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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XLIII

Na noite que antecedeu a partida, não consegui dormir. Estava nervoso e ansioso com o que estava para vir.

Na rua, a chuva caia com abundância e o vento soprava com força. Levantei-me da cama e caminhei pelo quarto, por entre a escuridão. Não quis acender a luz, pois apenas me interessava descontrair.

Depois de caminhar um pouco, de um lado para o outro, voltei à cama e deitei-me. Fiquei a olhar para o vazio, pensando no futuro.

A participação no Campeonato Nacional foi gratificante e o triunfo foi algo inesperado e difícil. Mas, se fosse analisar os concorrentes, chegaria à conclusão que a maior parte das duplas eram amadoras e sem experiência, tal como nós.

A participação no Campeonato do Mundo iria ser indubitavelmente mais difícil. Todas as duplas eram profissionais, ou semi-profissionais, e o indice de dificuldade era muito superior.

Claro que o nosso objectivo era apenas participar, o que não significava que não o tentassemos vencer. Mas esse era um objectivo quase impossível.

Ao fim de uma hora a divagar, acabei por adormecer. E só voltei a acordar na manhã seguinte.

Acordado pelo despertador, levantei-me da cama e corri para a casa-de-banho, para a hegiene diária. Uma hora mais tarde, tomei o pequeno-almoço.

Cerca das 09h30 peguei nas minhas duas malas de viagem e levei-as para o carro. Coloquei-as no porta-bagagens e tornei a subir.

— Já vais? — perguntou o meu pai.

— Vou. Tenho de ir buscar a Rafaela. — disse eu.

O meu pai abraçou-me e despediu-se de mim, desejando-me sorte e aconselhando-me a ter cuidado. Seguiu-se a minha mãe que se despediu de mim com outro abraço e repetindo as frases do meu pai.

Por último, foi a vez da minha prima Mónica se despedir de mim. Abraçou-me com muita ternura e desejou-me toda a sorte do mundo.

Feitas as despedidas, afastei-me, começando a descer as escadas.

Saí para a rua, sentindo alguma tristeza por abandonar a familia. Mesmo sendo temporárias, as separações são sempre penosas quando nelas são intervenientes pessoas de quem gostamos.

Partindo ao volante do meu automóvel, rumei à Avenida Estados Unidos da América para ir buscar Rafaela.

Alguns minutos a circular pelas ruas de Lisboa e estava em frente ao prédio dela. Saí do carro e fui tocar à campainha.

— Quem é? — perguntou uma bela voz pelo intercomunicador.

A voz era de Rafaela. Reconhecia aquela doce voz em qualquer lugar.

— Sou eu, amor.

— Marco, eu desço já.

Eu regressei ao carro e encostei-me a ele, esperando a chegada de Rafaela.

Dois minutos depois, reparei que o elevador chegara ao piso do átrio. Do seu interior, saiu Rafaela carregando uma mala de viagem e um saco desportivo.

Estava lindissima, vestindo um conjunto de ganga preta composto por um casaco e saia. O cabelo caia-lhe sobre os ombros e o pescoço estava envolvido na gola de uma camisa vermelha. Calçava umas botas pretas que lhe moldavam as pernas até aos joelhos, perto da bainha da saia.

Mal Rafaela saiu do prédio, eu apressei-me a ajudá-la a carregar a bagagem. E coloquei tudo dentro do porta-bagagens.

Antes de entrarmos no carro, cumprimentámo-nos com um carinhoso beijo. Lembro-me que os seus lábios sabiam a morango devido ao baton que colocara.

Assim que nos instalámos no carro, eu arranquei em direcção ao Aeroporto da Portela. Faltava hora e meia para o nosso vôo.

O bom dos Domingos era não haver muita gente a circular nas ruas da cidade. Por isso, em dez minutos fizemos a distância que nos separava do aeroporto.

Estacionei o carro no parque do aeroporto e retirei a bagagem do interior do porta-bagagens. Colocámos tudo num carrinho de transporte de bagagem e seguimos para a sala de embarque.

