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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XXXIII

Assim que chegámos ao hospital, Rafaela foi levada com urgência para a Unidade de Cuidados Intensivos.

Durante o trajecto, um dos enfermeiros dissera-me que Rafaela estava viva, mas em estado muito grave. E temia que pudessemos não chegar ao hospital, a tempo de a salvar.

Quando entraram para o bloco operatório, Rafaela ainda estava viva, com sinais vitais muito fracos, mas viva. Mas a partir dessa altura, eu deixei de ter notícias dela.

Sozinho na sala de espera, telefonei para os meus pais. Contei-lhes onde estava e o que acontecera. Eles ficaram chocados e comprometeram-se a vir ao meu encontro para me auxiliarem.

Enquanto eles não vinham, eu fiquei ali sentado numa cadeira de plástico, sozinho, naquela sala fria e húmida. Esperando ansiosamente o resultado da operação a que Rafaela estava a ser submetida.

Rezava para que tudo corresse bem e que, em breve, alguém viesse ter comigo e me dissesse que estava tudo bem.

No entanto, a ideia de que as coisas podiam correr mal começou a assaltar-me o pensamento. Fiquei desesperado. E chorava, perdidamente, com a cabeça caída nos joelhos. Pensava no que seria de mim, se Rafaela não sobrevivesse.

E se ela morre? O que vai ser da minha vida sem ela?, pensava eu, apavorado com a ideia.

Do bloco operatório saiam um, dois, três enfermeiros... depois um médico. Vinha outro que voltava a entrar... Regressavam dois... Tornava a sair outro... E ninguém me vinha dizer como tudo estava a correr.

E eu continuava embutido nos meus pensamentos. Pensava que nunca ninguém me fizera tão feliz como ela. Nunca fora bem sucedido nas minhas paixões, senão nesta. Nunca fora tão amado, nem nunca amara tanto e com tanta intensidade.

Por entre todas as paixões que tivera, nunca senti o que sentia com Rafaela. Não duvidava, um segundo, que ela era a mulher da minha vida. E naquele momento, ali estava, sozinho numa sala fria, procurando um rumo na vida sem Rafaela.

O desespero levou-me a direccionar o olhar, em lágrimas, para o tecto e a dizer:

— Porquê, meu Deus? Porque me levas a mulher que amo?

Soluçando, acabei por deixar cair a cabeça, tocando o peito com o queixo, permanecendo num choro íntimo.

Toda a absorção no desespero foi interrompida pela presença dos agentes da policia. Dois indivíduos fardados vieram ao hospital, anotar as minhas declarações.

Durante alguns minutos, fiz-lhes o relato do sucedido. Ambos tomaram nota do que eu disse e abandonaram o local, desejando as melhoras de Rafaela.

Pouco depois, entraram no edifício hospitalar, os pais de Rafaela.

Ao vê-los chegar, a cólera invadiu-me e todo o ódio que sentia por eles, veio ao de cima. Porém, Liliana, que os acompanhava e conhecia o meu sentimento, afastou-se deles e dirigiu-se a mim:

— Como é que ela está?

— Ainda não me disseram nada. — informei eu, olhando o casal, furioso.

Liliana reparou no meu olhar e disse:

— Estão desesperados.

— Eles é que têm a culpa. — disse eu. — Tenho vontade de os expulsar daqui.

— Calma! — aconselhou ela. — Não te esqueças que eles são os pais dela. E não duvides que também a amam.

— Pois não parece. — repliquei eu.

No entanto, Liliana não deixava de ter razão. E isso fez com que eu transformasse o ódio em desprezo.

Quando o casal se aproximou, nervosos, chorando pela filha e numa aflição paternal, perguntando por novidades, eu não lhes respondi. Virei-lhes as costas, desprezando-os por completo. Foi Liliana quem falou, repetindo o que eu lhe dissera.

Ambos se afastaram e foram sentar-se num canto da sala. Liliana sentou-se a meu lado e tentou reconfortar-me, reconfortando-se a si igualmente.

Mais alguns minutos se passaram, não sei quantos ao certo, uma vez que a minha atenção se concentrava na porta do bloco operatório.

Pela porta da sala de espera, entraram os meus pais. Correram a abraçar-me e a obter garantias de que eu estava bem.

