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NUNCA NEVA NO MEU ANIVERSÁRIO

IV

A casa dos pais de Sónia situava-se perto da estrada principal e tinha uma vista magnífica para o mar. Entre a estrada e a casa existia espaço suficiente para deixar o carro sem atrapalhar os outros veículos que por ali passassem. Logo que passámos o portão, uma escada fazia o acesso à porta principal da casa, a qual estava envolvida por vegetação em ambas as laterais.

Quando entrámos, o Sol já desaparecera e o crepúsculo tomava conta do ambiente exterior. Sónia levou a filha para o andar de cima, onde a pequena iria tomar banho e libertar-se do sal acumulado nos banhos na piscina de água salgada.

A senhora Emília, sua mãe, recebeu-nos com um sorriso generoso, informando que estava a terminar os preparativos para o jantar. Aquele piso da entrada era mais alto que um primeiro andar, em relação à estrada. A casa não tinha uma frente muito grande, mas era mais profunda que o normal. Passei o átrio da entrada, onde umas escadas em caracol davam acesso ao piso superior e por onde seguiram Sónia e Clara. A senhora Emília encaminhou-me pelo arco que dividia o corredor do átrio e entrámos na grande sala de estar e onde se faziam as refeições. Reparei que numa ponta do corredor havia uma porta para a casa de banho e na outra a porta da cozinha.

Na sala, o senhor Alfredo levantou-se da poltrona ao ver-me entrar. Tão simpático quanto a esposa, estendeu-me a mão para me cumprimentar e convidou-me a sentar no outro sofá.

─ Quer beber alguma coisa? ─ ofereceu, dirigindo-se ao bar. A princípio recusei. ─ Tenho aqui um licor da ilha do Pico que é uma delícia.

─ Faço-lhe companhia. ─ aceitei, recebendo um pequeno copo com o líquido.

O senhor Alfredo sentou-se novamente na sua poltrona e perguntou:

─ Está a gostar da nossa ilha?

─ Sim, muito. É um pequeno paraíso.

─ Também concordo. Mas a minha opinião é suspeita. ─ Sorriu com agrado. ─ Talvez um pouco calma para o Ricardo, habituado ao ritmo da capital.

─ É diferente, sem dúvida. ─ concordei, bebendo um pouco do licor. ─ Tem um efeito terapêutico.

─ Recordo-me dos tempos em que vivíamos no continente. Acho que não conseguiria viver lá novamente.

─ Nem ir lá fazer uma visita?

O senhor Alfredo encolheu os ombros, revelando que a ideia de viajar até ao continente para passear não era nada tentadora.

─ Prefiro estar sossegado no meu canto. ─ constatou naturalmente. ─ Já não tenho idade para andar a viajar.

Discordei, mas não fiz qualquer comentário. Eu adorava viajar e esperava não perder esse gosto quando chegasse à idade dele.

Enquanto conversávamos, a senhora Emília colocava os pratos e os talheres na mesa. Ofereci a minha ajuda, mas ela recusou.

─ O Ricardo trabalha em quê? ─ indagou o senhor Alfredo.

─ Sou director numa empresa de estudos e projectos. ─ expliquei, procurando não ser demasiado técnico na descrição. ─ Dirijo a unidade responsável pelos estudos na área oceânica e marinha. ─ Reparei pelo seu rosto que não percebera bem o objectivo do meu trabalho. ─ Vou dar-lhe um exemplo: Quando as empresas querem fazer empreendimentos turísticos, necessitam das ideias dos arquitectos, a avaliação dos engenheiros e da consultoria de profissionais ambientais que certifiquem a viabilidade de construção de uma determinada obra numa zona sem que isso coloque em causa a estabilidade do ecossistema. A nossa empresa trabalha nessa área e é aí que entram os nossos profissionais. ─ O senhor Alfredo ouvia-me com toda a atenção. ─ Quando esses projectos envolvem mar, rios, lagos, lagoas… são os meus consultores que conduzem os estudos.

─ É uma empresa muito grande?

─ Mais ou menos. Temos várias áreas de actuação, sendo a minha ligada ao mar. Tenho cinco equipas de consultores, cada uma com um chefe de equipa e três biólogos marinhos.

─ Coordena vinte pessoas. ─ contabilizou com ar espantado. ─ É um cargo importante.

Eu sorri e encolhi os ombros, desvalorizando essa importância.

─ O Ricardo é um dos quatro directores de uma multinacional. ─ disse Sónia que entretanto entrara com a filha na sala. ─ Lidera essas vinte pessoas, mais um sem número de assistentes, secretários, pessoal administrativo. Ele está a simplificar o facto de ser um profissional muito bem-sucedido na sua área.

O senhor Alfredo olhou para mim como se estivesse a receber o Presidente da República.

─ Continuo a ser o mesmo rapazinho que o senhor Alfredo conheceu. ─ retorqui.

