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DANÇANDO NO VIOLINO

CAPÍTULO I

A noite invernosa não passava de um prolongamento de uma tarde fria e chuvosa de mais um dia no apogeu do Inverno. Se fosse possível encontrar algum ponto agradável naquele serão, só a ausência da chuva merecia alguma congratulação, pois as nuvens pareciam ter esgotado as reservas durante a manhã e a tarde.

Junto ao Centro Cultural de Belém, em Lisboa, um casal caminhava tranquilamente pelo passeio frontal ao Mosteiro dos Jerónimos, poucos metros mais à frente do lugar onde haviam deixado o automóvel estacionado. Ela protegia-se do frio, envolta num casaco de pele robusto, dando passadas ao ritmo do companheiro, mantendo o seu braço enroscado no dele. Era alta, esguia e os seus pés moviam-se com a graciosidade de uma garça-real. O cabelo caia-lhe comprido pelos ombros, tão escuro como o casaco preto, e envolvidos na cabeça por um barrete quente que fazia conjunto com o casaco. Rosto expressivo com um sorriso fácil e um olhar imponente cheio de confiança, onde o nariz singelo contrastava na sua brancura com as faces rosadas pelo efeito do frio. O seu nome era Adriana Cavaleri, tinha vinte e quatro anos e era bailarina na Companhia Nacional de Bailado.

Com ela vinha um homem de vinte e oito anos, mais alto, igualmente esguio e de porte forte. Não parecia tão afectado pelo frio quanto ela, talvez mais por uma expressão de masculinidade do que por realmente não sentir o frio. Vestia uma camisola de lã castanho-escura e umas calças pretas, encarando o frio com um casaco comprido preto que lhe chegava abaixo dos joelhos, mas que teimosamente não apertara. O seu amigo chamava-se Leonardo Velasques.

Adriana e Leonardo conheciam-se havia quatro anos e eram grandes amigos. Eram mesmo amigos bem próximos, íntimos. Partilhavam uma amizade colorida sem tabus. Só se afastavam para uma amizade convencional, quando um deles iniciava uma relação com terceiros. Adriana era assumidamente bissexual e as suas duas relações amorosas sérias foram ambas com mulheres. Infelizmente, não duraram muito tempo, uma seis meses e a outra menos de dois anos. Por isso, Adriana era uma mulher desiludida com o amor. Com o sexo oposto nunca tivera nada para além do momento sexual, o que para si era quase contranatura, porém via-o como a sua pequena perversão, o seu saciar daquele cantinho de si que adorava ter um homem dentro dela. E a quase totalidade das vezes que cedera à tentação de ir para a cama com um homem fora com Leonardo.

O bom da relação deles era não haver cobrança. Sempre que ele entrava num namoro mais sério ligava a Adriana a contar como estava feliz e isso servia de aviso que a amizade tinha de regressar ao preto e branco. O mesmo acontecera com ela, pois deixara de se encontrar com ele nas duas vezes que entrara nas relações sérias.

Naquela noite, estavam ambos descomprometidos.

Adriana estivera quase um mês em Nova Iorque em audições na Broadway, um sonho antigo. Fizera provas excepcionais, mas fora preterida em todas, perdendo para concorrentes mais novas. A temporada na Companhia Nacional de Bailado ia começar, daí que não valeria a pena prolongar a estadia na Big Apple.

Nessa tarde, Leonardo ligara-lhe com o convite para assistir a um concerto de música clássica no grande auditório do Centro Cultural de Belém. Como bailarina de ballet clássico, aquele era um género musical que Adriana se habituara a ouvir desde os seus quatro anos e jamais deixaria de o apreciar.

Contudo, ela sabia que o convite seria mais que uma ida ao concerto. Estivera fora um mês e regressara no dia anterior. Leonardo tinha tantas saudades dela, quanto Adriana tinha dele. Seria uma saída para o concerto e o regresso seria para casa dela, onde passariam a noite juntos na cama a fazer sexo. E apesar de preferir o sexo com outra mulher, não podia dizer que não tivesse com vontade de o fazer com ele. Leonardo era um amante gratificante e se fosse mulher, Adriana poderia deixar-se levar ao altar. Sendo homem, era apenas um saciar perverso da sua líbido.

O trajecto deles levou-os a atravessar a rua e entrar na área do grande centro cultural. Passaram a fachada e encaminharam-se para as bilheteiras onde Leonardo iria levantar os bilhetes reservados. E ele não fizera por menos, comprando ingressos para um camarote com vista privilegiada para o palco.

— Tu és demais. — constatou Adriana em tom de elogio.

Leonardo sorriu e desvalorizou.

