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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XXVI

Nunca senti nada tão forte, como o amor por Rafaela. Não a consegui esquecer e, a cada dia que passava, esse amor era maior. Pensei que estava tudo acabado, mas não queria acreditar. Não concebia o meu futuro sem a presença de Rafaela.

No entanto, o que mais me magoava era saber que ela me amava, mas se separara de mim, por ciúmes ridículos.

Estava confuso em relação ao futuro. Mas sabia que tinha de actuar rapidamente, se não queria perder o amor dela... para sempre.

Como não conseguia falar com ela ao telefone, devido à barreira que a sua mãe fazia, decidi esperá-la à porta do seu prédio.

Assim, na tarde de uma Segunda-Feira cinzenta, uma vez que o Outono ia sinalizando a sua aproximação, esperei-a junto à escada de acesso à porta.

Ali fiquei, mais de uma hora. Esperei, esperei, esperei e quase desesperei. Seria possível que ela não saísse de casa? Ou ter-me-ia visto da janela? Quem sabe?

Comecei a ficar cansado e sentei-me nas escadas, com a cabeça caída sobre os joelhos. Fiquei a divagar sozinho, quando uma voz me interpelou:

— Marco???

Eu levantei a cabeça e vi Rafaela na minha frente. Parecia um anjo com o seu olhar meigo e o cabelo ondulado a cair pelos ombros.

— Estás bem? — perguntou ela, pensando que eu me sentia mal.

— Estou! — descansei-a. — Tenho estado à tua espera para conversarmos.

Rafaela passou por mim, em direcção à porta, e disse:

— Não temos nada para conversar.

— Por favor, Rafaela, dá-me uma oportunidade para me ouvires. — implorei eu.

Rafaela ficou pensativa. Tinha vontade de me conceder o pedido, mas o seu orgulho impedia.

— Marco, não piores as coisas. — pediu ela.

— Rafaela! — insisti eu. — Vem comigo. Preciso de falar contigo. Ouve o que eu tenho para te dizer. E depois decide.

Rafaela respirou fundo, pensou um pouco e disse:

— Está bem.

Após conseguir a sua atenção, comecei a falar:

— Rafaela, eu amo-te. Não consigo viver sem ti...

— Isso é conversa. — interrompeu ela. — Se me amasses, tinhas vindo comigo quando regressei.

— Estás a ser injusta. — continuei eu. — Eu não podia abandonar uma amiga.

— Tu não podias abandonar, quem verdadeiramente amas. — voltou ela a interromper.

— Achas que se a amasse, estaria agora aqui a dizer-te isto?

Rafaela calou-se. Ficou silenciosa e olhou-me como quem perdera a razão. Fiquei com a sensação de que me ia dar razão e que voltaria a recuperar o seu amor. Mas, enganei-me.

— Tu queres é as duas. — argumentou.

— Sabes bem que isso não é verdade. — disse eu com um sorriso.

Porém, Rafaela insistiu:

— Tu queres as duas e, em caso de escolha, optas por ela.

— Isso é um absurdo completo. — afirmei eu com alguma irritação na voz.

Rafaela começava a enervar-me com tantas complicações e com tantas dúvidas, sem que eu lhe desse razão para tal.

— Quando é que regressaste? — perguntou ela, perspicazmente.

— Ontem! — respondi eu, sem saber onde ela queria chegar.

— E porquê? — interrogou ela.

— A Marta decidiu mudar-se para Lisboa. — expliquei eu. — E eu esperei por ela para a trazer.

— Estás a ver? Mais uma vez preteriste-me a favor dela. — concluiu Rafaela.

— Não sejas parva. — disse eu, aborrecido. — Tu continuas é com medo de ser amada.

— Não, não tenho medo de ser amada. — disse ela, respondendo às minhas palavras e à minha irritação. — Tu é que não me amas. E se queres que te diga, também não te amo. Tanto que mantenho o noivado com o Tiago.

As suas palavras feriram-me profundamente. Parecia que cada sílaba, saída da sua boca, tinha o objectivo de me magoar. E o diálogo começou a tornar-se numa forte discussão.

— E eu é que te traí, não foi? — interroguei.

