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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO LII

Passaram-se quase três meses, desde a final do campeonato. E quase um ano, desde o dia em que esta história começou.

Em Lisboa, a manhã do dia 3 de Maio estava radiosa, plena de raios solares. E neste dia eu comemorava mais um aniversário.

Logo pela manhã, os meus pais felicitaram-me por este dia. Antes de sairem para o emprego, passaram pelo meu quarto e deram-me um beijo de congratulações.

Mais tarde, quando me levantei, foi a vez de receber as felicitações da minha prima Mónica. Nesse dia, Mónica já revelava uma barriga bem grande. Segundo o seu médico, já não deveria faltar muito para entrar em trabalho de parto.

Durante a tarde, Humberto e Liliana visitaram-me e também eles me felicitaram. Carlinhos telefonou-me dos Estados Unidos, fazendo o mesmo que os outros. Também Bento e Marta passaram por minha casa, ao fim da tarde, para me oferecerem as suas felicitações.

Eu convidei todas as pessoas que me felicitaram para uma festa. Porém, todos se recusaram, justificando impossibilidades estranhas. Até os meus pais disseram que não podiam jantar em casa, pois tinham que fazer uma visita a umas pessoas.

Triste por me ver privado do convívio dos meus amigos, acabei por aceitar a ideia de jantar, somente, na companhia da minha prima.

No entanto, perto das 18h30, também ela saiu, acompanhada por Bento e Marta que lhe pediram para os acompanhar a um sítio, o qual não especificaram.

— E eu fico sozinho? — interroguei eu, vendo-a sair.

— Desculpa! — pediu ela. — Mas tenho de ir.

Fiquei deprimido. Todos me tinham abandonado. Nem Rafaela se preocupara comigo. Até me deu os parabéns no dia anterior, justificando que naquele dia estaria muito ocupada.

Meia hora mais tarde, decidi ir até à sala e ver um pouco de televisão. E foi nesse momento que a campainha soou.

Levantei-me do sofá e fui ver quem era. Carreguei no botão para abrir a porta da rua e esperei que a visita subisse. E quando abri a porta, vi Rafaela a subir as escadas.

Cada vez mais linda, Rafaela subia os degraus elegantemente, vestindo uma saia preta, uma camisa amarela e um casaco preto. Mesmo grávida de catorze semanas, não se notava qualquer aumento do seu aspecto fisico. Apesar de Rafaela achar o contrário.

— Não esperava ver-te, hoje. — disse eu, contente com a surpresa.

Rafaela beijou-me e disse:

— Vim buscar-te!

— Buscar-me? — questionei eu.

— Sim! — confirmou ela. — Quero que venhas a um sítio comigo.

Completamente confuso, aceitei o convite dela.

Naquela altura, Rafaela já tinha carta e comprara um carro de gama média.

Rafaela sentou-se ao volante. E eu a seu lado.

— Posso saber para onde me levas? — perguntei eu.

— É surpresa. — argumentou ela.

Após trinta minutos de viagem, Rafaela levou-me a um resteurante situado em Monsanto. Um belo edifício de um piso com um largo salão para as refeições.

Não era a primeira vez que lá ia. Havia um mês que lá estivera com ela, num belo jantar romântico.

Quando entrei, reparei naquele salão cheio de gente, ingerindo as suas refeições. Vendo-me ali com Rafaela, calculei que ela me tivesse levado ali para comemorar os meus anos num belo jantar a dois.

Porém, quando vi que a única mesa livre do salão tinha capacidade para várias pessoas, as minhas dúvidas aumentaram.

No entanto, nem tive tempo para pensar em mais nada. De súbito, ao fundo do salão, comecei a ouvir cantar o "Parabéns a você". E vi todos os meus amigos a aproximarem-se da mesa. Estavam lá os meus pais, Mónica, Bento, Marta, Humberto e Liliana. Todos a cantar.

Senti-me muito feliz e, simultâneamente, envergonhado ao ver aquelas pessoas desconhecidas a olhar para mim.

Todos os meus amigos me felicitaram. A primeira que eu beijei foi Rafaela, agradecendo-lhe a surpresa.

— Todos programámos isto. — informou ela, apontando para o grupo de convidados.

O jantar prolongou-se pela noite dentro. Uma bela festa de convívio entre quase todos os meus amigos. Uma noite muito feliz.

No fim do jantar, eu levantei-me e pedi a atenção de todos. E todos olharam para mim.

— Discurso? — interrogou Bento.

— Não! — respondi eu. — Somente, algumas palavras.

E perante a atenção de todos, comecei a falar:

— Primeiro quero agradecer a vossa presença. É a amizade dos amigos que engrandesse o ser humano. E eu sei que tenho um amigo em qualquer um de vós. Quero, também, aproveitar a vossa presença para comunicar que Rafaela e eu já marcámos a data do nosso casamento. Será no dia seis de Julho.

Rafaela levantou-se e beijou-me. Enquanto os outros nos felicitaram com aplausos e palavras de apreço.

Algum tempo mais tarde, numa altura em que os homens falavam de futebol e as mulheres falavam de telenovelas, Mónica começou a sentir-se mal.

Reparando no seu semblante penoso, perguntei:

— Mónica, estás bem?

— Não sei... — disse ela, segurando a barriga.

— Que se passa? — indagou o meu pai.

— Acho que me rebentaram as águas. — disse ela, receosa.

— Temos de a levar para o hospital. — lembrou a minha mãe.

Eu levantei-me e disse:

— Eu levo-a.

— Eu vou contigo. — disse Rafaela. — Lembra-te que não trouxeste carro.

Eu e o meu pai transportámos Mónica para o carro de Rafaela, colocando-a no banco ao lado do condutor. Rafaela sentou-se no banco traseiro e eu fui a conduzir.

