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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XXXVII

Quando estacionei o carro, em frente ao prédio de Liliana, não se avistava ninguém na rua. Liliana olhou para o apartamento dos pais e reparou que não tinha luz.

— Os meus pais ainda não chegaram. — disse ela.

— Se calhar já estão a dormir. — sugeri eu. — Chegaram e foram deitar-se.

— Talvez...

Liliana ficou, por momentos, imóvel a observar o exterior. Parecia relutante em sair do carro, como se algo a prendesse ali.

Eu tinha alguma pressa, até porque o frio era muito e eu não queria demorar a chegar a casa. Logo naquela noite, em que iria ter a companhia de Rafaela. Porém, não quis ser deselegante e dizer a Liliana para se despachar.

Hesitante, Liliana penteou suavemente o cabelo, ajeitou o casaco e puxou o fecho do blusão até à barriga.

— Bem, então adeus. — disse eu, acelerando a despedida.

Liliana olhou para mim inconformada. Talvez tivesse qualquer expectativa em relação a mim, mas ao ver que eu não a captava, optou por dar continuidade à despedida. Inclinou-se um pouco para mim, para me dar um beijo de despedida na face.

Eu correspondi ao seu movimento, mas quando me preparava para lhe beijar a face, Liliana rodou o pescoço e beijou-me os lábios.

Tive vontade de a empurrar e de a afastar. No entanto, os seus lábios sabiam tão bem e a sua lingua era tão carinhosa, que me deixei levar pela atracção que senti naquele momento.

Já perdera a conta aos dias sem qualquer actividade sexual. Rafaela não estava em estado de poder partilhar comigo esses momentos... ou, não estaria aos meus olhos, sei lá...

A lembrança de Rafaela quase me fez findar o beijo de Liliana, mas ela não deixou, puxando-me para sim, ao minimo sinal de afastamento.

Enquanto nos beijávamos, Liliana começou a acariciar-me o baixo ventre. Abriu o fecho das calças e procurou algo que desejava ser encontrado

Eu sentia que não era correcto o que estavamos a fazer. Só que estava a saber-me tão bem que não fui capaz de a fazer parar. Parte mim queria que ela parasse e saisse do carro. Porém, outra parte, outro sector do meu corpo ansiava por aquilo de que se via privado nos últimos tempos. “Só desta vez, não fará mal”, pensava eu, tentando justificar-me perante a minha consciência de que não estava a trair o amor de Rafaela e a amizade de Humberto.

A sua boca procurava a minha cada vez com maior fulgor, sedenta de sentir cada canto. Subitamente, parou. Liliana afastou-se um pouco e disse:

— Ah, desde que nos beijámos no teu quarto, que sinto uma enorme atracção por ti.

Depois, sentou-se direita no banco do carro e começou a puxar a saia até à cintura.

— Liliana... — solucei eu, incrédulo com o que estava a acontecer. Queria que ela parasse aquele jogo de sedução. ─ Liliana, por favor...

— Não digas nada. — pediu ela, abrindo o blusão e conduzindo a sua mão até um dos seus seios.

Eu fiquei a observá-la, completamente excitado. Comecei a acariciar-lhe as pernas. Os meus olhos observavam a sua pele e seguiram minuciosamente cada centimetro das suas pernas.

Contudo, não me conseguia concentrar, pois a imagem de Rafaela não me saia da cabeça. Que estava eu a fazer? Como poderia ser capaz de a trair daquela forma, numa fase tão fragilizada em que Rafaela estava? E Liliana? Logo Liliana, a sua melhor amiga?

O meu braço direito estava à volta do seu pescoço. Tinha noção que não estava a fazer o correcto, mas já que ali estava... A cada segundo, prometia a mim mesmo que travaria toda a acção no segundo seguinte. Apalpei-lhe os seios. Já tinhamos trocado tantos beijos que não faria diferença aproveitar para os acariciar. Tinha de parar! Tinha de parar! Repetia-o mentalmente, sentindo a mão de Liliana a levar-me a um quase extâse.

A excitação era muita. O meu pensamento já equacionava mil formas de interromper aquela traição, ao mesmo tempo que imaginava mil formas de consumar o sexo que ambos desejávamos.