O casal seguiu para as portas de entrada do auditório. Ainda tiveram de aguardar alguns minutos até poderem entrar. E naquele espaço já se encontravam muitas pessoas para assistir ao concerto.

Assim que os funcionários abriram as portas, Leonardo mostrou os bilhetes e eles seguiram as indicações até ao seu camarote. O espaço privado ficava no primeiro andar e era a segunda varanda a contar do palco.

— Melhor, só sentado no palco. — disse Leonardo com humor.

Adriana despiu o casaco de pele e o barrete, ajeitando o cabelo longo. Todo o seu corpo parecia uma obra de arte, onde as linhas corporais haviam sido esculpidas pelo treino do bailado. O vestido azul-turquesa era justo e tinha um decote humilde, pouco revelando da cova entre os seus seios pequenos. Um dia, ela confidenciara a Leonardo que se orgulhava do seu corpo, excepto dos seios que a actividade física esbatera. Em compensação tinha umas pernas longas e coxas bem trabalhadas, daí que não se importasse que o vestido as revelasse quando se sentou. Outro pormenor que lhe dava ainda mais imponência eram as botas de cano comprido.

— Está muita gente. — assinalou Leonardo, sentando-se a seu lado. — Dizem que as pessoas não apreciam música clássica e depois enchem-se salas.

— Neste país diz-se muita coisa. O problema é que são os incultos que têm mais tempo de antena.

As pessoas espalhavam-se pelas cadeiras na plateia. Adriana e Leonardo olhavam-nas de forma distraída. Ele colocou a mão sobre a dela e sorriu-lhe. Ela retribuiu o sorriso e ofereceu-lhe um beijo nos lábios, dizendo:

— Obrigado!

— Eu é que agradeço, Adriana. É sempre maravilhoso partilhar a tua companhia.

— É recíproco, Leo. Tu sabes.

Ele assentiu com a cabeça.

O semblante de Adriana alterou-se, ficando triste e disse:

— Lamento que o teu namoro com aquela rapariga tenha acabado.

— Deixa… Já passaram duas semanas.

— Desculpa, não ter estado presente para te apoiar.

— Apoiaste à distância. — lembrou ele, sorrindo para atenuar o lamento. — Não me esqueço que, por minha culpa, não dormiste nessa noite.

— Jamais te desligaria o telefone, estando tu a precisar de um ombro amigo.

— Foi duro, eu estava muito apaixonado por ela. — confessou com infelicidade. — Cheguei a convencer-me que desta iria assentar.

— Lamento…

— Esquece. Já passou.

Adriana abriu o sorriso e deu-lhe uma palmadinha de conforto na mão. A seguir, voltaram a trocar um beijo nos lábios e ela perguntou:

— Dormes comigo esta noite?

— Estou a contar com isso. — respondeu ele com naturalidade.

Ela sorriu-lhe de forma condenatória como se a sua resposta tivesse sido demasiado convencida. Depois, modificou para um sorriso agradado e retorquiu:

— Tenho saudades tuas. Já não estamos um com o outro há…

— Oito meses. — completou. — Foi o tempo que durou.

— Sabes que em todo esse tempo eu nunca estive com outro homem.

— Não precisas de te justificar.

— Não me estou a justificar. É só para que percebas como te desejo neste momento.

— Tem calma, senão ainda o fazemos aqui. — pediu bem-humorado. A sua mão passou pela coxa dela. — Como está o teu coração?

— Fechado para balanço. — informou como se fosse irrelevante. — Conheci uma bailarina em Nova Iorque. Passámos algum tempo juntas, dormimos juntas, mas… Foi só isso. Nunca foi pensado para ser mais que uns momentos de prazer.

Nesse instante, atrás da enorme cortina do palco, começou a ouvir-se a afinação dos instrumentos da orquestra que iria tocar.

— Estão a aquecer.

Leonardo concordou e adicionou:

— Gosto particularmente dos instrumentos de sopro. Principalmente se forem tocados por mulheres. — Sorriu em provocação. — Quem melhor para trabalhos de sopro?!

Adriana percebeu o segundo sentido das suas palavras e retorquiu:

— Vocês, homens, gostam muito de mulheres a fazer trabalhos de sopro. — Lançou-lhe um olhar lânguido. — Eu sou bailarina, mas logo posso soprar na tua “flauta”.

— Já fizeste solos bem melodiosos com a minha “flauta”. — recordou Leonardo.

— Então, estamos combinados. — atalhou ela, voltando a olhar para a chegada de espectadores.

Leonardo não se pronunciou, mas não acreditou que isso viesse a acontecer. Adriana abominava o odor e o paladar, daí que só fizesse sexo oral com preservativos de sabor. Não lhe parecia que ela os tivesse em casa e também não era algo com que ele viesse para a rua.

