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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XLI

Na Terça-Feira seguinte, a meio da manhã, a familia Greenland deslocou-se a minha casa. Estava uma manhã chuvosa e muito fria. Tanto Guida como Mike vinham bastante agasalhados e traziam Rebecca bem enrolada num quente cobertor.

Os meus pais já não estavam em casa, pois era hora de trabalho. Apenas Mónica se encontrava a fazer-me companhia.

Quando chegaram, convidei-os a entrar e a seguirem para a sala. O primeiro a entrar foi Mike, cumprimentando-me com enorme simpatia. Seguiu-se Guida, transportando a filha nos braços, que me deu um beijo na face. Comportava-se como nada tivesse acontecido entre nós.

— Viemos despedir-nos de ti. — informou Guida. — Partimos hoje para Sidney.

— A que horas? — indaguei eu.

— No vôo das 13h30. — completou ela.

Enquanto falávamos, caminhámos até à sala, onde Mike trocava algumas palavras com Mónica. A minha prima ficou encantada com Rebecca. E logo ela que estava perto de ser mãe, via naquela bebé um preságio do seu futuro.

Durante alguns minutos, permanecemos na sala a conversar. Não foi muito tempo, uma vez que a visita era curta. Sempre que Guida se dirigia a mim, eu sentia um arrepio na espinha e temia ter um ar comprometedor, mas ela continuava sempre com a mesma naturalidade.

Mike olhou para o relógio e avisou Guida de que estava na hora de partir para o aeroporto.

Guida assentiu com a cabeça.

Mike pegou na filha e levou-a nos braços. Guida seguiu atrás de si. E eu e Mónica acompanhámo-los à porta.

Mike despediu-se de mim e começou a descer as escadas.

Porém, Guida deixou-se ficar para trás. Despediu-se de Mónica e, olhando para mim, disse:

— Vou ter saudades tuas.

— Eu também. — disse eu.

— Quando estivermos instalados, eu telefono-te a dar o meu número de telefone. — informou ela.

Eu concordei com a cabeça e dei-lhe um beijo de despedida.

Quando as nossas faces se tocaram, Guida sussurrou:

— Adoro-te, Marco! Jamais te esquecerei!

E afastou-se, começando a descer as escadas, atrás do seu marido.

Aquela sua última frase ficou a ecoar no meu pensamento. No entanto, para meu bem, decidi não lhe dar grande importância.

A familia Greenland partiu. Foi a última vez que os vi. Durante algum tempo, ainda nos comunicámos com alguma regularidade. Mas ao fim de alguns anos, o contacto tornou-se inexistente.

As horas passaram. E ao almoço, apenas a minha mãe veio a casa.

— O pai não vem? — perguntei eu, vendo a minha mãe chegar a casa sozinha.

— Não! Teve de ir a uma reunião de negócios. — justificou ela. — Parece que vai demorar até à noite.

Eu não voltei a ligar importância ao assunto. Fui até ao meu quarto e esperei que o almoço ficasse pronto.

Mas o assunto tinha mais importância do que eu pensava. E nessa tarde, uma realidade nova se me deparou.

Tudo começou quando eu estava a passear pela Avenida da Liberdade. O tempo tinha melhorado e o Sol fazia sentir a sua presença, brilhando pelas ruas da capital.

Rafaela partira para umas termas no interior do país, para intensificar a sua recuperação. Partira na Segunda-Feira e só regressaria no Sábado. Fora um conselho do Dr. Aurélio.

Nessa tarde, deixei o meu domicílio e decidi ir até ao cinema. Uma maneira de passar o tempo sozinho. Fui a uma das salas do cinema São Jorge com a intensão de ver um filme americano.

No entanto, quando estava a subir a escadaria do cinema, reparei na silhueta de uma pessoa que me parecia familiar. E era, de facto. Tratava-se do meu pai, subindo a Avenida da Liberdade numa passada larga e apressada.

Aquela visão deixou-me alguma curiosidade. O meu pai deveria estar numa reunião de negócios no emprego. E, em vez disso, estava a passear ali, caminhando como se tivesse pressa em chegar a algum lado.

A curiosidade de saber o seu destino fez-me esquecer o interesse no cinema e decidi segui-lo.

Continuando a subir a Avenida da Liberdade, o meu pai só parou quando chegou à porta de um dos hoteis da avenida. Sem olhar para o nome do hotel, ele entrou. Isso fez-me suspeitar que o lugar era conhecido para si e já não seria a primeira vez que lá ia.

Depois de ele entrar no edifício, aproximei-me da porta e li o nome do hotel. O nome não me era estranho e o logotipo era-me familiar. Julgava tê-lo visto dias antes, mas não me lembrava onde.

Entrei calmamente e segui até à recepção. Porém, antes de chegar ao balcão de atendimento, uma imagem apareceu claramente no meu pensamento. Já sabia onde vira o simbolo do hotel. Fora no cartão que Amy Thompson entregara ao meu pai.

