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NUNCA NEVA NO MEU ANIVERSÁRIO

VI

A manhã do dia seguinte ia bem avançada, quando despertei na cama do meu quarto em casa de Sónia. O cansaço pela ida ao Pico fora de tal forma arrasador que dormira toda a noite como um pedregulho.

Nesse dia, Sónia concordara em ir auxiliar os colegas nas excursões de turistas para observar golfinhos e baleias no mar alto. Por isso, quando saí da cama confirmei que estava sozinho. A minha amiga “Crockett” deixara-me um bilhete em cima da mesa a convidar-me para ir ao seu encontro junto à marina para almoçarmos juntos.

Tomei um banho, comi qualquer coisa e decidi ir passear pela Horta até à hora do encontro.

Ao sair de casa, deparei-me com uma manhã cinzenta. O ar estava abafado, fazendo lembrar alguns locais tropicais por onde eu viajara. Com a máquina fotográfica na mão, telemóvel e carteira nos bolsos dos calções, comecei a minha caminhada pela avenida que ligava o bairro à zona ribeirinha da cidade.

Achei curioso o nome da rua, Príncipe Alberto do Mónaco, a qual viria a saber mais tarde que se devia à comparticipação deste para a colocação do observatório meteorológico na ilha, que não ficava muito longe dali.

Desci pelo passeio que ladeava a estrada e fui fotografando os pormenores que iam despertando a minha atenção. Após dez minutos a andar, a estrada terminou numa curva apertada à esquerda, onde vi uma igreja. Mais uma foto e prossegui pela outra rua, mais apertada.

Na esquina seguinte, surpreendi-me com uma loja de produtos chineses. Estava habituado à proliferação destes estabelecimentos no continente, mas não esperava encontrar um daquela dimensão naquele local. Virei à direita e desci em direcção ao cais.

Ao fundo dessa rua, ficava o edifício da polícia marítima e, logo ao lado, um dos hotéis mais caros da ilha. Não virei nessa direcção, mas sim na oposta, optando por caminhar pela zona ribeirinha em frente ao Peter’s Café.

Deixei-me ficar por ali, aproveitando uma abertura das nuvens, para fotografar o mar e os muitos veleiros na marina.

O meu passeio continuou junto ao mar. Aliás, limitava-me a seguir a mesma rota que já fizera com Sónia. No entanto, em vez de seguir sempre junto ao cais, optei por ir pelo passeio ao longo das ruas da cidade.

Após uma ligeira subida, vi um edifício mais antigo, uma espécie de monumento. Era o Forte de Santa Cruz que fora transformado em Pousada. Toda a zona frontal era muito bonita, muito verdejante. E logo a seguir, a Praça do Infante prolongava o verde com um jardim repleto de árvores.

Atravessei a rua para o lado oposto e entrei no Posto de Turismo. Pedi um mapa da cidade e alguns pontos interessantes para visitar. A funcionária simpática entregou-me uma folha grande com um mapa do Faial à frente e outro da Horta no verso.

De novo na rua, decidi aventurar-me pelo interior da cidade, afastando-me da zona ribeirinha. Por isso, virei logo à esquerda, na esquina seguinte e subi pela rua Cônsul Dabney.

O Sol voltara a esconder-se, mas o calor mantinha-se. Numa passada calma, caminhei pela calçada, sempre a subir. Só parei quase no cimo, quando alcancei o cruzamento com a rua Marcelino Lima, onde se localizava a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores. Não deixava de ser curioso que apesar de a sede do Governo Regional ser em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, a Assembleia estava localizada na ilha do Faial.

O meu interesse residia numa foto do edifício que estava no mapa, onde dava para perceber que a vista era muito interessante. E quando lá cheguei e subi aos jardins do prédio, plantados num piso superior à estrada, confirmei que o desvio valera a pena. Consegui fotos excelentes do mar, do canal entre as ilhas, dos veleiros, do Pico… Enfim, um cenário deslumbrante, onde só faltava o Sol para acentuar as cores da paisagem.