As pessoas continuavam a entrar e a serem conduzidas por jovens vestidos de forma formal aos seus lugares. Nos minutos que se seguiram, eles observaram a plateia, comentando uma ou outra anónima que ia entrando, pois sempre conversavam sobre mulheres com o mesmo interesse e atracção.

O ambiente era agradável e a temperatura do espaço era amena, roçando o quente. Porém, sabia bem após o frio da rua.

— Como tem corrido o trabalho? — inquiriu Adriana, trocando a posição das pernas.

— Bem. — Leonardo era repórter de imagem de uma cadeia de televisão e acompanhava colegas jornalistas na captação de imagens para as notícias. — Isto tem andado calmo. Ultimamente, tenho acompanhado a correspondente da Assembleia da República.

— O país continua…

— …mergulhado na mesma merda de governantes. — concluiu ele. — Só vão parar quando nos afundarem de vez.

— Se o país for ao fundo, fugimos os dois para o estrangeiro. Que dizes?

Leonardo retribuiu o sorriso dela e respondeu:

— Parece-me bem.

Um grupo grande avançou por um dos corredores, uma família completa com pais, avós, filhos e netos.

— E tu? Que planos profissionais tens, depois de Nova Iorque?

— Vou recomeçar amanhã os ensaios para o novo espectáculo da Companhia Nacional de Bailado. Falei hoje de manhã com o coreógrafo, tenho um papel secundário…

— Nem aqui te dão o valor que mereces.

— A protagonista está mais apropriada para o papel que eu. — justificou. — Além disso, estive fora um mês. Por muito talento que tenhamos, essas ausências pagam-se.

— Tu devias ser bailarina no Bolshoi.

Adriana sorriu com o elogio. Bolshoi sempre foi um sonho ainda maior que a Broadway e ainda mais inatingível.

— Se não o consegui até hoje, não é com vinte e quatro anos que vou ter essa ilusão.

— Para mim, és a melhor e mais bonita bailarina do mundo.

— Obrigada. És um querido.

O agradecimento foi acompanhado de mais um beijo, desta vez mais prolongado e profundo, sendo interrompido pelo atenuar da intensidade das luzes, sinal de que o concerto estava prestes a começar.

Adriana afastou-se e afagou o rosto de Leonardo com a mão direita. Os rostos de ambos viraram-se para as primeiras linhas da plateia.

A luz apagou-se por completo e as cortinas abriram-se para revelar o palco. Os espectadores aplaudiram a aparição dos artistas que se levantaram para um cumprimento inicial ao público. O maestro, um homem alto de cabelo branco meio despenteado, fez o agradecimento final e virou-se para os músicos para que se desse início à actuação.

Os primeiros acordes ecoaram pela sala. Adriana observou o palco, deixando-se embalar pela mistura de sons que resultam sempre da interpretação de uma orquestra sinfónica. Viu o maestro a ocupar o ponto central do palco, como é costume em qualquer orquestra. Os músicos formavam um meio círculo à sua volta, virados para um público que absorvia cada nota com delícia. À direita do maestro, os violoncelos em primeira linha e os contrabaixos atrás. De fronte para o líder, as violas em primeira linha, os clarinetes, oboés, fagotes e trompas em segunda e trompetes, trombones e tuba em terceira. Atrás de todos eles, a percussão com dois grandes bombos.

Adriana nunca fora aluna de música, nem nunca tivera especial apetência para tocar qualquer instrumento. No entanto, sempre fora apaixonada por música clássica e sabia o nome de todos os instrumentos musicais ali presentes.

Os seus olhos prosseguiram a observação do palco. À esquerda do maestro, logo a seguir aos sopros, uma harpa e um piano. Entre estes e o limite do palco, os violinos divididos como fatias em primeiros e segundos.

Nada escapava ao olhar e aos ouvidos dela, desfrutando do momento e deixando as sensações percorrerem-lhe o corpo, esforçando-se por reter o impulso de se levantar e dançar. Um dia, pensava para si, ainda teria o prazer de assistir a um concerto de música clássica numa daquelas magnânimas salas de espectáculos na Áustria, que só conhecia dos Concertos de Ano Novo que passavam na televisão.

O repertório abriu com Strauss, passou por Verdi e Mozart. Seguiu-se um trecho de Puccini e Wagner. O público ovacionou o final de cada melodia. Quando retornou a Richard Strauss, o protagonismo centrou-se numa das raparigas dos violinos, sentada logo na primeira de duas cadeiras na fatia dos primeiros violinos.

