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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XXXIV

Decorreram alguns dias, desde a última vez que vira Rafaela. Todos foram penosos de passar e bastante lentos. Nesse periodo, não fiz quase nada. Não saía, não falava com ninguém, comia mal e dormia pouco. Todo o tempo era dedicado a pensar em Rafaela e nos bons momentos que vivemos juntos.

Mergulhado na depressão, tudo parecia ter perdido o interesse. Sem a companhia de Rafaela, a vida não valia a pena. Era como se com o fim daquele amor, viesse o fim do mundo. Pelo menos, o fim do meu mundo.

O meu dia a dia era levantar tarde, apesar de pouco dormir, tomar um banho, comer qualquer coisa, ficar o resto do dia fechado no quarto a pensar, jantar umas sandes e regressar à cama. Nenhuma alegria e todas as tristezas. Comecei a geral um completo desprezo à vida.

No principio da semana, Carlinhos veio visitar-me. Nunca mais me vira e estava preocupado comigo.

— Estou bem. — disse-lhe eu, enquanto o convidava a sentar-se no sofá.

— O Humberto contou-me o que aconteceu. — explicou ele.

Eu não disse nada e também me sentei.

Carlinhos olhou para mim, reparou no meu ar desarranjado, com o cabelo despenteado, a barba por fazer e a roupa mal vestida.

— Dizes que estás bem, mas não parece. — alertou ele.

— As aparências iludem. — avisei eu.

— Há quanto tempo não dormes? — perguntou ele.

— Sei lá, porquê? — respondi eu, maçado com a conversa.

— Com essas olheiras não enganas ninguém.

— Talvez...

Carlinhos, vendo que eu não estava muito para diálogos, pegou no jornal e começou a folheá-lo.

Eu fiquei com a cabeça encostada no sofá e retornei aos meus pensamentos. De tal maneira que quase me esqueci da presença de Carlinhos.

— Tens de ultrapassar isso. — disse ele, sem desviar os olhos do jornal.

— O quê?

— Esquece-a. — sugeriu ele, friamente. — Eu também gostava muito da Xana. E quando nos separámos, também me custou. Que se há-de fazer? É a vida.

Ouvi-lo, fez-me relembrar a minha noite com a Xana. Aquela em que me aproveitara dela, para me vingar de Carlinhos pela sua relação adúltera com Madalena. Fui o culpado pelo fim do seu relacionamento com Xana. Quem sabe se tudo isto não passava de um duro castigo, por isso?

Tive vontade de confessar a Carlinhos, a minha responsabilidade, atenuando o castigo e obtendo o perdão. Porém, de imediato me lembrei que se algum dia houvese castigo, ele cairia sobre mim e não sobre Rafaela. E assim, aquela não poderia ser a minha sentença.

Permaneci em silêncio. Relembrava, na minha mente, as mulheres que tivera e que nunca conservara, ora porque elas não queriam, ora por eu não querer. Pelo meu pensamento passaram nomes como Guida, Patricia, Xana, Mónica, Marta, etc...

Concluí que com elas nunca houvera amor verdadeiro. Apenas paixão, ou simples atracção sexual. Somente Rafaela me fizera sentir o verdadeiro amor. E só ela me amara verdadeiramente.

Estava cada vez mais deprimido com este seguimento de ideias. Mas, Carlinhos interrompeu-me os pensamentos:

— Queres ir tomar um café?

— Diz? — pedi eu, não percebendo o que ele dissera.

— Perguntei se queres ir tomar um café?

— Não sei...

Carlinhos puxou-me pelo braço e arrastou-me consigo, dizendo:

— Vá. Vamos lá embora. Estás a precisar de espairecer.

— Está frio, lá fora. — lembrei eu.

— Deixa-te de histórias e anda.

Mal tive tempo para ir buscar o casaco, fui levado para a rua por Carlinhos e encaminhado para o carro. Precisamente na mesma altura em que Mónica regressava ao prédio.

— Queres vir? — convidou Carlinhos.

Mónica não simpatizava muito... ou melhor, nada com ele. Mas, ouvindo-me repetir o seu convite, aceitou acompanhar-nos.

— Tenho de avisar a tia. — lembrou ela.

Eu peguei no telemóvel e disse:

— Não te preocupes. Os meus pais ainda não chegaram. Daqui a pouco telefono-lhes.

Mónica entrou para o automóvel e nós seguimos viagem através da avenida.

A tarde estava cinzenta, o céu coberto de nuvens ameaçando despejar água sobre os desgraçados que corriam pelas ruas, vestindo grandes casacões e escondendo o rosto em confortaveis caschecois.