Continuei a andar e interpelei o funcionário que atendia as pessoas:

— Podia informar-me para onde foi o senhor que acabou de entrar?

— Passou por aqui muita gente. — disse o indivíduo.

Eu insisti na pergunta, descrevendo o meu pai.

— Não podemos dar esse tipo de informações. — disse ele.

O sujeito, com ar de jovem acabado de sair de um curso de hotelaria, parecia irredutivel na sua decisão.

Discretamente, puxei de uma nota de mil escudos e entreguei-lha, repetindo a pergunta.

O indivíduo guardou-a com a mesma discrição e disse:

— O senhor a que se refere dirigiu-se ao quarto nº 2034.

— E quem é que lá está hospedado? — indaguei eu.

O funcionário do hotel ficou mudo.

No entanto, eu curei-lhe a mudez com mais mil escudos.

— O quarto está em nome da Dra. Amy Thompson. — disse ele, confirmando as minhas suspeitas.

Voltei a entregar mais uma nota de mil escudos ao indivíduo e disse:

— Estou certo que você não vai comentar nada sobre a minha presença aqui.

— Já nem me lembro das suas perguntas. — afirmou ele, recolhendo o dinheiro.

Perante aquele cenário, nada mais me restava fazer senão esperar que o meu pai voltasse. Sendo assim, caminhei até aos sofás do átrio e fiquei a ler o jornal do dia.

Esperei mais de uma hora até ver o meu pai aparecer à porta do elevador. Para que ele não me visse, escondi o rosto atrás do jornal e vigiei a saída dele dali.

Vendo-o desaparecer por entre as pessoas que passavam na avenida, fiquei a pensar no que haveria de fazer. Não sabia se havia de confrontar o meu pai com a minha descoberta ou se deveria resolver o assunto sozinho. Uma coisa estava fora de questão: Contar à minha mãe o que se estava a passar.

Para não tomar nenhuma atitude precipitada, abandonei o hotel e regressei ao carro que deixara estacionado perto do cinema.

Ao chegar a casa, actuei como se nada tivesse acontecido. E após o jantar, recolhi ao meu quarto, equacionando uma solução que não pusesse em perigo o casamento dos meus pais.

No dia seguinte, decidi resolver o assunto por mim mesmo.

A meio da tarde, telefonei ao meu pai para o escritório, com um pretexto falso, para confirmar que ele lá estava. A seguir, saí de casa e desloquei-me ao hotel onde Amy Thompson se encontrava hospedada.

Dirigi-me ao recepcionista, que por acaso não era o mesmo da tarde anterior, e disse:

— Queria falar com a senhora Amy Thompson. Parece-me que está no quarto nº 2034.

O funcionário pegou no telefone e perguntou-me:

— Quem devo anunciar?

— Diga que é o Sr. Oliveira. — disse eu.

O indivíduo telefonou para o quarto da jovem empresária americana e anunciou o visitante.

A ideia de me apresentar somente pelo apelido era para provocar a Amy a ideia de que era o meu pai que ali estava.

O recepcionista, após a indicação da hóspede, informou-me o caminho que eu deveria seguir para chegar ao piso do respectivo quarto.

Feito o pequeno percurso até ao piso indicado, caminhei pelo corredor e procurei o número do quarto de Amy. E ao ver o 2034, bati à porta.

Ainda esperei alguns segundos até ouvir uma passada leve aproximar-se da porta. Depois, a maçaneta rodou e uma voz surgiu atrás da porta:

— Hello, dear...

Porém, ao ver que era eu, Amy hesitou. E apressou-se a disfarçar:

— Hello, my dear friend.

Cumprimentei-a e perguntei se poderia conversar com ela.

Ela concordou e convidou-me a entrar.

Amy estava vestida com um robe de tecido turco que lhe cobria o corpo, desde o pescoço até aos tornozelos. Tinha o cabelo apanhado sobre a cabeça com uma toalha e tinha um aspecto húmido, denotando que acabara de tomar banho.

Eu aceitei o convite para entrar e caminhei até à sala. O quarto de Amy era enorme e luxuoso. Tinha três divisões, quarto, sala e casa-de-banho, todas muito grandes.

Sentei-me no sofá da sala, enquanto Amy caminhou até ao pequeno bar que a sala continha. Ofereceu-me uma bebida, mas eu recusei. Não estava interessado em beber nada. Só queria completar o meu objectivo de falar com ela.

Amy retirou um copo da prateleira do bar e serviu um Whiskey a si mesma. Depois, caminhou até ao sofá e sentou-se a meu lado, desnudando quase totalmente as suas longas pernas.

Sempre em inglês, reafirmei a minha intensão de falar consigo.

Amy ripostou com a curiosidade sobre o assunto.

