Votos do utilizador: 0 / 5

Estrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativa
 

AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XXIV

Domingo, dia 3 de Setembro de 1995. Chegava o dia tão ansiado por mim e por Rafaela. O dia em que se iria conhecer o campeão nacional de volei de praia.

Logo cedo, acordei, ao lado de Rafaela, com o brilho do Sol que perfurava os cortinados da janela do quarto. Estava tudo silencioso e Rafaela continuava o seu sono, repousando a sua cabeça no meu ombro.

Como já não tinha sono, beijei-a com carinho e levantei-me da cama, seguindo depois para o meu quarto.

Quando me deliciava com a água fresca do duche, a cair sobre o meu corpo, fui surpreendido por Rafaela. Lindíssima, como sempre, veio ao meu encontro sem roupa e partilhou o duche comigo. Abracei-a e acariciei-a com a água. E ela respondeu às minhas ternuras com beijos suaves e carinhosos.

Após aqueles breves momentos de paixão, fomos interrompidos pelo tocar do telefone do meu quarto.

Saí da casa-de-banho, todo molhado, e corri a atender o telefonema. Tratava-se de um aviso para comparecer no átrio.

Estranhei o pedido do gerente, mas apressei-me a vestir e a descer até lá. Informei Rafaela onde ia e desci. Quando cheguei, confrontei-me com uma enorme surpresa. No átrio do hotel, esperavam-me Mónica, acompanhada pelos meus pais e Cajó.

Os meus pais vinham em trajes turísticos, pareciam estrangeiros acabados de chegar do aeroporto. Mónica estava muito sensual, vestindo um conjunto de camisa e calções muito atraentes. E Cajó já só envergava os calções de praia.

— Esta não esperava. — confessei eu, enquanto abraçava os meus pais.

— Combinámos fazer-te esta surpresa. — disse a minha mãe.

— Eu contei-lhes a conversa que tivemos ao telefone e os tios decidiram vir ver-te jogar. — relatou Mónica.

— Partimos bem cedo, antes do amanhecer. — disse o meu pai.

Eu sorri, dei um beijo à minha prima e disse:

— Tanto trabalho por minha causa.

— Não podíamos faltar a um momento tão importante. — afirmou o meu pai com a concordância da minha mãe.

Enquanto apertava a mão de Cajó, apareceu Rafaela. Larguei, imediatamente, a mão de Cajó e corri até ela.

Segurando a sua mão direita, trouxe Rafaela à presença dos meus pais e disse:

— Pai! Mãe! Apresento-vos a Rafaela, minha colega de equipa e... namorada.

Os meus pais sorriram e cumprimentaram-na com grande ternura. Eles repararam no brilho dos meus olhos, ao dizer o seu nome e a juntar-lhe a palavra "namorada". Só a atenção paternal capta estes pormenores.

Cajó interrompeu o momento e expressou-se:

— Marco, não viemos só nós. Vai lá fora ver.

Impulsionado pela curiosidade, corri para a porta do hotel e pude ver Carlinhos, Humberto, Liliana e Bento que permanecia de relações cortadas com o primeiro.

Bento apressou-se a cumprimentar-me e a felicitar-me pela passagem à final. Também ele trajava à banhista, usando uns largos calções de banho e uma larga t-shirt.

Liliana, engalanada com um belo biquini azul, revelando o seu esbelto corpo, seguiu-se a ele nas felicitações. Colado à sua mão esquerda, vinha Humberto meio acanhado e tropeçando nos chinelos de praia. Tinha uma figura engraçada, devido à camisa branca muito bem tratada e as calças de ganga muito pouco apropriadas para o areal.

Impávido ficou Carlinhos, esperando que Bento se afastasse para me cumprimentar. A sua indumentária era a mesma de outras idas à praia.

Liliana, depois de passar por mim, dirigiu-se à sua amiga Rafaela. Ambas ficaram a trocar segredos, enquanto os outros falavam entre si.

Humberto ficou perto de mim e disse:

— Eu e a Liliana vamos aproveitar para ir até à praia, antes do almoço.