O frio era terrivel, os termómetros digitais de rua alternavam a sua medição com os relógios digitais. Os graus variavam entre 9 e 11.

— Está um frio... — afirmou Mónica.

— Um autêntico briol. — acrescentou Carlinhos.

Eu, no banco da frente, encafoado no meu casaco e apertado no banco pelo cinto de segurança, rodei ligeiramente a cabeça para trás e perguntei:

— Então, Mónica, onde foste?

— Fui à Avenida de Roma ver umas lojas. — contou ela.

— Alguma coisa bonita? — indaguei eu.

— Muita coisa cara. — lamentou ela.

Carlinhos que conduzia alegremente, mas com muita precaução, disse:

— Nesta altura já se sabe. Aproxima-se o Natal e os preços sobem.

— É a lei do consumismo! — exclamei eu, esfregando as mãos devido ao frio.

A viagem continuou. Seguiamos pela Avenida da Républica, rumo ao Centro Comercial das Amoreiras. Carlinhos sugerira que fossemos tomar um café ao shopping. Dizia ele que conhecera uma mulher que trabalhava como empregada de balcão num dos cafés do local.

O trânsito estava terrivel. E com o início da chuva, pior ficou.

— Estas avenidas estão um caos. — disse eu, olhando em redor. — Cada vez há mais carros a circular em Lisboa.

— É um espanto. — afirmou Carlinhos.

— Um espanto? — estranhei eu.

— Sim! A miúda das Amoreiras. — esclareceu Carlinhos. — A que te falei, ainda, agora.

— Pois... — exclamei eu.

Prosseguindo pela Avenida Fontes Pereira de Melo, a chuva tornou-se mais intensa. No exterior, as pessoas corriam à procura de abrigo temporário. Começaram a abrir-se os chapéus de chuva e aumentaram as rotações das escovas dos carros.

— Vamos molhar-nos. — avisou Mónica, descontente.

— E nós que nem um guarda-chuva trouxemos. — lembrei eu.

— Temos que dar uma corrida. — sugeriu Mónica.

Chegados à Rotunda do Marquês de Pombal, Carlinhos virou para a Avenida Joaquim António de Aguiar.

Mónica deu-me um toque no ombro e perguntou, apontando para o extrerior:

— Como se chama?

— Graciete. — disse Carlinhos.

— Graciete? — estranhei eu, novamente.

— A avenida chama-se Graciete? — interrogou a minha prima.

— Não! A miúda das Amoreiras. — esclareceu Carlinhos. — A que vos falei...

— ... ainda agora! — exclamámos ambos.

Poucos minutos depois, estávamos junto às torres das Amoreiras. Carlinhos descobriu um lugar, perto de uma das entradas. Estacionou ignorando as ridiculas instruções do arrumador com aspecto de drogado.

— Venha, venha. — dizia o tipo, fazendo sinal para um lado e olhando para o outro.

Acho que se o Carlinhos lhe tivesse dado ouvidos, tinha arrumado o automóvel, algures dentro do shopping.

Eu saí do carro, levando com uma baforada de ar frio na cara. Uma daquelas baforadas geladas que nos dá vontade de voltar para dentro. Cá fora, auxiliei a minha prima a sair. Enquanto que do outro lado, Carlinhos entregava uma moeda ao indivíduo.

— São umas sanguessugas. — afirmei eu, fazendo um gesto de indicação na direcção do arrumador.

— Passam a vida a arrancar gorjetas aos condutores. — disse Mónica.

Carlinhos aproximou-se e perguntou:

— Do que falam?

— De gorjetas. — informei eu.

— E de quem vive delas. — acrescentou Mónica.

— Não se ganha muito. — retorquiu Carlinhos.

Com a chuva a cair, apressámo-nos a entrar no edifício. Ficámos maravilhados com o interior. Durante o ano já era bonito, mas na época natalicia tinha um colorido especial.

Carlinhos, um passo mais à frente, conduziu-nos pelo Centro Comercial. E continuou:

— Nem todos dão gorjetas.

— Mas as pessoas sentem-se obrigadas. — disse eu.

Carlinhos contemplou o local, vendo se estava no caminho certo e disse:

— Há vezes em que até se deixam apalpar para levar uma gorjeta maior.

— Apalpar? — interrogou Mónica.

— Sim, apalpar. — confirmou Carlinhos. — Eu proprio já apalpei e dei uma gorjeta maior.