— Eu descobri que não me amas. — afirmou ela. — E, por isso, não havia razão para terminar o noivado.

Eu senti-me alvejado nos meus sentimentos. A conversa não nos levava a lado nenhum e começava a humilhar-me.

Rafaela, continuando num tom ofensivo, olhou para mim com desdém e disse:

— O casamento é no Sábado. Estás convidado, se quiseres.

— Vai à merda. — disse eu, odiando-a profundamente. — Tu não és a pessoa que eu amava. Ou melhor, nunca foste. Eu é que vivi iludido.

Nesse momento, Rafaela pareceu tomar consciência das suas palavras. Mas eu estava tão furioso que lhe virei as costas e comecei a afastar-me.

— Marco! — chamou ela.

Eu não liguei e continuei.

— Marco, vem cá. Eu não... — disse ela.

Eu olhei novamente para ela. O seu rosto estava triste e os seus olhos brilhavam com a humidade que tinham. Esperei que ela continuasse, mas ela permaneceu calada.

— Não... o quê? — questionei eu.

— Não quero que tudo termine assim. — esclareceu ela, derramando uma lágrima.

— Isto não tinha que terminar. — disse eu, mais calmo. — Tu é que quiseste acabar.

Rafaela passou a mão no rosto, limpando aquela lágrima traiçoeira, e disse:

— É melhor que termine. Não ia resultar.

Eu fiquei confuso, pois não sabia o que pensar. Esta última conversa magoara-me tanto que me deixava dúvidas acerca de uma coisa que tanta certeza tinha: o amor dela por mim.

Quando reparei nos seus olhos, vi que esperava uma argumentação minha. Porém, a minha boca manteve-se fechada. E o silêncio só foi interrompido por uma voz vinda da porta da rua:

— Rafaela!

Rafaela olhou para trás e viu a sua mãe a chamá-la. Voltou a contemplar-me, mas como a minha postura não se alterou, ela correu para o interior do prédio e deixou-me ali sozinho.

Regressei a casa, vagueando pelas ruas e pensando nela. Com o coração despedaçado, caminhava calmamente pela avenida. Completamente deprimido, constatei que aquilo em que mais acreditara, desaparecera. E cheguei à triste conclusão que a minha relação com Rafaela terminara para sempre.

Cheguei a casa com o espírito arruinado. Sentia que o mundo acabara para mim. Estava totalmente destroçado. Fui para o meu quarto, deitei-me sobre a colcha da cama e fiquei a pensar. A pensar em Rafaela, claro.

Mas não era só eu que estava triste, lá em casa. Também a minha prima Mónica se sentia triste, devido à sua gravidez precoce.

Mónica entrou no meu quarto e, com um ar triste, informou-me que partiria para França no dia seguinte.

— E os teus pais já sabem? — perguntei eu.

— Não. — disse ela.

— E como é que achas que eles vão aceitar a notícia? — questionei eu.

— Não sei. E tenho muito medo da reacção deles. — confessou ela com enorme amargura.

Eu abracei-a e disse:

— Podes contar comigo. Se tiveres problemas e precisares de conversar, telefona-me. Está bem?

Ela sorriu, momentaneamente, e concordou com a ideia.

Eu era a única pessoa com quem ela podia desabafar. Nem os meus pais tinham conhecimento de que ela estava grávida.

Na manhã seguinte, bem cedo, os meus pais despediram-se de Mónica e saíram para o trabalho. Eu fiquei encarregue de levar Mónica ao aeroporto, onde ela iria apanhar o voo que a levaria de volta a França e à sua casa em Bordéus.

Cerca das 10h00, saímos de casa e seguimos para o aeroporto. Uma viagem curta, já que não morávamos muito longe.

Estacionei o carro no parque à entrada do Aeroporto da Portela, retirei as malas do carro e entrei no edifício.

Mónica foi tratar das formalidades da partida e regressou para junto de mim, esperando a chamada de embarque.

Às 11h00, os passageiros foram chamados. Mónica despediu-se de mim.

— Não te esqueças. — lembrei eu. — Se precisares de mim, não hesites em telefonar-me.

— Obrigado, Marco. — agradeceu ela. — Nunca te esquecerei. Foste sempre um grande amigo.

