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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XXXII

Na noite seguinte, depois de regressarmos de mais um dia de treino, Marta recebeu um telefonema de Bento a comunicar que nos ia visitar. Marta ficou felicissima com a notícia. E na manhã seguinte, daquele primeiro dia de Dezembro, lá chegou Bento às Canárias, para passar o fim-de-semana prolongado com Marta.

Como fomos buscar Bento ao aeroporto, nessa manhã não houve treino.

Quando o trouxemos para o hotel, já era hora de almoço. Marta levou Bento para o seu quarto, enquanto eu e Rafaela os esperámos na mesa do restaurante do hotel.

Dez minutos depois, Bento e Marta juntaram-se a nós.

— Bento, a viagem correu bem? — perguntei eu.

— Mais ou menos. — respondeu Bento. — O serviço do avião não era dos melhores.

— Como é que estão a coisas lá por Lisboa? — perguntei eu.

— Vão bem. — informou ele. — Tu tens falado com os teus pais, não tens?

— Todos os dias. — confirmei eu.

Depois de algumas garfadas de intervalo na conversa, Bento confessou:

— Estava cheio de saudades da minha querida Marta.

Marta respondeu, levando o seu braço ao pescoço de Bento e beijando-o com amor.

— E vocês? Têm-se divertido por cá? — perguntou ele.

Marta, sorrindo, disse:

— Mais ou menos. São os dias inteiros a treinar.

A refeição prolongou-se até às 13h00. Findo o almoço, Marta lembrou-nos o treino da tarde.

— Vocês podem treinar sozinhos? — indagou Bento.

— Podemos! Porquê?

— É que eu tenho que pôr a "conversa" em dia com a Marta. Por isso, daqui a pouco, vamos até lá cima ao quarto "conversar".

Eu sorri, percebendo o que ele queria dizer.

Uma hora depois, Rafaela e eu fomos treinar para o areal da ilha, deixando o casal apaixonado a amar-se no seu quarto.

No Sábado que se seguiu cumprimos escrupulosamente o esquema de treinos. E tanto no da manhã como no da tarde, tivemos a companhia de Bento. A sua presença possibilitou a execução de dois jogos de treino entre nós. O vencedor foi o menos importante.

À noite, durante o jantar, perguntei a Bento quando regressava.

— Domingo à tarde. — informou ele com alguma tristeza.

— Podias meter uns dias de férias e ficar cá connosco até nos irmos embora. — sugeri eu.

— Não pode ser. — disse ele.

— Era tão bom ter-te cá. — exclamou Marta.

— Não posso! — reafirmou Bento. — Os dias de férias ainda dava, mas não tenho dinheiro para ficar aqui.

Eu dei uma gargalhada e disse:

— Ó Bento, isso não interessa. A estadia fica por minha conta. Telefona para Lisboa e avisa-os que vais ficar por cá.

— Marco, não te quero dar essa despesa. — recusou Bento.

— Não é a mim. — esclareci eu, sorrindo com a sua preocupação. — É ao patrocinador. E esse pode muito bem pagar a estadia de mais um.

Perante estas condições, Bento acabou por aceitar a proposta.

A estadia nas Ilhas Canárias prolongou-se por mais uma semana. Os dias repetiram-se com os treinos diários e o respeito por uma preparação rigorosa.

O regresso a Lisboa aconteceu no dia 10 de Dezembro, ao fim da tarde de um Domingo húmido.

Quando chegámos ao Aeroporto da Portela, éramos esperados pelos meus pais. Apesar de ter declinado a oferta por telefone, os meus pais fizeram questão de nos ir esperar ao aeroporto.

Eu e Rafaela seguimos no carro dos meus pais, enquanto Bento e Marta seguiram no dele, pois deixara-o no parque quando partiu ao nosso encontro.

Antes de irmos para casa, fomos deixar Rafaela à sua. Bento e Marta não nos acompanharam, seguindo directamente para o prédio onde morávamos.

O meu pai parou em frente à residência de Rafaela.

Com a simpatia que lhe era caracteristica, a minha namorada despediu-se dos meus pais e dirigiu-se a mim.

— Adeus, amor. — disse ela, despedindo-se com um beijo apaixonado.

— Adeus! Amo-te! — retribui eu.

Rafaela sorriu e tornou a beijar-me. Estava a custar-nos voltar a separar-nos. Nós que nos habituaramos, nessas três últimas semanas, a viver juntos.