No alto da sua varanda do camarote no primeiro piso, Adriana observou a jovem violinista, uma rapariga de cabelos ruivos encaracolados que segurava o violino com empenho e fazia as notas musicais brotarem das cordas com brilhantismo. A mão direita segurava o arco que deslizava nas cordas do violino fixo entre a sua mão esquerda e o pescoço.

Mesmo relativamente longe, Adriana conseguia discernir o rosto concentrado da artista. E ao ver a sua cara, sentiu um arrepio na espinha. Não foi uma sensação de susto, foi mais de surpresa, pois reconhecera alguém que não via desde os seus dezassete anos, alguém que tivera uma importância abismal na sua vida.

— Estás bem? — sussurrou Leonardo, apercebendo-se da posição rígida da amiga. Colocou a mão na dela e sentiu-a fria. — Estás gelada. O que se passa?

— Nada. Eu estou bem. — retorquiu, forçando um sorriso.

Leonardo não ficou convencido, mas permaneceu em silêncio.

O fim daquele trecho trouxe o intervalo. As cortinas fecharam e as luzes acenderam-se, o que provocou alguma movimentação nos espectadores na plateia.

Leonardo aproveitou o momento para insistir na questão anterior.

— Não é nada, Leo. A sério. — repetiu Adriana. — Vi uma pessoa que não via há muito tempo. Foi a surpresa…

— Onde?

— A solista.

— A do violino?

— Sim.

— Quem é ela?

— Pareces um inspector da Judiciária. — constatou Adriana, divertida, procurando fugir à questão.

— Desculpa. Fiquei curioso.

— Não faz mal.

— Não queres falar nisso?

A bailarina encolheu os ombros.

— Não há nada para falar.

Fosse o que fosse, Leonardo conhecia a amiga o suficiente para perceber que o assunto não era tão ligeiro quanto ela queria aparentar. Porém, não iria invadir o seu espaço com questões, pois quando ela entendesse saberia revelar-lhe o que houvesse para ser revelado.

As pessoas que abandonaram a sala no intervalo começaram a regressar. Desta vez já não havia necessidade de serem conduzidas aos seus lugares. E parte dos jovens que fizeram esse serviço estavam naquele instante a vender brochuras com informações do espectáculo. Um deles bateu à porta do camarote.

— Peço desculpa. — disse ele, mostrando as brochuras. — Estão interessados…

— Sim. — respondeu Adriana.

O jovem apontou-lhe uma das brochuras e Leonardo levou a mão ao bolso para tirar a carteira.

— Eu pago! — exclamou a bailarina. Sorriu. — Era o que faltava, se para além dos bilhetes ainda ias pagar a brochura.

O jovem recebeu o dinheiro e abandonou o camarote.

Aproveitando os últimos minutos do intervalo, Adriana folheou a brochura, passando as páginas, uma a uma, como quem procura algo. Ao chegar à secção de apresentação dos músicos, o folhear estagnou nos violinos, onde no topo estava a fotografia da violinista solista ruiva. Ela não tinha dúvidas, mas o nome abaixo da foto confirmava a sua certeza, o solo fora protagonizado pela outrora sua amiga, Zahra Yamanova.

— É ela? — questionou Leonardo, indicando a foto.

— Sim… — suspirou Adriana.

— Russa?

— Portuguesa. — corrigiu. — A mãe é que é russa, mas o pai é português.

As luzes voltaram a diminuir até se extinguirem e as cortinas voltaram a abrir para o concerto prosseguir.

Os músicos da orquestra pareciam estátuas. Somente o pianista se mexia para interpretar um solo de piano. O jovem que dedilhava as teclas do piano investia nos acordes com ferocidade, empregando intensidade ao som, o que transformava o seu cabelo já pouco penteado numa cabeleira emaranhada.

No alto do seu lugar, Adriana despendeu pouco mais de meio minuto a observá-lo. A sua atenção foi novamente arrebatada para a violista ruiva que olhava o chão, aguardando o momento de voltar a tocar. Tal como todos os membros da orquestra, ela vestia de escuro e no seu caso um vestido preto que começava abaixo das axilas e descia até aos pés.

Entre notas de piano que variavam entre carícias auditivas e investidas bombásticas, a mente de Adriana perdeu-se em recordações…

 

Adriana conheceu Zahra no primeiro dia de aulas do 7º ano de escolaridade. O Outono já entrara no calendário, mas o dia apresentava-se como se fosse uma manhã de Agosto.

Com treze anos, Adriana era já uma rapariga que respirava confiança. Naquela manhã, iria encarar uma nova escola, uma nova turma, novos professores, tudo novo. E fora um dia de tal forma marcante que ela recordava todos os pormenores, até a forma como se vestira de t-shirt preta por baixo do seu muito usado blusão de ganga e da saia curta axadrezada, pois com aquela idade Adriana já era muito orgulhosa das suas pernas. E os quase dez anos de ballet faziam-na sobressair ao caminhar nas suas sandálias.

