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NUNCA NEVA NO MEU ANIVERSÁRIO

I

Não fosse o momento e o ambiente envolvente poderia ser apreciado com a devida honra. O céu estava azul, o sol brilhava e o mar ao longe parecia calmo. Na minha frente, imponente, o cume da ilha do Pico elevava-se sobre as nuvens, como que espreitando do lado de lá do canal, por cima da mancha urbana da Horta. A brisa fresca, ténue e agradável, soprava-me o rosto. Como seria bom desfrutar daquele cenário noutra circunstância.

No entanto, a hora era solene e triste. Quase que poderia dizer que o silêncio era prazenteiro, não fosse o facto de eu estar num cemitério a assistir a um funeral.

Uma dúzia de pessoas rodeavam o caixão prestes a descer até à sua última morada. Rostos riscados de lágrimas, alguns escondendo olhos inundados atrás de lentes escuras, outros impávidos num lamento interno olhando o buraco sem o ver e escutando as palavras ditas pelo padre local.

Eu ali estava, observando e partilhando dos sentimentos que se afloravam a cada palavra, a cada sílaba, a cada letra proferida. Se a morte é sinónimo de paz, quem nos deixava estava a alcançá-la e essa convicção atenuava a dor que perfurava a alma.

O cemitério descaía como se descesse na direcção do mar, deixando as campas viradas para o majestoso Pico. O orador colocara-se numa posição alta, encabeçando o círculo que rodeava a urna, tendo perto de si os familiares. Eu estava um pouco mais ao lado, descaído para a esquerda, tendo o padre quase à minha frente. As suas palavras cerimoniosas elogiavam quem nos deixara e procuravam ânimo na fé de um destino celestial de descanso eterno. Talvez nem todos os presentes fossem religiosos, mas em momentos de dor, as pessoas agarram-se às crenças como medicamento.

A minha atenção estava dispersa em memórias que se misturavam com o som das palavras afagadas pela música dos pássaros e do mar lá em baixo.

Olhei para o rosto da criança petrificada junto ao padre, a qual parecia desligada da realidade com o olhar fixo no caixão que guardava o seu progenitor. Não chorava, não gritava… Lamentava com silêncio a dolorosa perda. A menina tinha onze anos e o seu rosto era assustadoramente idêntico ao da sua mãe com a sua idade que eu conhecera vinte e cinco anos antes.

Quando tinha dez, onze anos, Sónia era o original da cópia quase perfeita que via naquela menina triste. Na altura, eu tinha os meus dez anos e confrontava-me com o primeiro dia de aulas no 5º ano numa escola da grande cidade, vindo da escola primária da aldeia. Para mim era um mundo novo e temível, onde não conhecia ninguém. Tudo era muito maior, o edifício, o recreio, os alunos… Ao entrar na sala de aula, a professora disse-nos que nos espalhássemos pelos lugares por ordem numérica da turma. Durante alguns segundos, andámos perdidos mas lá nos fomos arrumando. A sala tinha mesas de dois lugares e eu fiquei numa das últimas, graças ao facto de me chamar Ricardo e a ordem numérica respeitar a ordem alfabética do nome próprio de cada um.

Eu iria partilhar a mesa com uma colega. Quando temos dez anos sentimo-nos mais entusiasmados em falar com os rapazes do que com as raparigas. Aliás, até àquele momento, nunca tivera uma amiga, apenas os meus amigos da aldeia com quem jogava à bola, ao berlinde ou à apanhada, entre muitas outras brincadeiras.

Antes de me sentar, perguntei-lhe timidamente qual era o seu número. Ela respondeu sem me dar grande atenção e eu confirmei que era o seguinte ao meu e que o lugar a seu lado era para mim.

Tirando uns cinco ou seis que já se conheciam, todas as crianças estavam em silêncio, tímidas a ouvir a primeira chamada do ano lectivo. Como não sentia a mínima cumplicidade com meninas, lamentei ter uma como colega de mesa. Para ser sincero, ela intimidava-me, tal como todas as raparigas bonitas como ela. Nem tive coragem de lhe perguntar o nome, o qual só vim a saber no momento em que a professora a chamou.

