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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XXVIII

Mesmo depois de retornar a casa, não deixei de pensar na mulher que tanto amava. Aquela tarde de Sábado estava a tornar-se demasiado penosa. A partida de Rafaela deixara-me um enorme vazio. Sentia-me só, longe de metade do meu coração. Ficquei muito tempo deitado na cama a recordar os momentos vividos com Rafaela.

A absorção dos meus pensamentos levou-me a esquecer que estava sozinho em casa. E, enquanto recordava, ouvia um ruido incomodativo, vindo do exterior do quarto. Era tão incomodativo que captou a minha atenção, por completo.

Nada de especial, era apenas a campainha da porta.

Levantei-me e fui abrir. Tratava-se do meu amigo Bento.

— Estavas a dormir? — perguntou ele, entrando.

— Quase. — respondi eu.

— Logo vi. Estou aqui a tocar, há mais de dez minutos. — explicou Bento.

Eu encaminhei-o para a sala e ambos nos sentámos a conversar.

— Então, a Rafaela? — inquiriu ele.

— Foi-se embora. Decidiu passar uns tempos em casa dos tios, em Espanha.

— Fez bem! — concordou ele. — O pior é para ti que estás longe dela.

— Paciência. — disse eu. — Se é o melhor para ela... Tudo bem.

Bento deu-me uma palmada nas costas para me reconfortar e mudou de assunto:

— Olha! Ando à procura de alguém que queira alugar um quarto.

— Porquê? — questionei eu.

— Estou farto de ficar alí sozinho. — confessou ele. — E como a casa é grande, podia ganhar algum dinheiro alugando o outro quarto da casa.

— Tu é que sabes. — disse eu.

— Vê lá, se souberes de alguém, diz-me. — pediu ele.

— Está descansado. — concordei eu.

Bento não ficou muito mais tempo, pois tinha um assunto importante para tratar. Curiosamente, quando ele saiu, chegaram os meus pais.

Depois do jantar, como estava sozinho, decidi ir visitar Marta ao hotel. Saí de casa e segui de carro até ao edifício onde ela se encontrava hospedada.

Mal me viu, Marta ficou radiante com a minha visita.

— Nunca mais me vieste ver. — queixou-se ela. — Desde que cheguei que não saí do hotel. Mal conheço a cidade. Sempre esperei que me viesses visitar.

— Desculpa, Marta. — pedi eu. — Mas, aconteceram outras coisas...

Nos minutos que se seguiram, contei a Marta tudo o que se passara nos últimos dias até à partida de Rafaela.

Marta ficou espantada com o meu relato.

— Parece uma cena de filme. — disse ela, quase não acreditando no que lhe contara.

— E tu? Como tens passado? — perguntei eu, aconchegando-me no sofá.

— Já te disse. Tenho estado aqui, no hotel. Mas, o pior é que a hospedagem é muito cara. E eu não tenho dinheiro para ficar aqui indefinidamente.

— Compreendo! — disse eu, procurando uma solução para o seu problema.

Marta levantou-se do sofá e foi buscar uma bebida. E eu continuava a pensar, até que me lembrei de algo.

— Marta! Já pensaste em alugar um quarto? — inquiri eu.

— Alugar um quarto onde? — perguntou ela.

— No meu prédio. — disse eu.

— Deixa-me adivinhar. Em tua casa e no teu quarto. — disse ela com um sorriso brincalhão.

— Não!

— É pena. — lamentou ela.

Eu, com uma voz séria, expliquei:

— É um amigo meu que mora no meu prédio. Ele está separado da mulher e, como a casa é grande, decidiu alugar um dos quartos. Se quiseres, posso falar com ele.

— Se o preço for bom, pode ser que me interesse.

— Então, passa por minha casa, amanhã à tarde. — sugeri eu.

— Vamos ver se dou com ela. — avisou Marta.

— É facil. — disse eu. — Deixo-te a morada. Metes-te num táxi e vais lá parar.