A escola não era muito diferente da anterior, apenas os alunos eram mais e mais velhos. Em certos casos, sentia-se uma criança ao lado dos matulões dos últimos anos. Matulões a quem desde cedo despertara paixões, mas a quem nunca dera qualquer hipótese.

A primeira aula foi de Português, uma aula sem matéria que serviu apenas para a primeira apresentação. Aliás, aquele dia serviria só para isso, para apresentações.

A sua turma dividia-se quase no mesmo número de rapazes e raparigas. Na altura, Adriana ainda não tinha uma sexualidade definida nem se preocupara com isso. No entanto, recordando o momento, percebeu que observou mais as raparigas que os rapazes.

Na fisionomia das colegas havia um pouco de tudo. Sentada na última fila como sempre gostava de ficar, quando o seu nome não a obrigava a sentar-se na primeira fila, Adriana olhava-as sem interesse até ver entrar uma jovem de caracóis acobreados de rosto sério que vestia camisa de algodão, calças e casaco de ganga preta. Como fora das últimas a chegar, sentou-se na primeira cadeira vazia, logo na primeira fila, tentando não dar nas vistas.

A professora de Português iniciou a chamada. E sempre que havia um nome fora do comum, os olhos dos miúdos centravam-se no portador do nome. Assim aconteceu com a menina Cavaleri e com a menina Yamanova.

Adriana sempre fora muito sociável e por entre as apresentações já conversava com dois ou três colegas. A aula de apresentação era informal e não havia grande preocupação com a disciplina na sala.

Quando tocou para sair, a maior parte dos alunos precipitou-se para o exterior. Adriana segurou o único caderno que trouxera para qualquer apontamento que fosse necessário e também abandonou a sala.

Ao chegar ao corredor, Adriana encontrou Zahra sozinha encostada à parede, esperando já a aula seguinte. O impulso levou Adriana a dizer:

— Olá! És a Zahra, não és?

A outra assentiu com a cabeça, meio surpresa por aquela miúda desconhecida estar a falar com ela.

— Yamanova, não é? — continuou Adriana. Zahra não disse uma palavra. — És russa?

— Não.

Adriana estendeu-lhe a mão e apresentou-se:

— Adriana Cavaleri. Somos colegas de turma.

Zahra retribuiu o cumprimento e interrogou:

— És italiana?

— Não. — negou, abrindo ainda mais o sorriso simpático. — O meu bisavô é que era.

— A minha mãe é russa. — explicou Zahra, sentindo-se mais à vontade para falar. — O meu pai é português e eu nasci em Portugal.

Enquanto ouvia, Adriana reparou que a outra rapariga tinha, para além do caderno, um livro de música com um violino na capa.

— Gostas de música clássica?

Zahra percebeu que ela vira o livro e respondeu:

— Eu toco violino. Trouxe o livro porque tenho lições de violino a seguir às aulas.

— Que fixe! — exclamou Adriana. — Eu adoro música clássica. E faço ballet.

O gosto pelas artes da música e da dança criou uma grande empatia entre elas, o que levou à amizade. Na aula seguinte, já se sentaram ao lado uma da outra.

Zahra era um ano mais velha que Adriana. No entanto, a bailarina parecia ser a mais velha. Adriana era divertida, extrovertida, impulsiva, sociável e cativante. Zahra era tímida, recatada, hesitante, pouco sociável e cativante à sua maneira, conseguindo ser divertida com a amiga.

A amizade delas ia para além da escola, tornando-se frequente a presença de uma em casa da outra. A família de Zahra gostava muito de Adriana e a família de Adriana considerava Zahra encantadora e uma óptima companhia para a filha. A relação era tão boa que se tornara usual dormirem na casa uma da outra.

 

— Adriana! Adriana! — chamou Leonardo. — Estás bem?

— Sim. — confirmou, meio atordoada.

— Parecias distante.

Forçando um sorriso, a bailarina reafirmou que estava bem.

No palco, o maestro esbracejou para o início de mais uma música. Desta vez, o ritmo era alegre ao ponto de o público se sentir tentado a acompanhar o som com palmas.

Contudo, o espírito de Adriana insistia em ausentar-se nos confins das suas memórias…

 

Tanto Adriana como Zahra eram duas raparigas estudiosas e muito empenhadas nas actividades lectivas, tal como eram no bailado e na música respectivamente. Por isso, as boas notas eram usuais no seu percurso estudantil.

Com quinze anos, Adriana não revelava o mínimo interesse em assuntos do coração e a amizade com Zahra preenchia-a por completo. No entanto, na mesma altura, Zahra com os seus dezasseis anos deparava-se com o primeiro interesse de um rapaz.