Sónia era uma menina de rosto triste, pois o destino fizera os pais deixarem a sua amada ilha do Faial para trabalhar no continente, o que a afastou da restante família e amigos. As suas feições eram rosadas, os olhos rasgados onde sobressaia uma tonalidade castanha, um nariz singelo e uma boca pequena silenciosa. Tinha um longo cabelo preto liso com uma fita branca em volta da cabeça que lhe amparava a franja. Vestia calças de ganga com uma camisa amarela ponteada de pequenas rosas desenhadas.

Feitas as apresentações, a professora indicou como primeiro trabalho para aquela aula que cada aluno fizesse uma composição acerca do seu colega do lado, ou seja, tínhamos de entrevistar o nosso desconhecido sócio de mesa e fazer um texto sobre isso.

Escusado será dizer que éramos tão tímidos que parecia que existia um muro de gelo entre nós. Por momentos, ficámos paralisados e só nos mexemos para pegar no caderno e na caneta. Sem saber bem como, dei por mim a virar-me para ela e começar a falar, dizendo-lhe o meu nome, idade e a contar-lhe donde vinha e como me sentia com aquela mudança. Para meu espanto, ela olhava-me com muita atenção e eu falava completamente hipnotizado pelo seu olhar penetrante de menina. Senti-me nas nuvens quando lhe provoquei o primeiro sorriso com os meus relatos. O à vontade súbito com que falava deixara-a também mais relaxada e também ela começou a falar de si. Acabámos por concluir que tínhamos histórias parecidas e o facto de sermos duas crianças num ambiente novo e desconhecido aproximou-nos muito e deu origem à cumplicidade e amizade que passámos a partilhar.

Apesar do aspecto cândido de menina bem comportada que parecia só se interessar por brincar com bonecas, ela era uma maria-rapaz que adorava jogar à bola, correr, rebolar na terra… Mas, o nosso maior divertimento era brincar à “Acção em Miami”. A geração nascida nos anos 70 lembra-se certamente dos míticos Sonny Crockett e Ricardo Tubbs, protagonistas da série Miami Vice, ou em português Acção em Miami. Tanto eu como ela adorávamos a série e gostávamos de brincar ao faz-de-conta encarnando os dois detectives. Pelas semelhanças entre os nomes, ela fazia de Crockett e eu de Tubbs. De tal maneira aquilo nos marcou que para sempre ficámos um para o outro como Tubbs e Crockett.

Houve uma altura, ainda antes de entrarmos na adolescência, em que Sónia se sentira influenciada por um filme de miúdos em que um rapaz e uma rapariga, mais ou menos da nossa idade, davam o seu primeiro beijo. Na época, o assunto era completamente desinteressante para mim, mas ela não se calava com as cenas do filme. Confesso que mesmo sendo uns meses mais velha que eu, Sónia amadureceu mais rapidamente e estava a sentir a curiosidade do primeiro beijo. E um dia, a meio de uma brincadeira, ela surpreendeu-me com um beijo nos meus lábios. Bom, foi mais um choque de bocas. Eu tive a reacção mais estúpida, saindo-me um “que nojo”. Ela ficou meio envergonhada sem saber o que dizer. Acabou por perguntar se eu não gostara. Eu menti que não, agradado com o sabor que ela me deixara. Na verdade, eu habituara-me a que Sónia fosse um amigo como os que tinha na aldeia, como se fosse um rapaz, dar beijos na boca era coisas de adultos, eu não sabia como agir perante aquele tipo relação e a minha timidez condicionava-me. Porém, a menina Sónia gostara, não o disse, mas gostara. Percebi isso quando disse que esse poderia ser o nosso cumprimento secreto. A minha resposta foi: “já viste o Crockett e o Tubbs aos beijos na boca?”. O assunto morreu ali. Contudo, o episódio não afectou a nossa amizade. Sorri-lhe, agarrei-lhe na mão e voltámos às brincadeiras usuais.

Longe estava eu de saber que abrira mão de algo que iria desejar ardentemente algum tempo depois.

Os anos foram passando por nós e a amizade era cada vez mais sólida. Adorávamos estar um com o outro e mesmo tendo outros amigos e amigas, nada se comparava à nossa relação.

