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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XLVII

Terça-Feira e terceiro dia de torneio. O dia trouxera um ambiente mais ameno, onde o Sol se escondia atrás das nuvens e com uma manhã menos alegre.

Rafaela dormia calmamente a meu lado. Porém, passara a noite indisposta, levantando-se várias vezes da cama para vomitar. O seu estado era estranho, mas ela continuava a não querer ser vista pelo médico.

Com uma noite tão terrivel, ficámos ambos arrasados. E na manhã seguinte, ao sair da cama, tinhamos um ar sonolento e cansado. Porém, não havia tempo para repousar, uma vez que o nosso jogo era às 10h00, daquele dia.

Deixámos o hotel e seguimos para o estádio, seguindo a mesma rotina das vezes anteriores.

Apesar da péssima noite, eu não denotava grandes mazelas, sentia-me ligeiramente cansado, mas nada que influenciasse a minha capacidade fisica.

No entanto, o mesmo não acontecia com Rafaela que caminhava lentamente, tinha os olhos semi-cerrados e continuava indisposta.

Após a passagem pelos balneários, Rafaela e eu dirigimo-nos ao areal para iniciar a preparação para o jogo.

Mesmo com o céu nublado e um ambiente cinzento, a temperatura não se modificara muito. Estavam 35 graus e respirava-se um ar abafado, o que dava um aspecto doentio ao ambiente.

Eu preferia jogar debaixo de Sol intenso, em vez daquela neblusidade enganosa. O calor permanecia, mas parecia não ser tão forte devido ao céu cinzento. Puro engano.

Do outro lado, treinavam os nossos adversários. Rodrigo e Ana Vieira trocavam a bola entre si, empenhando-se para se prepararem o melhor possível.

Do lado de cá, Rafaela tinha dificuldades em captar os meus remates e eram raras as vezes em que fazia os passes bem feitos.

Chegámos a um ponto em que Rafaela falhava tanto que optámos por parar.

— Rafaela, sentes-te bem? — perguntei eu, enquanto nos dirigiamos para as cadeiras.

— Não! — respondeu ela, pegando numa toalha. — Estou enjoada.

Eu esperei que ela se sentasse na cadeira e disse:

— Queres desistir? Nós já estamos qualificados. Podemos desistir deste jogo.

— Não! — recusou ela. — Não há necessidade de ficarmos com essa mancha no nosso curriculo.

— Mas tu...

— Não, Marco. Não insistas. Eu só preciso de descansar um bocado. — avisou ela. — Daqui a pouco já estou bem.

Eu acabei por acatar a sua decisão.

O muito público, que povoava as bancadas, fazia a festa. Dançavam, cantavam e deliravam com o espectáculo que se avizinhava. E quando o entusiasmo esmorecia, lá estava o speaker para voltar a animar o público.

Perto das 10h00, iníciou-se a apresentação dos jogos, feita pelo speaker:

— ...No campo número um, contando para o grupo B, a dupla brasileira 2: Rodrigo Vieira e Ana Vieira.

A dupla entrou em campo, debaixo da ovação do público.

— Este casal bem simpático que já está qualificado para a fase seguinte, vai jogar com a dupla portuguesa, igualmente qualificada, Marco Oliveira e Rafaela Pereira.

O público dividiu-se em aplausos e assobios. O facto de os brasileiros já estarem qualificados, amenizou a oposição do público.

O speaker prosseguiu:

— E no campo número dois, também contando para o grupo B, o jogo entre a dupla norueguesa, Aron Floe e Kathrina Rushvelt. E a dupla russa, Serguei Rebrov e Nikita Karlov.

Após a escolha do campo e da bola, os árbitros deram início aos desafios.

A dupla brasileira começou a servir.

No primeiro parcial, Rafaela e eu demos alguma luta. Mas o fraco estado fisico da minha parceira comprometia a nossa prestação. Ela não corria, os reflexos eram lentos e denunciava alguma falta de discernimento. Os brasileiros venceram por quinze a cinco.

Durante o intervalo, Rafaela despenhou-se contra a cadeira, exausta com a partida. Colocou uma toalha sobre a cabeça e manteve-se em silêncio.

O segundo parcial seguiu o desenvolvimento do primeiro. E quando o resultado já estava em sete a zero, a situação agravou-se.

