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NUNCA NEVA NO MEU ANIVERSÁRIO

III

Quando alcançámos o ponto mais alto do percurso, reparei no conjunto de antenas que ali haviam sido plantadas. Esta primeira parte do caminho fora a mais dura, uma vez que implicou uma subida algo acentuada.

O percurso de contorno da cratera podia ser feito nos dois sentidos, na direcção dos ponteiros do relógio ou ao contrário. Como eu sempre preferi subidas íngremes a descidas íngremes, optei pela primeira hipótese.

Sónia revelou melhor preparação que eu, brincando que o “Tubbs” estava a ficar velho. Mesmo com uma subida feita num trilho com degraus escavados na terra, o esforço nos joelhos revelou-me que andava a ter uma vida muito sedentária. Parei diversas vezes para fotografar a paisagem, bem como as vacas que encontrei nas encostas mais íngremes, quase me parecendo que a qualquer momento elas rebolariam dali abaixo.

No fim da subida, tentei captar mais imagens de Sónia, fotografando-a nas formas mais inesperadas e obtendo dela a constante reclamação por isso.

─ As maravilhas do digital. ─ concluiu, franzindo o rosto com a noção de que o nevoeiro parecia ter vindo para ficar. ─ Se fosse rolo, como antigamente, não desperdiçavas tantas fotos comigo.

─ A minha máquina está fascinada com a tua beleza. ─ justifiquei, recebendo um sorriso de volta. ─ Se ainda estivéssemos na era dos rolos de fotografia, só te fotografava a ti.

─ Deixa-te de tretas, Tubbs! ─ Abanou a cabeça como se eu não tivesse emenda. Qualquer elogio que lhe fizesse, ela interpretaria como uma brincadeira de amigos de infância. ─ Guarda essa conversa para as tuas amigas coloridas.

Mesmo assim, sentindo um súbito receio de que as minhas palavras pudessem denunciar os meus sentimentos, mudei de assunto:

─ Lembras-te daquela máquina que eu tinha quando éramos pequenos?

Caminhando lentamente a meu lado por uma pequena estrada de alcatrão situada a seguir às antenas, ela confirmou:

─ Aquela que fazia fotos quadradas? Sim, lembro-me. Mas não éramos assim tão pequenos, eu já tinha catorze anos. ─ Olhou para as nuvens, procurando um sinal de que se afastavam, mas sem sucesso. Franziu o rosto. ─ Tinha uns rolos com um formato muito estranho.

─ Pois era… Pareciam uns carrinhos de brincar.

─ Já nessa altura eras um chato a tirar-me fotos.

Já nessa altura era apaixonado por ti, pensei.

O ambiente à nossa volta estava cada vez mais denso, sentindo-se uma humidade no ar. A visibilidade para lá da encosta da montanha era quase nula, mas para o interior da cratera ainda se conseguia ver a vegetação.

Os metros que se seguiram eram planos. Para o exterior do cone da montanha, o solo era muito irregular. No entanto, pelo meio daqueles altos e baixos lá andava uma ou outra vaca. Ao longe, no início do trilho, era possível ver um grupo de turista a começar o nosso trajecto.

─ Também é possível descer ao interior da cratera? ─ perguntei, sentindo alguma curiosidade em conhecer a base do coração da montanha, a qual me parecia um lugar quase intocável.

─ É possível, mas muito perigoso. ─ explicou. ─ Só mesmo com um guia, alguém que conheça bem o terreno. Não é uma descida nem uma subida fácil. O meu… ─ Parou de falar. Foi como se tivesse sido atingida por uma lembrança dolorosa. ─ O pai da Clarinha chegou a fazer esse caminho com um amigo que é guia, aqui na ilha e no Pico.

─ Desculpa! Não queria…

Sónia forçou um sorriso.