Bento caminhou até ao átrio e Carlinhos aproveitou para se aproximar.

— Grande Marco. — proferiu ele, agarrando-me a mão com força. — Futuro campeão nacional.

— Não sei, não sei. — contrapus eu.

— Está ganho! — afirmou ele com optimismo. — Podes confiar neste meu pressentimento.

— Está bem. — concordei eu, levando o diálogo na brincadeira.

— Já viste o nosso meio de transporte? — perguntou ele, apontando para um veículo estacionado no parque. — Foi ali que viemos.

Carlinhos referia-se a uma camioneta com nove lugares que o meu pai tinha alugado para trazer todos, até Espinho.

Humberto e Liliana seguiram para a praia, como haviam combinado. Os meus pais dirigiram-se ao salão do hotel, onde repousaram um pouco da viagem. Mónica e Cajó também foram para a praia. Carlinhos foi passar o tempo para o bar do hotel. E Bento dirigiu-se ao estádio para comprar os bilhetes.

Rafaela e eu fomos fazer um treino ligeiro para a praia.

Quando regressámos da praia, mais duas pessoas nos aguardavam. Desta vez, eram Mike e Guida Greenland. Também eles souberam da novidade, através das notícias televisivas, e vieram até Espinho assistir à final.

Após algumas apresentações, perguntei:

— Guida! Não trouxeste a Rebecca?

— Não! — respondeu ela. — Ainda é muito nova para apanhar Sol em demasia. Assistir à final, podia fazer-lhe mal.

Com a presença de tanta gente, organizou-se um grande almoço entre todos.

Ao meio-dia e meia, todos estávamos sentados à volta de uma grande mesa do restaurante do hotel. Foi um almoço muito divertido, onde todos falámos sobre muita coisa. Até o Mike, no seu português pouco compreensível, falou sobre alguns assuntos que prenderam a nossa atenção.

O almoço durou até às 14h00. Após o qual, todos consideraram melhor, irem andando para o estádio para ficar nos melhores lugares.

Somente, Rafaela e eu permanecemos no hotel. Subimos até aos quartos e iniciámos o periodo de concentração, ficando cada um no seu, a reflectir no que tínhamos pela frente. Assim ficámos, durante uma hora.

O jogo estava agendado para as 16h00. Por isso, meia hora antes, abandonámos o hotel e dirigimo-nos ao estádio.

Ao chegarmos, Rafaela entrou imediatamente no balneário. Mas eu fiquei cá fora, pois apercebera-me da aproximação de Marta.

— Marta! — chamei eu.

Ela fingiu que não me ouviu e continuou a andar.

— Marta! — voltei eu a chamar.

Marta continuou a sua passada, ignorando-me propositadamente.

Ao passar por mim, eu agarrei-lhe o braço e pedi:

— Marta, podemos conversar?

— Não temos nada a dizer. — contrapôs ela.

— Quero que me desculpes. — disse eu. — Não quero que existam mágoas, durante o jogo.

Marta olhou para mim com um ar sério e disse:

— Achas que mereces ser perdoado? Tu magoaste-me muito. E isso não se esquece.

— Eu compreendo! — concordei eu. — Mas, gostava de voltar a ser teu amigo.

Marta parou um pouco para pensar, estendeu-me a mão e avisou:

— Nós podemos continuar amigos... Mas eu não te desculpo o que me fizeste.

Eu sorri e apertei a sua mão. Já era um começo.

Marta afastou-se e entrou para o seu balneário. E eu entrei no meu, onde Rafaela esperava por mim.

Ao fim de dez minutos, estávamos prontos. Rafaela e eu trocámos alguns beijos, antes de entrar na pequena divisão de acesso ao areal. Lá fora, já se ouviam as vozes daquele ruidoso público.

Com os quatro na porta de acesso ao campo, o speaker começou a falar:

— Vindos de Lisboa e grandes candidatos ao título, Marco e Rafaela.

Foram mais os assobios que os aplausos durante a nossa entrada, o que era compreensível, pois o público estava, quase na sua totalidade, do lado dos nossos opositores.

