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NUNCA NEVA NO MEU ANIVERSÁRIO

XI

Uma nuvem branca cobriu o Sol, atenuando a sensação de calor e retirando brilho às flores espalhadas um pouco por cada campa. O funeral chegava ao fim e Clarinha recebia o consolo da tia, irmã do seu pai, que viera acompanhar o irmão ao último descanso.

Não quis perturbar o momento partilhado entre elas e aguardei que Clarinha viesse até mim. Nunca conhecera pessoalmente o seu pai, cujo corpo descera ao descanso eterno num caixão que começava a ficar coberto pela terra que o coveiro atirava de forma desprendida. Lamentava a sua morte, mas não evitava a recordação de alívio no fim da tarde anterior.

Quando o senhor Alfredo viera ao meu encontro, após eu entrar na sala e ver Clarinha num choro desesperado, a minha única reacção foi balbuciar:

─ A Sónia…

─ Continua em coma. ─ disse ele com um semblante agastado. Eu fiquei confuso. No entanto, ele explicou antes que eu pudesse perguntar o que quer que fosse. ─ Parece que esta família está apontada à tragédia. ─ Abanou a cabeça. ─ O pai da Clarinha.

─ Que aconteceu? ─ indaguei com a sensação de alívio por Sónia estar viva.

─ Teve um enfarte, ontem à noite. ─ informou com tristeza. ─ Faleceu esta manhã no hospital em Ponta Delgada. A irmã ligou, a meio da tarde, para informar a Sónia. ─ Fez um esgar de incompreensão. ─ Nem sabia o que acontecera à cunhada. O irmão não lhe dissera.

─ Mas o enfarte foi por causa do estado da Sónia? ─ inquiri, como sendo uma consequência natural, mesmo sendo ex-marido.

─ Não! ─ exclamou o senhor Alfredo com um sorriso irónico. ─ Estava numa noite de copos com amigos. ─ Abanei a cabeça, incrédulo. Ele apontou para a outra senhora. ─ Como não queríamos deixar o hospital, pedimos-lhe que trouxesse a Clara até nós para lhe darmos a notícia.

Então o choro desesperado de Clarinha era por causa da morte do pai. Nada mais natural. Senti uma enorme compaixão pela criança que perdia o pai e corria o risco de também ficar órfã de mãe.

─ O funeral vai ser aqui na Horta. ─ continuou o senhor Alfredo. ─ Nós não temos cabeça nenhuma para lá ir, mas a Clarinha…

─ Claro. É a filha. ─ concordei com a sugestão de que Clara deveria ir ao enterro do pai.

─ Sei que é uma situação complicada, mas será que o Ricardo podia fazer-nos esse favor? ─ O meu rosto revelou toda a surpresa com o pedido. ─ Poderia acompanhar a Clarinha no funeral?

Que podia eu responder? O pobre casal que já tinha de lidar com o facto de a filha estar em coma no hospital, via-se perante a exigência de acompanhar a neta ao funeral do pai. Por mais difícil que a situação também fosse para mim, aceitei o seu pedido e descansei-o, encarregando-me de ir ao funeral com Clarinha.

Assim, ali estava eu a um metro da campa do homem que desprezara a mulher que eu amava com tanta intensidade. Vi a tia de Clarinha trazê-la até mim pela mão. Era uma mulher mais nova que eu, rosto parecido com o do falecido irmão e uma postura fria sem ser antipática.

─ Obrigado por ter vindo. ─ agradeceu, não escondendo os olhos inchados pelas lágrimas, ao retirar os óculos escuros. ─ E obrigado por ter trazido a Clarinha.

─ Lamento a sua perda!

Ela assentiu com a cabeça em forma de agradecimento.

Quando chegara, procurei-a entre os presentes e apresentei-me, explicando as razões da ausência dos sogros do falecido, pela qual eu viera em representação. Notei que essa ausência não lhe agradara, mas se tinha algo a dizer não seria a mim.

─ Espero que a Sónia recupere! ─ desejou, estendendo-me a mão em despedida. ─ Dê cumprimentos aos avós da Clarinha.