─ O meu ex não é nenhum tabu. E além disso, tu não podias adivinhar que a tua pergunta me faria recordá-lo. ─ Suspirou. E para meu pesar, concluiu. ─ Como se fosse possível esquecê-lo…

Coloquei o meu braço sobre os seus ombros e reconfortei-a.

─ Pode ser que ele se arrependa e volte. ─ sugeri, desejando que isso não acontecesse.

─ Não acredito. ─ disse ela com desânimo.

─ Se ele quisesse, tu aceitava-lo de volta?

A sua resposta foi uma facada no meu coração:

─ Eu amo-o, Ricardo! Amei-o ao longo dos últimos quinze anos. Não se esquece alguém assim tão facilmente.

─ O tempo irá ajudar-te a sarar as feridas. ─ Ela encolheu os ombros, pouco crente. ─ Quem sabe se não encontras alguém que te ajude a esquecê-lo?!

Nesse instante, parámos para observar um novo ângulo da cratera, aproveitando um ligeiro abrir das nuvens. Apontei a máquina para mais uns disparos.

─ Duvido… ─ proferiu Sónia com o olhar perdido na paisagem. Depois, olhou para mim e, muito séria, confessou. ─ Ele foi o único homem da minha vida. Não sei como reagiria num novo relacionamento.

Correspondendo ao seu tom sério, alertei:

─ Estás a pensar tornar-te freira? Não podes desistir de ser feliz só porque o teu ex decidiu mudar de vida e não te incluir nela. ─ Sónia ficou muda, observando a neblina ténue. ─ Desculpa! Não tenho o direito…

─ Tu tens razão. ─ atalhou, quase que soprando as palavras. ─ É verdade. Ele mudou de vida e não me incluiu nela. ─ Reparei que uma lágrima escorria no seu rosto. Ela limpou-a com a ponta dos dedos. ─ E com isso mudou também a minha vida. ─ Soluçou e levou ambas as mãos a cobrir o rosto.

Eu envolvi-a num abraço carinhoso e ela chorou no meu ombro, soluçando. Colocou os seus braços à volta do meu pescoço e deixou-se ficar, sem dizer nada, chorando com a amargura que aquela nova etapa da sua vida, aquele divórcio, lhe estava a provocar.

Não quebrei o silêncio, apertando-a apenas contra mim para que se sentisse confortada. Estático como uma pedra, só afrouxei o abraço quando senti que ela se queria desprender e afastar. Retirou um lenço de papel da mochila e limpou o rosto, recuperando gradualmente daquele momento de fraqueza.

─ Já deves estar arrependido de teres vindo visitar-me. ─ reclamou ela, recriminando-se. ─ Vires aturar uma amiga dispensada pelo marido.

─ Não digas disparates! Não trocaria a tua companhia por nada.

Sónia sorriu por entre as lágrimas.

─ Tu és um excelente amigo! És o meu melhor amigo. ─ Voltou a abraçar-me. ─ Obrigado por teres vindo! Gosto muito de ti.

─ E eu de ti.

Ela voltou a afastar-se, abriu um sorriso para combater as lágrimas de tristeza e disse:

─ Vamos, Tubbs! Temos uma aventura para continuar.

Na verdade, dei por mim a pensar se teria feito bem em ter vindo. Nunca esquecera o quanto fora apaixonado por ela, mas o tempo atirara esse sentimento para o baú das recordações. O casamento dela e a distância fizeram-me acreditar que estava imune aos seus encantos. Quando vim ao seu encontro, quando aterrei no Faial para visitar a minha grande amiga que passava por uma fase difícil, tinha consciência que poderia voltar a sentir a atracção que sentira por ela na juventude. Contudo, percebi que continuava completamente apaixonado por ela, que sentia algo que nunca sentira com outra mulher. E não sabia como lidar com a situação.

─ E tu? Quando é que esse coração assenta? ─ interrogou ela, despertando-me dos pensamentos. Recuperara das lágrimas e o seu rosto voltava a alegrar-se. ─ Já não estás a caminhar para novo.

