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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XXXVI

Decorria a tarde de dia 24. Em minha casa, faziam-se os últimos arranjos de Natal para a noite de Consoada. A minha mãe e a minha prima não saiam da cozinha, correndo de um lado para o outro, preparando os doces para a sobremesa. O meu pai arrumava a sala e preparava os lugares na mesa. E eu dava alguma ajuda, até à hora em que fui buscar Rafaela a sua casa.

Estava muito frio na rua. O céu demasiado cinzento, transparecendo a nítida aproximação da chuva. Entrei no carro e segui para a Avenida Estados Unidos da America.

Havia muito trânsito e via-se muita gente nas ruas, aproveitando as últimas horas antes do Natal para as últimas compras de presentes. Isso fez-me lembrar os vários embrulhos que, àquela hora, já se encontravam arrumados junto à árvore de Natal.

Estacionei à entrada do prédio e segui para casa de Rafaela. Toquei à campainha e subi. Perto da porta, segurando-a para que não se fechasse, estava a mãe de Rafaela. Cumprimentei-a com um suave "boa tarde" e entrei. Na sala, Rafaela esperava-me acompanhada do pai, o qual cumprimentei igualmente com outro "boa tarde".

Rafaela sorriu ao ver-me e puxou-me a mão de forma a poder dar-me um beijo.

— Há algum tempo que te esperava. — comentou ela.

A mãe dela entregou-lhe o casaco e despediu-se, seguindo-se o seu pai. E eu despedi-me com o mesmo desprendimento com que entrei.

Minutos mais tarde, já seguia no meu automóvel, acompanhado de Rafaela.

— Ainda bem que me convidaste para ir jantar a tua casa. — disse ela.

Notei no seu tom de voz, algum problema caseiro que a fazia desejar não estar em casa, por isso, perguntei:

— Aconteceu alguma coisa?

Rafaela respondeu de imediato:

— Os meus tios vão jantar lá a casa.

— Quem? Os pais do Tiago? — interroguei eu, incrédulo.

— Nem mais. — confirmou ela.

A informação deixou-me surpreso. Pensava que depois do que acontecera, as duas familias já não se falassem. Mas não era assim, bem pelo contrário. Segundo Rafaela me contou seguidamente, os seus pais penetenciavam-se pela morte de Tiago, como se Rafaela fosse a culpada do seu suicidio, não dando qualquer relevo ao estado em que ela ficara devido à loucura do sobrinho.

Porém, se os pais de Rafaela continuavam a vassalagem para com os tios, o mesmo não acontecia com Rafaela. Esta odiava-os profundamente e fazia os possiveis para não os ver. Ainda dias antes, tivera de aturar a visita hipócrita dos seus tios que a procuraram para se inteirar da sua saúde, mas não pararam de lamentar a morte do filho como se fosse um anjo de pessoa.

Depois de estacionar o automóvel em frente ao prédio, transportei Rafaela para minha casa. Infelizmente, o meu prédio não tinha elevador, o que dificultou o transporte de Rafaela.

— Parece que temos um problema. — disse Rafaela.

— Não! Isto resolve-se. — disse eu.

Peguei em Rafaela e carreguei nos braços até ao meu andar. Deixei a cadeira de rodas no átrio do prédio e subi as escadas.

Ao chegar à minha porta, já o meu pai me esperava.

— É preciso ajuda? — perguntou ele.

— Já agora, se me puder trazer a cadeira, agradeço.

— Eu trato disso. — disponibilizou-se.

Ao passar por nós, cumprimentou Rafaela com um beijo na face e desceu até ao átrio do prédio.

Eu levei Rafaela para a sala e sentei-a no sofá, onde já se encontrava, para minha surpresa, Humberto.

— Já vieste? — interroguei eu.

— Cheguei há cinco minutos. — informou ele. — E a Liliana também veio.

— A Liliana? — questionou Rafaela.

— Sim! — confirmou ele.

— E onde é que ela está? — perguntei eu.

— Na cozinha a ajudar a tua mãe e a tua prima. — explicou ele.

Nesse momento, apareceu Liliana, vinda da cozinha. Cumprimentou-me com um beijo, depois fez o mesmo a Rafaela e foi sentar-se junto a Humberto.

Rafaela seguiu os seus movimentos com o olhar e, quando ela se sentou, perguntou:

— Então, também vieste?

— Foi! Os meus pais foram jantar com uns amigos. — explicou ela. — E quando o fazem, nunca me levam. Fiquei com a perspectiva de passar um Natal solitário. Mas felizmente apareceu o Humberto que me convidou para vir com ele.