Durante a disputa de um ponto, Rafaela caiu de joelhos no chão e ficou agarrada ao estômago. Eu fui ver o que se passava com ela e apercebi-me que estava com vómitos.

— Tudo bem? — perguntou Rodrigo, junto à rede.

— Não sei... — disse eu, preocupado em amparar Rafaela.

A dupla brasileira atravessou o meio-campo e veio inteirar-se da situação.

Eu fiz sinal ao árbitro, solicitando um desconto de tempo, e pedi a vinda do médico do torneio. Este apressou-se a auxiliar-nos.

Rafaela ficou deitada na areia, enquanto o médico a observava.

Havia uma certa expectativa no público, em saber o estado dela. Mas no outro campo, o jogo continuava como se nada estivesse a acontecer.

— Como é que ela está? — perguntei eu.

— É difícil dizer. Tenho de a observar melhor. — disse ele.

— Ela pode continuar? — indaguei eu.

— Não é muito aconselhavel. — avisou o médico.

Rafaela fez um movimento para se levantar, mas não conseguiu. Porém, ainda tentou argumentar:

— Marco, eu posso...

— Deixa-te estar sossegada. — disse eu. — Tu não estás em condições de continuar.

E depois de dizer isto, avisei o árbitro da nossa desistencia naquele jogo.

Todos demonstraram grande compreensão pela situação. E quando eu transportei Rafaela para os balneários, o público acarinhou-nos com alguns aplausos.

Rafaela foi observada pelo médico. E este diagnosticou uma indisposição alimentar e receitou-lhe uns comprimidos para o estômago.

Depois de um banho e de mudar de roupa, regressámos ao hotel. Rafaela recolheu ao quarto e decidiu deitar-se na cama para recuperar as horas de sono perdidas.

Eu deixei-a envolta na escuridão do quarto e segui para o estádio, onde fui assistir aos jogos do meio-dia.

Nas bancadas, aguardei o início dos encontros, acompanhado por Renato que também viera assistir.

Antes do começo dos jogos, Rodrigo e Ana Vieira vieram ao nosso encontro para se inteirarem do estado de Rafaela.

— Está melhor. — disse eu. — Ficou no hotel a descansar.

A dupla acabou por se juntar a nós na observação dos encontros.

Ao meio-dia, jogaram as duplas do grupo D. O casal americano Wayne Roberts e Pamela Roberts venceram a dupla holandesa, Eric Croman e Sindy Van Carlen, por quinze a dez e quinze a oito. E no outro jogo, os cubanos Ruben Castro e Karina Velez venceram os espanhois António Vilhena e Manuela Torrez, por quinze a três e quinze a dois.

No fim dos jogos, fomos todos almoçar ao restaurante do hotel. Eu, Renato e a dupla brasileira confraternizámos numa bela refeição.

Os brasileiros eram muito simpáticos. Um completo paradoxo com a dupla brasileira campeã do mundo. Pessoas com as quais eles não falavam, pois não gostavam da sua prepotência.

— O meu sonho é vencer esses caras na final. — confessou Rodrigo.

— Dizem que eles costumam "jogar" nos bastidores!? — comentou Renato.

— Não sei... — disse Rodrigo, mostrando não querer aprofundar o assunto.

A refeição continuou. E no fim, retornámos ao estádio.

Durante o tempo em que estive no hotel, não fui ao quarto para não incomodar Rafaela.

Os jogos das 15h00, puseram em confronto as duplas do grupo C. No primeiro jogo, os brasileiros Zé Maria e Paula Gomes venceram os, já eliminados, australianos Paul Fish e Caroline Bradley por quinze a oito e quinze a dois.

Mas o grande jogo da tarde, foi o que se realizou simultaneamente com este. Num jogo equilibradissimo, a segunda dupla americana, constituida por Mark Davis e Lysandra Brunnetti, bateu surpreendentemente a dupla argentina, Daniel Gonzalez e Gabriela Santiago, por quinze a doze, quinze a dezassete e dezasseis a catorze. Obtendo a consequente qualificação.

Seguiram-se os jogos do grupo A, onde a dupla campeã do mundo, Paulo Roberto e Raquel Carvalhal, massacrou a dupla italiana, Paolo Santi e Silvia Conti, por quinze a um e quinze a zero. E os checos Petr Kovac e Martina Perlac venceram os franceses Jean Paul Grassi e Françoise Grassi, por quinze a dez e quinze a oito.

