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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XXXV

Acordei com o ruido da chuva a bater no vidro da janela. Não tive coragem de destapar mais do que a cabeça, uma vez que o frio era muito. Desperto e perfeitamente lúcido, ponderei o meu futuro e as providencias que deveria tomar para realizar o meu desejo.

Levantei-me da cama e caminhei até à janela. Abri os cortinados e reparei no ambiente cinzento do exterior, onde a chuva caía com força e abundância.

Enquanto contemplava a água que jorrava do céu, impunha a mim mesmo a obrigação de não deixar acabar o dia, sem resolver tudo com Rafaela. E, a partir daí, tornou-se necessário elaborar um plano para convencê-la de que era capaz de a amar, mesmo que o seu estado fosse irreversivel.

Durante toda a manhã, multipliquei-me em tarefas necessárias ao sucesso da minha missão. Saí para a rua, submetendo-me à chuva, e fui comprar um presente para Rafaela. Algo que demonstraria toda a minha intensão.

As horas foram passando. E após o almoço, eu estava pronto a enfrentar o desafio a que me propusera. Porém, antes de sair de casa, lembrei-me de um problema: Como entrar em casa de Rafaela?

Não tinha duvidas de que assim que anunciasse a minha presença, ser-me-ia imediatamente negada a entrada. De certeza que Rafaela se recusaria a receber-me, uma vez que não queria encarar-me, sabendo que ainda me amava. A sua intensão era promover uma separação que nos fizesse esquecer um do outro.

Obviamente que não poderia contar com a colaboração de sua mãe. Já quando namorávamos, a senhora Pereira fora sempre um obstáculo na porta da casa.

Tinha que descobrir alguém que tivesse acesso à casa e me pudesse servir de passaporte para chegar a Rafaela. Pensei algum tempo e um nome surgiu: Liliana.

Àquela hora, Liliana deveria estar em casa. Não passara muito tempo após o horário de almoço e o mau tempo não convidava a sair. Também as férias de Natal eram um bom motivo para que a encontrasse em casa.

Sem perder tempo, telefonei para casa de Liliana. Conservava o número, desde o dia em que Rafaela mo dera, no caso de precisar de falar com ela e não o conseguisse através do número de telefone de sua casa.

Atendeu-me a mãe de Liliana.

Ao pedido para falar com a filha, a simpática senhora informou-me que ela tinha ido visitar a amiga Rafaela.

Eu agradeci a gentileza e disse que depois voltaria a ligar.

Era uma situação inesperada. Logo naquela tarde, ela fora a casa de Rafaela. Comecei a ficar confuso e sem saber como contornar a situação. Parecia um sinal para que eu ficasse quieto e deixasse tudo como estava. Tornei-me hesitante nos actos e fraquejei nas iniciativas. Sentei-me na cama e quase desisti de tudo.

Mas que ganhava eu, ficando ali parado? Nada! E se continuasse a minha luta? Poderia ganhar muito.

Nesse momento, uma nova ideia surgiu. Decidi sair de casa, dirigir-me ao prédio de Rafaela e esperar que Liliana saísse.

Conduzindo o meu carro, atravessei a chuva e segui até à Avenida Estados Unidos da América. Com aquela forte pluviosidade, tive de circular mais devagar, mas cheguei em poucos minutos.

Parei junto ao prédio de Rafaela e telefonei, novamente, para casa de Liliana.

Com grande gentileza, a senhora que me atendera, disse-me que Liliana ainda não tinha regressado.

Eu agradeci a informação e pedi desculpa pelo incómodo.

Sendo assim, ali fiquei, esperando que Liliana abandonasse o prédio onde vivia Rafaela.

Esperei mais de uma hora, até ver a formosa namorada do Humberto, sair do prédio e caminhar elegantemente pelo passeio.

— Liliana! — chamei eu, por entre a chuva.

Ela não me ouviu e continuou a andar.

Saí do carro e tornei a chamar:

— Liliana!

Tive de repetir o chamamento mais uma vez e só assim ela me ouviu.