— Apalpaste um arrumador? — perguntei eu, estupfacto.

— Um arrumador? — estranhou Carlinhos.

— Sim! Nós estávamos a falar de arrumadores. — esclareceu Mónica.

Carlinhos ficou vermelho. Logo a seguir, sorriu e explicou:

— Eu estava a falar da Graciete. A miúda daqui das Amoreiras...

— Já sabemos! — respondemos ambos, atalhando. — Aquela de que nos falaste.

Todos demos uma gargalhada. Carlinhos encolheu os ombros e confessou que ela não lhe deixava o pensamento.

A caminhada pelos corredores de lojas continuou. Carlinhos cumprimentava alguns conhecidos que trabalhavam em alguns estabelecimentos. Dizia ele que fora Graciete quem lhe apresentara a maior parte, numa noite em que jantou com ela ali num restaurante do edifício.

— Parece que temos compromisso? — interroguei eu.

— Não! — disse ele. — Gostamos da companhia um do outro.

Já com a caminhada alastrando-se a todo o primeiro piso, Mónica puxou Carlinhos pela manga do blusão e perguntou:

— Então, onde fica o café?

Olhando à sua volta, Carlinhos soluçou:

— Ia jurar que... Não, era mais... Mas no outro dia, eu fui...

— Resumindo, estás perdido. — atalhei eu.

— Não! É ali. — disse ele, efusivamente, apontando para um varandim de mesas.

Cansados de andar às voltas, lá caminhámos até ao local assinalado. Subimos uns poucos degraus e entrámos num corredor de cafés. Do lado direito eram os estabelecimento, do lado esquerdo as varandas com as mesas, tendo por paisagem o corredor de lojas.

Carlinhos apressou-se a encaminhar-nos ao tal café, onde trabalhava a Graciete. Sentámo-nos numa mesa e esperámos.

De súbito, uma voz inrrompeu pelas mesas:

— Caglinhos?

— Graciete. — reconheceu Carlinhos, levantando-se de imediato.

Era uma mulher de estatura média e aparentava andar na casa dos quarenta. Usava um cabelo preto, muito curto, cortado em franja acima das sobrancelhas. Os olhos eram escuros e rodeados por um tom escuro. A voz era esganiçada e tinha uma deficiência que a fazia dizer “g” em vez dos “r”.

Vestia uma blusa branca, manchada de café, e uma saia justa e aberta até ao joelho. Mostrava um pernão portentoso e o peito salientava-se como os altos de uma serra na cordilheira.

Carlinhos apresentou-nos.

— O que vai seg? — perguntou ela.

— Uma imperial. — pediu Carlinhos.

— Um café. — pedi eu.

Mónica hesitou. Depois, para fazer companhia, pediu um sumo de pêra.

A mulher escreveu tudo num papel.

Carlinhos, fazendo conversa, disse:

— O suminho de pêra é porque está grávida.

Ela olhou com espanto e disse:

— Está gávida? Pagece tão nova.

— E sou. — disse Mónica. — Tenho dezanove anos.

A mulher desviou o seu olhar para mim e perguntou:

— É o pai?

— Não! Sou o primo.

A mulher teve um movimento facial de estranheza. Depois guardou o papel e entrou no estabelecimento. Donde estávamos, ainda ouvimos ela a pedir uma "impegial", um café e um sumo de "pêga".

Carlinhos contemplava as pessoas que passavam por ali. Principalmente, se fossem do sexo feminino e bonitas.

Eu, na brincadeira, perguntei:

— Ó "Caglinhos", onde é que a conheceste?

— Não gozes! — exigiu Carlinhos, aborrecido. — Conheci-a aqui.

Ali sentados, esperámos os nossos pedidos. E alguns minutos depois, lá veio a Graciete com uma bandeija na mão, transportando as bebidas.

Colocou tudo sobre a mesa e regressou ao interior do balcão. O Carlinhos ainda a convidou a sentar-se, mas ela recusou, pois não era permitido ficar a falar com os clientes.

Carlinhos bebeu um golo da sua cerveja, recostou-se para trás e disse:

— Espantosa! Formidável!

— A Graciete? — adivinhei eu.

— Não, a cerveja. — respondeu ele.

Mónica sorriu alegremente com a falta de entendimento.

Durante mais de uma hora, permanecemos ali a conversar. Falou-se sobre várias coisas, tendo Carlinhos introduzido o nome de "Graciete" várias vezes nos assuntos.

De repente, Carlinhos debruçou-se no varandim e avisou:

— Olha, lá vai o Humberto.