Mas, de repente, Liliana exclamou:

— Os meus pais!

— O quê? — interroguei eu.

— Os meus pais. — insistiu ela. — Vêm a subir a avenida. Não me podem ver aqui, assim!

— Baixa-te! — ordenei eu.

Liliana debruçou-se no seu banco e deitando a cabeça sobre as pernas. Eu escondi-me, ligeiramente, e fiquei a vigiar os movimentos dos seus pais.

Os pais de Liliana não se aperceberam da nossa presença. Seguiram para o seu prédio e entraram.

A porta da rua fez um tal estrondo, ao fechar, que Liliana se levantou, dizendo:

— Já entraram?

Eu não me pronunciei.

O ruído da porta pareceu despertar-me. Tomei consciência do que estava a fazer e de como me poderia vir a arrepender. E quando Liliana se preparava para continuar, eu travei-lhe o movimento e disse:

— É melhor ires para casa.

Liliana ficou decepcionada, ao ver a minha recusa. E o meu tom foi tão seguro do que estava a dizer que ela não insistiu. Ferida no seu orgulho, Liliana recompôs-se, ajeitando a roupa.

— Ia ser bom. Mas amanhã estariamos arrependidos. — disse eu.

Liliana não me deu resposta. E eu temi que se estivesse a erguer um muro entre nós. No entanto, o bom-senso reinou.

Já arranjada, Liliana olhou para mim e disse:

— Tens razão! Eu amo o Humberto e ele não merece isto.

“Devias ter pensado nisso antes”, disse eu mentalemte. Porém, não havia razão para me armar em moralista, já que também desfrutara da situação.

Despedimo-nos com um beijo na face e Liliana abandonou o veículo, dirigindo-se para sua casa. Felizmente, tudo não passou de um incidente sem importância... Ou, pelo menos, a sua existência nunca saiu do interior daquele carro nem para o conhecimento de quem quer que fosse para além de nós.

Mesmo muito tempo após aquele episódio, ainda sentia um arrepio ao lembrar-me de como quase o fizera com Liliana, da mesma forma que me permanecia o “bichinho” de como seria fazê-lo com Liliana.

Depois de me certificar de que ela entrara no prédio em segurança, arranquei de regresso a casa.

Já com carro em andamento, reparei que ainda estava com as calças abertas. Aproveitando o semáforo vermelho, arrumei tudo e voltei a fechar o fecho das calças. Mesmo consciênte de que tomara a melhor decisão, sentia-me frustrado.

As ruas estavam desertas. Não se avistavam nem pessoas nem carros, o que tornava os sinais luminosos obsoletos. Mas, mesmo assim, eu fazia questão de os respeitar, pois nunca se sabe, podia estar por ali algum polícia e eu não queria ser presentiado com uma multa.

Quinze minutos mais tarde, estava novamente a entrar em casa. O frio que apanhara na rua, apagara-me toda a excitação que sentia. Naquele momento, já só pensava em deitar-me na minha caminha e aquecer entre os lençois. Só que entretanto lembrei-me que Rafaela estava na minha cama e que eu dissera que ia dormir no chão.

A casa estava totalmente silenciosa. As luzes estavam apagadas e já todos tinham recolhido às suas camas. Evitando fazer qualquer barulho, caminhei cuidadosamente até ao meu quarto.

Entrei silenciosamente na escuridão do quarto. Fechei a porta com precaução e fiquei ali, envolto na escuridão. Somente uma luz fraca de cor alaranjada passava pela persiana do quarto, proveniente da rua. O ambiente estava silencioso e apenas se ouvia o doce respirar de Rafaela.

Servindo-me do meu perfeito conhecimento da localização de todos os móveis, caminhei pelo quarto até à secretária. Acendi a luz do candeeiro e dirigi-me ao guarda-fatos para retirar uns cobertores.

Abri a porta do armário e encontrei dois cobertores para improvisar uma cama no chão. Porém, ao puxá-los para fora, derrubei a prateleira com as minhas camisolas. O ruido não foi muito forte, mas foi o suficiente para acordar Rafaela.

— Que estás a fazer? — perguntou ela com uma voz ensonada.