— Olá! — cumprimentou ela, protegendo a cabeça da chuva.

Tranquei o carro e dei uma pequena corrida até ela. Cumprimentei-a com dois beijos e perguntei:

— Como está a Rafaela?

Liliana puxou-me para a porta do prédio, de maneira a não estarmos à chuva, e contou:

— Está na mesma! E cada vez mais deprimida por se ver presa à cadeira de rodas.

Senti-me triste, por a saber triste. Sabia que a podia ajudar, se ela me deixásse fazê-lo. Olhei seriamente para Liliana e pedi:

— Preciso da tua ajuda.

— Para quê? — interrogou Liliana, surpresa com o pedido.

— Tenho de falar com a Rafaela! — exclamei eu. — E preciso que me ajudes a chegar até ela.

Liliana passou a mão pelo cabelo molhado, limpou algumas gotas de chuva do rosto e lembrou:

— Ela não te quer ver. E só vais magoá-la, insistindo em vê-la.

Eu sentia que Liliana estava errada, mas ficar ali a tentar argumentar opiniões, era uma perda de tempo. Sendo assim, limitei-me a perguntar se podia contar, ou não, com ela.

Liliana rebaixou o olhar e observou o chão empedrado. Parecia indecisa em relação à atitude a tomar. Sem dizer nada, ficou a pensar durante alguns momentos.

— Então? — questionei eu, um pouco impaciente.

Liliana olhou para mim.

— Vamos fazer assim: — disse ela com uma voz nervosa. — Eu vou lá cima e digo-lhe que queres falar com ela. Se ela quiser falar contigo, eu aviso-te.

Não era assim que eu queria, mas não tinha outra solução.

Liliana tocou, novamente, à campainha. Uma voz no intercomunicador perguntou quem era.

— Sou eu outra vez, a Liliana. Esqueci-me de uma coisa.

A voz no intercomúnicador reconheceu-a imediatamente e abriu a porta. Ambos entrámos. Eu fiquei junto à porta e Liliana começou a subir as escadas.

Antes de ela subir, fiz mais um pedido:

— Faz-lhe ver que eu necessito de falar com ela. E que não desisto até o conseguir.

Liliana assentiu com a cabeça e continuou a subir os degraus de mármore.

Os minutos foram passando. Encostado à parede fria da entrada, fiquei a observar a rua e a desejar que Rafaela me recebesse. Lá fora, a chuva continuava a cair abundantemente e alagava o alcatrão fustigado pelos pneus dos automóveis.

Sentia-me nervoso. Não só pela espera, mas também por não saber se estaria à altura do desafio a que me propusera. E o nervosismo aumentou quando a voz de Liliana, a chamar-me, ecoou pela escada do prédio.

— Sobe! — disse ela, lá de cima no andar de Rafaela.

Numa passada ligeira, mas nervosa, subi a escadaria até ao dito andar. Junto à porta da casa de Rafaela, Liliana esperava-me. Aproximei-me dela e olhei-a esperando alguma palavra.

— Entra! — disse ela. — A Rafaela está lá dentro, na sala.

Caminhando pelo corredor, escurecido pela pouca luz do exterior, segui até à porta da sala, sendo seguido por Liliana.

Ao entrar, fiquei frente a frente com Rafaela. Os seus lindos olhos observavam-me com nervosismo e receavam a minha presença e aquilo que eu pudesse dizer.

Liliana ultrapassou-me, caminhou até ao sofá e pegou na mala.

— Bem, deixo-vos sozinhos para conversarem. — disse ela, dando um beijo de despedida a Rafaela.

— Adeus. — despediu-se ela de mim.

Rafaela e eu ficámos quietos, sem dizer uma palavra, até ouvir a porta da rua bater, após a saída de Liliana.

Rafaela estava sentada numa cadeira de rodas, estacionada ao lado do sofá. Tinha um olhar triste, com o seu belo cabelo louro a cair sobre o rosto e sobre os ombros. Os seus cotovelos estavam apoiados nos braços da cadeira e os dedos das mãos cruzavam-se sobre uma colcha que lhe cobria as pernas. E o tronco escondia-se num largo camisolão de lã, protegendo-a do frio.