Antes do speaker voltar a falar, ouvia-se nas bancadas, gritos de "Espinho" e "We are the champions", por entre os milhares de adeptos ali presentes.

Os meus apoiantes também lá estavam, mas eu não os conseguia ver e muito menos ouvir.

O speaker continuou:

— ...E agora, vindos de Espinho, jogando em casa, actuais campeões nacionais e grandes favoritos à revalidação do título... Quiiiiiiiiiiim e Maaaaaaarta.

O público explodiu de alegria, ao ver a sua equipa entrar em campo. Era a euforia geral, todos de pé a aplaudir os meninos da região.

Metade do público gritava "Quim", enquanto a outra metade respondia, gritando "Marta". Era um ambiente medonho para qualquer dupla forasteira.

Nos quinze minutos que se seguiram, ambas as duplas executaram o habitual aquecimento antes do início do jogo. E o público dançava rejubilante, nas bancadas, ao som dos sucessos da época.

O speaker continuou na sua missão de animação do público. E depois, procedeu à apresentação do primeiro árbitro, do segundo árbitro e dos quatro juízes de linha.

O primeiro árbitro chamou os capitães de equipa. Quim e eu aproximámo-nos do centro do campo, junto à rede. E as nossas parceiras vieram ao nosso lado.

Nas bancadas, o público saltava e cantava:

— E quem não salta, não é de Espinho. E quem não salta, não é de Espinho.

O árbitro mostrou-nos uma moeda e pediu-nos que escolhêssemos.

— Coroa! — disse Quim.

— Cara! — disse eu, sorrindo, pois não tinha outra hipótese.

O árbitro lançou a moeda ao ar e deixou-a cair sobre a palma da mão.

— Coroa! — informou ele. — Bola ou campo?

— Campo. — escolheu Quim, apontando para o lado do Sol.

Todos nos cumprimentámos e nos desejámos a melhor das sortes.

Pelas bancadas podia ver-se as câmaras de televisão que iriam transmitir o jogo. Até junto de nós, havia um cameraman com uma câmara portátil que seguia um repórter da mesma cadeia de televisão.

O repórter acercou-se de nós e perguntou:

— Estão confiantes?

— Sempre! — respondi eu sem parar de andar, não dando tempo para outras perguntas.

Tínhamos de recolher a maior concentração possível e não nos podíamos distrair com perguntas.

O repórter correu até ao outro lado do campo e foi entrevistar a outra dupla.

Rafaela pulava para disfarçar o nervosismo. E eu copiava, inconscientemente, os seus movimentos.

Estava muito calor. Antes do início do jogo, reparei no termómetro digital, colocado num dos cantos do areal. Marcava 38 graus.

O árbitro apitou para o começo do encontro. Seria Rafaela que colocaria a bola em jogo pela primeira vez, nesta final.

O Sol começava a tornar-se um obstáculo, pois estava de frente para nós.

O público era outro obstáculo. Eufóricos, como sempre, cantavam:

— Oé, oé, oé, oá e o título vem pra cá. Oé, oé, oé, oá e o título vem pra cá...

Rafaela bateu a bola contra a areia, algumas vezes, e preparou-se para servir. Com força, lançou a bola para o lado de lá da rede.

Quim captou o remate e deixou para Marta que lhe devolveu em manchete, tendo Quim correspondido com um remate colocado. Sem hipóteses para nós.

O público levantou-se e aplaudiu.

O serviço mudou. E foi Quim quem se preparou para bater. Rematou a bola e fê-la cair do nosso lado.

Eu apanhei, passando a Rafaela. Ela passou-me novamente a bola e eu rematei. A bola foi interceptada por um brilhante bloco de Quim. Tendo a bola caído no nosso campo. Era o zero a um.

O público rejubilava.

Quim voltou a servir. E desta vez, fê-lo com tanta colocação que obteve um pontos directo. E a diferença aumentava para zero a dois.

O público cantava. Parecia que se ia iniciar, o que todos esperavam: o princípio da nossa derrota.