— Espero que não te importes!? — disse Humberto, de imediato.

— Claro que não. — disse eu, sorrindo para Liliana, demonstrando-lhe que era bem-vinda.

Durante alguns minutos, ficámos na sala a conversar. A claridade da sala ia diminuindo. E o brilho das luzes de Natal cobria a sala num piscar cadênciado.

Quando lá fora já não havia qualquer luz, foi o meu pai quem se lembrou de acender o candeeiro do tecto.

A campainha da porta tocou. Eu levantei-me e dirigi-me à entrada para saber quem era. Quando cheguei ao corredor, já a minha prima vinha da cozinha com o mesmo objectivo que eu.

— Deixa estar. — disse eu. — Eu vejo quem é.

Mónica agradeceu a minha voluntariedade e seguiu para a sala. A sua notória barriga de grávida, já lhe começava a pesar e a obrigá-la a aumentar os tempos de descanso.

Ao abrir a porta, deparei com Carlinhos coberto por um sobretudo e ostentando um barrete de Pai Natal na cabeça. E numa das mãos trazia um saco de plástico.

— Feliz Natal! — disse ele, efusivamente.

— Feliz Natal! — retribui eu.

Atrás de Carlinhos, estava uma bela mulher que eu nunca vira. Era alta, esguia e muito elegante em cada movimento. Tinha um cabelo ruivo, encaracolado, que lhe caía sobre os ombros. A pele era muito clara e a face estava muito bem maquilhada. Vestia um fato, saia e casaco, azul escuro donde sobressaia uma blusa branca, meias de lycra pretas e sapatos da côr do fato. A mão esquerda segurava um casaco de pele, enquanto a direita carregava uma pasta de empresária.

Carlinhos, reparando que eu a observava, apresentou-nos:

— Marco! Esta é a minha amiga Amy Thompson.

— Inglesa? — interroguei eu.

— Americana. — corrigiu ele.

Eu assenti com a cabeça.

Carlinhos virou-se para ela e disse:

— My friend Marco.

— How do you do? — cumprimentou ela.

— Fine! And you? — respondi eu.

— Fine, thanks.

Convidei ambos a entrar e encaminhei-os para a sala. Pelo caminho, Carlinhos entregou-me o saco e disse:

— São umas lembranças para a família.

— Obrigado! — agradeci eu. — Não precisavas de te estar a incomodar.

Entrámos na sala. Eu apresentei Amy Thompson a todos os presentes. Miss Thompson era um ano mais velha que eu e era doutorada em Gestão de Empresas em Harvard. Naquela altura, geria uma pequena empresa em Seattle. Estava de visita a Portugal por causa de um congresso de jovens empresários.

O meu pai cumprimentou-a, estendendo-lhe a mão, e acercou-se dela, uma vez que estavam no mesmo ramo profissional.

Mais uma vez, a campainha da porta voltou a ecoar pela casa.

— Eu vou lá. — disse Humberto.

Desta vez, era a chegada de Bento e Marta. O casal entrou na sala, carregando vários embrulhos de Natal que colocaram junto de todos os outros, por baixo da árvore.

Muito simpaticamente, o meu pai levantou-se e apresentou-os à visita americana:

— Esta é a Miss Thompson.

— Amy, please. — interrompeu ela com um sorriso.

— É uma amiga do Carlinhos. — completei eu.

Bento e Marta cumprimentaram-na com um aperto de mão.

Mesmo atravessando a época natalicia, Bento e Carlinhos não esqueceram os seus conflitos e optaram por se ignorar mutuamente.

A minha mãe entrou na sala e avisou:

— Vou servir o jantar.

Olhei para o meu pai e reparei como ele estava encantado a falar com a jovem empresária. Conversava com ela num inglês perfeito.

Após o aviso da minha mãe, eu sugeri que nos sentássemos à mesa. Todos se levantaram e eu transportei Rafaela para o seu lugar.

A mesa já estava arranjada e composta para as onze pessoas. Durante a tarde, a mesa fora aumentada de forma a suportar todos os convidados.

A encabeçar a mesa ficou o meu pai, tendo à sua direita a minha mãe e a mim do seu lado esquerdo. Ao lado da minha mãe, ficou Mónica, Humberto, Liliana e Carlinhos. Enquanto que do meu lado ficaram Rafaela, Bento, Marta e Amy, respectivamente.

O jantar era composto por um suculento lombo de perú, acompanhado com puré de batata e ovo cozido. Para beber, os convidados podiam optar entre água, cerveja e vinho.