E era de facto o Humberto. Caminhava no corredor, numa passada calma, observando algumas montras.

Carlinhos chamou-o com alarido. E Humberto, após ouvir o seu nome várias vezes, lá reparou onde estávamos.

Humberto abandonou o seu passeio e veio até ao varandim, encontrar-se connosco. Cumprimentou todos, sentou-se na mesa e pediu uma imperial.

— Então, que andas a fazer? — perguntou Carlinhos, curioso.

Humberto, sentado ao lado de Carlinhos, com os braços apoiados na mesa, começou a contar que arranjara um trabalho em part-time numa loja do shopping. Sempre dava para ganhar algum dinheiro.

Humberto viu o seu relato interrompido pelo resurgimento de Graciete.

— Este é o Humberto. — apresentou Carlinhos, olhando com paixão para ela.

— Humbegto? — repetiu ela. — Muito pgazeg! Tenho um pgimo chamado Humbegto.

— Prazer! — retribuiu Humberto, entre dois golos de cerveja.

Graciete regressou ao balcão do pequeno café. Toda ela se bamboleava a andar. E Carlinhos contemplava-a com gosto.

Eu, que há muito findara o café, olhei para o Humberto e disse-lhe:

— Esta é a nova namorada do Carlinhos.

— Aí é? — interrogou ele com ar de gozo. — É "namogada" do "Caglinhos"?

— Vocês deixem-se dessas brincadeiras. — avisou Carlinhos, farto de ouvir "bocas" à pronuncia da sua paixão.

Para não o aborrecermos mais, mudámos de assunto. Conversámos sobre a ocupação de Humberto. Empregado numa loja de discos, Humberto procurava ocupar o seu tempo e ganhar algum dinheiro. Desde que não conseguira lugar numa universidade que encarou a hipótese de um futuro de emprego, em vez de prosseguir os estudos. Ele próprio confidenciou que não tinha intensões de esperar nova oportunidade de conseguir colocação numa universidade.

Era o destino de muitos jovens. Quando não se conseguia uma colocação na Universidade, optava-se por procurar emprego e esquecer os estudos.

Assim, Humberto enfrentou o mercado de trabalho e, segundo ele, estava a sair-se bem.

A conversa foi-se prolongando. E Carlinhos, dando um toque no braço de Humberto, perguntou:

— Como vai o teu namoro com a Liliana?

— Vai bem. Estamos ambos apaixonados. — respondeu ele com um enorme sorriso. Depois, olhou para mim e informou-me da última. — Sabes? A Rafaela já está em casa.

Mónica e Carlinhos olharam para ele, com um olhar condenatório pelas suas palavras. Falarem-me em Rafaela era ferir-me com recordações que me amarguravam.

Humberto percebeu o erro e apressou-se a pedir-me desculpa.

— Não tem importância. — disse eu para seu descanso.

No entanto, eu estava interessado em saber mais pormenores sobre o regresso de Rafaela a casa. Por isso, interpelei Humberto para que me desse mais informações.

— A Liliana é que me contou. — começou ele. — Deram-lhe alta do hospital, ontem. Foram os pais da Rafaela que a foram buscar. A Liliana também foi com eles.

— E como é que ela está? — atalhei eu, procurando a informação que me era mais preciosa.

Humberto bebeu mais um pouco da imperial e respondeu:

— Na mesma. Segundo a Liliana, continua sem melhoras.

— Já a viste? — perguntou Mónica.

— Não! — respondeu Humberto. — Ela não sai de casa.

Carlinhos olhou para o relógio e reparou que já eram 19h30. Ficou apavorado, pois estava atrasado para um encontro. Eu perguntei se era com alguma mulher. Carlinhos respondeu com um sorriso traiçoeiro. Depois, levantou-se e foi despedir-se de Graciete.

— Isto, hoje, é por minha conta. — disse ele, caminhando até ao balcão.

Nós também nos levantámos da mesa e começámos a descer do varandim.

Carlinhos juntou-se a nós, caminhando apressadamente e guardando o troco na carteira. Seguiu a meu lado, enquanto à frente caminhavam Mónica e Humberto que trocavam algumas palavras.

Curioso, puxei Carlinhos pela borda do blusão e lembrei:

— Não respondeste à minha pergunta.

— Qual? — interrogou ele, fingindo não se lembrar.

— Se te ias encontrar com uma mulher? — relembrei eu.

Num tom de voz muito baixo, Carlinhos confidenciou:

— É! Vou encontrar-me com ela num restaurante.