A entrada na adolescência trouxe uma Sónia cada vez mais mulher, a ganhar formas e muito preocupada em ser feminina. Já no meu caso, trouxe borbulhas, mudança de voz e as hormonas ao rubro. Já não conseguia olhar para a Crockett como o meu amigo. Sónia era uma rapariga linda, a minha amiga, confidente, a minha metade e eu estava apaixonado por ela. No entanto, algumas coisas mudaram nela, tal como a reserva em certas confidências, preservando uma área invisível à sua volta onde eu não podia entrar e esforçava-se por parecer adulta. Se com aquela idade não tinha a mínima noção do que era o amor, estava certo que era isso que sentia por ela. Só que o medo de perder a minha grande amiga nunca foi vencido pela paixão e atracção que ela provocava em mim. Apenas uma vez tive a intenção de me declarar, começando a falar no episódio do beijo. Ela deu uma gargalhada e disse que tinha sido das coisas mais ridículas da sua vida. O meu coração ficou em cacos.

O nosso percurso escolar foi paralelo até ao 12º ano, colegas de escola, de turma e na maior parte dos casos de mesa também. Quase todas as pessoas pensavam que namorávamos, mas isso nunca aconteceu entre nós. E em determinada altura, eu tive a minha primeira namorada, o que deitou por terra essa ideia. Para meu mal… ou bem, os meus namoricos nunca duravam muito. Eu não alterava a proximidade que tinha com Sónia e isso deixava as minhas namoradas ciumentas, o que as levava a ultimatos onde ficavam sempre a perder, pois eu jamais preteria a minha Crockett. Já Sónia afastava qualquer ideia de namoros, dizendo que isso não a interessava e concentrava-se exclusivamente nos estudos e em algumas amigas, para além de mim. E na verdade, ela era uma aluna excepcional, por quem dava muito jeito copiar nos testes.

Quando chegou a altura da Universidade, Sónia deu continuidade aos seus planos para o futuro, unindo dois desejos, o gosto pela Biologia e o regresso aos Açores. Por isso, candidatou-se à Universidade do seu arquipélago natal. Sem ter um objectivo concreto, acabei por me candidatar ao mesmo curso. Sónia sabia que a minha escolha tinha como único fim acompanhá-la e por isso tentou convencer-me a escolher algo que fosse bom para mim, repetindo várias vezes que a distância jamais seria uma barreira à nossa amizade. Porém, bom para mim era estar perto dela, fosse ali ou no fim do mundo.

No dia em que saíram os resultados das colocações, o meu mundo ruiu. Sónia entrara na sua primeira opção e eu fora atirado para a minha penúltima, Biologia na Universidade do Algarve. E quando ela partiu para São Miguel, para a sua nova etapa escolar, as nossas vidas tomaram caminhos distantes.

Ambos sofremos bastante com a separação. Desde miúdos que não havia um dia que não nos víssemos. Mesmo assim, esforçávamo-nos por estar em contacto todos os dias. No início, ligávamos um ao outro todas as noites e trocávamos emails. Porém, o ritmo esmoreceu quando ela começou a namorar com um colega de curso.

Foi durante um telefonema que Sónia me deu a novidade com um tom de felicidade na voz. Senti-a tão feliz quanto era a mágoa que me ia na alma. Eu tinha namorada no Algarve, e ela sabia, pois brincava sempre comigo dizendo que estava a durar porque ela estava longe. Só que na realidade, eu continuava a trocar de namorada com frequência porque procurava sempre em todas a cumplicidade Ricardo “Tubbs” e Sónia “Crockett”. Era uma omissão que a deixava a pensar que a minha namorada era sempre a mesma. No entanto, saber que Sónia tinha um namorado era mais sério, pois era o seu primeiro relacionamento e, se ela deixara cair as defesas e se entregara a um namoro, significava que era algo muito profundo e que poderia muito bem um dia resultar em casamento. E por mais escondidas que eu mantivesse as minhas esperanças com Sónia, elas andavam sempre por ali à flor da pele. Só que aquela notícia abafava-as em definitivo.

Infelizmente, eu não me enganara. O namoro era mesmo sério e resultou em casamento após a licenciatura, quando ambos conseguiram bons empregos. A minha licenciatura demorou mais algum tempo, já que eu não levava a questão com tanta responsabilidade quanto devia.

