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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XL

Uma semana mais tarde, mais precisamente no dia de Reis, acompanhei Rafaela à sua última visita à clinica de recuperação.

O Dr. Aurélio comunicou a Rafaela que já não era necessária a utilização das muletas. Rafaela estava bem, fisicamente, e poderia dar início à recuperação da forma fisica para reiniciar a actividade desportiva. Assim, a participação no Campeonato do Mundo de Voleibol de Praia voltava a ser uma realidade.

Rafaela ficou radiante. Não cabia em si de tão contente que estava.

Claro que não é preciso dizer como a notícia me deixou feliz.

— Quando é que devo voltar cá? — perguntou Rafaela ao médico.

— Penso que não é necessário. — disse ele. — Mas em todo o caso, eu visito-a, antes de partirem para o Brasil, para confirmar o seu bom estado.

Rafaela e eu agradecemos toda a atenção que o Dr. Aurélio nos prestara. A seguir, despedimo-nos e abandonámos o edifício.

Nessa tarde, já com a noite a cair, fui levar Rafaela a sua casa. Durante o trajecto, ela fez um esboço de como se haveria de processar a preparação para o campeonato.

— Depois combinamos isso. — disse eu.

— Temos que começar o mais cedo possível. — avisou ela.

— Eu sei. Amanhã tratamos disso. — contrapus eu, rejeitando discutir aquilo naquele momento.

Rafaela estranhou a minha atitude e indagou:

— Que tens? Pareces aborrecido.

— Não é nada. — disse eu, virando a direcção para a morada de Rafaela.

— Foi alguma coisa que eu disse? — insistiu ela.

Eu parei o carro em frente ao seu prédio e, com uma voz firme, disse:

— Tenho de te dizer uma coisa.

Rafaela assentiu com a cabeça e esperou as minhas palavras.

— Sabes como te amo, não sabes? — interroguei eu.

Ela olhava-me com atenção e acenou, afirmativamente, com a cabeça.

— E sabes há quanto tempo não nos amamos? — questionei eu.

Rafaela baixou o olhar e disse, num tom rouco:

— Há algum tempo...

— Há muito tempo. — repliquei eu. — Rafaela, eu amo-te! E sinto um enorme desejo por ti. Tenho saudades dos nossos momentos intimos, das vezes em que fizemos amor.

— Eu também. — disse ela.

— Não parece. — duvidei eu.

— Estás a ser injusto. — avisou ela. ─ Foste tu quem não se mostrou receptivo à ideia... Ou já não te lembras?

─ Sim, mas depois disso, eu...

─ Tu tens sido um amor, mas não me olhas como antes. ─ atalhou ela. ─ Até parece que já nem me desejas.

— Achas? Desde que ficaste... naquele estado, é certo que nunca mais o fizemos. Porém, agora que estás bem, nunca deste mostras de ter vontade de o fazer.

— Marco!... Tenho medo. — confessou ela, amargurada. — Tenho medo de voltar a ficar... paralisada. Podes achar absurdo, mas tenho medo que qualquer coisa provoque um retorno.

A maneira como as palavras lhe saiam da boca, fizeram-me perceber como ela estava a ser sincera. Não fui capaz de continuar a confrontá-la com o assunto e limitei-me a abraçá-la.

Despedimo-nos com um beijo e eu descansei-a dizendo-lhe que não pensasse no que eu lhe dissera. No fim, aconselhei-a a tentar ultrapassar aquele receio e que poderia contar comigo para a ajudar.

Rafaela sorriu e recolheu ao seu prédio, desaparecendo no escuro do átrio. E eu arranquei rumo a minha casa.

A noite já dominava o ambiente e o trânsito começava a dispersar com o aproximar da hora de jantar.

Meia hora depois de chegar a casa, fui surpreendido pela soar do meu telemóvel. Estava eu sentado na cama a ler o jornal, quando aquele som de pronúncia digital começou a ecoar aos meus ouvidos.

— Estou? — atendi eu.

— Estou? Marco! É a Guida. — respondeu a voz do outro lado da linha.

— Como estás? — perguntei eu.

— Bem! E tu? — indagou ela.

— Vai-se andando. — respondi eu. — E a tua filha e o teu marido?

— Estão bem. A Rebecca até já dá uns passinhos.

