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NUNCA NEVA NO MEU ANIVERSÁRIO

V

A minha atenção nas recordações dos momentos passados com Sónia foi quebrada pelas palavras do padre, ao referir o sofrimento da perda de um ente querido.

A interrupção das memórias fizera-me voltar à realidade, ao facto de estar presente no funeral que decorria naquela manhã no cemitério da Horta. Olhei para o caixão fechado que aguardava as últimas palavras do padre para ser depositado na sua última morada. Clara, a filha do corpo que se iria sepultar, permanecia petrificada a olhar para o caixão, deixando apenas escapar as lágrimas vagarosas que lhe escorriam no rosto.

Tirando um ou outro ruído da cidade, a sonoridade do local era partilhada entre a voz do padre e o som dos passarinhos que por ali voavam. A tristeza era comum em todos os rostos que ali permaneciam na despedida.

A minha atenção foi dirigida para a ilha do Pico e para o cume da montanha que começava a aparecer por entre a cobertura de nuvens que habitualmente a cobria. Olhei para a imponência do monte e os meus pensamentos voltaram às recordações, mais precisamente ao dia em que com a mãe de Clara, eu subi ao topo do ponto mais alto de Portugal.

 

 

 

O Sol brilhava num laranja matinal, dando ao amanhecer um colorido característico, onde a brisa fresca soprava fraca. Era raro assistir ao nascer do dia, mas naquela manhã Sónia quisera partir para a ilha vizinha bem cedo, de forma a aproveitarmos bem o dia.

O carro ficara estacionado na tal rotunda de forma esquisita, em frente ao porto. A nossa primeira tarefa foi entrar no pequeno edifício térreo onde se compravam os bilhetes e onde as pessoas aguardavam a hora de embarcar no catamaran que ligava as duas ilhas.

Enquanto Sónia se dirigiu ao balcão para adquirir os ingressos, eu fiquei a observar o local. A minha atenção centrou-se durante alguns instantes num quadro com um excerto de um texto do livro Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio, pendurado na parede.

Com os dois bilhetes na mão, Sónia regressou até mim e informou que o barco partiria daí a quinze minutos e sugeriu que fossemos até ao exterior, pois queria mostrar-me onde trabalhava.

A empresa de excursões na qual ela era guia tinha uma espécie de loja ao lado daquele edifício, onde os turistas compravam os bilhetes e se reuniam para formar os grupos de observação. Ao sairmos da sala de espera para embarque, Sónia reparou que a porta estava aberta, sinal de que já alguém estava a trabalhar lá.

Sónia convidou-me a ir até lá.

Antes de alcançarmos a porta, um homem saiu do interior. Não era muito alto, para não dizer que era baixo, vestia uma t-shirt e uns calções, caminhando com as pernas arqueadas sobre uns chinelos de estilo havaiano. Usava o cabelo muito comprido, despenteado numa mistura de louro com grisalho, o qual prendia com uma fita vermelha em volta da cabeça. Usava barba e bigode nos mesmos tons do cabelo. A pele era bronzeada e bastante marcada pela exposição solar e aos ventos no mar.

Ao ver Sónia, este sorriu e acenou-lhe. Ela chamou-o pelo nome, mas para ser sincero já não me recordo qual era. Só parámos junto dele, o qual me cumprimentou com simpatia, após a apresentação de Sónia.

─ Então você é que é o famoso amigo que vinha visitar a Sónia. ─ disse ele, revelando que a minha vinda já era assunto diário por ali, muito antes da minha chegada. Ele olhou para Sónia, alterando o seu semblante para um ar mais preocupado. ─ E tu como estás, pequena?

Sónia encolheu os ombros, denotando que o seu estado de espirito não se alterara muito. Eu ouvia-os a falar, mas observava o interior da loja, onde uma pequena secretária fazia de balcão, num espaço rodeado de prateleiras com artigos para vender aos turistas, os quais iam desde as camisolas com desenhos de golfinhos e baleias, até postais desses mamíferos no mar ou paisagens da ilha, porta-chaves, pins, enfim… Um sem número de artigos sempre com a alusão aos Açores e à fauna marítima.

─ Sónia, sei que estás de férias, mas amanhã já temos muitas reservas. ─ informou o patrão dela. ─ Dava-me jeito se pudesses vir cá dar uma ajuda.

─ Claro que sim.

