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NUNCA NEVA NO MEU ANIVERSÁRIO

XII

A noite estava amena como era habitual. Soprava uma brisa lenta, no momento em que saí do táxi, em frente à casa dos pais de Sónia. O taxista fora muito simpático durante a viagem e procurou fazer assunto para conversar. No entanto, a minha cabeça estava preocupada com outras conversas e não dei muito seguimento ao diálogo.

O veículo partiu. O ruido do motor a afastar-se foi o único som por ali, até não haver som algum. Um cadeeiro iluminava-me, enquanto eu olhava para o pequeno portão que antecedia as escadas de acesso até à casa. Olhei para a campainha e estiquei o dedo para carregar nela. Contudo, fui fustigado por uma sensação de incerteza, se deveria de facto fazer aquilo. Tal como dissera ao senhor Alfredo, eu tinha de me proteger, não podia deixar o coração continuar a ser massacrado pela recusa ao meu amor. Pensei em desistir.

Estás parvo, Ricardo? A minha consciência indignou-se comigo. Viera até ali para voltar para trás sem tentar? Não. E eu não sou pessoa de desistir. Podia perder aquele amor em definitivo, mas venderia cara a derrota.

Toquei no botão e ouvi a campainha ecoar no interior da casa. Na janela da cozinha, vi o rosto da senhora Emília espreitar para ver quem era. Ouvi-a dizer ao marido, em voz alta, que era eu.

A porta da casa abriu-se e por ela apareceu o senhor Alfredo. Com um ar de surpresa que não escondia a satisfação por me ver, convidou:

─ Olá, Ricardo. Entre!

Passei o portão e subi as escadas, sentindo as pernas a tremer. O pai de Sónia ofereceu-me um sorriso rasgado.

─ Peço desculpa por aparecer assim tão tarde.

─ Não tem nada que se desculpar. ─ retorquiu. ─ O Ricardo é sempre bem-vindo a esta casa.

Apertei a mão que me estendera e acompanhei-o para o interior. À entrada da sala, vinda da cozinha, a senhora Emília cumprimentou-me com a mesma simpatia e satisfação do marido.

─ Vim falar com a Sónia. ─ informei, sendo conduzido para o sofá da sala.

─ Ela foi deitar a Clarinha. ─ relatou o pai, sentando-se na poltrona. ─ Já desce.

A mãe de Sónia sentou-se ao meu lado no sofá e, envergonhada, pediu:

─ Desculpe, Ricardo! Peço que nos desculpe por termos sido cúmplices daq…

─ Não pense mais nisso. ─ interrompi, sorrindo-lhe e demonstrando que não estava aborrecido com eles. ─ Já disse ao senhor Alfredo, ela é vossa filha, é natural que a apoiem. ─ Alterei o semblante para algo conformado. ─ Mesmo que ela não tenha as atitudes mais correctas.

─ Não foi para o magoar. ─ disse o senhor Alfredo, procurando desculpar a filha.

─ Eu sei. Pelo menos, sei que não foi essa a sua intensão principal. Mas mentir-lhe-ia se dissesse que não foi isso mesmo que ela conseguiu.

A senhora Emília deu-me uma palmada carinhosa na perna e lembrou:

─ Ela gosta muito de si.

─ Não tanto, quanto eu gosto dela. ─ ripostei.

─ Estás enganado! ─ afirmou Sónia que entretanto descera e ouvira as minhas palavras, à entrada da sala.

Ao verem-na, o senhor Alfredo e a senhora Emília levantaram-se dos seus lugares para nos deixarem sozinhos na sala.

Sónia surgiu de rosto fechado, ainda muito marcado pelo acidente, mas sem perder um milímetro de beleza. O cabelo estava penteado de forma escorrida, como se tentasse tapar as escoriações. Vestia um casaco de malha fina sobre uma camisola justa e calções estilo safari. Caminhou sobre as havaianas até mim. O seu olhar era defensivo.

Numa atitude automática, levantei-me do sofá. Ela parou em frente a mim. Notei que ficou hesitante, não sabendo se haveria ou não de me cumprimentar com um beijo no rosto. Não lhe facilitei a vida, permanecendo impávido.

─ Não esperava voltar a ver-te, antes de partires. ─ disse ela num tom calmo e defensivo. ─ O meu pai disse-me que não querias falar comigo.

