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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XXIII

Passei a noite toda a pensar nas palavras de Rafaela. E cheguei à conclusão de que, se não foi dessa vez que consumámos o que sentíamos, foi porque isso nunca aconteceria. Então, o melhor era esquecer o que sentia e dedicar o meu amor a Marta.

Mas, estas coisas pensam-se melhor do que se fazem. Nós não mandamos no coração e muito menos controlamos os nossos sentimentos. Se vivemos a pensar que amamos, não podemos acordar um dia e dizer que odiamos.

Na Quinta-Feira que se seguiu, saí de casa a meio da manhã e fui buscar Rafaela. Enquanto fazia o percurso, pensava se havia de falar no assunto ou não.

Infelizmente, acabei por optar pelo caminho mais fácil, não falar no assunto.

Após ir ao encontro de Rafaela, seguiram-se os rituais diários. Os cumprimentos, a partida, a chegada à praia e o treino. Tudo, sem uma única palavra acerca da última conversa.

No entanto, no fim do treino, Rafaela pareceu tomar coragem e disse:

— Marco! Podemos ficar mais um pouco?

Eu estranhei o seu pedido, mas aceitei-o.

— Vamos tomar qualquer coisa naquela esplanada? — sugeriu ela.

— Está bem. — concordei eu. — Vou só guardar tudo no carro.

Levei os nossos pertences para o carro e voltei à praia, onde Rafaela me esperava.

Caminhámos pelo areal, até uma esplanada que ficava no meio das dunas. Escolhemos uma mesa coberta por um guarda-sol, pois estava um calor asfixiante. E a sombra é uma preciosidade, nestas alturas.

Pedimos um refresco de laranja e ficámos a olhar um para o outro. Ela sem saber o que dizer e eu à espera que ela dissesse alguma coisa.

Momentos depois, o empregado trouxe os dois refrescos.

— Hoje está muito calor. — disse ela, bebendo um pouco do sumo.

— É verdade. — concordei eu.

Rafaela continuou a beber o sumo. E eu, impaciente, perguntei:

— Porque é que quiseste ficar mais um bocado? Há algum problema?

— Não! — disse ela, sorrindo. — Só queria estar um pouco contigo.

Eu gostei da explicação, mas continuava a não satisfazer a minha curiosidade.

Os cinco minutos que se seguiram, foram de silêncio ou de meras palavras ditas ao acaso. De súbito, Rafaela pousou o copo, olhou para mim seriamente e perguntou:

— O que sentes por mim?

— Ahn? — disse eu, totalmente surpreso com a pergunta.

— Ainda gostas de mim? — reinterrogou ela.

Eu comecei a pensar o que responder. Queria dizer que sim, mas lembrava-me do namoro com Marta. Fiquei confuso e acabei por responder:

— Sim! Tu és uma grande amiga.

— Não me refiro a isso. — esclareceu ela. — Pergunto se ainda me amas?

Desta vez a pergunta era demasiado directa para poder fugir-lhe, por isso, optei pela duvida:

— Não sei. Talvez sim, talvez não.

— Já vi que não me amas. — atalhou ela.

Eu como não podia deixá-la pensar semelhante coisa, reformulei a resposta:

— Rafaela, eu continuo a amar-te. Nem tu sabes, o quanto eu gosto de ti, o quanto eu te amo.

— Mas, tu não amas a Marta? — questionou ela.

— Não sei. — respondi eu com sinceridade. — Não sei se é amor ou se é a compensação por não te ter a ti.

Rafaela sorriu, chegou mesmo a deixar escapar uma lágrima e perguntou:

— Estavas disposto a separar-te da Marta, se eu deixasse o Tiago?

— E namorarmos os dois?

— Sim!

— E porquê esse súbito interesse? — continuei eu com as dúvidas.

— Porque descobri que te amo mais que tudo e que vale a pena lutar pelo que sinto por ti. — justificou ela.

As suas palavras alagaram-me de felicidade, senti-me a pessoa mais feliz deste mundo. Quantas vezes, eu sonhei com aquelas palavras.