— Amanhã à tarde, passo por aqui para sairmos. — disse eu, numa última despedida.

— Combinado, meu amor. Cá te espero.

E a custo, lá regressei ao carro e ela a sua casa.

Após o fecho da porta, o meu pai arrancou rumo à nossa casa. Seguiu pelas ruas iluminadas. Dentro do automóvel, eu contemplava aquelas luzes brilhantes que embelezavam as ruas, em arcos que ligavam ambos os lados das avenidas. Todo aquele brilho mostrava o aproximar de uma época única do ano, o Natal.

No entanto, o meu pensamento conservava a imagem de Rafaela. Não havia cinco minutos que a deixara à porta de casa e já sentia saudades dela como se não a visse havia anos.

Ao entrar em casa, dirigi-me ao quarto para deixar as malas de viagem. Pousei-as no chão, despi o casaco e substitui os sapatos que calçava, pelos meus confortáveis chinelos.

— A Mónica? — perguntei eu ao meu pai que pousava no chão a última mala.

— Deve estar na sala. — disse ele.

Eu saí do quarto e fui à procura da minha prima, de quem sentia muitas saudades.

Ao entrar na sala, dei com Mónica, de barriga visivelmente mais crescida, a enfeitar a árvore de natal.

— Olá, Mónica! — chamei eu.

Ela virou-se e, ao ver-me, apressou-se a abraçar-me e a beijar-me o rosto com carinho.

Quando a abracei, choquei docemente com a sua barriga. Mónica afastou-se ligeiramente e, passando a mão pelo ventre, disse:

— Já reparaste? Está cada vez maior.

— Estás linda. — disse eu, elogiando a sua beleza de mulher grávida. — E aí dentro, deves trazer mais uma beleza para o mundo.

Mónica sorriu e agradeceu o elogio.

Até ao jantar, fiquei na sala a ajudar a minha prima a enfeitar a árvore. Toda a sala de jantar ficou engalanada com luzes e fitas brilhantes que davam um belo colorido à divisão. A árvore era apenas uma parte dos enfeites. Eu e Mónica distribuimos as luzes pelos armários, reposteiros, paredes, candeeiro, etc... Até ficar um ambiente luminoso, homenageando a quadra festiva.

Após o jantar, telefonei ao Humberto. Havia já algum tempo que não falavamos. Contactei-o para o avisar da minha chegada. Depois dos cumprimentos habituais, Humberto perguntou-me como tinha corrido a estadia nas Canárias.

— Correu bem. — respondi eu. — Mais trabalho do que prazer.

— Treinos, não é?

— Claro! — confirmei eu. — Aproxima-se o começo do campeonato. E é preciso que estejamos na melhor forma possível.

— Concordo.

— E por cá? Tem corrido tudo bem? — questionei eu.

Humberto fez um pequeno silêncio e respondeu:

— O tempo tem estado mau...

— Só isso? — inquiri eu, gracejando com a falta de assunto.

Humberto denotava uma voz preocupada e, com algum custo, comunicou-me algo mais sério:

— Ouve, Marco... Isto pode parecer absurdo... Pode até nem ser nada.

— Conta! — pedi eu. — Algum problema contigo?

— Não, comigo não. Pode ser é para a Rafaela. — afirmou ele, cuidadosamente.

— Porquê? O que aconteceu? — interroguei eu, já muito preocupado.

Humberto aconselhou calma e explicou:

— A Liliana contou-me que ouviu o Tiago a dizer que se havia de vingar de ti e da Rafaela. Pessoalmente, não acredito que tente nada contra ti. Mas contra a Rafaela já não tenho tanta certeza.

— Deixas-me apreensivo.

— Não fiques. — disse ele. — Tudo pode não passar de falso alarme. Já sabes que "cão que ladra não morde".

— Talvez, Humberto, talvez...

O telefonema terminou pouco depois. Porém, a minha preocupação não cessou. Sabia que Tiago era capaz de fazer alguma loucura. Não sei porquê, não o via a atentar contra mim, mas sim contra Rafaela.

Na tarde seguinte, como combinado, fui buscar Rafaela a casa para sairmos juntos. Decidimos ir ao cinema, ver um daqueles filmes sem interesse. O nosso único objectivo era sentarmo-nos na última fila e ficarmos a namorar, descontraidamente, naquela escuridão.