Ele olhou para mim, esboçando um sorriso em forma de pedido de desculpa. Eu correspondi ao sorriso e disse que não tinha importância, pois iria aproveitar para conhecer a cidade.

─ Venha numa das excursões. ─ convidou.

Eu assenti afirmativamente com a cabeça.

─ Reserve-lhe um lugar no meu barco. Mas à tarde. ─ pediu Sónia. ─ O Ricardo não é muito de aventuras logo pela manhã.

─ Nota-se. ─ retorqui, lembrando que era bem cedo e estávamos de partida para escalar a maior montanha de Portugal.

Não nos demorámos por ali muito mais tempo. Mais cinco minutos e estaríamos dentro do barco que nos levaria ao outro lado do canal.

Sónia e eu envergávamos o mesmo equipamento que no dia anterior, bem preparados para caminhar num terreno agreste como são os trilhos da montanha. Para além disso, vestíamos casacos por causa da brisa fresca da manhã. As nossas mochilas levavam alimentos e bastante água. Para uma aventura daquelas, no mínimo, cada elemento deve levar cerca de dois litros de água.

Apesar de ser cedo, já havia muita gente para embarcar. Os elementos da tripulação do catamaran colocaram as pontes metálicas que permitiam aos passageiros passar do porto para a embarcação. O barco era igual aos que fazem a travessia do tejo, não os cacilheiros, mas sim os azuis e brancos que ligam o Barreiro ao Terreiro do Paço.

Nós subimos a bordo e Sónia conduziu-me ao piso superior de forma a ter uma boa visão da viagem, no terraço da parte traseira do barco.

As pessoas continuaram a embarcar e a espalharem-se pelos espaços vagos no terraço ou no interior. Três outros tripulantes arrumavam mercadorias e bagagens na proa.

Olhei para a ilha do Pico, o Sol subia lentamente à sua esquerda e o vento soprava com alguma intensidade. Retirei a máquina fotográfica da mochila e preparei-me para registar mais alguns pormenores paisagísticos.

Começava a ser usual, puxar Sónia para mim e fotografar-nos lado a lado. Nem todas as fotos saiam perfeitas, algumas ficavam mesmo tortas, mas todas revelavam a nossa boa disposição e amizade.

Após o aviso estridente da embarcação, esta começou a mover-se de forma a afastar-se do cais. Primeiro de forma lenta, depois mais depressa, a nossa travessia começou. Enquanto navegou dentro do porto, a ondulação era quase nula. Porém, ao deixar a protecção do extenso pontão, a ondulação fez-se sentir com maior intensidade.

A travessia do canal demorou cerca de quinze minutos, tempo suficiente para fotografar diversos planos da cidade da Horta iluminada pelo Sol da manhã, da ilha do Faial, do mar, da ilha do Pico e por fim da Madalena. Entre todas estas paisagens, mais umas quantas fotos da minha modelo preferida.

Com a aproximação ao porto da Madalena, o catamaran começou a reduzir a velocidade para entrar e depois manobrar para encostar ao cais.

A Madalena era uma vila ainda mais tranquila que a Horta. Afastámo-nos do barco e caminhámos para a saída do cais, atravessando um amplo parque de estacionamento automóvel. Enquanto caminhava, ouvia a música vinda das televisões dos bares em funcionamento, pequenos cafés que formavam uma linha ao longo do parque. Espreitei para o interior de um deles e constatei que a música era de um teledisco que passava no ecrã de uma televisão sintonizada no canal VH1.

Apesar de o nosso primeiro objectivo ali ser o consumo de um café, não parámos em nenhum daqueles espaços, optando por seguir para o interior da vila, segundo sugestão de Sónia.

Ao fim de uns duzentos metros, parámos na esplanada do café na praça central da vila. Tal como no Faial, o ritmo da vida das pessoas no Pico era igualmente calmo. E mesmo cedo, já muitas andavam pela rua.

Em frente à praça, uma linha de táxis aguardava clientela. No momento em que observava os carros, o funcionário do estabelecimento veio tomar nota do nosso pedido.

─ Dois cafés. ─ pedi.

Em frente a mim, Sónia olhava para os veículos de cor creme, quando de súbito levantou o braço e chamou:

─ Tio Zé!

Olhei para o outro lado da rua e vi um senhor forte, aparentando ter entre cinquenta e sessenta anos, corresponder ao aceno e a dirigir-se a nós.