— Estou a preparar a minha cama. — disse eu.

Rafaela sentou-se na cama, à força dos braços, e protestou:

— Não sejas parvo. Porque é que não dormes comigo?

— Rafaela...

— Não digas nada! — exclamou ela. — Vem para ao pé de mim. Tenho saudades tuas.

A sua voz era tão doce que o seu pedido se tornou irresistivel. Sem hesitar, despi-me e fiz-lhe companhia por entre os lençois.

Rafaela abraçou-se a mim e deitou a cabeça no meu ombro.

— Sabes, Marco? Às vezes, sinto que já não me amas. — confessou ela.

— Porquê? — perguntei eu, muito surpreendido.

— Sinto que nos temos afastado. — insistiu ela. — Até ao ver-me nua, tu te demonstraste insensivel.

— Não é bem assim... — argumentei eu.

— Eu conheço-te, Marco. — interrompeu ela. — Namoramos há três meses e eu sei traduzir os teus movimentos, a tua expressão...

As suas palavras faziam-me ver que ela estava correcta. E as suas mágoas tinham fundamento. Por isso, acabei por lhe confessar tudo o que pensava.

— Eu só não sinto as pernas. — disse ela. — Mas penso que continuo a poder ter prazer sexual.

— Tens a certeza? — questionei eu. — Já alguma vez experimentaste?

— Queres saber se já me acariciei? — atalhou ela.

Eu assenti com a cabeça.

— Não! — disse ela. — Para te ser sincera, até tenho medo de descobrir.

Eu dei-lhe um beijo carinhoso e perguntei:

— Queres saber ou não?

— Quero! — respondeu ela, numa mistura de firmeza e receio.

Eu virei-me ligeiramente para ela e comecei a acariciar-lhe a coxa esquerda.

— Sentes? — indaguei eu.

— Não.

Seguiu-se uma passagem pela sua barriga.

— Sentes?

— Sinto. — informou ela, desiludida por a minha mão já estar na sua barriga.

Continuando a inpecção, introduzi a mão nas suas cuecas e perguntei com a voz trémula:

— Sentes?

Rafaela hesitou. Os seus olhos observavam o vazio e a sua mente esforçava-se ao máximo. A custo, lá se pronunciou:

— Muito ao de leve.

Por muito que me custasse, conclui que ela não sentia nada e, logo, não poderia ter prazer numa relação sexual.

— Vamos descansar. — disse eu, deitando-me novamente.

Rafaela puxou-me o braço e pediu:

— Faz amor comigo.

— Rafaela...

— Por favor...

Reparei que ela estava a chorar. Penso que sentia que a sua impotência podia ser o fim do nosso relacionamento.

Recusei-me a fazer amor com ela, de forma a privá-la de se submeter à realidade de não se conseguir satisfazer. Recusando o seu pedido, não a confrontava com a imagem de um orgasmo unilateral.

Em vez disso, abracei-a e beijei-lhe os lábios com muito amor e carinho, demonstrando-lhe que amava e que jamais a abandonaria.

Envolvi-a nos meus braços e apaguei a luz. O amor que sentiamos era muito forte, mas penso que, em ambas as mentes, permaneceu a dúvida no sucesso do nosso relacionamento.

Por entre a escuridão, Rafaela voltou a fazer ouvir a sua voz:

— Marco.

— Sim?

— Achas que me continuarás a amar, se eu ficar assim para sempre?

— Tu vais recuperar.

— Não respondeste à minha pergunta.

Eu fiquei em silêncio. Não sabia o que lhe responder, mas se dissesse que sim, não estaria a ser sincero.

— Não sei. — disse eu, por fim.

— Entendi. — disse ela. — Já sei que não.

— Não, Rafaela. — interrompi eu. — Não sabes. Nem eu sei. A única coisa de que tenho a certeza é de que te amo. Mas não sei se serei capaz de suportar o teu estado. E seria injusto iludir-te com o contrário. No entanto, garanto-te que lutarei sempre para fazer tudo o que estiver ao meu alcance para continuar contigo, custe o que custar.

Quando acabei, senti Rafaela a aconchegar-se mais a mim. As minhas palavras fizeram-na sentir-se segura, junto a mim.