Quim fez mais dois serviços seguidos e aumentou para zero a quatro. Mas no seu quinto serviço, Rafaela apanhou a bola e eu coloquei-a, ao segundo toque, no campo deles, surpreendendo-os por completo.

O público assobiou, pois era a primeira contrariedade da sua equipa.

No chão, Quim sorriu-me, deixando transparecer o seu espanto pela minha jogada.

Foi a minha vez de servir. E durante esses serviços, reduzimos a desvantagem para três a quatro. O público começava a ficar inibido, pois as coisas começavam a não correr como estariam à espera.

Nos vinte minutos que se seguiram, tivemos um jogo muito equilibrado, onde predominaram jogadas muito disputadas e que levou o resultado aos oito a dez.

Quim pediu um desconto de tempo que o árbitro concedeu. E todos recolhemos às nossas cadeiras.

A música voltou a tocar. E o público respondeu, agitando-se nas bancadas e dançando.

— Tudo bem? — perguntei eu a Rafaela.

Ela sorriu e respondeu afirmativamente.

O árbitro voltou a chamar para o campo e a música parou. O público continuou e metade voltava a gritar "Quim", enquanto a outra voltava a responder "Marta".

O jogo continuou na mesma toada e o resultado chegou aos doze a catorze. Foi, então, a nossa vez de pedir um desconto de tempo.

Os milhares de pessoas que ali estavam, continuavam a cantar e a torcer pela sua dupla. Porém, o que mais me espantou, foi o facto de nunca proferirem palavras ofensivas para connosco, limitando-se sempre a palavras de incentivo a Quim e a Marta.

Quando regressássemos ao rectângulo de areia, enfrentaríamos uma bola de set, ou seja, Marta ia servir para vencer o primeiro parcial.

— Temos que nos empenhar para apanhar aquela bola. — avisou Rafaela.

Eu concordei, mas não disse nada, uma vez que aproveitava o tempo para beber água.

Voltámos ao campo. Marta pegou na bola e caminhou até à sua linha de fundo. Atirou a bola ao ar e rematou-a para o nosso lado.

Rafaela apanhou-a e passou-ma. Eu levantei-a por cima da rede e Rafaela rematou-a com toda a força.

Com grande esforço, Quim apanhou-a e levantou-a para Marta que num remate colocadíssimo, alcançou a vitória no primeiro parcial.

Mal a bola tocou na areia, o público explodiu de alegria, saltando das cadeiras e aplaudindo efusivamente.

Todos recolhemos às cadeiras e aproveitámos o intervalo de dez minutos para recuperar forças.

O público cantou durante todo o tempo de pausa:

— Oé, oé, oé, aora e o título já cá mora. Oé, oé, oé, aora e o título já cá mora...

Passados os minutos, regressámos ao campo.

— QUIM! — gritavam uns.

— MARTA! —gritavam outros.

O speaker puxava pela multidão. E eles reagiam com grande aparato.

Foi Marta, quem deu início ao segundo parcial. E logo com um serviço directo. Recomeçávamos mal.

Segundo serviço. A bola parecia um míssil na minha direcção.

— Ganha! — ordenou Rafaela.

Eu juntei as mãos e recebi a bola em manchete, levantando-a para Rafaela. Ela simulou o passe e "penteou-a" para o campo adversário. Quim e Marta atiraram-se para a areia, mas não a conseguiram apanhar.

O serviço mudava para nós. Eu segurei a bola e coloquei-me junto à linha de fundo. Com muita força e efeito, rematei a bola para o lado de lá. A bola descreveu um arco na sua trajectória e caiu junto à linha lateral.

O árbitro sinalizou o nosso ponto e o resultado passou para uma igualdade a um ponto.

O público não se manifestou, exceptuando um pequeno grupo de dez pessoas que se levantou para aplaudir. Eram os meus apoiantes. Finalmente, consegui ver onde eles estavam.

Mais um serviço meu, jogadas muito disputadas e novo ponto nosso. Era a primeira vez que comandávamos um parcial.

Mais dois serviços meus e mais dois pontos. Passando o resultado para quatro a um.

O público emudeceu. E Quim, com toda a sua experiência, pediu um desconto de tempo para quebrar o nosso ritmo.