Durante algum tempo, a atenção das pessoas dividiu-se entre a refeição e as imagens da televisão. Mas, a certa altura, o meu pai interpelou Amy, pedindo a sua opinião acerca da nossa televisão em relação à americana.

Amy Thompson expôs uma larga fundamentação baseada no seu conhecimento de ambas. Segundo as poucas coisas que me dei ao trabalho de traduzir mentalmente, ela falou dos vários canais portugueses e dos imensos americanos, da falta de qualidade de certos programas, da violência a horas impróprias, etc...

Por vezes, Carlinhos tomava parte do diálogo. E o meu pai continuava a conversa, fazendo perguntas para se encantar com as respostas.

A americana acabou por se tornar na figura principal do jantar, apesar de só dialogar com o meu pai e com Carlinhos, uma vez que mais ninguém se dava ao trabalho de falar inglês.

Farta de tanta conversa em inglês, a minha mãe interrompeu a conversação e perguntou a Rafaela como é que ela estava.

— Na mesma. — respondeu Rafaela. E após uma leve pausa, disse num tom amargurado. — E nem acredito que volte a recuperar.

— Claro que vais recuperar. — contrapus eu com optimismo, apesar de não acreditar muito.

— É preciso é ter esperança, minha filha. — disse a minha mãe, num tom doce.

E eu insisti:

— Ela está a fazer tratamentos de recuperação. E daqui a algum tempo, já estará boa.

— Deus te ouça. — desejou Liliana.

— Há-de ouvir! — afirmou a minha mãe, confiante.

O meu pai pousou o guardanapo que levara à boca e perguntou:

— Onde é que fazes os tratamentos?

— É numa clinica, ali para cima. — disse Rafaela.

Eu completei a informação:

— Fica ali na Eugénio Castro Rodrigues.

Por momentos, o silêncio abateu-se sobre a sala e caracterizou o ambiente, acompanhado da cadência das luzes de Natal.

O meu pai olhou, novamente, para Amy e perguntou:

— Do you like the dinner?

— Yes, it's very good. — respondeu ela. Depois, olhou para a minha mãe e felicitou. — Congratulations!

Depois de agradecer as felicitações, a minha mãe olhou para o meu pai, desconfiando da atenção que ele prestava à americana.

Para desanuviar, um pouco, o silêncio que mais uma vez se gerou, eu dirigi-me a Bento e perguntei:

— Ó Bento, como é que vai a vida?

Bento sorriu, percebendo a minha intensão. Porém, não a denunciou e começou a falar com seriedade:

— O emprego está bom. Apesar que consta que a empresa vai despedir alguns funcionários.

Ao fundo da mesa, ouvia-se um sussurro. Era Carlinhos que ia traduzindo tudo a Amy.

Muito preocupada, a minha mãe perguntou:

— E tu está em perigo de ser despedido?

— Não. Felizmente, não. — descansou ele.

A minha mãe suspirou de alivio.

Bento prosseguiu:

— Aliás, as coisas estão a correr tão bem que estou a pensar em casar com a Marta.

Marta até corou, ao ouvi-lo, e deu-lhe uma pancada amistosa no braço, castigando-o pela delacção.

Certamente que, para ele dizer aquilo, o assunto já estava pensado entre eles. Mas, Marta não esperava que ele o dissesse.

— Parabéns! — felicitaram todos.

— E quando é que é o casório? — indaguei eu.

— Não sei. — disse Bento. — Ainda estamos a pensar nisso.

— O importante é que sejam felizes. — disse a minha mãe.

— Já somos. — confessou Marta, sorrindo e dando um beijo na face de Bento.

Durante mais alguns segundos, todos permaneceram calados. A atenção centrou-se na televisão que anunciava os últimos números da Brigada de Trânsito relativos aos acidentes.

Na imagem, um indivíduo fardado, apresentado como Major da Guarda Nacional Republicana, anunciava que nos últimos dois dias se haviam sucedido vários acidentes que causaram a morte a uma dezena de pessoas e levaram meia centena para as urgências dos hospitais.

— Isto cada vez está pior. — disse o meu pai.

— A maior parte dos condutores ignoram o civismo. — completou Bento. — E depois vão para a estrada fazer estragos.

— Não vamos falar de coisas tristes. — pediu a minha mãe.

— Tens razão. — concordou o meu pai.

Todos concordaram que a época era de felicidade e não de tristezas.

— Humberto! — chamou a minha mãe. — Como vão as aulas?

— Eu já não estou a estudar. — disse ele.