E com aquelas palavras afastou-se, recolocando os óculos na face.

Clarinha segurou a minha mão, ainda com uma lágrima a escorrer no rosto. Tentei confortá-la e ela abraçou-me com muita força, quase como se tivesse medo que também eu partisse.

Ao sairmos do cemitério, perguntei-lhe se ela queria alguma coisa ou que eu a levasse a algum lugar. Clara pediu apenas que eu a levasse até ao avós, ao hospital, para estar perto da mãe.

Perto dos portões do cemitério, conseguimos apanhar um táxi que nos transportou dali até ao hospital. Caminhei pelo edifício com Clarinha pela mão, procurando dar-lhe algum conforto com sorrisos, quando ela olhava para mim.

Ao chegarmos ao piso da Unidade de Cuidados Intensivos, não encontrei nem o senhor Alfredo, nem a senhora Emília. Interpelei a primeira enfermeira que vi e perguntei-lhe por Sónia.

A sua resposta foi música para os nossos ouvidos:

─ O estado da paciente evoluiu favoravelmente e, por isso, foi transferida para outra unidade.

─ Saiu do coma? ─ questionei com um largo sorriso.

─ Não sei pormenores. ─ respondeu a enfermeira. ─ Mas se saiu da UCI é porque está melhor e já não corre risco de vida.

Agradeci a informação e olhei para Clara, dizendo:

─ Ouviste? A mamã está melhor.

O seu rosto choroso ofereceu-me um ténue sorriso.

A enfermeira explicou-me para onde ela tinha sido transferida e nós circulámos pelos corredores do hospital para a encontrar. Quando chegámos ao local descrito, encontrámos os avós de Clarinha junto à porta do quarto. Ambos sorriram à neta que correu ao seu encontro.

─ Quero ver a minha mãe. ─ pediu Clarinha à avó.

A avó assentiu e explicou-lhe que deveria ter calma, pois a mãe estava muito fraca.

─ Como está ela? ─ inquiri a ambos.

O senhor Alfredo fez-me sinal para aguardar e disse à esposa que levasse a neta até à mãe.

─ Como está ela? ─ repeti.

O rosto do pai de Sónia era revelador da satisfação pelas melhoras da filha. Explicou-me que durante a noite, o seu estado de saúde apresentara melhorias significativas que levaram os médicos a transferi-la da Unidade de Cuidados Intensivos para ali, uma vez que já não apresentava risco de vida, apesar de se manter em coma. No entanto, para felicidade de todos, Sónia despertara do estado de coma nessa manhã. Aqui, o rosto do senhor Alfredo alterou-se e com uma voz meio atormentada, disse:

─ O traumatismo craniano provocou-lhe amnesia.

─ Não se lembra de nada? ─ inquiri, surpreso.

─ Não se lembra das últimas semanas. ─ explicou melhor. ─ Por exemplo, não se lembra que o Ricardo tem estado cá com ela.

─ E essa amnesia é permanente?

─ O médico diz que é uma incógnita. Tanto pode recordar tudo já hoje, como pode nunca vir a recuperar essas lembranças.

Senti uma enorme amargura por ela não se lembrar dos momentos mais bonitos que alguma vez partilháramos em conjunto. Abanei a cabeça, sendo inundado por uma mistura de sentimentos tão paradoxais como era a alegria por ela estar melhor e a tristeza por não se recordar do nosso amor. Concluí que Sónia sobrevivera ao acidente, mas aquela que me amara poderia ter morrido nele.

─ Ela já sabe da morte do ex-marido?

─ Sim. Não queríamos contar-lhe, mas seria difícil para a Clarinha esconder isso da mãe, por isso, optámos por lhe contar.

─ E ela?

─ Uma grande tristeza. ─ relatou o pai. ─ Foi um casamento de muitos anos e era o pai da filha.

Assenti com a cabeça, concordando que não era uma realidade fácil de encarar.

─ Posso vê-la?

─ Sim, claro.

O senhor Alfredo acompanhou-me na entrada para o quarto. O espaço era idêntico àquele onde eu ficara a seguir ao acidente. Paredes frias, ambiente abafado e duas camas, onde a segunda estava vaga.