A hora que se seguiu serviu para tratar das tarefas habituais de quem vai partir de avião. Verificação do passaporte, confirmação das passagens, transporte das malas para que sejam levadas para o avião, etc...

A empresa que nos patrocinou, possibilitou-nos viajar em primeira classe. E trinta minutos antes da partida, Rafaela e eu já estavamos sentados nos nossos lugares.

Rafaela olhou para mim e perguntou:

— Que tens? Pareces triste.

— Não é nada.

— Diz a verdade. — insistiu ela. — Que tens?

— Sinto sempre uma certa tristeza quando me afasto da família. — confessei eu. — Principalmente em situações destas, viajando para longe e por bastante tempo.

Rafaela acariciou-me o rosto e disse:

— É menos de um mês.

— Eu sei. Mas custa, mesmo assim. — repliquei eu.

— Eu estou aqui para te fazer companhia. — lembrou ela, sorrindo.

— Se esta viagem não valer mais nada, pelo menos vale pelo tempo que estou contigo. — afirmei eu, dando-lhe um beijo nos seus lábios tão gostosos.

— Amo-te. Amo-te mesmo muito. — disse ela.

— Eu também, Rafaela. Eu também te amo muito. Nunca amei ninguém como te amo a ti.

E enquanto trocávamos mais um beijo apaixonado, o avião começou a deslocar-se dando início à partida.

A viagem demorou algumas horas. Uma viagem calma e sem sobressaltos. Eu cheguei mesmo a dormir durante parte da viagem.

Quando o avião parou, após a aterragem, os pasageiros começaram a deixar o transporte.

Pela janela, podiamos observar um Sol radiante. As pessoas que assistiam os aviões denunciavam o calor que deveria estar lá fora.

Rafaela e eu deixámos os nossos lugares e seguimos para a porta do avião. Mal saimos para o exterior, fomos atingidos por uma baforada de ar quente.

No Rio de Janeiro era Verão e o clima era óptimo. A temperatura rondava os 40 graus e o Sol era quase insuportável.

Caminhámos até à zona onde as malas eram desembarcadas e recolhemos a nossa bagagem. A seguir, dirigimo-nos à saída do aeroporto para conseguir um meio de transporte que nos levasse ao nosso hotel.

Rafaela estava com tanto calor que despiu o casaco e desapertou dois botões da camisa. E eu libertei-me do casaco e da camisola, limitando-me à t-shirt que trazia por baixo.

A organização estava encarregada do transporte dos cocorrentes, por isso, havia alguém, no aeroporto, à nossa espera. Nós não o sabiamos, uma vez que os assuntos relacionados com a estadia tinham sido acordados entre a organização do torneio e o nosso patrocinador. Nós apenas tinhamos conhecimento do nome do hotel onde ficariamos instalados.

Só viemos a saber disto, quando um indivíduo com ar de banhista, expondo um cartão com os nossos nomes, apareceu perto da saída do aeroporto.

Rafaela e eu, carregando a bagagem, dirigimo-nos a ele.

— Boa tarde! Eu sou o Marco e ela é a Rafaela. — disse eu, olhando para o indivíduo.

— Oi! Meu nome é Renato. — disse ele, estendendo-nos a mão com enorme simpatia. — Sou o encarregado, da organização da Copa do Mundo, para vos levar ao hotel.

Nós agradecemos a gentileza e entregámos-lhe a bagagem.

Renato levou-nos até uma carrinha que nos haveria de transportar até ao hotel. Era branca e tinha as portas pintadas com o simbolo do torneio. E as partes laterais da carrinha tinham, pintadas a vermelho, letras dizendo: "Copa do Mundo de Beach Volei"

O hotel ainda ficava longe do aeroporto, uma vez que a pista de aviação era fora da cidade. Mas, mesmo assim, a viagem não demorou mais de meia hora.

O hotel estava situado perto da praia de Copacabana, local onde se disputaria o campeonato.