— A Liliana disse-me que querias falar comigo!?...

— Sim! — confirmei eu.

— Senta-te. — convidou ela.

Eu aceitei o convite e sentei-me junto a Rafaela.

Apesar de termos namorado, encontrávamo-nos juntos um do outro e agíamos como estranhos. A separação erguera um muro imaginável de gelo entre nós. Rafaela desviava o olhar quando eu a observava. E eu fazia o mesmo quando ela olhava para mim.

— Rafaela... — comecei eu.

— Sim.

Porém, as palavras custavam a sair. Ainda essa manhã, eu tinha tudo memorizado. Um discurso com todas as palavras bonitas para encantar Rafaela. Mas, naquele momento, na hora da verdade, tudo se esfumava da minha cabeça e fiquei completamente bloqueado.

— Então, não dizes nada? — interrogou Rafaela, estranhando o meu silêncio.

Tenso. Estava muito tenso e não conseguia raciocinar como devia. Parei um pouco, abstrai-me de tudo e pensei: "Sê sincero! Não formules as frases! Retira-as directamente do teu coração."

— Rafaela! Por mais que tente, não consigo esquecer-te...

— Marco, por favor...

— Espera! — pedi eu. — Deixa-me dizer-te tudo até ao fim. Depois, podes dizer o que quiseres. ─ Rafaela manteve-se em silêncio e eu continuei. — Eu amo-te! Nunca amei tanto ninguém. Não posso viver longe de ti. Todos os dias, desde que me afastaste, que a minha alma morre mais um bocado. Não suporto a ideia de deixar de te amar.

Olhando-a nos olhos, fui surpreendido por uma doce lágrima que se soltou do olho direito de Rafaela e que deslizou pelo seu rosto.

Com muito carinho, levei a minha mão ao seu rosto e limpei aquela lágrima brilhante de pureza.

— Deixa-me amar-te. — pedi eu. — Não temas ser feliz.

Rafaela agarrou a minha mão e pressionou-a mais contra o seu rosto, fechando os olhos para melhor desfrutar o toque da minha pele na sua. Depois, voltou a abrir os olhos e disse:

— Marco, olha para mim! Sou uma inválida...

— Não! — interrompi eu. — Não repitas isso.

— É a verdade. — insistiu ela. — Achas que serás feliz ao meu lado? Ao lado de uma pessoa que jamais se poderá mover sozinha.

— Não há certezas de que o teu estado seja irreversível. — contrapus eu.

Rafaela deixou escapar mais uma lágrima. Limpou-a com a outra mão e lembrou:

— Os médicos dizem que é muito difícil recuperar. O hematoma não tem diminuido e continua a bloquear o sistema nervoso.

— Desculpa! Mas eu continuo a acreditar que podes recuperar. — reafirmei eu. — Mas mesmo que não recuperes, eu quero estar a teu lado e ajudar-te.

Rafaela comoveu-se com as minha palavras. Eu pronunciava as frases com tanta firmeza que produzi alguma confiança nela. No entanto, ela continuou relutante em deixar-me aproximar do seu coração.

— Eu até acredito que estejas a ser sincero. — confessou ela. — Mas daqui a algum tempo, quando vires que não há solução para o meu caso, será que esse amor continuará?

— Juro-te que sim. — disse eu.

Rafaela permanecia relutante. Parecia que queria e não queria, simultaneamente. E isso fez-me continuar a insistir. Retirei uma pequena caixa do bolso, com um formato cúbico, forrada a veludo, e entreguei-a a Rafaela.

— O que é isto? — perguntou ela, recebendo-a na sua mão.

— Abre! — pedi eu.

Rafaela abriu a caixa. No interior, um pequeno aro brilhava. Era um anel de prata com um minusculo diamante no cimo.

— Marco...