— Que bom...

Guida aumentou a seriedade da voz e disse:

— Olha, vou regressar à Australia.

— Verdade? — questionei eu sem pensar.

Não sei porquê, mas naquele momento não senti qualquer emoção em saber que Guida partiria para a Australia. Penso que já se gerara um tal afastamento entre nós que a sua partida para longe não me causava nem tristeza, nem felicidade.

— O Mike recebeu uma proposta milionária para trabalhar numa empresa em Sidney. — continuou ela. — Não podemos desperdiçar esta oportunidade.

— Claro! — concordei eu.

— Antes de partirmos, vamos passar por Lisboa para nos despedirmos de ti. — informou ela.

— Obrigado. — agradeci eu, a atenção para com a minha pessoa. — Quando é que vêm?

— Eu e a Rebecca chegamos amanhã. — disse ela. — E o Mike vai na Segunda. Tem de ficar cá mais um dia para tratar de uns assuntos referentes à sua demissão.

— Vens de expresso?

— Vou! — confirmou ela. — Vou já amanhã para tratar dos pormenores da partida, no aeroporto.

— Eu vou buscar-te. — ofereci-me eu. — A que horas chegas?

— Vou no expresso das oito da manhã. Devo chegar por volta das dez. — informou ela.

— Então, até amanhã!

— Até amanhã!

E assim terminou o telefonema.

Após ler o jornal, saí do quarto e fui até à sala. Esta estava vazia e escura, tendo como único brilho a claridade da imagem da televisão.

A minha prima Mónica estava a descansar no seu quarto, enquanto que a minha mãe acabava a execução do jantar.

O meu pai, estranhamente, não estava em casa. A minha mãe disse-me que ele saira para tratar de uns assuntos da empresa, mas não especificou o quê.

Nessa noite, o meu pai só retornou a casa, após o jantar. Relatou uma reunião bastante aborrecida e a sua tristeza por chegar tarde. Apesar disso, não pude deixar de estranhar a marcação daquela reunião para um Sábado. Mas como ninguém estranhou, eu também não me pronunciei.

Na manhã seguinte, a meu pedido, a minha mãe acordou-me bem cedo. Logo pelas 09h00, abandonei os lençois e apressei-me a tomar um banho e vestir.

Pelas 09h30, já com o pequeno-almoço tomado, saí de casa e procurei o meu carro que deixara estacionado a cerca de vinte metros do meu prédio.

Assim que entrei no carro, liguei a ignição e rumei à Avenida Casal Ribeiro, mais precisamente ao ponto de chegada dos expressos.

A viagem demorou vinte minutos. Como era Domingo, as ruas não tinham muitos carros a circular. Consegui arranjar lugar para estacionar, na Praça Duque de Saldanha. Tranquei o carro e caminhei até ao terminal das camionetas.

Faltavam dois minutos para as dez, segundo o relógio do terminal. Na zona de embarque estavam duas camionetas, uma destinada a Santarém e outra a Castelo Branco. A zona de desembarque estava vazia.

Segui até à recepção e, dirigindo-me à funcionária, perguntei:

— A que horas chega o expresso que vem de Aveiro?

A senhora olhou para os papeis, espreitou o relógio e disse:

— Já não deve faltar muito. No máximo, mais dez minutos.

Eu agradeci a informação e regressei à rua. Lá fora, poderia ver mais facilmente a chegada do veículo.

Quinze minutos depois, chegou finalmente uma camioneta com um pequeno cartão a dizer "Expresso". Olhei para a parte superior do vidro da frente e reparei que vinha de Aveiro.

— É esta. — pensei eu em voz alta.

Esperei que o longo veículo entrasse no terminal. E depois segui para a zona de desembarque, esperando a saída de Guida.

As pessoas começaram a abandonar o veículo. Do lado de fora, o condutor do autocarro abria as portas, onde as malas estavam guardadas, para que os passageiros recolhessem a sua bagagem.

Eu limitava-me a acompanhar a movimentação das pessoas e a procurar Guida, entre elas.

A certa altura, saiu do autocarro uma mulher elegante, vestindo umas calças de ganga e um blusão de pele, trazendo os ombros cobertos pelo cabelo comprido e ondulado. Nos braços, carregava uma bebé.