Marta sorriu e concordou com a ideia.

No outro dia de manhã, fui falar com Bento e contei-lhe que tinha uma pessoa interessada. Ele ficou contente e combinámos uma visita à casa para a tarde.

Perto das 16h00, a campainha da minha casa tocou. Fui ver quem era e encontrei Marta a subir a escada.

— Estava a ver que não encontrava a casa. — disse ela, ofegante, ao mesmo tempo que subia as escadas.

— Parece que vieste a correr. — tentei eu, adivinhar.

— Não. Vim a andar. — contou ela.

— Desde o hotel? — perguntei eu, incrédulo.

— Não. Que disparate! Só que, como não sabia ao certo a localização do prédio, pedi ao motorista para me deixar ao fundo da Avenida do Brasil e vim o resto a pé, procurando este número.

Eu dei uma valente gargalhada com o relato da sua aventura. Andar desde a Cidade Universitária até minha casa, ainda era uma caminhada considerável.

Após Marta descansar, levei-a a casa de Bento.

Ao vê-la, o meu amigo Bento ficou encantado. Apresentei-os e ele mostrou-lhe o quarto que pretendia alugar.

Marta gostou da divisão e perguntou:

— Por quanto é que vai alugar?

Bento falou no valor que tinha em mente.

A reacção de Marta mostrou, claramente, que o preço estava acima das suas possibilidades. Desde que decidira terminar a sua carreira no voleibol de praia, limitava-se a viver das suas poupanças. E enquanto não arranjasse emprego, tinha de fazer alguma contensão nos gastos.

— Bento! — chamei eu. — Um preço para amigos.

Bento sorriu e perguntou:

— Quanto esperava que fosse o aluguer?

— Quanto é que pagavas em Espinho? — intrometi-me eu.

Marta olhou para mim e disse:

— Metade! Claro que esperava que aqui fosse mais caro. Mas, este valor é muito alto.

Eu chamei Bento, à parte, e indaguei:

— O que achaste dela?

— Parece simpática. E é muito bonita. — disse ele.

— E não gostavas de a ter cá, a viver contigo?

— Claro! — confessou ele, meio envergonhado.

— Então, faz um preço jeitoso. — aconselhei eu.

— Menos dez? — sugeriu ele.

— Menos vinte. — sugeri eu.

— Menos quinze e não se fala mais nisso. — contrapôs ele.

— Fechado. — concordei eu.

Voltámos ao quarto e Bento comunicou-lhe a decisão:

— Por ser para si, que é amiga do Marco, alugo-lhe o quarto por menos quinzes mil escudos que o inicial.

Marta pensou, pensou e parecia não se decidir.

— Olha que não encontras mais barato. — avisei eu.

— Está bem. Aceito. — concordou ela.

Ambos apertaram as mãos, em sinal de acordo, e eu perguntei:

— Bento, quando é que ela se pode mudar?

— Quando quiser. — disse ele.

— Então, se não se importa, mudo-me já hoje. — sugeriu ela.

Bento concordou. E eu acompanhei Marta, até ao hotel, para teazer as suas malas.

— O teu amigo é muito simpático. — disse ela, entrando no carro.

— É uma excelente pessoa. E um grande amigo. — informei eu, orgulhoso das minhas palavras.

Duas horas depois, estávamos de regresso ao meu prédio. Carreguei as malas dela para casa de Bento e deixei-os a tratar dos últimos pormenores, em relação ao contrato de aluguer.

Fiquei feliz com aquela mudança. Mas sei de uma pessoa que, se soubesse, não ficaria nada feliz. Rafaela.

Passaram-se mais quatro dias, nos quais aliviei as saudades de Rafaela, falando com ela diariamente.