Como não queria correr o risco de me atrasar para o almoço com Sónia, retomei a caminhada na mesma direcção, prosseguindo pelas ruas da cidade que desciam novamente para o mar. Ao fim de mais alguns minutos a andar, desemboquei no Largo Duque D’Ávila e Bolama, onde estava situada a Câmara Municipal da Horta. Este edifício também mereceu a atenção da lente da minha máquina.

De seguida, atravessei as vias rodoviárias que me separavam do passadiço junto ao mar. A Avenida Diogo Teive que contornava o mar até à saída da cidade fizera-me lembrar a Marginal entre Cascais e Oeiras com aquele mar calmo que certamente em dias de tempestade se tornaria violento e agressivo para com quem passasse ali.

A tranquilidade do local só era perturbada, para além do natural circular de veículos, pelos trabalhos de construção do novo pontão que estava a nascer na ponta oposta da costa marítima da Horta.

Parei junto do muro e observei as enormes pedras que protegiam a minha posição do mar. Como ainda tinha tempo, deixei-me ficar ali a observar o mar e a fotografar. O meu momento introspectivo só foi perturbado por uma voz feminina que me interpelou, indagando em inglês se eu falava a língua.

Por breves instantes, confesso que me surpreendi mais com o seu aspecto que com o facto de me abordar. A dona da voz era uma jovem loura de cabelo apanhado na nuca, bastante curvilínea, de sorriso cativante e pele muito clara. Na sua informalidade de turista, vestia um polo de manga curta laranja justo e uns calções brancos muito curtos, mostrando com orgulho umas longas pernas que terminavam numas sapatilhas beges.

Em inglês, eu respondi que sim, reparando que era quase tão alta quanto eu. Irradiando simpatia, perguntou-me se era dali e eu respondi que não. Estrangeiro? Não, era português mas do continente, expliquei-lhe.

Ela assentiu com a cabeça. Disse que era holandesa, a passar umas férias por ali e estava a adorar.

A conversa agradável serviu para me distrair de a olhar sem pensar como era bonita e sedutora. O que não consegui fazer por mais de dois segundos. A meio do diálogo, ela levou a mão ao bolso traseiro dos calções e retirou o telemóvel, um iphone de última geração, para que eu a fotografasse com ele.

Apesar de eu saber como o aparelho funcionava, deixei que ela me explicasse ao pormenor como lhe fazer a foto. Talvez não tivesse sido propositado, mas ela aproveitou o momento para se encostar a mim e me fazer sentir bem de perto o seu perfume.

Quando terminou a explicação, encostou-se ao muro para que a foto saísse com o mar e a ilha do Pico como fundo. Disparei dois cliques e entreguei-lhe o iphone para ela ver se a foto ficara do seu agrado. Ela confirmou que sim.

Ao invés de se despedir, pediu se poderia tirar uma foto comigo. Disse que eu fora tão simpático que gostaria de ficar com uma recordação. Em tom de brincadeira, concordei com a condição de que a foto não fosse parar ao Facebook. No seu inglês arrastado no sotaque holandês, ela concordou com a justificação que não partilhava fotos de homens lindos com as amigas.

Ignorando o piropo, coloquei-me a seu lado, quase da mesma forma como fazia nas fotos que tirava com Sónia. A holandesa encostou-se a mim de forma descomplexada e eu aproveitei para colocar a minha mão na sua cintura. Ela virou a camara do iphone para nós e registou o momento.

Antes que eu me despedisse, ela olhou para a minha máquina fotográfica e perguntou se eu queria tirar-lhe uma foto. Na verdade, a ideia não me passara pela cabeça, mas seria deselegante recusar, depois de ela ter tido a simpatia de me querer na foto dela.

Quando concordei, ela sentou-se no muro e pediu-me para esperar, dizendo que para mim tinha que ser uma foto especial. Cruzou as pernas, desapertou os botões do polo para aumentar o decote e empinou o peito. Ofereceu-me o seu sorriso mais carinhoso e deu autorização para o disparo.

Fiz três fotos esforçando-me para parecer indiferente ao seu jogo de sedução. De seguida, aproximei-me dela e mostrei-lhe o resultado no ecrã traseiro da máquina. Ela sorriu agradada com a forma como pousara.