Durante mais algum tempo, fiquei a reflectir no futuro. Ao mesmo tempo que um ou outro carro passava a alta velocidade na avenida, eu pensava se seria capaz de enfrentar uma realidade cada vez mais certa.

Quando finalmente adormeci, a minha concentração apagou-se e todo o meu pensamento se desligou para dar lugar a um sonho.

O som da chuva forte a bater nas persianas acordou-me. Abri os olhos e despertei de um sono profundo. E a ruidosa chuva continuava, como se tivesse sido préviamente apontada à minha janela.

O meu quarto estava escuro, mergulhado na penumbra matinal, onde apenas alguns raios de claridade tiveram a voleidade de atravessar as persianas.

A meu lado, Rafaela continuava a dormir repousadamente. E lá fora, a chuva não cessava de se abater sobre o solo.

Levantei-me da cama, olhei para o relógio e vi que marcava 10h00. Quase me esquecera de que era dia de Natal.

Vindo das frestas da porta, ouvia-se o som da presença de alguém na cozinha. Era a minha mãe que, quase sempre, era a primeira pessoa a sair da cama.

Vesti um casaco e caminhei até à janela. O som da chuva irritava-me profundamente.

Junto da janela, afastei os cortinados e abri um pouco as persianas, para poder observar o exterior.

Na rua, a chuva despenhava-se contra o chão, sem ligar aos alvos que fazia. E o céu que a acompanhava era cinzento de uma tristeza imensa.

"Que dia de Natal tão triste", pensei eu, vendo todo o exterior húmido.

Durante alguns minutos, fiquei a observar a rua e a pensar na vida.

De súbito, a chuva abrandou, chegando mesmo a parar. E uma voz chamou:

— Marco.

Continuei a olhar lá para fora e dirigi a minha atenção para as nuvens escuras.

— Marco. — ouvi eu, novamente.

Continuei a olhar, como se não fosse nada comigo.

— Marco, não ouves? — perguntou a voz.

Finalmente tomei consciência da realidade. A voz era de Rafaela que tinha acordado e estava a chamar-me.

Eu virei-me e olhei para ela.

— Que horas são? — perguntou ela.

— Dez.

Rafaela esfregou os olhos e espreguissou-se.

Eu caminhei até à cadeira e sentei-me um pouco.

Rafaela afastou a roupa da cama, e sentou-se no colchão. Penteou o cabelo com os dedos e arrastou-se para o fundo da cama.

— Queres ajuda? — perguntei eu.

— Não, obrigado. — disse ela.

Mesmo assim, eu levantei-me e dirigi-me à sua cadeira-de-rodas que estava junto à janela. Segurei nas costas da cadeira e fiquei a olhar para Rafaela, esperando um sinal seu para lhe levar o transporte.

Rafaela sentou-se ao fundo da cama e, subitamente, parou. Parecia que algo lhe travara a acção.

— Que foi? — perguntei eu, preocupado.

Rafaela não respondeu. Levou as mãos às costas e apalpou-as. O seu rosto era de quem procurava algo.

Preocupado, fiz um movimento para a auxiliar, levando-lhe a cadeira.

— Não! — ordenou ela. — Fica aí!

A situação parecia-me tão estranha que eu obedeci sem questionar nada.

Rafaela olhou para mim, sorriu e colocou as mão, com os punhos cerrados, ao lado do corpo. Fazendo um grande esforço, Rafaela tentou pôr-se de pé.

— Rafaela... — proferi eu, fazendo um movimento de aproximação.

— Não! — insistiu ela, com os dentes cerrados pelo esforço. — Deixa-te ficar aí.

A imagem era assustadora. Rafaela fazia um esforço enorme para se pôr de pé. E eu temia que ela se pudesse aleijar, mas mesmo assim deixei-a continuar.

Com muita força de vontade, Rafaela conseguiu pôr-se de pé. E ficou parada a tomar consciência de que o tinha conseguido.

Estava incrédulo com o que via e, ao mesmo tempo, emocionado por a ver novamente apoiada nas suas pernas.

— Pronto, não te esforces mais. — pedi eu, temendo que o esforço despendido pudesse vir a ser prejudicial.