Na Sexta-Feira de manhã, quando recolhi o correio que o carteiro trouxera, fui surpreendido por uma carta de Mónica. Entrei em casa e abri o envelope. Lá dentro, algumas folhas escritas por Mónica, relatando o seu regresso a França. Sem perder tempo, comecei a ler a carta:

"Marco:

Nunca pensei que algum dia te viesse a escrever pelos motivos que hoje faço. Porém, não me resta outra solução, senão pedir o teu auxílio.

Quando cheguei a Bordéus, a casa dos meus pais, fui recebida com grande alegria por toda a minha família. Todos quiseram ouvir as minhas histórias sobre a estadia em Portugal.

No entanto, eu estava preocupada devido ao bebé que trago comigo. E essa foi a primeira história que eu quis contar.

Chamei os meus pais e contei-lhes aquilo que tu já sabes.

Como te cheguei a dizer, receava a sua reacção. Mas nunca pensei que fosse tão dura e intransigente.

A minha mãe acusou-me de ser pior que uma prostituta. Mesmo explicando-lhe que amava o pai da criança, ela não se ralou e continuou a chamar-me o pior que possas imaginar.

Contudo, a reacção do meu pai foi pior. Deu-me duas estaladas na cara e disse que nunca mais me queria ver à frente. Reiterou as acusações da minha mãe e aconselhou-me a não desfazer as malas, pois não me queria mais em sua casa.

Eu fiquei perplexa e completamente desesperada. Vi-me, de um momento para o outro, posta fora de casa e sem ter para onde ir. Ainda pedi que me deixassem passar lá a noite. Talvez eles se arrependessem da decisão. Mas não! Nenhum voltou atrás e puseram-me porta fora, ao fim da tarde do dia em que chegara.

Com a noite como tecto, vaguei sozinha pelas ruas de Bordéus até encontrar um refugio para passar a noite. Consegui auxílio numa igreja da cidade, onde um padre me ofereceu abrigo.

Usei o saco, que carregava, como almofada e deitei-me num dos bancos do interior do edifício.

Estava tão cansada que adormeci, imediatamente.

Porém, as coisas não foram bem como eu esperava. A meio da noite, senti uma mão a tocar-me o braço. Tive medo de abrir os olhos, pois temia o que pudesse ver. Mas, a mão escorregou até à cintura e continuou até encontrar uma entrada na saia. Quando a senti tocar-me nas pernas, abri os olhos e surpreendi o invasor.

Fiquei espantada, ao ver que o próprio padre tentava abusar de mim. Tentei fugir, mas ele agarrou-me, dizendo que tinha de "pagar" a estadia.

Em pânico, atirei-lhe o saco à cabeça e fugi. O padre ficou a cambalear por entre os bancos. Corri para a rua e fugi até me considerar suficientemente afastada daquele local. A minha respiração estava excessivamente acelerada e precisava de descansar. Escondi-me num prédio abandonado e ali fiquei até ao amanhecer, sem conseguir dormir.

No outro dia, continuei a vaguear pelas ruas sem saber o que fazer da minha vida. Não tinha mais nada, para além dos documentos e alguma roupa dentro do saco. E sem dinheiro não pude arranjar comida, passando todo dia sem comer.

Mais uma noite chegou, igualmente fria e húmida como a anterior. Refugiei-me dexaixo de uma escada de uma pensão. Na rua, chovia abundantemente. E eu escondi-me para que não dessem por mim e me pusessem na rua.

Estava num edifício degradante, onde os hóspedes eram, maioritariamente, prostitutas acompanhadas pelos clientes.

Mesmo escondida, não demorou muito tempo até ser descoberta pela dona da pensão. Uma mulher odiosa que se apressou a empurrar-me para a chuva.

Eu implorei para que me desse abrigo, mas ela não se interessou e ameaçou-me que chamaria o marido para acabar comigo.

Sem possibilidades de a enfrentar, ali fiquei, à chuva.

Senti-me miserável. Senti que a minha vida estava desgraçada. A chuva que me caía na cabeça, não me afectava. Tinha vontade de morrer para não sofrer mais.