Com o fim do terceiro dia de torneio, chegava ao fim a primeira fase do campeonato. E com estes resultados, os jogos dos quartos de final seriam os seguintes:

Jogo 1 — Brasil 1 - Cuba

Jogo 2 — Brasil 2 - E.U.A. 2

Jogo 3 — Brasil 3 - Portugal

Jogo 4 — E.U.A. 1 - Rep. Checa
 

Quando regressei ao hotel, encontrei Rafaela mais bem disposta. Tinha um semblante mais aliviado e via-se claramente que já repusera as horas de sono em atraso.

Como já eram 20h00, decidimos ir jantar ao restaurante do costume. Rafaela voltou às refeições normais e parecia curada daquelas indisposições. E a meio do jantar, ela sugeriu:

— E se saissemos esta noite?

— Onde? — perguntei eu.

— Não sei... Podiamos ir a uma discoteca, divertirmo-nos um pouco. — disse ela. — Estava a apetecer-me espairecer. E como amanhã não há jogos, podiamos aproveitar a noite.

Eu sentia-me cansado, porém não fui capaz de recusar aquele pedido de Rafaela.

Após o jantar, pedimos a Renato que nos aconselhasse uma discoteca para visitar. E ele levou-nos até uma que ficava a uns quarteirões do hotel. Fez questão em nos acompanhar para ter a certeza de que não nos perdiamos pela cidade.

Chegados à porta da discoteca, Renato deixou-nos e regressou ao hotel.

Rafaela e eu entrámos no recinto e ficámos deslumbrados com a grandeza do local. Tinha uma pista de dança enorme, um longo bar e dois andares de varandas onde estavam colocadas as mesas.

O ambiente era escuro e ruidoso, mas bastante agradável para nós. Passámos a noite a dançar, ora aos saltos, ora agarrados um ao outro.

Perto das 02h30, abandonámos o local e regressámos ao hotel, caminhando pelas ruas medonhas do Rio de Janeiro. Eram ruas escuras, aterradoramente silenciosas e despopuladas.

O calor mantinha-se e o ar era abafado. Por vezes, ouviam-se sons ao longe, talvez carros ou outra coisa qualquer, tipica de uma cidade.

— Estou com medo. — confessou Rafaela, segurando-me o braço com força, como se temesse que eu a deixasse ali.

— Não te preocupes que eu estou aqui. — reconfortei-a eu, descansando o seu receio.

Continuámos a caminhar. Eu demonstrava não ter medo de nada, mas interiormente receava o perigo daquela caminhada.

Tudo parecia correr normalmente e mais de meia caminhada já estava feita.

No entanto, na segunda metade, um indivíduo mal encarado apareceu à nossa frente. Não aparentava mais de 16 ou 17 anos, vestia uma camisola e uns calções rotos e estava descalço. Aproximou-se de nós e apontou-nos uma navalha.

Rafaela tremia de medo e agarrou-se desesperadamente ao meu braço. Eu tentei manter a calma, limitando-me a observar os movimentos dele.

Antes que ele dissesse qualquer palavra, apareceram mais meia duzia que formaram um círculo à nossa volta. Todos tinham um aspecto semelhante ao primeiro.

A situação estava muito grave. Nada indicava quais as intensões dos indivíduos, mas havia a certeza de que não seriam boas.

Eu preocupei-me em proteger Rafaela, por isso, encostei-me ao muro que estava ao nosso lado e empurrei-a para trás de mim. Rafaela estava apavorada.

O primeiro indivíduo, que parecia ser o chefe do grupo, colocou-se à nossa frente e disse:

— Ó cara, isto é um assalto. Passa grana, senão a gente corta você e essa gatinha.

Eu mantive a postura firme, mas estava tão apavorado quanto Rafaela. Puxei do pouco dinheiro que trazia no bolso e atirei-o para as mãos do indivíduo.

— Aí têm. Agora deixem-nos em paz. — disse eu.

O chefe do grupo olhou para o dinheiro, contou-o e entregou-o a outro dos elementos. Depois, voltou a olhar-nos nos olhos e disse:

— Que bela gatinha que você tem aí.