Durante o tempo universitário, nem ela regressou ao continente, nem eu a visitei. Ela costumava mandar-me emails com fotos onde se via explicitamente o seu ar de felicidade. Quando me telefonava, partilhava comigo relatos dos bons momentos com o namorado. Sempre me mostrei feliz por ela, mesmo com o que sentia, e a sua felicidade atenuava o lamento de não ser eu a sua causa.

Quando Sónia casou, eu ainda estava a terminar o curso. Fui convidado para o casamento, mas não fui com a desculpa de que o orçamento de estudante deslocado não dava para pagar uma viagem até ao Faial. Na realidade, não tinha dinheiro para o fazer, mas mesmo que tivesse não tinha vontade de lá ir. Contudo, Sónia mandou-me tantas fotos da cerimónia que vi tudo como se lá tivesse estado.

Licenciei-me um ano depois e tive a oportunidade de fazer um estágio em Londres. Decepcionado que estava com a sucessão de namoros falhados, dediquei-me totalmente ao trabalho. Com o tempo construí uma excelente carreira profissional na área da investigação, trabalhando durante uns anos em Londres, Praga, Seattle, Sidney e Joanesburgo até regressar a Portugal para a direcção de uma grande empresa em Lisboa.

Se era um profissional de sucesso, no campo afectivo era uma miséria. Nesses anos continuara a ter casos pontuais com várias mulheres que se cruzaram na minha vida, tantos que lhes perdera a conta e ficara sempre sozinho. Quando pensava nisso, sentia-me como a música do outro que dizia “já tive mulheres de todas raças, de todas as cores”.

Felizmente, Sónia alcançara os dois, sucesso profissional e pessoal. Tinha um casamento feliz e um emprego estável bastante rentável. E não muito tempo passado, fora mãe de uma menina. Mesmo comigo a trabalhar pelos quatro cantos do mundo, mantivemos o contacto, não com a regularidade de antigamente, mas o suficiente para manter a forte amizade que sempre nos unira. E longe, eu acompanhava a evolução da sua vida através das fotos que me enviava por correio electrónico.

Ao longo dos anos habituara-me ao tom feliz dos relatos dela. O tempo e a distância deixaram-me a convicção de que todos os sentimentos que eu nutria por ela se haviam esfumado, excepto a amizade. Até a cumplicidade já não era a mesma. Decorrera mais de década e meia desde a última vez que estivera com ela e eu acreditava que toda a partilha que tivéramos era agora algo dela com o marido. Eu fora substituído e era normal que assim fosse, a sua metade deveria ser ele e não eu. A minha Crockett era uma figura distante no tempo, onde este Tubbs já não se encaixava no presente.

No entanto, uma noite, quando atendi o telefone, senti-lhe imediatamente na voz uma mágoa profunda. Nos meses que antecederam aquele telefonema, já reparara que os seus relatos da vida pessoal se haviam reduzido, falando apenas na filha e raramente no marido. Até as fotos por email acabaram porque supostamente a máquina fotográfica avariara. Conhecia-a demasiado para não perceber que algo não ia bem, só que sempre que lhe perguntava, obtinha a mesma resposta: “sim, sim, está tudo bem”. Contudo, naquele telefonema, a sua voz tropeçava nas palavras e perante a mesma pergunta, ela surpreendeu-me com a informação de que se iria divorciar. Foi um choque e uma sensação de impotência quando ouvi o seu choro no outro lado da linha. Sónia não quis avançar pormenores, limitando-se a balbuciar que se sentia perdida e sozinha. “Preciso tanto dos meus amigos” dizia ela, “preciso tanto de ti”. Não sabia que palavras usar para atenuar a sua dor e acabei por dizer que eu estava ali para o que ela precisasse. Ela retorquiu que não precisava de mim ali, mas sim lá perto dela.

Desde que regressara aos Açores, Sónia convidara-me inúmeras vezes a visitá-la. Nas primeiras, a recusa devia-se à falta de dinheiro, mas depois desculpava-me com o trabalho que não me permitia ter uns dias de descanso. Claro que o que eu não queria era ser espectador da sua vida matrimonial. Ficava feliz por ela estar feliz, só que evitava ser parte do filme. Por isso, aquele convite desesperado sabia que iria ter uma resposta negativa. Só que as condições eram diferentes, ela precisava de mim e isso era mais que suficiente para largar tudo e ir ao seu encontro. No meio de tanta tristeza, as suas lágrimas deram tréguas ao ouvir-me dizer que iria tirar uns dias e iria visitá-la ao Faial.