O filme terminou pouco depois das 17h00. Quando saimos da sala de cinema, Rafaela reparou que se havia distraido e trazia a camisa desapertada até ao umbigo.

— Espera! — pediu-me ela, levando a mão aos botões.

Eu coloquei-me à sua frente e escondi a sua aflição.

O dia estava bonito com o Sol a aparecer várias vezes, mas com a temperatura muito baixa. Rafaela escondia-se no seu longo sobretudo de pêlo, agasalhando-se do frio. E eu resguardava-me dentro da minha velha parca, oferecendo um dos meus braços para abraçar Rafaela.

— Não deviamos ter feito aquilo, lá dentro. — lembrou ela.

— Porquê? — questionei eu, discordando.

Rafaela olhou para mim e, com os olhos cheios de ternura e paixão, disse:

— Porque me deixaste excitada. Ou já te esqueceste onde me andaste a tocar?

Eu sorri, parámos e abracei-a, envolvendo-a num profundo beijo enamorado.

— Queres ir a minha casa? — convidei eu no breve momento em que os nossos lábios se separaram.

Ao ver o meu olhar, Rafaela percebeu o teor do convite.

— Com prazer. — aceitou ela, colando novamente os seus lábios aos meus.

Naquela tarde, o meu pai permanecia no emprego, enquanto a minha mãe pedira dispensa, da parte da tarde, para acompanhar a minha prima ao médico. Mais uma consulta para observar o estado da gravidez. Assim, a casa estava à nossa disposição para fazermos o que quisessemos.

Rafaela e eu caminhámos até ao meu prédio. Não era um caminho muito longo, pois só tinhamos que atravessar a Avenida de Roma até à Avenida do Brasil e subir, um pouco, esta última.

Enquanto andavamos, eu perguntei:

— Tens visto o Tiago?

Rafaela estranhou a minha pergunta. E eu expliquei:

— Parece que ele fez algumas ameaças...

— Que ameaças?

Transparecendo alguma tranquilidade, comuniquei:

— Anda para aí a dizer que se vai vingar de nós.

— O Tiago é estupido. — disse ela, de imediato, procurando disfarçar a preocupação.

No entanto, eu continuei:

— Tu que o conheces melhor, achas que ele é capaz de alguma coisa?

Rafaela, com um semblante apreensivo, disse:

— Bem... Tu viste o que ele me fez. — Mas, depois colocou um sorriso forçado e contrapôs. — Ele é parvo. Diz coisas só para aborrecer as pessoas. Não me parece que ele tente alguma coisa contra nós. Ele sabe que nunca me terá de volta. Não, agora que encontrei o amor da minha vida.

As suas palavras sensibilizaram-me e levaram-me a beijá-la com ternura, mais uma vez. E a preocupação ficou esquecida.

Uma vez em minha casa, encaminhei-a, por entre beijos, para o meu quarto. Espalhámos a roupa pelo soalho dos meus aposentos e abandonámo-nos sobre a cama.

Por toda a casa, invadindo o silêncio, ecoavam os sons de excitação que provinham do interior do quarto.

Hora e meia mais tarde, já em silêncio e repousando entre os lençois da cama, Rafaela e eu apercebemo-nos da chegada de alguém à casa.

— Deve ser a minha mãe e a Mónica. — adivinhei.

Como não queriamos ser apanhados em práticas tão intimas, ambos saltámos da cama e corremos à procura das roupas espalhadas.

— Não encontro as cuecas. — avisou Rafaela, em pânico.

— Procura! Elas não fugiram. — disse eu, vestindo-me atabalhoadamente.

Minimamente composto, saí do quarto e deixei Rafaela a recompôr-se. E ao sair, dei logo de caras com a minha mãe e a minha prima.

Dei um beijo a cada uma e disfarcei a atrapalhação que sentia.

— Que se passa? Pareces pálido. — disse a minha mãe.

— Quem? Eu? Não, é do frio. — contrapus eu.

Ambas ficaram desconfiadas. Mas, ao verem Rafaela a sair do quarto, perceberam o que se havia passado e o que interromperam.

Indiferente a isso, a minha mãe cumprimentou Rafaela e foi seguida por Mónica.

— Jantas connosco? — convidou a minha mãe.

— Não sei... — hesitou Rafaela.