Liliana afastou-se e ficou junto aos pais de Rafaela, enquanto os meus pais se sentaram ao meu lado e me envolveram entre si, abraçando-me e acalmando-me. Estava tão fragilizado que me sentia como um rapazinho de dez anos, necessitado do carinho dos pais. E felizmente tinha-os ali comigo.

A operação durou oito horas. Oito longas horas de ansiedade e angustia, esperando notícias de Rafaela.

Ao fim dessas oito horas, o médico deixou a sala de operações e entrou na sala de espera. E com um semblante muito carregado e sério, dirigiu-se a todos os presentes:

— Boa noite! Qual dos presentes é parente da menina Rafaela Pereira?

Os pais dela levantaram-se e encararam o médico, com um rosto desgastado. E eu segui atrás deles, pois era como se também fosse da familia.

— A Rafaela está livre de perigo. — disse o doutor.

Todos suspiraram de alívio. No entanto, o médico não acabara de falar.

— Mas... — disse ele.

De novo as atenções se viraram para as suas palavras.

— Mas?... — interroguei eu.

O homem de bata verde olhou-nos muito seriamente e explicou:

— Ela ainda está inconsciênte. Penso que deverá acordar em breve. O mais grave é que a bala, apesar de não atingir nenhum orgão vital, ficou alojada perto da coluna. Com a operação, conseguimos extrair a bala, mas o ferimento provocou um hematoma que nos deixa apreensivos, em relação às consequências que poderá ter provocado na coluna. Por enquanto, é tudo uma incógnita, mas quando ela acordar, poderemos saber até que ponto ficou afectada.

As palavras do médico apavoraram-me. Não queria equacionar a hipótese de que Rafaela tivesse ficado paralisada. E por isso, tive de perguntar:

— Está a dizer que ela pode ficar paraplégica?

A minha pergunta atirou a mãe de Rafaela para um choro arrepiante e desesperado.

O médico, muito calmamente, olhou para mim e disse:

— Não devemos ser precipitados nas apreciações. Só quando ela acordar, é que poderemos fazer o diagnóstico.

— Podemos vê-la? — pedi eu.

— Só os pais. — avisou o médico.

— Mas eu sou o namorado. — informei eu, exigindo a visita ao quarto de Rafaela.

A mãe de Rafaela, com uma voz de arrependimento e num choro tremendo, disse:

— Deixe-o ir! Por amor de Deus, se há alguém que ela gostaria de ver quando acordar, é ele.

— Tudo bem! — disse o médico. — Assim que ela sair da U.C.I., eu venho chamá-lo.

O médico abandonou a sala. E a mãe chorosa, regressou à sua cadeira, dizendo:

— Como pudemos deixar que isto chegasse a este ponto?

Minutos mais tarde, o doutor regressou à sala e fez-me sinal para que o acompanhasse.

Eu segui atrás dele. O médico acompanhou-me até um dos quartos do hospital, aquele onde Rafaela repousava.

Foi uma visão assustadora para mim. Ao entrar no quarto, vi Rafaela deitada numa cama de hospital, com tubos no nariz e nos braços, completamente imóvel e muito pálida. Se o médico não me comunicasse o seu estado, eu diria que ela estava morta.

Sentei-me a seu lado e segurei-lhe a mão. Estava morna e não reagiu ao meu toque.

— Rafaela! Rafaela! — chamei eu, baixinho.

Não obtive resposta.

O médico ausentou-se do quarto, temporariamente, e foi buscar os pais dela. E no momento em que estes entraram, Rafaela acordou.

Muito suavemente, abriu os olhos e observou tudo à sua volta. Depois, olhou para mim e sorriu.

Senti-me feliz, ao ver o seu rosto. E ela também ficou feliz, ao ver-me de boa saúde. Mas, a felicidade não durou muito tempo.

De súbito, Rafaela olhou para as pernas e ficou pálida, apavorada... os seus olhos mostravam um enorme desespero, transposto para a sua voz.

— As minhas pernas? Não sinto as minhas pernas. O que se passa? — dizia ela, desesperada.

— Calma! — aconselhou o médico.

Eu fiquei petreficado. Vendo as suspeitas confirmadas, fui incapaz de reagir. Senti-me apavorado, observando o pânico nos olhos de Rafaela. E ela, deitada na cama e gesticulando, gritava:

— AS MINHAS PERNAS?