Demorei uns três dias a conseguir organizar a minha vida profissional para ter férias. Ao longo desse tempo, a ansiedade foi crescendo e voltei a sentir-me um miúdo adolescente com o nervoso miudinho de quem vai ao encontro do amor da sua vida.

 

 

 

As viagens de avião eram uma rotina para mim. Desde o primeiro voo que garantia a mim mesmo que voar era seguro, mas isso não evitava que receasse fazê-lo. E confesso que as viagens sobre o mar me assustavam. O dia estava bonito e a visibilidade para quem ia à janela era muito boa, só mesmo perto da chegada houve um aumento de nebulosidade. O cume do Pico deu-me as boas vindas, surgindo magnânimo acima do manto de nuvens. Alguns instantes depois, o avião começou a sua trajectória descendente rumo ao Aeroporto do Faial. Cerca de duas horas e meia após levantar de Lisboa, o avião aterrava tranquilamente na pista da ilha.

O Sol estava tímido deixando-se tapar por um leve aglomerado de nuvens. Ao sair do avião, senti a brisa suave e o cheiro a maresia. O ambiente transmitia a sensação de paz, de calma, de sossego… Só mesmo o pessoal do aeroporto andava stressado a encaminhar os passageiros para o terminal.

Respirei profundamente aquele ar puro que parecia limpar-me os pulmões de toda a poluição acumulada na grande cidade. Estar de férias fizera-me abandonar o estilo formal de fato e gravata de todos os dias para umas informais calças de ganga e t-shirt.

Ao caminhar pela pista, observei o edifício do terminal. Algures lá dentro, Sónia aguardava a minha chegada. O meu coração estava aos pulos, desejoso do reencontro. Dirigi-me à zona das bagagens e aguardei impaciente pela minha mala. Assim que ela surgiu no tapete rolante, agarrei-a e caminhei para fora da zona reservada aos recém-chegados.

Tudo era novidade ali. Segui as indicações de saída e, como não vi Sónia no espaço público do edifício, aguardei no exterior junto à saída. O aeroporto ficava mesmo junto ao mar e a um nível inferior à estrada que lhe dava acesso. Observava toda a beleza paisagística envolvente, quando ouvi uma voz:

─ Tubbs!

Olhei para trás de mim. O meu coração batia a mil à hora e toda a ansiedade dera lugar a uma súbita timidez, aquela que sempre me afectara junto de Sónia.

─ Crockett. ─ suspirei.

Sónia não estava muito diferente das últimas fotos que vira de si. Apesar de ser uma opinião suspeita, não posso deixar de dizer que estava linda e a idade trouxera-lhe uma maturidade donde brotava uma elegância muito sensual. Vinha vestida com uma t-shirt branca larga que destacava um golfinho azul, calções pelos joelhos e sapatilhas. O vento fazia-lhe esvoaçar o longo cabelo e o seu rosto mantinha todos os traços gravados na minha memória. Abriu o sorriso quando olhei para ela e puxou os óculos escuros para cima de forma a amparar a franja.

Larguei a mala no chão e aproximei-me dela. Abracei-a e senti o seu abraço tão forte como o meu. Não tenho palavras para descrever o que senti ao absorver o seu cheiro, o seu toque… Foram mais de quinze anos longe dela. Abraçá-la foi como envolver uma almofada macia junto ao corpo adaptando-se a cada pedaço da pele. Ela cheirava tão bem que apetecia respirar cada poro. Por momentos não dissemos nada, ficando apenas agarrados naquele abraço muito forte com medo de que se largássemos, nos voltássemos a afastar para muito longe. O seu rosto mantinha-se colado ao meu, os seus braços à volta do meu pescoço. Eu tinha os meus à volta do seu tronco, apertando-a bem contra mim.

─ Que saudades. ─ disse ela por fim.

─ Mais que aquelas que o meu coração aguenta. ─ confessei.

─ Achas que já nos podemos largar? ─ interrogou num tom brincalhão.

─ Só mais um bocadinho. ─ respondi, obtendo um risinho delicioso da sua parte.