A revelação do suposto interesse do rapaz foi feita pela irmã dele que era também colega de turma de ambas. Ele era mais velho e estava um ano acima delas.

Quando soube, Zahra não se sentiu atraída ou sequer apaixonada. No entanto, considerou que na sua idade já deveria ter um namorado e decidiu aproveitar a oportunidade. Contudo, o receio de não estar à altura da situação levou-a a partilhar os seus receios com a amiga:

— Nunca beijei um rapaz, Adriana.

— E então? — interrogou a outra sem dar importância. — Há sempre uma primeira vez para tudo.

— Mas, não quero que ele pense que nunca beijei um rapaz. — continuou. — E se fica desiludido e depois já não quer mais nada comigo?

— Que queres que te diga?

— Já beijaste algum rapaz?

— Sabes bem que não, Zahra.

As duas conversavam na sala da casa da família Cavaleri, sentadas no sofá, onde assistiam a uma série juvenil. Não estava mais ninguém em casa.

Zahra levantou-se do sofá e deu continuidade à questão que tanto a perturbava:

— Tenho tanto receio que acho que vou desistir de me encontrar com ele, amanhã, na escola.

— Não sejas parva. — repreendeu Adriana. — Olha! Já sei. Porque não treinas?

— Treinar???

— Sim, Zahra.

— Como?

— Fazes assim.

No sofá, Adriana fez um círculo à volta dos lábios com o polegar e o indicador, simulando uma boca. Depois, começou a lamber os dedos.

— Que fazes tu? — interrogou Zahra.

— Treinar um linguado. — respondeu Adriana com naturalidade. — Aprendi isto num filme.

Zahra voltou a sentar-se ao lado da amiga.

— Que parvoíce. Achas que é a lamber dedos que vou saber beijar, Adriana?

A amiga encolheu os ombros.

Por momentos, ficaram a olhar para a televisão, em silêncio.

— Há outra hipótese. — sugeriu Adriana, retomando a conversa.

— Qual?

Adriana olhou para a amiga e disse:

— Tu achas que com os dedos não é real e não dá para saber se estamos a fazer bem. — Zahra assentiu. — Então, porque não nos beijarmos?

— O quê? — interrogou Zahra, chocada. — Estás parva? Beijar-te na boca?

Perante a reacção da amiga, Adriana contrapôs:

— Tu é que sabes. Estou só a tentar ajudar-te. Somos amigas, não tenho problema nenhum em dar-te um beijo na boca. Mas… Tu é que sabes.

Zahra não disse nada, ficando a pesar as alternativas, sempre com o receio de falhar perante a eventualidade de o rapaz a tentar beijar.

— Prometes que não contas a ninguém? — pediu Zahra de forma súbita.

Num tom divertido, Adriana respondeu:

— Não sei. Talvez me paguem bem pelo exclusivo numa dessas revistas cor-de-rosa.

— Não sejas, parva, Adriana. Estou a falar a sério.

— A quem é que achas que ia contar? Descansa que fica entre nós.

Zahra sorriu pois sabia que podia confiar plenamente na amiga.

— Podemos experimentar?

— Claro. — concordou Adriana como se aquilo fosse tão normal como beber um copo com água.

Zahra virou-se para a amiga e Adriana aproximou o seu rosto ao dela. Por instantes, ficaram a olhar-se sem saber muito bem o que fazer. Mais decidida, Adriana avançou e tocou os lábios da amiga com os seus. Ao senti-los, Zahra afastou-se.

— Então? — questionou Adriana.

— Desculpa. Foi um reflexo.

Nova tentativa. Os rostos aproximaram-se e os lábios voltaram a tocar-se. Adriana beijou, Zahra limitou-se a sentir.

— Tens de ser um pouco mais activa, Zahra. — assinalou Adriana. — Se o vais beijar assim, ele fica a pensar que está a beijar um boneco. — Aproximando-se mais, Adriana colocou um braço atrás das costas de Zahra. — Quando te beijar, deves beijar o meu beijo, ok?

Zahra assentiu.

As duas jovens voltaram a encarar o rosto uma da outra. Adriana voltou a beijar os lábios da amiga. Meio a medo, Zahra começou a retribuir e ambas trocaram beijos suaves.

— Já está melhor. — elogiou a mais nova. — Agora, o passo seguinte.

— Passo seguinte? — interrogou Zahra, assustada.

— Sim. Achas que ele vai querer beijinhos assim?

— Então?

— Tens de aprender a dar um linguado.

— Contigo?

— Estás a ver aqui mais alguém?

