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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XXXIX

Era o último dia do ano. O passar das horas tornava o novo ano cada vez mais real. As pessoas aguardavam a sua chegada com a expectativa do costume. Faziam-se desejos, pedia-se um ano melhor que o anterior, revia-se o ano que estava a acabar e expeculava-se acerca do que estava para chegar.

Nos últimos anos, Bento costumava passar o ano em minha casa, acompanhado por Madalena. Mas neste, para evitar lembranças desagradáveis para si, Bento sugeriu outro tipo de festejo.

Bento e eu combinámos festejar a passagem de ano, indo ao concerto que se realizaria no Terreiro do Paço, nessa noite.

Assim, decidimos convidar várias pessoas e formar um grupo de amigos para ir ao concerto. Bento convidou, para além da sua quase esposa Marta, Victor e Helena.

Eu convidei Rafaela, Liliana, Humberto e Carlinhos que trouxe consigo a americana. Mónica, devido à gravidez, não aceitou o convite. E os meus pais preferiram ficar em casa, a ver televisão, em vez de alinhar em festas de juventude.

No entanto, todos os elementos deste pequeno grupo, organizado por mim e por Bento, eram unânimes na opinião de que o jantar deveria ser passado com a família.

Por isso, Bento organizou um jantar de fim de ano e convidou a minha familia para a refeição.

Logo pelas 20h00, eu, Mónica e os meus pais seguimos até à casa de Bento.

Eu, que seguia à frente, toquei à campainha.

Bento abriu a porta e cumprimentou-me, seguindo-se os restantes convidados.

— Entrem. Entrem. — convidou ele. — A Marta está na cozinha a acabar o jantar.

— O que é que vai ser? — perguntou o meu pai, apertando-lhe a mão.

— Nada de especial. — respondeu Bento com humildade. — Arroz a acompanhar um belo pato assado.

— Parece delicioso. — disse a minha mãe.

— Já cheira. Já cheira. — dizia o meu pai, enquanto nos dirigiamos para a sala.

A sala de jantar estava arranjada como na noite de aniversário de Bento. Os sofás chegados para o lado e a mesa aberta para comportar mais pessoas.

A Marta veio ao nosso encontro para nos cumprimentar e avisar que nos podiamos ir sentando, uma vez que o jantar estava pronto.

Bento sentou-se à cabeça da mesa. A seu lado ficou uma cadeira vaga, onde Marta se sentaria quando voltasse da cozinha.

A seguir, sentei-me eu e Mónica. E do outro lado da mesa, ficaram os meus pais.

A minha mãe ainda insistiu em dar uma ajuda a Marta, na cozinha. Porém, Marta agradeceu, mas disse que não era necessário.

Cinco minutos depois, Marta regressou da cozinha carregando um tabuleiro com o pato e outro com o arroz.

O jantar durou cerca de uma hora. Desfrutámos daquela maravilhosa refeição que Marta preparara e uma deliciosa sobremesa, um pudim de café que Bento fizera durante a tarde.

Após o jantar, ficámos a conversar um pouco. Não foi muito tempo, pois tinhamos combinado ir ao concerto no Terreiro do Paço.

Perto das 21h10, os meus pais e a minha prima regressaram a casa. Enquanto eu fiquei na casa de Bento, esperando que ambos se preparassem para sair.

Sentado na sala, aguardei pacientemente e aproveitei para dar uma olhadela no jornal desportivo do dia. A primeira página relatava algumas notícias sobre o campeonato nacional de futebol. A notícia principal era sobre o jogo entre o Desp. Chaves e o Sporting que havia sido interrompido a dois minutos do fim, devido a uma quebra de energia. Por acaso, eu vira esse jogo, na televisão, no dia anterior, juntamente com Bento. Claro que ele, leonino desde que nasceu, sofreu a bom sofrer com esse jogo. E ainda mais com o resultado que se cifrou num empate.

Esta era daquelas notícias que no nosso país dão para escrever e reescrever sobre elas. E durante os dias que se seguiram, não houve outro assunto. O povo gosta é de polémica.

Felizmente, o meu Benfica lá ia. Segundo, mas ainda com esperanças no primeiro lugar.

Desfolhei o diário desportivo e li algumas notícias de menor importância, até ser interrompido por Bento que, entretanto, se aprontara.

— Estava a ler a notícia do jogo de ontem. — comentei eu.

Bento encolheu os ombros, agastado com o que vira nesse desafio, e concluiu:

— Não jogaram nada. E assim, lá vão mais pontos para os adversários.

— Mas parece que vão fazer os dois minutos que faltam. — repliquei eu.

Bento abanou a cabeça e disse:

— Demoraram oitenta e oito minutos para marcar um golo. E agora estão preocupados em marcar outro nos dois minutos que restam. Não acredito que o consigam!