Desliguei a máquina, dando a entender que chegara a hora de nos despedirmos. A holandesa saltou do muro e com toda a frontalidade, convidou-me para beber uma bebida fresca.

Eu recusei o convite e, para a desencorajar totalmente, expliquei que tinha combinado encontrar-me daí a alguns minutos com uma amiga minha e não a queria fazer esperar.

Mesmo lamentando a recusa, a holandesa não desistiu. Concordou que não deveria fazer esperar a minha amiga, o que só revelava como eu era um tipo decente. A seguir, disse-me o seu nome e o hotel onde estava hospedada, sugerindo que a poderia procurar lá mais tarde e beber um copo com ela. Eu não disse nem sim, nem não. Insistindo que teria muito gosto nisso, adicionou ao convite a possibilidade de pousar para mim de forma ainda mais especial no seu quarto de hotel.

Fiquei tão surpreso que sorri de forma aparvalhada. Ela assumiu isso como uma forma algo tímida de aceitar uma proposta daquelas. Deu-me um beijo no rosto e afastou-se com um “see you later” sorridente e de sotaque carregado no “r”.

Nunca mais a vi, nem fiz por isso.

Ainda estupefacto, prossegui a minha caminhada em direcção à marina, procurando o local que Sónia me descrevera como sendo o sítio onde chegavam os barcos das excursões.

Quase não me reconhecia por desperdiçar um convite daqueles, feito por uma mulher muito bonita e atraente. Voltei a passar em frente ao Forte de Santa Cruz, desta vez no sentido oposto e desviei para as escadas de acesso às docas da marina.

A holandesa era excitante. No entanto, quando vi Sónia com os colegas perto dos barcos de excursões, todo o interesse que a estrangeira pudesse ter se desvaneceu perante a imagem da minha amiga faialense. Junto deles, envergando ainda o equipamento de trabalho, colete e impermeável, ela parecia uma miúda de vinte anos, alegre e divertida, irradiando simpatia para com os turistas que devolviam os coletes salva-vidas e se afastavam de rosto satisfeito pela aventura no mar.

Como pode um homem abrir mão de uma mulher como ela, interrogava eu mentalmente, amaldiçoando o individuo que a fazia sofrer com a separação, sentindo em simultâneo alguma gratificação por ele o ter feito.

Quando me viu, Sónia acenou com o braço esticado, abrindo ainda mais o sorriso. Nunca consegui explicar muito bem a diferença do que sentia com qualquer outra mulher e ela. Com as outras era sempre algo carnal, desejo, sexo… A “Crockett” sempre despertara em mim sensações diferentes, uma paixão que tanto aquecia a alma como gelava o coração, fazia-me sentir um frio na barriga, engolir em seco. Demorei bastante tempo a deixar de pensar nela de forma apaixonada, só que aqueles dias no Faial reacenderam muitos sentimentos que eu arquivara nos confins da mente e eu não estava a conseguir lidar com isso.

─ Olá, Tubbs! ─ cumprimentou, recebendo-me com um abraço e dois beijos.

─ Tubbs? ─ interrogou um dos seus colegas.

Sónia olhou para ele e explicou de forma sucinta o porquê de nos tratarmos assim.

─ Também gostava muito dessa série. ─ retorquiu ele.

A jovem a seu lado, denunciando o quão mais nova era, confessou que não se lembrava da série.

─ Lacunas de quem só tem vinte e dois anos. ─ constatou Sónia num tom brincalhão. Depois, olhou para mim e iniciou as apresentações. ─ Este é o Marques. ─ Era um dos pilotos dos barcos, um homem forte, sorriso fácil e rosto de marinheiro. Mais velho que nós, descendia de uma família de pescadores, mas fugira a esse desígnio com uma carreira de piloto de excursões. ─ A Ruth. ─ Rapariga alta, cabelo comprido escuro e olhos frios. À primeira vista não captava grande simpatia, mas considerá-la antipática ou arrogante seria injusto. ─ E aquele é o Delfim. ─ Findou Sónia, apontando para outro marinheiro que se aproximava vindo da pequena casa onde guardavam os equipamentos.