Mónica iniciou a sua caminhada pelo corredor de acesso ao avião. E eu fiquei a vê-la, acenando-lhe sempre que ela olhava para trás.

A seguir à partida do avião, deixei o aeroporto e voltei para casa.

Novamente sozinho, sentei-me no sofá da sala e pensei continuamente em Rafaela e nos bons momento que passáramos juntos.

De súbito, o telefone interrompeu os meus pensamentos. Levantei-me e atendi a chamada.

— Olá, Marco. É o Humberto. — disse a voz do outro lado.

— Tudo bem? — cumprimentei eu.

— Tudo. E tu?

— Mais ou menos.

Humberto começou, então, a explicar o porquê do telefonema:

— Olha! Queres ir ao cinema, logo à tarde? Era para ir com a Liliana, mas ela tem que ir ao médico com a avó.

— Está bem.

— Encontramo-nos à porta do Cinema Londres, certo? — combinou ele.

— Está combinado. — confirmei eu.

Três horas mais tarde, após o almoço, saí de casa e dirigi-me ao local combinado.

Segui a pé, pois o dia estava bom e eu precisava de apanhar ar. Desci a minha avenida e entrei na Avenida de Roma, atravessando-a de ponta a ponta. Pelo caminho, passei à porta de Rafaela, chegando mesmo a parar.

Durante alguns segundos, fiquei a olhar para as janelas de sua casa. Desejava vê-la e observá-la de longe. Mas, ao mesmo tempo, temia ser descoberto e ser tomado por um louco, obcecado por algo que não tinha.

Eu não a vi, nem fui visto. E continuei o meu caminho.

Quando cheguei ao cinema, já Humberto me esperava. Cumprimentámo-nos e entrámos para a sala de projecção, pois ele já comprara os bilhetes.

Era um bom filme, muita acção, muitos tiros, muitos murros e pouca história. Exactamente, o que nós gostávamos.

No fim, fomos ao café do costume, beber uma imperial.

— Grande filme! — dizia Humberto, por entre dois golos de cerveja.

— Foi bom. — concordei eu, lembrando-me que pouca atenção dera ao filme.

A maior parte do tempo, pensei na minha tristeza por estar separado de Rafaela.

— Como é que vão as coisas, entre ti e a Liliana? — indaguei eu.

— Bem. Muito bem, mesmo. — respondeu ele com visível felicidade. — E tu com a Rafaela?

— Terminámos tudo. — disse eu num suspiro.

Humberto lamentou e disse:

— A Liliana disse-me, no outro dia, que vocês se chatearam lá no torneio. Por falar nisso, parabéns! Estou perante um campeão nacional.

— Nem me fales nessa merda. — disse eu. — Foi por causa dessa viagem que nos separámos.

— Deixa lá isso. — sugeriu ele. — Não tarda nada, voltam a estar juntos.

— Duvido, depois da discussão de ontem. — contrapus eu.

— O que aconteceu? — perguntou ele, ignorando o que se passara.

Eu contei-lhe a conversa com Rafaela e ele ficou triste pelo nosso desentendimento. Durante alguns minutos, ficámos em silêncio, como se procurássemos uma solução para o caso. Até que Humberto se pronunciou:

— Achas que se voltassem a falar, resolviam alguma coisa?

— Sei lá. — disse eu. — Mas depois do que se passou ontem, duvido que ela queira falar comigo.

— Acho que tenho uma ideia! — exclamou ele.

— Tu e as tuas ideias...

— Espera, Marco. Ouve! — pediu ele. — Podíamos combinar encontrarmo-nos, logo à noite. Tu esperavas junto à cervejaria, perto do Campo Pequeno. E eu e a Liliana levávamos a Rafaela até lá. Depois, o resto era contigo.

A ideia parecia-me boa, por isso concordei com ela.

— Estás a falar daquela que fica na João XXI? — indaguei eu.

— Sim, essa mesmo.

— Então, está combinado. — concordei. — Encontramo-nos às dez da noite.

Ainda permanecemos mais algum tempo no café. Conversámos sobre vários assuntos. Entre os quais, a não colocação na Universidade por Humberto. Ele também já esperava, pois as notas não eram muito boas. Mas, naquele momento, ficara com um dilema, o que fazer na vida?

