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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XLVI

Na manhã seguinte, Rafaela parecia estar melhor. Estava alegre e nem denotava qualquer sinal da indisposição da noite anterior.

Manhã cedo, antes de sairmos para o estádio, Rafaela caminhava com naturalidade e não queria falar do que acontecera, de modo a não lhe atribuir importância.

Enquanto eu fazia a barba, Rafaela sentou-se à porta da casa-de-banho e conversámos acerca do torneio.

— Achas que conseguimos vencer os noruegueses? — perguntou ela.

— Vamos tentar. — disse-lhe eu.

— Obviamente. Mas achas que é possível? — insistiu ela.

— Possível, é. Eles não são extraterrestres. — conclui eu, brincando com ela. — Só que vai ser muito difícil.

— Pois... — concordou ela.

— Temos de acreditar nas nossas capacidades. — lembrei eu. — Depois, lá dentro, tudo é possível.

— Talvez...

Eu limpei a cara, após o barbeamento, e disse:

— O jogo, hoje, é à mesma hora de ontem. Mas não podemos contar com o calor. Ontem, bem viste que isso pouco os afectou. Segundo o que o Renato dissera, eles melhoraram muito, desde o ano passado.

— São muito experientes. — constatou ela, lamentando.

— Ouve, Rafaela. — chamei eu a sua atenção. — Ou acreditamos naquilo que somos e vencemos. Ou então, baixamos os braços e contentamo-nos com o que sobrar para nós.

— Tens razão. — concordou ela.

Eu vesti uma t-shirt e preparei-me para ir para o estádio com a minha parceira. Mas, nesse momento, Rafaela, ao levantar-se da cadeira, teve uma tontura e só não caiu ao chão porque eu a agarrei.

— Tu não estás bem. — disse eu, transportando-a para a cama.

Enquanto a deitava no colchão, ela argumentou:

— Não é nada. É só o calor.

— É melhor chamar um médico. — sugeri eu.

— Não, Marco. — recusou ela. — Já te disse que não quero.

— Então, pelo menos, vamos ficar aqui. — disse eu.

— Não! É importante que vejamos os outros jogos. — relembrou ela. — Se nos apurarmos, temos que conhecer os futuros adversários.

— Então, vou eu. — decidi eu.

— Marco...

— Não insistas! — ordenei eu para seu bem. — Se isso é do calor, o Sol não te fará bem.

— Mas logo tenho de apanhar com ele, durante o jogo. — contrapôs ela.

— Por isso mesmo. — disse eu. — Deves poupar-te a exposições solares desnecessárias.

Rafaela acabou por acatar as minhas decisões.

Eu dei-lhe um beijo e deixei-a no quarto, sozinha.

Cheguei ao estádio, pouco antes das 10h00. Renato fez-me companhia na bancada. Mesmo sendo Segunda-Feira, e dia de trabalho, havia muitos espectadores nas bancadas. Dos dez mil lugares, seis mil estavam ocupados.

Estava mais um dia de muito calor. O Sol brilhava com força e a incidencia dos raios era quase insuportável.

Ao som do samba, o speaker do torneio entrou no areal e cumprimentou o númeroso público. E depois da música baixar, iníciou as apresentações:

— Neste segundo dia de campeonato, vamos ter mais oito jogos de beach volei. E os dois primeiros vão se iniciar dentro de instantes.

Tal como no dia anterior, a organização espalhou algumas mangueiras pelo estádio, para banhar e refrescar os espectadores. Eram uns salpicos divinais, debaixo de um calor tão grande.

— Assim, no campo número um, contando para o grupo A. — continuou ele. — A nossa dupla brasileira 1, actual campeã do mundo, Paulo Roberto e Raquel Carvalhal.

O público aplaudiu e os pretenciosos entraram para o campo.

— ...Que vão defrontar os franceses, Jean Paul Grassi e sua irmã Françoise Grassi.

Forte assobiadela.

