiva do enorme Pico visto dali. Após alguns cliques, guardei a máquina e sentei-me ao lado dela.

─ Tu és muito importante para mim, Crockett! ─ afirmei, fitando o mar, tal como ela fazia.

─ Tu também és muito importante para mim, Tubbs. Sempre foste. Mas, não quero que a nossa amizade te prenda, te faça recusar algo que eu sei ser do teu desejo.

─ Há coisas que eu desejo mais e que me fariam mais feliz que ir para Singapura.

─ O quê? ─ interrogou, desviando o olhar para mim.

Eu olhei-a nos olhos, sentindo o coração a bater com muita força. Quase engasgado, respondi:

─ Será assim tão difícil de perceber?

O olhar dela revelou uma enorme confusão. Contudo, antes que dissesse uma palavra, o seu telemóvel tocou. Sónia procurou o aparelho no bolso da saia, retirou-o e olhou para o visor, dizendo:

─ É o pai da Clarinha.

Levantou-se da pedra e afastou-se alguns metros. Atendeu num tom que procurava parecer indiferente, mas que ainda denotava uma mistura de raiva e mágoa. Consegui perceber no início que ele deveria ter perguntado pela filha, pois ela respondera que a Clarinha estava bem. Depois disso, a distância tornou a conversa inaudível.

Aborrecido por mais uma vez a revelação dos meus sentimentos ter sido impedida por factores externos, fiquei a olhar para o mar. No entanto, o seguimento do diálogo entre eles transtornou de tal forma Sónia que ela se esqueceu que eu estava ali.

─ Tens a certeza que é isso mesmo que queres? ─ ouvi, quando ela se reaproximou, sem o perceber. ─ Queres mesmo o divórcio? ─ Uma pausa em que ele deveria estar a reafirmar as suas intensões. ─ Não consigo perceber. Sinceramente, não consigo perceber. ─ Nova pausa. ─ Sim, eu sei. Sim, sei que foi por isso. Mas, não penses que isso faz de ti um homem melhor. Queres a separação só para não cometeres adultério… Na prática, o resultado é o mesmo. ─ Silêncio com um pequeno ruido resultante do som distorcido da voz dele no outro lado da linha. ─ Claro que não. Claro que não preferia que continuasses casado comigo e tivesses amantes. Pensas que sou o quê? Hum… Eu estou calma… Não estou a gritar. ─ Nesse instante, levantou o olhar e percebeu que eu estava a ouvir. Voltou a afastar-se, baixando o tom de voz.

Quando regressou, logo que desligou o telefonema, vinha a soluçar e com o rosto lavado em lágrimas.

─ Filho da puta! ─ vociferou, quando a confortei, abraçando-a com força. O choro tornou-se mais intenso. ─ Quer agendar a oficialização do divórcio… Cabrão… Filho duma grande puta.

─ Tem calma. ─ disse eu, apertando-a contra mim.

─ E fala comigo como se me estivesse a fazer um favor. ─ Acariciei-lhe o cabelo, sentindo-a balbuciar. ─ E sabes o que mais me irrita nisto tudo? Sou eu. É sentir que sou uma parva porque continuo a gostar dele e a sentir-me infeliz por ele me ter deixado.

Como poderia eu esperar que ela retribuísse a paixão que eu sentia por si, se ela revelava continuar apaixonada pelo ex-marido? Foi muito duro ouvir aquilo, momentos depois de quase ter tido a coragem de lhe revelar os meus sentimentos. Procurei confortá-la com carinho, mas não consegui dizer uma palavra.

Não sei se foi propositado ou não, mas Sónia não mostrou qualquer intensão em retomar o assunto antes do telefonema. Por mais transtornada que tivesse ficado, não teria esquecido que estávamos a conversar. E se não se lembrasse do assunto, seria natural que dissesse “estávamos a falar de…”. Porém, recompôs-se do choro e sugeriu que voltássemos ao carro.

Foi estranho, caminhar em silêncio a seu lado, sentindo que havia coisas importantes que ficaram por dizer e perceber que a sua mente estava muito distante de mim e muito próxima da pessoa que desprezara o seu amor.