Eu não a deixei falar. Ajoelhei-me a seus pés, segurei a sua mão direita, retirei o anel da caixa e coloquei-o no seu dedo.

Rafaela ficou estupfacta e não foi capaz de travar os meus movimentos. Emocionada, contemplou o anel. Não pelo seu valor, mas pelo que ele significava.

— Que significa isto? — questionou ela, soluçando as palavras e como se não soubesse o que eu pretendia.

Muito sério, olhei-a nos olhos e disse:

— Este anel oficializa o nosso namoro. Mas se não me amas, podes retirá-lo do dedo. E eu vou-me embora, afastando-me para sempre, como me pediste.

Rafaela ficou em silêncio. Os dedos da mão esquerda tocavam o anel, como se tivessem a intensão de o retirar. E eu transpirava, receando essa possibilidade.

No entanto, Rafaela debruçou-se sobre as pernas e abraçou-me com grande carinho. Eu recebi-a nos meus braços, ouvindo o seu soluçar.

Ela chorava perdidamente. Fiquei sem saber o que fizera para a deixar naquele desespero. Abracei-a e reconfortei-a com muita ternura.

Só que Rafaela não chorava de desespero. Rafaela chorava de felicidade. A felicidade que eu lhe provocara ao demonstrar-lhe que a amava. E que a continuava a amar, mesmo com ela a considerar-se uma "inválida".

— Amo-te, Marco! Amo-te tanto. — dizia ela, balbuciando as palavras por entre o choro. — Fizeste-me a mulher mais feliz deste mundo. Devolveste-me alguma da alegria que eu perdera.

O abraço continuou com um beijo apaixonado, entre nós. Tinha tantas saudades de beijar aqueles belos lábios de Rafaela. Sentir a sua boca e o seu corpo colados a mim.

A nossa relação dava o primeiro passo para voltar ao que era e para ficar muito mais forte. Sentiamos como era grande o sentimento que nos unia.

Findo o beijo, ficámos a olhar um para outro, observando a felicidade de ambos. Contemplava-a com alegria, ao ver o brilho profundo dos seus olhos.

No entanto, uma voz interrompeu esse momento:

— Rafaela, está na hora de ir à clinica.

Era a mãe de Rafaela a avisá-la que tinha uma consulta médica nesse dia. A senhora ignorou a minha presença, sem se dignar a cumprimentar-me.

Visivelmente mais satisfeita e com uma voz mais segura, Rafaela explicou-me que desde que saíra do hospital, tinha que fazer um tratamento diário de reabilitação numa clinica. E naquele dia, já chegara a hora de ir para a consulta.

— Então eu tinha razão. — disse eu. — Sempre há uma esperança.

— Minima. — contrapôs Rafaela, perdendo o sorriso.

Levantei-me do chão e perguntei-lhe onde ficava a clinica. Rafaela explicou-me a localização com alguns pormenores.

— Eu levo-te. — ofereci-me eu.

Rafaela sorriu e agradeceu a minha amabilidade.

— O que eu não faço pela mulher que amo?

Os olhos de Rafaela brilhavam. Encaravam-me com uma felicidade espontânea.

A mãe de Rafaela entrou novamente na sala e avisou a filha de que tinham de se apressar para apanhar o autocarro.

— Autocarro? — estranhei eu.

Rafaela riu e explicou-me que era o nome que a mãe dava à carrinha que a vinha buscar. Uma carrinha cor-de-laranja que fazia o transporte de pessoas em cadeiras de rodas.

— Não se preocupe! — aconselhou Rafaela à mãe. — O Marco leva-nos lá. E assim já não é preciso chamar a carrinha.

A senhora ficou a olhar para mim. Penso que não ficou muito satisfeita com o facto de eu estar, novamente, junto da filha.

Rafaela pediu um casaco à mãe, vestiu-o e disse:

— Estou pronta. Podemos ir.

Eu conduzi Rafaela até à porta, empurrando a cadeira. A sua mãe abriu a porta e todos saímos. A senhora apagou a luz do corredor e fechou a porta de casa.