No entanto, a consciência lembrou-me do compromisso com Marta. Não podia abandoná-la assim, sem mais nem menos.

— Então, Marco? — indagou Rafaela. — Ainda não me respondeste.

— Eu amo-te! E namorar contigo é um sonho. Mas, antes de tudo, tenho de falar com a Marta, pois não a quero magoar.

— Está certo. — concordou ela. — E quando é que me dás uma resposta?

— Na próxima semana, depois de falar com a Marta. Só lhe vou falar nisto, quando estiver com ela.

Rafaela aceitou a minha justificação, mas ficou triste pela indefinição da situação. Eu segurei-lhe a mão e sorri. Um sorriso para lhe transmitir confiança. Confiança no amor que ambos partilhávamos.

Minutos mais tarde, partimos de regresso a Lisboa.

Ao chegarmos, novo ritual diário. Deixá-la à porta de casa, despedir-me dela e partir. Despedimo-nos com um beijo na face. Apesar de partilharmos algo muito especial, não quisemos avançar em algo que não estava definido.

Claro que nós podíamos começar a namorar, mas a minha honestidade impedia-o, uma vez que não queria trair Marta. Primeiro terminava o romance com ela e, só depois, iniciaria o namoro com Rafaela.

Confesso que, a partir daquela altura, fiquei ansioso por resolver as coisas.

O dia seguinte era 25 de Agosto. A princípio, isto podia não ter nada de especial, mas tinha. Era o aniversário de casamento dos meus pais. Estava preparado um jantar comemorativo da data, para essa noite.

Nessa manhã, houve mais um treino na praia. Tudo correu com normalidade e descrevê-lo poderia ser maçador.

À tarde, Mónica e eu encarregámo-nos de preparar a sala para o jantar. A pedido de Mónica, os meus pais convidaram Cajó. E eu sugeri a presença de Bento. Porém, o meu pai disse-me que não seria muito bom para ele, ser convidado para um aniversário de casamento, quando o dele tinha acabado. Sendo assim, ficou sem efeito.

Ao fim da tarde, Cajó chegou e Mónica recebeu-o com grande paixão. Como os meus pais ainda não tinham chegado, Mónica e Cajó foram para a sala. E eu deixei-os à vontade, a desfrutar do seu relacionamento.

Fui ao meu quarto e aproveitei para telefonar a Marta, como fazia diariamente. Mantive a mesma postura e não revelei o que se avizinhava.

Com a chegada dos meus pais, os homens reuniram-se na sala e as mulheres foram até à cozinha, preparar o jantar.

Os meus pais não eram apreciadores de grandes festas. Um jantarzinho familiar era suficiente para assinalar a data.

— Marco, sabes que no Domingo vi o teu jogo na televisão. — contou Cajó. — Vocês jogam bem.

— Mas temos de jogar melhor para sermos campeões. — contrapus eu.

— Campeões? — interrogou o meu pai. — Não tinhas dito que iam só participar?

— Tinha! — confirmei eu, explicando posteriormente, o porquê da afirmação. — Como estamos bem classificados, temos de ponderar a hipótese de vencer o Campeonato Nacional.

Cajó levantou-se do sofá e foi até à cozinha. E, aproveitando a sua ausência, o meu pai perguntou:

— Quem é que o convidou?

— A Mónica pediu que ele viesse. — esclareci eu.

— Esse namoro também não me agrada. — comentou o meu pai. — Existe uma grande diferença de idade entre eles.

A conversa ficou por ali, pois Cajó, Mónica e a minha mãe regressaram à sala.

O jantar prolongou-se pela noite dentro. Após a refeição, ficámos na sala a conversar até perto da meia-noite, hora em que Cajó se foi embora.

Passaram-se dois dias, durante os quais se mantiveram os treinos na praia e a preparação para o último torneio.

O torneio de Espinho era o mais importante da época. Primeiro porque decidia o campeão e depois porque se disputaria no maior palco de volei de praia do país.

