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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XLVIII

Os jogos dos quartos de final do Campeonato do Mundo tiveram início pelas 10h00, com o confronto entre Paulo Roberto e Raquel Carvalhal versus Ruben Castro e Karina Velez de Cuba. E eu e Rafaela lá estávamos na bancada, a assistir ao desafio.

O jogo foi muito equilibrado. A réplica dos cubanos aos campeões do mundo foi tanta que despertou o mau perder dos brasileiros. A dupla canarinha protestava por tudo e por nada, tendo sempre o apoio do público e acabando por conseguir pressionar o árbitro. Este acabou por acumular erros e quase sempre contra os cubanos.

A dupla brasileira acabou por conseguir a qualificação, obtendo uma vitória por dez a quinze, quinze a treze e quinze a onze.

No fim do jogo, os protestos dos cubanos eram imensos, mas o árbitro foi indiferente a eles e deixou-os a falar sozinhos. E o público respondia aos cubanos com insultos e assobios. Porém, a verdade era que os cubanos tinham razão, o árbitro tinha-os prejudicado. E só a cegueira patriota impedia o público de ver a verdade.

Cerca das 13h30 Rafaela e eu almoçámos. Fizemos uma refeição leve, unicamente para evitar qualquer fraqueza.

Durante o almoço, Rafaela questionou:

— Será que este vai ser o nosso último jogo?

— Porque dizes isso? — interroguei eu.

— Eles são muito fortes. — lembrou ela. — São a dupla brasileira menos forte. Mas, mesmo assim, estão muito acima de nós.

— Rafaela! Já te disse que temos de confiar nas nossas capacidades. — disse eu. — Se acreditarmos nisso, as coisas tornam-se possiveis. Não vamos até onde nos deixarem, vamos até onde conseguirmos ir.

Rafaela sorriu e sentiu-se mais motivada com as minhas palavras.

O almoço prosseguiu em silêncio, de forma a edificarmos a nossa concentração no jogo. Não dissemos uma palavra. E eu, tal como ela, concentrava o meu pensamento no desafio que se aproximava.

Depois de irmos buscar as nossas coisas ao quarto, seguimos para o estádio. Chegados aos balneários, equipámo-nos para o jogo.

Como precaução, coloquei uma liga elástica à volta da ligadura que cobria o ferimento. Era uma forma de comprimir o musculo, aquecendo-o e evitando o aumento das dores.

No entanto, durante a preparação para o jogo, as dores voltaram. Não eram tão intensas como nos outros dias, mas eram incomodativas.

O dia continuava quente, com uma temperatura acima dos 40 graus, mas que não afastava o imenso público das bancadas. A música animava-os e distraia-os do calor. Também a água projectada pelas mangueiras amenizava o intenso calor.

Rafaela e eu trocávamos alguns passes numa das metades do rectângulo de jogo. E do outro lado, os nossos adversários faziam o mesmo.

Perto das 15h00, as duplas recolheram às cadeiras e mantiveram-se sob os chapéus-de-Sol.

Por entre o som do samba proveniente das colunas de som, ouvia-se o público a gritar pela sua dupla. A festa era grande e tudo se preparava para mais uma vitória brasileira.

O speaker entrou em campo e começou:

— Oi, pessoal! Quero ouvir essa galera gritando! Brasil. Brasil. Brasil.

E o público respondia, gritando pelo seu país.

— Isto está mau. — disse Rafaela, segurando-me a mão.

— Não te preocupes, o público não ganha jogos. — argumentei eu, apertando carinhosamente a sua mão.

— Mas ajuda. — contrapôs ela.

A festa continuava animada e o speaker dava continuidade à sua representação:

— Nesse momento, aqui no campo de beach volei na praia de Copacabana, mais um jogo dos quartos de final... ─ O público pulava e dançava. — ...Em confronto, a dupla brasileira 3: ZÉ MARIA E PAULA GOMES...

O público levantou-se em delirio, tal como fazia sempre com a apresentação das duplas brasileiras. Choviam aplausos por todos os lados, enquanto a dupla canarinha entrava no areal.

— ...Contra a dupla portuguesa, Marco Oliveira e Rafaela Pereira.

A nossa entrada foi brindada com uma vaia de assobios.

Após a escolha de campo e bola, as duplas colocaram-se em posição nos seus meios campos. De um lado, Rafaela e eu equipados com o nosso traje habitual. Rafaela de biquini vermelho e camisola verde. E eu de calções vermelhos e camisola verde.