─ Estás a chamar-me velho, Crockett?

─ Não, Tubbs.

O nosso trajecto desviou-se para um trilho mais apertado e irregular. O Sol começou a furar as nuvens e a abrilhantar o cenário. Parei mais uma vez para fotografar. Depois coloquei-me atrás dela, estiquei os braços na sua frente com a máquina apontada a nós e disparei.

─ Devo estar com uma cara linda. ─ disse ela com ironia.

Eu virei o ecrã da máquina para ela e mostrei-lhe que tínhamos ficado muito bem na foto.

─ Sempre que me falavas nas tuas namoradas, esperava que um dia me dissesses que ias casar. ─ recordou, reiniciando o andar.

─ Achas que alguém quer casar comigo? ─ interroguei num tom brincalhão. ─ Sou chato de aturar.

─ Não digas isso. Tu é que nunca quiseste assentar.

─ Talvez…

Sónia voltou a parar.

─ Não percebo, Ricardo. Será que nunca encontraste ninguém que te fizesse ter vontade de ter uma relação para vida? Casar? Ter filhos?

Sim, encontrei. Estou a falar com ela.

─ Não. Nunca senti esse desejo.

Sónia abanou a cabeça, lamentando a ausência de interesse por coisas tão sagradas para ela como o casamento e os filhos.

O percurso já passara a metade e as altas antenas eram uns traços finos visíveis do outro lado da cratera. O nevoeiro dissipara e o Sol brilhava, aumentando a temperatura. A paz reinava à nossa volta, onde só o vento e o som dos animais se fazia ouvir. Muito ao longe, era possível ver pontinhos coloridos, pessoas que também percorriam aquele trilho montanhoso.

O brilho da claridade, vista daquele ângulo, revelou melhor o pequeno lago no interior da cratera. Mais uma vez, fotografei a paisagem e… uma Sónia distraída a esticar os braços e a respirar fundo, de olhos fechados e rosto para o céu.

O trilho descia, depois subia, voltava a descer, outra subida… Havia alturas em que a estreita linha rapada de vegetação parecia desaparecer, levando-me a pensar que daí a alguns metros nos iríamos perder na busca do resto do caminho. No entanto, isso nunca aconteceu, o trilho era sempre visível e fácil de perceber.

─ Isto quase parece as nossas aventuras Miami Vice. ─ recordou Sónia, liderando a passada. ─ Tenho saudades desse tempo, Tubbs.

─ Também eu.

─ Passámos horas a ser Crockett e Tubbs. Os putos hoje já não sabem brincar assim.

─ Preferem uma Playstation.

─ De preferência com jogos com muitos tiros e sem tirar o rabo do sofá.

─ Nós também dávamos tiros.

─ Queres comparar? Nós fingíamos uns “pum, pum”. Eles hoje têm réplicas de armas para apontar para a televisão.

─ Isso é verdade. ─ concordei, lamentando aquilo que se estava a dar de forma tão irresponsável às gerações mais novas. ─ Tu para além de fazeres os barulhos dos tiros também cantavas.

Sónia deu uma gargalhada, adicionando:

─ Adorava a música do Crockett. Era uma melodia linda. Já nem me lembro quem foi o autor.

─ Jan Hammer. ─ informei com a melodia muito clara na minha mente. ─ Tenho um CD dele.

Continuámos o percurso até já se avistar o humilde altar por cima do miradouro da cratera. O caminho era ladeado por arame farpado de um lado e hortênsias no outro. Quando encontrámos uma abertura entre as flores, Sónia sugeriu que parássemos ali e aproveitássemos aquele pequeno espaço com uma vista tão bonita sobre a Caldeira para fazer o nosso piquenique.

Sentámo-nos numa longa pedra. Da sua mochila, Sónia retirou as sandes que preparara de manhã e dois pacotes de sumo.