Quando chegámos ao hotel, um funcionário veio buscar a nossa bagagem e direccionou-a para os nossos aposentos.

Renato despediu-se de nós e disse-nos que, se precisássemos de alguma coisa, o contactássemos. E para o encontrar, bastava procurá-lo na organização do torneio.

Rafaela e eu entrámos no hotel e dirigimo-nos à recepção.

— Ficamos no mesmo quarto? — perguntou ela.

— Se quiseres...

— Claro que quero. — confirmou ela.

Aproximámo-nos do balcão e a recepcionista atendeu-nos imediatamente.

Eu disse-lhe quem éramos e ela indagou:

— Querem quartos separados ou ficam juntos?

— Ficamos juntos. — disse eu.

— Cama de casal ou camas separadas?

Eu olhei para Rafaela esperando a resposta.

— Cama de casal. — disse ela.

A recepcionista entregou-nos a chave do quarto e um funcionário do hotel encaminhou-nos para lá.

A organização reservara, naquele hotel, dois quartos para cada dupla. Porém, havia duplas que era casadas ou então partilhavam de um relacionamento intimo que os levava a quererem partilhar o mesma quarto, tal como nós. Claro que também havia duplas que, apesar de não terem este tipo de relacionamento, preferiam ficar no mesmo quarto, em camas separadas. Daí este pequeno questionário na recepção.

O hotel era também a sede do torneio. Para além de ser a "casa" de todas as duplas concorrentes, era também o local onde se faria a apresentação dos participantes, o sorteio, a cerimónia de abertura e a festa de encerramento.

O hotel estava equipado com todo equipamento para a nossa preparação. E a passagem para a praia podia ser feita pelo interior do edifício sem ter que sair do terreno do hotel. E em caso de querer passear pela cidade, cada dupla tinha um guia. O nosso era o Renato.

Mas o dia fora cansativo. A viagem e o calor tinham-nos deixado arrasados. Por isso, decidimos tomar um banho e repousar da viagem, debaixo do fresco do ar condicionado.

A noite não foi muito bem dormida, uma vez que ainda não estávamos habituados ao fuso horário. Só por volta das 04h00 é que eu adormeci, pouco depois de Rafaela.

Na manhã seguinte, levantámo-nos cedo e fomos até à praia.

Meio ensonados, caminhámos um pouco à beira-mar e disfrutámos do clima maravilhoso que ali se sentia.

Mesmo sendo dia de semana, a praia estava com muita gente que aproveitava os trinta e poucos graus da manhã para se banhar na água, principalmente belas mulheres com biquinis minúsculos, fio dental e com os “bum-buns” a baloiçar diante dos meus olhos.

O local era maravilhoso. O clima era óptimo e a água estava mesmo apetecivel. E nós não hesitámos em dar um mergulho para espertar.

Todo aquele dia se destinou a descansar e a ambientar ao local.

Os treinos só começaram na Terça-Feira. Nesse dia, já mais recompostos da mudança, fomos até à praia e fizemos alguns exercícios no areal. Corremos na areia, na água, fizemos exercícios de manutenção e jogámos um pouco.

Após o almoço, regressámos à praia e repetimos a sessão de treino, sob um Sol escaldante.

Cansados, brozeados e cheios de areia, regressámos ao nosso quarto de hotel. Rafaela atirou-se para cima da cama, arrasada com o calor.

— Esta temperatura é insuportável. — disse ela.

Eu sentei-me a seu lado e disse:

— Temos que nos habituar, senão, não aguentamos os jogos.

— Eu sei. — concordou ela. — Vou tomar um banho de água fria.

— Está bem.

Rafaela dirigiu-se à casa-de-banho e foi refrescar-se com um duche frio. E eu fiquei no quarto, a ler o jornal que o serviço de quartos lá deixara.

Dez minutos depois, Rafaela saiu da casa-de-banho, enrolada num toalhão, e eu aproveitei para também me refrescar com um duche frio.