Já Liliana tivera mais sorte. Não conseguiu entrar para o Ensino Superior Público, mas os pais pagaram-lhe a entrada numa Universidade privada.

Perto das 19h30, abandonámos o café e regressámos às nossas casas, não esquecendo o combinado.

Após o jantar, vesti-me muito elegantemente. Avisei os meus pais que chegaria tarde e saí. Desci as escadas e caminhei até ao carro, onde me desloquei ao lugar acordado.

A viagem durou quinze minuto. Estacionei o automóvel no Campo Pequeno e segui para a elegante cervejaria da Avenida João XXI.

Entrei, dirigi-me ao balcão e pedi um café. Tomei o café no balcão, uma vez que o estabelecimento é jeitoso, mas não deixa as pessoas sentarem-se nas mesas, a menos que seja para comer.

Não havia muita gente, lá dentro. Muito devido a ser dia de semana. Mas os que estavam, davam vida ao ambiente.

Olhei para o relógio, eram 21h50. A hora aproximava-se e eu estava cada vez mais nervoso. Queria falar com ela. Tinha, mesmo, de falar com ela. Mas, receava um novo fracasso.

Tive vontade de me ir embora. Porém, a minha consciência dizia: "Onde vais, cobarde? Enfrenta a vida! Não fujas à realidade! Sê homem e luta pelo que desejas!"

A minha consciência tornava-se chata. Parecia a voz do Bento, quando eu não seguia os seus conselhos.

Pouco antes das 22h00, a porta do estabelecimento abriu. Do local onde me encontrava, apenas via os pés das pessoas. Vi um par de pés de homem, um par de pés de mulher, usando calças, e um par de pés de mulher, em continuação de um par de pernas cobertas por uma saia até aos joelhos.

Conforme desciam as escadas, fui vendo que eram eles.

Quando me viu, Humberto dirigiu-se a mim, como se eu fosse a última pessoa que ele esperava encontrar ali. Disfarçou tão bem que até exagerou.

No entanto, Rafaela não gostou nada da situação e ficou para trás, discutindo com Liliana. Rafaela suspeitou, imediatamente, que o encontro fora combinado.

Ficou tão furiosa que nos virou as costas e voltou a subir as escadas, com o objectivo de se ir embora.

Liliana ficou sem reacção, perante a atitude da amiga. E Humberto permaneceu impávido a olhar para Rafaela que abandonava o local, em passo de corrida.

Já uma vez a vira afastar-se de mim, sem que eu reagisse. Não podia deixar que isso voltasse a repetir-se. Por isso, deixei uma moeda no balcão para pagar o café e corri atrás dela.

Ao chegar ao exterior, já Rafaela subia apressadamente a avenida.

— Rafaela! — chamei eu, cá de baixo.

Ela ignorou-me e continuou a subir.

Eu corri pelo passeio, até a alcançar, e segurei-a pelo braço.

— Larga-me, Marco. — pediu ela.

— Só depois de me ouvires. — disse eu, continuando a segurá-la.

— Eu não quero ouvir mais nada. — afirmou ela. — Só quero que desapareças da minha vida.

Eu coloquei-me na sua frente e propus:

— Olha-me nos olhos e diz-me que não me queres voltar a ver.

Rafaela olhou para os meus olhos. Os seus lindos olhos entraram em rota de colisão com os meus. Com o lábio a tremer, ela disse:

— Marco, eu não te... não te quero... não te quero voltar... Bolas, não consigo!

E começou a chorar.

Eu abracei-a, mas ela empurrou-me para trás.

— Larga-me! Vai-te embora. — mandou ela, tapando o rosto com as mãos.

Eu segurei-lhe as mãos e destapei-lhe o rosto. Os seus olhos estavam inundados de lágrimas.

— Rafaela, eu amo-te! Perdoa-me todo mal que te possa ter feito. Mas não te separes de mim. Eu não posso viver sem ti.

Rafaela olhou para mim. O seu olhar tornou-se meigo e abandonou toda a agressividade. As suas defesas baixaram. Tornou-se frágil como uma flor.

Eu abracei-a com força e ela deixou-se cair nos meus braços.