— Faço questão. — insistiu a minha mãe.

— Está bem. Obrigado. — aceitou Rafaela.

A minha mãe e a minha prima seguiram para a cozinha. E eu, num sussurro, perguntei a Rafaela:

— Encontraste-as?

— Não, não sei onde as pus. — disse ela, sussurrando e com um ar receoso.

Como não havia nada a fazer, pusemos a procura de lado e fomos para a sala. E Mónica veio fazer-nos companhia.

Entretanto, a minha mãe chamou-me. E eu fui ao seu encontro na cozinha.

— Toma! — disse a minha mãe, entregando-me um par de cuecas de mulher, em renda e de cor preta.

Eu reconheci imediatamente as cuecas de Rafaela. Não fui capaz de dizer uma palavra e fiquei petreficado em frente à minha mãe.

— Então, Marco. Não faças essa cara de estranheza. — disse a minha mãe. — Eu sei o que tu e a tua namorada estiveram a fazer. E até acho muito bem que o façam. Mas, não espalhem a roupa pela casa.

Eu sorri e ofereci-lhe um beijo na face, agradecendo a sua compreensão. Depois, peguei na peça de roupa e perguntei:

— Onde estavam?

— Atrás da porta de entrada. — informou a minha mãe.

Sorrindo e, voltando a agradecer-lhe, regressei à sala e entreguei a Rafaela, disfarçadamente, aquela peça desaparecida.

Ela recebeu-a, percebendo o que lhe estava a dar e guardou-a. A seguir, afastou-se e foi à casa-de-banho para as restituir ao seu lugar.

Ao jantar, acompanhámos a refeição com conversas sobre as nossas vidas. O meu pai, à cabeça da mesa, perguntou:

— Mónica, como correu a visita ao médico?

— Bem! — respondeu ela.

A minha mãe completou:

— O médico diz que ela está bem. A gravidez está a evoluir bem e o bebé parece estar saudável.

— Ainda bem. — respondeu o meu pai, suspirando de alivio, pois receava alguma complicação.

Rafaela, pousando o copo, olhou para a minha prima e perguntou:

— Mónica, preferes rapaz ou rapariga?

Mónica sorriu, olhou-a e respondeu com seriedade:

— Tanto faz. Desde que nasça com saude.

Os diálogos continuaram. Falou-se da época natalícia, aproveitando os meus pais para convidarem Rafaela para a Consoada. Falou-se dos nossos treinos e do dia a dia.

Findo o jantar, Rafaela despediu-se de todos e pediu-me que a levasse a casa. Claro que nem era preciso pedir, pois eu não a deixava ir sozinha.

— Eu não demoro. — avisei eu, despedindo-me.

Rafaela e eu saimos de casa e fomos a pé. Assim, demorávamos mais tempo e aproveitavamos para estar juntos. A nossa relação estava tão sólida e nós tão apaixonados que tinhamos dificuldade em suportar os breves momentos em que não estavamos juntos.

Eu sentia-me felicíssimo com aquele relacionamento. E Rafaela também. Éramos um casal de namorados, perdidamente, apaixonado.

Enquanto caminhavamos pela noite fria, eu dizia:

— Já te disse que te amo?

— Uma infinidade de vezes. — respondia ela, sorrindo e enternecida com as minhas palavras.

Eu olhei-a nos olhos e acrescentei:

— Nunca serão suficientes para te demonstrar o quanto te amo.

E tudo terminava num longo beijo, profundo e apaixonado.

A iluminação da avenida abrilhantava a nossa caminhada. E num passo vagaroso, ambos nos dirigimos por aquela linha recta.

Abraçado a Rafaela, eu imaginava, ao passar por baixo da iluminação, que me dirigia ao meu casamento, abraçando a minha linda e apaixonada noiva.

Minutos mais tarde, estando já a dar os últimos passos em direcção ao prédio de Rafaela, avistámos um vulto junto à porta. A escuridão não nos permitia observar a identidade da pessoa. Porém, isso não nos amedrontou e continuámos a passada.

Cinco metros mais à frente, Rafaela abrandou o passo e obrigou-me a fazer o mesmo. Àquela distancia, ela reconhecera o indivíduo.

— É o Tiago. — informou ela, sussurrando com a voz trémula.

— Calma! — aconselhei eu. — Eu estou aqui e ele não te vai fazer mal.

