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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO LI

Sábado, dia 10 de Fevereiro. Chegava o dia da final do Campeonato do Mundo de Voleibol de Praia de 1996. Nem eu nem Rafaela pensámos que seria possível chegar até aqui, quando nos juntámos para participar nos torneios portugueses da modalidade.

Ao longo dos últimos meses, demonstrámos o nosso valor. Já ninguém duvidava das nossas capacidades. Mas, naquele dia, não nos chegava pertencer aos melhores. Nós queriamos ser os melhores, queriamos o título mundial.

Nessa manhã, despertei do sono, quando o Sol nascia no horizonte. Deitado na cama, virado para a janela, observei o Sol a subir vindo do mar, ainda com os seus tons alaranjados. Com ele, aproximava-se o calor. Porém, eu não o sentia, uma vez que o ar condicionado do quarto estava ligado.

A meu lado, deitada na cama, repousando como a bela adormecida, Rafaela dormia profundamente. O seu belo cabelo louro cobria-lhe parcialmente o rosto. Os seus olhos estavam cerrados, escondendo a beleza da sua cor. Por baixo do lençol, o seu peito subia e descia ao ritmo da sua leve respiração.

Igualmente deitado, eu continuava a olhar para o exterior. E pensava. Pensava no passado, no presente e no futuro.

Sentia-me nervoso, ansioso... Por muitos jogos que façamos, nunca nos habituamos a encará-los com normalidade. Há sempre aquele nervoso miudinho, aquela ansiedade em jogar e o receio de falhar. Talvez sejam essas características que evitam que encaremos os jogos com leviandade.

O Sol começava a amarelar, subindo no céu e clariando a manhã. E eu continuava envolto no silêncio do quarto e concentrado nos meus pensamentos.

Lembrei-me daquele dia em que reencontrei Rafaela. Aquele dia de Maio, em que numa passagem pelo café, que tantas vezes visitava, encontrei aquela que se tornou na mulher da minha vida. Recordei a timidez com que nos encarámos um ao outro e o absurdo dos nosos diálogos. E pensar que quando a deixei, à porta de sua casa, desejei nunca mais a reencontrar.

E talvez isso tivesse sucedido, se ela não me voltasse a procurar dias depois. Tudo devido ao seu interesse no volei de praia e na necessidade de encontrar um parceiro para formar equipa consigo.

Na minha mente passaram as imagens dos nossos encontros seguintes e o pouco à vontade que sentiamos um com o outro. Os encontros falhados, os desentendimentos de quem pouco se conhece. E, principalmente, a aversão que eu inicialmente criara à sua pessoa. Tudo contribuia para que nos revelássemos incompativeis.

No entanto, as coisas foram mudando. Lembrei-me do perfume que lhe oferecera e que quebrou o gelo existente entre nós. Penso que foi aí que a nossa amizade se solidificou.

De dia para dia, os reencontros nos treinos e a convivencia diária edificaram essa amizade. Seguiu-se o nascimento do meu amor por ela e o tempo que eu levei a acreditar que a amava. Porém, o tempo foi-me mostrando o tamanho desse amor.

A minha mente recordou carinhosamente a época em que confessei o meu amor a Rafaela. E toda a relutancia que ela sentia. Mas se na altura não ganhei o seu amor, pelo menos, ganhei a sua confiança e ocupei um lugar único na sua vida.

Recordei o jogos que fizemos e as nossa vitórias. E simultâneamente o nascimento do amor de Rafaela por mim. O dia em que ela, após um treino, se me confessou disposta a pôr fim ao noivado com Tiago e a namorar comigo. Os momentos de paixão que partilhámos.

Os momentos seguintes, relembraram-me o torneio de Espinho e a memorável final entre nós e a dupla Quim / Marta. Que saudades eu sentia deles. Principalmente desse grande amigo, que dava pelo nome de Joaquim Campos, que um desastre de automóvel levara deste mundo. Como eu gostava de ter ambos, alí, junto a mim, a aconselharem-me.

Seguiram-se os momentos mais dificeis. Após a morte de Quim, o meu auxilio a Marta provocou a minha separação de Rafaela. Desentendimentos que levaram algum tempo a sanar.

Recordei, orgulhosamente, o dia em que, com a ajuda dos meus amigos, fui libertar Rafaela do seu ex-noivo que a raptara e a levara para Almada.

Após umas belas férias em Palma de Maiorca, com Rafaela, os maus momentos voltaram. Relembrei, com amargura, a noite em que Tiago num acto tresloucado quase comprometeu o resto da vida de Rafaela. Todo o sofrimento que eu e ela passámos... Enfim, pensei eu, o melhor seria esquecer.