Eu assenti com a cabeça.

Nesse momento, entrou na sala Marta. Vinha muito elegante, vestindo uma saia comprida e justa. E apertava o último botão da camisa azul escura que vestia.

— Estou pronta. — avisou ela.

— Então vamos. — sugeriu Bento.

Saímos de casa. Bento trancou a porta, enquanto Marta e eu nos encaminhámos para o átrio. Bento seguiu-nos e todos passámos para a rua.

Em frente ao prédio estavam estacionados ambos os carros, o meu e o de Bento.

Bento abriu a porta do seu e Marta entrou para o lugar ao lado do condutor.

Eu dirigi-me ao meu, vindo Bento interpelar-me:

— Vou buscar o Victor e a Helena.

— Está bem. — concordei eu. — Eu vou buscar a Rafaela e o Humberto a casa da Liliana. E depois, encontramo-nos no Rossio.

— De acordo. — aceitou Bento.

— Olha! O Carlinhos também vai. — avisei eu.

Bento encolheu os ombros e não disse nada.

— Vai ter connosco ao Rossio. — completei eu.

— Tudo bem. — disse ele. — Até logo!

Bento arrancou primeiro. A seguir, parti eu rumo à Avenida Estados Unidos da America. Dez minutos depois, estava em casa de Liliana. Os pais desta tinham ido à festa de fim de ano do Casino do Estoril.

Quando toquei à campainha, foi Rafaela quem me abriu a porta. Apoiada nas muletas, abraçou-me e beijou-me com a mesma paixão de sempre.

— O Humberto e a Liliana? — perguntei eu, chegando à sala.

Rafaela riu-se e disse:

— Estão no quarto. A Liliana quis aproveitar que os pais estavam fora e foi para o quarto com o Humberto. Claro que não preciso de te dizer o que eles foram fazer.

Eu sorri e confirmei que não era necessário.

Ambos nos sentámos no sofá. Rafaela olhou para mim com seriedade e disse:

— Eu não vou com vocês.

— Porquê? — perguntei eu, desiludido.

— Não quero arriscar-me a ficar pior. — confessou ela. — Eu ainda não estou totalmente recuperada. E pode haver confusão na multidão e eu não quero agravar a minha lesão. Prefiro ficar em casa a descansar.

— Então fico contigo. — sugeri eu.

— Não! — recusou ela. — Vai e diverte-te. Se não fores, fico chateada contigo.

Eu ainda tentei argumentar, mas Rafaela estava irredutivel. Insisti mais algumas vezes, mas Rafaela não mudou de opinião.

O diálogo foi interrompido pelo regresso de Humberto e Liliana. Vinham ambos do quarto e já perfeitamente arranjados.

— Eu vou andando. — disse Rafaela.

— Mas, ouve... — insisti eu.

Rafaela olhou para mim com um olhar de quem estava firme na sua decisão. E eu optei por não insistir mais.

Os quatro, descemos até à rua e seguimos para o local onde eu deixara o carro.

Rafaela despediu-se de Humberto e Liliana, dando-lhes um beijo e desejando um "Feliz Ano Novo".

Eu acompanhei-a até ao seu prédio. Após ela abrir a porta, abraçou-me, presenteou-me com um longo beijo apaixonado. Os nossos lábios ficaram colados durante algum tempo. E no fim, Rafaela desejou-me o mesmo "Feliz Ano Novo" e seguiu para casa.

Depois de a ver subir no elevador, regressei ao carro, já com Humberto e Liliana a esperarem-me ansiosamente.

— Entrem! — disse eu.

Humberto entrou para o lugar da frente e Liliana sentou-se no banco traseiro. E eu coloquei-me no lugar do condutor.

A viagem até ao Rossio demorou cerca de quinze minutos. Àquela hora não havia muito trânsito, só na zona da Baixa é que a intensidade de carros aumentou.

Como era difícil encontrar lugar para estacionar o carro no Rossio, optei por o deixar na Praça dos Restauradores e fizemos o resto do percurso, seguindo no Metropolitano.

As carruagens iam cheias. Porém, era preferivel isso, a tentar descobrir um lugar de estacionamento na Baixa em noite de concerto.

Quando chegámos ao local combinado, já Carlinhos e Amy esperavam junto ao gradiamento da saída da estação. Cumprimentámo-nos todos e eu avisei Carlinhos de que Bento ficara de vir ter connosco.

— De carro? — interrogou Carlinhos.

— Sim. Mas deve fazer o mesmo que eu. — disse eu.

Passaram cerca de quinze minutos até Bento chegar, acompanhado por Marta, Victor e Helena.