Só que quando tudo parecia sem solução, apareceu a pessoa que me ajudou.

A sair da pensão, vinha uma prostituta. Deixou o cliente afastar-se e reparou em mim, ali perdida. Era uma mulher alta, de cabelo curto preto, vestindo roupas muito curtas e provocantes, tipicas de uma prostituta de rua.

Olhou para mim e aproximou-se, interpelando-me sobre o porquê de estar ali à chuva.

Sem mais ninguém com quem desabafar, contei-lhe a minha história, o que a deixou indignada. Quando acabei, ela deu-me a mão, disse que se chamava Françoise e que me ia ajudar.

Nessa noite, Françoise levou-me para sua casa. Vivia num apartamento pertencente a um bloco de andares. Não tinha muitas condições, mas esse pouco era dado de boa vontade.

Desde essa noite que tenho vivido em sua casa, enquanto não encontro uma solução para a minha vida. E é por isso que te escrevo, para que me ajudes. Se a oferta de ajuda, que me prometeste, ainda estiver de pé, peço-te que me venhas buscar.

Junto com esta carta, envio-te a morada de onde estou. Por favor, ajuda-me!"

Após a leitura da carta de Mónica, fiquei chocado com a atitude dos meus tios e decidi que faria tudo o que estivesse ao meu alcance para a ajudar.

Saí do quarto e fui falar com os meus pais, mostrando-lhes a carta.

— Nem acredito que a minha irmã tenha feito uma coisa destas. — disse o meu pai.

— Pobre rapariga. — disse a minha mãe indignada.

Eu pedi a sua atenção e comuniquei-lhes a minha intensão:

— Vou a França buscá-la.

A minha mãe sorriu e o seu rosto denunciava o seu orgulho pela minha prontidão.

— Tens a certeza de que o deves fazer? — perguntou o meu pai.

— Ela é minha prima, minha amiga e eu gosto muito dela. — justifiquei eu. — Ela precisa de mim e eu não a vou desiludir.

O meu pai abraçou-me e mostrou-se igualmente orgulhoso pela minha iniciativa. A seguir, olhou para mim com firmeza e disse:

— Tem cuidado. E trá-la para cá que nós cuidamos dela e damos-lhe o carinho que os pais lhe negaram.

— Obrigado! — agradeci eu, abraçando-os.

— Quando é que partes? — perguntou a minha mãe.

— Amanhã. — informei eu. — Vou de carro.

— Vai de avião que nós pagamos. — sugeriu o meu pai.

— Não, obrigado. — disse eu. — Já sabem que não gosto muito de aviões. E além disso, gosto muito de conduzir.

Eles sorriram e aceitaram a minha decisão.

À noite, enquanto arrumava a mala para a viagem, fui visitado por Humberto que me convidou para tomar um café.

— Não posso. — recusei eu, contando seguidamente o porquê da recusa.

Humberto ficou estupfacto com a história. Parecia-lhe impossível que tal fosse verdade.

— Posso ir contigo? — perguntou ele, para meu espanto.

Eu olhei-o com desconfiança e ele esclareceu:

— Não penses que continuo apaixonado pela Mónica. Não, bem pelo contrario! Estou apaixonado pela Liliana e amo-a muito. Mas simpatizo com a Mónica e sinto que deves ir acompanhado. Não é bom viajar, assim tantos quilometros, sem descansar. E para não perdermos tempo, revezamo-nos na condução.

— Está bem! — concordei eu, agradecendo a sua disponibilidade e amizade.

Combinámos encontrarmo-nos, na manhã seguinte, ao amanhecer.

No entanto, havia uma pessoa que tinha de ser novamente chamada à responsabilidade. Por isso, telefonei a Cajó. Mas, mais uma vez, Cajó se demarcou do assunto e disse que não queria saber da minha prima. Antes de desligar, chamei-lhe vários nomes para descarregar a minha ira e disse-lhe que nunca mais falasse comigo.

