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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XLIV

Na Sexta-Feira de manhã, Rafaela e eu fomos até à praia para mais um treino. Repetimos os exercicios habituais e analisámos a nossa forma fisica. Estávamos a dois dias do início do campeonato.

Quando regressámos ao hotel, aconteceu por casualidade, encontrar o nosso guia Renato. Rafaela parou, temendo um novo confronto entre nós. E eu fiquei a olhar para ele.

Renato também reparou na minha presença e ficou parado a olhar para nós.

A situação estava num impasse e ninguém parecia tomar a iniciativa de apaziguar o acontecimento.

Com a humildade de quem sabe reconhecer os seus erros, aproximei-me dele e estendi-lhe a mão, dizendo:

— Creio que te devo um pedido de desculpas.

Renato ficou a olhar para mim, hesitante em aceitar o meu pedido.

— Eu fui muito injusto, ontem. — insisti eu. — Desculpa toda aquela cena. E desculpa o soco que te dei.

Renato sorriu, estendeu-me a mão e disse:

— Esquece, cara. Eu já esqueci.

Sexta-Feira era também o dia da cerimónia de abertura do Campeonato do Mundo de Voleibol de Praia de 1996. Uma cerimónia que teria lugar no grande salão do hotel, nessa noite.

Rafaela e eu vestimo-nos a rigor e descemos até ao salão onde, antes da cerimónia, se realizaria um jantar.

Rafaela levava um vestido de noite, azul escuro, que revelava os ombros, as costas e as pernas até aos joelhos.

Eu levava um smoking preto. Um fato desconfortável devido às medidas apertadas e ao irritante laço. Porém, era o mais apropriado à ocasião.

Por entre todos os convidados do torneio, estava também Renato. Ao vê-lo, convidámo-lo para a nossa mesa, para jantar connosco.

A cerimónia de abertura começou às 21h00. Um casal de apresentadores subiu ao palco para apresentar o espectáculo que estava a ser difundido pela televisão.

O homem era um ex-jogador de voleibol de pavilhão, chamado Fábio. Individuo alto e com fisico robusto, apertado num smoking parecido com o meu. A mulher era a jornalista brasileira que acompanhava o torneio, a Rita. Ambos iriam apresentar o espectáculo.

A festa começou com a actuação de um grupo músical brasileiro. Um grupo de sucesso no Brasil e em Portugal.

Após a actuação do grupo, foram mostradas imagens de campeonatos anteriores. Imagens de jogadas fabulosas, realizadas por alguns dos presentes e por outros que não participariam no campeonato desse ano.

Seguiu-se um dos momentos mais esperados, a apresentação das duplas participantes.

Os apresentadores intercalaram, entre si, a anunciação das duplas.

Fábio começou:

— Campeões nacionais do seu país, vindos da Australia. Senhoras e senhores, convosco, Paul Fish e Caroline Bradley.

Numa das mesas do salão, um casal levantou-se para agradecer os aplausos. Ele era alto e usava o cabelo comprido preso em rabo-de-cavalo. Ela era da altura dele, tinha o cabelo rapado e tinha um vestido amarelo e verde, assente num corpo muito musculado e pouco feminino.

Seguiu-se Rita:

— Campeões nacionais em França e presentes pela terceira vez neste campeonato, senhoras e senhores, Jean Paul Grassi e Françoise Grassi.

O ritual repetiu-se. O casal levantou-se e agradeceu os aplausos. Ao contrário do que se poderia pensar, eles eram irmãos. Renato já os conhecia e comunicou-nos esse facto.

Não eram muito altos, mas notavam-se as semelhanças no rosto. Ele tinha 28 anos e ela 26. Françoise era muito bonita e tinha muito pouco de jogadora de voleibol. Por vezes, as aparências enganam.

— Vindos da Holanda, bicampeões nacionais do seu país. Senhoras e senhores, Eric Croman e Sindy Van Carlen.

Mais aplausos e respectivo agradecimento. Renato contou-nos que eles tinham feito sensação no campeonato anterior. O holandês era muito alto, enquanto ela era mais baixa. No entanto, tinha uma beleza fora do normal.