Depois de várias imagens a passar pela minha mente, pensei em tudo o que já haviamos feito neste campeonato do mundo.

Após todas aquelas recordações, olhei para a mulher que dormia a meu lado e agradeci a Deus, tê-la posto na minha vida, ter cruzado os nossos caminhos.

E naquele momento em que olhava o céu azul, pensei no que seria o nosso futuro. Sim, o nosso futuro, pois eu não equacionava a minha vida sem Rafaela a meu lado.

Antes que pudesse continuar a divagar, Rafaela acordou e interrompeu os meus pensamentos.

— Bom dia, meu amor. — disse eu, dando-lhe um beijo.

— Boa dia. — retribui ela, ambas as coisas.

— Hoje é o grande dia. — lembrei eu.

Rafaela assentiu com a cabeça, mas fez um silêncio revelador da sua apreensão.

Nunca esquecendo o desafio que se nos opunha, deixámos a cama e fomos tomar um belo duche fresco.

Uma hora mais tarde, estávamos ambos na praia, sentados na areia, a descontrair sob um Sol escaldante e sentindo o agradável aroma do mar.

Rafaela encarou-me com um ar sério e disse:

— Tenho uma coisa para te contar.

— O que é? — questionei eu.

Rafaela hesitou.

— Então? — insisti eu.

Rafaela continou hesitante.

— Marco, eu... — começou ela.

— Sim? — disse eu, procurando apressar a sua declaração.

Rafaela estava a tentar dizer-me alguma coisa muito importante. Algo que já, dias antes, me tentara dizer.

Tentando vencer o receio que sentia, pela minha possível reacção, Rafaela continuou:

— Eu estou...

— Oi, pessoal! — disse Renato, interrompendo a confissão de Rafaela.

Renato aproximara-se, subitamente, vindo do estádio.

Eu estava expectante em ouvir o que Rafaela tinha a dizer, mas a presença de Renato quebrou a vontade dela.

Renato sentou-se junto a nós e disse:

— Já sabem quem são os árbitros da final?

— Não! — disse eu.

— São aqueles senhores que "curiosamente" apitaram todos os jogos da dupla brasileira. — informou ele.

Eu abanei a cabeça, desiludido com a escolha que a organização fizera.

— Cuidado! — avisou Renato. — Vocês se lembram quando eu falei em jogadas de bastidores? Não me custa a crer que estes árbitros estejam metidos nelas. Até as outras duplas brasileiras já se queixaram deles. Acreditem que se não fossem estes senhores, vocês teriam alguma hipótese de vencer a final.

— E assim? — questionou Rafaela.

— Não tenham ilusões. — disse Renato. — O resultado está feito.

Nós encolhemos os ombros.

— Ouçam! — pediu Renato. — Eu sou brasileiro e, logo à tarde, estaria a torcer pela dupla brasileira que estivesse no areal. Mas com estes representantes, uma dupla que representa tudo o que o desportista não deve ser, não. Logo sou brasileiro, mas vou torcer por vocês. Mesmo sabendo que não vos vão deixar ganhar, vou torcer por vocês.

— Obrigado! — agradeci eu.

— Não me agradeçam. — disse ele. — Faço-o porque eles não respeitam ninguém, nem os próprios compatriotas. A maneira como se comportaram perante o Rodrigo e a Ana foi indesculpavel. Mas não se iludam, as pessoas que vão encher aquelas bancadas, logo, não se vão lembrar disto e vão apoiá-los a cem por cento.

Nós concordámos com ele.

Renato levantou-se, despediu-se e seguiu para o hotel.

Depois de ele se afastar, eu olhei para Rafaela e perguntei:

— Então, o que estavas a tentar dizer-me?

Rafaela fez-se de esquecida e disse:

— Não me lembro. Não devia ser nada de importante.

Algum tempo mais tarde, almoçámos calmamente no quarto. Optámos por uma refeição longe do burburinho do restaurante.

Finda a refeição, iniciámos a nossa concentração no jogo. Permanecemos no quarto, em silêncio, até à hora de ir para o estádio.

Com muito empenhamento, Rafaela e eu estudámos e conversámos acerca das tácticas a usar durante o jogo. Analisámos os pontos fortes e fracos dos nossos adversários. Mesmo sabendo que o árbitro se iria opôr às nossas tentativas de ganhar, nós encarámos o jogo com profissionalismo e iriamos tentar contrariar todos intentos dos nossos adversários.

Cerca das 14h00, saí do quarto e fui até ao gabinete médico do torneio, sediado no hotel, para uma última análise ao meu ferimento. O médico substituiu o penso e enrolou melhor a ligadura, aconselhando-me a não usar a liga elástica, pois poderia apertar demasiado o braço. Como as dores não tinham aumentado, o doutor prescindiu de me receitar qualquer comprimido para elas.