─ Sim, é verdade. Eu disse-lhe isso. ─ Desviei o olhar do dela, temendo que ele me atraiçoasse. ─ Mas, não podia ir embora sem… sem…

─ Sem…?

─ Tinha de voltar a falar contigo. O assunto não é agradável para nenhum de nós, mas não podia partir sem nos dar uma última oportunidade. ─ Fiz uma pausa para ela reagir. Ela não reagiu. ─ Porém, não me pareceu que o hospital fosse o local ideal para conversarmos.

─ E que oportunidade é essa que nos queres dar? ─ interrogou quase de forma altiva.

─ Temos de falar do que sentimos um pelo outro.

Sónia baixou o olhar. A seguir, caminhou até à janela e ficou a olhar para a noite escura. Por fim, concluiu:

─ Vamos repetir aquilo que já dissemos, Ricardo? Que queres falar? Nós sabemos bem o que sentimos um pelo outro, da mesma forma que sabemos que somos incompatíveis.

─ Tu é que nos tornas incompatíveis. ─ acusei, olhando para as suas costas. ─ Tu é que recusas dar uma oportunidade àquilo que sentimos um pelo outro.

─ Queres fazer de mim a culpada? Sou culpada, sim. Culpada de ter o discernimento para além da cegueira da paixão.

─ Não estou a fazer de ti culpada. ─ argumentei, dando um passo na sua direcção. ─ Não vim aqui para te acusar de nada. Nem mesmo da forma cruel como me quiseste afastar.

Sónia voltou-se e encarou-me o olhar.

─ Não me orgulho do que fiz. ─ confessou, não deixando depois de afirmar com grande segurança. ─ Mas lamento que não tenha resultado. Teria sido uma despedida muito menos dolorosa que aquela que estamos a ter.

─ Só é dolorosa porque queres. ─ redargui, sem fugir ao seu olhar seguro, sempre defensivo. ─ Eu pedi-te em casamento. E continuo a querer casar contigo. Tu aceitaste! E, até ao acidente, estavas tão feliz com isso quanto eu.

Voltando a esconder-se na observação do exterior, Sónia contrapôs:

─ Talvez o acidente tivesse sido um sinal de como eu estava a agir de maneira errada.

─ Por amor de Deus, Sónia! ─ insurgi-me perante o que acabava de ouvir. ─ Não venhas com argumentos de folhetins novelísticos. Se o acidente fosse para não ficarmos juntos, um de nós teria morrido.

Sónia não disse nada. Virou-se novamente para mim e caminhou até ao sofá, sentando-se no lugar onde estivera a sua mãe.

─ As nossas vidas são demasiado diferentes para podermos ficar juntos. ─ voltou a lembrar. O seu rosto revelou-se mais amistoso, tentando reencontrar a nossa amizade. ─ Eu tenho a minha vida aqui no Faial. Tu vais para Singapura.

─ Eu já recusei Singapura!

A notícia surpreendeu Sónia. Por breves instantes, pensei que isso a fizesse abrir todas as defesas que continuava a levantar ao nosso amor. Percebi que estava errado.

─ Fizeste mal! ─ exclamou com desprendimento. ─ Se o fizeste a pensar que isso mudaria a minha posição, lamento dizer-te que fizeste mal. Isso em nada muda a minha decisão.

─ Não o fiz por ti. Fi-lo por mim. ─ corrigi, sentando-me a seu lado. ─ Não te menti, quando te disse que estou cansado de andar em trabalhos pelo Mundo. ─ Os seus olhos observavam-me quase sem expressão. ─ Para além disso, não conseguiria ir para tão longe depois de saber que sentimos o mesmo um pelo outro. ─ Ela sorriu com ironia, agastada pela insistência. ─ És capaz de me olhar nos olhos e dizer que não me amas?

─ Não! Claro que não, Ricardo. Tu sabes que eu te amo. ─ confessou irritada. ─ O problema não está aí. Será que não consegues perceber que não se trata de haver ou não amor? ─ Bateu com as mãos nas pernas, frustrada. ─ Eu tenho a minha vida aqui. Não vou largar tudo para ficar contigo. Não vou afastar a Clarinha da vida que tem, dos avós, para ficar contigo. Não te amo ao ponto de te pôr à frente de tudo. Percebes?