Em simultâneo, afrouxámos o abraço e trocámos dois beijos na face. Ela afastou-se e eu segurei de novo a mala, reparando que os seus olhos estavam ligeiramente inchados. Muitas lágrimas deveriam ter derramado nos últimos tempos.

O trajecto até sua casa foi feito de carro, um pequeno Peugeot 107 branco, pela estrada que contornava a ilha. Apreciei a vista, o mar infinito que nos acompanhava paralelo ao percurso. Em frente, o topo do Pico começava a aparecer no horizonte. Curva para a esquerda, curva para a direita, recta… Alguns quilómetros percorridos em pouco mais de quinze minutos até chegar à capital da ilha.

Sónia vivia numa casa térrea, num pequeno bairro de casas semelhantes, à entrada da cidade da Horta. A moradia parecia pequena, mas lá dentro era bastante espaçosa. Tinha uma grande sala que partilhava o espaço com a cozinha, um quarto e uma casa de banho logo à entrada e ao fundo um outro quarto. Uma porta em vidro fazia a ligação para um pequeno pátio lateral.

Apesar do semblante abatido resultante dos acontecimentos dos últimos tempos, Sónia não escondia o sorriso ao fazer de guia pela sua casa, mostrando-me todos os cantos e indicando-me o quarto onde eu iria ficar. Com a decisão da separação, o marido já não estava a viver lá, havia mais de três semanas, e naquela altura até estava em Ponta Delgada por causa do seu trabalho. Eu poderia dormir no quarto da filha e a pequena Clarinha dormiria com a mãe. Contudo, nem mesmo a filha estava em casa, pois com as férias o seu gosto era passar o dia em casa dos avós que viviam perto de Varadouro e onde poderia desfrutar das piscinas naturais e da companhia dos amiguinhos.

O Varadouro é um conjunto de formações basálticas que se transformaram em piscinas naturais, muito procuradas por endémicos e turistas, o que a tornou numa das áreas balneares de eleição da ilha. Nessa tarde, Sónia levou-me até lá quando foi ao encontro da filha. O carro ficou no parque, junto aos balneários, e caminhámos por entre as rochas até ao mar. A vista da baía era deslumbrante com o imenso mar a ondular, renovando a água das piscinas, e o morro de Castelo Branco a sul, uma formação enorme com um penhasco assustador. Logo junto à primeira piscina, uma outra pequena estava repleta de crianças. Sónia chamou a filha e eu reconheci de imediato a pequena Clara. A criança também me reconheceu a mim, das muitas fotos que eu enviara à mãe, ao longo dos anos. Fez um intervalo nas brincadeiras e veio ao encontro da mãe. As semelhanças entre Clarinha e Sónia com a sua idade eram quase surreais. A pequenina, meio tímida, aproximou-se de mim para me dar um beijo. Olhar para ela era como recuar vinte e cinco anos. Como qualquer criança, não perdeu muito tempo connosco e regressou para junto dos amigos.

─ Como tem ela reagido? ─ indaguei, olhando para o rosto da mãe a observar a filha.

Sónia encaminhou-nos para uma zona onde nos pudemos sentar e respondeu:

─ Mais ou menos… De início ficou em choque, principalmente quando o pai saiu de casa. Tentei explicar-lhe, mas… Tu imaginas, não é? Explicar a uma criança… Bolas, nem eu consigo compreender…

Desde que ela me contara da separação, nós nunca mais faláramos sobre isso, nem ela ainda contara as causas. Por isso, tentando usar as melhores palavras que não a melindrassem, questionei os seus motivos.

Ela olhou para mim e abanou a cabeça. Antes que proferisse qualquer palavra, reparei que os seus olhos começaram a ficar húmidos. Pedi-lhe desculpa e constatei que era melhor não falar disso.

─ Não. ─ recusou, limpando as lágrimas com as costas da mão. ─ Eu conto-te. Preciso de falar. Ainda não falei sobre isso com ninguém.

Eu coloquei um braço sobre os seus ombros para a reconfortar e com um sorriso, lembrei:

─ Sabes que podes contar comigo… Crockett.

─ Eu sei. Tu és um querido. És um amigo incrível, és a melhor coisa da minha vida a seguir à Clarinha.

Apertei-a ligeiramente contra mim e dei-lhe um beijo na testa. Ela era não só a coisa mais importante da minha vida como era o meu grande amor. Mas, claro que isso eu não disse.