— O Humberto não conseguiu entrar para a Universidade. — expliquei eu. — Agora está a trabalhar.

— Onde? — interrogou Bento.

— Nas Amoreiras. — informou Humberto.

O meu pai, com um tom sério, perguntou:

— E estás a pensar voltar a tentar entrar para lá?

— Não! — respondeu Humberto. — Acho que não vale a pena continuar a tentar.

— Olha que hoje em dia, quem não tem um curso superior não se safa. — avisou o meu pai.

— Talvez...

— E o emprego vai bem? — indagou a minha mãe.

— Vai. — respondeu Humberto.

— É um funcionário muito aplicado e gentil. — comentou Liliana, orgulhosa no namorado.

— Então e tu? — perguntou Rafaela. — Que tal é que te estás a dar com a Universidade?

Liliana sorriu e disse:

— Bem! Por enquanto, tudo tem corrido bem.

A minha mãe levantou-se e afirmou:

— Isso é que é preciso. — Pegou nos tabuleiros. — Vou buscar a sobremesa.

— Eu ajudo-a, tia.

— Não! Deixa-te ficar aí e repousa esse bebé.

A minha mãe seguiu para a cozinha com os tabuleiros da carne e do puré de batata.

Marta bebeu um pouco de vinho, pousou o copo e perguntou a Mónica:

— A criança tem-se portado bem?

— Tem! — respondeu ela.

— E a gravidez tem corrido bem? — questionou Rafaela.

— Tem!

— Tem, mas ela devia descansar mais. — lembrou a minha mãe, regressando da cozinha com uma terrina de mousse de chocolate.

— E quando é que nasce? — indagou Bento.

— Lá para Abril ou Maio. — informou ela.

Amy, que seguia atentamente a conversa, auxiliada pela tradução de Carlinhos, questionou:

— Do you prefer a boy or a girl?

— A girl. — respondeu Mónica, de imediato.

— And the father?

A pergunta gerou alguma tensão. Lembrar a figura de Cajó e a irresponsabilidade com que se portara, não era muito conveniente.

Por toda a sala, espalhou-se um enorme silêncio, motivado pelas pessoas que pensavam no que haviam de dizer para aliviar a tensão.

Foi Carlinhos que se pronunciou, explicando a Amy o que acontecera. Mal acabou de ouvir a explicação, Amy olhou para Mónica e disse:

— Sorry! I...

Mónica fez um gesto, demonstrando que não tinha importância.

A minha mãe distribuiu uma taça de mousse a cada um. A opinião de que estava deliciosa foi unânime.

 

Findo o jantar, a minha mãe levantou-se e começou a recolher os pratos. Mónica quis ajudá-la, mas foi novamente impedida pela tia. Porém, Marta e Liliana ofereceram-se para dar uma ajuda na cozinha. E a minha mãe aceitou.

O meu pai levantou-se e foi recostar-se na sua poltrona. Mónica seguiu-o e sentou-se no sofá, repousando numa das pontas.

Carlinhos também se sentou no sofá, puxando Amy para junto de si, sentando-a a seu lado e cercando-a com o seu braço esquerdo.

Bento levantou-se da sua cadeira, mas não se sentou no sofá. Ficou encostado ao móvel da sala, lendo as notícias do jornal daquele dia.

Eu, Rafaela e Humberto permanecemos nos nossos lugares.

— Onde é que se conheceram? — perguntou o meu pai a Carlinhos.

— Num congresso de jovens empresários. — informou ele.

— Também és empresário? — interrogou o meu pai, não disfarçando um sorriso.

— Não! Fui acompanhar um amigo meu que é. — explicou Carlinhos.

A partir daí, o diálogo converteu-se para inglês e o meu pai começou a interpelar Amy sobre as conclusões do congresso. Achei o assunto tão aborrecido que não desperdicei a minha atenção.

— Rafaela, sentes-te bem? — perguntei eu.

— Sim. Estou apenas um pouco cansada. — respondeu ela.

Liliana regressou à sala e sentou-se no seu lugar anterior, encostando-se a Humberto e deixando-o enredá-la nos seus braços.

Minutos depois, a minha mãe regressou à sala, trazendo com a ajuda de Marta, uma chávena de café para cada um.

Enquanto todos bebiam o seu café, Carlinhos perguntou-me:

— Marco! Ainda tens aquelas fotografias de quando estávamos na Faculdade?

— Tenho! — confirmei eu.

— Podias trazer para mostrar à Amy? — pediu ele.

— Está bem. Vou ao meu quarto buscá-las. — disse eu.