Tal como Marques, Delfim também pilotava os barcos. No entanto, tinha uma imagem diferente, mais parecido com um surfista que com um “lobo-do-mar” como Marques. Cerca de dez anos mais novo que o outro, constituição magra e cabelo comprido desordenado e quase descolorado.

Já que estávamos todos ali e com fome, Sónia sugeriu que fossemos almoçar juntos ao Clube Náutico da Horta, a poucos metros dali.

O ambiente na esplanada do clube era muito agradável e as refeições, para além de saborosas, tinham uma característica muito importante, eram baratas. Por isso, era usual eles comerem por ali.

Sentámo-nos à volta de uma mesa e pedimos o prato do dia.

─ Vocês também são do Faial? ─ questionei.

─ Sim, eu sou faialense. ─ confirmou Marques. ─ Nasci na freguesia de Flamengos.

─ Eu também. ─ disse Delfim. ─ Mas a minha família é do outro lado da ilha, de Praia Norte.

─ Fica perto dos Capelinhos. ─ explicou Sónia, sabendo que eu não fazia a mínima ideia onde ficava aquela localidade. ─ Na costa norte da ilha, a caminho vulcão.

─ Tens de levar o teu amigo lá. É um sítio muito bonito. ─ Fez uma pausa como se tivesse tido uma ideia. ─ Aliás, podiam ir lá jantar logo, ao restaurante dos meus pais.

─ Parece-me bem. ─ concordei, antes que Sónia pudesse responder. A seguir, olhei para a outra rapariga. ─ E tu? Também és de cá?

─ Não. Eu nasci nos Estados Unidos. Parte da minha família é que é de cá. Os meus avós emigraram para os states, quando a minha mãe era uma criança.

Sónia adicionou:

─ A Ruth vem para cá no Verão e paga as férias a trabalhar connosco.

Curiosamente, ninguém mostrou interesse em fazer perguntas sobre mim. Porém, a justificação para esse facto era simples, Sónia já deveria ter falado tanto da minha pessoa que já pouco deveria ter sobrado para questionar.

A meio do almoço, o patrão deles apareceu para falar sobre o plano da tarde. Aproveitou para me cumprimentar e recordar que tinha lugar reservado no barco de Sónia. Com ele vinham mais duas equipas de piloto e bióloga para, tal como nós, almoçarem ali.

─ A empresa é composta só por pilotos e biólogas?

─ Não. ─ respondeu Marques. ─ Para além do pessoal que está no escritório, temos também os vigias.

─ Vigias? ─ questionei, imaginando tipos da segurança a vigiar os barcos.

─ Sim. Os nossos colegas nos antigos postos de vigia da época da caça à baleia. É de lá que eles avistam os golfinhos e as baleias e nos comunicam para os barcos para nós sabermos para onde navegar para os observar de perto.

Logo que terminámos o almoço, regressámos às docas para que eles tratassem dos preparativos para as viagens da tarde.

 

 

 

Os barcos semirrígidos tinham um casco duro e uma superfície em toda a volta de borracha. Duas linhas de acentos permitiam aos passageiros sentarem-se de frente, numa posição semelhante a estarem a montar a cavalo. Cada lugar tinha um arco metálico defronte do passageiro, o qual servia de apoio para que o segurassem com as mãos. Exceptuando o de quem ocupava o primeiro lugar de cada linha, todos os outros eram também o encosto do passageiro da frente.

Na traseira, dois potentes motores tinham a responsabilidade de mover o barco. Atrás dos passageiros ficava a roda do leme, lugar ocupado pelo piloto. Também na traseira, o barco tinha uma estrutura metálica, onde a guia se segurava, a qual tinha a antena do rádio e luzes.

Andar naqueles barcos não era novidade para mim, pois eram semelhantes aos usados em alguns trabalhos oceanográficos que eu incorporara. Claro que aquela actividade obedecia a várias regras de segurança para que os turistas só pudessem obter daquela aventura boas recordações. Assim, quando os turistas começaram a aparecer à hora marcada, as biólogas começaram a distribuir coletes a todos, pois era obrigatória a sua utilização.