O homem tinha um rosto bem-disposto, usava óculos e o pouco cabelo estava penteado ao sabor do vento. Aproximou-se de Sónia e ambos se cumprimentaram.

─ Este é o meu tio Zé. ─ apresentou ela.

─ José Costa. ─ disse ele, estendendo-me a mão.

─ Ricardo. ─ retorqui, apertando-a.

─ O Ricardo é o meu grande amigo de infância. ─ relatou Sónia, avivando a memória do tio que com certeza já teria ouvido falar muito de mim.

─ O famoso Ricardo do continente. ─ concluiu com um sorriso genuíno. ─ A Sónia sempre falou muito em si.

─ O tio Zé é taxista aqui na ilha. ─ explicou ela, evitando que o tio aprofundasse mais o relato de como ela falava orgulhosamente de mim.

─ Vieram conhecer a Madalena?

─ Viemos subir o Pico. ─ informou Sónia.

O senhor Costa arregalou os olhos, denunciando que não era um passeio fácil. Sempre bem-disposto, ofereceu-se logo para nos levar.

Sónia aceitou a oferta com a condição de pagar a viagem. Só que o tio recusou e até se mostrou ofendido com a ideia.

─ Mas enquanto nos leva, está a perder turistas para levar lá acima. ─ lembrou Sónia.

─ Não te preocupes. ─ tornou a recusar. ─ Ora que disparate, cobrar a viagem à minha sobrinha.

Sem perder mais tempo, pagámos os cafés e acompanhámo-lo ao seu táxi. Colocámos as mochilas no porta-bagagem e partimos para o início da escalada.

Nativo da ilha e profissional do transporte de turistas pela sua terra, o senhor José Costa conduziu o seu táxi pelas ruas da Madalena até deixar a vila para trás. A partir daí, mais umas curvas e a estrada resumiu-se a uma linha recta que nos levaria quase ao coração da ilha, a uma altitude de mil e duzentos metros.

A estrada era boa, mas tinha várias linhas de cancelas por causa do gado, as quais cortavam a estrada com umas lombas acentuadas. Como o tio de Sónia não fazia questão de abrandar nesses pormenores, cada passagem era um impacto desagradável.

Conforme subíamos, sentia os ouvidos a estalar, resultante da subida de altitude em pouco tempo. Olhei pela janela do carro e vi o Faial cada vez mais um pedaço de terra abstracto sobre o mar.

A estrada terminou ao lado de um edifício de aspecto recente, ao qual davam o nome de Base, o local onde tinha início o percurso de subida.

O senhor Costa parou o carro perto da escadaria de acesso. Nós saímos do carro e retirámos as mochilas da bagageira. O vento era mais intenso ali. O tio de Sónia desejou-nos uma boa aventura e disse que lhe ligasse quando regressássemos ao edifício, pois ele viria buscar-nos e levar-nos de volta à Madalena.

Sónia não queria estar a incomodá-lo, mas ele disse que ficaria aborrecido com ela se não o fizesse.

Com as mochilas às costas, subimos as escadas até à porta do edifício. O pequeno átrio de entrada dava acesso a um bar à direita e a uma sala à esquerda. Em frente, uma escadaria para os lavabos.

Nós virámos para a sala, um espaço amplo com uma mesa e um bombeiro, o qual anotava num caderno os dados dos candidatos a montanhistas.

Nesse instante, um grupo de turistas estrangeiros entrou pela porta do lado oposto da sala, encabeçados por um guia.

─ Já voltaram? ─ interroguei a Sónia.

─ Sim. Mas estes devem ter passado a noite na montanha.

Muitos turistas optavam por subir a montanha à tarde, passar a noite acampados no cume para observarem o pôr e o nascer do Sol, descendo depois pela manhã.

Sónia dirigiu-se ao bombeiro. Eu observei as fotos espalhadas pela parede e os dados relativos ao trilho, o qual começava nos mil e duzentos metros de altitude e terminava nos dois mil trezentos e cinquenta e um metros de altitude, ou seja, no cume do Piquinho. O tempo que demoraria a subida e a descida variava de pessoa para pessoa.

─ No outro dia esteve cá aquele alpinista português famoso. ─ relatou o bombeiro, quando lhe pedi uma estimativa de tempo. ─ Parece que levou pouco mais de meia hora a chegar lá acima. Porém, conte com duas a três horas em média para subir e outras tantas para descer.