Meia hora depois, retornei ao quarto e fui buscar Rafaela que, entretanto, se aprontara para seguir rumo ao estádio.

Mais quinze minutos para eu agrupar o meu equipamento e partimos.

Enquanto caminhávamos para o grande estádio de Copacabana, pudémos sentir a alta temperatura que já se registava àquela hora.

O jogo da final estava agendado para as 16h00. Mas, uma hora antes, Rafaela e eu já estávamos nos balneários a equiparmo-nos para o jogo.

Quando já envergávamos o nosso equipamento verde e vermelho, Rafaela aproximou-se de mim e disse:

— Marco, tenho de te contar algo muito importante.

Eu olhei-a, apreensivo com a seriedade do seu olhar, e ouvi-a com atenção.

— Tenho que te contar isto, agora. — continuou ela. — Senão, não terei cabeça para jogar concentrada no jogo.

— Rafaela, estás a deixar-me preocupado. — disse eu.

— Desculpa! — pediu ela. — Mas não sei se irás reagir bem, ao que eu tenho para te dizer.

Eu observei-a pacientemente, coloquei-lhe as mãos nos ombros e, num tom doce, pedi-lhe que confiasse em mim.

— Já há alguns dias que tento ganhar coragem para te contar isto. — continuou ela, mantendo-se hesitante e falando sem dizer nada de concreto.

— Por favor, Rafaela... — insisti eu.

Rafaela olhou-me com receio. Os seus olhos tremiam, receavam o resultado de uma confissão demasiado importante. Soluçando, Rafaela ganhou coragem e disse:

— Marco... Eu estou... estou...

— Fala, Rafaela! — implorei eu.

Num suspiro, Rafaela disse, finalmente:

— Estou grávida.

— O quê??? — perguntei eu, estupfacto.

Rafaela encarava os meus olhos, receosa, e quase se desfazendo em lágrimas.

A minha surpresa foi tão grande que a minha voz saiu muito forte, o que levou Rafaela a pensar que eu ficara zangado.

— Estou à espera de um filho teu. — completou ela, falando pausadamente e temendo uma reacção violenta.

De súbito, apercebendo-me claramente do que ela me dissera, senti-me inundado por uma enorme felicidade. Sem pensar em mais nada, abracei-a e acarinhei-a nos meus braços.

— Rafaela, tu estás a tornar-me o homem mais feliz deste mundo.

A minha alegria, encheu-a de felicidade e todos os seus receios se desvaneceram.

— Porque não me contaste, antes? — perguntei eu, beijando-lhe o cabelo.

— Tive medo. — confessou ela.

Eu afastei-a, um pouco, olhei-a nos olhos e inquiri:

— Medo de quê?

— Da tua reacção. De que não te agradasse a ideia. De te perder... Sei lá. Tive medo.

— Não tenhas. Eu jamais te abandonaria. — disse eu. — Afinal, tu és a mulher que eu amo e aquela com quem quero casar. — com um tom sério e um olhar carinhoso perguntei. — Rafaela, queres casar comigo?

Ela olhou para mim, deixando escapar uma lágrima, e respondeu:

— É tudo o que eu mais quero.

E o compromisso foi selado com um beijo.

Minutos mais tarde, recompostos da emoção anterior, entrámos no areal para iniciarmos a preparação para o jogo. Estávamos a quarenta e cinco minutos do início da final.

As bancadas estavam meio cheias. A distancia a que estávamos da hora do jogo, provocava a pouca adesão do público. Mas, mesmo poucos, eles cantava e dançavam ao som do samba.

Rafaela e eu fizemos um primeiro treino de quinze minutos. Apenas nós vieramos ao areal. Não havia, ainda, qualquer sinal da presença dos nossos adversários.

Durante aquele pequeno aquecimento, ressenti-me das dores no braço.

Meia hora antes do jogo, regressámos aos balneários. Refrescámo-nos um pouco e eu coloquei algum gelo sobre o ferimento para amenizar as dores.

— Achas que aguentas? — perguntou Rafaela.

— Claro! — respondi eu, mesmo sem acreditar no que dizia. — Não quero que o meu filho tenha um pai desistente.

Rafaela sorriu com as minhas palavras. E depois, disse:

— Como é que sabes que é um rapaz. Eu quero uma Silvia.

— E eu quero um Álvaro. — contrapus eu.

Quinze minutos depois, voltámos ao areal. Numa das metades do rectângulo, Paulo Roberto e Raquel Carvalhal já tinham iniciado a sua preparação.