Quando voltei ao quarto, Rafaela estava deitada de barriga para baixo e continuava com o toalhão enrolado no corpo. Tinha tanto calor que decidiu ficar assim para não sentir tanto o calor.

Eu, que trazia uma toalha à volta da cintura, sentei-me novamente a seu lado e perguntei:

— Queres que aumente o ar acondicionado?

— Não. Deixa estar. — respondeu ela com uma voz fatigada.

— Sentes-te bem? — indaguei eu.

— Estou toda queimada. — disse ela. — Acho que apanhei muito Sol.

— Queres que te ponha um pouco de creme hidratante nas costas?.

— Sim, por favor. — aceitou ela.

Eu fui buscar a embalagem com o creme e regressei à cama. Ajoelhei-me no colchão, abri a toalha dela e comecei a espalhar o creme pelas suas costas. Massagei-a com cuidado para não a magoar. Ela tinha a pele das costas muito vermelha e as marcas do biquini a sobressair.

Rafaela sentia-se tão bem com as minhas massagens que soltava alguns gemidos tímidos a cada toque dos meus dedos.

Quando terminei a massagem nas costas, Rafaela virou-se de barriga para cima e pediu-me que fizesse o mesmo no seu peito.

Eu ajoelhei-me, colocando o seu corpo entre as minhas pernas, e satisfiz o seu pedido. Mas quando lhe espalhei o creme pelos seios, não resisti a beijá-la enquanto acariciava ambos.

Rafaela puxou-me para si, atirou com a minha toalha para o chão e enrolou as suas pernas na minha cintura.

O que veio a seguir, podem imaginar.

Seguiu-se o treino matinal de Quarta-Feira. Mais uma vez bem cedo, Rafaela e eu fomos para a praia, repetir a sessão de treinos.

Quando voltámos ao hotel, a recepcionista veio ao nosso encontro.

— Está no salão uma garota da televisão, para falar com vocês. — informou ela.

— O que é que ela quer? — perguntei eu.

— Ela deve querer entrevistar vocês. — disse a recepcionista.

— Diga-lhe que nós vamos mudar de roupa e já falamos com ela. — pedi eu.

— Certo.

Rafaela e eu subimos até ao quarto, tomámos um banho e vestimos umas roupas frescas. E, quinze minutos mais tarde, decemos para falar com a jornalista.

Quando entrámos no salão, a jornalista estava sentada numa poltrona, acompanhada pelo seu camaraman. Era uma mulher atraente com aspecto de ser jovem, talvez entre os vinte e quatro e os vinte cinco anos. Tinha cabelo preto curto, cortado acima do pescoço. Vestia uma camisola amarela de manga curta, completamente aberta, revelando um top branco por baixo. A acompanhar, tinha uma saia curta que mostrava as pernas cruzadas quase até às nádegas, devido à posição em que estava sentada.

O indivíduo que estava com ela, vestia uma t-shirt branca a dizer "Brasil Tetra Campeão" e umas calças de ganga azuis.

Ao ver-nos, a brasileira veio ao nosso encontro.

— Oi! — cumprimentou ela. — Marco e Rafaela, né?

— É verdarde. — confirmei eu.

— Meu nome é Rita e estou fazendo umas entrevistas com os participantes da Copa do Mundo de Beach Volei. Seria possível conversarmos?

— Claro. — concordei eu.

Rita era jornalista da estação de televisão que ia acompanhar o campeonato do mundo e transmiti-lo para os cinco continentes.

As entrevista centrou-se na nossa participação no torneio. O que pensávamos, quais as nossas expectativas, as ambições, etc...

No entanto, a jornalista passou a entrevista a observar-me com um olhar provocante, como se estivesse a seduzir-me. Eu fingi que não reparei, mas Rafaela ficou cheia de ciúmes. Tantos, que a dada altura, já não se demonstrava muito simpática para com Rita.

Finda a entrevista, Rafaela e eu retornámos ao quarto.