Sónia preencheu os nossos dados no caderno, juntamente com os números dos telemóveis. Era mais uma medida de segurança para os turistas, uma vez que assim os bombeiros responsáveis pela segurança do local sabiam quantas pessoas estavam no trilho, quem partia, quem chegava e quem deveria ter chegado e ainda não o fizera. Neste último caso, para quem não chegava até uma certa hora era lançado o alerta para a sua busca.

A maior parte dos turistas seguem em grupos e liderados por um guia de montanha. Nós preferimos um passeio a dois, ao nosso ritmo.

Cumpridos todos os procedimentos, abri a porta por onde os turistas haviam chegado e saímos do edifício, seguindo por uns vinte degraus que subiam para um piso superior, onde começava o trilho de montanha. Parecia que estávamos a sair de uma cave para um pátio de um jardim.

Mesmo com muita vegetação, o trilho estava bem demarcado e notava-se que havia algum cuidado para que as marcações fossem visíveis. Reparei que mais acima seguia um grupo que deveria ter partido uns dez minutos antes de nós.

Caminhámos com calma e em silêncio durante uns vinte minutos. A subida não era complicada, mas suficientemente desgastante para não desperdiçar fôlego a conversar. O trilho levou-nos a uma clareira com uma saída de fumo do vulcão, uma pequena chaminé que servia como ponto característico do caminho.

Fotografei o local, bem como a distraída Sónia.

─ Não vais começar com isso. ─ protestou, vendo-se novamente na mira da lente.

─ Anda cá. Vamos tirar uma, juntos.

Quando nos preparámos para retomar a subida, um grupo de jovens que vinha a descer perguntou-nos se faltava muito para chegar à Base.

─ Uns quinze a vinte minutos. ─ respondeu Sónia.

─ E para subir? ─ indaguei.

O rapaz que arregalou os olhos, observou o relógio e respondeu:

─ Nós estamos a descer há quase quatro horas.

Não se pode dizer que a informação nos motivava a subir, mas jamais desistiríamos do nosso objectivo para aquele dia.

Sempre que olhava para cima, parecia que trilho de montanha se perdia na vegetação. Não fosse a crença de que todo ele estaria bem marcado e temeria chegar a meio da escalada completamente perdido. Conforme subíamos, continuávamos a cruzar-nos com turistas que desciam, uns com calma e a desfrutar do passeio, outros bem equipados com um ritmo atlético. Muitos apoiavam-se em paus compridos, tipo cajado do pastor, para descer. De facto, esse utensílio é supérfluo para subir, mas muito prático para auxiliar na descida.

Confesso que nunca mais perguntei se faltava muito, pois a resposta não seria nada motivante.

Apesar de quase todo o trilho poder ser feito como caminhada, havia muitos sítios onde optei por escalar à força de pernas e braços. Os guias de montanha olhavam sempre de lado para nós, pois não lhes agradava a ideia de aventureiros que prescindiam dos seus serviços para serem conduzidos pela montanha.

Cada vez que olhava para cima, dava-me a sensação que estava perto do topo. No entanto, rapidamente descobria que aquela saliência era apenas mais um nível, a que se seguiria outro e outro e outro.

Ao fim de uma hora a escalar, Sónia e eu parámos numa rocha fora do trilho para descansar um pouco. Confesso que estava a ser mais duro que o esperado.

Tirámos as mochilas das costas e ficámos a olhar a paisagem. Um longo manto branco cobria a paisagem lá em baixo, uma vez que já estávamos numa altitude acima das nuvens. Recordo-me que numa pequena abertura daquela infindável passadeira branca se via uma ponta da ilha do Faial, lá muito em baixo.

Sónia estava tão cansada quanto eu. Retirou uma garrafa de água e bebeu alguns golos. Eu fiz o mesmo.

─ Isto é lindo! ─ afirmei, observando a paisagem. ─ Aliás, tudo aqui é lindo.

Sónia assentiu.

─ Já podias ter conhecido tudo isto há muito tempo. ─ Eu não me pronunciei. Ela olhou para mim. ─ Porque é que nunca me vieste visitar em todos estes anos? Convidei-te tantas vezes.

─ Nunca houve oportunidade.

─ Tretas, Tubbs. Não me digas que ao longo dos últimos dez ou quinze anos nunca tiveste uns dias de férias.