Mas Rafaela insistiu. Não quis qualquer ajuda e teimou que havia de conseguir andar. Com as pernas trémulas, mas cheia de confiança, Rafaela começou a caminhar lentamente até mim.

Ao vê-la a caminhar, eu fiquei hilariante. A felicidade inundou-me. Estava perante a cura de Rafaela, a cura da mulher que eu mais amava neste mundo.

A chorar devido à emoção, Rafaela deu quatro passos até cair nos meus braços, completamente arrasada pelo esforço despendido.

— Eu senti as pernas. Senti-as novamente. — dizia ela, por entre as lágrimas que lhe vertiam dos olhos.

E nos meus não havia menos. Chorava compulsivamente, enquanto a abraçava e a segurava nos meus braços.

Com o passar dos segundos, as lágrimas foram dando lugar a dois rasgados sorrisos de felicidade.

Rafaela estava tão eufórica que queria continuar a andar. Mas eu lembrei-lhe que havia duas semanas que ela estava assim e as suas pernas estavam muito fracas. Ela concordou e aceitou voltar a sentar-se na cama.

— Olha! — avisou Rafaela, apontando para a janela.

Ainda com os olhos esbugalhados pelas lágrimas, voltei-me para a janela e vi algo maravilhoso: um belo arco-iris que se reflectia na rua.

Nesse momento, olhei para o céu, fechei os olhos e disse:

— Obrigado.

Passada toda a emoção, aconselhei Rafaela a que fosse vista pelo médico. E ela concordou.

Peguei em Rafaela e carreguei-a nos braços.

— Anda, vamos tomar banho. — disse eu.

Rafaela sorriu e segurou-se a mim quando a segurei nos braços.

Ao sair do quarto, transportando Rafaela, cruzei-me com a minha mãe.

— Mãe! Pode telefonar ao médico de Rafaela para cá vir? — pedi eu. — O número está na agenda.

— Algum problema? — perguntou a minha mãe.

— Não! — disse eu, de imediato, com um sorriso felicissimo. — É que a Rafaela recuperou a sensibilidade nas pernas e nós gostavamos que o médico a visse.

A minha mãe partilhou da nossa alegria, pela recuperação de Rafaela, e concordou em chamar o médico.

Duas horas depois, estava eu sentado no sofá da sala à espera de notícias. Havia quinze minutos que o médico observava Rafaela, no meu quarto. E eu esperava ansiosamente por notícias.

O meu pai fazia-me companhia, juntamente com Mónica. Penso que estavam tão ansiosos quanto eu.

Minutos mais tarde, o médico veio ter connosco à sala.

— Então, doutor, como é que ela está? — perguntei eu, levantando-me do sofá.

O meu pai e a minha prima copiaram o meu movimento.

— Estou pasmado. — confessou o médico. — Nunca vi nada assim.

— Quer dizer que ela está recuperada? — interrogou o meu pai.

— Penso que sim. — confirmou o médico. — Para conseguir pôr-se de pé, é porque está melhor. Mas aconselho a que ela faça alguns exames para termos a confirmação.

— Eu sempre acreditei que ela ia recuperar. — disse eu.

O médico olhou para mim, estendeu-me a mão para se despedir e disse:

— Depois de ver que o seu estado não evoluia favoravelmente, pensei que não voltaria a recuperar. Felizmente, enganei-me.

Eu acompanhei-o até à porta. Porém, antes de sair, o médico recomendou:

— Creio que o hematoma deve ter desaparecido, por isso, ela já consegue ter sensibilidade nas pernas. No entanto, deve manter-se na cadeira de rodas, até fazer os exames. E não deve tentar fazer grandes esforços.

Eu concordei e agradeci a sua atenção.

Mal fechei a porta, corri para o quarto onde Rafaela permanecia. Ia ansioso por partilhar aquela felicidade com ela.

Ao entrar, vi Rafaela, sentada na cama, a ler o papel que o doutor lhe deixara.

— Então? — interroguei eu, curioso em relação ao seu estado de espirito.

— Mais ou menos. — respondeu ela, encolhendo os ombros. — Tenho de fazer mais exames.