— Não precisavas de ter sido tão antipática. — disse eu, perante o olhar furioso de Rafaela.

— Porquê? Estraguei-te o engate? — questionou ela.

— O engate? — interroguei eu, surpreso com os seus ciúmes.

— Sim, o engate. — insistiu ela. — Pensas que não vi a forma como olharam um para o outro?

— Não digas dispates. Eu nem reparei que ela estava a olhar para mim dessa maneira. — disse eu.

— Se eu não estivesse ali, se calhar convidáva-la para a cama.

— Não sejas parva! — interrompi eu. — Estás a ser injusta.

— Ah, agora defendes a tipa, é?

— Não é isso... Rafaela eu amo-te. — lembrei eu. — Não te trocava por mulher nenhuma.

Rafaela olhou para mim, um pouco mais calma, e perguntou:

— Marco! Nunca me traíste?

A pergunta apanhou-me desprevinido e acabei por hesitar na resposta.

— Não! — respondi eu.

Pois, já sei o que estão a pensar. Estava a mentir, é verdade. Mas eu gostava de saber quantas pessoas é que naquela situação iam dizer a verdade.

Mesmo assim, a resposta não convenceu Rafaela que, muito aborrecida, saiu porta fora, pondo um ponto final à discussão.

— Vou dar uma volta. — disse ela, afastando-se pelo corredor.

Eu deixei-a ir. Achei que o melhor era deixá-la acalmar-se e tornar a falar com ela, quando regressasse.

No entanto, Rafaela ficou mesmo convencida de que eu estava interessado na jornalista. Por isso, como represália, resolveu pedir a Renato que a levasse a dar uma volta pela cidade.

Eu só soube disto, quando a procurei pelo átrio do hotel. Uma funcionária, ouvindo-me procurá-la pela recepção, informou-me que Rafaela saíra com um dos guia da organização.

A sua atitude deixou-me aborrecido, até porque ela abandonara o hotel sem me avisar. Ao dizer que ia "dar uma volta", pensei que se referisse a passear pelo jardim do hotel.

Confesso que fiquei com ciúmes. Sabê-la na companhia de outro homem, passeando pela cidade, causava-me pensamentos preocupantes. Porém, nunca equacionei a hipótese de que ela me traisse ou, pelo menos, era isso que eu queria pensar.

Rafaela só regressou ao hotel perto da hora do jantar. Eu estava no nosso quarto, pois já desistira de a esperar no átrio.

Quando chegou, Rafaela trazia um sorriso nos lábios. Um sorriso que não se destinava a tréguas, mas sim a demonstrar o seu contentamento.

— Foi um passeio maravilhoso. — dizia ela, enquanto descalçava os tennis.

— Podias ter avisado. — disse eu.

Rafaela olhou para mim irritada e perguntou:

— Mas eu devo-te explicações da minha vida?

Eu levantei-me da cama, onde estava sentado, e respondi com alguma cólera:

— Deves! Nós...

— Nós, o quê? — interrogou ela, levantando a voz. — Vai ter com a brasileirinha.

Eu elevei, igualmente, a voz e exclamei:

— Não sejas estupida, Rafaela. Já te disse que não estou interessado na brasileira.

Rafaela virou-me as costas e seguiu para a casa-de-banho. Mas eu agarrei-lhe o braço, impedindo-a de se afastar.

— Onde pensas que vais? — interroguei eu. — Ainda não acabámos a conversa.

— Eu já acabei. — respondeu ela. — E vê lá se me largas. Estás a magoar-me o braço.

— Devia era bater-te. — disse eu, levantando a outra mão.

— Vá! Bate! — desafiou ela, elevando o corpo para que eu a alvejasse.

Apesar de naquele momento ter vontade de o fazer, preferi baixar a mão e atirar Rafaela para cima da cama, para se calar.

— És um bruto. — barafustou ela. — Devias aprender com o Renato. Esse sim. Esse sabe tratar uma mulher.

