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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO L

Na manhã seguinte, levantei-me bem cedo, tratei da higiene diária e deixei o quarto que Renato me facultara.

Quando passei pela sala, Renato estava sentado no sofá a ler o jornal.

— Então? Dormiu bem? — perguntou ele, ao ver-me.

— Mal dormi. — disse eu. — Estou preocupado com tudo o que aconteceu.

— Pois... E logo com a final já amanhã. — lembrou ele.

— Quero lá saber da final. — disse eu. — Eu quero é voltar a ter a Rafaela comigo. Eu não posso viver sem ela.

— Cara, você é apaxonadão por ela. — constatou ele.

Eu assenti com a cabeça.

Renato largou o jornal e, olhando-me com seriedade, disse:

— Desconfio que sei quem armou essa cilada em você.

— Quem? — inquiri eu.

— Ainda não tenho como provar, por isso não vou dizer. — argumentou ele.

— Mas eu quero saber.

— Vamos fazer o seguinte, você vai aguardar até logo à tarde. Eu vou investigar e depois procuro você.

Eu acabei por concordar com a sua sugestão. Também não tinha outra alternativa.

As horas foram passando. E eu esperava notícias de Renato.

Durante a tarde, para passar o tempo, fui assistir ao jogo de atribuição da medalha de bronze. Jogaram a dupla brasileira 2 e a dupla americana 1. O resultado foi uma vitória dos brasileiros. Não me lembro dos parciais, uma vez que não prestei muita atenção ao jogo. A minha cabeça só pensava em Rafaela e em como a amava.

Mesmo sendo um jogo de menor importância, o público não deixou de acorrer em força ao estádio. As bancadas não estavam cheias, mas tinham muita gente.

Após o jogo, fui caminhar pelo areal da praia de Copacabana. Sentia-me mal, muito mal. Pensava em Rafaela e em Rafaela e fazia uns intervalos para pensar em... Rafaela. Todas as minhas ideias englobavam Rafaela. Eu não conseguia equacionar a minha existência sem ela. Rafaela era tudo para mim. Era o meu pensamento, era o bater do meu coração, era ar que eu respirava, era a beleza para os meus olhos, era a ternura do meu ser, era a causa de tudo o que era bom em mim... Era a mulher da minha vida.

Perto das 18h00, regressei ao hotel. E encontrei logo o Renato.

— Cara, onde é que você se meteu? — perguntou ele. — Estou procurando você, faz tempo.

— Novidades? — questionei eu.

Renato não se pronunciou, limitando-se a pedir que o acompanhasse.

Eu acompanhei-o até à sua suite. Em todo o caminho até lá, Renato não disse uma palavra.

Ao entrarmos, Renato convidou-me a sentar no sofá e a esperar. E eu assim fiz.

Renato dirigiu-se ao video que tinha por baixo do televisor, retirou uma cassete do armário e colocou-a do interior do videogravador. A seguir, afastou-se dos aparelhos e sentou-se, igualmente, no sofá.

— Quando você me contou o que a Rita dissera, eu suspeitei que fosse um plano dos vossos adversários de amanhã. — disse ele.

— Quem? O Paulo Roberto e a Raquel Carvalhal? — questionei eu.

Renato abanou, afirmativamente, a cabeça e completou:

— Mais precisamente a Raquel.

— E então? — interroguei eu, expectante com o desenvolvimento do relato.

Renato continuou:

— Como suspeitei que fossem eles, coloquei uma camara de filmar no quarto de cada um. Camaras ocultas, claro. A que pusera no quarto do Paulo não revelou nada de especial. Mas a que pus no quarto da Raquel Carvalhal, meu amigo, você nem vai acreditar. Veja com os seus olhos.

E carregou no "play" do comando, pondo a fita a correr.

A imagem já estava iniciada no local que interessava. No ecrã podia observar-se Raquel Carvalhal deitada na cama, envergando uma lingerie azul.

— Está à espera de alguém!? — disse eu.

Renato assentiu com a cabeça.

— Já sei. Ela e o Paulo... — tentei eu adivinhar.

Renato sorriu e disse:

— Não! Você já vai ver.

Ambos esperámos o desenvolvimento da acção. A camara estava equipada com microfone, o que nos possibilitou ouvir todos os sons manifestados no interior daquele aposento.

A certa altura, ouviu-se bater à porta. Raquel levantou-se e foi abrir. O ângulo da imagem não englobava a porta, daí que não conseguissemos ver quem era.

— Oi! — disse Raquel.

— Oi! — disse a visita.