— Amizade? — questionei eu.

— Sexo! — corrigiu ele.

Eu fiquei um pouco confuso e interroguei:

— Mas tu não namoras a Graciete?

— Mais ou menos. — disse ele. — Encontramo-nos de vez em quando. Venho até aqui, vejo-a, levo-a a casa e "damos uma".

Eu soltei uma gargalhada, achando imensa piada à simplicidade com que ele dizia aquilo. Só ele me faria rir naquela altura.

Carlinhos pediu-me para ser mais moderado e confidenciou o resto, exigindo-me absoluto segredo em relação ao que ia contar. Durante a caminhada até ao carro, ele contou que conhecera uma mulher num congresso de jovens empresários. Era uma americana que veio discursar no congresso. Carlinhos contava tudo com um brilho nos olhos.

— E andas com ela? — perguntei eu.

— Infelizmente não. — respondeu ele. — Mas consegui convidá-la para jantar. E ela aceitou. Vou agora encontrar-me com ela no Clube de Empresários.

— Apaixonado? — inquiri eu.

Carlinhos sorriu e disse:

— Talvez! Ela é muito bonita e faz-me sentir bem na sua companhia.

A conversa não continuou. Tinhamos chegado ao automóvel e Carlinhos estava com pressa.

— Carlinhos, podes levar-me? — perguntou Humberto.

— Entra! — respondeu Carlinhos, visivelmente apressado.

Com todos no interior do veículo, Carlinhos arrancou, fazendo o percurso inverso. Felizmente, não havia muito trânsito.

Quinze minutos depois, Carlinhos deixou-me a mim e a Mónica, em frente ao meu prédio, e seguiu com Humberto.

Eu estava muito cansado e Mónica queixava-se das pernas. A gravidez fazia as suas mazelas.

Vendo Mónica com enorme dificuldade para subir a escadaria do prédio, peguei-lhe ao colo e trouxe-a nos braços até casa. Mesmo cansado, ainda tive forças para o fazer.

Nessa noite, Bento visitou-me. Estava preocupado com o meu estado. Tinha perguntado por mim aos meus pais e eles disseram-lhe que eu não estava muito bem.

— Eles exageram. — disse eu, convidando-o a entrar para o quarto.

— Pela tua cara, não me parece. — contrapôs ele, aceitando o convite.

Encaminhei-o para o quarto, para podermos conversar mais à vontade. Ele era um grande amigo e um grande conselheiro. Era, talvez, a seguir a mim, quem melhor compreendesse o meu sofrimento.

Não conversámos muito tempo, uma vez que Bento tinha Marta à sua espera e o dia seguinte era de trabalho. Mas, a pequena visita serviu para conversarmos sobre o meu amor por Rafaela e como aquela separação me deixava amargurado.

— Queres um conselho? — perguntou ele.

— Já sabes que sim. — disse eu.

Bento deu-me uma pancada fraternal no ombro e falou:

— Já te disse uma vez, mas volto a repetir. Se a amas, deves lutar por ela até ao fim. No entanto, lembra-te do seu estado e pensa se, realmente, a queres.

— Já pensei. — disse eu. — E cheguei a pensar que não a amava o suficiente para ficar a seu lado. Fui egoista e egocentrico, pois achava que era eu quem decidia a continuação, ou não, do nosso namoro. Por fim, acabou por ser ela a afastar-me. Ela é que se quis separar de mim. É certo que ninguém gosta de ser amado por compaixão. E eu sei que é isso que ela sente, que eu a amo por compaixão pelo seu estado.

— E não é? — interrogou Bento.

— Não! — respondi eu, de imediato. — É amor, igual ao que já sentia por ela. Não sei o que tanto nos une. E, sinceramente, não me interessa. Só sei que a amo e não suporto esta separação.

Bento levantou-se, estendeu-me a mão em sinal de despedida e disse:

— Então, luta por ela. Insiste até olhares para o espelho e dizeres que já não podes fazer mais nada.

E com aquelas palavras, Bento despediu-se e regressou a sua casa.

Muito cansado, fechei a porta e retornei ao quarto. Fui para a cama mais cedo, pois estava com muito sono. Começava a ceder ao enorme cansaço.

Deitado na cama, fiquei a reflectir na atitude a tomar em relação a Rafaela. Insistir ou não, era a questão. Mas não consegui pensar em nada, já que o sono se apoderou de mim, por completo.

Porém, no dia seguinte, ao acordar, tornou-se claro o meu objectivo e aquilo pelo qual deveria lutar.

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