Não consegui evitar o choque de ver Sónia deitada numa cama de hospital, ainda com a agulha do soro espetada no braço e as marcas do acidente no rosto. Tinha os olhos inchados e as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto. Quando me viu, sorriu e exclamou:

─ Tubbs!

Forcei um sorriso e disse:

─ Olá… Crockett!

Aproximei-me da cama e dei-lhe um beijo na testa, segurando ao mesmo tempo a sua mão. Ela retribuiu a carícia, apertando a minha mão com ternura.

─ Desculpa, olhar assim para ti. ─ disse ela, observando-me como se não me visse desde a juventude. ─ A minha mãe já me contou o que aconteceu… Desculpa, mas não consigo lembrar-me de nada destes últimos dias.

─ Não te preocupes com isso. ─ retorqui. ─ O importante é que estás melhor.

A senhora Emília, apesar da oposição da neta, achou que deveríamos ficar sozinhos a conversar e saiu do quarto com Clarinha.

─ Estavas a chorar? ─ inquiri, assim que ficámos sozinhos.

Sónia confirmou com a cabeça e fechou os olhos, voltando a soluçar com tristeza. Depois, balbuciou:

─ O pai da Clarinha… Coitado… Pobre Clarinha! ─ Limpou as lágrimas com a mão. ─ Obrigado, Tubbs! Os meus pais disseram-me que acompanhaste a Clarinha ao funeral. ─ Encolhi os ombros, não dando importância a isso. ─ Deves estar a odiar-me por não me lembrar dos dias passados juntos.

─ Não digas tolices. Tivemos um acidente muito grave. Ficaste muito ferida. Tenho a certeza que com o tempo, vais recordar-te de tudo.

─ Podes falar-me do que aconteceu?

─ Do acidente?

─ Não. ─ Forçou um sorriso irónico. ─ Essa parte, dispenso. Fala-me do que fizemos, desde que chegaste.

De tudo o que acontecera, o mais importante eu não poderia contar. Seria decerto uma grande confusão para ela, saber que se apaixonara pelo amigo de infância e fizera amor com ele, sem se recordar dos sentimentos que haviam despertado nela após o beijo apaixonado trocado sob o testemunho do Vulcão dos Capelinhos. Sendo assim, optei por fazer um resumo dos nossos passeios nesses dias.

─ Quando voltas? ─ questionou, após eu terminar o relato aleatório dos locais que ela me levara a visitar.

─ Ainda não defini. Depois do acidente, adiei o regresso a até tu ficares bem.

─ És um querido! ─ afirmou com ternura. De súbito, voltou a chorar. ─ Não sei o que vai ser de mim. Agora com a morte do pai da Clarinha. Ai, Tubbs… Apesar do divórcio, tinha a esperança que ele voltasse para mim. Mas agora… Meu Deus, ele está morto. ─ Apertou a minha mão em busca de consolo. ─ Eu amava-o tanto!

Aquelas palavras destroçaram-me o coração.

─ Tem calma! ─ pedi, procurando parecer tranquilo. ─ Tu vais ultrapassar isso. Primeiro tens que ficar boa. Depois, irás refazer a tua vida.

Sónia abanou a cabeça descrente.

─ Tenho de ir andando. ─ despedi-me, procurando sair dali antes que revelasse todo o meu desespero por ver o nosso amor assassinado por aquela amnesia. ─ Amanhã venho visitar-te outra vez.

Despedi-me dela com mais um beijo na sua testa e saí do quarto. Passei por Clarinha e pelos avós sem dizer muito mais que as despedidas. Estava destroçado e sentia-o de uma forma mais dolorosa que as dores provocadas pelo impacto do acidente. Afinal, as mazelas mais graves eram invisíveis e incuráveis.

Abandonei o hospital, procurando convencer-me de que as brumas da amnesia se iriam dissipar na cabeça de Sónia. Porém, nada me garantia que isso viesse a acontecer.

