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NUNCA NEVA NO MEU ANIVERSÁRIO

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Ao acordar, percebi que estava deitado numa cama de hospital. Tinha dores, mas não me pareceu que tivesse qualquer osso partido. Para além dos arranhões, hematomas e escoriações, o sinal mais evidente do acidente era a ligadura á volta do braço, onde um pedaço metálico se espetara e provocara a perda de sangue que levou à minha perca de sentidos.

Alguns minutos após o meu despertar, uma enfermeira surgiu no meu campo de visão. Veio ver como eu estava e sorriu por constatar que eu acordara.

─ Bom dia! Como se sente?

─ Dorido…

─ Não se preocupe. Não tem nada de grave.

─ E a Sónia? ─ A enfermeira franziu o sobrolho, não reconhecendo o nome. ─ A outra pessoa que vinha no carro?

─ Não lhe sei dizer. Ela não está neste sector. ─ explicou, preocupando-se em ver se estava tudo bem à minha volta. O meu rosto deveria ser revelador da preocupação. ─ Vou chamar o médico para falar consigo e informá-lo do estado da sua amiga.

─ Obrigado.

Penso que a enfermeira deve ter ido logo procurar o médico e talvez nem tenha passado muito tempo até ao momento em que ele veio falar comigo. No entanto, a ansiedade era tanta que tive a sensação de estar horas à espera. Ao chegar, lançou-me um sorriso tranquilizador e repetiu o mesmo que a enfermeira.

─ Não estou preocupado comigo, doutor. ─ expliquei, assustado. ─ Quero saber como está a minha amiga que vinha no carro comigo.

─ A outra senhora está na Unidade de Cuidados Intensivos. ─ informou, alterando o semblante para um ar consternado. ─ O seu estado é muito grave. Sofreu um traumatismo craniano e várias hemorragias. Continua em coma.

Tentei articular alguma palavra sem sucesso. Acabei por balbuciar:

─ Sobre… vive?

─ As próximas horas serão cruciais. Não lhe vou mentir. O estado dela é muito grave.

─ Pos… Posso vê-la?

─ Não, enquanto estiver na UCI.

Perante a questão da minha permanência ali, o médico disse que eu tinha que continuar em observação mais algum tempo e que depois teria alta. Solicitei o meu telemóvel para contactar o escritório e avisar Milu que o meu regresso iria sofrer um atraso.

O acidente acontecera no fim da tarde anterior à manhã em que acordei no hospital. A meio dessa mesma manhã, liguei para a minha secretária em Lisboa. Após os cumprimentos e a conversa circunstancial, pedi-lhe que adiasse o meu voo para a capital indefinidamente. Relatei-lhe que tinham acontecido alguns imprevistos e que eu iria permanecer por ali mais algum tempo. Não falei no acidente, pois isso geraria apreensão na minha equipa e colocaria os directores em sobressalto.

No fim de ouvir todas as minhas indicações, Milu lembrou que eu ficara de dar uma resposta à Administração, quando voltasse, acerca da minha ida para Singapura. Uma vez que o meu regresso era indefinido, inquiriu-me o que deveria fazer, caso fosse confrontada com isso.

O meu impulso foi dizer-lhe que lhes comunicasse a minha recusa, só que nesse instante, uma possibilidade me assolou a mente. Se Sónia morresse… Se Sónia morresse, eu iria querer ficar bem longe de tudo o que me pudesse fazer lembrar de como estivera perto da felicidade e como a perdera tão tragicamente. Ir para longe poderia ser uma boa forma de me embrenhar no trabalho e usar o tempo para ultrapassar a minha dor. E por mais dolorosa que a realidade pudesse ser, eu tinha que ter noção, após as palavras do médico, que esse era o cenário mais provável.

Perante a insistência do que deveria fazer, pedi a Milu que se houvesse urgência na minha resposta, ela dissesse que dentro de uns dias eu comunicaria a decisão, mesmo que ainda não tivesse regressado.

O aspecto do quarto do hospital era frio, apesar de sentir calor. Ao lado da minha cama estava outra, vazia, onde eu alimentava a secreta esperança de que a qualquer momento trouxessem Sónia recuperada para convalescer ali a meu lado.