Mesmo passados alguns meses desde a última vez que a vira, reconheci Guida imediatamente. Para além da sua beleza, Guida jamais perdera aquele andar sensual que tão bem a caracterizava.

Ao ver-me, Guida dirigiu-se a mim e cumprimentou-me com um beijo na face.

— Olá! — disse eu.

— Olá! — retribuiu ela com a sua voz mergulhada numa doce rouquidão.

Abraçámo-nos como velhos amigos.

Guida olhou para o local onde fora amontoada a bagagem e disse:

— Segura aqui na Rebecca. Eu vou buscar o meu saco de viagem.

— Só um saco? — questionei eu, tomando em meus braços a ternurenta Rebecca.

— Sim. — confirmou ela. — Só as coisas mais necessárias. O Mike há-de trazer o resto de carro, quando vier.

— E quando é que ele vem? — indaguei eu.

— Talvez, amanhã à noite. — informou Guida, afastando-se em direcção à bagagem.

Enquanto Guida procurava o seu saco, eu olhava para Rebecca e contemplava a sua ternura de criança pequena. Olhava para ela e lembrava o tempo em que era apaixonado pela sua mãe.

Rebecca parecia simpatizar comigo. Sorria frequentemente e agarrava o meu dedo indicador com firmeza. Para além do belo sorriso, ela tinha uns belos olhos negros, idênticos aos da mãe.

Guida voltou, carregando um saco verde escuro, tipo desportivo, que continha os seus pertences.

Eu ofereci-me para lhe levar o saco, enquanto Guida concentrava a sua atenção na filha.

Deixámos o terminal das camionetas e começámos a subir a Avenida Casal Ribeiro até à Praça Duque de Saldanha, onde eu estacionara o automóvel.

Aos chegarmos ao carro, destranquei as portas com o comando dos fechos e Guida entrou para o banco da frente, segurando Rebecca no seu colo.

Eu guardei o saco no porta-bagagens e entrei para o meu lugar de sempre.

— Para onde queres que te leve? — perguntei eu.

— Para aquele hotel na Avenida de Roma. — disse ela. — Aquele onde eu fiquei no Verão. Já reservei o quarto.

— Queres beber um café? — convidei eu.

— Pode ser. — aceitou ela. — Ainda não comi nada hoje. Só tive tempo para preparar tudo para a partida e seguir para o terminal das camionetas. Se o Mike não me levasse de carro, penso que não chegava a tempo de partir no expresso.

Já a circular na Avenida da Republica, lembrei-me de as levar à minha pastelaria preferida. Segui pela Avenida João XXI e virei para a Avenida de Roma, estacionando em frente ao café.

Acompanhado por Guida, que carregava Rebecca nos braços, entrei no estabelecimento. Sentámo-nos numa das mesas do salão e eu chamei o empregado.

O funcionário cumprimentou-me com grande gentileza, como era costume sempre que eu lá ia.

— O que vai ser? — perguntou ele.

— Para mim, pode ser um café. — disse eu.

— Eu quero um chá e um bolo. — disse Guida.

O empregado escreveu o pedido e regressou ao balcão.

Guida e eu ficámos sentados sem falar. Eu olhava para o salão praticamente vazio. E Guida cuidava de Rebecca que entretanto adormecera.

Passados cinco minutos, o empregado trouxe o que nós haviamos solicitado.

Foi uma refeição muito silenciosa. Pareciamos não ter nada a dizer um ao outro. Sendo assim, mal terminámos, eu chamei o funcionário para pagar.

Guida quis pagar a despesa, mas eu recusei. Ela insistiu mais duas vezes, mas eu fui irredutivel.

Saidos do café, regressámos ao carro e eu fui levá-las ao hotel.

O edifício do hotel não ficava muito longe. Mesmo assim, levei-as de carro e parei em frente à porta do hotel.

— Queres que te ajude em alguma coisa? — perguntei eu.

— Não, obrigado. — agradeceu ela, sorrindo. — Eu trato de tudo.

Guida, transportando cuidadosamente Rebecca, despediu-se de mim com um beijo e saiu do carro.

— Obrigado por tudo. — disse ela, antes de fechar a porta do carro. — Depois, eu digo-te quando partir para Sidney.

Guida foi buscar o saco ao porta-bagagens e dirigiu-se ao hotel.