A voz pareceu-me familiar, porém aguardei que a pessoa entrasse no ângulo da lente. Segundos depois, Rita apareceu na imagem.

— Foram elas... — balbuciei eu.

— Vê o resto. — disse Renato.

Rita entrou e pousou a mala sobre a cama. Raquel seguiu os seus passos e, quando a viu liberta da maleta, abraçou-a por trás e começou a beijar-lhe o pescoço.

— Calma, Raquel. — pediu Rita.

— Não consigo resistir ao seu cheiro. — confessou a outra.

— Raquel, o nosso plano resultou na perfeição. — contou Rita, libertando-se do abraço e olhando-a de frente.

Raquel Carvalhal sorriu. E Rita continuou:

— Essa tal de Rafaela ficou furiosa, achando que o namorado estivera transando comigo. Arrasei o namoro dos dois. E amanhã, eles não vão ter cabeça para competir com vocês.

— Mas você não transou com ele, né? — indagou a outra, receosa.

— Claro que não. — respondeu a primeira. — Não que eu não quisesse, mas o cara é gamado na namorada. Mas isso não interessa. O importante é que com este plano, nada vos fará perder amanhã.

— Nós não precisávamos disto. — disse Raquel. — Trata-se, apenas, de uma medida de segurança.

Raquel voltou a abraçar Rita e beijou-lhe os lábios com naturalidade. A outra respondeu às caricias com outras. Toda a naturalidade com que a cena se desenvolvia, demonstrava que não era a primeira vez que ambas se entregavam àquelas intimidades.

Raquel despiu Rita. E Rita despiu Raquel.

Segundo Renato, seguiam-se mais cinquenta minutos de sexo entre elas. No entanto, eu não quis perder tempo a ver.

— Temos de mostrar esta fita à Rafaela. — disse eu, ansioso para que ela a visse.

Renato retirou uma cópia do armário e deu-ma, dizendo:

— Toma. Mostra para ela. E boa sorte para vocês.

— Obrigado, Renato. — agradeci eu, dando-lhe um abraço.

Com a cassete na mão, corri até ao quarto de Rafaela. Segui no elevador e corri pelo corredor até chegar à porta. Quase sem fólego, bati à porta e esperei que Rafaela abrisse.

Infelizmente, ninguém veio à porta. Voltei a insistir, mas ninguém me atendeu. O quarto estava vazio.

Como Rafaela não estava lá, corri até à recepção e perguntei por ela. Sempre com a cassete de video na mão.

Uma das recepcionistas do hotel informou-me que Rafaela fora correr para a praia.

Como não valia a pena ir procurá-la no longo areal de Copacabana, pedi à funcionária que me desse a chave do quarto. Como a senhora desconhecia a desavença entre nós, deu-me a chave sem qualquer problema.

Eu voltei a subir até ao quarto e entrei. Sentei-me no sofá e esperei que Rafaela regressasse.

Meia hora mais tarde, bateram à porta. Calculei que se tratasse de Rafaela, uma vez que estando a chave comigo, ela não poderia entrar.

Levantei-me do sofá e abri a porta. Nesse momento, fiquei cara a cara com ela.

— Que ideia foi essa de ires buscar a chave e vir para aqui? — interrogou ela, muito aborrecida.

— Tenho uma coisa para te mostrar. — disse eu.

— Não quero ver nada. — recusou ela. — Só quero que te vás embora. Vemo-nos amanhã, antes do jogo.

E enquanto falava, Rafaela ia entrando no quarto.

— Rafaela... — insisti eu.

— Por favor, Marco. Vai-te embora! — pediu ela.

— Mas, eu...

— SAI! — gritou ela, empurrando-me para fora.

Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ela fechou-me a porta na cara.

Sozinho no corredor, olhando para a porta fechada, apercebi-me que deixara a cassete no quarto. Voltei a bater à porta.

— Vai-te embora! — continuou Rafaela.

— Rafaela, pelo menos, vê a cassete que aí deixei. — pedi eu.

Do interior do quarto não veio qualquer resposta. E eu acabei por abandonar o piso.

Rezando para que Rafaela visionasse a cassete, dirigi-me à piscina do hotel e esperei por uma reacção dela. Esperei mais de uma hora, mas não houve qualquer reacção de Rafaela. Não houve o mínimo sinal de que Rafaela tivesse visto a cassete e andasse à minha procura.

O Sol começava a desaparecer no solo. A noite iniciava a sua prestação e escurecia o ambiente.

Triste com o fracasso do meu objectivo, regressei à suite de Renato. Bati à porta, mas também aqui ninguém me respondeu. Como ainda tinha comigo a chave daquela porta, aproveitei e entrei.