A noite passou. E mal ela dava lugar ao dia, já eu e Humberto iamos na estrada rumo a Bordéus.

Pouco depois das 07h30, entrámos na IP5, em direcção a Vilar Formoso. Mais duas horas e meia de viagem, até chegar à fronteira. Conduzi com muita precaução, pois tratava-se de uma estrada extremamente perigosa. Após atravessar a fronteira, continuámos pela E80 até Ciudad Rodrigo, onde parámos para comer qualquer coisa.

À entrada da cidade havia uma estação de serviço com um pequeno restaurante. Para minha surpresa, Humberto sabia falar muito bem espanhol. Por isso, encarregou-se dos pedidos. Era um local acolhedor, o que nos fazia sentir bem, devido ao frio e ao céu cinzento do exterior. Tomámos um café e comemos um bolo. E às 11h30 retomámos o nosso caminho.

Arranquei com o carro e segui pela mesma estrada até Salamanca. O tempo estava cada vez pior, tendo começado a chover pouco antes de chegarmos à cidade.

Humberto olhou para o céu e disse:

— Marco, está a começar a chover. Podiamos parar um bocado, almoçávamos e, depois, voltávamos à estrada. Podia ser que tivessemos sorte e a chuva parasse.

Eu olhei para o relógio e, como já era meio-dia e meia, concordei com ele.

Estacionei o carro no parque de um belo restaurante, no centro da cidade. Tinha um enorme salão e muita gente nas mesas.

Por sorte, conseguimos uma mesa junto à janela. Dalí, podiamos ver o carro e o estado do tempo.

Deliciámo-nos com um belo peixe grelhado, uma especialidade da casa e também muito caro.

Enquanto comiamos, vimos o tempo piorar cada vez mais. A chuva tornou-se torrencial.

— Não podemos ficar à espera que a chuva pare. — disse eu.

Humberto olhou para o exterior e sugeriu:

— Vamos esperar um pouco. Pode ser que abrande.

Aguardámos até às 15h00, altura em que, independentemente do tempo, decidimos voltar à estrada. Corremos até ao carro e entrámos numa corrida para nos molharmos o menos possível.

Debaixo de um tempo péssimo e de uma chuva medonha, retomámos o nosso caminho. Eu conduzia com mil cuidados, pois a minha visibilidade não excedia os vinte metros. Para lá disso, só luzes brancas ou amarelas, consoante os carros que se cruzavam connosco.

Alternando entre Estrada Principal e Autoestrada, seguimos até Burgos, onde chegámos às 21h10. Jantámos num restaurante local e Humberto propôs que passássemos a noite naquela cidade.

— Não sei, Humberto. Estou preocupado com a Mónica e quero chegar a Bordéus o mais depressa possível. — disse eu.

— Então, o que fazemos? — questionou ele.

— Estava a pensar continuar. — sugeri eu. — Tu conduzias umas três horas e eu dormia um pouco. Depois, tu descansavas e eu fazia o resto do percurso.

— E três horas chegam para descansares? — interrogou ele, duvidando dessa possibilidade.

— Chegam. — confirmei eu.

Com o plano traçado, deixámos o restaurante às 22h15 e Humberto foi a conduzir, enquanto eu dormia um bocado.

Não sei os pormenores do que se passou durante o meu descanso. E quando Humberto me chamou, estávamos parados numa estação de serviço, junto a Vitoria Gasteiz, duas horas mais tarde.

— Marco! — chamou-me ele. — Estou cheio de sono. É um perigo eu continuar.

— Tudo bem! — concordei eu. — Vamos trocar. Este descanso já dá para eu prosseguir.

Humberto e eu trocámos de lugar e eu dei continuidade à viagem. Humberto adormeceu imediatamente.

Liguei o rádio para me distrair e evitar que voltasse a adormecer. Segui pela escuridão da noite, onde a monotonia da estrada era quebrada pelo cruzar com outros carros. Felizmente que durante a noite não choveu.