Caminhei pelo passeio paralelo à estrada, rumo ao bairro onde ela vivia. Iria para sua casa embebedar-me nas recordações dos momentos em que a amara com tanta paixão na cama do meu quarto. Só de entrar, ao passar a porta da rua, o cheiro que pairava no ambiente recordava o seu perfume, o aroma da sua pele.

Apesar da incerteza do futuro, não estava disposto a desistir facilmente daquele amor. Como me comprometera a dar uma resposta acerca de Singapura, aproveitei para ligar ao meu patrão e informá-lo que declinaria o convite. A resposta não lhe agradou, mas não havia nada a fazer, senão encontrar outra pessoa para o lugar que eu recusara. No entanto, avisou-me que eu não podia ficar no Faial indefinidamente e que deveria regressar a Lisboa rapidamente, pois a minha presença era necessária para uma reunião com um novo cliente.

Perante isto, liguei à minha secretária e pedi-lhe para me reservar um lugar no voo para Lisboa, daí a três dias.

A noite que se seguiu foi muito mal dormida. A cabeça não parava de ver e rever os momentos com Sónia. Antes de ter ido para a cama, observei todas as fotos que fizera durante a estadia nos Açores, vendo tantos registos de felicidade de ambos pela companhia partilhada. O meu maior desejo era poder entrar nas fotos e viajar no tempo até alguns dias antes para modificar o que acontecera na estrada para Varadouro.

E foi a olhar para as fotos que surgiu na minha mente uma possibilidade de recuperar a memória de Sónia. Na tarde seguinte, iria ao hospital com a máquina fotográfica para lhe mostrar as fotos e tentar reavivar-lhe a mente.

 

 

 

─ Lamento, Ricardo! ─ exclamou Sónia com ar triste, quando lhe mostrei dezenas de fotos nossas em vários pontos do Faial e do Pico. ─ Estou a olhar para uma mulher como se ela não fosse eu, pois não me recordo de nenhum desses momentos.

Talvez não sejas mesmo tu, foi o que pensei, pois aquela era a mulher que me amara.

No quarto de hospital, segurando a máquina no colo de Sónia, constatei a dura realidade do fracasso daquela tentativa para pôr fim à sua amnesia.

Nunca fui pessoa de desistir. Porém, confesso que naquele momento foi essa a minha vontade, pois não encontrei nenhuma solução para além da espera indefinida de que Sónia se recordasse do nosso amor.

─ Vou regressar ao continente. ─ informei, ao desligar a máquina. ─ Precisam de mim na empresa.

─ Tenho pena que tenhas de ir. ─ lamentou. ─ Sei que passámos vários dias juntos, mas na minha cabeça, nunca estive contigo. Lamento que não possas ficar mais algum tempo.

─ Eu também.

─ Quando partes?

─ Daqui a dois dias. Mas despeço-me hoje de ti.

Sónia franziu o rosto com estranheza e interrogou:

─ Não voltas cá até partires?

─ Não. ─ O seu rosto foi revelador da confusão pela minha atitude. ─ Tenho esperança que um dia recuperes as memórias dos momentos que passámos juntos. E nessa altura, perceberás porque o estou a fazer.

Pensei que ela ficasse ainda mais confusa por eu dizer aquilo e questionasse ao que me estava a referir. No entanto, a sua reacção foi aceitar com um simples lamento.

─ Espero que voltes a visitar-me. ─ pediu, quando lhe dei um beijo de despedida no rosto.

Sem conseguir encarar o seu olhar, justifiquei:

─ Sabes como a minha vida é complicada para ter disponibilidade para férias. Mas, farei os possíveis.

Sónia esboçou um sorriso.

Com a máquina na mão, lutei com o meu corpo para sair dali. Não conseguiria deixar de amá-la. Nunca o conseguira em tantos anos e não iria certamente consegui-lo depois de sentir o sabor da felicidade do seu amor. Contudo, por mais que isso fosse doloroso, suspirei um “até um dia destes” e caminhei para a porta.

─ Gosto muito de ti, Ricardo!

─ E eu de ti, Sónia!

─ Boa sorte em Singapura! ─ desejou.