Os minutos pareceram horas a passar sem nada para fazer além de recordar os momentos vividos com Sónia. Cada vez que uma enfermeira passava pelo quarto, sentia a esperança de receber novidades acerca do estado de saúde de Sónia, sentindo logo de seguida um estremecimento pela possibilidade de me virem dizer que ela falecera. Nenhuma das duas aconteceu nesse dia.

No dia seguinte, recebi a minha primeira visita no hospital.

O senhor Alfredo e a senhora Emília deslocaram-se ao meu quarto para saber como estava. Pediram desculpa por não ter vindo antes, mas tinham passado o dia anterior nas imediações da UCI a aguardar as melhorias do estado da filha.

─ Não tem importância. ─ descansei-os. ─ É natural que queiram estar junto dela. Eu próprio estaria lá, se não estivesse aqui. Como está ela?

A senhora Emília abanou a cabeça com o rosto choroso. Foi o marido quem respondeu:

─ Continua em coma. Os médicos mantêm muitas reservas em relação à evolução do estado clinico dela. ─ O sofrimento de pai travou-lhe o discurso. Suspirou. ─ É muito grave.

Não fui capaz de dizer uma palavra.

─ Ela gosta muito de si. ─ afirmou a senhora Emília, limpando uma lágrima com um lenço de papel.

─ Eu sei. Eu também gosto muito dela.

─ Vá! ─ exclamou o senhor Alfredo. ─ Vamos ter esperança! Deus é grande. Temos de ter fé que ela vai recuperar.

A visita não demorou muito mais tempo. Despediram-se com a promessa que voltariam assim que possível. Porém, eu disse-lhes para não se preocuparem comigo, pois o importante era a Sónia.

Antes de saírem, o senhor Alfredo sugeriu que eu ficasse em casa deles, quando tivesse alta. Agradeci o convite, mas pedi que me permitissem ficar em casa de Sónia, pois era mais perto do hospital e eu queria ficar o mais perto possível dela. Ambos compreenderam e ele deixou-me ficar a chave da casa.

Recebi alta do hospital a meio da tarde. Ainda pensei em deslocar-me à UCI para saber de Sónia, mas o médico que me dera alta também me dera a informação que não havia alterações.

O hospital não ficava longe do bairro de Sónia. Ao sair do perímetro do edifício, bastou-me descer a rua para alcançar a entrada do bairro, onde tantas vezes ela deixava o carro. Foi estranho regressar ali.

Algumas vizinhas, apesar de nunca terem falado comigo, ao reconhecerem-me perguntaram com ela estava. Informei-as da gravidade do estado de Sónia e todas lamentaram que uma pessoa tão maravilhosa tivesse tido aquele trágico desfecho.

Sei que não fizeram por mal, mas parecia que já lhe estavam a fazer o funeral, ao referirem-se a ela como se já tivesse partido.

Entrei na casa com a dor de quem estava a perder a mulher que amava. Olhei para o sofá onde a beijara com tanta paixão, depois para a porta do quarto aberta, vendo a cama onde fizera amor com ela. Tudo era recordação, tudo era dor.

Eu podia adiar o regresso. No entanto, não podia adiar a coordenação das minhas equipas de consultores. E, por isso, por muito que não tivesse cabeça para trabalhar, tive de fazer da casa de Sónia um escritório temporário para gerir o meu cargo.

Na tarde seguinte, a seguir ao almoço, pouco antes de me preparar para sair de casa e ir ao hospital, ouvi bater à porta. Ao abrir, vi os pais de Sónia. Quase temi o pior, mas o seu sorriso esforçado revelou que eu não deveria temer más notícias. Pelo menos, por enquanto.

─ Viemos ver como estava. ─ disse o senhor Alfredo. ─ Se precisa de alguma coisa.

─ Não, obrigado. Como está a Sónia?

─ Ainda não há alterações. Falámos com o médico de manhã. E agora, aproveitámos para passar por aqui para saber como estava o Ricardo.

─ Eu estou bem. ─ Apontei para a ligadura no braço. ─ Isto não é nada. ─ Convidei-os a sentar. ─ E a Clarinha?

─ Ficou no Varadouro. ─ disse a avó. ─ Está muito triste e preocupada com a mãe, mas não queremos que ela passe o tempo no hospital connosco. Por isso, deixámo-la com as amiguinhas.

Assenti com a cabeça, concordando com aquela opção.