— Eu amo-te, Marco. Mas continuo sem saber se me amas. — disse ela.

Saber que o seu amor por mim estava vivo, alegrava-me. Mas era necessário provar-lhe o meu. Amparando-a com as mãos, afastei-a ligeiramente e, confrontando-a olhos nos olhos, disse:

— Achas que se não te amasse, lutaria assim tanto por ti?

— Não sei... — respondeu ela com um voz doce.

Eu acariciei-lhe o rosto, o cabelo e encaminhei a sua cabeça até à minha. Completando o movimento com um beijo nos seus doces lábios.

Rafaela correspondeu com tanta paixão, quanto aquela que eu empregara no beijo. Abracei-a com firmeza e beijei-a sucessivamente, como se procurasse saciar as saudades que sentia dos seus lábios.

As minhas mãos tocavam as suas costas, como se acariciassem uma pedra preciosa. Vagueavam por elas e desciam pelo seu corpo, sentindo com satisfação tudo o que encontravam.

Enquanto as nossas bocas se colavam, o meu nariz inalava o perfume do seu corpo. A brisa nocturna empurrava os seus cabelo para o meu rosto. E alguns intrometiam-se entre as nossas faces.

As suas mãos subiam pelas minhas costas e agarravam o meu cabelo, impulsionadas pela força da paixão. E uma das minhas, escapou-se para a sua barriga, começando a subir até ao pescoço, fazendo escala no seu peito.

Estávamos tão absorvidos nos beijos que nos esquecemos que o fazíamos em plena via pública.

O ruído da passagem de um carro, despertou-nos para a realidade.

Quando voltei a encarar os olhos de Rafaela, estes tinham um brilho profundo de felicidade. Constatei que tinha ganho o seu amor e a sua confiança. No entanto, ainda quis dar maior prova.

Com muita seriedade, encarei-a novamente e disse:

— Rafaela, queres casar comigo?

Rafaela ficou quase sem fôlego. Ainda mal recuperara dos beijos, já se via asfixiada outra vez.

— Marco, eu amo-te. Mas não quero casar contigo. Pelo menos, não tão cedo. — disse ela, já recomposta.

— Continuas a duvidar do meu amor, não é?

— Não, Marco. Eu sei que me amas. Mas casarmo-nos é precipitado. — explicou ela. — Eu gosto de namorar contigo, gosto de fazer amor contigo, mas ainda não quero casar contigo.

A resposta entristeceu-me. Senti-me mal amado.

No entanto, Rafaela levou as suas mãos ao meu rosto com ternura e disse:

— Amanhã, logo cedo, vou desistir do casamento com Tiago. Agora que tenho a certeza que sou amada, acho que vale a pena voltar a lutar pelo que sinto por ti.

Em resposta à sua decisão, beijei-a apaixonadamente. Mais um logo beijo enamorado. Depois, decidimos regressar ao bar onde estavam Humberto e Liliana. Ao constatarem a nossa reconciliação, também eles se congratularam pelo sucesso da noite.

Só de madrugada é que regressámos a casa.

Felicíssimo com o reatamento do namoro, deitei-me e sonhei com Rafaela. Tudo parecia tão bem encaminhado que nada podia estragar a nossa relação.

Logo após o almoço, no dia seguinte, a campainha de casa tocou. Vários toques de alguém apressado.

Abri a porta e espreitei pelas escadas. Ao fundo, apareceu Liliana.

— Ainda bem que te encontro. — disse ela, ofegante, enquanto subia os degraus.

Eu fiquei preocupado e apressei-me a perguntar…

— Que aconteceu? Foi alguma coisa com a Rafaela?

Liliana, que entretanto chegara junto de mim, disse:

— Espera, deixa-me descansar.

— Entra. — convidei eu.

Após entrar em casa, encaminhei Liliana para a sala.

Liliana sentou-se e começou a falar:

— Hoje de manhã, a Rafaela foi a casa do Tiago para terminar o noivado. Mas, parece que ele não reagiu muito bem. E o pior foi quando ela lhe disse que gostava de ti.

— E então? — interrompi eu, em pânico sem saber o que acontecera.