No Campeonato Nacional, ainda havia várias duplas com hipóteses de chegar ao título. Mas, tanto a mim e Rafaela, como Quim e Marta, bastava chegarmos aos quartos de final para acabar com esse sonho das outras duplas. Se isso acontecesse, o título seria discutido entre nós. E quem vencesse seria o campeão.

A tarefa era muito difícil, principalmente, porque Quim e Marta jogavam em casa e tinham o público a seu lado. As duplas que já os defrontaram em Espinho, contavam que o ambiente era infernal. E é preciso não esquecer que o título nacional significava o passaporte para o Campeonato do Mundo.

Assim, na Segunda-Feira, eu e Rafaela, partimos para Espinho. Uma viagem de três horas com um percurso semelhante ao que me levou à Figueira da Foz, apenas diferente a partir de Coimbra até Espinho.

Chegámos ao hotel antes do almoço. Deixei o carro estacionado no parque e ambos nos dirigimos aos nossos quartos.

Arrumadas as coisas, descemos e fomos almoçar.

— Daqui a pouco, vou visitar a Marta. — informei eu.

— E vais contar-lhe? — inquiriu Rafaela.

Eu sorri, segurei a sua mão e disse:

— Vou! Hoje fica tudo resolvido.

— Vou ficar no quarto, esperando ansiosamente por ti. — disse ela.

Como planeara, após o almoço, fui a casa da Marta. O prédio, onde ela morava, não ficava muito longe. Fazendo o percurso de carro, não demorou mais de cinco minutos.

Quando toquei à campainha, foi a própria Marta a atender-me. Mais uma vez, estava sozinha.

— Marco! Que bom que vieste. — disse ela, correndo para me abraçar.

Antes que a pudesse impedir, ela atirou-se a mim e começou a beijar-me.

— Espera! — pedi eu, afastando-a. — Temos que conversar.

Marta afastou-se e olhou-me com estranheza e algum receio. Ela começava temer o que eu pudesse dizer.

— Podemos conversar lá dentro? — sugeri eu.

Marta fez sinal para que eu entrasse e seguiu atrás de mim, fechando a porta.

— Então, o que queres conversar? — perguntou ela com um sorriso nervoso.

— Bem... Marta, nós... Nem sei como é que... — comecei eu.

— Desembucha! — mandou ela, bastante nervosa.

— Marta, temos que acabar. — disse eu, a grande velocidade.

— O quê? — barafustou ela. — Pensas que eu sou o quê? Andaste a "comer-me" e agora dizes adeus, como se nada tivesse acontecido?

— Marta, espera... Não é bem assim. — interrompi eu.

— É como, então? — interrogou ela. — Marco, eu amo-te! Porquê, Marco? Porquê?

Eu não disse nada e ela continuou:

— Existe outra pessoa, é? — sugeriu ela. — Pelo teu silêncio, já vi que sim. És um porco. Aproveitaste-te de mim.

— Também não foi assim... — disse eu.

— Foi como? — interrogou ela. — Vai-te embora!

— Marta...

— VAI-TE EMBORA! — gritou ela, empurrando-me para a escada.

— Marta, eu não quero acabar isto assim. — pedi eu.

— Deixa-me em paz, Marco. Vai à merda, mais a tua querida. — disse ela sem conter as lágrimas.

Eu não argumentei mais e abandonei o apartamento, regressando ao hotel.

Fiz o percurso de retorno, repleto de sentimentos de culpa e remorsos por a ter magoado. Mas, ao entrar no hotel, comecei a pensar mais em Rafaela que em Marta.

Subi até ao quinto andar, onde ficavam o meu quarto e o de Rafaela. Bati à porta do seu quarto e Rafaela abriu, denotando um semblante preocupado.

Sem dizer nada, sorri, abracei-a e beijei-a apaixonadamente. Um longo beijo de grande intensidade e que só a falta de fôlego interrompeu.

— Rafaela, amo-te. E quero ficar contigo para sempre. — afirmei eu.

Rafaela sorriu, beijou-me novamente e retribuiu:

— Eu também te amo muito.