Passada hora e meia, estava a passar por San Sebastian. Porém, não parei. Apesar de ter apenas duas horas dormidas, não tinha sono e continuava bastante desperto. Ao meu lado, Humberto dormia profundamente.

Às 03h00, já com a janela aberta para que o vento me importunasse e não me deixasse dormir, cheguei a Bayonne. Já passara a fronteira e já me encontrava em território francês. Mais meia hora e parei em Castets, uma pequena localidade junto à N10 de França. Acordei Humberto e pedi-lhe que assumisse o meu lugar, pois estava completamente estoirado. A viagem já durava há mais de vinte e duas horas e eu apenas dormira duas.

Não repitam o que eu fiz, pois foi uma loucura que felizmente correu bem. No entanto, é extremamente perigoso conduzir tantas horas seguidas sem descansar.

Quem já estava repousado era Humberto que tomou os comandos do automóvel e se comprometeu a acordar-me quando chegássemos a Bordéus.

Eram 07h00, quando ele me acordou. Eu abri os olhos e reparei que estávamos em frente a um café de Bordéus. A viagem durara pouco mais de vinte cinco horas.

— Marco, queres tomar um café? — convidou Humberto.

— Pode ser. — respondi eu, ensonado.

Saimos do carro e entrámos no estabelecimento, onde tomámos um café com alguma rapidez. Depois, procurámos um hotel, onde alugámos dois quartos.

Eu fui tomar banho e cuidar da hegíene pessoal, enquanto Humberto fazia o mesmo na casa-de-banho do seu quarto.

A meio da manhã de Domingo, deixámos o hotel e fomos procurar a morada que Mónica me enviara.

De carro, dirigimo-nos à rua endereçada e encontrámos um local muito degradado. Prédios abandonados e outros que tinham aspecto semelhante, mas eram habitados por gente muito pobre.

As ruas estavam húmidas, devido às chuvas da noite. A luz do dia, mal entrava naquelas estreitas vias. Continuámos pela rua até chegarmos ao prédio que tinha o número que procurávamos.

— Olha Marco, é aqui. — avisou ele.

Humberto ofereceu-se para ir perguntar por elas, enquanto eu fiquei no carro.

O edifício tinha seis andares, mas não parecia habitado. Tinha os vidros partidos e não havia sinais de gente nele.

Cinco minutos depois, Humberto regressou e contou:

— Já cá não estão. Encontrei um mendigo que vive na cave. Ele contou-me que elas viviam cá, no último andar, pois era o único com condições. Só que esta noite, a polícia fez uma rusga nesta rua e prendeu todas as que eram suspeitas de se prostituirem. No entanto, elas fugiram com medo e não voltaram.

— E agora, onde as vamos procurar? — interroguei eu.

— Não sei. — respondeu ele.

Sem fazer a minima ideia do local onde as procurar, voltámos ao hotel.

Horas mais tarde, a seguir ao jantar, fomos para a rua e visitámos os locais de "trabalho" das prostitutas de Bordéus.

Humberto de um lado e eu do outro, fizemos perguntas a várias mulheres sobre o paradeiro de Françoise e Mónica. Durante mais de duas horas, interrogámos todas as que encontrámos sem qualquer resultado. Desmoralizados, decidimos regressar ao hotel. Porém, avistámos outra prostituta, um pouco mais abaixo.

Caminhámos até ela e eu perguntei-lhe se as vira.

— Talvez! — respondeu ela, em francês.

— Onde? — perguntei eu, igualmente em francês.

— Quanto é que eu ganho com isso? — interrogou ela.

— Pago-te o mesmo que levas por um serviço completo. — propus eu, aborrecido com o seu materialismo.

— Está bem.

Após o pagamento do seu preço, a mulher contou que as vira numa pensão, não muito longe dali.

Sem perder tempo, Humberto e eu seguimos até à pensão.