Eu sentei-me a seu lado e abracei-a, reconfortando-a:

— Que esperavas? Querias que ele viesse e te dissesse: Olhe, agora que já está boa, pode começar a correr e a saltar. Essa coisas levam tempo, meu amor. O importante é que tu estás melhor.

Rafaela sorriu e encostou a cabeça no meu ombro, concordando comigo.

Enquanto partilhávamos aquele abraço, um bater leve na porta surpreendeu-nos. Era a minha mãe a avisar que o almoço estava na mesa.

Rafaela fez um movimento para se levantar, mas foi travada por mim.

— O médico disse para não fazeres esforços. — lembrei eu.

— Mas, Marco...

— Eu levo-te para a sala. — disse eu, pegando-lhe ao colo e não lhe dando tempo para argumentações.

Durante o almoço, conversámos sobre o assunto várias vezes. Todos queriam demonstrar como estavam felizes pela recuperação dela.

Lembro-me que a minha mãe repetiu várias vezes que tudo se devera à generosidade divina. Já o meu pai era ciêntifico e dizia que a tecnologia estava cada vez melhor, esquecendo que o médico se enganara no prognóstico. Mais resumida era a conclusão da minha prima que definia tudo numa palavra: Sorte.

Findo o almoço, Rafaela pediu-me para a levar a casa.

Eu acedi, imediatamente, ao seu pedido.

Rafaela estava visivelmente contente, por ver melhoras significativas. Mas continuava a lamentar não poder começar a andar sozinha.

Após as despedidas, trouxe Rafaela para a rua. O meu pai ajudou, trazendo a cadeira.

Assim que nos instalámos no carro, eu arranquei rumo a casa de Rafaela.

Estava uma tarde fria, muito fria mesmo. Recordo-me dos termometros de rua marcarem 10 graus. O céu estava cinzento e as nuvens passavam, impulsionadas pela força do vento.

Não havia muito trânsito. Lisboa era uma cidade quase deserta, nesta época. Por isso, não demorei mais de cinco minutos a chegar à Avenida Estados Unidos da América.

Estacionei o carro, perto do prédio, e fui ao porta-bagagens, buscar a cadeira de rodas de Rafaela. Ajudei-a a sair do carro e a sentar-se na cadeira. E levei-a para o seu prédio.

Conduzindo Rafaela, entrei no edifício e parei junto do elevador que já estava a funcionar.

— Podes deixar-me aqui. — disse Rafaela.

— Não queres que te acompanhe a casa? — sugeri eu.

— Não! Eu safo-me sozinha. — disse ela com um sorriso, reconfortando-me pela recusa.

— Tudo bem. — concordei eu. — Então vou andando.

Despedi-me dela com um beijo nos seus belos lábios e abandonei o átrio do edifício. Compreendi que, por qualquer razão, Rafaela não queria que eu fosse a sua casa.

Voltei à rua e dirigi-me ao carro. Ia já a meio do movimento para entrar no carro, quando ouvi uma voz a chamar-me. Fechei a porta do carro e, só depois, olhei para ver quem era.

A cerca de trinta metros, estava uma rapariga a acenar-me e a chamar. Vestia um blusão e umas calças de ganga, o cabelo caía-lhe pelos ombros e sobre a testa. Após breves instantes, reconheci-a. Era Liliana quem me chamava.

Liliana deu um corrida e aproximou-se do carro, debruçando-se sobre o vidro aberto.

A sua presença perturbou-me. Devido ao que sucedera na noite anterior, eu sentia algum receio da próximidade dela. Era como se fosse culpado de algo que fizera, mas que na realidade não fiz. Sei que parece absurdo, mas era o que sentia.

— Vieste ver a Rafaela? — perguntou Liliana.

— Não... Vim trazê-la a casa. — disse eu com uma voz engasgada.

Liliana fez uma cara mais séria e disse:

— Precisamos de conversar.

— Sobre quê? — perguntei eu, fingindo ignorar o assunto.

— Sobre ontem à noite. — esclareceu ela.

— Ontem à noite? Aquilo... Esquece isso. — aconselhei eu com um sorriso, falsamente, desinteressado.

— Era melhor falarmos sobre isso. — insistiu Liliana.