Levantei-me e fui deixar a chávena no lava-louça da cozinha.

Quando saí da cozinha, já a minha mãe trazia todas as outras chávenas.

Segui pelo corredor e fui ao meu quarto, procurar o album de fotografias do meu tempo de universitário.

Entrei no quarto e comecei por procurar o album na secretária. Abri as gavetas, revistei as prateleiras, mas não encontrei nada. Dei uns passos até ao outro lado da divisão e procurei no meio de alguns dossiers. No entanto, nada encontrei. Não me conseguia lembrar do sítio onde guardara as fotos.

De súbito, o meu olhar colidiu com os gavetões do guarda-fato. Na minha cabeça surgiu a ideia de que pudessem estar lá guardadas.

Sentei-me no chão, abri a gaveta e acabei por encontrar o que procurava. O album estava debaixo de umas camisolas.

Nesse momento, ouvi baterem à porta.

— Entre! — disse eu.

A porta abriu e Liliana entrou. Caminhou até ao local onde eu estava sentado e comunicou-me:

— A Rafaela pediu-me para te chamar.

— Está bem.

Apressadamente, peguei no album e levantei-me. Liliana estava tão perto de mim que acabei por chocar com o seu peito, projectando-a para trás. Num acto instintivo, agarrei-a pela cintura e puxei-a para mim, evitando que caísse.

O nossos rostos ficaram tão perto que, sem pensar, acabei por a beijar na boca. Para meu espanto, Liliana foi receptiva ao beijo, retribuindo-o com fogosidade.

Quando as nossas cabeças se afastaram, Liliana deu dois passos atrás e ficou a olhar para mim. E eu, consequentemente, a olhar para ela.

— Desculpa. — pedi eu.

— Não, eu é que peço desculpa. — disse ela.

— Eu não tinha intensão... — continuei eu.

— Eu sei... Eu também não... — prosseguiu ela.

As nossas frases começaram a ficar sem nexo. Por isso, eu atalhei, dizendo:

— Vamos esquecer o que aconteceu.

— Concordo.

Deixei o meu quarto, acompanhado de Liliana, e dirigi-me à sala. Entrei, entreguei o album a Carlinhos e sentei-me ao lado de Rafaela.

Carlinhos começou a desfolhar as páginas do album, mostrando as fotografias a Amy. Liliana também ficou a observar as fotos.

— Que se passa? — perguntei eu, olhando para Rafaela.

— Sinto-me muito cansada. — disse ela. — Precisava de me deitar um bocado.

— Queres ir para o meu quarto? — sugeri eu. — Lá, podes ficar a repousar na minha cama.

Rafaela assentiu com a cabeça.

Eu levantei-me, peguei em Rafaela e carreguei-a nos braços.

— Onde vão? — perguntou o meu pai.

— Vou levar a Rafaela para que descanse um pouco.

— Queres ajuda? — ofereceu Bento.

— Não, obrigado. — agradeci eu.

Carregando-a nos braços, acarinhando-a com muito amor, levei-a para o meu quarto e deitei-a na cama. Acendi a luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira e dei-lhe um beijo cheio de ternura.

— Se precisares de alguma coisa, chama-me. — disse eu.

— Obrigado.

Observando-a a repousar, abandonei o quarto e fechei a porta, regressando posteriormente à sala.

Ao reentrar na sala, reparei que Carlinhos ainda mostravas as fotos que eu lhe emprestara. Liliana e Marta, atrás do sofá, davam uma olhadela nas páginas do album que Carlinhos ia desfolhando.

Humberto aproximou-se de mim e disse:

— Marco. Tenho de ir andando.

— Já? — interroguei eu. — Ainda são onze da noite.

— Eu sei. Mas, amanhã tenho de me levantar cedo. Os meus pais querem ir almoçar a casa dos meus avós. — justificou Humberto, já com o casaco na mão.

— Tudo bem. Tu é que sabes. — disse eu.

Humberto vestiu o casaco e dirigiu-se a Liliana.

— Vens? — perguntou ele.

— Já vais? — questionou ela.

Humberto repetiu-lhe a mesma justificação que me dera.

— É pena. — lamentou ela. — Estava a gostar de cá estar.

— Mas eu tenho de ir. — insistiu Humberto.

Vendo a desolação de Liliana, por ter que partir, aproximei-me de Humberto e sugeri:

— Ouçam! Se quiseres, eu depois levo-te, Liliana.

Liliana olhou para Humberto e disse:

— Se não te importares, aceito.

— Por mim, tudo bem. — concordou Humberto. Deu-me um toque no ombro. — Obrigado! Sei que fica em boas mãos.