As bancadas já estavam esgotadas. Havia gente por todo lado, mais de dez mil pessoas a dançar e a cantar, esperando o início das "hostilidades".

O amarelo e o azul eram as cores predominantes. Porém, numa pequena zona, concentrava-se uma pequena centena de espectadores, empunhando bandeiras de Portugal e gritando por nós. Mas por cada bandeira portuguesa, havia cinquenta do Brasil. E por cada espectador a cantar por nós, havia cem a cantar pelos brasileiros.

Debaixo de um ambiente de samba, com a música a inundar o ambiente, Rafaela e eu fomos para o nosso meio-campo e trocámos a bola entre nós para descontrair da tensão que sentiamos.

Quando o speaker entrou no areal, as duas duplas sentaram-se nas cadeiras, possibilitando o início das apresentações.

O indivíduo, de microfone na mão, começou:

— Oi, pessoal!

O público respondeu, retribuindo o cumprimento.

— Viva o Brasil! — disse ele.

E o público gritou, euforicamente, repetindo o que ele dissera.

Antes que continuasse, começaram a ecoar pelas bancadas, gritos de "Brasil" e "Brasil campeão".

O speaker prosseguiu na sua função:

— Hoje, pessoal, assistindo a essa final, vamos todos gritar: Brasil, Brasil, Brasil...

— Brasil, Brasil... — respondia o público.

— E em confronto, nessa final, as duas melhores duplas do torneio. — continuou ele. — Vindos de Portugal, Marco Oliveira e Rafaela Pereira.

Nós dirigimo-nos para junto da rede, debaixo de uma forte assobiadela. Tinhamos quase todo o público contra nós. No entanto, por entre os assobios, ouviam-se alguns aplausos. Era a nossa pequena claque a saudar-nos.

Rafaela e eu respondemos ao apoio, acenando-lhes.

Caminhando pelo areal e ao som do samba, o speaker prosseguiu a apresentação:

— Do Brasil, actuais campeões mundiais, actuais primeiros classificados do ranking mundial, grandes favoritos à vitória... Senhoras e senhores, galera... PAAAAAAULO ROBERTO E RAAAAAAQUEL CARVALHAL.

O público explodiu numa enorme manifestação de afecto para com os seus atletas. Milhares de pessoas a gritar pelos seus nomes, cantando e dançando. Era um espectáculo medonho para nós. Parecia que aquelas dez mil pessoas se abatiam sobre nós. Era como jogar, carregando-os nas costas.

Seguiu-se a apresentação dos árbitros. Muito assobiados pelo público, aliás como todas as equipas de arbitragem.

Feitas as apresentações, os árbitros procederam à rotina da escolha de campo e bola. Paulo Roberto venceu na moeda ao ar e escolheu o campo, colocando-nos a jogar contra o Sol. A nós coube-nos iniciar o encontro com um serviço.

Caminhando para a linha de fundo, com a bola na mão, reparei no termómetro digital, colocado num dos cantos do recinto. Marcava 42 graus, uma temperatura escaldante.

Para disfarçar o nervosismo e a ansiedade, Rafaela dava pequenos pulos na areia. E eu batia a bola contra a areia, repetidamente, esperando o sinal do árbitro para iniciar o jogo. Do outro lado da rede, a dupla brasileira mostrava-se muito descontraida.

Após o apito do árbitro, eu rematei a bola para o outro lado da rede. Paulo captou-a, passou-a a Raquel que a levantou para que ele rematasse. Mas o remate saiu torto e a bola foi para fora. Um a zero para nós, com o público a mostrar o seu desagrado.

Mais um serviço meu. Paulo recebeu a bola, passou-a a Raquel que rematou imediatamente para o nosso lado. A bola embateu no nosso campo e o serviço mudou de lado. O público levantou-se e aplaudiu.

Paulo executou o serviço, rematando com força para o nosso lado. Eu captei o remate, entreguei a bola a Rafaela que me retribuiu o passe para eu ganhar novamente o serviço.

O público voltou a assobiar. Valeram os poucos aplausos dos lusitanos nas bancadas.

Rafaela pegou na bola e executou um dos seus brilhantes serviços, conseguindo o nosso segundo ponto. A proeza foi repetida mais duas vezes para desespero do público.

No entanto, a dupla brasileira mostrou-se estranhamente calma.

Novo serviço de Rafaela. Raquel apanhou a bola, entregou-a a Paulo que rematou para o nosso lado. Porém, o bloco formado por nós impediu a bola de passar, tendo esta caido junto à linha, claramente, dentro do campo. Só que os árbitros não foram dessa opinião e assinalaram-na como sendo fora.

— Fora? — interroguei eu, espantado.

O árbitro olhou para mim e mostrou-me o cartão amarelo. Começava o caseirismo do indivíduo que ajuizava o desafio.