E olhando para mim, como se esperasse de mim a resolução para o problema, dizia:

— Não sinto as pernas... Não as consigo mexer.

O médico chamou uma enfermeira e mandou-nos sair. Mesmo não querendo abandonar o quarto, deixei-me encaminhar para o corredor. Estava num desespero que me arrasava a alma.

A mãe de Rafaela, num choro contínuo, foi levada para a sala pelo marido. E eu segui atrás, numa passada vagarosa e vagueante, pensando no rosto desesperado de Rafaela e no seu olhar desesperado com que me encarou, tomando consciência de que estava paralisada da cintura para baixo.

Quando entrei na sala, Liliana correu para mim e perguntou-me:

— Então, como é que ela está?

Eu não fui capaz de pronunciar uma única palavra. O choque emudeceu-me completamente.

Foram os meus pais que me acalmaram e me fizeram recuperar as palavras.

O médico ficara no quarto, acompanhado pela enfermeira, a examinar Rafaela.

Dez minutos mais tarde, o médico voltou e contou-nos o resultado do exame:

— O hematoma está a afectar-lhe a coluna e o sistema nervoso, bloqueando-lhe o controlo dos membros inferiores. Confesso que é mais grave do que pensávamos.

Ao ouvir aquilo, a mãe de Rafaela desatou novamente num choro desesperado. Também o pai dela não conteve as lágrimas. Liliana começou a chorar, igualmente, e foi reconfortada pelos meus pais. Quanto a mim, fiquei imóvel.

O médico continuou:

— A paralesia que afecta Rafaela, pode ser temporaria ou permanente. Não é para ser pessimista, mas raramente é temporaria.

Eu levantei-me, aproximei-me dele e disse:

— Ela pratica desporto. É voleibolista profissional. Isto pode ser o fim da sua carreira no desporto.

— Não pode... É! — corrigiu o médico.

— Não! Deve haver algum engano. — contrapus eu, desesperado com a notícia. — O doutor não deve ter visto bem. Possívelmente nem é a sua especialidade. Não pode ser... NÃO PODE SER!

O meu pai levantou-se da cadeira e abraçou-me para me acalmar.

— O senhor doutor desculpe... — pediu o meu pai.

— Não tem importância! — desculpou o médico. — Essa reacção é natural.

Por entre o desespero, com os olhos inundados pelas lágrimas que já não continha, encarei o médico e pedi-lhe desculpa pelo que dissera.

O doutor compreendeu e disse:

— Agora é a parte mais difícil. Preciso comunicar o que vos disse à paciente. E preciso de um de vocês para a apoiar. Penso que o melhor é o namorado.

Eu, apesar de me custar enfrentar Rafaela naquele estado, aceitei imediatamente a função.

Enquanto caminhámos pelo corredor, o médico avisou-me que não deveria dizer que a situação era irreversível. Ia dizer-lhe que havia hipóteses de recuparação, mas ia omitir-lhe a informação de como eram escassas essas hipóteses.

E assim foi.

Só que Rafaela não era ingénua e, vendo o meu rosto triste de sorriso forçado e olhos quase a chorar, percebeu que não tinha muitas hipóteses.

Deitada na cama, Rafaela ficou em pânico e começou a chorar perdidamente. Já não via outro futuro, senão ser inválida para o resto da vida.

Comovido, abracei-a e reconfortei-a. Mas pouco se pode confortar uma pessoa que é confrontada com uma novidade destas.

Quando Rafaela se acalmou, eu fui aconselhado pelo médico a descansar um pouco. Devia ir para casa e regressar depois de descansar.

Algo contrariado, acabei por aceder e retornei a casa, acompanhado pelos meus pais. Já os pais dela, ficaram no hospital a fazer-lhe companhia.

Durante a viagem de regresso a casa, não disse uma palavra. Fiquei a pensar em Rafaela... No fim da sua carreira no voleibol... O fim da nossa participação no volei de praia... E quem sabe? No fim do nosso amor... Não, isso não. O nosso amor sobreviveria àquela contrariedade, queria eu acreditar.