— O elevador! — avisou Rafaela, com um ar desanimado, apontando para ele.

— É uma porcaria, este elevador. Há umas semanas que se avaria com facilidade. — barafustou a sua mãe.

Eu ainda tentei ver se funcionava, mas este não deu sinal de vida. O elevador estava completamente parado. Possivelmente estaria avariado. Já quando eu estava junto à porta da rua, repara que Liliana não o usara. Até eu, inconsciêntemente, vim pelas escadas sem reparar no elevador. E só naquele momento, em que ele se tornava necessário para transportar Rafaela, é que todos reparámos que não funcionava.

— E agora? — interrogou Rafaela.

A sua mãe ficou em silêncio, sem saber o que fazer.

Com um ar tranquilo, olhei para Rafaela e disse:

— Não há problema.

Retirei a colcha que tapava as pernas de Rafaela e entreguei-a à mãe. A seguir, peguei em Rafaela e trouxe-a nos braços, enquanto descia as escadas. A mãe dela ajudou, trazendo a cadeira para baixo.

Rafaela abraçava-me com medo de cair e escondia o rosto atrás da minha cabeça.

Chegados ao átrio do prédio, a mãe de Rafaela colocou a cadeira no chão e eu sentei Rafaela, levemente, no seu transporte.

Lá fora, a noite caíra, mas a chuva prolongava-se. Eu saí e fui buscar o carro, colocando-o em frente ao prédio. Depois de parar, a mãe dela trouxe-a até ao veículo, protegendo-a da chuva com um guarda-chuva azul e verde.

Eu saí e auxiliei a colocação de Rafaela a meu lado. A seguir, guardei a cadeira no porta-bagagens, enquanto a senhora entrava para o banco traseiro. Eu, encharcado até aos ossos, corri para o lugar do condutor e arranquei para a clinica.

— Estás todo molhado. — avisou Rafaela com um tom de preocupação.

— Não é nada. — disse eu, não ligando importância ao facto de escorrer água por todo o lado.

A clinica de reabilitação, onde Rafaela tinha as consultas, ficava na Rua Eugénio Castro Rodrigues. Era perto do local onde eu morava e eu conhecia, perfeitamente, o lugar.

Segui pela Avenida de Roma, mas o trânsito estava péssimo. E então com a chuva ainda pior ficava. Os carros mal andavam, apanhava os semáforos vermelhos, os cruzamentos eram um pandemónio, os condutores incivilizados... Enfim, um barafunda completa. A sorte era o consultório ficar perto. Senão, demorávamos horas a chegar lá.

Quinze minutos depois, estava parado no semáforo que dava acesso à Avenida do Brasil. Mais uma vez, apanhei o sinal vermelho.

Enquanto a luz verde não acendia, Rafaela desabafou uma das suas preocupações:

— Marco! Temos de devolver o dinheiro do patrocinio.

— Porquê? — interroguei eu.

— Porquê? — estranhou ela a minha duvida. — Então se eu estou neste estado.

Eu interrompi-a:

— Não penses nisso agora. Quando virmos que não há possibilidades de recuperares para o campeonato, então entregaremos o dinheiro e chegaremos a acordo com a empresa, por causa dos danos que a nossa falta possa provocar.

Rafaela, apesar de contrariada, acedeu à minha ideia.

O semáforo ficou verde e eu arranquei para a Avenida do Brasil, em direcção a norte. Subi a avenida, pelo meio do muito trânsito e da muita chuva, e virei na Rua Reinaldo Ferreira. Duas ou três centenas de metros que demoraram mais dez minutos a percorrer.

Já com muito menos trânsito, circulei nessa rua, até entrar na Rua Eugénio de Castro Rodrigues. Aí, novo problema se nos defrontou: não havia lugar para estacionar.

Eu já estava a ficar desesperado com aquela pouca sorte. Mas, subitamente, um veículo saiu do parque de estacionamento.

— Parece que temos sorte. — disse eu.