Aquela última frase enervou-me verdadeiramente. No entanto, não respondi. Não valia a pena continuar aquela discussão tão absurda e sem motivo. Optei por abandonar o quarto e descer até ao átrio do hotel, deixando Rafaela sozinha no quarto.

Minutos depois, fui jantar ao restaurante do hotel. Sentei-me e comi sozinho numa das mesas do enorme salão do restaurante.

Perto do fim da refeição, Rafaela desceu até ao restaurante e sentou-se na minha mesa. Parecia arrependida com o que se passara. Mas, quando tentou dizer alguma coisa, eu levantei-me da mesa e virei-lhe as costas. Estava tão aborrecido com ela que não suportava encará-la à minha frente. E para além disso, ficara convencido que ela se amantizara com Renato.

Nessa noite, só nos voltámos a ver quando nos deitámos. Dormimos na mesma cama, mas não nos falámos. Estávamos frios um com o outro. A discussão deixara marcas. Nunca houvera entre nós uma discussão tão forte e que causasse um aborrecimento tão grande que nos levasse a não falar um com o outro.

A desavença manteve-se. E a aproximação do início do torneio agravava a situação. Uma das características para o sucesso é o entendimento entre os elementos da dupla. E isso não existiria se continuassemos sem falar um com o outro.

Na manhã seguinte, quando acordei, Rafaela já estava levantada. De biquini vermelho e t-shirt branca, Rafaela aguardava que eu acordasse para irmos treinar. Mantendo o ar desprendido, ela preferiu esperar, a acordar-me.

— Posso contar contigo para o treino? — perguntou ela, rudemente, quando abri os olhos.

— Podes. — disse eu, respondendo à sua rudeza.

Levantei-me da cama e fui para a casa-de-banho. Depois, acompanhei Rafaela até à praia.

Foi um treino ridiculo. Não falámos, não conversámos, não dirigimos uma única palavra um ao outro. Limitámo-nos a correr e a fazer uns exercicios pela praia.

Após o almoço, Rafaela parecia disposta a acabar com a separação que se edificara entre nós.

Quando eu estava no quarto a ler o jornal, Rafaela sentou-se a meu lado e convidou-me para ir com ela e darmos um passeio pela cidade.

— Não sei. — disse eu, mantendo o ar zangado.

— Chamamos o Renato e ele leva-nos a conhecer a cidade. — sugeriu ela.

Foi o seu erro. Estupidamente, imaginei que o interesse de Rafaela era encontrar um motivo para sair com o Renato. Sendo assim, disse-lhe que fosse sozinha, pois não estava com paciência para passeios.

Rafaela ficou irritada e disse:

— Tudo bem. Se não queres vir, vou eu sozinha. Fica para aí, mais o teu jornal.

Rafaela abandonou o quarto e foi dar o tal passeio. Claro que foi pedir a companhia de Renato. E eu sabia que ela o ia fazer, mas era tão orgulhoso que não queria demonstrar os ciúmes que sentia, confrontando-a com essa "traição".

Duas horas mais tarde, quando desci até ao átrio do hotel, encontrei Rafaela a conversar alegremente com Renato. Falavam como se fossem amigos de longa data. E isso aumentava desmesuradamente os meus ciúmes.

Envolto num espirito vingativo, passei por eles e saí do hotel. Rafaela viu-me, mas respondeu ao meu desprezo com igual desprendimento.

Durante a pequena caminhada pelo areal de Copacabana, encontrei a jornalista brasileira.

— Oi! — disse ela, vendo-me ali sozinho.

— Olá! — retribui eu com uma voz simpática.

— Curtindo o Sol? — interrogou ela.

— Sim. — confirmei eu, sorrindo. — E você?

— Vou entrevistar a terceira dupla brasileira. Estão treinado no estádio. — disse ela, seguindo para o seu objectivo.

Depois de ela se afastar, eu regressei ao hotel. Entrei no elevador e subi até ao piso onde estavamos instalados.

No entanto, quando saí do elevador, fui surpreendido por uma visão que me deixou fora de mim.