Após a sua entrada no edifício, eu arranquei de regresso a casa. Um regresso feito debaixo de uma chuva miudinha que entretanto começara a cair.

Às 12h00, já estava de novo em casa. E aproveitei o tempo que faltava para o almoço, para telefonar a Rafaela.

Foi a sua mãe quem atendeu o telefone. Com a habitual frieza, passou a chamada à filha. Rafaela veio atender imediatamente.

— Queres sair hoje à tarde? — convidei eu.

— Hoje não me dava muito jeito. — recusou ela.

Eu voltei a insistir, mas Rafaela inventou mil e uma desculpas. E não aceitou encontrar-se comigo.

O telefonema terminou com alguma frieza entre nós.

O nosso namoro esfriara um pouco com os últimos acontecimentos. Rafaela talvez precisasse de algum tempo para compôr as ideias, não sei.

O que eu sei é que, naquele momento, fiquei bastante aborrecido por ela não querer sair comigo.

A meio da tarde, sentado no sofá da sala e sem nada para fazer, comecei a ficar inquieto. Fiquei farto de estar em casa. Os meus pais tinham saido e a minha prima estava em casa de Bento, a conversar com Marta. Ultimamente, gerara-se uma amizade entre ambas e as visitas de Mónica a casa de Bento tornaram-se mais frequentes.

Assim, sozinho e aborrecido, decidi ir para a rua.

A tarde estava bonita. O Sol brilhava por toda a cidade, mas não atenuava o frio. As nuvens pairavam no ar sem ameaçar chuva.

O carro estava estacionado do outro lado da avenida. Porém, o tempo estava tão agradável que me senti tentado a passear a pé.

Caminhei até à Avenida de Roma e continuei, por ela, na mesma passada calma. Não havia muita gente nas ruas. E os carros eram poucos, naquela zona.

No entanto, quanto mais avançava pela avenida, mais o tráfego aumentava.

Meia hora mais tarde, o meu trajecto fazia-me passar perto da casa de Rafaela. Olhei para a janela do seu apartamento e, por momentos, tive vontade de ir lá. Mas não o fiz, pois não queria desrespeitar a vontade dela.

Continuei a caminhar pela avenida. Perto da linha do comboio, havia pessoas em ambos os passeios, caminhando para cima e para baixo.

Nesse instante, passou pela minha cabeça uma ideia: Fazer uma visita a Guida. Talvez uma conversa com a minha amiga me fizesse bem.

Entrei no hotel e refiz os movimentos rotineiros que fizera outrora, quando a mesma Guida lá estava hospedada e eu suspirava de paixão por si. Todo aquele drama que passámos, onde só faltou batermos um no outro e acabar na cama. Enfim, foi a primeira mulher da minha vida e uma grande paixão que nunca foi correspondida.

Felizmente, conheci Rafaela. Com ela sim, com ela soube o que era amar. Guida fora uma paixão, uma grande paixão, mas nunca fora amor.

E naquele momento em que subia no elevador para a visitar no seu quarto, Guida não era mais do que uma grande amiga que sempre me deixou recordações maravilhosas. Tão maravilhosas que apagavam os maus bocados que passámos juntos.

Quando bati na porta do seu quarto, Guida veio abrir. Estava a amamentar Rebecca, por isso, trazia a camisa desapertada até ao umbigo.

— Entra! — disse ela.

Eu passei a porta e fiquei a olhar para ela. Inadvertidamente, os meus olhos concentraram-se na abertura da camisa. O peito dela estava coberto e eu apenas via a cova entre os seios. Mas, mesmo assim, captou a minha atenção.

Guida apercebeu-se da direcção da minha atenção e explicou:

— Estou a dar de mamar à Rebecca. Está na hora da sua refeição.

Eu fiz um gesto de concordância e disfarcei o olhar.

Depois de Guida fechar a porta, eu dei alguns passos pelo quarto e sentei-me no sofá. Guida seguiu atrás de mim e continuou, sentando-se do outro lado da cama e ficando de costas para mim. Pegou em Rebecca e aconchegou-a junto do seu peito. A seguir, levou a mão direita à camisa e despiu um dos lados, desnudando um dos seios para amamentar a filha.