Os brasileiros, no lado de lá, estavam equipados de azul e amarelo.

O jogo começou com um serviço de Rafaela, dando assim início ao primeiro parcial. Um parcial muito equilibrado onde, para desilusão do público, nós vencemos por quinze a treze.

No intervalo, o público continuou a incentivar os seus jogadores. Cantavam e chamavam pelos nomes da dupla brasileira.

Porém, a minha grande preocupação centrava-se no meu braço. As dores aumentavam e começavam a tornar-se insuportáveis.

O árbitro apitou para que as duplas regressassem ao campo. Rafaela e eu deixámos as cadeiras e seguimos para um dos lados.

— Como está o braço? — perguntou ela, olhando para a liga.

— Mal... — respondi eu, sentindo muitas dores.

O jogo recomeçou com um serviço de Zé Maria. E os pontos do segundo parcial começaram a cair para ambos os lados. Porém, quando o resultado estava em oito a cinco, favorável aos brasileiros, eu vi-me obrigado a solicitar um desconto de tempo.

As dores eram horriveis e cada remate que eu fazia com o braço direito era um suplicio para mim. E como não era canhoto, todas as bolas eram rematadas com o braço ferido.

Durante o tempo de desconto, Rafaela pediu ao médico do torneio para que me assistisse, o que obrigou a que o desconto de tempo se tornasse numa paragem para assistência aos jogadores, algo previsto pelos regulamentos.

O médico pulverizou-me o braço com um spray. Uma substância milagrosa que me adormeceu as dores e me possibilitou a continuação em campo.

Finda a paragem, o jogo foi reatado. Continuei a sentir algumas dores, mas nada semelhante às anteriores.

O jogo continuou e, para desespero do público, nós conseguimos vencer por quinze a dez, obtendo a qualificação para as meias-finais.

No fim, Rafaela pulava de alegria e nem ligava aos assobios vindos das bancadas. A sua felicidade era enorme e partilhava-a comigo, abraçando-me com força.

Estávamos a fazer história nas areias de Copacabana. Jamais uma dupla portuguesa chegara tão longe num torneio internacional de volei de praia. Lembro-me que Marta contara que o anterior máximo havia sido feito por ela e Quim, quando atingiram os quartos de final num torneio do circuito mundial. Mas, num campeonato do mundo, nunca foram além da primeira fase.

Ao regressar ao balneário, notei que as dores estavam a aumentar. O spray era bom, mas não era eterno. Porém, como já não estava a jogar, poderia suportá-las melhor.

O que me preocupou, foi mais um mal-estar de Rafaela. À saída do balneário, voltou a sentir-se mal. E isso deixou-me novamente apreensivo, uma vez que os comprimidos não estavam a resultar, o que presupunha algo mais grave.

— Rafaela, tu não estás bem. — avisei eu, segurando-a.

— Isto já passa... — soluçou ela, amparada a mim.

— Vou pedir ao Renato que nos leve ao hospital. — disse eu.

— Não... — pediu ela.

Eu olhei-a com severidade e disse:

— Com a saúde não se brinca. Vais ao hospital para se saber o que tens.

Mesmo com os constantes protestos de Rafaela, fui ao hotel e pedi a Renato que nos encaminhasse ao hospital.

— Aqui, o melhor é você ir a uma clinica privada. — avisou ele.

— Tudo bem. — concordei eu. — Felizmente, o dinheiro não é problema.

Renato levou-nos a uma clinica privada, situada na zona rica da cidade. Um daqueles locais que só está acessivel às grandes carteiras. Infelizmente, só quem tinha dinheiro é que conseguia garantias de ser bem tratado e efecientemente. Por isso, tratando-se da saúde de Rafaela, não olhei a despesas.

Rafaela ia melhorando aos poucos, mas isso não me fez prescindir da visita ao médico.

Chegados ao edifício, Renato marcou uma consulta e Rafaela foi atendida quinze minutos depois.

Apesar da minha insistência, Rafaela quis ser observada pelo médico, sozinha. E pediu-me que a esperasse, ali, na sala de espera.

A consulta demorou meia hora. E quando Rafaela saiu do gabinete do médico, eu perguntei-lhe:

— Então? Que disse o médico?

— Tenho de fazer uns exames. — disse ela, mostrando pouca vontade em falar no assunto.