Ficámos deitados na cama, a trocar beijos acaloradamente. Não aconteceu mais nada. Rafaela parecia intimidada quando a tocava em alguma parte mais íntima, por isso não a pressionei e mantivemo-nos, apenas, juntos e a conversar por entre os beijos.

Era maravilhoso, sentir os doces lábios de Rafaela nos meus. E a sua língua húmida a tocar na minha.

Rafaela confessou-me que ainda não tinha terminado o noivado, mas que o iria fazer, quando regressasse a Lisboa. No entanto, a partir daquele dia, assumíamos o compromisso de nos amarmos como tanto desejávamos. Não imaginam como ela ficou feliz, a partir daquela altura. Confesso que nunca a vira tão feliz.

No dia seguinte, Rafaela e eu fomos treinar no areal de Espinho. Uma praia maravilhosa. Debaixo de um calor enorme, mas com algum vento à mistura, executámos os exercícios habituais.

Depois, durante a tarde, deslocámo-nos ao estádio para observar os jogos do qualifying. Foi nessa altura que reencontrámos o Quim e a Marta.

Quim veio logo ao nosso encontro, cumprimentou-nos e conversou connosco. Porém, Marta não fez o mesmo e afastou-se sem nos falar. Eu não lhe disse que Rafaela era a pessoa que eu amava, mas penso que ela o deduziu rapidamente.

— Estão preparados para a batalha final? — perguntou Quim, num tom brincalhão.

— Estamos! — disse eu, sorrindo.

Rafaela também sorriu, mas não se pronunciou.

Momentos mais tarde, Marta chamou Quim, de longe, e disse-lhe que tinham de se ir embora. E ele acatou o seu pedido, despedindo-se de nós.

À noite, quando regressámos aos quartos, Rafaela veio até ao meu para namorarmos mais um pouco. Sentámo-nos na cama e beijámo-nos lentamente, enquanto eu colocava a minha mão na sua cintura.

Rafaela respondia com grande paixão e eu avancei mais, acariciando-lhe o peito, tendo o tecido a separar ambas as peles.

Sempre a oferecer-lhe beijos ternos, comecei a desapertar-lhe a camisa e coloquei a mão no interior. Foi a primeira vez que senti os seios dela. Eram tão macios e sensíveis ao toque.

Deitei-a na cama e continuei a acariciá-la, levando a mão ao seus calções e entrando com os dedos neles. Nesse momento, Rafaela segurou-me a mão e impediu-me de avançar mais.

— Não! — disse ela, olhando-me nos olhos.

— Porquê? — interroguei eu. — Não desejas fazer amor comigo?

— Sim, mas... — respondeu ela.

— Rafaela, o que se passa? — perguntei eu, preocupado.

Rafaela sentou-se novamente na cama e começou a chorar.

— Calma, Rafaela. Se não queres fazer, tudo bem. Eu não vou deixar de te amar, por causa disto. — disse eu, acariciando-lhe o cabelo e sorrindo para a descansar.

Ela olhou para mim e lembrou:

— Recordas-te de te ter dito que a minha primeira vez foi das piores recordações da minha vida?

— Sim! — confirmei eu.

Rafaela continuou:

— O Tiago teve relações sexuais comigo, como se eu fosse uma boneca insuflável. Não se preocupou em dar-me prazer, apenas quis tê-lo. Foi horrível.

Eu compreendi que ela se sentia traumatizada com aquilo e reconfortei-a nos meus braços.

Mais calma, Rafaela abraçou-me e voltou a beijar-me.

— Tu amas-me? — perguntou ela.

— Que pergunta. Já sabes que sim. — respondi eu.

Rafaela voltou a deitar-se na cama e disse:

— Faz amor comigo. Eu confio em ti.

As suas palavras comoveram-me. Deitei-me a seu lado e transmiti-lhe toda a minha paixão. Com muito amor, consegui fazê-la ultrapassar os seus medos e a superar o seu trauma.