─ Pensei que pudesse estar com o pai. ─ sugeri. ─ Que ele tivesse vindo ver a Sónia. ─ Nesse momento, equacionei a hipótese de ninguém lhe ter contado. ─ Ele sabe, não sabe?

─ Sim. ─ confirmou o senhor Alfredo. ─ Eu liguei-lhe no dia a seguir ao acidente. ─ Vi a senhora Emília abanar a cabeça descontente. ─ Disse que viria visitá-la quando pudesse. ─ Encolheu os ombros. ─ Posso estar a ser injusto, mas não notei que tivesse ficado muito abalado.

─ Não pensem nisso. ─ desvalorizei. ─ Nós estamos cá para o que for preciso.

Como eu também me preparava para ir ao hospital, acabámos por seguir juntos para lá, sempre com a secreta esperança de receber boas notícias. No entanto, para ser sincero, grave como era o estado de Sónia, já era bom não receber más notícias.

─ Não houve alterações no boletim clinico. ─ informou o médico ao ser interpelado por nós, à chegada ao hospital. ─ O pós-operatório está a evoluir bem. ─ Sónia fora operada na noite do acidente, devido às hemorragias internas. ─ O que nos preocupa é os danos causados pelo traumatismo craniano.

─ Ela continua em coma? ─ indagou o pai. O médico confirmou. ─ E ainda corre risco de vida?

─ A sua filha está estável, mas o seu estado ainda inspira muito cuidado. Enquanto estiver na UCI, temos de ser muito reservados com a evolução do seu estado clinico.

─ Só sairá de lá quando sair do coma? ─ questionei.

─ Não necessariamente. Logo que esteja estável e não corra risco de vida, ela poderá sair da UCI. No entanto, a duração do estado de coma é uma incógnita.

A pergunta seguinte que se impunha assustou-me de tal forma que não fui capaz de a fazer. Porém, a mãe teve essa coragem:

─ Ela pode nunca acordar?

O médico hesitou, talvez procurando a forma mais eufemística de explicar, o que acabou por resultar em:

─ Não vamos pensar nisso agora. Temos de ter esperança.

Nessa tarde em que estivera perto da UCI, fazendo companhia aos pais de Sónia e aguardando novidades, o patrão e os colegas dela vieram saber como ela estava. Assim que souberam, cancelaram os passeios da tarde e deslocaram-se ao hospital para a verem.

Foi o senhor Alfredo quem explicou a todos o estado da filha. Os semblantes ficaram carregados, confrontados com a gravidade da situação.

Delfim olhou para mim e perguntou como acontecera o acidente. Eu fiz uma descrição breve, escudando-me no facto de que não me lembrava muito bem, uma vez que não era um momento que quisesse estar a reviver com o relato.

Curiosamente, Marques lembrou-se de fazer a pergunta que eu ainda não tivera interesse em saber:

─ E o condutor do outro carro?

─ Morreu. ─ respondeu o senhor Alfredo. ─ Não resistiu aos ferimentos.

Nesse instante, o meu telemóvel tocou. Era uma chamada da minha secretária, a comunicar que CEO da minha empresa pedira para eu entrar em contacto com ele.

Como todo o grupo estava a conversar de vários assuntos à volta do sucedido, avisei-os que ia até à cafetaria do hospital e já voltava.

Alguns minutos mais tarde, após pedir um café e sentar-me ao lado de uma pequena mesa, na cafetaria, peguei no telemóvel e liguei para o meu patrão.

─ Como estás, Ricardo? ─ perguntou, ao atender, com o seu tradicional tom bem-disposto. ─ Ainda em férias. Quando voltas?

─ Ainda não sei.

─ Não te quero pressionar, mas preciso de saber se vais avançar para a chefia do projecto de Singapura.

─ Posso dar-lhe a resposta dentro de dois dias?

Ele era um homem que já me conhecia havia muitos anos. Naquela altura já andava na casa dos cinquenta anos, a caminho dos sessenta, e fora ele quem me convidara pessoalmente para o cargo que eu ocupava na empresa. Por isso, a sua astúcia apercebeu-se que algo não estava bem comigo:

─ Que se passa, Ricardo? A tua voz está estranha. Aconteceu alguma coisa?

─ A minha amiga, aqui do Faial, teve um acidente. ─ informei, sem me incluir no evento. ─ Está muito mal. Ela é uma pessoa muito especial para mim. Por isso, lamento, mas não tenho tido cabeça para pensar nisso.