Mal o carro saiu daquele lugar e arrancou, eu virei para lá a direcção e arrumei o meu numa única manobra. O lugar ficava a menos de dez metros da clinica.

Estacionado o automóvel, eu retirei Rafaela do carro e a sua mãe foi buscar a cadeira ao porta-bagagens. Tudo feito debaixo de uma chuva fortissima.

Entrámos no edifício, evitando ao máximo o temporal que se abatia sobre a cidade. Logo à entrada, a recepcionista cumprimentou-nos e pediu-nos que aguardássemos um instante.

— O Dr. Aurélio já vem. — informou ela.

Aguardámos alguns minutos, até o médico da clinica aparecer. Um indivíduo alto com um cabelo grisalho e óculos. Parecia ser mais velho do que realmente era. Bastante afável, mal a viu, aproximou-se de Rafaela e deu-lhe um beijo.

— Como está a minha amiga? — perguntou ele com simpatia.

— Bem, dentro dos possiveis. — respondeu ela.

Rafaela apresentou-nos. O Dr. Aurélio cumprimentou-me como se já me conhecesse.

Sem mais demoras, o médico encaminhou-a para o ginásio onde se faziam os exercícios de reabilitação. A mãe de Rafaela acompanhou-a até aos aparelhos. Eu fiquei para trás e aguardei na sala de espera.

Minutos depois, deparei com o Dr. Aurélio a sair do ginásio.

— Sr. Dr. desculpe... — interpelei-o.

— Sim?

— Pode dar-me um minuto? — pedi eu.

— Diga. — acedeu ele.

— Como é que ela está? — indaguei eu, esperando uma resposta positiva.

O médico hesitou um pouco. Não sabia se me havia de dizer a verdade ou se me devia encher de esperanças vãs. Contudo, lá se resolveu pela sinceridade.

Com um olhar sério, colocou a mão no meu ombro e disse:

— Temo que a situação seja irrecuperável.

— Acha que ela não voltará a andar? — interroguei eu, desejando ter percebido mal.

— Acho! — confirmou ele com firmeza.

Eu fiquei pesaroso. Já sabia que seria assim, mas continuava com a secreta esperança de que acontecesse um milagre.

O Dr. Aurélio deu-me duas pancadas no ombro, reconfortando-me, e afastou-se.

Mesmo desmoralizado pela confirmação, não desisti de a apoiar. Se ela alguma vez precisou da minha ajuda era nessa altura. Avizinhavam-se momentos de sofrimento.

Enquanto Rafaela estava nos tratamentos, eu continuei à espera. E ao fim de meia hora, ela deixou o ginásio, conduzida pela mãe.

Despedimo-nos do médico. Rafaela e a mãe caminhavam à frente e eu seguia-as. Porém, antes de eu sair, ao despedir-me do Dr. Aurélio, ele disse-me:

— Não desespere! Não é provável, mas a esperança é a última a morrer.

Depois de abandonarmos o local, percorremos o trajecto de regresso a casa. Deixei ambas em casa e regressei à minha.

Nessa noite, antes de me deitar, recolhi ao meu quarto e fiquei muito tempo a pensar. Meditava sobre o futuro e em tudo o que ele representava. Durante todo esse tempo, falava como se estivesse a rezar. Não lhe chamaria uma oração, era mais uma conversa com Deus, pedindo-lhe que ajudasse Rafaela a recuperar-se.

Nunca fui pessoa de religiões nem de crenças em santos ou santas. Mas se havia algo em que acreditava, totalmente, era em Deus e no seu poder.

Passaram-se alguns dias até à vespera de Natal. Em todos eles, eu visitei Rafaela em sua casa e acompanhei-a ao tratamento.

Cada dia que passava, não notava melhorias no estado dela. Começava a ficar conformado da sua irreversibilidade.

Numa dessas visitas, convidei-a para o jantar de Natal em minha casa. Rafaela aceitou de imediato.

Assim, no dia 24 de Dezembro, os meus pais organizaram um jantar onde convidaram várias pessoas para a refeição que teria lugar na nossa casa.

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