─ Sim, tive. ─ confirmei, pensando que nunca a visitara porque não suportaria vê-la feliz ao lado de outro homem. ─ Tu também nunca me visitaste no continente.

─ É diferente. Tu viajaste pelo Mundo inteiro. Eu não voltei a sair dos Açores.

─ Sempre que o fiz foi em trabalho.

─ Ok, Tubbs, já percebi. ─ disse com lamento. ─ Nunca mereci um desvio.

─ Não digas isso, Sónia, estás a ser injusta. Quando precisaste mesmo de mim, eu meti-me num avião e aqui estou.

─ Sim, é verdade. Desculpa! Mas, sempre senti que te afastaste desde…

─ Desde?

─ Deixa lá. Parvoíce minha. ─ Sorriu e abraçou-me. ─ O importante é que agora estás aqui comigo.

Findo o abraço, voltámos a carregar as mochilas e prosseguimos a subida.

Quanto mais subíamos, mais cansados nos sentíamos, daí que tivéssemos a preocupação de dosear o esforço, pois ainda havia muito para escalar.

Na paragem seguinte, quando voltámos a encontrar um espaço para descansar sem atrapalhar quem avançava pelo trilho, Sónia questionou:

─ Não te sentes sozinho?

─ Como assim?

─ Tu vives sozinho. ─ disse ela, explicando o objectivo da questão. ─ Consegues lidar bem com isso?

─ Sim. Desde que saí da Universidade e arranjei o primeiro emprego que vivo sozinho. Nos tempos de estudante, se bem te lembras de te contar, eu partilhava um apartamento com dois colegas. Depois, não tive outra solução que viver sozinho.

─ E não te custou?

─ Sim, claro que custou. ─ confirmei, recordando os primeiros dias solitário. ─ Mas depois habituei-me. E nunca mais partilhei casa com ninguém.

─ Só com as tuas namoradas.

─ No máximo, passavam lá a noite, mais nada. ─ corrigi como se ter uma namorada a viver comigo fosse muito errado.

─ Para mim foi o contrário, nunca vivi sozinha. E isso está a custar-me muito com o divórcio. É por isso que não encaro com agrado que a Clara fique em casa dos avós.

─ Compreendo. Mas desta vez, eu estou cá, não estás sozinha.

─ Sim, tens razão, Tubbs.

─ Vá, Crockett, não penses nisso.

Partilhámos a garrafa de água e voltámos ao percurso.

Duas horas mais tarde, alcançámos o topo da montanha, uma cratera enorme onde nascia o Piquinho. Em todo esse tempo foram raras as palavras trocadas entre nós.

Fiquei estupefacto com paisagem, a cratera parecia solo lunar, sem vida e completamente rochosa. Só com muita atenção conseguíamos vislumbrar pequenos arbustos que sobreviviam às condições austeras do local.

O Piquinho, que parecia uma montanha pequenina, revelava a sua grandeza quando observávamos as pessoas as subir e a descer, pequenos pontos a deslocarem-se entre as rochas.

Se já achara a subida até ali tão agreste, comecei a pensar se seria boa ideia escalar até ao cume, até aos famosos dois mil trezentos e cinquenta e um metros.

Sónia sugeriu que fizéssemos o piquenique por ali, sobre uma rocha. O vento soprava fraco e o Sol brilhava forte e quente.

Bebemos mais que comemos, uma vez que o corpo pedia mais hidratação. Não conseguia deixar de olhar para o que faltava da escalada sem sentir alguma hesitação. Porém, continuava a ver pessoas a subir e a descer, daí que jamais me perdoaria ter chegado ali e não ir até ao topo.

─ Sou mais de andar na água que a fazer escalada. ─ constatei, não escondendo o cansaço. ─ Isto é mesmo uma aventura durinha.

─ Não é como caminhar à volta da Caldeira. ─ concluiu Sónia. ─ Mas também não é nada que o Tubbs e o Crockett não ultrapassem com uma perna às costas.

─ Admiro o teu optimismo. ─ retorqui, bebendo mais um pouco de água.

Sónia também bebeu e recordou:

─ Tu sempre gostaste muito de mar, mas terias seguido a profissão que seguiste se não fosse eu?

─ Não sei. É certo que tu me influenciaste a seguir Biologia Marinha, pois eu nem sabia muito bem o que queria fazer profissionalmente e estava mais preocupado em continuar a estudar contigo. No entanto, acabei por me sair bem e gosto verdadeiramente do que faço.