Em todo o resto do dia, a minha cabeça não conseguia esquecer o rosto desesperado de Rafaela. Tentava ganhar forças para a voltar a encarar, mas sabê-la naquele estado dilacerava-me a alma. Cheguei a pensar se não teria sido melhor que ela tivesse morrido, em vez de enfrentar o facto de ficar assim.

Que disparate estava eu para ali a pensar? Ao menos, viva ainda podia ter a sua companhia. Enquanto que morta, apenas me restaria a recordação de um grande amor e saudade.

No entanto, não seria preferivel recordá-la fisicamente perfeita? Não ter de encarar uma Rafaela deficiente, arrastando-se numa cadeira de rodas? Não!

Como poderia ser tão egoista? Achar positiva a sua morte, o fim do seu ser, só para não ter que olhar para Rafaela e ver somente "metade" da mulher que ela fora outrora.

Se não era forte o suficiente para ficar a seu lado e continuar a dar-lhe o meu amor, então só me restava um caminho, afastar-me.

Mas como poderia eu viver, sem a homenagear com o meu amor? Separar-me da mulher que tanto amava e apagar esse sentimento por si, de que tanto me orgulhava? E que raio de amor era esse que abandonava a pessoa amada, logo quando ela tanto precisa? É certo que não era fácil. Era mesmo muito difícil, olhar para a mulher que amamos e ver que perdera parte das suas capacidades. Que perdera uma caracteristica fundamental: ser igual à normalidade das pessoas.

Amá-la, significaria um encargo que eu não sabia se o meu amor suportaria. A principio podia aguentar, mas com o passar dos anos, tudo se poderia resumir a um fardo que carregava com desgosto e lamentando não me ter afastado logo.

Mas ela poderia recuperar, pensava eu, procurando uma leve esperança que logo, imediatamente, a minha consciência me fazia apagar.

A depressão apoderava-se de mim. Continuei com os pensamentos disfóricos. Seguindo paradoxos infindáveis. Não sabia que decisão havia de tomar, ou se haveria de tomar alguma...

Nessa noite não dormi, continuando a pensar em tudo o que acontecera nos dois últimos dias.

Ao amanhecer, levantei-me e arranjei-me para ir ao hospital ver Rafaela.

Antes de sair, encontrei os meus pais que me perguntaram se estava bem. Respondi que sim, mentindo para não os preocupar.

A meio da manhã, lá estava eu a entrar no hospital. E nesse momento, vincara uma ideia na minha cabeça: Afastar-me lentamente de Rafaela, apagando progressivamente o romance que nos ligava.

No entanto, quando circulava no hospital e me dirigi à recepção, a enfermeira disse-me:

— A menina Rafaela pediu-me para lhe dizer que não o queria voltar a ver.

— O quê? — perguntei eu, espantado.

A enfermeira repetiu a informação. Mas eu já não a ouvi.

Estupfacto, ali fiquei, pensativo. Eu que pensava acabar o namoro e foi ela quem tomou a iniciativa da separação. Mas porque razão quereria ela que eu a deixasse?

Sem resposta a esta pergunta, ignorei a enfermeira e segui até ao quarto de Rafaela.

Enquanto caminhava pelo corredor, a passos largos, pensava que tudo não passaria de uma artimanha para me afastar da mulher que tanto amava. Mais uma vez, alguém tentava entrepôr-se entre o nosso amor. E quando cheguei à porta do seu quarto, tomei consciência do que estava a pensar e reparei que não queria separar-me dela. Ao mínimo indicio real de separação, eu reagi com horror. Foi nesse instante que tive a certeza que jamais desejaria separar-me dela. Mesmo que ela ficasse assim, paralisada da cintura para baixo, até ao resto dos seus dias.

Com muita calma e lentidão, abri a porta e entrei.

Lá dentro, Rafaela continuava deitada, na mesma posição em que a vira pela última vez.

Ao ver-me, a sua voz surgiu num tom de surpresa:

— Marco? O que fazes aqui?

— Vim ver-te. — disse eu, ensaiando um sorriso.

— A enfermeira não falou contigo? — perguntou ela.

A sua pergunta surgiu como uma terrivel certeza da veracidade da informação da senhora. Porém, tentando disfarçar com novo sorriso, exclamei:

— Falou! Veio com uma treta de que tu não me querias ver.

— Não é treta nenhuma. — corrigiu ela muito séria. — Fui eu que lhe pedi que te dissesse isso.