Vendo o cartão, Rafaela puxou-me, afastando-me do árbitro.

Raquel serviu, a seguir, e conseguiu o primeiro ponto para eles.

Novo serviço de Raquel. Eu apanhei a bola, entregando-a a Rafaela que ma devolveu. E eu rematei para ganhar mais um serviço.

Nos minutos seguintes, o marcador foi evoluindo até chegar aos dez a sete, a nosso favor.

Paulo Roberto acabou por pedir um desconto de tempo. E nesses instantes, o público não se coibiu de mostrar o seu desagrado pelo resultado.

Rafaela e eu aproveitámos para descansar e repôr alguns líquidos perdidos.

No regresso ao jogo, o parcial desenvolveu-se com normalidade até ao catorze a onze. O público não gostou que nós estivessemos a vencer e assobiava, fortemente, quando eu me preparei para servir a bola de parcial.

Ignorando os apupos, rematei a bola para o outro lado. Esta passou a dupla brasileira e caiu, poucos centimetros, antes da linha de fundo.

O juiz de linha assinalou a bola como boa. Porém, a dupla brasileira começou com multiplos protestos, protagonizando um feio espectáculo de discussão com o árbitro. E este acabou por lhes dar razão.

Ao ver aquilo, dirigi-me ao indivíduo que tentava parecer um árbitro. Mas ele, vendo-me caminhar na sua direcção, ameaçou mostrar-me o segundo amarelo.

Antes de prosseguir, cabe-me explicar que se visse o segundo amarelo, isso representaria um cartão vermelho. O cartão vermelho não me expulsava do campo, como acontece no futebol, mas daria um ponto aos nossos adversários.

Raquel foi a jogadora que serviu novamente. Porém, executou-o com tanta força que a bola caiu fora. E o serviço voltou às nossas mãos.

Rafaela pegou na bola e encaminhou-se para o local do serviço. Atirou-a ao ar e rematou-a para o outro lado. Paulo captou-a mal e esta subiu junto à rede. Eu aproveitei e rematei-a com toda a força, obtendo o décimo quinto ponto no parcial.

Quando vi o árbitro principal validar o ponto, olhei-o com firmeza. O meu olhar valeu mais que mil palavras. E ele percebeu isso.

Rafaela abraçou-me, felicitando-me pelo ponto. E o público que nos apoiava, aplaudiu com alegria. Enquanto a falange de apoio canarinha emudeceu.

No intervalo, as duplas recolheram às cadeiras, protegendo-se do forte Sol. Alguns funcionários da organização aproveitaram para regar o público com água das mangueiras, colocadas no estádio para esse efeito.

Durante o intervalo, Paulo Roberto foi falar com o árbitro. Não sei o que falaram, pois tanto eu como Rafaela estávamos demasiado longe para ouvir.

Depois de cinco minutos de intervalo, as duplas regressaram ao campo.

A bola do jogo foi entregue a Raquel para que ela reiniciasse a partida.

Ao mesmo tempo que Raquel batia a bola contra o solo, Paulo pedia ao público que continuasse a apoiá-los. E para o ajudar, apareceu novamento o speaker:

— Aí, galera. Quero ouvir essas gargantas gritando "Brasil".

E o público voltava a incentivar a sua equipa.

Raquel serviu e a bola passou para o nosso lado. Rafaela captou-a e entregou-ma. E eu devolvi-lha. Mas, nesse momento, o árbitro apitou e assinalou transporte.

— O quê? — interroguei eu, abismado com a decisão.

A amostra de árbitro voltou a ameaçar-me com o segundo amarelo.

Estávamos perante um cenário onde tudo era permitido à dupla brasileira. E onde tudo nos era privado. Só faltava o árbitro privar-nos de pisarmos a areia.

Raquel voltou a servir e conseguiu um ponto directo, beneficiando da nossa desconcentração.

Mais um serviço da brasileira. Eu captei o remate, Rafaela levantou a bola e Paulo Roberto tocou-a para o chão, intrometendo-se no lance e invadindo claramente a nossa metade. Incrivelmente, o árbitro validou o ponto.

Eu protestei com o juiz e ele mostrou-me o cartão vermelho, empunhando-o com prepotência.

Com tudo isto, o resultado passou para os quatro a zero, favorável aos brasileiros. E eu vi-me obrigado a pedir um desconto de tempo.

Sentados nas cadeiras, Rafaela aconselhou-me calma.

— Calma? — interroguei eu. — Aquele filho da puta está a roubar-nos e tu queres que eu tenha calma.

— Sim! — insistiu ela. — Temos que nos manter concentrados. Só assim podemos vencer o jogo.