Sónia só voltou a falar no carro, de volta à estrada, para me sugerir a visita a umas piscinas naturais, perto do Aeroporto. Vai para onde quiseres, foi o que disse a minha mente, quando um assentir de cabeça concordou com a sua ideia.

Antes de chegar ao Aeroporto do Faial, existia uma estrada estreita que na altura até estava em obras. Sónia desviou para aí e tivemos de suportar os solavancos causados pelo mau estado do piso por arranjar. A estrada contornava a vedação do Aeroporto e permitia ver o fraco movimento do local, onde o tráfego aéreo era tão calmo quanto o ritmo da ilha.

A vedação mostrava o enfiamento da pista por onde os aviões levantavam ou aterravam e prosseguia no seu contorno paralelamente à pista até o desnível do terreno deixar a estrada abaixo da pista e já não ser possível ver para lá. A linha de alcatrão maltratado terminou junto a um pequeno parque para carros.

Desta vez, saímos do carro e levámos as mochilas.

─ Preciso de um mergulho. ─ disse ela, abrindo caminho pela zona bem cuidada para utilização de banhistas que ia desembocar nas piscinas naturais.

Eu estava aborrecido por aparentemente ela não se interessar pelo que conversávamos. Daí que me limitei a segui-la sem proferir um som.

Aquelas piscinas não eram tão procuradas quanto, por exemplo, as de Varadouro. E quando lá chegámos nem lá estava ninguém. Sónia pousou a mochila no chão, retirou a toalha e estendeu-a perto da água. Descalçou as sandálias e arrumou-as ao lado da toalha. Desapertou a saia e despiu-a, ao que se seguiu o desfazer do nó atrás do pescoço e o retirar do top pela cabeça, ficando em biquíni. Só nesse instante, ela percebeu que eu me sentara à sombra e não fizera o mínimo gesto para a acompanhar no mergulho.

─ Não vens? ─ inquiriu com surpresa.

─ Não me apetece.

Percebendo pelo meu tom que algo não estava bem, insistiu:

─ Que se passa? Estás chateado? Querias ir a outro sítio?

─ Não. ─ neguei, forçando um sorriso. ─ Está tudo bem. Só não me apetece ir à água, agora.

Sónia encolheu os ombros, respeitando a minha vontade e saltou para dentro de água. Eu fiquei a tirar fotografias aleatoriamente, pensando em como era absurdo julgar que entre nós poderia haver mais que aquela amizade.

─ Está uma maravilha. De certeza que não queres experimentar? ─ voltou a convidar, quando a sua cabeça saiu da água. ─ Olha que na costa norte, o mar não está assim, é bem mais bravo.

Eu fotografei-a sem mudar de opinião.

Durante alguns minutos, ela nadou tranquilamente. Sempre se sentira como um peixe dentro de água. E naquela manhã, nadar era o melhor antidoto para o telefonema que a afligira.

Como não me convenceu a nadar com ela e a chegada de um grupo barulhento tirou algum encanto ao lugar, Sónia saiu da água, envolveu-se na toalha, secou-se e voltou a vestir a roupa. Uma vez que estava molhada, não guardou a toalha na mochila, trazendo-a na mão. Atirou-me um sorriso e disse:

─ Vamos, Tubbs?

E não disse nada e coloquei a minha mochila às costas, seguindo-a para o carro.

─ Estás estranho! ─ afirmou, já a conduzir pela estrada em direcção à Horta. ─ Estás assim desde que recebi o telefonema.

Voltei a forçar um sorriso, desvalorizando a sua sensação.

─ Custa-me ver-te sofrer, Crockett. ─ justifiquei sem que fosse essa a verdadeira razão.

─ Acredito. Mas tu ficaste tão calado, desde essa altura.

─ Estou só a pensar na vida. ─ voltei a mentir. ─ Estes dias contigo têm sido muito agradáveis, mas começa a chegar a hora de regressar, por isso, sinto-me um pouco triste.