— Podes ir descansado. — afirmei eu.

Feitas as despedidas, acompanhei Humberto à porta e voltei a dizer-lhe para que não se preocupasse, pois eu me encarregaria de fazer com que a sua namorada chegasse a casa em segurança.

Humberto agradeceu novamente e partiu.

Antes de regressar à sala, passei pelo meu quarto para ver como estava Rafaela. Entrei, silenciosamente, e deparei com ela a dormir profundamente. Fazendo todos os possiveis para não a acordar, caminhei até ao outro lado do quarto e sentei-me na cadeira da secretária.

Não sei quanto tempo ali fiquei a observá-la. Sentado e em completo silêncio, contemplei-a em toda a sua beleza adormecida. O seu rosto de olhos cerrados, o cabelo louro espalhado sobre a almofada, o seu corpo esticado sobre o colchão, onde uma leve contracção do peito quebrava toda a imobilidade...

Era uma visão bela, mas simultâneamente assustadora. Parecia um corpo sem vida, triste, imóvel, pálido. Não fosse a sua respiração, e até eu pensaria que o espírito dela já não estava entre nós.

Olhava para ela com ternura, sentia que a amava muito. No entanto, outra ideia me surgiu no pensamento. Tinha a certeza que a amava, mas não sabia se ainda a desejava. Desde o incidente com Tiago, que a deixou naquele estado, que não a via como mulher. Rafaela passara a ser um anjo que eu tocava com muita delicadeza e sempre com enorme receio de magoar. Sempre que a transportava nos braços, fazia-o com enorme cuidado como se ela fosse uma peça de cristal.

Não duvidem que a amava e que o meu maior desejo era partilhar a minha vida com ela. Mas, quando pensava sob o ponto de vista carnal, quando pensava nela como mulher e como parceira sexual, percebia que o desejo se esfumara. Ao pensar na possibilidade de fazer amor com ela, sentia que estaria a abusar do seu corpo. Partia do principio que o seu estado não lhe permitia ter prazer... Logo, se fizesse amor com ela, Rafaela não passaria de um objecto sexual. Na minha cabeça, não me considerava digno de fazer amor com Rafaela naquele estado.

Várias ideias começaram a passar-me pela cabeça. Não podendo fazer amor com Rafaela, como poderia eu casar com ela e satisfazer-me sexualmente? Poderia ter uma amante, mas isso seria uma traição cobarde a Rafaela. Resumindo, o melhor seria não casar com ela. Mas assim, não consumaria um dos meus maiores desejos que era envelhecer a seu lado. Enfim, estava completamente confuso.

De súbito, Rafaela despertou do seu sono e olhou para mim.

— Estás aí? — perguntou ela com um sorriso carinhoso e um olhar surpreso.

— Estava a observar-te. — disse eu, correspondendo ao seu sorriso.

— Estou cansada.

— Queres passar cá a noite? — convidei eu.

Rafaela sorriu, agradada com o convite. Sentou-se na cama e disse:

— Tenho de avisar os meus pais.

Eu levantei-me da cadeira, caminhei até ao móvel da roupa e peguei no telemóvel. Liguei-o, introduzi o código pessoal e voltei para junto de Rafaela. Sentei-me a seu lado, na cama, e entreguei-lhe o telemóvel.

— Toma. — disse eu. — Telefona para casa e avisa-os.

Rafaela marcou o número e ligou para mãe. Comunicou-lhe que ia passar a noite em minha casa. Penso que a notícia não teria agradado à senhora, mas isso pouco importou a Rafaela.

Feito o telefonema, Rafaela devolveu-me o telemóvel. E eu coloquei-o novamente onde estava.

— Onde é que eu fico? — perguntou ela.

Eu sentei-me novamente na cadeira e disse:

— Ficas na cama e eu vou dormir para o sofá da sala.

Rafaela fez uma cara de desiludida. Como se algo tivesse frustrado as suas expectativas. Porém, sugeriu:

— Podias ficar aqui comigo.

Eu não respondi logo. Fiz uma pequena pausa no diálogo e fiquei a pensar no que dizer.

— Está bem. Tu dormes aí e eu durmo no chão. — disse eu.

Novamente, Rafaela pareceu desiludida. E vendo que eu não entendia o que ela queria, olhou-me seriamente e perguntou com frontalidade:

— Não queres dormir comigo?

Eu fiquei sem saber o que responder. A sua pergunta desenterrou todos os pensamentos que eu tinha sobre o seu estado. As dúvidas voltavam. E como não a queria magoar, optei por uma resposta inconclusiva:

— Não sei. Logo se vê. Talvez...