Naquele momento, aparentei um ar calmo. Mas, no meu interior, receava os intentos que Tiago teria com a sua presença ali.

Ao ver-nos, Tiago afastou-se da porta e caminhou na nossa direcção. Estava estranho, pois caminhava desamparadamente numa trajectória aos zig-zags. Enquanto andava, mantinha as mãos resguardadas nos bolsos do blusão.

Rafaela, de mão dada com a minha, estava gelada e tremia mansamente. Não sei o que lhe ia na cabeça, mas notava-se que a presença de Tiago a deixava amedrontada.

Muito devagar, seguimos todos em rota de colisão. E quando apenas dez metros nos separavam, todos parámos.

— O que queres? — perguntou Rafaela, num tom rude e receoso.

— Quero-te a ti. — respondeu ele com uma voz rouca.

A pouca luz da rua, permitiu-me observar os seus olhos. Estavam avermelhados, o que me levou a suspeitar que ele estivesse embriagado. Por isso, num tom calmo e apaziguador, disse:

— Ouve! Vai para casa. Não me parece...

— Cala-te! Ninguém falou contigo. — interrompeu ele.

A minha vontade foi sová-lo mesmo ali no meio da rua. Mas, mais uma vez, atendendo ao seu estado, preferi condescender.

No entanto, Rafaela rebateu a sua rudeza:

— Ó Tiago, deixa-me em paz. Vai-te embora de um vez.

— Cala-te, puta! — respondeu ele.

Aquela frase era demais. Insultos contra mim ainda podia suportar, mas contra Rafaela não. Em consequência disso, tive o impulso de me atirar a ele.

Porém, Tiago ainda guardava uma surpresa. Uma pistola que trazia no bolso direito e que retirou para travar a minha investida.

— Cuidado, Marco. — avisou Rafaela, segurando-me o braço.

Todos os meus movimentos cessaram.

— Calma! — disse eu, confrontando Tiago com o olhar. — Isso pode disparar.

— E vai disparar. — disse ele. — Vou dar-te um tiro e tirar-te para sempre do meu caminho.

Rafaela voltou a puxar-me, como se tentasse proteger-me. Mas eu permanecia ali com o intuito de encobrir Rafaela para que ele não a tentasse alvejar.

— Tem calma. — insisti eu. — Não faças nenhuma loucura de que te possas vir a arrepender. Tu não queres fazer mal a ninguém.

— Estás enganado. — contrapôs ele, sorrindo como um louco. — Quero fazer-te mal e tenho a certeza de que jamais me arrependerei.

— Mas que mal é que eu te fiz? — questionei eu, tentando ganhar algum tempo.

Tiago ficou sério, abriu os olhos como um louco e franziu o rosto com raiva. E continuando a apontar a arma, disse:

— Se não fosses tu, ela já tinha casado comigo. Mas, não faz mal. Depois de te matar, ela casa comigo, pois já não estarás cá para te intrometer na nossa vida.

Ao ouvi-lo, Rafaela puxou-me violentamente para o seu lado e disse:

— Não sejas doido! Eu não casaria contigo, se fizesses uma loucura dessas. Mas, se deixares o Marco ir-se embora, eu prometo-te que casarei contigo.

— Que dizes? — interroguei eu, olhando-a numa mistura de censura e medo.

— Se não o fizer, ele mata-te. — lembrou ela.

— Que mate. — disse eu com desprezo por Tiago. — Eu nunca te deixarei casar com este louco.

— Eu não sou louco. — interrompeu Tiago, gesticulando a arma com o intuito de se servir dela.

Rafaela, ao vê-lo, gritou:

— NÃO!

Tiago disparou a arma na minha direcção. Mas, Rafaela atirou-se para a minha frente, oferecendo o corpo à bala.

O projectil atingiu-a no peito e projectou-a contra mim, atirando-nos ao chão. Rafaela ficou caida sobre mim, completamente inanimada.

Ao vê-la com os seus olhos fechados e sem sinais de vida, temi o pior.

— Rafaela! Rafaela! — chamei eu. — Abre os olhos, amor! Abre os olhos! Por favor não me abandones.

De arma em punho, Tiago ficou petreficado e aterrorizado com o destino da bala.

— Cabrão! Já viste o que fizeste? — questionei eu, furioso e desesperado com o estado de Rafaela.