Por alguns minutos, comemos em silêncio. A brisa fresca atenuava o calor que aumentara com o dissipar das nuvens. Os sons da natureza envolviam-nos, juntamente com os cheiros das flores.

─ É pena que o nevoeiro não tenha levantado mais cedo. ─ lamentou. ─ Há uma parte do percurso em que se conseguem ver as outras ilhas mais próximas do Faial. ─ Apontou para uma das encostas. ─ Dali até se vê a Graciosa.

─ Deixa lá. Há tanta coisa bonita à nossa volta.

Bebi um pouco de sumo, vendo Sónia terminar a sua refeição. Também ela bebeu um pouco do seu sumo e limpou os lábios, olhando a seguir para mim.

─ Posso fazer-te uma pergunta?

─ Claro. ─ concedi, curioso com o que quereria ela saber.

─ Porque acabou a tua última relação?

Sorri, demonstrando que o assunto “terminar relação” era tão banal para mim como respirar.

─ Eu contei-te num dos nossos últimos telefonemas. Foi a distância. Ela trabalhava no Porto, eu em Lisboa.

─ Isso não justifica tudo. ─ argumentou Sónia. ─ Há muitos casais que têm casamentos sólidos e trabalham a mais de trezentos quilómetros de distância e só se vêem aos fins-de-semana.

─ Talvez… Mas, connosco não resultou. ─ A minha mente reviu a última conversa entre mim e a minha última namorada. ─ Para além da distância física, aumentou a distância sentimental. Conversámos e concordámos que era melhor cada um seguir o seu caminho.

─ Foi doloroso para ti?

Encolhi os ombros.

─ Não quero parecer insensível, perante o momento que estás a passar. Porém, para te ser sincero, não me afectou muito.

─ Alguma te afectou?

─ Como assim?

─ Alguma vez ficaste afectado com o fim de uma relação?

─ A fazeres a pergunta dessa maneira, sou obrigado a responder que sim para não parecer um monstro.

─ Eu sei que não és um monstro. ─ afirmou, acariciando-me o braço. ─ Podes ser sincero comigo.

Eu olhei para o terreno deserto no fundo da cratera. As memórias invadiram-me o pensamento com o momento mais doloroso que tivera, por ver alguém partir.

─ É curioso. ─ constatei, olhando para ela. ─ O afastamento que mais me fez sofrer não esteve relacionado com namoros.

─ Não? ─ interrogou com alguma surpresa. Porém, rapidamente percebeu. ─ Quando nos afastámos?

Eu assenti com a cabeça.

─ Foi assim tão duro?

─ Sabes que sim. Nunca te escondi isso.

─ Porquê, Ricardo? ─ interrogou, encarando-me com um ar sério. ─ Como pode o afastamento de dois amigos ser mais doloroso que o de dois namorados?

Será preciso dizer? Será que não consegues perceber sozinha? Era o que tinha vontade de lhe perguntar. Acabei por dizer:

─ Tu és uma grande amiga. Tivemos uma relação muito próxima, muitos anos a conviver diariamente. ─ Sorri como se tudo fosse uma recordação longínqua da juventude. ─ Bom… Pelo menos, tornou-me imune a separações.

Sónia abanou a cabeça, mas não proferiu qualquer palavra. Aliás, não disse mais nada até nos pormos novamente ao caminho, logo que arrumámos tudo.

O percurso até terminarmos o contorno da Caldeira não demorou muito mais a concluir. A parte final era composta por uma ligeira descida, a qual terminava junto ao pequeno altar, o ponto branco que se avistava em quase todo o percurso. Passada essa singela construção, descemos até ao local onde havíamos iniciado o percurso, só parando em frente ao túnel do miradouro, junto ao carro de Sónia.

─ Que se segue, Crockett?

─ Que me dizes a um mergulho, Tubbs?

─ Parece-me bem.

Arrumámos as mochilas no porta-bagagem e entrámos no carro, voltando à estrada para nova etapa.