— Só isso? — insisti eu.

— Sim... — confirmou ela. E pediu. — Marco, agora não quero falar nisso.

Eu acabei por aceitar a sua vontade e não voltei a perguntar mais nada.

Quando Renato nos deixou à porta do hotel, Rafaela pediu-lhe para que a levasse na manhã seguinte à clinica. E só aí soube que ela tinha exames marcados para essa altura.

As horas foram passando, até chegar a hora do jantar. Rafaela acompanhou-me ao restaurante do hotel para jantarmos. No entanto, demonstrou-se, sempre, muito pensativa e desligada da realidade à sua volta.

Comecei a suspeitar que havia acontecimentos da consulta que ela não me contara. Mas, quando a interpelava sobre isso, ela esquivava-se às perguntas, ou então recusava-se a falar no assunto.

Por volta das 22h00, recolhemos ao quarto. Lá dentro, abracei Rafaela e comecei a beijá-la. Porém, ela tentava afastar-me e dizia:

— Não, Marco! Hoje não.

— Mas eu...

— Já disse que não quero! — disse ela, intransigentemente.

Eu larguei-a e virei-lhe as costas aborrecido com a sua recusa. Desejava-a, mas ela desprezara-me.

Rafaela afastou-se para a casa-de-banho e evitou despir-se à minha frente, tendo regressado com um roupão do hotel que só despiu pouco antes de se enfiar na cama.

Eu sentia que se passava algo que eu desconhecia. E isso aumentava a minha apreensão.

Interrogando-me sobre o que afectava Rafaela, despi-me e deitei-me na cama a seu lado, como costume. E mais uma vez, tentei seduzi-la a fazer amor comigo.

Coloquei um braço sobre o seu corpo e comecei a beijar-lhe o pescoço. Mas ela, furiosa, levantou-se da cama e barafustou:

— Já te disse que não quero. Que merda! Será que tu não sabes o que é um "não"?

Ela fora tão agressiva que eu não lhe dei resposta e deixei-a dormir em paz.

Na manhã seguinte, quando acordei, Rafaela já tinha saido. Deixou um bilhete a dizer que ia à clinica fazer os exames e pedia-me que fosse assistir ao jogo dos quartos de final, que se realizaria nessa manhã.

Era um jogo importante para nós, uma vez que o vencedor jogaria connosco nas meias-finais. Eu concordei com a sua preocupação e fui assistir ao jogo, mas lamentei que ela me pusesse de parte, naquela sua visita à clinica.

Às 10h00, iníciou-se o jogo entre a dupla americana 1, Wayne e Pamela Roberts, e a dupla checa, Petr Kovac e Martina Perlac.

Este foi um jogo com pouca história. Apesar de a dupla checa se ter batido bem, os americanos impuseram-se e acabaram por vencer o jogo com os parciais de quinze a dez e quinze a sete.

Ao regressar ao hotel, já Rafaela voltara da clinica. Uma das funcionárias do hotel informou-me que ela me esperava na piscina.

Eu fui ao seu encontro. E quando Rafaela me viu, manteve-se impávida, sentada na cadeira e a beber uma água de côco.

— Então? Qual foi o resultado dos exames? — perguntei eu, sentando-me na cadeira ao lado da sua.

— Não sei. — disse ela com frieza. — O médico vai examiná-los e depois diz-me o resultado.

— Mas não sabes se é algo de grave? — indaguei eu, preocupado.

— Não, não sei. — respondeu ela, rudemente.

Eu tentei não responder ao seu tom e, com uma voz meiga, convidei-a a almoçar comigo.

Ela aceitou, mas manteve-se distante. Mesmo quando esbocei um abraço, ela recusou qualquer toque meu. A sua súbita repulsa, por mim, era incompreensivel.

O almoço pautou-se pelo mais absoluto silêncio, entre nós.

Após o almoço, Rafaela subiu até ao quarto e deixou-me sozinho no átrio do hotel. Passei o tempo a ler o jornal com as notícias do dia.

Cerca das 14h30, também eu subi até ao quarto para ir buscar Rafaela. Porém, quando entrei nos nossos aposentos, encontrei Rafaela a sair da casa-de-banho, denotando grande indisposição e com aspecto de quem acabara de vomitar.

Ao vê-la, a minha primeira reacção foi ajudá-la. Só que ela recusou a minha ajuda.