Apesar de ter experiência, esqueci-me de vir preparado para o passeio, perante a eventualidade do clima piorar, por isso, pedi a Marques que me emprestasse um impermeável para vestir por baixo do colete. Com toda a simpatia, ele entregou-me um igual ao seu.

No nosso barco, Marques era o piloto e Sónia a bióloga. Para além de mim, oito turistas, mais de metade dos quais eram estrangeiros.

Sónia pediu ao grupo que se distribuísse pelos lugares, alertando que quem fosse susceptivel a enjoos deveria optar pelos lugares de trás e quem gostasse de uma experiência mais radical fosse para a frente. Claro que eu sentei-me logo na ponta, mas ninguém teve coragem de se sentar a meu lado.

Os barcos iniciaram a sua marcha pela água de forma lenta, respeitando os limites de velocidade dentro da zona portuária. Ao todo, quatro barcos partiram para observar os mamíferos.

Marques manobrou o barco sem escolher as mesmas direcções dos colegas e iniciando o contacto com os vigias da ilha para saber qual a rota a tomar na saída para o canal. Nesse período de tranquilidade, Sónia veio sentar-se a meu lado.

─ O aventureiro do Tubbs tinha de vir logo para a frente. ─ disse ela, sorrindo.

Eu retribuí o sorriso.

Sem perder tempo, ela voltou a passar pelos passageiros, falando em inglês e espanhol, explicando o que se seguiria.

Os únicos portugueses do grupo eram dois irmãos que se sentaram atrás de mim.

Assim que saímos do porto, Marques aumentou a velocidade. Como estávamos no canal entre as ilhas, a ondulação não era significativa, mas assim que saímos para o mar aberto, a ondulação aumentou e o impacto do barco na água a cada passagem pelas ondas tornou-se mais violento. E era neste ponto que fazia uma grande diferença entre ir atrás ou à frente, pois quanto mais nos sentássemos para a rectaguarda, menos se sentia o impacto. Como eu ia na frente…

Apesar do barulho do vento com a deslocação do barco e o ruido do motor, dava para perceber que o piloto estava em constante comunicação com os vigias, daí que a rota do barco se alterasse com frequência, seguindo as indicações do pessoal em terra perante o avistamento de golfinhos ou baleias.

Os barcos seguiam rotas próprias, não havendo a preocupação de seguirem os mesmos caminhos por serem da mesma empresa. E também havia mais barcos de outras empresas de excursões. Ao todo, deveriam estar uns seis ou sete barcos naquela aventura. Claro que as indicações dos vigias do patrão de Sónia só davam informações aos seus barcos, havendo outros vigias para as outras empresas.

Quando Marques alcançou o sector indicado pelo colega, desacelerou o barco e ficámos a aguardar. Ele recebera a informação que andava por ali uma baleia-azul. Como os mamíferos não andavam por ali para se pavonear para nós, havia que aguardar com paciência que ela se mostrasse.

Esperámos alguns instantes, mas nem sinal. Porém, algumas milhas a estibordo, um esguicho de água chamou a nossa atenção. Marques voltou a acelerar para ir ao seu encontro.

Sempre com a máquina fotográfica na mão, fui fazendo algumas fotos de teste, afinando as medições de luz e as melhores definições para um ambiente nublado.

Os abrandamentos e acelerações repetiram-se algumas vezes até conseguirmos ver um vulto por perto que nos pareceu uma baleia. Infelizmente não tivemos direito à célebre imagem da enorme cauda a sair do mar.

Perante novas indicações do vigia daquele lado da ilha, Marques acelerou para norte, onde a cinco milhas um grande grupo de golfinhos fora avistado. Enquanto o barco galgava as ondas, eu fotografava a costa do Faial, onde se destacava o vulcão dos Capelinhos.