─ Lamento isso, Ricardo. E faço votos para que ela fique bem. Só que tu sabes que estes assuntos não podem ser paralisados indefinidamente.

─ Sim, eu sei.

─ Tu és a minha escolha! ─ afirmou sem qualquer dúvida. ─ No entanto, se tu não avançares, terei de convidar outro para o projecto.

─ Eu compreendo. Só que não consigo dar-lhe uma resposta agora.

Ouvi um suspirar do outro lado da linha.

─ Dois dias, Ricardo. Quero uma resposta dentro de dois dias.

Houvesse ou não evolução no estado de Sónia, daí a dois dias, eu tinha de dar a resposta, se iria ou não para Singapura.

No tempo que se seguiu, aproveitei para telefonar aos chefes de equipa que lideravam alguns dos projectos de consultoria que tínhamos em mãos.

Numa análise resumida, todos os trabalhos estavam a correr bem. Tinha uma equipa a trabalhar na construção de um viveiro no centro do país, uma obra que inicialmente tinha dado grandes problemas, uma vez que o meio ambiente não parecia propício ao que se pretendia para a instalação do viveiro. Felizmente para a empresa que nos contratara, lá se conseguiu fazer uma adaptação à arquitetura inicial, de forma a ser possível dar forma ao investimento.

Uma outra equipa estava em Angola a estudar o impacto ambiental na construção de uma nova barragem. Eu assistira às negociações com a empresa angolana que nos contratara e quase que fui levado a pensar que eles tinham uma fonte de dinheiro algures, pois não mostraram qualquer problema com o valor elevado do orçamento. E de facto, eles têm uma fonte de dinheiro, em forma de petróleo e diamantes.

Em tempos, chegámos a trabalhar com o Estado português em vários estudos de impacto ambiental. Sempre fomos muito imparciais nos projectos, mas havia sempre muita pressão por parte dos ambientalistas e as empresas públicas não gostavam das nossas conclusões. Não se podia agradar a gregos e a troianos. E nós não agradávamos aos dois. Tornou-se uma opção não trabalhar para o Estado.

Em Portugal, para além do viveiro, só tínhamos a construção de um resort no Algarve. O resto eram empreendimentos no Brasil, México e Canadá. E agora íamos abrir uma nova janela comercial na Ásia com o projecto de Singapura.

Terminados os telefonemas, liguei-me à internet pelo telemóvel para consultar o meu correio electrónico. Como era habitual, tinha várias mensagens de trabalho que analisei ao pormenor e respondi às que a isso obrigavam. A seguir, debrucei-me sobre as mensagens particulares.

O dono da galeria que me convidara a expor as minhas fotos enviara-me uma mensagem a sugerir a alteração da data prevista para a exposição. Reenviei a mensagem para a minha secretária para que definisse uma nova data, mediante a disponibilidade da minha agenda. E respondi ao senhor a solicitar que entrasse novamente em contacto com ela.

A mensagem seguinte era de uma amiga australiana que eu conhecera quando estivera em Sidney. Fora mais que uma amiga. Nunca houve um compromisso oficial, apenas uma amizade colorida, pois sabíamos que um dia eu partiria de Sidney e as nossas vidas levariam caminhos diferentes. E foi o que aconteceu. Naquela mensagem, informava-me que vinha a Portugal e que gostaria de me ver para matar saudades.

Independentemente do que pudesse suceder a Sónia naquele hospital, a minha resposta foi uma recusa devido a estar de férias com a minha namorada.

Por último, a mensagem do meu amigo da agência de modelos a perguntar quando estaria disponível para mais uma sessão de fotos com modelos novos da agência. Respondi que era complicado e que o contactaria quando voltasse ao continente.

Quando olhei à minha volta, a tonalidade de luz na cafetaria era bem diferente. Olhei para o relógio e fiquei abismado. Ficara mais de três horas ali.

Olhei para o exterior, constatando que o Sol se encontrava na sua preparação para mergulhar na água. Isso trouxe-me à memória os beijos trocados com Sónia no Vulcão dos Capelinhos. Todas as boas recordações provocavam dor, perante a luta que ela travava pela sobrevivência.

Como não tivera qualquer novidade dos pais dela, concluí que o seu estado não se deveria ter alterado. Porém, não quis ir embora sem ir falar com eles.