─ Oh… És um querido. ─ disse ela, acariciando-me o braço. ─ Eu também vou ter pena quando te fores embora. Mas a vida é mesmo assim. Só espero que voltes em breve.

─ Vai ser difícil, uma vez que irei para Singapura.

As minhas palavras pareceram causar-lhe alguma surpresa.

─ Então já decidiste. ─ Não me manifestei. ─ Vais ver que vai correr bem. E mesmo longe, nós continuaremos em contacto, Tubbs.

─ Sim…

─ Tu não me vais perder. ─ insistiu ela, sentindo alguma descrença no meu “sim”. Procurava falar com satisfação, mostrando-me que era uma coisa boa para mim.

─ Eu sei, Crockett. ─ concordei, inexpressivo. ─ Só que custa muito voltar a ficar longe de ti.

─ A mim também me vai custar voltar a ficar longe do meu melhor amigo.

Sentindo o que eu sentia por ela, ser identificado como “melhor amigo” era irritante.

─ Vem passar uns dias comigo a Singapura. ─ convidei num impulso. ─ Sónia sorriu como se isso fosse uma brincadeira. ─ Estou a falar a sério.

─ Não posso, Ricardo.

─ Eu pago-te a viagem.

─ Não é isso. Bom… Também é isso, não tenho dinheiro para a viagem. Mas, não posso ir assim passar uns dias a Singapura. Tenho o meu trabalho aqui, a Clarinha, os meus pais…

─ Traz a Clarinha também.

Durante a nossa conversa, Sónia conduziu até ao topo do Monte da Guia, uma formação montanhosa, outrora vulcânica, com o formato de cratera que perdera metade da sua estrutura. Ao estacionar o carro, ela olhou para mim com um sorriso muito carinhoso e uma expressão de ternura no olhar.

─ Nós temos uma amizade muito forte, muito especial. Vai custar a ambos, quando partires. Mas, vão ser só os primeiros dias. Depois, verás que a nossa amizade continuará forte. E isso vai descansar-te e poderás retomar o teu ritmo como sempre fizeste nestes últimos quinze anos que estivemos longe.

Não argumentei nada, pois ela não conseguia perceber. Ou talvez não quisesse perceber.

A estrada para o Monte da Guia terminava num portão que não permitia avançar, pois eram instalações de acesso reservado. Ao lado, uma larga escadaria subia até uma pequena capela com um miradouro com uma vista soberba para a cidade da Horta e para a baía de Porto Pim. Com a máquina fotográfica na mão, registei a magnífica paisagem. Depois, pedi a Sónia se poderíamos tirar uma das usuais fotos lado a lado. Ela concordou. Estava tão triste que já não procurava surpreendê-la com cliques inesperados. Coloquei-me encostado a ela e abracei-a pela cintura, absorvendo o seu delicioso cheiro. Apontei a lente para nós, pensando por momentos em roubar-lhe o beijo que revelaria o que sentia por si. A ideia não passou disso mesmo e continuei triste. E hoje, quando olho para aquela foto connosco, tirada no miradouro, vejo que o meu rosto é bem revelador dessa tristeza.

Ao descer as escadas, registei outro pormenor maravilhoso da paisagem, a baía envolvida pela Caldeira do Inferno que fazia um desenho semelhante a um “8” decapitado.

A nossa viagem continuou junto ao mar, atravessando a Horta logo que descemos o Monte da Guia. Recordo-me que repetimos a passagem pela Ponta da Espalamaca e pelo miradouro de Nossa Senhora da Conceição, bem como o cruzamento com estrada para a Almoxarife. A partir daqui, o trajecto era novo.

O Sol aproximava-se do seu ponto mais alto.

Sónia trouxera piquenique para o almoço.

Sempre com o mar a acompanhar a estrada, atravessámos Pedro Miguel, Ribeirinha, Espalhafatos e parámos em Salão.

─ Também tem umas belas piscinas naturais. ─ explicou, após estacionar num pequeno parque junto a um jardim. Ainda com a recordação do meu desinteresse quando mergulhou na outra piscina, lançou-me um sorriso e avisou. ─ Prometo que desta vez não vou nadar.