— Eu sei cuidar de mim. — disse ela.

Eu dexei-a à vontade e não insisti nos auxílios.

Quando ela se deitou na cama, eu comuniquei-lhe que ia ao estádio, assistir ao último jogo dos quartos de final.

— Eu fico aqui. — informou ela. — Vou ver o jogo na televisão.

Eu também podia ver o jogo na televisão, mas não tinha vontade de estar junto dela, tendo entre nós aquela barreira de antipatia da sua parte.

Sem dizer mais nenhuma palavra, abandonei o quarto e parti para o estádio.

Enquanto caminhava rumo às bancadas, encontrei Rita, a jornalista brasileira.

— Oi! — cumprimentou ela com a sua voz sedutora.

— Olá! — retribui eu.

— Me disseram que vocês se qualificaram para as semi-finais. — disse ela. — Estão sendo a grande sensação do torneio.

— Obrigado.

— Será que você me dava uma entrevista? — pediu ela.

— Agora vou ver o jogo. — informei eu. — Se quiseres vir comigo, eu posso responder às tuas perguntas, enquanto vejo o jogo.

— De acordo. — aceitou ela.

A bela jornalista, vestida com uma mini-saia côr-de-laranja e um top preto, caminhou a meu lado, exibindo o seu magnífico corpo.

As bancadas estavam inundadas de gente. Uma enorme multidão invadiu o estádio para assistir a mais um jogo com uma dupla brasileira.

Felizmente, conseguimos arranjar lugar no cimo da bancada central.

A alegria do público continuava. Cantavam, dançavam e brindavam os seus jogadores com palavras carinhosas.

No areal, as duas duplas procediam aos preparativos para o jogo.

Rita retirou um bloco da sua pequena maleta e perguntou:

— Posso começar?

— Claro! — acedi eu, mantendo-me sentado a seu lado.

Rita ainda esboçou algumas perguntas, mas o ruido era tanto que mal nos ouviamos um ao outro. Por isso, ela acabou por desistir.

— Combinamos isso para mais tarde. — sugeri eu.

Ela assentiu com a cabeça.

No rectângulo de areia, iníciou-se o jogo entre o casal brasileiro, Rodrigo e Ana Vieira e a dupla americana, Mark Davis e Lysandra Brunnetti.

Eu assistia ao jogo com muita atenção. Era necessário analisar todas as capacidades das duas duplas e captar os seus defeitos e as suas virtudes. Rita respeitava a minha concentração e não tentou continuar a entrevista.

O primeiro parcial terminou com a vitória dos brasileiros por quinze a onze.

Durante o intervalo, aproveitei o menor ruido das bancadas e, olhando para Rita, disse:

— Desculpa, não estar a dar-te atenção.

— Não tem importância. — disse ela.

Eu senti-me injusto para com ela e sugeri:

— Podiamos combinar e encontrávamo-nos para me poderes entrevistar.

— Tudo bem. — concordou ela. — Eu te procuro no hotel. Agora tenho de ir.

E com aquelas palavras, despediu-se de mim com um aceno e abandonou as bancadas.

Sozinho no meio daquela imensidão humana, assisti à vitória dos brasileiros no segundo parcial, por quinze a dez. Rodrigo Vieira e Ana Vieira obtinham assim a qualificação e iam ter como adversários, nas meias-finais, os seus compatriotas campeões do mundo.

Ao regressar ao hotel, encontrei Renato que me desafiou para uma partida de snooker com ele. O hotel possuia uma sala de jogos com várias mesas de snooker, jogos de arcades e slot-machines, tudo ao dipôr dos hóspedes.

O gelo que se criara entre mim e Rafaela, começou a originar-me, inconsciêntemente, a vontade de me afastar dela. Evitar estar com ela e evitar a sua antipatia. Sendo assim, o convite de Renato veio mesmo a calhar.

Não me lembro quem ganhou, até porque isso não era importante. Porém, lembro-me que jogámos até à hora do jantar.

Finda aquela partida amistosa, decidi ir ao quarto e amenizar o gelo, convidando Rafaela para um jantar romântico, à luz de velas, no aconchego do nosso quarto.

Alguém tinha de dar o primeiro passo para a reaproximação. E eu não me importava de dar esse passo.

No entanto, quando ia a sair do elevador, vi o empregado do hotel a sair do meu quarto, empurrando um carrinho-mesa com pratos vazios e sujos.