Nesse instante, a senhora Emília entrou na sala com uma panela nas mãos e chamou todos para a mesa.

A mesa da sala era redonda, tinha uma toalha dourada a cobri-la e cinco pratos brancos a marcar os lugares. Deixei que todos se antecipassem a mim, sentando-me na cadeira que ficara vaga. Fiquei entre Sónia e o seu pai.

O jantar começou com um caldo de peixe bem apetitoso.

─ A Sónia fala muito em si. ─ revelou o senhor Alfredo, quase de uma forma que deixou a filha pouco à vontade. ─ Aliás, ela tem muito orgulho em si.

Sorri a uma Sónia corada.

O prato seguinte foi um belo peixe assado e batatas com um tempero divinal. O senhor Alfredo trouxe um vinho do Pico para acompanhar a refeição.

─ Que tal foi o vosso passeio? ─ inquiriu a senhora Emília.

─ Fomos passear à volta da Caldeira. ─ respondeu Sónia. ─ Pena termos apanhado nevoeiro.

─ Mas foi muito bom. ─ disse eu. ─ Gostei muito. E o nevoeiro nem atrapalhou nada.

O pai de Sónia encheu-me de novo o copo e disse:

─ Nos Açores é assim, meu amigo, o nevoeiro vai e vem num abrir e fechar de olhos.

Mastiguei um pedaço de peixe e bebi mais um golo de vinho. Depois, olhei para Sónia e relatei:

─ Comentava há pouco com o teu pai que podiam ir ao continente matar saudades.

─ Por vezes, falo nisso. ─ confessou a senhora Emília. ─ Já temos pensado nisso, mas o Alfredo não quer.

─ Ainda se fosse para ver um jogo do Porto. ─ sugeriu o marido. ─ Isso ainda me fazia atravessar o mar de avião. ─ Olhou para mim. ─ O meu amigo é do F. C. Porto?

─ Não.

─ Ó diacho! ─ exclamou, arregalando os olhos. ─ Não me diga que é lampião?!

─ Não. ─ voltei a negar com um sorriso. ─ Não sou de nenhum deles, nem de qualquer outro. O futebol passa-me ao lado.

Alfredo pareceu decepcionado. Acabou por dizer:

─ Bom… Antes isso que ser lampião.

─ Ó pai! ─ reclamou Sónia. ─ Cada um tem o clube que quiser.

─ Está bem. ─ concordou. ─ Mas, o Ricardo é tão bom moço que seria uma pena ser do Benfica. ─ Voltou a direccionar o olhar para mim. ─ Só há uma ocasião em que não sou adepto do Porto. É quando jogam com o meu Sporting.

─ Sporting? ─ interroguei. ─ Então, o senhor não é adepto do Porto?

─ Estou a falar no Sporting da Horta, a nossa equipa de andebol. ─ explicou, enchendo o copo dele, o de Emília, o de Sónia e o meu. ─ São uma grande equipa. Estão na primeira divisão.

Confesso que pouco me interessavam os assuntos de desporto. Porém, o senhor Alfredo falava de uma forma tão apaixonada que o escutei com atenção.

Quando terminou a sua refeição, Clara levantou-se da mesa e sentou-se no sofá a ver televisão.

─ E os seus pais como estão? ─ perguntou a senhora Emília.

─ Estão bem.

─ Ainda vivem no mesmo sítio? ─ inquiriu o marido, recordando o local onde a minha família vivia quando se mudou para a cidade.

─ Não. Reformaram-se há dois anos e regressaram à aldeia. Já tinham vontade de o fazer desde que eu fui estudar para o Algarve, mas a vida profissional obrigou-os a permanecer na cidade. Agora, sei que estão felizes por estar de novo na terra onde nasceram.

─ E o Ricardo? Sente saudades da aldeia? ─ questionou a mãe de Sónia, pouco crente que alguém como eu pudesse sentir qualquer saudosismo por uma pequena aldeia perdida no interior do país.

─ Para ser sincero, não. Vivi lá até aos nove ou dez anos, mas não sinto uma saudade que me levasse a voltar lá. Só regresso de tempos a tempos, quando o trabalho permite, para visitar os meus pais.

O senhor Alfredo olhou para a filha e indagou:

─ Onde estás a pensar levar o Ricardo amanhã?

─ Ainda não sei. Há tanta coisa que lhe quero mostrar.

O pai concordou, pois a sua ilha era para ele o local mais bonito do Mundo e merecia ser apreciado ao milímetro. Sugeriu-me uma visita a todas as localidades costeiras, aos parques e piscinas naturais, à cidade da Horta com passagem pelos edifícios de governação e culturais, a cada uma das caldeiras… Enfim, por sua vontade, eu ficaria um ano inteiro no Faial.