Rafaela, enquanto caminhávamos para as cadeiras, vinha muito motivada.

— Três pontos. — dizia ela. — Três ponto, Marco. Temos que aguentar esta vantagem até ao fim.

— Vamos tentar. — disse eu.

— Temos de conseguir. — insistiu ela.

Repousámos um pouco e voltámos ao areal.

O speaker pedia o apoio do público. E este respondia com euforia.

A euforia pareceu motivar Quim e Marta que voltaram a ganhar o serviço. Porém, não foi por muito tempo, uma vez que o recuperámos na jogada seguinte.

Seguiram-se quinze minutos de grande empenhamento das duas duplas, o que levou o resultado aos dez a sete. Rafaela e eu conseguíamos manter a diferença pontual.

Os pontos continuaram a suceder-se e o parcial atingiu os catorze a nove.

Tínhamos conseguido uma grande vantagem que nos permitia acreditar na vitória neste parcial. Cinco pontos nos separavam.

Quim voltou a pedir um desconto de tempo. E notava-se que o resultado os estava a afectar. Quando nos sentámos nas cadeiras, notei que Rafaela se revelava bastante ansiosa.

— Calma, amor. — disse eu, acariciando-lhe o rosto.

Ela sorriu e deu-me um beijo na mão que, entretanto, segurara.

Um minuto se passou e nós voltámos ao campo.

Com a eminência da dupla da casa perder o parcial, o público calou-se. Deviam estar a guardar forças para um possível terceiro parcial.

Rafaela serviu, mas notou-se a ansiedade e nervosismo com que o fizera. E a bola esbarrou na rede.

Eu aproximei-me dela e disse:

— Tem calma!

Ela deu-me um toque carinhoso nas costas e colocou um semblante mais confiante.

Do outro lado, foi a vez de Quim servir. Ele sabia que tinha de dar o seu melhor para virar o resultado. E começou bem, com dois serviços directos, reduzindo o resultado para catorze a onze.

Seguiu-se outro que Rafaela recebeu, atirando a bola para fora. E um outro, o qual eu falhei, recebendo a bola com a cara, o que me levou ao chão.

Rafaela pediu um desconto de tempo para que eu recuperasse.

Quim aproximou-se da rede e chamou:

— Marco! Tudo bem?

Eu levantei o polegar, sinalizando que não havia problema.

Sentado na cadeira, fui assistido por Rafaela que me limpou o rosto com um pouco de água. Fazia-o com grande ternura.

O resultado estava em catorze a treze. E Quim preparou-se para novo serviço.

O público voltou a acreditar e tornou a gritar por eles.

De novo em campo, Rafaela e eu esperámos o seu serviço. E este veio logo de seguida.

Eu captei a bola, Rafaela simulou o remate... E rematou mesmo, enganando todos. E recuperando o serviço.

Voltou a ser a minha vez de servir. Novo ponto de parcial. Levantei a bola e atirei-a com toda a força para o lado de Quim.

Ele apanhou a bola, mas não a recebeu correctamente, o que fez a bola elevar-se sobre a rede.

Rapidamente, corri até à rede, saltei e rematei a bola com toda a força, contra o areal. Era o quinze a treze e o correspondente triunfo no segundo parcial, empatando o jogo.

Novamente, o público ficou desmotivado. E foi o speaker quem voltou a puxar por eles. Era um sujeito muito "imparcial". Pedia para que o público torcesse por Quim e Marta, mas nunca se lembrou de o fazer por nós.

Novo intervalo de dez minutos. Rafaela e eu não dissemos nada, apesar de visivelmente felizes com este pequeno triunfo.

Ela fechou os olhos e permaneceu concentrada. Enquanto eu olhei para o céu, cada vez mais alaranjado, devido ao caminhar descendente do Sol.

O público estava expectante com reinício do confronto. Estava muito parado, mas foi novamente impulsionado pela música.

No terceiro parcial, conforme mandam as regras, não há mudanças de serviço. Sendo cada jogada contabilizada com um ponto.