─ Eu vou continuar em Lisboa. ─ expliquei, esforçando-me por ser calmo. ─ Tu e a Clarinha ficam a duas horas dos teus pais. Com a idade da Clarinha, tu foste para o continente estudar. Não me parece que os teus pais aceitassem mal que refizesses a tua vida, vindo viver comigo.

─ A Clarinha tem uma relação muito próxima com os avós.

─ Eu conheço os teus pais, Sónia. Eles gostam de ti ao ponto de não querer que sofras em prol deles.

─ Estiveste longe nos últimos quinze anos. ─ recordou, transformando a postura defensiva em ofensiva. ─ Quem pensas tu que és para chegar aqui e achar que sabes tudo sobre todos? O Mundo não gira à tua volta.

─ Que queres, então? Que venha viver para o Faial?

─ Não. Não quero isso. Não suportaria a ideia de te fazer abdicar da tua vida profissional por mim. Aliás, não suportaria a ideia de que tivesses abandonado qualquer dos teus sonhos por mim.

─ E, no entanto, aceitas facilmente que eu abandone o meu maior sonho, que és tu!

Sónia não foi capaz de responder. Em vez disso, escondeu a face nas mãos, os braços apoiados nas pernas. A seguir, passou os dedos pelos cabelos e voltou a olhar para mim.

─ Tenta perceber uma coisa. ─ pediu como uma exigência. ─ Entre nós só haverá uma amizade. A amizade que sempre partilhámos e com a qual sempre nos sentimos muito felizes.

─ Achas que isso é possível, depois do que aconteceu entre nós? ─ Sónia sabia que não, mas não pareceu importar-se. ─  Achas que podemos voltar a ser o Tubbs e o Crockett da infância, ao mesmo tempo que me recordo do momento em que fiz amor contigo?

Sónia levantou-se do sofá. Eu repeti o seu movimento. Ela respondeu:

─ Eu gostava que isso fosse possível. Será muito difícil para mim se, para além de não te poder amar, também não continuares a ser meu amigo.

─ Não me podes amar porque não queres!

─ Não vou repetir as minhas razões. ─ avisou cansada. ─ Não vale a pena. ─ O seu rosto escondeu-se do meu. ─ Alguém dizia que a amizade valia mais que o amor porque a amizade não exigia nada em troca.

─ Era eu quem te dizia isso na adolescência. ─ disse eu, mostrando que sabia ao que ela se referia. ─ Era uma forma de atenuar a paixão que sentia por ti. Repetia a mim mesmo que o amor só servia para estragar e, por isso, era preferível sermos só amigos.

─ Estás a ver…

─ Nessa altura eu não sabia que tu também me amavas. Quando sofremos por amor usamos todos os argumentos para justificar a incapacidade de enfrentar os nossos sentimentos.

Ela voltou a encarar-me, dizendo:

─ Vês algo mais, neste amor, que a morte da nossa amizade?

─ Sim. ─ confirmei com toda a sinceridade. ─ Vejo a felicidade que tu estás a desprezar.

─ Não tenhas ilusões, Ricardo! Nós nunca seriamos felizes como casal. ─ disse ela num tom maternalista. Afastou-se de mim, andando pela sala. ─ Sei bem como tu és nas relações. Quanto tempo duram elas? Quanto tempo durou a maior? ─ Parou para me encarar de longe. ─ Queres que mude a minha vida para me arriscar a ser mais uma?

─ Estás a ser muito estúpida, ao dizer isso. ─ vociferei, irritado. ─ Tu sabes bem porque é que elas não duravam. Ainda no outro dia te disse. Não duravam porque eras tu quem eu procurava nelas. ─ Abanei a cabeça, desconsolado. ─ E na altura, tu achaste isso muito bonito. Lembras-te? ─ Sónia reagiu com um aceno de irrelevância, o que me irritou ainda mais. ─ Pelo menos, foi bonito o suficiente para te levar para a cama.

A reacção dela foi um arregalar de olhos ofendida. Apesar de eu estar magoado, senti que fora longe demais e acabei por lhe pedir desculpa.

─ Talvez tenhas razão. ─ ripostou. ─ Fui mais uma que levaste para a cama.

─ Não, não foste. ─ contrariei. ─ Foste a única com quem fiz amor.