Despi-a com ternura e fui descobrindo o seu corpo, assim como ela descobria o meu. Toquei suavemente o seu corpo, acariciando a sua pele e percorrendo-a com os dedos. Encaminhei-me pela sua barriga até sentir os seus pêlos púbicos. Introduzi suavemente o indicador, tocando-a no seu ponto mais sensível. Senti a sua respiração cada vez mais ofegante.

As suas mãos percorreram o meu corpo até a direita segurar toda a minha excitação, friccionando-a vagarosamente, ao ritmo que os meus dedos se moviam entre as suas pernas. Pensei em parar de a tocar, mas ela suspirou para que continuasse até atingir o seu primeiro orgasmo ao que ela respondeu movimentando freneticamente a sua mão direita, fazendo-me soltar fluidos atabalhoadamente, tendo acertado no meu próprio lábio superior. Hilariante.

Ela virou-se de barriga para baixo e deitei-me sobre si, movimentando-me compassadamente sobre ela. Aproximei a minha boca do seu ouvido e perguntei:

— Posso?

— Sim... — suspirou ela.

Imediatamente, senti as suas pernas afastarem-se e o seu corpo colocar-se em posição para que pela primeira vez eu a penetrasse e fizéssemos amor.

Partilhámo-nos e amámo-nos como nunca fizera com ninguém. Foi uma noite memorável e apaixonante.

Dois dias mais tarde, começava a nossa participação no torneio de Espinho.

O sorteio designara o nosso jogo para a parte da manhã. Sendo assim, deixámos o hotel, a meio da manhã, e seguimos para o estádio.

O local do torneio não ficava muito longe. De mão dada, caminhámos pelo passeio junto ao areal e dirigimo-nos ao estádio.

— Marco! Achas que vamos ganhar? — perguntou Rafaela.

— Claro! — respondi eu, pleno de confiança.

Chegámos perto da hora do jogo e seguimos, imediatamente, para os balneários.

Depois de equipados, entrámos no areal e começámos o aquecimento. Antes de entrar em campo, Rafaela fez questão de me beijar para dar sorte.

Do campo, podia observar-se aquela catedral do voleibol de praia. Um estádio enorme com capacidade para seis mil pessoas, todo coberto de cadeiras nas bancadas e cabine para a comunicação social.

Não havia muita gente a assistir ao jogo, mas os poucos que estavam, faziam questão de torcer por nós.

O jogo não foi muito difícil. Nós estávamos em boa forma e já atingíamos um nível que nos dava um certo prestígio. Vencemos por quinze a um e quinze a dois.

À tarde, Rafaela e eu fomos assistir ao jogo de Quim e Marta. E eu pude ter uma primeira impressão do que era o "Inferno de Espinho". O estádio não estava cheio, talvez meia casa, mas as pessoas gritavam efusivamente pela sua dupla.

Quim e Marta também conseguiram o apuramento sem grandes dificuldades.

No dia que se seguiu, jogaram-se os encontros dos oitavos de final pela manhã. Tanto eu e Rafaela, como Quim e Marta, obtivemos o apuramento para os jogos da tarde.

Com este apuramento, o título de campeão nacional só poderia ser discutido entre nós os quatro.

A meio da tarde, realizou-se o nosso jogo e consequente apuramento para as meias-finais, vencendo por quinze a dez e quinze a doze.

No jogo posterior, Quim e Marta seguiram o nosso exemplo.

Assim, ao fim do segundo dia de torneio, aumentava a probabilidade do título ser discutido na final.

Rafaela e eu mantivemo-nos algo distantes de Quim e Marta para não prejudicar a concentração deles, nem a nossa.

Nessa noite, Mónica telefonou-me para saber novidades.

— Vamos jogar a meia-final, amanhã à tarde. — informei eu.

— E achas que conseguem vencer? — interrogou ela.

— Acredito que sim.

— Então amanhã telefona-me a contar o sucedido.

Eu concordei e ambos nos despedimos.

Logo a seguir, Rafaela entrou no meu quarto. Desde que fizemos amor pela primeira vez que todas as noites dormíamos juntos. E esta não fugiu à regra.