Ao levantar-me da cadeira, raparei numa revista esquecida sobre outra mesa. A capa mostrava uma figura pública a passar férias na neve, algures no hemisfério sul. A notícia era mesmo essa singularidade, estando Portugal em pleno Verão, ela optara por fazer férias na neve. No entanto, o que despontou a minha atenção foi a neve e a recordação da minha velha “máxima” de que nunca nevava no meu aniversário. Parecia que isso se tornara o meu destino, pois quando estiver tão perto de ver a felicidade do amor nevar sobre mim, o destino parecia querer impedir que isso sucedesse, afastando Sónia de mim daquela forma trágica.

Caminhei pelos corredores do hospital até ao elevador. Ia irritado com a vida, interrogando-me pelo porquê de aquilo ter acontecido. Seria algum género de castigo por todas as mulheres com quem fora para a cama e que nunca amara verdadeiramente? Se assim fosse, deveria ser eu a estar naquela cama de hospital e não ela que não tivera culpa nenhuma e sempre fora íntegra no seu casamento. Sónia era uma pessoa tão extraordinária, um ser humano tão terno e amigo. Não era, é! Lutava com os meus pensamentos perante a ideia de ela poder partir para sempre.

O elevador subiu vagarosamente. A minha cabeça passava recordações da menina Sónia na sala de aula, quando nos conhecemos. Recordei a adolescente que eu observava com tanta paixão, a qual escondera todos aqueles anos. Revi a mulher que reencontrei no Faial, quinze anos após a última vez que estivera com ela, surpreendendo-me por ainda sentir uma paixão tão forte, um amor que jamais poderia ser arquivado num qualquer arquivo do subconsciente. Fechei os olhos, procurando reviver as sensações dos beijos trocados ao pôr-do-sol, da partilha de emoções quando nos tornámos um só na envolvência da paixão de uma tarde íntima de amor e sexo.

Como pôde um homem abrir mão de uma mulher como ela? Como pode o pai de Clarinha seguir a sua vida com naturalidade, tendo a sua mulher… ex-mulher numa cama de hospital a lutar pela vida?

Nunca neva no meu aniversário, mas nevou no dele. E ele o que fez? Deitou fora a neve que eu gostaria de conservar para o resto da minha vida. Sacana. Era muito bem feito, se ele se arrependesse, quando ela recuperasse e casasse comigo. Parei de falar mentalmente, concluindo que isso não tinha interesse nenhum. O importante era Sónia recuperar e podermos retomar o nosso amor a partir do ponto em que aquele trágico acidente o suspendera.

No momento em que atravessei o último corredor em direcção à sala de espera, perto da Unidade de Cuidados Intensivos, ouvi um choro abafado de criança. Quase de forma inconsciente, acelerei o passo até entrar na sala donde saíra horas antes.

As minhas pulsações triplicaram com o que vi. A senhora Emília e o marido abraçavam Clarinha com muita ternura. A criança chorava de forma desesperada. Junto deles estava uma senhora que reconheci como sendo a mãe de umas das amiguinhas dela que costumava tomar conta das crianças nas piscinas. Tanto ela como o senhor Alfredo revelavam consternação no rosto, enquanto a mãe de Sónia não conseguia conter as lágrimas perante o choro da neta.

Tanta tristeza só poderia ter um significado. Só uma novidade trágica justificaria o facto de a outra senhora ter vindo ao hospital trazer a pequena aos avós.

Naquela fracção de segundo, as lembranças de Sónia passaram pela minha mente a uma velocidade vertiginosa. Dizem que quando estamos à beira da morte, revemos toda a nossa vida em poucos segundos. Comprovei que isso também sucede, quando estamos à beira de ver o nosso amor morrer, pois eu vi todos os momentos da minha vida que partilhara com Sónia em meia dúzia de segundos.

Ao ver-me, o senhor Alfredo afastou-se da esposa e da neta para se dirigir a mim. O seu rosto de pesar era um pronúncio do que aí vinha. A cada passo que ele dava, o meu pensamento implorava para que não fosse verdade, para que ele me viesse dizer qualquer outra coisa, menos que Sónia morrera.

Clarinha chorava, a avó chorava, a outra senhora escondia o rosto com a mão, o senhor Alfredo dirigia-se a mim e o meu mundo desabou perante a iminência da confirmação de que Sónia sucumbira aos ferimentos do acidente.

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