Do sítio onde eu estava, apenas via um ombro nu de Guida. A camisa ficara caida abaixo do ombro esquerdo. O seu longo cabelo caia pelas costas e, ligeiramente, sobre o peito.

Silenciosamente, presenciei uma cena muito bonita. Uma cena em que a mãe alimentava, carinhosamente, a filha com o leite proveniente do seu peito.

Minutos mais tarde, Rebecca ficou saciada. Guida cobriu a parte do corpo que desnudara e deitou a filha na cama improvisada da pequena.

A seguir, ao mesmo tempo que apertava dois dos botões da camisa, caminhou até ao sofá onde eu estava sentado. Ajeitou a saia que lhe chegava aos pés e sentou-se a meu lado.

— A que se deve esta visita? — perguntou ela.

— Estava a passear por aqui e lembrei-me de vir ver-te. — justifiquei eu.

Guida sorriu. Um riso de quem desconfiava que eu não contara a verdade. No entanto, aceitou com naturalidade a justificação.

Por momentos, permanecemos em silêncio. Queriamos falar, mas não sabiamos o que dizer. Até que Guida começou a relembrar os tempos de universitária.

— O ano que me deixou mais saudades foi o último. — disse ela, continuando as recordações. — Foi o ano em que terminei o curso.

— O ano em que entrei para lá. — lembrei eu.

— É verdade. — concordou ela com um tom saudosista. — Foi nesse ano que te conheci. — Fez uma pausa e continuou. — Deve ser por isso que me deixa tantas saudades.

Com alguma mágoa, encarei o seu olhar e disse:

— Temos uma amizade que nunca aprofundámos. Convivemos um ano, depois foste para a Australia e, desde que voltaste, poucas vezes nos encontrámos para conversar.

— Gostava de te ter conhecido mais cedo. — confessou ela.

— Também eu.

Guida passou a mão pelo cabelo e ajeitou-o com suavidade.

— Perdemos muito tempo com discussões e aborrecimentos. — recordou ela. — Chateámo-nos com frequência. Principalmente, devido ao que sentias por mim.

Eu baixei o olhar, envergonhado pelos meus sentimentos.

No entanto, Guida continuou a falar naquele amor, como se fosse uma recordação carinhosa da sua vida:

— Era algo muito bonito. Nunca me senti tão amada por ninguém. Nem nunca soube dar valor a esse amor.

Eu encarei-a novamente, estranhando a sua última frase.

Guida continuou:

— Nunca dei nada em troca desse amor.

— Deste sim. — interrompi eu. — Deste-me a minha primeira noite de amor. Foste a primeira com quem fiz amor. Foi um momento único.

Guida sorriu, gratificada com o elogio. Depois, colocou um semblante mais carregado e lembrou:

— Foi nesse dia que morreram os meus pais.

— Não penses nisso, agora. — disse eu, evitando o relembrar de velhas mágoas. E voltei ao assunto anterior. — Não calculas o que significou, para mim, fazer amor contigo. Uma mulher tão bonita e sensual.

— Obrigado. — agradeceu ela, corando ligeiramente com o elogio.

Guida encostou a cabeça nas costas do sofá e disse:

— Pena que na manhã seguite, tenha sido tão insensivel para contigo.

— Não penses nisso. — disse eu. ─ Aguas passadas...

Sem dizer nada, Guida rolou a cabeça sobre o sofá, lenta e sensualmente, ficando a olhar para mim. A inclinação do seu corpo fez com que a borda da camisa descaisse e, quase, pusesse a nu um dos seios.

Eu não consegui evitar de olhar para o interior da camisa.

Guida simulou que não tinha reparado e retomou o diálogo.

— Vou dizer-te uma coisa que nunca te disse. Eu também sentia algo por ti. — confessou ela. — Não sei se era amor, mas era mais do que amizade. Só que, infelizmente, os cinco anos de diferença entre nós pesaram muito a teu desfavor.

Eu encolhi os ombro e não disse nada.

Guida olhava-me com atenção. Contemplou os meus olhos e a minha boca. Depois, aproximou-se de mim lentamente e tentou beijar-me.

Sem saber porquê, num acto reflexo, desviei-me e evitei o encontro com os seus lábios. E para quebrar o que quer que fosse que se estivesse a gerar ali, comecei a falar de Rafaela.