Zahra revelou-se perturbada com a sugestão. Estar a beijar a boca da amiga já lhe parecia bizarro, agora meter a língua na boca dela e receber a dela na sua…

— Estou a tentar ajudar, Zahra. Se quiseres, paramos por aqui.

— Tudo bem. — concordou a mais velha. — Se já chegámos até aqui, continuamos.

Novamente, as faces de ambas aproximaram-se. Adriana levou as mãos ao rosto de Zahra e conduziu-a até si, beijando-lhe os lábios e avançando com a língua. Num primeiro impulso, Zahra reprimiu a investida da língua de Adriana. Porém, a outra não desistiu avançou novamente. Em poucos instantes, aquilo que se pretendia ser um treino de beijo transformou-se em beijos prolongados, levando o treino tão a sério que as suas bocas se beijaram, lamberam e chuparam durante longos minutos.

Fora bom, fora muito bom.

Só pararam porque ouviram a mãe Cavaleri a chegar a casa.

Adriana olhava para Zahra com um semblante deliciado. Nunca imaginara que beijar a amiga fosse tão bom. E Zahra também ficara deliciada com os beijos, assustadoramente deliciada.

O resultado daquela tarde foi que o encontro com o rapaz nunca aconteceu. Zahra recusou-se a corresponder ao interesse do rapaz, pois não conseguia deixar de pensar nos beijos da amiga.

Já Adriana juntara ao grande carinho que sempre tivera por Zahra uma paixão avassaladora, sentindo-se completamente perdida de amores por ela.

No dia seguinte, quando Zahra confidenciou o porquê de não ter ido ao encontro do rapaz, Adriana confessou que estava apaixonada por ela. Zahra ficou surpresa, mas a ideia não a desagradou, apesar de ser impensável para si que alguém soubesse daquelas intimidades para além delas.

Adriana sempre tivera um caracter forte e nunca se preocupara com as opiniões das outras pessoas. E, talvez por isso, nunca se interessara em namoros, pois os rapazes não lhe despertavam interesse. Quando descobriu os prazeres dos beijos com outra mulher, Adriana percebeu o que realmente queria.

No entanto, Zahra já não era assim. Facilmente sucumbia a pressões e preocupava-se muito com o que os outros pensavam ou diziam. Mesmo que isso condicionasse aquilo que lhe dava prazer.

Assim, para todas as pessoas que as rodeavam, nada se alterara. Contudo, quando estavam sozinhas, Adriana e Zahra namoravam às escondidas.

Nos primeiros tempos, aquele namoro secreto não passou dos beijos.

Certa noite em que, tal como tantas vezes acontecia, Zahra foi dormir a casa de Adriana, a relação foi mais longe.

Adriana entrou no seu quarto para se deitar. Zahra estendera no chão o saco-cama que sempre trazia e aguardou pela amiga, sentada em cima da cama com as pernas cruzadas, já pronta para se deitar, vestindo apenas as cuecas e uma camisola interior larga com o desenho de uma banda rock. Adriana sorriu-lhe e despiu as calças do pijama, ficando também só com a camisola interior de um rosa desbotado e as cuecas.

— Tens sono? — perguntou Zahra.

— Porquê?

Zahra olhou-a com provocação.

— Queres curtir um bocado?

— Não podemos fazer barulho. — lembrou Adriana, sentando-se na cama na mesma posição que a amiga. — Os meus pais podem ouvir.

— Nós temos cuidado. — disse Zahra, colocando as pernas à volta da cintura de Adriana.

Nos momentos que se seguiram, trocaram beijos apaixonados. A temperatura aumentou muito entre elas e o desejo tornou-se tão arrebatador que quase perderam a noção dos cuidados que tinham de ter.

— Espera! — pediu Adriana, receando terem sido ouvidas.

Quando confirmou que não havia perigo, levou as mãos à camisola e despiu-a. A seguir, pegou na mão de Zahra e pressionou-a contra o seu seio direito, enquanto a mão esquerda a puxou pelo pescoço e a arrebatou para mais um beijo profundo.

Zahra tinha tanto prazer quanto Adriana, mas fazia tudo a medo e sempre com a autocondenarão por se deixar cair naquela tentação. Viu Adriana despir-lhe a camisola e apalpar-lhe os seios sem pudor.

A paixão entre elas, naquela noite, entrou numa espiral de acontecimentos em que nada ficou por experimentar.

Com Zahra, Adriana aprendeu que adorava beijar uma mulher, apalpar o corpo feminino, saborear a intimidade da amiga, bem como o contrário. Não se importava nada de ser lésbica, se o resultado era um prazer tão avassalador.

Com Adriana, Zahra descobriu que algo nela estava errado. Não era normal ter tanto prazer com outra mulher. Não podia ser assim, ela não podia ser lésbica.