— Isto hoje está um pandemonio. — comentou Bento, abanando a cabeça.

Marta apresentou os que ainda não se conheciam, enquanto Bento cumprimentava Humberto e Liliana.

— Vamos andando? — sugeriu Carlinhos, dirigindo-se ao grupo.

— Vamos! — concordei eu.

O grupo iníciou assim a caminhada até ao Terreiro do Paço. Seguimos pela Rua Augusta numa passada lenta. Carlinhos não largava Amy, abraçando-a com firmeza. Bento e Marta iam de mão dada, conversando com o casal Victor e Helena. Um pouco atrás deles, iam Humberto e Liliana. E atrás de todos, ia eu, pensando em Rafaela e na pena que sentia por não a ter ali comigo.

Quando chegámos ao local do concerto, metade da praça já estava lotada de gente. O palco estava colocado em frente ao Arco da Rua Augusta, o que nos obrigou a circundá-lo para chegar ao recinto dos espectadores. Atrás do palco estavam os camiões com o material do concerto e algumas ambulâncias de prevenção.

Do palco até à estátua do rei D. José, já havia uma grande mancha humana. E à volta do recinto continuavam a chegar espectadores. Em frente à estátua, fora montada uma pequena bancada para as altas individualidades.

Nós colocámo-nos atrás da multidão, ficando com a estátua à nossa esquerda.

A noite estava escura. Lá no alto, as nuvens ameaçavam chuva. O palco estava escuro, esperando os primeiros intervenientes, mas à volta, já havia muita luz. Ao lado do palco estavam dois ecrãs gigantes que mostravam imagens do palco e que, mais tarde, mostrariam aquilo que as pessoas estavam a ver em suas casas.

É certo que quando chegámos não havia muita gente à nossa volta. Mas quando o concerto começou, já toda a praça estava inundada de gente. Houve uma altura em que olhei na direcção do rio e reparei que a multidão chegava quase até à beira-rio.

O espectáculo começou às 22h00. No palco, um casal de apresentadores fazia as despesas das apresentações.

O primeiro grupo subiu ao palco e foi presenteado com vários aplausos. Era bastante conhecido na época. Cantaram três canções.

A multidão dançava ao som da música, mexendo-se dentro do limitado espaço que tinham.

Seguiu-se um segundo grupo. Quatro raparigas, ostentando roupas sensuais e cantando com umas vozes doces e ingénuas. O público masculino adorou, principalmente o corpo delas, deixando a voz para segundo plano. Desinteressado estava o público feminino.

Ao fim das suas três músicas, este grupo abandonou o palco e o espectáculo sofreu uma pausa. Um pequeno intervalo destinado à publicidade da televisão que o transmitia em directo.

Houve logo quem aproveitasse para ir até às barracas de comida e bebida, saciar o desejo por umas sandes ou por uma cervejinha gelada.

Findo o intervalo, a apresentadora veio apresentar o terceiro grupo. Tratava-se de um agrupamento estrangeiro que tocava blues.

A multidão encarou aquilo como mais um intervalo. O género de música não era atractivo, o que levou muitos a visitarem novamente as barracas de bebidas.

— Vou beber qualquer coisa. — disse Carlinhos, olhando para mim.

Eu assenti com a cabeça.

— Não saiam daqui, senão eu depois não os encontro. — pediu ele, afastando-se.

Amy foi com ele.

Os que permaneceram, aproveitaram para conversar um bocado. Eu falava com Humberto e Liliana, enquanto Bento e Marta falavam com Victor e Helena. E no palco o grupo continuava ao seu ritmo, bastante enfadonho para quem assistia.

Ao fim da primeira canção, só metade do público aplaudiu. Ao fim da segunda, foram meia dúzia a bater palmas. E depois da última, os aplausos foram ainda menos. Só aumentaram quando o vocalista do grupo se despediu do público.

As pessoas que estavam nas barraquinhas começaram a regressar ao recinto.

O apresentador subiu ao palco e apresentou um dos grupos mais esperados da noite. Era um grupo estrangeiro de heavy metal com bastante sucesso no nosso país.

Antes de começarem a tocar, Carlinhos e Amy regressaram para junto de nós.

O público vibrou com as músicas que eles trouxeram. O entusiasmo foi tanto que ao fim das três músicas planeadas, ainda tocaram mais duas a pedido do público.

Os relógios marcavam 23h50 quando eles deixaram o palco. Mais uma vez, fez-se um pequeno intervalo para os compromissos publicitários.

No entanto, desta vez o público manteve-se no seu lugar, aguardando o assinalar do final do ano.

Oito minutos depois, ambos os apresentadores subiram ao palco e avisaram os espectadores para a proximidade do final de 1995. Nos ecrãs gigantes apareceram dois enormes relógios digitais.