Rafaela, à porta do quarto, conversava com Renato, denunciando alguma intimidade. Porém, o que me deixou furioso foi o facto de Rafaela estar enrolada num toalhão, semi-nua.

Imaginei logo que no tempo em que eu estivera fora, ela e Renato tinham aproveitado para concretizar os seus desejos.

Aproximei-me deles, inundado num ódio de marido que chega a casa e vê a mulher com o amante.

Ao ver-me, Renato sorriu e estendeu-me a mão.

Mas eu ignorei o cumprimento e apressei-me a interrogar com dureza:

— Mas que merda é esta?

— De que é que estás a falar? — perguntou ela.

— Estou a falar desta cena. Tu e este gajo. — disse eu. — Ainda mais assim... nua.

Renato olhou para mim e disse:

— Pô, cara. Não é nada do que você está pensando.

— É pá, tu cala-te. — disse eu. — Contigo, falo depois.

— Não sejas estupido. — barafustou Rafaela. — Estás a ser mal educado. A tua atitude é absurda.

O tom de voz começou a aumentar, ecoando pelo corredor do piso.

— Cala-te, Rafaela. — ordenei eu. — Eu não sou cego.

— Ó cara, não fale assim com ela. — exigiu Renato.

A voz dele aumentou o meu ódio, o que me fez responder com um violento soco na cara dele, atirando-o ao chão.

— Estupido! Estupido! — barafustava Rafaela, enquanto auxiliava Renato. — És uma besta.

A confusão começou a atrair a atenção dos outros hóspedes. Por isso, para evitar mais espectáculo, acabei por me afastar e regressar ao elevador.

Quando cheguei ao átrio, encontrei novamente Rita. Vinha do exterior e ia à procura de mais uma entrevista.

— Estamos cruzando muito, hoje. — disse ela com malícia.

— É verdade. — concordei eu, sorrindo. E num tom de voz sedutor, convidei. — Quer tomar um copo comigo?

Rita aceitou imediatamente.

Caminhámos até ao bar do hotel e sentámo-nos numa das mesas. Não havia quase ninguém.

Na meia hora seguinte, conversámos sobre o torneio. Eu falei sobre o campeonato nacional que tinha ganho. E ela falou-me do torneio brasileiro.

A certa altura, encarei-a nos olhos e disse:

— És muito bonita.

— Obrigado. — agradeceu ela, denotando uma reciprocidade de sentimentos.

Eu aproximei-me dela, coloquei a mão na sua perna e continuei:

— Sinto-me muito atraído por ti.

— Eu também. — respondeu ela, olhando-me languidamente.

Sem dizermos mais nada, deixámos a mesa e seguimos até ao elevador que dava acesso aos outros pisos do hotel. Entrámos e Rita carregou no botão do oitavo piso.

Entre o sexto e o septimo piso, Rita accionou o travão do elevador, parando-o entre os dois andares. Ali, nós teriamos toda a privacidade para fazer aquilo a que nos propunhamos.

Eu agarrei-a pela cintura, comecei a beijá-la e a apalpá-la. Ela agarrava-me as nádegas com grande excitação e respondia aos meus beijos. A nossa saliva misturava-se, os nossos corpos roçavam acaloradamente e as mãos revistavam todo o corpo do parceiro.

Rita puxou-me a camisola para fora das calças. E eu desapertei a sua, desnudando-lhe os seios, ainda cobertos pelo soutien.

Arranquei-lhe o soutien com os dentes e moldei-lhe os seios com os dedos. E ela gemia com os meus toques, enquanto me cravava as unhas nas costas.

Estávamos tão excitados que só faltava saciar todo o desejo, fazendo-o, ali mesmo, no elevador.

No entanto, a imagem de Rafaela e da traição que lhe estava a fazer, não me saiam da cabeça. Olhei para Rita, parei toda aquela movimentação e pedi:

— Desculpa, Rita. Mas não podemos continuar.