Mais uma vez, ela abanou a cabeça. Estava cansada.

─ Esta conversa não nos vai levar a lado nenhum. ─ concluiu, caminhando para perto da porta. ─ Lamento, mas o nosso amor não tem futuro. Gosto muito de ti e gostava que continuasses a ser o amigo que sempre foste para mim. ─ Não me manifestei, limitando-me a vê-la sem saber que palavras usar para travar a sua saída da sala. ─ Será que podemos voltar ao que éramos?

Respirei fundo. Se já era difícil lidar com o facto de que não iriamos amar-nos, mais difícil seria encarar isso, continuando em contacto com ela. Respondi simplesmente:

─ Lamento.

Durante alguns segundos, Sónia ficou a olhar para mim. Não disse nada, apenas olhou até os seus olhos pestanejarem e deixarem escapar uma lágrima. Ambos sentíamos que era uma despedida para sempre.

─ Não lamentas mais que eu. ─ soluçou.

Sem dizer mais nada, desapareceu pelo corredor. Ouvi os seus passos a subir as escadas para o piso de cima. Eu permaneci estático, perdido pelo desenlace da conversa.

Os pais de Sónia, percebendo que a filha abandonara a sala, vieram ao meu encontro. Revelavam no rosto a tristeza pela suspeita de que não tinha havido entendimento entre nós.

Ao vê-los, pedi:

─ Desculpem ter vindo! Sinto que só vim perturbar-vos. E à Sónia. ─ Eles procuravam confortar-me, mas não sabiam o que dizer. ─ Ainda está a recuperar e eu vim cá para a transtornar com um assunto que não nos leva a lado nenhum.

─ Temos pena que vocês não se tenham entendido. ─ partilhou a senhora Emília. ─ Você é boa pessoa. E só não sei como não descobriram mais cedo o que sentiam um pelo outro.

Encolhi os ombros, sorrindo-lhes com um semblante vencido.

─ Sentimos algo que não é suficientemente forte. ─ desabafei. ─ Pelo menos, não para a Sónia.

─ Na manhã do dia em que tiveram o acidente, ela contou-me que vocês estavam apaixonados.

─ Eu sei.

─ Eu fiquei muito contente e disse à minha filha que o Ricardo era um bom homem e que se esse amor se concretizasse ela deveria refazer a sua vida.

─ No entanto, ela acha que os senhores iriam encarar mal que ela fosse viver comigo.

─ Se isso a fizesse feliz. ─ continuou a mãe. ─ Não escondo que teríamos pena em ver filha e neta partir. Mas…

O senhor Alfredo concluiu a frase:

─ Que pais miseráveis seriamos nós, se puséssemos os nossos interesses à frente da felicidade da nossa filha?

A senhora Emília assentiu em concordância com o marido.

Apesar de perceber que os receios de Sónia em relação aos pais não tinham fundamento, não pensei que isso pudesse fazer diferença perante tantos obstáculos que ela colocara.

─ Seja como for, a Sónia fez a sua opção. ─ finalizei. ─ Não há mais nada a fazer.

Não me demorei mais por casa deles. Fora a minha última tentativa na luta pelo amor da minha amiga de infância e sairia de lá com uma derrota dolorosa.

O senhor Alfredo ofereceu-se para me levar de carro até à Horta. Inicialmente recusei, não querendo dar-lhe esse trabalho. Contudo, ele insistiu deixando bem claro que não seria nenhum incómodo e eu não tinha necessidade de ir procurar um táxi que seria difícil de encontrar tão tarde.

Com a simpatia que lhe era característica, a senhora Emília despediu-se de mim, desejando-me uma boa viagem e muitas felicidades na vida, não deixando de lamentar mais uma vez a forma como as coisas resultaram entre mim e a filha. Mesmo sabendo da improbabilidade de isso acontecer, pediu que os voltasse a visitar, talvez quando a mágoa estivesse arquivada.

Não fui embora, sem lhe deixar um beijo endereçado à pequena Clara.

Ao longo do percurso até à Horta, o senhor Alfredo respeitou o meu silêncio. A minha cabeça fervilhava num turbilhão de amarguras, percebendo que cada quilómetro percorrido era um quilómetro mais longe de Sónia, um quilómetro que jamais seria recuperado.