Quando faltavam trinta segundos para a meia-noite, a apresentadora convidou o público a acompanhá-la na contagem decrescente.

E foi assim, com milhares de pessoas a contar em voz alta, inclusive nós, que se entrou no novo ano de 1996.

Junto ao rio, foi lançado ao céu um espectacular fogo de artificio, comemorando a entrada no novo ano.

Após quinze minutos de brilho no céu, o fogo de artificio terminou com o disparo de três foguetes. E nesse momento, os apresentadores subiram novamente ao palco e anunciaram a grande atracção da noite, um grupo pop rock português que a multidão recebeu com enorme entusiasmo.

Tocaram várias músicas, não só as que estavam previstas como as que o público pediu. Estiveram no palco mais de uma hora, cantando e fazendo cantar e dançar todos os que os observavam. No fim, foi necessário apagar as luzes do concerto para o público desistir de os continuar a chamar para o palco.

Foi um concerto espectacular. Uma noite memorável para todos os que o presenciaram ao vivo. Todos os que estavam comigo adoraram o concerto.

Por volta das 02h00, começámos a abandonar o local. Na mesma passada com que viemos, também regressámos ao Rossio.

As ruas da Baixa pareciam carreiros de formigas. Todas as pessoas se dirigiam para o mesmo sítio, o Rossio. Iam apanhar o autocarro ou o metropolitano para regressarem a casa. Havia quem partisse num táxi ou optasse pelo eléctrico. Poucos eram aqueles que haviam conseguido estacionar o carro ali perto e, naquele momento, partiam nos seus veiculos.

— Marco! — chamou Carlinhos, ao chegarmos ao Rossio.

Eu olhei para ele e esperei as suas palavras.

— Eu e a Amy vamos até Alcântara. Queres vir? — convidou ele.

— Não obrigado. — recusei eu. — Estou cansado.

— Tudo bem.

Carlinhos repetiu o convite aos restantes elementos, mas ninguém parecia com disposição para o acompanhar.

Perante este cenário, Carlinhos e Amy despediram-se de todos e dirigiram-se à paragem do eléctrico, onde apanhariam o número 15 que os levaria a Alcântara.

— Vamos de Metro? — perguntou-me Bento.

— Não sei. Vamos apanhar muita gente. — lembrei eu.

— Já para vir foi um sufoco. Toda a gente apertada. — comentou Helena.

Bento olhou para mim e perguntou:

— Onde é que deixaste o carro?

— Nos Restauradores. — informei eu.

— Eu deixei no Areeiro. — disse Bento.

— Então como não vamos regressar juntos, eu, o Humberto e a Liliana voltamos a pé. Também, o carro não está muito longe. E sempre é melhor do que as carruagens a abarrotar.

— Por nós, tudo bem. — disse Humberto, abraçando Liliana.

— Mas nós não temos outra solução. — lamentou Bento. — Temos de ir de Metro até ao Areeiro.

Os dois grupos despediram-se, uma vez que iamos seguir caminhos diferentes. Mas, de repente, eu tive uma ideia.

— Bento! — chamei eu. — Podiamos ir todos no meu carro até ao Areeiro.

— E cabemos? — interrogou Victor.

Eu encolhi os ombros.

— Somos sete pessoas. — lembrou Marta.

— Então, se duas das senhoras não se importarem de irem ao colo dos respectivos acompanhantes, haverá lugar para todos. — disse eu.

— Mas isso é proibido. — avisou Bento.

— Não te preocupes. — descansei eu.

Com todos de acordo, caminhámos até à Praça dos Restauradores. E quando chegámos, quinze minutos depois, cercámos o meu carro e planeámos o lugar para cada um.

No banco traseiro à esquerda, foram Victor que levou nas suas pernas a esposa, Helena. Do lado direito seguiram Humberto e Liliana em posição semelhante aos primeiros. A meio sentou-se Marta.

A meu lado, no banco do pendura, ficou o meu amigo Bento.

Nesta configuração, eu arranquei rumo ao Areeiro.

Não foi muito correcto fazer aquilo, mas ainda seria menos, não ajudar os amigos quando temos hipóteses de o fazer.

Felizmente, não nos cruzámos com a autoridade. E a viagem não demorou mais de vinte minutos.

Uma vez chegados ao Areeiro, Bento, Marta, Victor e Helena despediram-se e fizeram o resto da viagem na viatura de Bento. Eu e o casal que me acompanhava seguimos para casa de Liliana, onde a deixei. A seguir, levei Humberto a sua casa e regressei à minha.

Quando cheguei a casa, só tive tempo para me despir e cair na cama. Estava completemente cansado. Foi uma noite de sono profundo.

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