Sónia conduzia quase de forma automática, pois já deveria ter percorrido cada quilómetro de alcatrão da ilha centenas de vezes. O nosso destino foi a praia de Almoxarife, na costa oriental do Faial. Voltámos a entrar na estrada principal e circulámos quase até entrar na cidade da Horta, momento em que Sónia desviou para norte, continuando na mesma estrada. Um ou dois quilómetros a seguir, uma placa indicava a praia, Sónia virou na direcção da tabuleta.

Na nossa frente, o majestoso Pico e uma estrada que descia até quase ao mar. Ao fundo, uma rotunda com vários carros estacionados. A tarde aquecera e o local era dos mais procurados para banhos. Só conseguimos um lugar para estacionar perto de uma casa.

Mulher prevenida, ela trazia sempre uma toalha de praia no carro, a qual se prontificou a partilhar comigo, uma vez que eu deixara a minha em casa dela.

A praia de Almoxarife tinha um muro baixo que a separava da estrada, juntamente com um passadiço. Não era uma praia larga, mas tinha um bom comprimento. Caminhámos por aquele passeio de tiras de madeira até passar uma ponte singela que atravessava uma ribeira quase seca. Descemos por umas pedras e assentámos a nossa posição numa zona com menos pessoas.

Sónia estendeu a toalha. Eu fiquei a ver a paisagem defronte do areal negro. O Pico magnânimo, o canal entre a Horta e a Madalena, a ponta ocidental da ilha de São Jorge à nossa esquerda. Retirei a máquina fotográfica da mochila e gravei a paisagem no cartão de memória.

Quando olhei para o lado, vi Sónia descalça, já sem a camisola e com a parte superior do biquíni, puxando as calças para baixo. Apontei a máquina para ela e fotografei-a. Ela reclamou.

─ Vais ficar a tirar fotos ou vens dar um mergulho comigo?

Eu guardei a máquina novamente e desfiz-me das roupas e das botas de caminhar, ficando em calções de banho. Não consegui evitar olhar para a minha amiga, encantado por ela ser tão dolorosamente bela. Vi a sua mão esticada, a qual eu segurei, aceitando o convite para entrar no mar.

Quando regressámos à areia, sentámo-nos na toalha e ficámos a olhar para o ambiente à nossa volta. O céu estava azul e o Sol brilhava, porém o topo do Pico fora novamente envolvido pelas nuvens que o esconderam.

Havia muitas pessoas na praia, desde turistas a nativos. Se em alguns casos era difícil distinguir, noutros era perfeitamente perceptível, fosse pela língua, fosse pelo tom de pele ou dos cabelos, ou até pela estrutura corporal. Seria difícil pensar que um homem de quase dois metros com cabelo louro e olhos azuis era faialense.

─ Só fotografas paisagens? ─ interrogou Sónia, olhando para mim, despertando-me da observação. ─ Isto, para além de me melgares a mim, Tubbs.

─ Fotografo tudo aquilo que acho que vale a pena fotografar.

─ Se isso era um elogio, obrigado! ─ agradeceu, sorrindo.

─ Há muitos sítios lindíssimos no mundo. Eu tenho a sorte de já ter estado em muitos deles e ter tirado fotos muito bonitas. Confesso-te que a tua ilha é um paraíso na Terra, daí que goste de andar a fotografar cada canto.

Num tom bem-humorado, ela espicaçou:

─ Espero que não andes a fotografar cada canto de mim também.

─ Podes achar estúpido. ─ retorqui sério. ─ Mas, é uma forma de poder “estar contigo” quando voltarmos a estar longe um do outro. Posso olhar para estas fotos e recordar estes dias maravilhosos na tua companhia. ─ Sorri-lhe. ─ É estúpido, não é?

─ Não. ─ negou ela mais séria. ─ Acho isso muito querido da tua parte. Espero que me deixes algumas tuas para eu poder fazer o mesmo.