─ Também quero ir ao Pico. ─ confessei, recebendo um olhar de desdém dele.

─ O Pico é a montanha e mais nada.

─ Não digas isso, pai. O Pico é uma ilha bem bonita.

─ Ricardo! Quando lá for, faça um passeio pelas vinhas. ─ sugeriu a senhora Emília. ─ Olhe que vale bem a pena. ─ Virou o olhar para o tecto, como se procurasse recordar algo. ─ O Pico é um local histórico em relação à caça à baleia. O museu do baleeiro é um bom local a visitar para quem gosta de passeios mais culturais.

Agradeci a informação, apesar de não ter qualquer intenção de visitar um museu que consagra uma actividade tão bizarra e selvática quanto a caça à baleia.

─ Se ficasses mais tempo, levava-te a São Jorge. ─ disse Sónia. ─ Pelo teu gosto pela natureza, acho que ias adorar visitar as fajãs.

─ Meu caro. ─ voltou a interromper Alfredo. ─ Você vê a fajã de Santo Cristo e está tudo visto. São todas iguais.

─ Irra, homem! ─ barafustou a esposa. ─ Parece que só o Faial é que tem coisas bonitas.

─ O pai é bairrista. ─ justificou Sónia, sorrindo-me. ─ Bairrista com a sua ilha.

─ São certamente todas bem bonitas. ─ concluí, recebendo um acenar concordante de todos.

Entretanto, com o prolongar da nossa conversa, Clara adormecera no sofá.

─ Pobrezinha! ─ exclamou a avó. ─ Está ferrada no sono. Se quiseres, podes deixá-la dormir cá esta noite.

Sónia hesitou perante essa ideia.

─ Não vale a pena estar a espertá-la para ir para casa. ─ sugeriu o avô.

Sónia acabou por concordar. Com carinho, acordou a filha e perguntou-lhe se ela queria ficar em casa dos avós nessa noite. Clara, ensonada, abanou a cabeça afirmativamente. Mãe e avó levaram-na para o andar de cima, assim que ela se despediu do avô e de mim.

─ A Sónia é muito apegada à filha. ─ informou o seu pai, quando regressámos aos sofás. ─ Então agora com a separação, ainda mais.

─ É normal.

O senhor Alfredo encolheu os ombros.

─ Já temos dito à Sónia para a deixar cá durante as férias, sempre escusava de andar para trás e para a frente, de manhã e à tarde, entre o Varadouro e a Horta. Mas, a Sónia sente que é sua obrigação cuidar da filha.

Foi a minha vez de encolher os ombros, não tinha uma opinião acerca daquele assunto, eu não tinha filhos, por isso, sentido de obrigação a cuidar de um filho era algo abstrato.

Alguns minutos mais tarde, Sónia e a mãe regressaram do piso superior. Desciam as escadas devagar, falando sobre Clara. Ao entrarem na sala, Sónia olhou para mim e disse:

─ Vamos andando?

Eu concordei e levantei-me do sofá, despedindo-me do simpático casal que me recebera para jantar. Sónia despediu-se dos pais e acompanhou-me na direcção do carro.

Só quando partimos no automóvel é que o senhor Alfredo e a senhora Emília retornaram ao interior da casa. Ficaram a acenar-nos até seguirmos viagem para a Horta.

─ Não me parecias com muita vontade de deixar a Clarinha em casa dos teus pais.

─ Não estou habituada a que a minha filha durma fora de casa.

─ Está com os avós, é como se estivesse contigo.

─ Sim, eu sei. Mas… Como explicar? É uma coisa de mãe.

A estrada estava deserta. Não havia um carro a cruzar-se connosco ou na mesma direcção que nós.

─ Tive uma ideia. ─ disse ela. ─ Como amanhã não tenho de vir ao Varadouro logo de manhã, podíamos ir ao Pico.

─ Por mim, tudo bem.

─ Estás preparado para escalar a montanha?

─ É assim tão difícil?

─ Não é fácil.

─ Se tu consegues, eu também consigo.

─ Não sei, Tubbs. O Crockett sempre foi mais forte que o Tubbs. ─ constatou ela num tom brincalhão.

─ Tretas. ─ ripostei. ─ Se uma mulher consegue subir, eu também consigo.

─ Ui… Que comentário tão machista.

Olhei para ela e sorri-lhe, dizendo:

─ Não sou machista, mas sou mais forte que tu.

Sónia abanou a cabeça, dando-se por vencida nos argumentos daquela conversa. Continuou a sua condução tranquila pela estrada da ilha até alcançar a entrada da cidade da Horta e o bairro onde tinha a sua casa.

─ Então, está combinado. ─ insistiu quando nos despedimos ao chegar a casa. ─ Acordamos cedo e partimos para a nova aventura de Crockett e Tubbs, a subida ao cume do Pico.

Dei-lhe um beijo no rosto e concordei.

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