Aquele louco não me respondeu. E com um aspecto insano, dizia:

— Matei-a. Eu não queria... Matei-a... Matei-a... Ma...

E num acto treslocado, levou a pistola à cabeça e voltou a carregar no gatilho, fazendo ecoar pela avenida um novo disparo. Caiu de imediato morto sobre a calçada com a cabeça a sangrar com o ferimento do tiro.

Foi chocante, mas eu não me importei com ele. A minha preocupação era o meu amor que ali estava a cobrir o meu corpo, com o peito em sangue e sem se mexer.

— Rafaela! Abre os olhos, por favor. — pedia eu, em desespero, abanando-a como se a tentasse despertar. — Amor! Rafaela! Mexe-te, amor.

Levei os dedos ao seu pescoço, mas não senti qualquer pulsação. As lágrimas começaram a inundar-me os olhos. Saí debaixo dela e continuei:

— Rafaela! Rafaela! Abre os olhos, amor. Abre os olhos... Não me abandones... Rafaela! Não morras, por favor... NÃO MORRAS!

Julguei-a morta e perdi-me num choro desesperado.

Os sons dos tiros atrairam várias pessoas que se apressaram a auxiliar-me. Houve um senhor que se aproximou de mim e disse:

— Tenha calma. Já chamámos uma ambulância.

Mas nada me poderia acalmar do desespero que sentia. Só a visão de Rafaela, em perfeita saúde, me devolveria a serenidade.

Seguiu-se uma voz conhecida:

— Rafaela? Marco? Meu Deus, o que aconteceu?

Liliana ouvira os disparos e correra a ver o que se passara.

Por entre as lágrimas, ainda tentei balbuciar algumas palavras. Mas não fui capaz de dizer nada.

Liliana ajoelhou-se ao meu lado e tentou reconfortar-me. E a ambulância nunca mais chegava.

Enquanto abraçava o corpo de Rafaela e o repousava nos joelhos, olhava para o seu rosto pálido.

— Deviam avisar a familia. — disse alguém, por entre os populares curiosos que nos observavam.

Liliana olhou para mim e disse:

— Tenho que avisar os pais dela. Eles estão em casa dos pais do Tiago.

Sabê-los lá, ainda me gerava mais raiva e ódio por eles. Todo o ódio que sentira por Tiago se tranferira para os pais de Rafaela que sempre encobriram as atitudes dele.

A ambulância chegou. Liliana suspendeu a sua ida para casa, onde telefonaria para a residência dos pais de Tiago, e ficou a observar os procedimentos.

Era um veículo do INEM (Instituto Nacional de Emergência Médica). Dois enfermeiros sairam da carrinha e apressaram-se a socorrer os feridos.

— Esse está morto. — avisei eu, vendo um deles dirigir-se ao corpo de Tiago.

Ambos concentraram a sua atenção em Rafaela. Colocaram-na numa maca e começaram a efectuar os primeiros socorros.

Levaram-na para o interior da carrinha e ligaram-na ao equipamento médico da ambulância.

Atrás da ambulância, chegou um carro da policia. Dois agentes começaram a tomar conta da ocorrência.

Um dos enfermeiros dirigiu-se a mim e perguntou:

— Você está ferido?

— Não! Ela é que está muito mal. — respondi eu, apontando para o corpo de Rafaela que já se encontrava no interior da ambulância.

— Não se preocupe. Nós tratamos dela. — disse o indivíduo.

— Posso ir com vocês? — pedi eu.

— É da familia?

— Não. Sou o namorado.

— Tudo bem. Pode vir. — concordou ele.

Após a minha entrada no veículo, para a acompanhar, a ambulância arrancou rumo ao Hospital de Santa Maria.

Numa velocidade de emergência médica, a viatura afastou-se daquele local tão trágico, como ficaria marcado na minha memória para sempre, para o resto da minha vida...

Dos dois veiculos, apenas o da policia permaneceu no local. Tendo os agentes ouvido as testemunhas, se é que as houve.

Sentado no interior da ambulância, vi os enfermeiros lutar para manter Rafaela viva. Tinha uma mancha enorme de sangue no peito e não reagia a nada. O único sinal de que estava viva era o piar fraco do seu batimento cardiaco que um dos aparelhos analisava.

Completamente paralisado, chorei desesperado ao ver a sua vida partir lentamente...

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