Tentando demonstar que aquilo não me afectava, principalmente a mim, resolvi aceitar a sugestão e convidei-a a entrar no carro.

No entanto, quando a vi sentada novamente a meu lado, temi que tudo voltasse a repetir-se. Por isso, lembrei-me de sugerir que fossemos tomar um café.

Ela concordou.

Liguei a ignição e segui para a Avenida da República. Fomos tomar um café ao edifício Monumental, na Praça Duque de Saldanha.

Não conversámos durante o caminho até lá. E eu comecei a equacionar a hipótese de que ela quisesse falar comigo, para me seduzir ou dizer que estava apaixonada por mim... Sei lá. Comecei a ficar confuso e temeroso.

Uma vez dentro do edifício, sentámo-nos numa esplanada de um dos cafés, ali existentes.

Eu fui buscar dois cafés, enquanto Liliana ficou sentada numa das cadeiras.

Dois minutos mais tarde, regressei à mesa, transportando as bebidas. Coloquei uma do lado dela e outra do meu lado. E sentei-me.

Nesse momento, Liliana começou a falar:

— Marco, ainda bem que nos encontrámos. Estava a precisar muito de te fazer um pedido.

Eu despejava o açucar na chávena com uma leve tremideira nas mãos. Sentia um certo nervosismo em ouvir o que ela tinha para me dizer. Cheguei mesmo a pensar que se tratava de um pedido para darmos continuidade ao acto da noite anterior. E como iria eu recusar, sem ser deselegante e sem causar alguma cólera entre nós.

Liliana continuou:

— Devo-te um pedido de desculpa.

— Uff. — suspirei eu, aliviado.

— Perdoa-me! Não sei o que me passou pela cabeça, ontem à noite. — prosseguiu ela. — Não devia ter-me atirado a ti, daquela maneira.

— Não tem importância. — disse eu, ingerindo um golo do café. — Esquece isso.

— Foi uma parvoice. — lamentou ela. — Felizmente que tu és sério e não te aproveitaste de mim. A Rafaela tem muita sorte, em te ter como namorado.

— Obrigado. — agradeci eu.

— E o Humberto também não merecia aquilo. — lembrou ela.

— É verdade. — concordei eu.

— Sinto-me mais aliviada por ter conversado contigo. — confessou ela. — Temia que isto pudesse criar alguma intranquilidade entre nós.

— Não... — disse eu, como se o seu receio fosse completamente descabido.

Como ambos concluímos que tudo não passara de uma loucura momentânea, arquivámos o assunto nas nossas mentes.

No restante tempo que ali permanecemos, conversámos sobre Rafaela e sobre Humberto. Liliana ficou muito feliz, quando lhe contem da recuperação de Rafaela.

Cerca das 18h00, decidimos abandonar o local. Eu ofereci-me para a deixar em casa. E ela aceitou.

Quando nos levantámos das cadeiras, ouvi uma voz por trás de mim:

— Olá Marco!

Rodopiei e constatei que se tratava de Cajó. Vinha acompanhado de uma mulher alta, muito elegante com um cabelo ruivo curto, cortado à altura do pescoço. Vinham de braço dado, denotando alguma intimidade entre si.

A sua presença não me agradou. Não tinha qualquer ideia de lhe falar. Mas, como vinha acompanhado e revelando completo esquecimento do que fizera, decidi confrontá-lo.

— Vejo que vens bem acompanhado. — disse eu com ironia.

— É a Joana. — disse ele. E olhando para ela, apresentou-me. — Este é o meu primo Marco.

Mantendo um ar pouco simpático, perguntei:

— É mais uma para engravidar?

— O quê? — questionou Cajó, atrapalhado.

— Perguntei se...

— Já entendi. — interrompeu ele, tentando evitar que eu repetisse.

A mulher que o acompanhava, estranhou a conversa e indagou:

— O que se passa?

Vendo que ela desconhecia o assunto, eu contei-lhe:

— Aqui o Cajó fez um filho à prima. E quando soube que ela estava grávida, abandonou-a.

Ela ficou escandalizada e começou a barafustar com Cajó.

Eu desinteressei-me da cena. Afastei-me do local com Liliana e deixei-o a tentar inventar desculpas para enganar a sua acompanhante.

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