— Desculpe, isto veio donde? — perguntei eu.

O jovem indicou o meu quarto e informou-me que servira o jantar à minha companheira, uma vez que ela solicitara uma refeição no quarto.

Eu agradeci a informação e segui para o meu destino, completamente desalentado por ver o meu plano gorar-se.

Ao entrar no quarto, encontrei Rafaela deitada na cama, envolta na fraca luz do candeeiro junto à cama. Tinha os olhos fechados e fingia estar a dormir.

— Já jantaste? — perguntei eu.

— Já... — respondeu ela, como se fosse um sacrificio falar comigo.

— Podias ter-me avisado. — lembrei eu.

Rafaela não me respondeu.

Eu sentei-me do outro lado da cama e coloquei a mão nas suas costas, acariciando-as. Mas Rafaela afastou o corpo, recusando as caricias.

Eu não desisti, deitei-me a seu lado e tentei abraçá-la. Porém, ela voltou a afastar-se. Só que desta vez eu agarrei-a pela cintura e não a deixei levantar.

— Larga-me! — exigia ela, furiosa.

Mas eu não a largava e forçava-a a quebrar aquele desprezo.

No entanto, se Rafaela sabia ser meiga quando amava, também sabia ser bruta e irracional quando estava zangada. Às minhas tentativas de caricias, respondeu com uma forte cotovelada, acertando-me no ferimento que tinha no braço.

— Merda! — disse eu, sentindo uma dor forte.

Rafaela percebeu, imediatamente o mal que fizera. Só por sorte, não arrebentara as costuras do curativo.

— Marco... — balbuciou ela, olhando para mim com um olhar arrependido e amargurado.

Vendo o arrependimento no seu rosto, limitei-me a levantar da cama e a olhar para a ligadura, esperando não ver sangue.

— Marco, desculpa. — pediu ela.

Eu desprezei-a e não lhe respondi.

Ajoelhada na cama, Rafaela insistiu:

— Perdoa-me!

Eu descansei ao ver que não havia sangue, mas isso não evitava as dores que a cotovelada originara.

Rafaela ficou à espera do meu perdão, ajoelhada no colchão, com as mãos sobre os joelhos e a chorar silenciosamente.

— Merda, como doi. — disse eu, agarrado ao braço.

— Desculpa! — continuou ela.

— Desculpa? — interroguei eu. — Andas estupida, agressiva, antipática... Quando te toco, tu afastas-te como se eu fosse a peste. Tento abraçar-te e respondes com cotoveladas... E agora, pedes perdão? Pensas que podes solucionar tudo com um simples "perdoa-me"?

Rafaela começou a ficar com um olhar irritado. As sua lágrimas começaram a misturar-se com a raiva. Furiosa, levantou-se da cama, colocou-se à minha frente e disse:

— Não chega? Queres bater, é? Vá, bate-me!

E colocava-se perante mim, incitando-me a agredi-la. Mas eu não o fiz. Preferi desprezá-la. Preferi responder-lhe ao desprezo que me dera, com o mesmo desprezo. Virei-lhe as costa e dirigi-me à porta.

— Cobarde! — afirmou ela, desafiando-me.

Eu voltei atrás e dirigi-me a ela.

Ao ver-me correr na direcção dela, Rafaela encolheu-se e colocou os braços a proteger a cara. Só que eu não a agredi. Em vez disso, agarrei-a pela cintura e atirei-me com ela para cima da cama. Fustiguei-lhe os lábios com beijos, acariciei-lhe o rosto e o cabelo.

Rafaela debatia-se comigo, refutando todo o amor que eu lhe tentava dar. Só que a sua repulsa não era maior que o seu amor por mim. E, aos poucos, o seu corpo começou a ceder. Os seus braços deixaram de me afastar e enrolaram-se à volta do meu corpo. E os seus lábios deixaram de se cerrar e abriram-se aos bejos que eu lhe dava, apaixonadamente,

O calor do nosso amor derreteu todo o gelo que se edificara entre nós. Mas quando as coisas aqueceram demais, Rafaela pediu-me, com uma voz terna, para não fazer amor com ela.

Mesmo ardendo em desejo, acabei por aceitar o seu pedido.

Minutos mais tarde, estávamos deitados na cama, abraçados a ver televisão. Assim ficámos, até o sono chegar e ambos adormecermos agarrados um ao outro.

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