Rafaela tremeu, atrás de mim. De súbito, viu-se no alvo preferencial daqueles marginais.

— Já têm o que queriam. Agora, deixem-nos ir embora. — pedi eu, demonstrando alguma calma e tentando não perder o controle das suas movimentações.

— Você pode ir. — disse ele. — Mas deixa a gatinha para nós. É que a gente já não "prova" uma coisinha assim, faz tempo.

A situação agravava-se e a nossa integridade fisica estava cada vez mais ameaçada. Mas eu jamais deixaria Rafaela sozinha.

O cabeçilha do grupo fez sinal a um dos seus comparsas para me tirar do caminho.

Eu rodei a cabeça para o lado e sussurrei:

— Quando eu disser, tu foges para o hotel.

— Mas...

— Não digas nada, nem olhes para trás. Foge e não te preocupes comigo. — ordenei eu.

O sujeito, um pouco mais baixo que eu, mas mais forte, aproximou-se de mim. Porém, quando tentou agarrar-me, eu respondi-lhe com o pontapé no baixo ventre e um soco naquele seu focinho porco. Ele ficou estendido no chão.

Os outros tentaram responder à agressão, mas o seu chefe ordenou-lhes que parassem. A minha atitude tornara-se um desafio para ele.

Olhava-me com cinismo e raiva. E com uma voz raivosa, disse:

— Sabe, cara. Agora, vamos tratar dessa gatinha na sua frente. E depois, mato os dois.

— Podem vir. — disse eu, simulando o à vontade com que falava. — Mas se são assim tão homens, vem um de cada vez. Com certeza que nenhum de vocês terá medo de me enfrentar sem a ajuda dos outros.

As minhas palavras feriram as suas virilidades. E o chefe do grupo ordenou a outro para me enfrentar. Este veio e levou a mesma resposta que dei ao outro.

Nunca tivera aulas de auto-defesa, mas sabia defender-me no um para um. E assim consegui dar luta a mais dois.

Cansado de ver os seus elementos a cair por terra, o chefe do grupo mandou avançar os dois que restavam. E eu preparei-me para os receber.

Claro que tive dificuldades em os defrontar, mas quando nos confrontámos, gritei:

— FOGE!

E Rafaela começou a correr, como eu lhe havia ordenado.

Não pensem que isso significava que não me amava ou que não se importava comigo. Deixar-me ali era como deixar uma parte de si, mas ela sabia que do sucesso da sua fuga dependia a minha salvação.

Infelizmente, o patrão dos indivíduos desinteressou-se de mim e correu atrás de Rafaela. Mesmo sendo uma boa corredora, eu sabia que ela não lhe conseguiria fugir, pois ele conhecia melhor o local e corria mais depressa.

Vendo o perigo a que Rafaela estava sujeita, senti o ódio a crescer dentro de mim. O ódio era tanto que nem sentia as agressões dos outros dois indivíduos. E esse ódio por aqueles marginais e o amor que sentia por Rafaela encheram-me de uma força enorme.

Afastei os dois tipos e agredi-os ao pontapé, até ficarem no chão sem reacção. E depois fui na perseguição do cabecilha daqueles adolescentes marginais.

Corri pela rua e avistei, a cerca de cem metros, o indivíduo a alcançar Rafaela, atirando-a ao chão.

Eu corria o mais que podia. E enquanto me aproximavava, vi-o a tentar agarrar Rafaela e a rasgar-lhe uma parte da t-shirt. E ela debatia-se com o que restava das suas forças.

Quando ele tentava desapertar-lhe o cinto das calças, eu cheguei e atirei-me contra ele, projectando-o contra o chão. A partir daí, trocámos várias agressões, mas eu consegui levar a melhor, atirando-o novamente ao chão.

— Pára, cara. Pára. — suplicava ele, vendo-se impotente para me dar qualquer réplica.

E eu, que não queria ultrapassar certos limites, afastei-me dele e deixei-o caido no chão.

— Estás bem, Rafaela? — indaguei eu, vendo-a ajoelhada no chão e cobrindo o rasgão que o outro lhe fizera na t-shirt, com os braços.

Ela respondeu que sim com a cabeça.

Mas naqueles breves instantes em que perdi o indivíduo de vista, ele levantou-se e puxou da navalha.

— CUIDADO! — gritou Rafaela.