Rita ficou incrédula e manteve-se a olhar para mim.

— A Rafaela não merece isto. — continuei eu. — Mesmo que me tenha traido, ela não merece que eu o faça.

A jornalista olhava-me, tomando-me por um doido. Um idiota que não aproveitava aquele pedaço de mulher que se estava a entregar a mim de corpo e alma.

Destravei o elevador e arranjei a roupa.

Rita, sem dizer uma palavra, começou a recompôr a sua roupa.

Quando o elevador chegou ao oitavo andar, eu saí e despedi-me dela, dizendo:

— Até à próxima. E mais uma vez, desculpa esta cena.

Rita olhou para mim e, antes da porta fechar, disse:

— Você deve ser frutinha.

Não sei porquê, mas senti uma enorme vontade de rir, ao ouvi-la dizer aquilo. Se havia coisa que eu não era, era aquilo.

O trajecto até ao meu piso foi feito pelas escadas. Quando cheguei ao meu andar, entrei no corredor pela porta de serviço. Depois, caminhei até ao meu quarto.

Quando entrei no quarto, encontrei Rafaela deitada na cama. Ao ver-me levantou-se e encarou-me de frente. Não pude deixar de reparar nos seus olhos, parecia ter estado a chorar.

— Então, já voltaste? — perguntou ela com ironia.

Eu não lhe respondi e sentei-me na cama.

— Não te faças de desentendido. — insistiu ela. — Eu vi-te entrar no elevador com aquela tipa. A jornalista.

— Não me chateies. — pedi eu, desapertando os sapatos.

Rafaela colocou-se à minha frente e continuou:

— Fizeste aquela cena, ao ver-me com o Renato. Uma cena absurda. E depois, aproveitaste para ir... para... Para ires para a cama com a brasileira.

— Eu não fui para a cama com ela. — argumentei eu.

— Pois não. Foi logo no elevador. — contrapôs ela.

— Eu não fiz nada com ela. — repeti eu. — E para além disso, tu é que estavas aqui, nua, com aquele Renato.

— Eu não estava nua. — disse ela. — E onde é que queres chegar com essa insinuação?

Eu levantei-me da cama e respondi:

— Quero dizer que desconfio que me andaste a pôr os cornos.

— Como é que podes pensar que eu te trairia? — interrogou ela. — Alguma vez te dei razão para suspeitar de uma coisa dessas?

— Deste! — respondi eu. — Esses passeios com o Renato. As conversas intimas. Estares quase nua com ele, à porta do quarto...

— Tinha acabado de tomar banho. — interrompeu ela, justificando. — És um porco. Imaginares isso de mim... Só de uma mente porca como a tua.

Eu olhei-a no olhos e, num tom rude, disse:

— Se eu sou um porco, tu és uma puta.

Rafaela, com os olhos inundados pelo ódio e pelas lágrimas, respondeu-me com uma estalada na cara.

E eu respondi à estalada com um chapadão violento na face dela que a projectou para cima da cama. Só depois de lhe acertar, é que me apercebi da força que empregara no estalo. Saltei para cima da cama e apressei-me a inteirar-me do seu estado.

Rafaela, chorando, esbracejando e esperneando, tentou afastar-me. Não só a magoara fisicamente, como a magoara nos seus sentimentos.

Com muita paciência, agarrei-a com força e apertei-a nos braços, tentando evitar a sua ira. A seguir, com muita ternura, comecei a beijar-lhe a face e o pescoço carinhosamente.

Rafaela acabou por sucumbir às minhas carícias. E quando se voltou para me beijar, eu reparei que tinha o lábio superior rebentado. Fora uma brutalidade, a estalada que lhe dera. Confesso que se estivesse no lugar dela, não perdoava.

Porém, acima de tudo, nós estavamos muito apaixonados. Eu procurei a sua boca e tentei curar o ferimento, beijando-o com ternura. E ela deixou-se amar descontraidamente. Todo o nosso desentendimento terminou entre os lençois da cama.

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