─ Acabaste por ser mais bem-sucedido que eu.

Eu assenti com a cabeça, mas expliquei:

─ Tu finalizaste o curso e procuraste um emprego que te desse estabilidade para formares uma família, casar, ter filhos… Eu finalizei o curso e parti à aventura. Não cheguei onde cheguei por mérito de notas, mas sim por ter feito currículo um pouco por todo o Mundo.

─ Sim, tens razão. Quando casei, limitei as minhas opções de carreira.

─ Não se pode ter tudo. ─ constatei com um sorriso.

Com um semblante desalentado, Sónia questionou:

─ Terá valido a pena? Agora que o meu casamento acabou, terá valido a pena ter apostado mais na família que no trabalho?

Toquei-lhe no queixo e virei o seu rosto para mim.

─ Quando tiveres essas dúvidas, pensa na tua filha. Acho que isso responde à tua questão.

Sónia sorriu e deu-me um beijo no rosto.

─ E a tua carreira? Tens projectos novos?

A minha atenção foi desviada para um avião que sobrevoava a montanha, fazendo os motores rugir e quebrando a tranquilidade do local. Acabara de levantar do Faial. Quando o barulho se desvaneceu, eu respondi:

─ Antes de vir, tive um convite para um novo projecto no estrangeiro. A Administração da minha empresa quer que eu chefie a equipa de consultores que vai acompanhar um novo complexo turístico em Singapura, um resort. É um projecto enorme, ligado ao mar e à vida marinha da região.

Era o típico projecto que me aliciava e me faria partir de imediato para o outro lado do Mundo.

─ Quando partes?

─ Ainda não dei uma resposta, se aceito ou não. ─ expliquei, provocando alguma surpresa nela.

─ Fico muito feliz por ti. Mas, não percebo porque não aceitaste logo.

─ Gosto de pensar bem. E como recebi o convite em vésperas de vir para cá, pedi que me deixassem pensar até regressar.

Aquela resposta não era verdadeira. O convite acontecera em vésperas de partir, só que sabendo que Sónia se estava a divorciar, o meu subconsciente levou-me a ponderar bem. Não queria partir para o outro lado do Mundo, havendo a possibilidade de me reaproximar da mulher da minha vida.

─ Acho que devias aceitar já! ─ afirmou Sónia. ─ Com oportunidades assim, não se pode hesitar Tubbs. Não tens nada que te prenda cá.

Não tinha, mas queria ter. Queria que ela fosse a razão de eu não ir para lá. Porém, Sónia estava tão distante dessa hipótese que se tornou obvio que algo entre nós, para além da amizade, só existia nas fantasias da minha mente.

Findo o piquenique, não nos demorámos mais e iniciámos a última etapa da escalada.

Apesar de terem decorrido vários anos, desde que Sónia fizera aquele percurso, ela conhecia bem o caminho. Houve alturas em que pensei que só conseguiríamos chegar lá acima com o auxílio de cordas, mas Sónia encontrava sempre o trilho certo.

─ Não te afastes muito, Crockett, senão perco-me aqui.

Ao fim de vinte minutos, constatei que todo o esforço, todo o cansaço, todas as dificuldades tinham valido a pena para alcançar o ponto mais alto de Portugal. A vista infindável era espantosa, formidável, quase indescritível.

O cume do Piquinho era um espaço relativamente pequeno. No entanto, para além de nós só lá estavam mais quatro pessoas. O chão tinha uma base de cimento com um pequeno poste que assinalava o ponto máximo da montanha. Sónia e eu colocámo-nos ao lado do poste e eu fotografei-nos lado a lado, abraçados e felizes.

Permanecemos ali mais alguns minutos, o tempo suficiente para eu fotografar a paisagem ao pormenor.

Aquele local era tão único e tão belo que nem tinha vontade de descer. Porém, novos montanhistas alcançaram o topo e nós optámos por começar a descer.

Quase custa a acreditar, mas a descida foi mais dolorosa que a subida. Raramente parámos, uma vez que parecia que se o fizéssemos, isso nos custaria um maior esforço para reatar a caminhada. O Sol forte fustigou-nos ao longo do regresso do Piquinho e assim continuou por mais uma hora na descida da montanha. Era talvez o pico do calor, daí que não nos cruzássemos com tantas pessoas como acontecera na ida.