─ Sabes? Acho que um homem quando está casado com uma mulher de trinta e seis anos acaba por preferir ter duas de dezoito.

─ Que estupidez. ─ barafustei indignado.

─ A sério, Ricardo.

─ Não me digas que ele te trocou por duas de dezoito…

─ Não foi assim linear, mas trocou-me por uma mais nova.

Uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Eu antecipei-me e limpei-a, acariciando a sua pele molhada com o dedo indicador. Passei a mão pelo seu cabelo e constatei:

─ Então divorciaram-se porque ele te traía.

Sónia abanou a cabeça. Por instantes, pensei que estivesse a afastar a minha mão, mas era apenas a negação da minha afirmação. Explicou:

─ Tenho que lhe fazer justiça, até foi muito honesto. Algures num qualquer momento do seu dia-a-dia, ele sentiu-se atraído por uma colega. Acho que deve ter pouco mais de vinte anos. E antes que sucedesse algo entre eles, conversou comigo acerca de já não sentirmos a mesma paixão e que o casamento o estava a sufocar… Enfim, justificações de merda para dizer que queria “comer” a outra gaja… ou outras. E, claro, não queria cometer adultério, daí a separação.

─ Honesto ou não, é preciso ser muito estúpido para abrir mão de ti.

A minha frase foi dita com tal convicção que Sónia me olhou nos olhos com algum espanto. De súbito, senti que poderia ter-me revelado. No entanto, ela limitou-se a colocar a sua mão sobre a minha e a dizer:

─ Tu és um querido.

─ Sou sincero, Sónia. ─ retorqui desviando o olhar para o mar. ─ Tu és uma mulher linda, seja com trinta e seis anos ou cinquenta ou oitenta. Porque a tua maior beleza está naquilo que és e não na tua figura física.

Estás a abusar, pensei, daqui a pouco estás a declarar-te. Porém, não pensei muito nas consequências do rumo da conversa. E esperei que ela me interrogasse onde queria eu chegar com aqueles elogios. Só que a reacção foi diferente.

─ Isso é mesmo o tipo de coisas que se dizem às feias para as fazer sentir melhor. ─ constatou ela, olhando também para o mar.

─ Tu sabes bem que não és feia. ─ argumentei, tornando a olhar para ela. ─ Tu sempre foste linda. Ele não tem noção do que está a perder. Eu conheço-te há vinte e cinco anos e sempre me senti um privilegiado por tudo o que partilhámos, pela nossa amizade, pela nossa cumplicidade. Nunca existiu nem existirá ninguém como tu na minha vida.

Estás mesmo a passar dos limites, insurgiu-se a minha mente contra mim próprio. Estás a um passo de…

─ Foi por isso que nunca casaste? ─ interrogou ela, confrontando o meu olhar com muita seriedade.

Encolhi os ombros sem saber muito bem o que responder. A minha mente assolava-me com ideias e o meu coração batia descompassado. Eu nunca casara porque a única mulher com quem queria casar era ela, a minha Crockett, a minha amiga, o amor da minha vida. Parecia que tinha uma voz dentro de mim que dizia “estás a ir tão longe, já agora diz-lhe tudo”. Engoli em seco e comecei:

─ Nunca casei porque…

─ Mãe! ─ gritou uma voz, interrompendo-me. ─ Mãe! ─ Ouvindo a voz da filha, Sónia desviou imediatamente o olhar para a criança. ─ Estou a ficar com frio.

O Sol já se começava a pôr e a brisa tornara-se num vento mais forte. As pessoas começaram a abandonar o lugar e nós fizemos o mesmo.

Aquela conversa ficou na minha mente como um sino que não parava de tocar. Regressámos a casa de Sónia com Clarinha e não voltámos a tocar no assunto. O dia fora esgotante, principalmente devido à viagem de avião que me obrigara a levantar da cama muito cedo. Pouco depois do jantar, e como Sónia não quisera ajuda para arrumar a louça, eu despedi-me de ambas e fui para a cama. Em todo esse tempo, perguntava-me o que poderia ter acontecido se eu tivesse completado aquela frase. Só que assim que aterrei no colchão, o cansaço não me deixou pensar em mais nada.

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