Já não me lembro, ao certo, do que disse. Mas lembro-me que Guida se levantou do sofá e caminhou até à cama, ouvindo-me com atenção.

Inconsciêntemente, segui atrás dela.

Junto à cama, Guida voltou-se para mim e abraçou-me.

— Marco! Sinto-me tão sozinha. — disse ela. — Preciso de um ombro amigo. Daquele ombro amigo que tu me davas.

Eu recebi-a nos meus braços e confortei-a.

No entanto, aquele abraço começou a ressuscitar a velha atracção que sentia por ela. E quando os nossos olhares se voltaram a encontrar, não resisti a beijar-lhe os lábios.

Temi que ela me condenasse por isso, mas Guida recebeu o beijo com agrado.

Ao beijo, seguiu-se a queda sobre a cama. Carinhosamente, comecei a desapertar-lhe os restantes botões da camisa e acariciei-lhe a pele sedosa.

Enquanto a beijava, afagava-lhe os seios com as mãos num movimento terno. Percorri, aos beijos, a distância que separava a sua boca dos seus seios.

Beijava-os e apertava-os com doçura. Porém, mesmo com suavidade, não deixei de ser surpreendido por algumas gotas de leite que brotavam dos pequenos mamilos de Guida. A cena provocou algumas risadas entre nós. Mas logo que recuperámos a excitação, voltámos a envolver-nos.

Continuei a acariciá-la, beijando-lhe a pele macia. Fechei os olhos e foi como se voltasse àquela noite... à primeira noite... Como se voltasse à minha primeira vez. Quase me sentia tão inexperiente e inseguro como nessa noite.

Por entre tantos movimentos, abraços, carícias e beijos, dei por mim nu sobre o corpo nu de Guida. O meu corpo parecia querer explodir de excitação. Só tive tempo de colocar um preservativo (tinha sempre um na carteira) e voltar a senti-la a envolver-me. Fizemos amor com a fogosidade de dois sedentos do mesmo. E no fim, ambos ficámos estafados com a energia que haviamos despendido.

No entanto, mal atingi o orgasmo, vi o rosto de Rafaela na minha mente e a dor do sentimento de culpa a mergulhar-me o espirito. Como fora capaz? Como fora capaz de trair Rafaela?

Deitados na cama, lado a lado, completamente nus, repousámos a olhar para o tecto do quarto. Não sabiamos o que dizer um ao outro para justificar, perante nós, o que acabáramos de fazer. Curiosamente, amboas haviamos sido infieis aos nossos companheiros. Porém, não me parecia que o sentimento de culpa estivesse a afligir tanto Guida quanto a mim.

— Foi bom! Mas não o deviamos ter feito. — disse Guida. — Eu sou casada. E amo o Mike.

Novamente, o guião daquela primeira noite parecia repetir-se. Após o acto, cada um para seu lado. Só que desta vez, isso não me importava. Acabei por ripostar:

— E eu amo a Rafaela.

Seguiu-se novo silêncio.

No entanto, o facto de ambos amarmos, mas não nos amarmos um ao outro, pareceu desanuviar o ambiente.

Guida levantou-se da cama, tornou a vestir-se e começou a falar do marido.

Eu, por minha vez, levantei-me, peguei na roupa e comecei a falar de Rafaela. Como se isso atenuasse o que eu acabara de fazer.

As frases seguiam-se com abundancia. Falávamos de quem amavamos para esquecer o que tinhamos feito minutos antes. Acho até que nem nos estávamos a ouvir um ao outro.

Chegámos à conclusão que tudo não passara de atracção momentânea. E sentiamo-nos felizes por não partilhar qualquer sentimento amoroso.

Já completamente vestidos e enredados num enorme espirito de amizade, abraçámo-nos e despedimo-nos com um leve beijo na face. Actuávamos como se aquilo não tivesse significado nada, mas estávamos ansiosos por ficar longe um do outro, temendo que a cena se repetisse.

Feitas as despedidas, abandonei o quarto com a promessa de Guida de que não partiria sem se despedir de mim.

Desci as escadas e quase esbarrei num empregado do hotel, tal era a pressa de fugir daquela armadilha que o destino me pregara. Rezava para que o sucedido nunca chegasse ao conhecimento de Rafaela, mas a minha consciência não me largava.

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