Liliana continuou:

— Segundo sei, ele raptou-a e levou-a para um lugar secreto. Eu sei o que aconteceu porque fui com ela. Mas, quando eles conversaram, eu afastei-me, deixando-os na sala. Depois, ele veio ter comigo à outra sala da casa e disse-me para que me fosse embora. Eu disse-lhe que só saia dali com a Rafaela. E ele respondeu-me que ela já não saia dali e que, se eu não me fosse embora, me batia. Como nada podia fazer, regressei a casa dela e contei à mãe. Mas os pais dela apoiam todas as atitudes de Tiago, por isso não se importaram. Mesmo assim, insisti com a mãe da Rafaela para que a ajudasse. No entanto, ela disse que não estava preocupada, pois o Tiago tinha-a levado para um lugar seguro. E que só voltava no Sábado para celebrar o casamento.

— E agora? — perguntei eu com o ódio a crescer.

— Calma, Marco! — aconselhou ela. — Eu vim cá contar-te para que me ajudes a libertá-la. Eu sei que ele a obrigou a ir com ele. E temos que a ajudar.

— Eu sei. Mas, como? — interroguei eu. — Nós não sabemos para onde eles foram.

— Mas os pais dela devem saber. — sugeriu Liliana.

— Tens razão. Vamos lá ver. — propus eu.

Na companhia de Liliana, saí de casa como um míssil e dirigi-me ao carro, no qual segui até à morada de Rafaela.

— Fica aqui! — disse eu, a Liliana, depois de parar o carro junto à entrada do prédio.

Toquei à campainha e fui atendido pela voz da mãe de Rafaela. Quando disse quem era, a senhora respondeu que nada tinha para falar comigo. E eu contrapus:

— Minha senhora, quer deixar-me entrar já ou quer que vá buscar a polícia para falar consigo?

A mãe de Rafaela pareceu ficar assustada e abriu, imediatamente, a porta.

Eu subi as escadas até ao andar da senhora. A mãe de Rafaela já esperava à porta.

— Não sei o que procura. A Rafaela não está. — disse ela com arrogância.

— Eu sei que ela não está. Mas exijo que me diga onde ela está. — disse eu com uma voz forte e firme.

— Ela não o quer ver. — informou, falsamente, a senhora.

— Ouça! Eu sei que isso é mentira. Não sei se sabe, mas rapto é crime. E tanto é criminoso o que rapta, como os que o ajudam e protegem. Por isso, pense duas vezes.

A senhora ficou muito amedrontada com a ameaça da polícia e começou a desculpar-se:

— Eu não sei onde eles estão.

— Vou fazer-lhe um aviso. Tem vinte e quatro horas para descobrir para onde ele a levou. Caso contrário, vou à polícia contar tudo.

A senhora ficou ainda mais apavorada. Mas eu, como já não conseguia mais nada dali, vim-me embora.

Quando cheguei à rua, Liliana interpelou-me:

— Conseguiste alguma coisa?

— Não! — disse eu. — Mas, vamos esperar. A mãe dela vai dizer-nos onde eles estão.

— Só que a Rafaela pode estar em perigo. — avisou Liliana.

— Não. O Tiago não lhe vai fazer mal. — expliquei eu. — Se ele mantém a ideia de casar com ela, não lhe vai fazer mal.

Como só nos restava esperar, tanto eu como Liliana regressámos a casa.

Passei o resto do dia e toda a noite, a andar de um lado para o outro, à espera de notícias. Não dormi um segundo. Só na manhã seguinte, caí na cama completamente exausto.

Não dormi muito, já que fui imediatamente acordado pelo toque do meu telemóvel. Uma chamada de Liliana para que fosse a casa dela.

Antes de sair, tomei um banho e recompus o meu aspecto.

Conduzindo o meu carro, dirigi-me a casa de Liliana, como fora combinado. Era a primeira vez que visitava a sua residência.

Liliana recebeu-me com grande simpatia, tal como os seus pais que estavam em casa. Ela levou-me para a sala e começou a explicar:

— Marco, a Rafaela telefonou-me ontem à noite.

— E então? — questionei eu, ansiando uma resposta.

— Ela conseguiu convencer o Tiago, a deixá-la telefonar-me para dizer que estava bem. E ele deixou.