O solo tornara-se escorregadio devido ao cascalho solto, onde uma desatenção mínima nos faria ir de rabo ao chão, se não fosse uma queda pior. Um trilho que nem era muito complicado a subir, tornava-se muito desconfortável a descer.

As pequenas paragens resumiam-se a compensar a perda de líquidos. Sentia a pele queimada pelo Sol. Por vezes, as nuvens tapavam-no e isso atenuava a sensação de queimadura, só que aumentava a brisa fresca e o desconforto do Sol dava lugar ao desconforto do frio.

Durante hora e meia não vimos vivalma. Cheguei a pensar que só nós é que ali estávamos. Deveria ter existido um longo período em que ninguém se aventurara a escalar.

Ao fim de quatro horas, desde que saímos do cume, avistámos a entrada da Base. Caminhei os últimos metros com dificuldade, pois sentia os pés doridos. Desde que dali tínhamos partido, haviam passado mais de oito horas.

Quando entrámos no edifício, parámos junto ao bombeiro de serviço para que ele anotasse a nossa chegada. De seguida, fomos para o bar, onde comprámos mais água, pois a nossa acabara uma hora antes de terminar a descida.

Enquanto recuperávamos do esforço da aventura daquele dia e repunhamos os níveis de água dos nossos corpos, Sónia telefonou ao tio, conforme havia ficado combinado.

─ Ele diz que dentro de quinze minutos está cá. ─ informou ela, logo que desligou a chamada.

Eu olhei para os altos vidros em volta daquele espaço e disse:

─ Já viste como o clima mudou? Está um nevoeiro que não se vê nada lá fora.

Em poucos minutos, o fim de tarde solarengo e ameno dera lugar a um nevoeiro cerrado. Quando deixámos a Base e fomos para o táxi do tio Zé, a temperatura baixara consideravelmente, fazendo-nos sentir frio.

─ Então? Que tal a subida? ─ questionou o tio de Sónia, sempre alegre, conduzindo pelo nevoeiro sem preocupação, conhecendo a estrada como a palma das suas mãos.

─ Cansativa. ─ respondi, procurando não pensar nas dores que trazia nos músculos.

─ O amigo não está habituado.

Conforme a estrada nos trazia a uma altitude mais baixa, o nevoeiro dissipou-se.

─ Querem jantar lá em casa? ─ convidou ele, olhando para Sónia pelo espelho retrovisor.

─ Fica para outra vez. ─ recusou a sobrinha. ─ Temos de apanhar o barco. Ainda vou buscar a Clarinha a casa dos meus pais antes de jantar.

─ Está bem, Sónia. ─ concordou com lamento. ─ Mas, quando puderes, vem cá jantar comigo e com a tia. E traz a Clarinha. E o amigo, se ainda cá estiver, venha também. É bem-vindo a nossa casa.

─ Obrigado!

─ Se fosse noutra altura, até o levava a ver um jogo do nosso clube aqui da terra. Sabe? É uma das melhores equipas de hóquei do Mundo.

Encolhi os ombros, não fazendo a mínima ideia de que clube falava ele.

─ O tio Zé é um adepto ferranho do Candelária. ─ explicou Sónia. Eu devo ter mostrado o meu olhar completamente ignorante. ─ É o clube aqui da Madalena.

─ Até o Benfica e o Porto tremem quando aqui vêm jogar. ─ relatou o tio com entusiasmo.

Ao entrar na vila, o ambiente perdera muita da claridade do Sol poente, deixando as nuvens transparecer uma falsa ameaça de chuva. O tio Zé parou o táxi junto ao porto e despediu-se de nós, reiterando o convite para que fossemos lá jantar.

Sónia voltou a agradecer e, carregando as mochilas às costas, despedimo-nos daquele simpático senhor e caminhámos para a zona de embarque do catamaran que nos transportaria de regresso ao Faial.

Faltavam quinze minutos para o barco chegar e ainda não havia muita gente para embarcar. Passei o tempo a tirar mais algumas fotografias do ambiente crepuscular da vila e a Sónia que estava tão cansada que nem se esforçava em reclamar.

Quando o barco chegou, os passageiros que vinham do Faial deram lugar aos que queriam partir do Pico.

Terminava assim a nossa aventura na ilha do Pico, com muito cansaço e muita satisfação por mais uma memorável aventura de Tubbs e Crockett.

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