Quando chegámos ao novo sector, o espectáculo de golfinhos a saltar na água foi fenomenal. Deveriam ser mais de meia centena a saltar pelas ondas, deslocando-se a grande velocidade, com os barcos a seu lado. Até parecia que se estavam a exibir para nós. Fiz fotos espantosas.

Durante todo este tempo, Sónia explicava tudo o que avistávamos aos turistas, sempre em três línguas. Descreveu a baleia, as suas características, alguns dados curiosos. Depois falou dos golfinhos… E pelo meio respondia às questões dos passageiros mais curiosos.

Ao fim de mais de uma hora no mar alto, após o vislumbre de uma baleia e um sensacional cenário de dezenas de golfinhos em grande actividade, Marques iniciou o trajecto de volta. Como não havia muito a explicar no regresso, Sónia veio sentar-se no lugar vago a meu lado.

─ Gostaste?

─ Sim. Foi muito bonito. ─ confirmei, continuando a fotografar.

─ Já vi golfinhos e baleias centenas de vezes. ─ relatou, olhando para o mar infinito. ─ Mas nunca me canso. São animais extraordinários. E já cheguei a nadar com os golfinhos.

─ Dever ser fenomenal.

─ É indescritível. ─ confirmou. ─ Hoje, só mesmo por causa do tempo que está a piorar é que não permitimos que os passageiros que quisessem, dessem um mergulho no mar e, quem sabe, tentar nadar com eles.

De facto, mesmo com uma ligeira abertura das nuvens durante a nossa aventura, o gradual aumento da nebulosidade e as informações que Marques recebera da probabilidade de o clima piorar bastante fizeram com que regressássemos à Horta. Não valeria a pena correr o risco de enfrentar um temporal, só por um mergulho no mar alto.

A velocidade do barco foi grande até à entrada do porto da Horta, onde Marques abrandou e todos os quatro barcos seguiram em fila até aos seus lugares nos cais da marina.

Quando desembarcámos, os turistas traçaram muitos elogios ao passeio e agradeceram a Marques e a Sónia, enquanto lhes devolviam os coletes salva-vidas. Eu deixei-me ficar para último e entreguei o meu colete e o impermeável.

─ Vamos arrumar o equipamento. ─ informou ela, seguindo com os colegas para o pequeno armazém na marina, carregando os coletes e outros objectos para os guardar lá.

Eu fiquei à espera, junto ao cais, observando o mar e o céu cinzento. Quando voltei a olhar para o armazém, vi Sónia sair, despedindo-se dos colegas. Delfim recordou-lhe o jantar dessa noite e ela confirmou que iriamos lá estar, conforme combinado.

─ Vamos, Tubbs? ─ disse ela, ao aproximar-se de mim.

Assenti com a cabeça e caminhei a seu lado até ao seu carro que ficara estacionado na rua, perto da marina.

Enquanto seguimos para casa dela, a seu pedido, relatei-lhe a minha manhã. Falei dos sítios que visitara, por onde passeara, as fotos que captara. Claro que não falei na holandesa.

Sónia estacionou o carro à entrada do seu bairro e percorremos os poucos metros até casa a pé.

 

 

 

Uma hora mais tarde, eu substituíra os calções por umas calças, a camisola de manga curta por outra lavada e os chinelos por umas sapatilhas. E quando saí do quarto, encontrei Sónia vinda do seu, trajando um vestido escuro fresco de alças sem abdicar de um casaco de malha que segurava na mão oposta à da mala e calçava sandálias. Será necessário dizer que estava linda?

Por mais voltas que desse na minha cabeça, não conseguia contrariar o facto de estar tão apaixonado por ela. E essa paixão era de tal forma dolorosa que talvez não tivesse vindo ao Faial, se imaginasse que me iria sentir assim. Jamais me passara pela cabeça que quinze anos não apagavam uma paixão de adolescência.

A nossa amizade era forte como pedra. No entanto, a ideia de lhe revelar os meus sentimentos levava-me a pensar que teria um efeito pulverizador tornando a pedra em pó e a nossa amizade num sentimento estranho.

Talvez por ir com a mente envolta nestes pensamentos, não disse uma palavra em todo o caminho até casa dos pais dela.