A holandesa usava o cabelo louro caido pelas costas e tinha um olhar felino.

Rita aproximou-se novamente do microfone e continuou:

— Tetracampeões em Itália. Senhoras e senhores, Paolo Santi e Silvia Conti.

Renato relatou algumas características desta dupla. Mas eles estavam tão longe que eu não os consegui ver.

Fábio deu um passo na direcção do microfone e anunciou:

— Senhoras e senhores, campeões de Portugal, grande revelação da época no seu país, convosco, Marco Oliveira e Rafaela Pereira.

Nós levantámo-nos e agradecemos os aplausos que nos dirigiram. Ao nosso lado, Renato aplaudia efusivamente.

— Tricampeões da Russia, vencedores do torneio da C.E.I. (Comunidade de Estados Independentes). — anunciou Rita. — Senhoras e senhores, Serguei Rebrov e Nikita Karlov.

Estes estavam na mesa ao lado. Ele tinha o semblante frio dos russos. E ela tinha a beleza tipica das russas.

Mais aplausos e mais agradecimentos.

Os apresentadores fizeram uma pausa. Depois, Fábio aproximou-se do microfone e continuou:

— Agora, é a vez das duplas favoritas à vitória final. Vindos da Rep. Checa, campeões do seu país e actuais nº 10 do ranking mundial. Senhoras e senhores, Petr Kovac e Martina Perlac.

— Dupla forte. — avisou Renato. — Chegaram às meias finais no ano passado.

A dupla levantou-se e agradeceu os aplausos. Mais um grandalhão louro, acompanhado por uma jovem de vinte anos, loura e com corpo muito atlético.

— Directamente do frio nórdico, campeões da Noruega e actuais nº 9 do ranking mundial. — apresentou Rita. — Senhoras e senhores, Aron Floe e Kathrine Rushvelt.

Também estes estavam demasiado longe para que eu os pudesse ver. No entanto, ao ouvir a apresentação, Renato contou-nos que se tratava de uma dupla forte, mas com uma grande lacuna: Não aguentavam as altas temperaturas do Rio de Janeiro. Renato lembrou, ainda, que no ano anterior eles haviam sido eliminados por uma dupla inferior, devido à falta de resistência ao calor.

Tanto eu como Rafaela sabiamos que era importante saber suportar o Sol e o calor.

No palco, Fábio continuou:

— Nº 8 no ranking mundial e campeões do seu país. Vindos de Espanha, senhoras e senhores, António Vilhena e Manuela Torrez.

Mais uns que estavam do outro lado da sala. Eu não os consegui ver e Renato não os conhecia. Esta dupla espanhola, tal como nós, fazia a sua estreia no campeonato do mundo. A sua classificação no ranking mundial devia-se às brilhantes participações no circuito mundial.

— Campeões nos Estados Unidos da América, após uma brilhante vitória sobre a quarta melhor dupla do mundo, os séptimos classificados do ranking mundial. — relatou Rita. — Senhoras e senhores, Mark Davis e Lysandra Brunnetti.

Ouviram-se muitos aplausos. Estavam muitos americanos na sala. A dupla levantou-se das suas cadeiras e agradeceu.

Renato avisou-nos que, apesar de estreantes, esta dupla tinha muita experiência internacional.

Tinham uma figura engraçada. Ele tinha aspecto de surfista, enquanto ela parecia uma modelo das passerelles.

Fábio prosseguiu com as apresentações:

— Com dez titulos no campeonato argentino e dois no circuito mundial do ano passado, os nº 6 do ranking mundial. Senhoras e senhores, Daniel Gonzalez e Gabriela Santiago.

O ritual dos aplausos repetiu-se. Tal como o dos agradecimentos.

A dupla argentina era a mais velha dos participantes. Ele tinha 34 anos e ela 32. Eu não pude deixar de reparar na beleza da argentina que trazia o cabelo preto entrançado caido sobre o vestido negro. Ao virar-se para agradecer, reparei nos seus belos olhos azuis.