Talvez por isso, apesar de o namoro secreto delas ter durado algum tempo, enquanto Adriana era apaixonada, Zahra nunca revelou a mesma entrega naquela relação.

 

Os aplausos voltaram a trazer a atenção de Adriana para o espectáculo que decorria no grande auditório do Centro Cultural de Belém. Estivera o tempo todo a olhar para o palco, mas a sua consciência estava bem longe dali.

Quando os aplausos findaram, o maestro fez sinal para nova melodia, uma entrada de cordas e sopros que se silenciaram para abrir caminho a mais um solo de violino de Yamanova.

Desta vez, a melodia era triste. A violinista fazia os sons brotar das cordas do violino como se estas chorassem. O público ouvia aquela soberba interpretação, mas a música atirou Adriana para uma das recordações mais dolorosas de que tinha memória…

Faltavam pouco dias para o décimo oitavo aniversário de Zahra. Adriana, que fizera dezassete anos algumas semanas antes, planeava uma festa sem precedentes para a namorada, numa data tão importante como era alcançar a maioridade. Nunca dissera a ninguém, mas Adriana alimentava o sonho de que quando ambas fossem maiores de idade iriam assumir a sua relação e já ninguém as poderia impedir de viver o seu amor. Claro que na sua ingenuidade, Adriana nunca pensou que a primeira a deitar o sonho por terra seria a sua amada.

A tarde era de Verão, as férias já tinham começado e ambas haviam terminado o ano escolar com notas brilhantes. Para além disso, Adriana tornara-se uma jovem bailarina destacada com potencial para entrar na Companhia Nacional de Bailado e Zahra fazia provas para incorporar a Orquestra Metropolitana de Lisboa.

Nessa tarde, Adriana aguardava a chegada de Zahra a sua casa, aproveitando a ausência da família da bailarina para fazerem amor, como costume.

De súbito, o telefone de casa tocou. Adriana atendeu.

— Não vou aí, Adriana! — disse Zahra num tom cortante.

Surpresa, Adriana perguntou:

— Aconteceu alguma coisa?

— Aconteceram muitas coisas que não deveriam ter acontecido.

— De que estás a falar?

— Estou a falar de nós.

Como um raio, Adriana foi atingida pela percepção do rumo que a conversa levaria. As lágrimas começaram a escorrer-lhe pelo rosto.

— Eu não sou lésbica, Adriana! E sinto-me sufocada por ti, a quereres fazer de mim aquilo que tu és e que, pelos vistos, tens orgulho em ser.

— Como podes dizer isso? — soluçou a bailarina. — Tu apreciaste cada momento que tivemos juntas, tanto quanto eu.

— Eu não quero isto para mim.

— “Isto”? O que é “isto”, Zahra?

— Esta nossa relação doentia, esta farsa de paixão.

— Como podes ser tão cruel a falar do amor que partilhamos?

— Amor? — interrogou Zahra, fazendo ecoar duas gargalhadas de escárnio no outro lado da linha. — Não sejas ridícula.

Adriana não disfarçou o choro e a mágoa.

— Porque estás a fazer isto, agora?

— Porque quero ter uma vida normal, uma relação normal. E tu, Adriana, não tens lugar no futuro que quero para mim.

Zahra era tão cruel nas palavras, tão violenta no desprezo, que Adriana nem conseguiu dizer mais nada. Foi Zahra quem terminou o telefonema, dizendo:

— Vamos afastar-nos, Adriana. Cada uma deve seguir a sua vida longe da outra. Espero que respeites a minha vontade.

Adriana sofreu muito com aquele desfecho. Passou umas férias de Verão completamente isolada em casa, o que causou estranheza para os seus pais. Nenhuma das famílias encontrara explicação para o súbito afastamento das duas raparigas, mas Zahra inventara que estava chateada com Adriana porque ela gostava do mesmo rapaz que ela. E isso foi razão suficiente para justificar a zanga, pois calculavam que mais tarde ou mais cedo o interesse no rapaz seria esquecido e a amizade recuperada.

Só que a relação entre elas fracturara-se por completo.

No último ano em que partilharam a mesma escola, Adriana e Zahra nem se falavam. Zahra parecia não ter dificuldade em ignorá-la. Já Adriana olhava para a ex-amiga com a mágoa de sentir o coração em ruínas por sua causa.

Nesse ano, Zahra pediu transferência de turma. E no ano seguinte, pediu mesmo para ser transferida para outra escola.

Quando Adriana, na altura quase a fazer dezoito anos, viu Zahra sair da escola pela última vez, nunca mais a voltou a ver até àquela noite no Centro Cultural de Belém.

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