─ Está tudo bem? ─ indagou com estranheza, ao parar o carro. ─ Estás tão calado.

─  Não é nada. ─ respondi com um sorriso. ─ Estou só a pensar na vida.

─ Que se passa? Trabalho?

─ Sim. ─ menti.

─ Singapura?

Abanei a cabeça afirmativamente. Estava tão preocupado com a ida para Singapura quanto me preocupava se estava a chover no mar.

Sónia saiu do carro e eu copiei o seu movimento.

─ Devias aceitar. É uma grande oportunidade.

─ A vida não é só trabalho, Crockett. ─ contrapus, deixando-a com um semblante de confusão no rosto.

Antes de subirmos as escadas, ela parou em frente a mim e questionou:

─ Que se passa, Ricardo? O que é que não me estás a contar? ─ Eu encolhi os ombros. De súbito, ela riu com gosto. ─ Já sei. Como não percebi antes? Tu estás apaixonado.

Arregalei os olhos. Fora descoberto. Não sabia como ela tinha percebido, mas fora descoberto. Melhor assim. Ela perceber que eu estava apaixonado por ela tornava mais fácil falar no assunto. Ainda para mais, chegando ela àquela conclusão com um sorriso tão satisfeito.

─ Quem é ela? ─ interrogou, quebrando o meu entusiasmo. ─ Tens namorada no continente e eu fiz-te vir para cá para me aturares. Podias ter dit…

─ Não é nada disso. ─ neguei com rispidez. ─ Não tenho nenhuma namorada no continente. Já te disse várias vezes que estou sozinho.

─ Pronto. Não precisas ficar assim.

─ Desculpa!

─ Não percebo a tua hesitação, Ricardo. É uma óptima oportunidade. E, se estás sozinho, nada te prende.

Com toda a honestidade nos olhos, enfrentei os seus e confessei:

─ Eu tenho alguém que me prende. Tu!

A confissão pareceu chocá-la. Desviou os olhos e abanou a cabeça. De seguida, ofereceu-me um sorriso carinhoso e contrapôs:

─ Somos amigos há mais de vinte e cinco anos, já estiveste mais longe que Singapura e a nossa amizade nunca se perdeu. Isso não irá acontecer agora, se fores para lá.

Infelizmente, ela não estava a perceber a dimensão do que eu estava a dizer. Respirei fundo e ganhei coragem para o dizer com todas as letras:

─ O problema é que eu estou…

─ Ora viva! ─ exclamou uma voz a interromper-me. Olhei para o cimo das escadas e vi o senhor Alfredo a cumprimentar-nos. Olhou para a filha. ─ A tua mãe está a acabar de arranjar a Clarinha. Subam!

Talvez não fosse com intensão, mas Sónia evitou continuar o assunto e subiu as escadas. Após dar um beijo ao pai, entrou e foi ao encontro da mãe e da filha. Eu fiquei na companhia do senhor Alfredo.

Meia hora mais tarde, partimos para o restaurante.

O clima nos Açores é sempre uma surpresa. E naquele fim de tarde, a perspectiva de um temporal dera lugar a um Sol brilhante que fazia a sua trajectória descendente quase sem nuvens a atrapalhar.

Já com Clarinha a fazer-nos companhia, deixámos o Varadouro para ir até Praia Norte. Seguimos pela estrada costeira quase até Capelo, onde desviámos para o interior da ilha, cortando caminho para a localidade na costa norte do Faial.

O restaurante da família de Delfim localizava-se na estrada principal que atravessava Praia Norte. Um edifício térreo com um pequeno parque em frente à entrada.

Um dos proprietários que estava ao balcão reconheceu logo Sónia e cumprimentou-a, quando entrámos. Ela apresentou-me e o senhor conduziu-nos a uma mesa bem localizada e com uma vista fenomenal, no lado oposto ao da entrada. Como o edifício ficava na encosta, aquelas janelas viradas a noroeste permitiam observar uma vista magnífica e, àquela hora, um pôr-do-sol fenomenal.

Logo que me sentei, peguei na máquina fotográfica e registei os últimos momentos do astro rei a mergulhar no mar.