O termómetro do campo baixara para os 30 graus. No entanto, o ambiente permanecia abrasador como no início.

O árbitro voltou a posicionar-se na sua torre. E nós os quatro, recolocámo-nos em campo.

Seria Rafaela quem iniciaria o parcial. Mas, novamente, o nervosismo venceu-a e atirou a bola para a rede, oferecendo um ponto aos nossos adversários.

Seguiu-se um serviço de Marta que Rafaela apanhou e passou-me. Eu retribui o passe e ela rematou, fazendo a igualdade.

Foi a minha vez de servir. Um remate forte, bola do outro lado, Marta recebeu, Quim passou e Marta rematou, fazendo mais um ponto.

O volei de praia tem destas coisas. Quem serve, geralmente, está em desvantagem em relação ao receptor, o que proporciona o ganhar da jogada pelo adversário.

Como o terceiro parcial é jogado da forma referida anteriormente, os pontos foram-se sucedendo, colocando o resultado em seis igual.

Num ritmo destes, quem fizesse ponto no seu serviço, ficaria com uma vantagem importante. E foi o que aconteceu no serviço seguinte, executado por Rafaela. Um serviço, onde houve um desentendimento entre Quim e Marta, tendo a bola colidido directamente com a areia.

O público não se desmotivou e continuou a gritar pela sua equipa. E acreditem que isso os motivava muito.

Rafaela serviu novamente. A força e a colocação imperaram no seu serviço. Porém, com grande categoria, Quim captou a bola e passou-a a Marta que empatou o jogo, mais uma vez.

Ponto cá, ponto lá. E o resultado chegou aos dez igual.

A multidão estava ao rubro com o magnífico espectáculo que se presenciava nas bancadas. Seis mil pessoas à volta de um rectângulo de areia, a cantar pela sua dupla. Simplesmente formidável.

Seguiu-se Quim, no papel de executar um serviço. E o equilíbrio mantinha-se, tendo o resultado avançado para os treze a doze.

O cansaço começava a apoderar-se de nós e pedimos o primeiro desconto de tempo deste parcial. Um minuto precioso para repor energias.

Estávamos espantados com a nossa prestação no jogo. Nunca nos julgámos capazes de lutar até ao fim pela vitória.

Durante a pausa, não conseguimos dizer nada um ao outro. Mas quando nos levantámos, eu segurei a mão de Rafaela e disse:

— Amo-te!

Ela sorriu e não teve qualquer complexo em me beijar os lábios e a dizer:

— Eu também te amo!

Voltámos ao campo. O público continuava incansável a chamar pelos seus ídolos.

Rafaela pegou na bola e executou o serviço. Porém, bateu mal na bola e esta despenhou-se na rede, fazendo-nos perder a ligeira vantagem alcançada.

Seguiu-se o serviço de Marta que o executou com força. E eu não o apanhei, conseguindo apenas tocar-lhe levemente para fora.

Quim e Marta davam, assim, a volta ao resultado, modificando-o para treze a catorze. A jogada seguinte era a primeira bola de jogo da partida, e estaria ao dispor dos nossos adversários.

Rafaela pediu novo desconto de tempo. E regressámos ao par de cadeiras, debaixo do guarda-sol.

— Rafaela! — chamei eu. — Estamos tão perto de ganhar. Não podemos perder, depois de estar tão perto.

Rafaela sorriu carinhosamente, segurou-me a mão e disse com ternura:

— Eu já ganhei. Ganhei-te a ti e ao teu amor, no dia em que te convidei a fazer par comigo. Não imaginas a felicidade que o teu amor me dá. Nunca fui tão feliz na minha vida.

As suas palavras comoveram-me e deixei até escapar uma lágrima.

Rafaela beijou-me a lágrima que escorria no meu rosto e disse:

— Sempre desejei ganhar este campeonato. Mas, ao sentir-te a meu lado, tudo parece não ter importância.

— Mas tem! — interrompi eu. — E eu quero fazer-te ainda mais feliz, lutando pela vitória e oferecendo-te o título que mereces.

O diálogo foi interrompido pelo apito do árbitro. Ambos nos levantámos e abraçámos, antes de voltar ao campo.