— Com estes árbitros, isso é impossível. — argumentei eu.

— Não tenhas tanta certeza disso. — disse ela.

Findo o tempo de desconto, todos regressámos ao campo.

O parcial continuou com maior ou menor normalidade. Nunca conseguimos recuperar a desvantagem. Até porque, ao mínimo sinal de que isso pudesse suceder, lá estavam os árbitros a evitá-lo.

Com o resultado em catorze a cinco para os brasileiros e com uma festa enorme nas bancadas, Paulo serviu para conquistar o parcial.

Rafaela captou o serviço, entregando-me a bola. Mas como eu estava descaido para o lado do árbitro principal, esqueci o jogo e rematei a bola, simulando uma falha no remate, contra o indivíduo que se dizia juiz da partida. A bola acertou-lhe na cabeça.

Muito hipocritamente, pedi-lhe desculpa. Mas quando me afastei, sussurrei:

— Essa já ninguém te tira.

Cansados, Rafaela e eu regressámos às cadeiras.

— Aquela foi de propósito!? — disse Rafaela que me conhecia demasiado bem.

Eu sorri e ela compreendeu que estava correcta.

Durante aquele segundo intervalo, um dos membros da organização foi falar com o árbitro. Naquele momento, não percebi o que ele lhe fora dizer. Mas, mais tarde, contaram-me que o indivíduo fizera um aviso ao árbitro para modificar a sua actuação, pois a arbitragem estava a ser demasiado escandaloza. E é claro que a imagem do volei de praia não ficaria nada favorecida com aquela prestação. Ainda mais, com o jogo transmitido para os quatro cantos do mundo.

Durante esse tempo, Rafaela e eu não conversámos. Mantivemo-nos concentrados, segurando a mão um do outro.

O árbitro reocupou o seu lugar e as duplas voltaram ao campo. Iria começar o terceiro e último parcial. Jogado da forma com eu já explicara na final de Espinho.

Chegou, novamente, a minha vez de servir. Coloquei-me no local e rematei a bola para o lado de lá da rede. Paulo recebeu o serviço e passou à sua colega. E esta rematou para o nosso lado, fazendo o primeiro ponto.

Aquela pequena vantagem fez o público ovacionar a sua equipa com mais aplausos.

Seguiu-se o serviço de Paulo. Eu apanhei a bola e levantei-a para que Rafaela rematasse imediatamente. Foi o um igual.

Esta sequência manteve-se até aos dez a dez. Parecia que o jogo não iria conhecer um vencedor. Para minha surpresa, a arbitragem pautou-se pela normalidade.

O jogo desgastava-nos muito. E eu, temendo uma quebra física, pedi o primeiro desconto de tempo daquele parcial.

Aproveitámos aquele breve minuto para nos refrescarmos e bebermos alguma água.

Regressados ao areal, eu voltei a dispôr do serviço. Rematei a bola para o campo adversário, colocando-a entre Paulo e Raquel. A jogada provocou um desentendimento entre eles e a bola embateu na areia. Era o onze a dez, a nosso favor. Uma leve vantagem que se poderia tornar importante.

E a dupla brasileira sabia isso. Por isso, não foi estranho que se reiniciasse o seu mau perder.

Eu preparei-me para novo serviço. Mas, antes de o executar, Paulo foi protestar com o árbitro, dizendo que eu estava a pisar a linha de fundo. Ele não tinha razão e o árbitro não lha deu. Porém, o seu único objectivo era quebrar e influenciar a minha concentração.

Só que, sem o saber, Paulo Roberto estava a quebrar mais a sua concentração e a da sua parceira, do que a nossa.

E isso foi bem visível, quando eu servi para Raquel e ela falhou, completamente, a recepção.

O público começou a temer a quebra da sua equipa, mas nem por isso deixaram de os apoiar.

Com o resultado em doze a dez, eu executei um péssimo serviço, atirando a bola para fora. E o serviço voltou às mãos de Paulo.

Não duvidem que estávamos a ser superiores aos brasileiros e que normalmente obteriamos a vitória, com maior ou menor dificuldade. E ainda mais com esta ligeira vantagem na "negra". Mas com adversários como estes tudo podia acontecer. Não pelas suas capacidades, mas pelo seu anti-desportivismo. E foi isso que aconteceu a seguir.

Paulo serviu em força. Mas eu captei o remate e passei, imediatamente a Rafaela. Ela levantou a bola e eu rematei. Porém, Raquel executou um belo bloco e a bola não passou, vindo despenhar-se no nosso campo.

Com o remate, eu cai ao chão e o meu braço ferido ficou para lá da linha da rede. Paulo, aproveitando o facto de estar perto e numa atitude suja, pisou-me o braço na zona da ligadura.