O speaker caminhou para o outro campo e prosseguiu:

— Contando igualmente para o grupo A, aqui no campo dois. Vão jogar a dupla checa, Petr Kovac e Martina Perlac contra a dupla italiana, Paolo Santi e Silvia Conti.

Alguns aplausos.

Após a rotina da escolha de bola e de campo, os jogos iniciaram-se.

Infelizmente, não houve grandes motivos de interesse. No primeiro, os brasileiros venceram os franceses por quinze a cinco e quinze a dois. E no segundo, os checos bateram os italianos por dez a quinze, quinze a nove e quinze a três.

Tal como no dia anterior, não podia assistir aos jogos do meio-dia, uma vez que tinha de almoçar. Por isso, pedi a Renato que depois me informasse dos resultados.

Ao chegar ao hotel, encontrei Rafaela no átrio. Farta de estar no quarto, decidiu esperar-me ali.

— Estás melhor? — perguntei eu, preocupado com possiveis agravamentos.

— Estou. — disse ela. — Sinto-me lindamente.

— Vamos almoçar?

— Vamos.

De mão dada, caminhámos até ao restaurante.

Durante o almoço, contei-lhe os acontecimentos da manhã. Relatei os factos mais importantes dos jogos. E ela ouviu-me com toda a atenção, deixando a refeição para segundo plano.

— Não comes? — perguntei eu.

— Não tenho fome. — justificou ela.

Eu não fiquei convencido. Porém, quando ia a continuar o assunto, Rafaela mudou imediatamente.

— Quer dizer que os brasileiros já estão apurados!? — constatou ela.

— Sim...

— Bom, vou subindo para me preparar para o jogo. — disse ela, levantando-se da mesa e não me dando tempo para a confrontar com o seu estado de saude.

Depois de ela se ir embora, apareceu o Renato. Convidei-o a fazer-me companhia e a contar-me os resultados.

— Olha, jogaram os do grupo D. — começou ele. — Os americanos venceram os espanhois. E venceram bem.

— Por quanto? — indaguei eu.

— Quinze a dois e quinze a zero. — informou ele.

— E no outro jogo? — inquiri eu.

Renato passou a mão pela cabeça e disse:

— Os cubanos venceram os holandeses. Mas, cara, os holandeses jogaram muito bem. Ganharam o primeiro set por quinze a treze. Só que a experiência dos cubanos ditou a lei. Venceram os outros dois sets por quinze a dez e quinze a cinco.

— Com esses resultados, os americanos já estão apurados, não é? — perguntei eu.

— É verdade. — confirmou ele.

Após as informações, eu subi ao meu quarto para me preparar para o jogo. E Renato ficou no restaurante para almoçar.

Ao chegar aos aposentos, Rafaela já estava pronta e esperava por mim. Eu arranjei-me rapidamente. E ambos partimos para o estádio.

— Como te sentes? — indaguei eu, enquanto nos dirigiamos para o torneio.

— Estou bem, Marco. — disse ela. — Não te preocupes.

Os preparativos foram identicos ao dia anterior. Equipámo-nos no balneário e fomos para o areal, fazer exercícios de aquecimento, debaixo de um Sol abrasador.

Do lado de lá da rede, os noruegueses faziam o mesmo. Era a primeira vez que os via de perto. Ele era muito alto, tinha cabelo curto e usava um lenço na cabeça. Ela era mais baixa, corpo musculado e cabelo curto como o do parceiro.

No outro campo, aqueciam as duplas brasileira e russa do nosso grupo. Eles que iriam jogar ao mesmo tempo que nós.

Perto das 15h00, com uma temperatura ambiente de 42 graus, o speaker voltou ao areal.

— Oi, pessoal! — cumprimentou ele. — Quero ouvir essas vozes! Quero ver a galera dançando.

O público respondeu afirmativamente, agitando-se ao som da música.

O speaker continuou:

— Os jogos seguintes vão contar para o grupo B. E no campo número um, o vosso aplauso para a dupla brasileira 2: Rodrigo Vieira e Ana Vieira.