Ao chegarmos ao bairro, o senhor Alfredo despediu-se, reiterando o convite da sua esposa para que os voltasse a visitar.

─ Talvez um dia… Quem sabe? ─ respondi, não querendo fechar a porta a essa possibilidade.

─ E não guarde rancor à Sónia. ─ pediu, procurando atenuar a raiva que eu pudesse sentir pela filha. ─ Tenho a certeza que ela vai gostar sempre muito de si.

Esbocei um sorriso que vinha envolvido numa mistura de derrota e desilusão. Expliquei:

─ Não lhe guardo rancor. Seria impossível ter por ela qualquer sentimento negativo. Estou apenas magoado.

─ O Ricardo desculpe a minha sinceridade, mas não me parece que a vossa relação volte ao que era. E é pena que uma amizade como a vossa se perca assim.

─ Não deixei de ser amigo dela. Vou apenas afastar-me para ser menos difícil encarar tudo isto. Se ela precisar de mim, sabe onde me encontrar, mas nada voltará a ser como antes.

─ Compreendo. ─ Estendeu-me a mão. ─ Faça boa viagem, Ricardo! Felicidades. E espero que um dia volte ao Faial.

Apertei a sua mão e despedi-me.

Após sair do carro, o senhor Alfredo partiu de regresso a casa, enquanto eu caminhei pela rua deserta onde Sónia morava. Olhei para o céu e vi as estrelas menos nítidas que aquele cenário nocturno perto do vulcão, uma vez que os candeeiros de rua prejudicavam a sua observação.

Entrei em casa, analisando mentalmente como seria o futuro com Sónia. Seria impossível voltarmos a ser os amigos de sempre. Ela e eu abrimos uma porta que não conseguimos fechar, ou pelo menos, fechar e esquecer o que acontecera.

Deixei-me cair no sofá e olhei para o vazio, recordando os momentos passados com ela na ilha. Teria sido mais fácil nunca termos sabido que nos amávamos? Talvez. Naquele momento, a frustração de sair da ilha sem lhe confessar o meu amor pareceu menos dolorosa do que partir a saber que ela me amava, mas não queria dar continuidade a esse amor. Anos e anos a pensar que ela só me via como amigo e afinal…

No entanto, não havia nada a fazer, a não ser partir e esperar que o tempo cicatrizasse as feridas daquele amor. Sabia que ela também estaria a sofrer. Sofria por culpa própria, mas isso não me fez sentir melhor. Aliás, senti que mesmo com toda a intransigência dela, eu deveria mostrar algum altruísmo. Por isso, peguei no telemóvel e enviei-lhe a seguinte mensagem: “Nunca vou deixar de te amar, mas dá-me algum tempo e eu tentarei voltar a ser o teu amigo de sempre”. Não obtive qualquer resposta.

Não sabia muito bem o que ia ser o meu futuro, quando chegasse a Lisboa. Recusara Singapura, mas não estava arrependido, pois já não me sentia com disposição para mudar radicalmente o meu dia-a-dia por causa de um projecto. Financeiramente era aliciante, porém isso não era tudo. Concluí que tinha de abrandar um pouco no trabalho e dedicar mais tempo a mim, a fazer coisas que tanto gostava e às quais dispensava tão pouco tempo, como a fotografia.

Levantei-me do sofá e caminhei até ao quarto. Os meus olhos circularam pelo espaço que fora o ninho de amor mais bonito que conhecera até àquele dia. Observava a realidade que me envolvia com aquela sensação de despedida, de quem vai partir para nunca mais voltar. Convenci-me que um dia conheceria alguém que me fizesse esquecer aquela mágoa, que fechasse todas as feridas que trazia no coração.

Não acreditei que isso pudesse suceder.

Ao fundo da cama, a bagagem estava pronta. Tudo arrumado para a viagem. Esperava conseguir dormir bem para que a última noite no Faial não fosse uma lembrança infeliz.

Configurei o alarme do telemóvel para que nenhuma inesperada preguiça matinal me fizesse dormir para além do desejado e atrasar-me. Deixei-o junto à cabeceira da cama e permaneci acordado algum tempo, com a luz acesa, na esperança de obter uma resposta à mensagem que enviara a Sónia. Ao fim de alguns minutos, apaguei a luz e adormeci sem que isso acontecesse.

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