Chegava então a hora das meias-finais. A primeira ia opor-nos a uma dupla da Figueira da Foz. Um casal pouco conhecido que tentava a sua sorte, neste torneio, tentando a melhor classificação possível.

O jogo foi equilibrado e eles sabiam jogar, batendo-se muito bem pelo triunfo no jogo. Mas, o melhor entrosamento entre mim e Rafaela, levou-nos a ganhar por quinze a dez, treze a quinze e quinze a oito.

No fim, Rafaela e eu festejámos com grande alegria a passagem à final. As nossas esperanças em relação ao título continuavam intactas.

Durante o nosso jogo, o estádio estava quase com a lotação esgotada. E a maior parte torcia por nós, pois queriam as duas melhores duplas na final.

Seguiu-se a segunda meia-final que opunha Quim e Marta à dupla vinda do Porto. Eu, acompanhado pela minha parceira de jogo, permaneci no estádio para assistir ao embate.

O ambiente era indescritível. Eu nem queria acreditar. Eram mais de seis mil pessoas, debaixo daquele Sol abrasador, a gritar pelos nomes de Quim e Marta. Uma autêntica onda de fanatismo. Foi nesse momento que constatei o verdadeiro significado do "Inferno de Espinho". E comecei a pensar no que tínhamos de enfrentar, se Quim e Marta se qualificassem para a final.

E foi o que aconteceu. Ao fim de uma hora de jogo, Quim e Marta venceram por quinze a treze e dezasseis a catorze.

Quando regressámos ao hotel, comentei tudo o que vira com Rafaela.

— Vai ser mais um adversário. — constatou ela.

— E que adversário! — disse eu.

— O melhor é ignorar o exterior. — sugeriu ela. — Concentra-te apenas no jogo.

Eu concordei com a sua sugestão, mas não cessei a minha preocupação. Ambos estávamos empenhados na conquista do título. Só que para o conseguir, tínhamos de nos transcender.

À noite, reencontrámos Quim e Marta na conferência de imprensa e trocámos algumas palavras amistosas. Não deixámos de ser amigos, mas mantínhamos um certo secretismo no futuro.

A conversa com os jornalistas iniciou-se às 21h00 e teve lugar no grande salão do hotel, onde dezenas de jornalistas dos vários órgãos de comunicação social estavam.

— Estão confiantes para o jogo? — questionou um deles.

— Claro! — respondemos todos.

— Quim, o público ajuda-vos? — indagou outro.

— Obviamente que ajuda. — concordou ele. — Mas, só isso não chega.

Um jornalista, sentado a meio da sala, levantou-se e perguntou:

— Podemos esperar um jogo que não tenha um vencedor determinado nos balneários?

— O que quer dizer com isso? — interrogou Quim.

O jornalista explicou:

— Havendo um romance entre elementos adversários, é lícito pensar que haja combinações.

— Esse romance já não existe. — informou, de imediato, Marta.

Gerou-se alguma confusão entre os jornalistas, perante esta surpreendente notícia.

Eu, aproveitando a situação, disse:

— Espero que tenha consciência da ofensa que nos dirigiu, ao considerar-nos capazes de jogadas de bastidores.

O jornalista ficou envergonhado e foi, logo de seguida, condenado pelos seus colegas.

A conversa não demorou muito mais tempo, até porque já era tarde, e todos regressámos aos nossos quartos.

Antes de ir dormir, telefonei a Mónica para lhe contar a ida à final do torneio.

Mónica ficou muito contente e desejou-me toda a sorte do mundo.

Findo o telefonema, passei para o quarto de Rafaela, onde depois de nos amarmos, adormecemos abraçados na cama. Aproveitámos a noite para descansar o máximo possível, pois o dia seguinte seria muito importante para o nosso futuro.

A final de Domingo era um acontecimento nacional. E a publicidade que a comunicação social lhe dera, ia com certeza atrair a atenção de muita gente.

Estava prevista a presença de mais de seis mil pessoas no estádio e a transmissão em directo do jogo para todo o país.

O país podia não parar, mas Espinho ia paralisar por completo.

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