Grande euforia nas bancadas.

— ... Contra a dupla russa, Serguei Rebrov e Nikita Karlov.

O público brindou-os com assobios.

O speaker dirigiu-se ao nosso campo e prosseguiu:

— E no campo número dois, a dupla norueguesa, Aron Floe e Kathrine Rushvelt. Vão defrontar a dupla portuguesa, Marco Oliveira e Rafaela Pereira.

O público não se manifestou muito, repartindo-se em aplausos e assobios. A sua atenção estava virada para o outro campo.

Os capitães de equipa juntaram-se perto da rede, com o árbitro.

— Head or tails? — perguntou o árbitro, apontando para a moeda que tinha na mão.

— Head. — disse eu.

O árbitro lançou a moeda ao ar e venceu a minha escolha. O indivíduo de branco olhou para mim, esperando a minha decisão. Eu escolhi o campo, colocando os noruegueses a jogarem contra o Sol.

Cinco minutos depois, o árbitro sinalizou o início da partida.

Apesar de favoritos, os noruegueses tinham sobre si a pressão da obrigatoriedade de vencer. Caso contrário, viam goradas as suas hipóteses de qualificação.

Quanto a nós, se perdessemos o jogo, só nos qualificariamos, se vencessemos no dia seguinte os brasileiros. Algo quase impossível.

O primeiro parcial começou com um serviço dos noruegueses para fora. Pareciam nervosos e temerosos das nossas capacidades. Seguiu-se o meu serviço que, após umas trocas de bola, resultou no nosso primeiro ponto.

O parcial foi-se desenrolando com normalidade, tendo nós chegado aos dez a sete, sem sentir grandes dificuldades. Controlávamos a partida e os noruegueses mostravam-se impacientes e cada vez mais nervosos com a pressão.

Com este resultado, Floe solicitou o primeiro desconto de tempo.

Rafaela e eu nem chegámos a sair do nosso campo, mantendo a concentração. Durante a pausa, observei que os brasileiros tinham acabado de vencer o primeiro parcial por quinze a três.

O árbitro apitou e o jogo reiníciou-se. Os noruegueses tentavam vergar-nos, mas nós estavamos muito bem. E acabámos por vencer o parcial por quinze a nove.

Durante a pausa entre parciais, observámos alguns lances do outro jogo, onde a dupla brasileira se adiantara no segundo parcial, comandando por sete a um. Estava a tornar-se um jogo sem história.

No começo do segundo parcial, foi Rafaela quem começou a servir. E logo com um ás. O seguimento do jogo mostrou uma dupla norueguesa a não aguentar a pressão do jogo e a ceder ao enorme calor que se abatia sobre nós.

Floe voltou a pedir novo desconto de tempo, quando nós já venciamos por nove a três. Ele e Kathrina sentaram-se nas suas cadeiras e refrescaram-se, pois estavam arrasados com o calor.

No outro campo, os brasileiros continuavam a ganhar, desta vez por doze a cinco.

Regressámos ao campo e retomámos o jogo com mais um ás, fazendo o décimo ponto.

O jogo seguia como até aí. Mas quando eu me preparava para rematar para o décimo terceiro ponto, a multidão nas bancadas levantou-se em euforia a comemorar a vitória dos brasileiros. O ruido quebrou-me a concentração e acabei por falhar o ponto.

O som das bancadas era tanto que me vi forçado a pedir um desconto de tempo.

Sentado na cadeira, olhei para Rafaela e disse-lhe:

— Já viste que os brasileiros venceram?

— Já! — disse ela. — Se vencermos este jogo, ficamos qualificados para a segunda fase.

A ideia deixou-nos contentes. Estávamos muito perto de vencer o jogo. E isso significava a qualificação. Porém, se a ideia era boa, o nervosismo que ela nos provocou não o foi.