Ao contrário do que acontecia nas anteriores, estas piscinas ficavam num enorme desnível em relação à estrada. Para chegar até lá, tivemos de descer umas escadas construídas ao longo da escarpa até ao mar, onde uma língua de pedra terminava numa formação rochosa em forma de “C”.

As ondas entravam pelas rochas e espalhavam-se pelas piscinas naturais reforçadas na sua estrutura pela mão humana. Só de olhar, dava vontade de mergulhar naquela água, apesar de se notar um mar mais bravio.

Nas zonas mais ingremes, um corrimão permitia alguma segurança a quem subia e descia pelas escadas. Esse corrimão terminava quando a escada se tornava mais larga e menos ingreme, até o chão se tornar quase plano até às piscinas.

Aquela paragem serviu somente para conhecer o lugar e fazer algumas fotos.

Na continuação do nosso passeio, atravessámos a localidade de Cedros e alguns quilómetros depois, Sónia parou o carro junto ao miradouro de Ribeira Funda, um parque de merendas com uma vista espantosa, onde ela planeara fazer o piquenique.

─ Quanto tempo vais ficar lá? ─ perguntou, entregando-me uma das sandes que preparara de manhã.

─ Onde?

─ Em Singapura.

─ Não sei bem. Talvez um ano ou dois.

─ Quando voltares, vens visitar-me outra vez?

Não respondi logo. Senti que quando partisse e voltasse a arquivar aquele amor não quereria tornar a despertá-lo. Seria doloroso ao início, mas o melhor era manter a nossa amizade como nos últimos anos.

─ Sim. ─ acabei por dizer, quando engoli um pedaço de pão.

─ Espero não ficar mais quinze sem te ver.

Podias ver-me todos os dias para o resto da vida, pensei, e o mais certo será nunca mais me veres quando voltar a embarcar no avião de regresso ao continente. Forcei o sorriso e interroguei:

─ Achas?

─ Espero que não. ─ repetiu.

Enquanto mastigava, observei a paisagem que se avistava do miradouro, onde o terreno parecia ter sofrido um golpe da lâmina de um machado gigante que abrira uma fenda na ilha. Duas escarpas rochosas enfrentavam-se separadas por uma ribeira lá em baixo que se perdia no mar atlântico.

Como não havia muito a dizer, permanecemos em silêncio a desfrutar do ambiente e da refeição. Foi Sónia quem quebrou esse silêncio:

─ Tem sido maravilhoso ter-te cá, Tubbs.

─ Tem sido maravilhoso cá estar, Crockett.

─ Vai ser agora que me acompanhas num mergulho?

─ Daqui? ─ interroguei, como se pensasse que ela queria saltar dali para o mar, o que significaria morte certa.

─ Não, parvo. Vou levar-te àquela praia que te falei ontem no restaurante.

─ Ok. Vamos lá. Desta vez, nadamos juntos, Crockett.

Novamente na estrada, reconheci Praia Norte quando por lá voltámos a passar. A estrada deixou de ter casas e entrou numa zona mais arborizada, à qual chamavam Zona do Mistério. No cruzamento, Sónia virou à direita e o caminho fez-se por outra estrada com um piso em piores condições, sempre a descer até ao mar. Árvores de um lado e do outro, até surgirem as primeiras casas que se multiplicaram por ali abaixo até o alcatrão terminar junto à praia.

Saímos do carro, levámos as toalhas ao ombro e caminhámos de mão dada pelo areal até pousarmos num espaço menos denso de banhistas, uma vez que a praia tinha muita procura. Despi a roupa, observando as ondas fortes do mar a embater na areia. Era sem dúvida um mar mais bravo que os anteriores, o qual era aproveitado por vários surfistas para a prática de surf.

Deixámos a roupa sobre as toalhas estendidas na areia e corremos de mão dada para o mar agreste. Só nos largámos para esticar os braços e investir por entre a espuma da ondulação.

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