Era um lugar imundo, o edifício que dava pelo nome de "Hotel Rouge". Entrámos e perguntámos por elas na recepção.

O homem, de aspecto nojento, respondeu que não as conhecia. Mas a sua memória melhorou, quando lhe coloquei alguns francos na mão. O indivíduo relatou-nos que elas não se encontravam lá naquele momento, mas que voltariam mais tarde.

Nós esperámos até às 03h00, mas elas não apareceram. E Humberto disse:

— O melhor é deixar-lhes um bilhete e voltarmos amanhã.

Eu concordei. Porém, quando me preparava para deixar um bilhete, uma mulher entrou no átrio e informou o indivíduo de que Françoise fora presa.

Eu, ao perceber a notícia, interpelei-a acerca de Mónica. Mas, ela desconhecia o seu destino, limitando-se a fornecer-me o endereço da esquadra para onde tinham levado Françoise. Como já era tarde, retornámos ao hotel. Só no dia seguinte, as continuámos a procurar.

Depois de uma noite e parte da manhã bem dormidas, deslocámo-nos à esquadra para procurar Françoise e saber se ela tinha conhecimento do paradeiro de Mónica.

A seguir a alguma burocracia, foi-nos permitido visitar Françoise numa sala da esquadra.

Um guarda encaminhou-nos até às celas e fez-nos entrar numa sala escura, onde se procedia às visitas.

Eu sentei-me na cadeira e Humberto ficou de pé, encostado à parede.

Um minuto mais tarde, o guarda trouxe Françoise. Nem era preciso dizer que era ela, pois coincidia perfeitamente com a descrição de Mónica.

A mulher sentou-se na outra cadeira, ficando entre nós a mesa que nos separava.

O diálogo foi em francês, mas eu conto-o já traduzido.

— Quem são vocês? — perguntou ela.

— Eu sou o primo da Mónica e este é um amigo.

— E o que querem de mim? — indagou ela.

— A Mónica escreveu-me a dizer que estava consigo. E eu venho saber se tem conhecimento do local onde ela está.

Françoise ficou pensativa. E depois começou a relatar o sucedido:

— Ontem à noite, eu fui trabalhar e ela ficou à minha espera num café. Só que eu tive azar e fui engatar um polícia à paisana. Claro que ele me prendeu. A Mónica deve ter visto e fugiu.

— E sabe para onde ela foi? — inquiri eu.

Françoise sorriu e propôs:

— Se me pagarem a caução, eu levo-os lá.

Como não tinhamos outra solução, eu acabei por aceitar.

Depois da papelada tratada, Françoise levou-nos a um bairro degradado, onde supostamente elas se encontrariam, se algo de mal acontecesse. O local combinado era um armazém abandonado. Nós saímos do carro e fomos ao local procurá-la. Mas não estava lá ninguém.

Furioso e julgando-me enganado, agarrei em Françoise e disse:

— Estou farto de brincadeiras. Sabes ou não, onde ela está?

— Pensei que ela estivesse aqui. — argumentou ela com a voz trémula.

— Tu quiseste foi aproveitar-te de mim para saires da prisão.

— Não. — negou ela. — Juro-lhe que pensei que ela tivesse vindo para cá.

Enervado, atirei-a ao chão e disse:

— Só não te obrigo a pagares-me o dinheiro porque sei que ajudaste a Mónica.

— Eu não tenho dinheiro. — disse ela. — Só te poderia pagar com aquilo que faço na vida.

— Não é preciso. — recusei eu.

Enquanto ela se levantava, eu retirei um cartão com o número de telefone do hotel e entreguei-lho.

— Se souberes alguma coisa, telefona-me.

Françoise guardou o papel. E nós partimos para o hotel, deixando-a naquele lugar horrível.

A situação começava a ultrapassar-nos. Por isso, recorremos às autoridades locais para que a procurassem. E a partir desse momento, só nos restava esperar.

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