— E ela disse onde estava? — interroguei eu.

— Não. — informou ela. — Ele não a deixou dizer.

— Então, está na altura de visitar, novamente, a família Pereira.

Liliana ofereceu-se imediatamente para me acompanhar. Deixámos o seu prédio, atravessámos a avenida e eu toquei à campainha.

Assim que disse quem era, a porta foi aberta e nós entrámos. Com Liliana a seguir-me, subi até ao andar dos pais de Rafaela.

A mãe de Rafaela estava novamente à porta, esperando-nos.

— Então, já nos vai dizer onde está a Rafaela? — perguntei eu com autoridade.

A senhora inclinou a cabeça e disse num murmúrio:

— Entrem!

Liliana e eu entrámos, sentámo-nos no sofá e ficámos à espera de ouvir a senhora. Mas foi o pai de Rafaela, que entretanto aparecera, quem começou a falar:

— O Tiago telefonou ontem à noite. Eles estão em Almada, mas ele não quis dizer onde, ao certo. Porém, disse que, se o quiséssemos contactar, o deveríamos procurar neste bar.

E entregou-me um folha de papel, arrancada de um pequeno bloco, contendo a morada de um bar nos subúrbios de Almada.

Eu não quis esperar e deixei a casa. Não perdi tempo a agradecer-lhes aquilo que só consegui à custa de ameaças.

Liliana seguiu-me, perguntando:

— Sabes onde fica isso?

— Sei! — confirmei eu. — É um bairro problemático.

— Deve ser dos amigos do Tiago. — sugeriu ela. — Ele conhece uns tipos muito suspeitos em Almada.

Eu, olhando para o papel, constatei:

— Este Tiago começa a tornar-se mais perigoso do que parecia.

— Como é que a vais tirar de lá? — questionou ela.

— Não sei. — disse eu. — Tenho que pensar como o vou fazer.

— E quem é que vai contigo? — indagou Liliana.

— Ninguém! Só vou eu.

Já na rua, Liliana olhou para mim e perguntou:

— És doido? Eles são todos bandidos. Até te matam, se for preciso.

— Não te preocupes. — descansei-a eu.

Como não havia tempo a perder, entrei no carro e segui para casa, onde pensei num plano para a libertar. Mas não pensem que não tinha medo. Eu sabia o que tinha pela frente. E isso deixava-me receoso.

À noite, estava eu no quarto a arquitectar um plano, quando tocaram à campainha.

Como os meus pais estavam na sala, fui eu mesmo abrir a porta. Tratava-se de uma visita de Bento.

— Olá, Bento.

— Olá, Marco.

— O que te traz por cá? — perguntei eu, convidando-o a entrar.

— Ouvi uns boatos de que te preparavas para enfrentar um grupo de marginais, sozinho. — disse ele, entrando para os meus aposentos.

— Fala baixo! — pedi eu, fechando a porta do quarto. — Não quero que os meus pais saibam. Mas, como é que soubeste?

Bento sentou-se numa cadeira e explicou:

— Foi a namorada do Humberto que lhe contou. E ele ficou preocupado e telefonou-me.

— Então, já sabes o que me espera? — indaguei eu.

— Não. O que eu sei, é o que nos espera. — corrigiu ele.

— Ó Bento, não te metas nisto. — pedi eu. — Não quero que os meus amigos se arrisquem.

— Disseste bem, "amigos", é para isso que eles servem, para nos ajudar nos maus momentos.

Eu acabei por aceitar a sua ajuda. Até porque toda a ajuda era bem vinda.

Bento pegou num papel e disse:

— Amanhã, vamos lá à tarde. O Humberto disse que ia. E falei com o Victor que também se disponibilizou a ajudar. Tens aqui a morada de um amigo meu. É dos fuzileiros. Vai lá, amanhã de manhã e entrega-lhe este papel. Eu não posso lá ir porque tenho uns assuntos a tratar. Mas com este papel, ele vem falar comigo.

— Tudo bem. Eu amanhã trato disso.

Bento despediu-se de mim e saiu, voltando para sua casa. E eu fui descansar, um pouco mais optimista quanto ao futuro e agradecendo a Deus, os amigos que tinha.

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