─ Obrig…

O agradecimento morreu nos meus lábios, antes de terminar a palavra. A revelação atingira-me de tal forma que quase me desequilibrou. Parei a minha passada e olhei para trás como se não fosse possível, aquilo que estava a imaginar.

─ Como te recordas de Singapura?

O rosto de Sónia mudou de cor. Procurou uma rápida resposta, o que a fez engasgar-se. Eu poderia ter pensado que aquilo fora um foco de luz na escuridão da amnesia. Só que conhecia demasiado bem a minha amiga de infância e o seu rosto revelou-me algo impensável.

─ Foi a minha mãe que me disse.

Se ela me tivesse dito que não sabia como dissera aquilo, eu seria levado a crer que fora de facto um sinal de recuperação. Porém, ao mentir, notei que procurava dar continuidade à amnesia.

─ Ninguém sabia que eu ia para Singapura, além de ti.

─ Eu devo ter contado à minha mãe. ─ insistiu.

─ Antes do acidente, tu disseste que não tinhas contado à tua mãe. ─ Sónia procurou argumentar, mas eu continuei. ─ E sabes porque disseste isso? Porque tinhas contado à tua mãe que estávamos apaixonados e não lhe quiseste dizer que eu ia para longe.

Sónia reagiu como quem fora descoberta e não com surpresa.

─ Ricardo…

─ Eu não acredito nisto.

─ Ricardo…

─ Tu estás a fazer de conta que não te lembras do que aconteceu entre nós? Estás a fingir a amnesia?

Sónia não conseguiu responder, limitando-se a baixar o olhar.

O choque e a mágoa que senti foram tão brutais que não soube o que dizer ou fazer. Quis sair dali e desprezá-la, mas quem consegue fazer isso à mulher que ama? Apertei o queixo, boquiaberto com a sua capacidade de me enganar. Baixei o olhar para o chão e abanei a cabeça. Por fim, voltei a virar-me para me ir embora.

─ Espera! ─ pediu. ─ Por favor, ouve-me! Não te vás embora assim.

Eu parei sem voltar a olhar para ela. Não conseguiria encarar o seu rosto sem a olhar com raiva por ela desprezar o meu amor de uma forma tão desonesta.

─ Não quero falar, Sónia. Não quero dizer coisas de que me possa vir a arrepender. E, para além disso, por mais que me sinta magoado, não quero prejudicar a tua saúde.

─ Por favor, Ricardo!

─ Eu vi-te chorar…

─ Estava a chorar por ter de fazer esta representação.

─ … a dizer que amavas o teu falecido marido.

─ O que disse não é o que sinto.

Soltei um riso irónico e contrapus:

─ Sim… Já percebi que tens grande capacidade para representar. ─ Houve um silêncio em resposta à minha crítica. Não me mexi. ─ Não percebo o que sentes. Pensava que te percebia, mas desde aquele beijo, já subi ao céu e desci ao inferno.

─ Desculpa! Espero que me possas perdoar. Foi a maneira que encontrei para te afastar. Foi errado, eu sei. Não posso deixar que me ames e coloques em causa tudo aquilo pelo qual lutaste toda a vida.

Nesse momento, voltei-me para ela e fulminei-a com o olhar.

─ Quem julgas tu que és para decidires a minha vida? ─ questionei irritado.

─ Sou a mulher que te ama. ─ respondeu com calma. ─ Ao ponto de não deixar que te prejudiques por amares alguém que não se pode adaptar a ti.

Não fui capaz de argumentar nada. Naquele momento, amava-a tanto quanto a odiava. Ponderei o melhor que consegui em meia dúzia de segundos e a minha reacção foi sair do quarto sem dizer mais nada. Sónia chamou-me, mas nada travou o meu movimento. Nem os seus pais no corredor do hospital.

Caminhei tão absorvido nos pensamentos que nem me recordo do percurso que fizera até casa dela. Percorrera a distância entre o hospital e o bairro automaticamente, como um avião a voar em piloto automático.

Ao entrar em casa, sentei-me no sofá e deixei-me ficar parado, matutando em tudo o que acontecera. O tempo passou sem que eu me mexesse. De tal forma que anoiteceu e eu permaneci na escuridão da casa, distraído pelos focos de luz ténues dos humildes cadeeiros de rua.