O jogo recomeçou com novo serviço de Marta.

Eu recebi, novamente, mal a bola. E esta parecia ir para fora, quando por trás de mim apareceu Rafaela a captá-la e a elevá-la bem alto.

O público aplaudiu o esforço.

Eu corri até à rede e rematei com muita força, igualando o jogo a catorze pontos.

Foi, então, a minha vez de servir. O público tentava desconcentrar-me, gritando por Quim e Marta. Mas eu mantive os olhos na bola e servi com força.

Quim recebeu a bola, passou-a a Marta que simulou o remate, devolvendo-lhe a bola e Quim rematou para o catorze a quinze.

O público voltou a explodir num grito conjunto. Saltou tudo das cadeiras e aplaudiram vibrantemente. A vitória de Quim e Marta parecia eminente.

Era a segunda bola de jogo. E estava novamente ao dispor dos nossos adversários. Nós já não podíamos pedir mais descontos de tempo, de forma a quebrar-lhes o ritmo.

Quim caminhou com a bola na mão até à linha final. Posicionou-se na linha de fundo e serviu.

O público seguiu a bola com o olhar, esperando que ela encontrasse a areia do outro lado. Só que encontrou as minhas mãos que a passaram a Rafaela, que ma devolveu para que eu conseguisse mais um ponto. Quinze igual, registava o marcador.

O público gritava mais... e mais... e mais. Era o verdadeiro "inferno". O público espinhense dava o seu máximo para apoiar Quim e Marta. O ruído era quase ensurdecedor.

Rafaela já estava pronta a executar o serviço, quando Quim pediu o primeiro desconto de tempo. Ele temeu que pudesse perder o controlo da partida e pediu aquele minuto.

Nenhum de nós deixou o campo. Não era um minuto para conversar ou repensar tácticas. Era somente para quebrar o nosso ritmo.

Findo o minuto, Rafaela recolocou-se na sua posição e executou um serviço magnífico. Um serviço que poucos apanhariam. Mas do outro lado, estava um excelente jogador que dava pelo nome de Joaquim Campos, o "Quim". Fenomenalmente, ele lançou-se para a areia e apanhou a bola, levantando-a com precisão para que Marta fizesse mais um ponto. E o resultado modificava-se para quinze a dezasseis.

O jogo estava a ser espectacular. Ninguém merecia sair dali vencido. Até o público se rendera ao espectáculo e, apesar de manter o apoio a Quim e a Marta, aplaudia as nossas jogadas com o mesmo vigor que empregava nas da sua dupla.

Terceira bola de jogo para os nossos opositores. Desta vez, estava nas mãos de Marta. Todos esperavam que fosse naquela jogada que terminasse a nossa resistência.

Marta serviu com força. Eu apanhei a bola, passei-a a Rafaela que, surpreendentemente, fez um “gancho” com a mão e colocou a bola no campo adversário.

Simplesmente espectacular. Ninguém, no público, se coibiu de aplaudir tal jogada. E o resultado registava nova igualdade, desta feita a dezasseis pontos.

Chegava o ponto decisivo, uma vez que a vitória se decidia aos quinze ou à maior de dois pontos de diferença ou, por último, ao décimo sétimo ponto.

Como o resultado estava em dezasseis a dezasseis, o ponto seguinte decidiria o campeão. E como éramos nós a servir, o futuro não parecia nada risonho. Pois se se mantivesse a toada de serviço igual a ponto perdido, o jogo não nos teria como vencedores.

Devido à importância do ponto, Quim e Marta pediram um minuto de desconto pela segunda vez.

Dirigimo-nos às cadeiras e tentámos acalmar-nos. Mas era impossível, perante a nossa ansiedade e toda a agitação que se vivia nas bancadas.

Pela última vez, deixámos as cadeiras e voltámos ao terreno de jogo. Eu e Rafaela seguimos de mão dada até ao centro do nosso meio-campo.

Eu peguei na bola e preparei-me para executar mais um serviço.

O público permanecia rejubilante com o espectáculo e continuava a chamar pelos seus ídolos.