Eu virei-me, mas não consegui evitar que ele me golpeasse no braço.

Mal o fez, o criminoso pôs-se em fuga. Mas eu não fui atrás dele, pois a minha preocupação era a segurança de Rafaela. E ela estava ali comigo.

Rafaela apressou-se a inteirar-se do meu estado. Nem quis saber do enorme rasgão na camisola, preocupando-se unicamente em estancar o sangue que me escorria do braço direito.

— Isto não é nada. — dizia eu para a sossegar.

Mas ela continuava preocupada e tapava o ferimento com as mãos.

— Tens de ir ao hospital. — avisou ela.

— Não é preciso. Isto não é grave. — insisti eu.

Rafaela despiu a camisola, ficando em tronco nu, e enrolou-a à volta do braço.

— Rafaela, não podes ficar assim. — avisei eu.

Ela encolheu os ombros, demonstrando que estar semi-nua não era uma preocupação prioritária.

No entanto, se ela olhava por mim, eu olhava por ela. Por isso, despi a minha camisola e dei-lha para que a vestisse. Antes eu em tronco nu que ela.

Com isto, retomámos o caminho para o hotel.

Ao chegar ao hotel, apenas os seguranças do edifício e a recepcionista se encontravam no local. Alguns ainda se ofereceram para ajudar, mas nós dissemos que não era necessário.

Rafaela acompanhou-me até ao gabinete médico do torneio, onde tivemos que acordar o doutor que tratava dos atletas.

Assim que viu o sangue que manchava a camisola enrolada sobre a ferida, ele apressou-se a auxiliar-me.

O gabinete médico montado no hotel, devido ao torneio, estava muito bem equipado de instrumentos de medicina. E graças a isso, o curativo pôde ser feito ali.

O ferimento tinha alguma gravidade, pois tratava-se de um corte de cinco centimetros com um de profundidade, o que obrigou a que fosse suturado com alguns pontos.

Feito o curativo, agradeci a atenção do médico e, na companhia de Rafaela, recolhi ao quarto.

E quando entrámos nos nossos aposentos, Rafaela sucumbiu à pressão a que estivera sujeita e desabou num choro desalmado.

— Calma, já passou. — reconfortei eu, abraçando-a.

Mas ela tinha de despejar toda aquela pressão. Tinha de desfazer-se da frieza e deixar os sentimentos virem ao de cima. Tudo fora aterrorizante, medonho e a nossa vida estivera em perigo. Soubemos enfrentar a situação, mas as coisas podiam ter corrido pior.

O ferimento deixou marcas. Nos dois dias que se seguiram, as dores foram muitas e afectaram os nossos treinos de manutenção. Rematar uma bola tornou-se insuportável para o meu braço direito. E como eu não era canhoto, isso era um problema grave.

Rafaela chegou a propor-me que desistissemos do torneio, devido à minha lesão. Mas eu recusei tal hipótese. Jamais abandonaria o nosso objectivo assim tão facilmente.

Mesmo sabendo como as dores podiam aumentar, não era capaz de desistir do campeonato. Estávamos ali para avançar, jogo após jogo, até haver alguém que nos derrotasse.

Rafaela deu-me todo o seu apoio. E mesmo que isso significasse o fim do seu sonho, ela lembrava-me que eu podia desistir quando achasse necessário.

Na noite de Quinta-Feira, Rafaela voltou a sentir-se mal. A seguir ao jantar, enquanto conversávamos no elevador, durante a subida para o nosso piso, ela voltou a sentir-se muito indisposta, chegando a desmaiar.

Eu levantei-a do chão e carreguei-a nos braços até ao nosso quarto.

No quarto, deitei-a na cama e dirigi-me ao telefone para chamar o médico. Mas nesse momento, Rafaela recuperou a consciência.

Eu larguei o telefone e fui ver como ela estava.

— Estás bem? — indaguei eu, sentando-me a seu lado e acariciando-lhe a testa.

— Estou. — disse ela, simulando uma falsa melhoria.

— Vou chamar o médico. — disse eu.

— Não! — recusou ela. — Não é preciso, eu já estou bem.

Eu acabei por ceder ao seu pedido e não chamei o médico.

Nessa noite, a situação não se repetiu. Tanto eu como ela dormimos tranquilamente. E no dia seguinte, recomeçou o torneio.

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