Eu voltei a virar a lente para nós e fotografei-nos, lado a lado.

─ Pronto! Esta será uma delas.

Sónia encostou a cabeça ao meu ombro, num gesto de carinho.

─ Quando vi a tua máquina, pensei que fosses um daqueles fotógrafos de moda, aqueles tipos que fazem sessões fotográficas com modelos.

Naquela altura, eu tinha uma máquina fotográfica topo de gama. Não é necessário ser profissional para ter uma daquelas, apenas paixão pela fotografia e dinheiro para a comprar.

─ Também faço. ─ informei, causando-lhe alguma surpresa. ─ Tenho um amigo que trabalha para uma agência de modelos e é caçador de talentos.

─ Caçador de talentos?

─ Sim. Anda sempre à procura de novas caras para a moda. ─ expliquei. ─ Como eu tenho um estúdio em casa, ele recorre a mim para fazer os books dos modelos.

─ Das modelos. ─ corrigiu Sónia.

─ Não. Dos modelos. ─ insisti, percebendo o seu desprezo por essa minha faceta. ─ Fotografo homens e mulheres.

Sónia olhou para mim, aquele olhar que não admitia ser enganada perante a inquirição. Quase que ia jurar que havia ciúme nas palavras seguintes:

─ E envolves-te com elas, quando as fotografas?

Eu dei uma valente gargalhada.

─ Que raio! ─ exclamei. ─ Que ideia que fazes de mim, Crockett. ─ Abanei a cabeça, parecendo triste. ─ Já me devias conhecer o suficiente para saber que eu não misturo trabalho com prazer. ─ Olhei para a areia negra e para as ondas rasteiras que nela embatiam. ─ Já namorei com uma modelo que fotografei, mas não me envolvi com ela na sessão fotográfica. Cheguei a sair com outras duas…

─ Pronto, ok! Já percebi. Não é preciso dares mais pormenores.

Voltei a sorrir para ela, sendo correspondido pelo seu sorriso.

─ Adorava fazer uma sessão fotográfica contigo. ─ confidenciei, obtendo dela um franzir de rosto, como se isso fosse absurdo. ─ Que foi?

─ Tenho espelhos em casa, Ricardo. Não sou nenhuma modelo.

─ És uma mulher muito bonita, Sónia! Farias inveja a muitas meninas que andam na moda.

─ Pronto, lá está o Tubbs… ─ Sem dizer mais nada, ela pegou na máquina. ─ Como é que isto funciona?

Eu dei-lhe uma explicação básica de como focar e fotografar. Ela aproveitou para testar o seu jeito em mim.

Com o Sol quente a incidir sobre nós, voltámos a saborear a frescura do mar.

Ainda ficámos algum tempo na praia, dando mais alguns mergulhos. A temperatura era amena e de boa vontade teríamos ficado ali até anoitecer. No entanto, Sónia alertou que era melhor irmos andando, pois queria tomar banho e arranjar-se antes de irmos a casa dos seus pais, os quais nos haviam convidado a jantar lá nessa noite.

Após o último mergulho, deixámo-nos ficar ao sol até os nossos corpos secarem o suficiente para voltarmos a vestir a roupa. Enquanto voltava a entrar na camisola e nas calças, observava Sónia que fazia o mesmo. Nem o cabelo comprido húmido todo despenteado tirava encanto à sua beleza. Ela bem o tentou sacudir, mas não evitou manchar a camisola nos ombros. Para que não acontecesse o mesmo na zona do peito, depois de vestir a camisola, desprendeu a parte superior do biquíni e retirou-a por uma das mangas.

Sei que tinha um olhar felino para o corpo feminino, ainda mais no que respeitava à mulher que tanto mexia com os meus sentimentos. Não pude deixar de reparar como as pontas dos seus mamilos se destacavam por baixo da camisola, soltos do biquíni e ainda húmidos pelos vários banhos no mar. Sónia percebeu isso e envolveu o tronco com a toalha.