Eu fiquei gelado. O meu coração despedaçou-se com todo o amor. A minha alma ficou desfeita. E a razão começou a desaparecer...

Continuando a caminhar na direcção da sua cama, não fui capaz de dizer uma palavra.

Ela olhou para mim com os olhos humedecidos e pediu:

— Vai-te embora, Marco. Por favor.

— Porquê? — questionei eu, deixando escapar uma lágrima.

Rafaela baixou o olhar e disse:

— Já não te amo! Tudo não passou de uma paixão efémera.

— Não acredito. — interrompi eu.

Mas ela continuou:

— Durante o tempo que tenho estado aqui deitada, pude pensar melhor no nosso relacionamento e concluí que é melhor cada um seguir o seu caminho.

Sem ligar às suas palavras, voltei a interrompê-la:

— Não acredito que já não me ames.

— Eu não te amo! Nunca te amei. Apenas me sentia atraída por ti.

As suas palavras feriam-me amargamente. Preferia que ela me apunhalasse o coração e me matasse, a ouvi-la dizer aquilo.

Por entre a tristeza que sentia, reparei nos olhos de Rafaela, que se perdiam na imensidão do quarto, inundados de lágrimas.

— Rafaela! — chamei eu.

Com a voz quase inaudivel, Rafaela disse:

— O que é?

— Rafaela, olha para mim!

Ela ignorou o meu pedido e repetiu:

— O que é?

— Rafaela, olha para mim, se faz favor! — insisti eu num tom mais forte.

A custo, Rafaela levou os seus olhos a encararem os meus.

— Olha-me nos olhos e diz que não me amas. — desafiei eu.

Rafaela, com os olhos húmidos, enfrentou os meus, igualmente húmidos, e disse:

— Marco... eu não... eu não te... Marco, eu não te amo... Vai-te embora, por favor!

Carregando um ódio profundo às suas palavras, voltei-me furiosamente para a porta e caminhei com o intuito de abandonar Rafaela para sempre. Mas, quando apenas escassos centimetros me separavam da porta, uma nova realidade me assolou o pensamento. Só uma coisa poderia justificar aquela atitude.

Voltei-me novamente para Rafaela e afirmei, em tom de interrogação:

— Rafaela, estás a rejeitar-me porque pensas que nunca mais vais voltar a andar!?

De imediato, ela respondeu:

— Não...

Mas a emoção arrebatou-lhe as palavras e Rafaela caiu num choro amargurado.

A sua reacção fez-me ver que acertara na justificação para aquela atitude.

Com o coração angustiado, num amor magoado, vendo-a naquele pranto, corri para ela e sentei-me na cama, abraçando-a e reconfortando-a.

— Eu nunca mais vou voltar a andar. — balbuciava ela.

— Vais sim! — contrapus eu.

— Não vou não. Eu sei que o meu estado é irrecuperavel. — lamentava ela, chorando.

— Tu vais recuperar. E eu vou estar ao teu lado para te ajudar.

— Não! — disse ela. — Eu não quero ser um fardo para ti.

— Qual fardo? Eu amo-te! Quero-te a meu lado até morrer, nem que para isso tenha de te carregar nos braços para todo o lado.

A frase demonstrava totalmente o meu sentimento. Mas, foi um pouco forte para ela. A imagem de ser um peso na minha vida, transtornou-a e levou-a a insistir na sua ideia.

— Marco, vai-te embora.

— Rafaela, eu amo-te. — continuei eu.

Rafaela encarou-me com um olhar sério e terno. E pediu uma última vez:

— Vai-te embora! Eu acredito que me amas e sei como as tuas palavras são sinceras. Mas se me queres demonstrar esse amor, deixa-me sozinha e nunca mais me procures. Sê feliz, pois eu jamais o serei.

As sílabas que proferia, comoviam-me. Com todo o seu amor, ela afastava-me para evitar que a sua situação me atingisse.

Sem conter as lágrimas, completamente desolado, dirigi-me à porta e saí. Mas antes de voltar a fechar a porta, olhei para Rafaela e afirmei:

— Parto por ti, mas jamais serei feliz sem ti!

E fechei a porta como se encerrasse todos os sentimentos que me ligavam a ela, naquele quarto.

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