A voz de Rita voltou a ecoar pelo salão:

— Vindos de Cuba, onde nos últimos cinco anos não têm adversário, e medalha de broze no campeonato do mundo do ano passado. Senhoras e senhores, a dupla nº 5 do mundo, Ruben Castro e Karina Velez.

Mais aplausos.

Renato relatou a participação deles no ano anterior. Lembrava-se que eles tinham eliminado uma das duplas brasileiras, o que lhes valera a qualificação para as meias finais. Aí, uma derrota com a melhor dupla brasileira, atirou-os para o jogo da medalha de bronze onde derrotaram os checos.

Eram ambos mulatos e de cabelo muito curto. Segundo Renato, era um casal de primos.

— Eles foram cinco vezes campeões nos Estados Unidos. — retomou Fábio. — E só não chegaram ao sexto título consecutivo por culpa dos seus compatriotas aqui presentes. Senhoras e senhores, os nº 4 do ranking mundial, Wayne Roberts e Pamela Roberts.

A massa adepta dos americanos voltou a vibrar. E perto do palco levantou-se uma das duplas mais temiveis do mundo. Ele era alto e tinha cabelo comprido e aos caracois. Ela tinha estatura média e ruiva de cabelo comprido. Nem parecia jogadora de volei de praia. Eram casados um com o outro.

Rita, com euforia, aproximou-se do microfone e disse:

— E agora pessoal, uma das duplas da casa. Eles foram os vice-campeões do mundo no ano passado, venceram alguns torneios do circuito mundial e são a terceira dupla do Brasil e do ranking mundial. Senhoras e senhores, Zé Maria e Paula Gomes.

A falange brasileira entrou em euforia. Aplaudiu e gritou pelos seus atletas. Nem Renato se conteve.

Esta dupla brasileira era constituida por dois elemento da mesma altura. Quadravam um com o outro. A sua pele bronzeada e o seu ar simpático não enganavam ninguém no que diz respeito à sua proveniência.

Renato puxou-me pelo braço e disse:

— São muito bons. Mas tiveram dificuldades com os checos no ano passado, Valeu o calor insuportável que estava nesse dia.

A euforia continuava e contagiava os apresentadores. Fábio apresentou a penúltima dupla:

— Vice-campeões do Brasil e nº 2 do mundo, vindos daqui do Rio de Janeiro. Senhoras e senhores, o casal mais querido do volei brasileiro, Rodrigo Vieira e Ana Vieira.

Aplausos e mais aplausos. Era a festa no salão.

Renato continuava com as suas considerações:

— Estes vêm para a vingança. Querem vingar-se dos checos porque foram eles que os eliminaram no ano passado. E querem vingar-se dos que vêm a seguir, por lhes terem tirado o título nacional.

Mas a festa só atingiu o auge, quando Rita apresentou os grandes candidatos ao título mundial:

— Senhoras e senhores, eles são os actuais campeões mundiais, campeões brasileiros e vencedores de vários torneios por esse mundo fora. Os grandes candidatos à reconquista do ceptro mundial, a dupla número um do ranking mundial, PAULO ROBERTO E RAQUEL CARVALHAL.

Foi a loucura na sala. Os adeptos brasileiros ali presentes fizeram um autêntico carnaval com os aplausos à primeira dupla brasileira e, segundo muitos, a melhor do mundo de todos os tempos.

Ele era alto, tinha o cabelo rapado e um corpo atlético. Ela tinha o corpo da tipica jogadora de voleibol de pavilhão, cabelo louro liso e uma estatura semelhante à dele.

Eram a dupla mais temivel do volei de praia. E eram praticamente imbativeis. Coleccionavam vitórias atrás de vitórias.

Feitas as apresentações, seguiu-se mais um momento músical. O mesmo grupo que já subira ao palco, regressou e tocou mais um dos seus sucessos.

Terminada a música, retomou-se o programa do volei de praia.

Fábio, auxiliado por Rita, chamou ao palco o Presidente da Federação Internacional de Voleibol de Praia.