Quando saímos da praia já não estavam tantas pessoas como quando ali chegáramos. Algumas delas seguiam em paralelo connosco no regresso aos carros estacionados.

Entre Almoxarife e a casa de Sónia o percurso era curto, alguns quilómetros para atravessar a cidade da Horta. A estrada subia para uma encosta, a qual Sónia me explicou tratar-se da Ponta da Espalamaca. Quando a subida terminou, ela parou o carro para me mostrar a vista do miradouro.

Saímos do carro junto a uma grande estátua da Senhora da Conceição, pelo menos foi o que pude ler na placa pregada à pedra, a qual tinha falta de muitas letras na mensagem que continha.

Sempre com a máquina na mão, fotografei a vista espantosa sobre a cidade da Horta com o Monte da Guia para lá das casas. Vi o longo pontão que se estendia de sul para norte e a construção do novo onde se previa a edificação do novo porto com capacidade para os gigantescos navios de cruzeiro. Em frente, tal como vira em Almoxarife, a alta montanha do Pico, coberta pelas nuvens, e a ilha de São Jorge com a parte ocidental visível até se esconder atrás da ilha do Pico. Mais ao longe, para nordeste, com uma cor que quase se misturava com os azuis do céu e do mar, a ilha da Graciosa com o seu recorte semelhante a duas lombas gémeas. No mar, um barco fazia a travessia do canal e alguns veleiros desfrutavam do vento fraco para navegar. Mais perto da ilha do Pico, cara a cara com a Madalena, vi duas formações rochosas no mar, uma parecia estar em pé e a outra deitada.

Antes de regressarmos ao carro, abracei Sónia e apontei a máquina para nós, usando a montanha do Pico como cenário da foto.

Quando chegámos a casa, Sónia largou a mochila e foi tomar um banho. Ainda me perguntou se eu queria ir antes, mas eu preferi ir depois. Segurando a parte do biquíni que despira numa mão e a toalha na outra, ela entrou na casa de banho e fechou a porta.

Eu deixei a minha mochila perto da dela e sentei-me no sofá, à espera da minha vez. Enquanto aguardava, retirei o telemóvel da bolsa na mochila e consultei o meu email. Na rua, duas senhoras conversavam uma com a outra, queixando-se dos preços dos legumes. Na sala, o silêncio só não era total porque se ouvia a água a sair do chuveiro no duche de Sónia.

Não tinha muitas mensagens novas e nenhuma na qual valesse a pena debruçar-me antes de voltar ao continente.

Passados alguns minutos, o som da água a correr parou. Fui ao meu quarto e retirei a camisola, as calças e as botas, ficando tal como estivera na praia. Ao retornar à sala, Sónia saiu da casa de banho com o corpo envolvido numa longa toalha turca e o cabelo embrulhado noutra mais pequena.

─ Podes ir. ─ indicou, segurando a toalha maior em volta do peito, a qual mesmo sendo grande não lhe cobria as pernas abaixo das coxas. ─ Deixei-te uma toalha pendurada que podes usar para te secares.

Eu agradeci e segui para o meu duche.

Antes de entrar na banheira, vi o biquíni de Sónia pendurado a secar. Estendi o braço até às duas peças pequenas e toquei-as como se pudesse sentir nelas o corpo dela. Retirei uma do seu suporte e apertei-a junto ao nariz, procurando absorver o cheiro da minha amiga. No entanto, o tecido molhado cheirava a avelã, o mesmo cheiro do gel de banho. Voltei a colocar a peça no seu lugar e segui para o duche.

Quando abandonei a casa de banho, trazia a toalha que ela me deixara, enrolada à cintura. Do quarto de Sónia vinha o ruído do secador de cabelo a funcionar. Caminhei para o meu quarto e fui procurar uma roupa para vestir.