─ Lá em baixo há uma praia muito bonita. ─ informou ela, apontando pela janela para uma zona inferior junto ao mar. ─ Bom… As praias são todas bonitas, mas é uma das que mais gosto. Tenho de te levar lá.

Nesse instante, um empregado entregou-nos as ementas e colocou alguns aperitivos na mesa.

A luz alaranjada do ambiente, provocada pelo pôr-do-sol deu lugar às lâmpadas brancas do tecto, quando o exterior ficou cada vez mais escuro. Analisei a minha ementa, enquanto Sónia ajudava Clarinha a escolher o seu prato.

Poucos minutos depois de termos feito os nossos pedidos, Delfim apareceu no restaurante. Cumprimentou o pai atrás do balcão e acenou-nos, antes de ir á cozinha para dar um beijo à mãe. Ao voltar, aproximou-se da mesa para saber se estava tudo bem.

─ Não queres fazer-nos companhia? ─ convidou Sónia.

Ele olhou para mim, como se o facto de aceitar o convite pudesse não ser do meu agrado. Eu sorri e repeti o convite dela. Delfim sentou-se ao meu lado.

─ Estava a falar ao Ricardo na praia lá em baixo.

─ Eu gosto muito daquela praia. ─ disse Delfim. ─ E é lá que fica a minha adega.

─ Adega? ─ interroguei. ─ Produz vinho?

Tanto Delfim como Sónia sorriram e ela explicou:

─ Adega é o nome que nós damos às casas de praia. Há muitas pessoas que vivem mais para o interior ou na Horta e depois têm pequenas casas junto ao mar. A essas, chamamos adegas.

Após ter pedido o que queria jantar, Delfim falou sobre trabalho e em alguns acontecimentos no seu barco, durante a excursão da tarde. Aliás, essa aventura e os nossos conhecimentos de fauna marítima foram o tema central do jantar, o que deve ter deixado a pequena Clara enfadada.

No fim do jantar, Delfim quis oferecer o jantar, mas eu recusei, pois não achei justo. Contudo, o seu pai fez questão de insistir na oferta do filho e recusou qualquer pagamento sob pena de ficar muito ofendido. Nós agradecemos.

Na viagem de regresso à Horta, Sónia optou por conduzir pela estrada junto à costa, indo passar ao lado do Vulcão dos Capelinhos. Aí, desviou para a estrada que terminava quase junto ao mar, onde não havia uma ponta de luz. Parou o carro no fim da estrada, desligou a ignição e apagou as luzes.

Convidando-me a acompanhá-la, saiu do carro e disse à filha que viesse também. Cá fora, a escuridão era tanta que não via ambas, mesmo estando elas a meu lado.

─ Já viste o céu?

Eu olhei para cima e observei o céu estrelado mais espectacular que alguma vez vira em toda a vida. As estrelas eram tão nítidas que parecia ser possível tocar-lhes se esticasse o braço.

─ A minha terra é muito bonita. ─ disse ela com orgulho. ─ Mas mesmo assim, ainda sobra espaço para um céu maravilhoso como este.

Ao longe, no imenso mar negro, pequenas luzes perdiam-se no negrume, pequenos barcos de pescadores em actividade.

─ Tudo aqui é lindo. ─ concordei. ─ Até quando não vemos nada, nos sentimos cercados de beleza. Nunca vi nada assim.

Senti a sua mão procurar a minha no escuro. E quando a encontrou, Sónia apertou-a e disse:

─ Ainda bem.

De súbito, uma estrela cadente cruzou os céus.

─ Pede um desejo! ─ incitou ela. ─ Eu também vou pedir.

Ficámos em silêncio, apertando a mão um do outro com ternura e carinho. Quem me dera que o tempo parasse e aquele momento se prolongasse pela eternidade.

Contudo, ele só durou até Clarinha reclamar que queria ir para casa, o que fez com que voltássemos ao carro e retomássemos o caminho para casa. Não sei o que Sónia desejou, mas o que eu desejei pareceu demasiado improvável de se realizar.

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