— Segue! — disse o meu pai. — Nós já lá vamos ter.

Eu arranquei com urgência para o Hospital de Santa Maria.

Durante a viagem, Rafaela tentava reconfortar Mónica. Mas a minha prima tinha muitas dificuldades em suportar as dores.

Chegados ao hospital, fomos imediatamente auxiliados pelos enfermeiros do serviço de urgências. Felizmente, àquela hora, não havia muita gente a dar à luz.

Mónica foi transportada para a sala de parto, enquanto Rafaela e eu nos dirigimos para a sala de espera.

Dez minutos depois, chegavam os meus pais num carro. E Bento e Marta, noutro, trazendo Humberto e Liliana.

O tempo foi passando. E cada minuto parecia uma hora.

Meia hora depois, apareceu o médico.

— Então, senhor doutor? — perguntou a minha mãe.

— Onde está o pai? — perguntou ele.

Todos ficámos sem saber o que dizer.

— Sou eu. — repondeu uma voz atrás de nós.

Todos olhámos para a proveniencia da voz. E deparámos com Cajó.

— Que faz ele aqui? — perguntei eu.

A minha mãe puxou-me o braço, acalmando-me, e disse:

— Fui eu que lhe telefonei. Ele tinha o direito de saber que o seu filho ia nascer.

Cajó passou por nós e perguntou:

— Então?...

O médico sorriu e disse:

— Correu tudo bem. É uma menina.

— E a mãe? — perguntou ele.

— Também está bem. — informou o médico. — Estão ambas muito bem.

— Posso vê-las? — pediu ele.

— Claro! — acedeu o médico.

Cajó olhou para nós, agradeceu-nos e seguiu o médico até ao local onde Mónica se encontrava.

Ser pai alterou, completamente, o comportamento de Cajó. Ele assumiu a paternidade da menina e acabou por casar com Mónica.
 

Passaram mais dois meses, chegando finalmente o dia do meu casamento com Rafaela. Um quente e radioso Sábado de Julho.

Quase toda a nossa convivência se baseou na praia e no que a envolve. Por isso, decidimos fazer um casamento diferente e casámos na praia.

No areal, junto ao mar, uma mesa com um senhor do cartório esperava o início da cerimónia.

Vários convidados, envergando fatos-de-banho, como era pedido, aguardavam a chegada da noiva. Estavam lá os meus pais, a Mónica, o Cajó e a recém-nascida Carla. O Bento e a Marta. E os enamorados Humberto e Liliana. Entre outros convidados, alguns familiares meus e outros de Rafaela.

Junto à mesa, eu esperava a chegada da minha noiva. Vestido com uns calções de praia pretos e um laço, no pescoço, da mesma cor. Atrás de mim, estavam os meus pais que também eram os meus padrinhos de casamento. E do outro lado, a madrinha de casamento de Rafaela, a sua mãe.

Eu esperava ansioso. Até que finalmente ela apareceu.

Rafaela vestia um fato-de-banho branco. Não viera em biquini para não se notar os cinco meses de gravidez. Sobre o rosto, um véu. Caminhava até mim, acompanhada pelo seu pai e seu padrinho de casamento.

O pai da noiva deixou-a a meu lado e eu segurei a mão dela, tendo ele se colocado ao lado da sua esposa.

O senhor do cartório levantou-se e procedeu às formalidades da cerimónia.

Seguiu-se as frases da praxe, as declarações de fidelidade nos bons e maus momentos e a colocação das alianças.

Ao fim de alguns minutos, o senhor finalizou a cerimónia, dizendo-me que podia beijar a noiva. E eu selei o casamento com um doce beijo nos lábios de Rafaela.
 

Alguns meses mais tarde, nasceu o nosso filho Álvaro. Um parto difícil, mas com bastante sucesso.

Nesse ano, Rafaela e eu não participámos em torneios de volei de praia. A gravidez impediu-a de actividades desportivas profissionais. Porém, no ano seguinte, o nosso título mundial permitiu-nos participar novamente no Campeonato do Mundo de Volei de Praia. Só que a nossa preparação não foi a melhor e acabámos por não passar da primeira fase.

Nesse campeonato, o título sorriu à dupla brasileira composta por Rodrigo Vieira e Ana Vieira. Uma excelente dupla e que nada tinha de parecido com a dupla Paulo Roberto e Raquel Carvalhal que, entretanto, se haviam desentendido e abandonado a modalidade.

No entanto, a partir daí, entrámos no circuito mundial. Vencemos muitos torneios por todo o mundo e alcançámos mais quatro campeonatos do mundo, até abandonarmos a competição profissional, oito anos depois.

Quanto aos meus amigos:

Bento casou com Marta e ainda hoje vivem juntos em Lisboa. Não tiveram filhos, mas isso não os impediu de serem felizes.

Humberto e Liliana casaram alguns anos mais tarde. E, após dez anos de casamento, separaram-se. Do casamento nasceu uma filha, a Ema.

Humberto desapareceu depois do divórcio. E Liliana criou a sua filha com muito amor. E alguns anos mais tarde, Ema e Álvaro casaram-se.

Quanto a mim e a Rafaela, o nosso casamento durou quarenta e um anos. Só a morte nos conseguiu separar. Rafaela faleceu devido a uma insuficiência cardiaca. Foi a maior perda da minha vida, foi uma derrota inultrapassável. O que me valeu foi o apoio da familia que me ajudou a aguentar o choque. Nunca amei tanto ninguém, nem nunca amarei. O meu amor concentra-se agora no meu filho, na minha nora e nos meus netos.

Jamais esquecerei Rafaela. Foi uma mulher única e inesquecível. Talvez um dia nos reencontremos no "outro mundo".

 

FIM

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