Rafaela pareceu ficar satisfeita com a resposta.

Após este breve diálogo, Rafaela pediu-me para que me despedisse de todos por ela, pois estava demasiado cansada para voltar à sala.

— Claro. — concordei eu.

— Então, se não te importas, eu deitava-me já. — disse ela.

— Está bem, eu saio.

— Não! — disse ela. — Preciso de ajuda.

O seu pedido lembrou-me que, no seu estado, ela precisava de ajuda para se deitar. Por isso, retirei-a da cama, sentei-a na cadeira onde eu estava e puxei o lençol e o cobertor, da cama, para trás.

Enquanto o fazia, Rafaela começou a despir-se. Retirou o casaco de lã que a agasalhava. Desabotoou os botões da camisa, abriu-a e despiu-a. Desapertou o fecho do soutien e tirou-o.

Vendo-a de tronco nu. Vendo os seus belos seios nus, a sua pele branca, o seu pequeno umbigo, os musculos da barriga trabalhados pelo desporto. Esqueci o seu estado e senti, de novo, o desejo que sempre me atraíra a ela.

Rafaela olhou para mim e percebeu o que eu sentia, naquele momento.

— Agora, preciso da tua ajuda. — disse ela com naturalidade.

Eu entendi o que ela queria. Peguei-lhe ao colo, levei-a para a cama e deitei-a sobre os lençois. Ela sorriu e atirou os braços para trás, deixando-se ao meu dispôr.

Eu desapertei-lhe o cinto das calças e despi-lhas. Mas, mais uma vez, tive muito cuidado em tocar-lhe nas pernas. Era como se temesse que qualquer gesto precipitado pudesse agravar o seu estado.

Rafaela, que me conhecia bem, sentiu o meu pouco à vontade. E, interrompendo o clima que gerara, disse:

— Podes arranjar-me uma t-shirt? Está uma noite fria.

Quando eu fui buscar a camisola à gaveta, Rafaela cobriu-se com o lençol e o cobertor, até à cintura. E quando eu lhe entreguei a t-shirt, ela vestiu-a, imediatamente, pondo um ponto final na tentativa de me seduzir.

Deitada na cama, despediu-se de mim com alguma frieza. Eu dei-lhe um beijo e ela retribui-o mantendo um certo distanciamento.

Depois de apagar a luz do quarto, fechei a porta e regressei à sala.

A meia-noite chegou. Todos os que estavam na sala se dirigiram à árvore de Natal para procurar os seus presentes. O meu pai tomou para si o papel de Pai Natal

Todos foram sendo chamados e receberam os embrulhos a si destinados. Quando chegou a minha vez, recebi vários pacotes embrulhados.

Abri o primeiro que era oferecido pelos meus pais. Era um rádio com leitor de CDs Havia algum tempo que o meu se avariara, por isso, os meus pais lembraram-se de me oferecer outro.

Seguiu-se a prenda de Mónica. Uma camisola, estilo pólo, azul escura e de marca reconhecida.

Bento e Marta também se lembraram de mim. Ofereceram-me uma agenda digital.

Carlinhos ofereceu um presente para toda a familia. Presentiou-nos com um enorme serviço de jantar, onde não faltava nada. Era de muito bom gosto, o que me levou a crer que a escolha fora de Amy.

Todas as pessoas foram contempladas com prendas. Já não me recordo de todos, mas sei que ninguém ficou de mãos vazias.

O tempo foi passando. A distribuição e abertura dos presentes durou a hora seguinte. Enquanto falávamos uns com os outros, íamos espalhando o papel de embrulho pelo chão.

Liliana dirigiu-se a mim e perguntou:

— A Rafaela não vem?

— Não, está muito cansada. — informei eu. — Mas os presentes dela ficam ali e amanhã entrego-lhos.

— Vais a casa dela, amanhã? — indagou ela.

— Não. A Rafaela vai passar cá a noite. — expliquei eu.

Passaram-se mais alguns minutos. Reparei que o relógio da sala já marcava 01h30. Carlinhos levantou-se do sofá e aproximou-se de mim.

— Nós vamos andando. — comunicou ele.

Eu assenti com a cabeça.

Amy apareceu atrás de Carlinhos e pediu-me para lhe indicar a casa-de-banho. E eu conduzi-a ao local pretendido.

Carlinhos despediu-se de todos, excepto de Bento. Passou por mim, apertou-me a mão e comentou:

— Ainda vou deixar a Amy ao hotel.