Para variar, era mais um brasileiro. Um senhor alto e de cabelo grisalho, muito bem vestido e acompanhado por uma assistente da organização.

O homem, que deveria ter entre sessenta e cinco e setenta anos, colocou-se junto às taças que continham as bolas para o tão ansiado sorteio dos grupos. As dezasseis duplas ficariam englobadas em quatro grupos de quatro equipas.

Rafaela e eu rezávamos para não apanhar no mesmo grupo, a dupla campeã do mundo. Felizmente foi o que aconteceu.

Ao fim de vinte minutos de sorteio, os grupos ficaram definidos da seguinte maneira:

Grupo A: Brasil 1 - Rep. Checa - França - Itália

Grupo B: Brasil 2 - Noruega - Russia - Portugal

Grupo C: Brasil 3 - Argentina - E.U.A. 2 - Australia

Grupo D: E.U.A. 1 - Cuba - Espanha - Holanda

O grupo D era o mais forte, indubitavelmente. E o nosso não deixava muitas esperanças, mas também não havia muito por onde escolher.

Após o sorteio, seguiu-se a parte final da cerimónia de abertura. Ao palco subiram vários elementos de uma escola de samba. Homens tocando pandeireta e mulheres com fatos coloridos. Todos dançavam alegremente no palco, contagiando todos os que estavam no salão.

A festa terminou perto das 23h00, altura em que o espectáculo acabou e as duplas recolheram aos seus quartos de hotel. O som da festa deu lugar ao silêncio do recolhimento dos hóspedes.

Antes do dia do início do torneio, a organização concedeu um dia para os últimos treinos no Estádio de Copacabana, local onde se desenrolaria o torneio. A cada dupla foi concedida uma hora para treinos no areal daquele anfiteatro. E em cada hora, estariam no rectângulo duas duplas.

Rafaela e eu ficámos com o treino agendado para as 14h00. Uma hora em que estaria no areal a primeira dupla brasileira. Ambos se demonstraram muito pouco simpáticos e muito vaidosos. Olhavam-nos como se fossemos simples apanha-bolas do estádio.

Paulo Roberto e Raquel Carvalhal eram conhecidos pela antipatia, pela arrogância, pelo mau-humor e pelo mau-perder.

Durante aquela hora, treinámos alguns passes e remates. Num dos remates, a bola saltou para o lado dos brasileiros.

Eu fui até à rede e pedi-lhes, por gentileza, que nos entregassem a bola. O peneirento do Paulo Roberto aproximou-se da bola e chutou-a para o nosso lado com desprezo. E fê-lo com tanta força que ela foi parar à bancada. Valeu a simpatia de um adepto brasileiro que assistia aos treinos na bancada e que nos deu a bola.

Nós não chegámos a completar a hora de treino, pois estava um calor insuportável. O termómetro do estádio chegou a marcar 43 graus.

Arrasados com o calor, Rafaela e eu regressámos ao hotel. À nossa espera estava Renato com a ficha do torneio para nos entregar.

A ficha do torneio continha o quadro dos jogos e o respectivo horário.

— Que tal o treino? — perguntou ele.

— Foi bom. — disse eu.

— Mas está muito calor. — disse Rafaela.

— É o nosso trunfo. — disse Renato. — As duplas brasileiras beneficiam muito com o clima.

Eu segurei na nossa ficha do torneio e contei a Renato, quem estava a treinar à mesma hora que nós.

— Já esperava. — disse ele. — Eles pedem sempre para treinar com muito calor. Assim, testam a resistência à temperatura.

— Mas são muito antipáticos. — comentou Rafaela.

— É o seu grande defeito. — disse Renato. — O sucesso subiu-lhes à cabeça. E agora consideram-se superiores a toda a gente. Mas não generalizem a maneira de ser. Vos garanto que as outras duplas brasileiras são muito simpáticas.

— Talvez... — disse eu.

Enquanto subiamos até ao nosso quarto, analisámos o quadro de jogos. E o nosso primeiro confronto seria com a dupla russa, às 15h00 do dia seguinte. Estávamos a menos de vinte e quatro horas do início da nossa participação no torneio.

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