Eu afirmei, friamente, que suspeitava que ela tinha um caso amoroso com o meu pai.

Amy ingeriu mais um gole do líquido e indagou porque razão eu achava que ela tinha um caso com o meu pai.

Eu justifiquei com o facto de o ter visto visitá-la.

Amy voltou a beber mais um gole e levantou-se do sofá. Seguiu até ao bar e pousou o copo no balcão. Seguidamente, confirmou que o meu pai a visitara, de facto, na tarde anterior. No entanto, não havia nada entre eles.

Eu não acreditei e disse-lho.

Amy fez um gesto de consternação e ficou aborrecida por eu não acreditar nela. Mesmo assim, voltou a sentar-se a meu lado e justificou que ela e o meu pai tinham uma relação de negócios. Ela estava interessada em comprar um terreno no Algarve e precisava do meu pai para que ele lhe vendesse um terreno que tinha lá.

A justificação parecia credivel. O meu pai tinha, de facto, um terreno no Algarve que havia já algum tempo que tencionava vender.

A expressão do meu rosto mostrava a minha rendição perante aquela justificação.

Amy, com uma voz intencionalmente sensual, aproximou-se de mim e perguntou se eu já acreditava nela.

Eu respondi que sim, levantando-me apressadamente do sofá.

Amy levantou-se também e segurou-me o braço.

Eu pedi-lhe desculpa e libertei-me da sua mão, dirigindo-me para a porta.

Ela pediu para que eu não fosse, retirando a toalha do cabelo.

Nem tive tempo de dizer o que quer que fosse. Amy abraçou-me e começou a beijar-me com fervorosidade.

Novamente, senti aquela sensação de traição a Rafaela que sentira com Guida. Não era correcto estar a beijar Amy, assim como não fora ter feito amor com Guida.

Porém, Amy era tão bonita que eu não conseguia resistir. Desapertei-lhe o robe e fiquei maravilhado com a perfeição daquele corpo. Tinha uma pele branca, muito suave e macia. Os seios não eram muito grandes, mas tinham uma forma que atraia as minhas mãos e a minha boca. O cabelo molhado a cair sobre o peito e as costas intensificava o seu ar sensual.

— Make sex with me. — suspirava ela no meu ouvido.

Eu deitei-a na cama. Olhei para aquela mulher nua que se despenhara na cama, completamente receptiva ao meu corpo. A minha cabeça continuava a dizer-me que não era correcto o que eu estava a fazer... Mas, eu já traira Rafaela com Guida. Uma vez ou duas vezes, era igual, justificava eu perante a minha consciência...

─ Não posso fazer isto! ─ exclamei.

─ What? ─ interrogou ela, sem perceber o que me travara.

─ Sorry! ─ pedi eu, virando-lhe as costas.

Abandonei o quarto de Amy como se fugisse de uma bomba-relógio. Vinha com a certeza de que nunca houvera nada entre ela e o meu pai. E trazia a satisfação de lhe ter resistido, assim como o arrependimento por não o ter feito.

Mais tarde, na Sexta-Feira seguinte, a história de Amy viria a ser confirmada pelo meu pai que, ignorando esta cena, me informou da venda do terreno à jovem empresária americana.
 

No dia que se seguiu, um Sábado chuvoso e triste, Carlinhos visitou-me, a seguir ao almoço.

— Que surpresa. — disse eu ao abrir-lhe a porta.

— Venho despedir-me de ti. — informou ele com alguma tristeza.

— Despedir-te? — interroguei eu com estranheza.

— Sim. — confirmou ele. — Vou partir para os Estados Unidos.

Eu fiquei surpreso e convidei-o a entrar para a sala para que me explicasse melhor aquilo.

Carlinhos sentou-se no sofá e, depois de eu me sentar na poltrona, começou a explicar:

— A Amy convidou-me a ir viver com ela para Seattle. Estamos apaixonados e decidimos experimentar viver juntos.

Amy era o tipo de mulher que não gostava de assentar a sua vida num relacionamento com compromissos, por isso duvidei das intensões que ela tinha para com Carlinhos. Mas ele estava radiante e dizia com confiança que ela estava caidinha por ele.

— Espero que sejas feliz com ela. — desejei eu.

— Também eu.

— Boa sorte!

— Obrigado.

Levantámo-nos dos sofás e unimo-nos num longo abraço de grandes amigos que éramos. Ambos estávamos tristes pela futura separação. Mas, enfim, era a vida.

Carlinhos partiu para os Estados Unidos com Amy Thompson e nunca mais voltou a Portugal. No entanto, nunca perdemos o contacto um do outro.

O tempo foi revelando a verdadeira Amy Thompson, uma jovem rica, ambiciosa e insensivel aos que a rodeavam. Carlinhos separou-se dela um ano depois.

Felizmente, conheceu outra americana com quem veio a casar e com quem teve filhos, netos e envelheceu.

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