A cena não escapou aos olhos de ninguém. Até o público afecto a eles, assobiou uma atitude tão baixa do seu atleta. Porém, incompreensivelmente, o árbitro limitou-se a exibir-lhe o cartão amarelo.

A agressão aumentou, consideravelmente, as minhas dores. Mas mesmo com as dores fortes, ainda tentei passar para o outro lado da rede e responder à agressão. Valeu a oposição de Rafaela que me impediu de fazer qualquer loucura.

— Não vele a pena. — dizia ela, empurrando-me para longe da rede.

As dores eram tão fortes que Rafaela pediu mais um desconto de tempo. Um desconto de tempo médico, mais precisamente.

A maior parte do público continuou a gritar pela sua dupla. Mas muitos brasileiros remeteram-se ao silêncio, desagradados com as atitudes de Paulo e Raquel.

Durante alguns minutos, fui assistido pelo médico do torneio. O doutor retirou a ligadura e analisou a ferida. Exteriormente, estava tudo bem. O pior eram as dores.

De súbito, o árbitro terminou o tempo de desconto. O médico avisou-o de que ainda não terminara, mas o árbitro argumentou que o tempo de assistência acabara.

Sem poder fazer nada, o médico acatou a ordem do árbitro.

— Deixe estar. — disse eu. — Eu jogo assim mesmo.

E com aquelas palavras, Rafaela e eu reocupámos as nossas posições.

Paulo olhava-me, sorrindo com enorme gozo, vendo que conseguira o seu objectivo.

Um dos apanha-bolas entregou o esférico a Paulo. E este reiníciou o parcial com mais um serviço muito forte. Eu captei a bola, em manchete, mas não suportei a dor do impacto, deixando Rafaela sem parceiro para prosseguir a jogada. Assim, ela viu-se obrigada a devolver a bola ao adversário, de qualquer maneira. E isso possibilitou-lhes a aquisição de mais um ponto. Era o doze a doze.

— Marco, tu não estás bem. — constatou Rafaela.

— Não te preocupes. — disse eu.

As dores não diminuiam, mas a raiva que sentia amenizáva-as. Não me perdoaria se os deixasse vencer tão facilmente.

Paulo voltou a servir. Rafaela apanhou a bola, passando-a para mim. Eu levantei-a e Rafaela rematou para o treze a doze.

Propositadamente, a dupla brasileira não pediu qualquer tempo de desconto. E como nós também já não o podiamos fazer, isso evitaria que eu fosse assistido.

O árbitro ordenou a execução de mais um serviço. Rafaela projectou a bola para o campo adversário. Raquel recebeu-a. Paulo levantou-a em manchete. E Raquel rematou forte para o nosso campo. Porém, Rafaela e eu blocámos a bola, junto à rede e adquirimos o décimo quarto ponto.

Tanto eu como Rafaela comemorávamos os pontos com raiva. Nem que tivessemos de comer a areia, eles não sairiam dali com o título.

Rafaela preparou-se para servir novamente. Era a bola de jogo. Estávamos a um ponto da concretização do sonho.

Os poucos que nos apoiavam, gritavam por nós. Enquanto os adeptos brasileiros se remeteram ao silêncio, desalentados com a má imagem do desporto que a sua dupla estava a dar.

Rafaela serviu com toda a força e com muita colocação. Raquel teve de fazer uso de todas as suas capacidades para apanhar o serviço, conseguindo colocar a bola em Paulo. Este levantou-a para a colega. E Raquel rematou forte.

Rafaela conseguiu fazer o bloco, mas não travou a bola que, para azar, veio bater-me em cheio na costura da ferida. O impacto foi tão forte que abriu a ferida, começando a sangrar.

Ao ver o sangue, Rafaela pediu ao árbitro que interrompesse o jogo. Mas este recusou-se.

No entanto, o segundo árbitro, que estava mais perto de mim, avisou-o que eu estava a sangrar. E era proibida a presença de jogadores ensanguentados em campo.

Perante este cenário, o árbitro principal interrompeu o encontro.

Vendo isso, a dupla brasileira começou a protestar com o árbitro. E esta atitude provocou a ira dos adeptos. Era uma postura demasiado mesquinha e o público canarinho começava a ficar farto daquelas fitas.

O médico assistiu-me com enorme cuidado.

— Isto tem de levar uns pontos. — disse ele. — Não vai poder continuar em campo.

— Está a brincar? — interroguei eu. — Estamos a um ponto da vitória.

Rafaela acariciou-me o cabelo e disse:

— O que importa é a tua saude. Se tivermos de desistir, para teu bem, desistimos.