Cansado pela depressão que sentia, repousei um pouco no quarto que Renato me emprestara.

Minutos depois, ouvi a porta da suite abrir. Ao ouvir a voz de Renato, levantei-me da cama e segui até à porta. Porém, antes de sair do quarto, ouvi outra voz. Uma voz feminina, a voz de Rita.

Curioso com o que se estava a passar, escondi-me atrás da porta.

Renato falava com rudeza. E Rita mostrava-se relutante em o acompanhar até à sala. Quando a brasileira se sentou no sofá, Renato mostrou-lhe a gravação que me revelara horas antes.

Donde estava, não pude ver a reacção de Rita. Mas tendo em conta o silêncio, posso calcular o seu choque.

— O que você vai fazer com essa fita? — perguntou ela.

— Não sei. — disse ele. — Tudo depende de você.

— Como assim? — interrogou ela.

— Se você fizer o que eu mandar, eu esqueço essa fita. — explicou ele. — Mas se você se recusar, essa fita vai parar nas mãos de todas as estações de televisão desse país.

— Isso não interessa a ninguém. — contrapôs Rita.

— Você acha que não? — interrogou ele. — O caso entre uma jornalista de televisão, conhecida do público, e uma jogadora de volei, campeã do mundo?

Rita ficou em silêncio, denunciando a sua incapacidade para o combater.

— Que é que você quer de mim? — perguntou ela com uma voz soluçante.

— Para começar, quero transar com você. — disse Renato com naturalidade.

Mais uma vez, seguiram-se alguns momentos de silêncio.

— Que mais? — indagou ela, aumentando a agressividade da voz.

— Depois, quero que você se mande daqui. Não quero ver você, perto deste torneio, estragando a vida dos meus amigos.

Mais algum silêncio.

— Tudo bem. Eu não tenho outra solução. — disse ela. — Mas você há-de pagar por isso.

— Como você quiser. — concordou ele com ironia. — Depois de curtir todo esse seu corpinho, você pode apresentar a conta.

Ambos se dirigiram para o quarto de Renato. Não me preocupei muito com o que pudesse acontecer lá dentro, mas acabei por voltar a sair da suite. Não me interessava que Renato soubesse que eu tinha conhecimento da forma como tirara proveito da fita. A mim, só me interessava o meu proveito dessa fita, o qual não englobava nem Renato, nem Rita, nem Raquel... Apenas a reconciliação com Rafaela.

Apesar de já ter anoitecido completamente, fui caminhar um pouco pela praia. Perdi a noção do tempo e só quando me dei conta desse facto é que me decidi a regressar ao hotel.

Para minha surpresa, quando cheguei ao átrio, avistei Rafaela junto à recepção. Falava com uma das funcionárias do hotel. Deveria estar a perguntar por mim, uma vez que a senhora, ao aperceber-se da minha chegada, apontou para mim e avisou Rafaela.

Rafaela virou-se na minha direcção. Parada e sem dizer nada, ficou a olhar-me com aquele seus belos olhos que denunciavam todos os seus sentimentos. E naquele instante, eles revelavam todo o pesar de Rafaela.

Nunca tirando os olhos de mim, Rafaela caminhou lentamente até onde eu estava e só parou quando, apenas, um metro nos separava.

— Marco... — começou ela, sem saber como continuar.

— Sim?

Rafaela baixou o olhar e disse:

— Marco, perdoa-me!

Eu acariciei-lhe o rosto e levantei-lhe a cabeça, sorrindo-lhe.

— Marco, desculpa não ter acreditado em ti! — prosseguiu ela.

— Vamos esquecer o que aconteceu. — disse eu. — O importante é que já sabes a verdade.

Sem necessidade de mais palavras, unimo-nos num longo e apaixonado beijo.

E enquanto nos beijávamos, pude ver Rita passando apressadamente pelo átrio. Ela não nos viu, mas eu reparei nas marcas do seu rosto, um olho negro e o lábio arrebentado. Caminhava com alguma pressa, procurando evitar que a vissem. Talvez Renato tivesse ido longe demais. Nem quis pensar no que se teria passado naquele quarto e congratulava-me por ter saído antes de haver hipotese de testemunhar o que quer que fosse. Não sei porquê, fiquei com a ideia de que entre Renato e Rita já existiriam problemas antigos e que toda esta situação acabou por ter o aproveitamento de Renato para uma vingança por algo. No entanto, preferi acreditar que toda a disponibilidade dele em me ajudar fora por amizade.

E Rita tivera o seu castigo. Mas talvez tivesse sido um castigo demasiado pesado.

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