— Vais acompanhá-la à cama? — interroguei eu, na bricadeira.

— Não. — disse ele, lamentando. — Quem me dera. Ela é muito bonita não é?

Eu concordei com a cabeça.

— Estou maluco por ela. — continuou ele. — Mas ela não me dá saída.

O diálogo ficou por ali, pois Amy tinha regressado da casa-de-banho. A americana despediu-se de todos com um suave aperto de mão. Porém, quando passou pelo meu pai, reparei que lhe deixara, discretamente, um cartão no bolso. Penso que ninguém percebeu esse facto.

Carlinhos e Amy sairam para a rua. Bento e Marta aproveitaram a deixa e também regressaram ao seu lar. A casa ia começando a ficar vazia.

A minha mãe foi para a cozinha, acabar de arrumar a louça. Mónica fez questão de a ajudar. Liliana saiu da sala e foi à casa-de-banho.

Aproveitando o facto de estar com o meu pai, na sala, interpelei-o sobre o cartão que Amy Thompson lhe deixara.

O meu pai estranhou a minha pergunta e levou a mão ao bolso, como se ignorasse por completo a existência de tal cartão. Quando o encontrou no fundo do bolso, fez um olhar surpreso. Pegou no pequeno cartão e leu-o mentalmente.

— Então? — indaguei eu.

O meu pai, de sobrancelha franzida, entregou-me o cartão para eu ler.

Tratava-se de um pequeno cartão de visita, com o emblema de um hotel da Avenida da Liberdade. E por trás, continha a seguinte mensagem:

"I like to talk with you. Call me to my hotel room, if you want to dinner with me and continue the conversation, or something else..."

— Gosto de falar consigo. Telefone-me para o meu quarto de hotel, se quiser jantar comigo e continuar a conversa, ou algo mais... — traduzi eu, em voz baixa.

O meu pai não se pronunciou. Demonstrava completo desprezo pelo cartão.

— Isto é um convite para a cama. — disse eu.

— Isso é um absurdo, é o que é. — disse ele, retirando-me o cartão da mão e guardando-o no bolso. — Jamais seria capaz de trair a tua mãe.

— Veja lá se a mãe descobre esse cartão. — avisei eu.

— Não. Quando me levantar daqui, já o deito para o lixo. — disse ele, referindo-se ao cartão com desprezo.

A atitude dele deixou-me com a certeza de que o convite ia ficar sem resposta. Até me deu vontade de rir, ao pensar na frustração que a americana ia sentir, depois de tentar seduzir o meu pai.

Entretanto, Liliana regressou da casa-de-banho e pediu-me para a levar a casa.

— Está bem. — disse eu. — Vou só buscar o telemóvel.

Levantei-me do sofá e dirigi-me ao meu quarto, onde Rafaela permanecia mergulhada num sono profundo. Ao fechar a porta do quarto, reparei que o meu pai se encaminhara para o seu.

Peguei no telemóvel, retirei o casaco do bengaleiro que tinha junto à janela e saí. Tudo com o maior cuidado para não despertar Rafaela.

Quando regressei à porta da sala, deparei com Liliana sozinha, sentada no sofá, com a saia a meio das coxas, a ajeitar os collants.

Em vez de entrar, passei pela porta e segui para a cozinha. Assim, mostrava-me a Liliana e dava-lhe tempo para se recompôr.

Entrei na cozinha e disse à minha mãe:

— Vou levar a Liliana a casa.

— Não te demores. — pediu, carinhosamente, a minha mãe.

— Não! Ah... É verdade, a Rafaela passa cá a noite. Está a dormir no meu quarto. — avisei eu.

— Os pais sabem? — perguntou a minha mãe.

— Sabem. — confirmei eu.

— Está bem. — concordou ela.

Eu voltei a deixar a cozinha e disse:

— Até logo.

— Até logo. — respondeu a minha prima.

— Até logo. E não te demores. — disse a minha mãe.

Segui para a sala e reparei que Liliana já estava arranjada, esperando apenas a minha chegada. Vestiu o casaco e ambos nos dirigimos para a porta.

Passámos pelo meu pai, que entretanto saira do quarto, e Liliana despediu-se dele .

Na rua estava um gelo. O frio era tanto que trespassava o tecido das nossas roupas. E o vento batia-nos na cara como se fossem alfinetes a picarem-nos a pele.

Felizmente, o carro estava junto à porta do prédio, o que evitou que apanhássemos mais frio. Depois de o motor aquecer, arranquei para a morada de Liliana.

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