— Nem pensar. — recusei eu. Depois, olhei para o médico e disse. — Doutor, se tem de coser, cosa.

— Mas não o posso fazer aqui. — disse ele.

— Então ponha qualquer coisa à volta. — sugeri eu.

O médico retirou uma compressa, pô-la sobre o ferimento e prendeu-a com uma ligadura.

— Vamos! — disse eu.

Rafaela viu-me tão decidido que me seguiu, incondicionalmente.

Eu envergava uma postura forte. Mas, interiormente, sentia tantas dores que mal conseguia mexer o braço.

O marcador mostrava o resultado de catorze a treze, a nosso favor. Junto da linha de fundo adversária, Raquel preparava-se para mais um serviço.

A bola partiu. Rafaela captou-a com dificuldade e eu levantei-a com um toque da mão esquerda. Rafaela rematou.

A bola embateu no bloco de Paulo. E Raquel apanhou-a atrás dele. Paulo levantou a bola para ela e a sua colega rematou forte.

A bola veio, cheia de efeito, cair no nosso lado. Mas antes que tocasse o chão, Rafaela tocou-a em manchete e eu atirei-a para o outro lado, usando o pulso esquerdo. Estava a evitar, ao máximo, usar a mão direita.

Porém, o meu toque foi fraco e não causou problemas aos nossos adversários. Paulo apanhou a bola, Raquel levantou-a para ele. E Paulo rematou.

Longe da rede, Rafaela gritou:

— BLOCO!

Era uma ordem para mim que estava junto à rede.

Virei-me para a rede e, por breves segundos, vi o sorriso de Paulo, achando-se cobrador de mais um ponto.

Vendo aquele sorriso asqueroso, ignorei qualquer possibilidade de dor e saltei.

Quando a mão de Paulo tocou a bola, as minhas duas já estavam elevadas em frente a ela. O remate embateu, fortemente, nas minhas mãos e a bola voltou ao campo deles, caindo na areia.

Caiu a bola e caí eu, contorcendo-me com dores.

O público português, nas bancadas, explodiu em euforia. Era o nosso décimo quinto ponto e a vitória no jogo.

Rafaela correu para mim e abraçou-me. Os seus olhos não contiveram as lágrimas de felicidade pela vitória. Mas vendo-me cheio de dores, a sua atenção e a sua preocupação passaram para o meu braço.

O médico do torneio correu imediatamente até mim. Assistiu-me, fazendo os primeiros-socorros à ferida.

— Temos que o levar para o balneário. — avisou ele. — A ferida tem de ser cosida.

Rafaela e o médico ajudaram-me a levantar. E quando fiquei em pé, ouvi aquelas dez mil pessoas baterem palmas. Ovacionaram-nos até sairmos do campo. Era o seu reconhecimento ao nosso esforço.

Paulo Roberto e Raquel Carvalhal abandonaram o areal, debaixo do desagrado do público. Sairam sem honra nem glória.

Nos balneários, Rafaela abraçava-me, tentando amenizar a dor que sentia, enquanto o médico cosia a ferida.

Após o tratamento, o médico abandonou o balneário.

— Marco! Como te sentes? — perguntou ela, preocupada.

Mesmo com algumas dores, respondi:

— Bem! Afinal, somos os novos campeões mundiais de volei de praia.

Rafaela sorriu e abraçou-me carinhosamente.

— Não sei o que teria sido da minha vida sem ti. — disse ela.

— Nem eu da minha, sem ti. — disse eu.

O diálogo terminou com um beijo apaixonado.

Um beijo que foi interrompido por alguém a bater à porta.

— Entre! — disse eu.

Atrás da porta apareceu Renarto.

— Cara, estão chamando vocês. — avisou ele.

Rafaela e eu deixámos o balneário e regressámos ao areal. Ficámos espantados com a ovação do público. Todos a aplaudirem os novos campeões do mundo.

No campo, fora montado um pódio. No lugar mais baixo, Rodrigo e Ana Vieira pousavam com a medalha de broze ao pescoço. No lugar do segundo classificado, apenas um representante da dupla brasileira pousava naquele lugar, guardando na mão esquerda as medalhas dos atletas.

Rafaela e eu cumprimentámos todos e subimos ao lugar mais alto. E mais uma vez, o público nos aplaudiu.

O presidente da organização do campeonato entregou-nos as medalhas de ouro. Enquanto o presidente da Federação Internacional de Voleibol nos presenteou com o troféu do campeonato.

Tudo isto foi uma grande emoção. Rafaela, a meu lado, chorava com tanta felicidade. Porém, eu só me comovi quando vi a minha bandeira a subir bem alto e ouvi o meu hino, tocado naquele estádio. Tocado como o hino de uma nação campeã.

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