Só teria de passar mais um dia no Faial. A minha vontade era partir daquela ilha imediatamente. O cenário de múltiplas boas recordações transformara-se num álbum de imagens que me alfinetava a alma. Se pudesse, teria regressado essa noite ao continente, nem que fosse a nado.

Em momento algum coloquei a hipótese de voltar ao hospital, nem sequer falar com Sónia. Sabia que ela iria tentar voltar a falar comigo, quando a poeira da amargura assentasse, mas seria difícil que a nossa bonita amizade voltasse ao que era. Com a dor ainda quente, o meu desejo era nunca mais saber dela. O meu último contacto seria para devolver a chave de casa. E mesmo nisso faria os possíveis para a evitar, deixando a chave aos pais.

Para minha surpresa, o senhor Alfredo veio visitar-me após o almoço do meu último dia na ilha. Convidei-o a entrar e foi ele que me disse que Sónia iria ter alta do hospital nessa tarde.

─ Pensei que talvez quisesse ir lá falar com ela, antes de se ir embora. ─ sugeriu. ─ Ela não agiu bem, mas amigos como vocês são… Enfim… O Ricardo não pode partir sem uma última conversa.

─ O senhor sabia? ─ questionei. O seu silêncio confirmou. ─ A senhora Emília?

─ A Sónia pediu-nos para confirmar a amnesia. Não concordei, nem a mãe, mas…

─ É vossa filha. ─ completei. ─ Eu compreendo e não vos guardo rancor por isso.

─ E também não deve guardar rancor à Sónia.

─ Não se trata de rancor. ─ corrigi. ─ Estou magoado. Nada que possamos falar poderá atenuar a mágoa que sinto. E tenho o dever para comigo de me proteger.

─ Compreendo… Se mudar de ideias, sabe onde a encontrar. Se não, quando partir pode deixar a chave aqui com a vizinha do lado. ─ Estendeu-me a mão. ─ Faça boa viagem, Ricardo! E espero que esta não seja a última vez que o estou a ver.

Nessa tarde, Sónia teve alta do hospital e foi para casa dos pais para dar seguimento à recuperação. Enquanto isso, eu arrumava as minhas coisas em sua casa, sem dar grande atenção ao que fazia, pois a minha cabeça parecia um martelo. Não! Não iria falar com ela. Porém, logo de seguida, constatava que não podia partir sem falar uma última vez com a mulher da minha vida.

Não sabia bem o que esperar de um último reencontro. Não queria desistir assim dela, mas sentia-me tão magoado que me era difícil confrontá-la. Eu que me orgulhava de sair das relações sem cicatrizes, ali estava a sofrer de múltiplos cortes de amor. Afinal, eu nunca amara mulher nenhuma, só partilhara paixão e prazer, relações que duravam entre o pouco e o quase nada, pois não me completavam, não me realizavam, não me faziam sentir aquela dor na alma que a recordação de Sónia me provocava.

Tantas mulheres, Ricardo, tantas relações… Penitenciei-me por as ter magoado, se bem que nem todas saíram assim tão magoadas das relações. Houve muitas que procuraram em mim unicamente aquilo que eu procurava nelas, sexo e adeus.

Sónia era diferente de todas, era aquela pessoa que me conhecia na perfeição, que me lia os pensamentos, que completava as minhas frases. Era a pessoa que me aquecia só com o seu sorriso, que me fazia perder no seu olhar com a certeza de que nele só encontraria o reflexo da minha alma. Ela era a mulher com quem desejava estar encostado no sofá a ver as novelas que não gosto, que gostaria de levar a conhecer todos os locais que eu conhecera, com quem quereria adormecer todas as noites e acordar todas as manhãs. Por mais que tentasse convencer-me do contrário, eu nunca iria encontrar ninguém como ela. E por isso, não podia desistir assim, sem tentar uma última vez.

Assim, nessa noite, saí de casa e fui até à estrada principal para chamar um táxi e pedir que me levasse a Varadouro.

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