Regressámos ao campo e retomámos o jogo com alguma ansiedade. Queriamos terminar os pontos com rapidez e não pensávamos muito nas jogadas. Isso levou ao aumento das falhas e dos erros não forçados, permitindo uma aproximação dos noruegueses até aos doze a dez.

Como as coisas não corriam bem, eu solicitei mais um desconto de tempo. Nesses segundos de pausa, Rafaela e eu não conversámos. Limitámo-nos a assentar as ideias e a acalmar.

Ao voltar ao areal, retomámos o jogo, mais concentrados. Impusemos, novamente, o nosso jogo e vencemos por quinze a doze. E adquirimos a consequente qualificação para os quartos de final.

— Qualificámo-nos! — dizia Rafaela, euforica e pulando de alegria.

Abraçámo-nos no campo, enquanto os noruegueses se aproximaram para nos felicitar.

Debaixo dos aplausos do público, abandonámos o campo e fomos refrescar-nos para o balneário.

Quando estávamos a entrar no balneário, Rafaela voltou a sentir-se mal e correu até à sanita do local para vomitar. Decididamente, Rafaela não estava bem.

— Rafaela! — chamei eu.

Mas ela, ainda enjoada, fez-me sinal para que não lhe dissesse nada e recolheu ao seu lado do balneário para mudar de roupa.

No entanto, ao reencontrarmo-nos, eu disse-lhe:

— Rafaela, tens de ir ao médico.

— Não é necessário. — recusou ela.

— Rafaela...

— Marco, não me aborreças com isso. — disse ela. — Não estou com cabeça para discussões. Vou regressar ao hotel.

— Eu levo-te. — disse eu.

Abandonámos o balneário e eu acompanhei-a ao hotel. Levei-a para o nosso quarto e ela deitou-se na cama, de imediato. Estava com um ar arrasado e doentio. E isso deixava-me cada vez mais preocupado.

Deixei-a a descansar e regressei ao estádio para observar os últimos jogos do dia. O calor abrandara e a temperatura ia-se tornando menos insuportável.

No momento em que cheguei às bancadas, já se jogavam as duas partidas, no areal. Dois jogos do grupo C, onde a terceira dupla do Brasil ( Zé Maria / Paula Gomes ) vencia a segunda dupla americana ( Mark Davis / Lysandra Brunnetti ) por dez a sete. E do outro lado, um empate a oito pontos entre a dupla argentina ( Daniel Gonzalez / Gabriela Santiago ) e a dupla australiana ( Paul Fish / Caroline Bradley ).

Porém, a preocupação com Rafaela era tão grande que nem dei grande atenção aos jogos, limitando-me a memorizar os resultados.

No primeiro jogo, os brasileiros venceram por quinze a onze e quinze a seis. E no segundo confronto, os argentinos venceram por dezassete a quinze, dezasseis a dezassete e quinze a doze, um jogo muitissimo equilibrado.

Assim que o último jogo terminou, a organização encerrou mais um dia de torneio. E eu abandonei as bancadas e apressei-me a regressar ao hotel, pois queria inteirar-me sobre o estado de saude de Rafaela.

O Sol estava perto do solo e temperatura descera para os 31 graus. Temperatura ainda alta, mas mais desejada do que a normal durante o dia.

Quando cheguei ao quarto, Rafaela estava deitada na cama, por baixo dos lençois. Sorriu, ao ver-me, e olhou-me sedutoramente.

— Como te sentes? — perguntei eu, em cuidado.

— Bem. — disse ela.

— De certeza? — insisti eu.

Rafaela retirou o lençol que a cobria e revelou o seu belo corpo nu. E, olhando-me da mesma forma, convidou-me:

— Não queres vir fazer-me um exame?

— Rafaela, não brinques. — disse eu.

Ela acentuou o olhar e disse:

— Não estou a brincar. Estou a convidar-te a fazer amor. Quero-te! Estou com vontade de te amar.

Eu sorri e aceitei a sua sugestão. E ambos nos entregámos ao prazer, por entre os lençois da cama.

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