Como a temperatura era amena, tanto de dia como de noite, optei por uma camisola de manga curta, calças de ganga e um casaco só para o caso de sentir algum frio com o avançar da noite. Calcei umas sapatilhas, coloquei um pouco de perfume e penteei o cabelo. Pronto, saí do quarto e encontrei Sónia à minha espera.

Sentada no sofá, ela verificava se não lhe faltava nada na pequena mala. Vestia um vestido de alças colorido em tons de verde e amarelo. Tal como eu, para prevenir alguma descida da temperatura, tinha consigo um casaco de malha branca. Desta vez não prendera o cabelo, deixando-o solto sobre os ombros. Para não variar, estava linda.

─ Estás pronto? ─ indagou, levantando-se do sofá.

─ Sim. ─ confirmei, vendo as suas sandálias com tiras que se cruzavam sobre os seus pés.

Sónia vestiu o casaco e pegou na mala, retirando as chaves do carro e da casa.

O Sol começava a tomar os tons mais laranjas, quando circulávamos pela estrada rumo a Varadouro. Ao passar por Castelo Branco, surpreendi-me com o som forte dos motores de um avião que descolava do aeroporto do Faial.

A paisagem da ilha era um deslumbramento a qualquer hora, encostas escarpadas, rochedos a entrar no mar, campos extensos de um verde puro, as vacas a aproveitar os pastos antes do recolher do fim de tarde, montes, vales… Reparei em vários rolos empilhados nos campos. Poucos carros na estrada e alguns tractores. Existia no ar a sensação de que tudo era feito sem ansiedade e com toda a calma.

O acesso às piscinas naturais de Varadouro era feito por uma estrada que descia na direcção do mar. No fim da descida, virámos à direita e parámos no pequeno parque de estacionamento junto ao edifício com sanitários de apoio aos banhistas.

Sónia e eu saímos do carro e caminhámos por uma linha de cimento ali construída para facilitar o acesso entre os muitos rochedos que separavam o parque das piscinas. Algumas pessoas já regressavam de mais um dia de lazer.

Já fizera aquele trajecto anteriormente, mas naquele fim de tarde observei melhor o espaço. O caminho de cimento levou-nos às duas piscinas, uma muito grande de adultos e outra pequena de crianças, onde as pessoas desfrutavam da água do mar.

Sónia acenou para um grupo de crianças. Reconheci Clara entre elas. As amiguinhas também acenaram a Sónia. Junto das crianças, estava uma mulher da nossa idade, a qual vim a saber ser a mãe de uma das crianças, a qual tomava conta das pequenas ali na piscina.

Eu cumprimentei-as a seguir a Sónia. Clara pegou na toalha e veio ao encontro da mãe que ficou a conversar com a outra senhora. Curioso com o que havia para lá das piscinas, continuei a andar pelo caminho de cimento que subia por umas escadas de três ou quatro degraus e seguia por entre as rochas.

A cada passo, o som das ondas e a voz das pessoas aumentava. Fui desembocar numa zona de saltos directamente para o mar, onde a ondulação era significativa e nem todos se aventuravam a banhos. Reparei que existia uma marcação feita por bóias em frente ao local, uma espécie de escudo de segurança no caso de a corrente ser muito forte e arrastar os banhistas. Olhei para sul e vi que as encostas da ilha, desde ali até quase ao Morro de Castelo Branco eram altas e verdes.

A minha contemplação da paisagem foi suspensa pela voz de Sónia a chamar-me atrás de mim.

─ Pareces hipnotizado. ─ constatou com humor.

─ Paisagem magnífica.

Ela assentiu com a cabeça.

O Sol começava a entrar no mar, quando deixámos as piscinas e voltámos ao parque. Clara despediu-se das amigas e entrou no carro. As outras crianças seguiram juntas para as suas casas ali perto. Eu abri a porta do automóvel, olhei à volta, senti a brisa do mar embater no meu rosto e acreditei que não era difícil ser feliz ali.

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