Eu afastei-me da linha de fundo, atirei a bola ao ar, corri para a linha, saltei e rematei a bola.

Quim interceptou-a e dirigiu-a a Marta, que lha devolveu para que ele a rematasse. Quando Quim saltou, o público susteve a respiração, esperando o culminar do ponto.

Quim rematou, mas a bola chocou no bloco formado por mim e Rafaela, voltando ao campo deles.

Marta apanhou a bola novamente e Quim tornou a rematar. E a bola voltou a chocar com o bloco formado por nós.

Quim apanhou novamente a bola, passou-a a Marta. Esta retribuiu o passe e Quim rematou. E a bola bateu, novamente, no nosso bloco. Só que desta vez foi para as nossas costas.

Rafaela, completamente cansada, mal tocou o solo, caiu arrasada. E eu, num último esforço, corri para a bola e apanhei-a, atirando-a para Rafaela.

De joelhos, Rafaela captou-a em manchete e levantou-a acima do nível da rede...

Eu não sei onde consegui as forças seguintes. Corri para a rede, saltei e toquei a bola por cima do bloco formado por Quim e Marta.

Caídos no chão, Rafaela e eu ficámos a ver a bola a cair.

O público ficou em silêncio, expectante com a reacção dos nossos adversários.

Quim e Marta olharam para trás e, rapidamente, viram que não tinham hipótese de lhe chegar.

A bola tocou o chão e o árbitro assinalou o nosso décimo sétimo ponto e, consequentemente, a vitória no jogo, no torneio e no campeonato.

Rafaela e eu abraçámo-nos no campo e beijámo-nos. Não consigo descrever o que ambos sentimos naquele momento. Era tudo um sonho que se realizava diante dos nossos olhos.

A minha família e os meus amigos ouviam-se a festejar, por entre o silêncio do público afecto à dupla espinhense. Mas, de súbito, como que rendidos ao espectáculo, todos se levantaram e começaram a aplaudir.

Novamente de pé e completamente estafados, Rafaela e eu fomos cumprimentados por Quim e Marta. Todos nos unimos num abraço. Mesmo perdendo, Quim e Marta associaram-se à festa e manifestaram grande alegria pelo espectáculo proporcionado àqueles milhares de pessoas, ao longo de duas horas.

Nas bancadas, seis mil pessoas começaram a gritar:

— Portugal. Portugal. Portugal...

O repórter televisivo tentou ouvir as nossas declarações. Porém, a emoção era tanta que ninguém conseguiu falar. Cumprimentámos os árbitros e ficámos junto à rede a homenagear aquele magnífico público.

O público continuou a cantar, mesmo depois de deixarmos o campo e recolhermos aos balneários.

Nos balneários, Rafaela não conteve a sua alegria e abraçou-me, beijando-me sem parar.

Minutos mais tarde, retornámos ao campo para as comemorações finais do torneio. No tempo que passara, foi montado um palco para se proceder à cerimónia.

O speaker pegou no microfone e começou a falar:

— Senhoras e senhores, aqui neste palco, para receber o troféu de finalista vencido do torneio, Joaquim Campos e Marta Santos.

O público levantou-se e aplaudiu.

Quim e Marta subiram ao palco e receberam uma taça em cristal.

— E agora. — continuou o speaker. — Grande revelação do campeonato deste ano, vencedores do torneio de Espinho e campeões nacionais de voleibol de praia, MARCO OLIVEIRA e RAFAELA PEREIRA.

O público explodiu numa ovação impressionante. Jamais alguma dupla forasteira fora tão aplaudida como nós. Foi incrível!

Rafaela e eu, segurando a mão um do outro, subimos ao palco e recebemos uma enorme taça de prata, o troféu do torneio, e duas faixas de campeões.

Festejámos efusivamente, pulando no pódio e convidando os nossos amigos Quim e Marta e a dupla terceira classificada a juntar-se a nós no lugar mais alto do pódio. Inesquecível.

O sonho fora realizado. Rafaela e eu tornámo-nos campeões nacionais de voleibol de praia.

Total de Visitas 275178