Votos do utilizador: 0 / 5

Estrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativa
 

AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XXII

A viagem demorou cerca de duas horas. E pouco falámos durante esse tempo.

Quando chegámos à capital, eu levei-a a casa e, só aí, ela voltou a falar:

— Amanhã, voltamos a encontrar-nos para treinar?

— Está bem! — concordei eu.

Rafaela despediu-se de mim com um beijo fraternal e seguiu para o seu prédio, sem olhar para trás.

Depois de entrar, eu retomei a estrada e regressei à minha casa. Mal estacionei o carro, encontrei logo o meu amigo Bento.

— Então, Marco, como estás? — perguntou ele.

— Tudo bem. Ficámos em segundo. — informei eu.

— Isso já eu sei. — disse ele. — Vi o jogo em directo na televisão. Quando vi que eram vocês, corri até tua casa e avisei os teus pais. Eles ficaram fascinados por te ver na televisão.

Eu sorri com as suas palavras. Sabia que o jogo tinha sido transmitido pela televisão, mas nunca me lembrei da possibilidade de que alguém da minha família estivesse a ver.

Bento ajudou-me a levar a mala até à escada. Depois, despediu-se de mim, pois tinha o telefone de sua casa a tocar.

Eu peguei na mala e subi até ao meu andar. Entrei e fui recebido pela minha prima.

— Olha! Chegou a vedeta da televisão. — disse ela, gracejando.

— Não gozes! — respondi eu, sorrindo, meio envergonhado.

Mónica veio ao meu encontro e abraçou-me. Ao que eu retribuí com um beijo na sua face rosada.

— Já almoçaste? — perguntou ela.

— Não! — disse eu.

— Queres ir almoçar fora? — convidou ela.

— Está bem! — concordei eu. — Deixa-me ir tomar um banho, primeiro, e depois vamos.

Meia hora depois, já ambos arranjados, saímos de casa.

— Mónica, não te importas que convide o Bento? — indaguei eu.

— Não! — acedeu ela. — Eu gosto da companhia dele.

Lembrei-me de convidar o Bento porque, desde que se separara de Madalena, ele andava sempre sozinho e recolhia-se dentro de casa durante muito tempo. E eu, como seu amigo, não gostava de o ver assim. Por isso, fui até sua casa, desafiá-lo a acompanhar-nos.

— Não sei... — disse ele.

— Se não vieres, fico ofendido. — avisei eu.

— Tudo bem. Eu vou. — aceitou Bento.

Fomos almoçar a um restaurante na Avenida da Igreja. Fizemos o caminho a pé. Não era muito longe, mas estava muito calor.

Durante o almoço, relatei os acontecimento vividos na estadia pela Figueira da Foz e eles contaram as poucas coisas que aconteceram na minha ausência. Nada de especial.

O ritual do relato repetiu-se à noite, quando os meus pais quiseram saber novidades sobre a minha participação no torneio.

No dia seguinte, Terça-Feira, voltava a fase dos treinos na praia. A meio da manhã, com uma temperatura na casa dos trinta graus, fui buscar Rafaela a casa para treinar.

Quando a vi sair do prédio, fiquei surpreendido com a sua aparência. Estava muito sensual, vestindo uma camisola muito justa e uns calções muito curtos, acompanhados por uns chinelos de praia que embelezavam os seus lindos pés.

Rafaela entrou no carro e beijou-me com amizade.

— Estás muito bonita. — disse eu.

Ela sorriu e agradeceu o elogio.

E estava, de facto, muito bonita. Nos últimos tempos, ela começara a transformar-se, expondo ligeiramente a sua beleza. Mas, naquele momento em que a reencontrara, ela parecia empenhada em fazer realçar toda a sua beleza física.

Eu fiquei satisfeito por a ver assim. Porém, guardei o desejo íntimo de que ela não perdesse o seu maior atributo, a sua beleza interior.

Na praia do costume, repetimos o treino. Não vou repetir o que sentia ao olhar para ela, uma vez que os meus sentimento para consigo, não se haviam alterado. Continuava a amá-la e a desejar o seu amor.

Ao regressarmos a casa, deixei-a no sítio habitual. Antes de se despedir de mim, Rafaela olhou-me com receio e perguntou:

— Queres sair comigo, hoje à tarde?

— E podes? — questionei eu. — O teu noivo não se importa.

A referência ao noivo pareceu aborrecê-la ou, pelo menos, desmoralizá-la. Mas, mesmo assim, explicou:

— Eu avisei-o que se não me deixasse à minha vontade, ia contar à policia o que ele me fizera. Por isso, ele agora não me pressiona tanto.

— Então, tudo bem. — aceitei eu.

Combinámos a hora e despedimo-nos. Na altura, senti-me inundado por uma enorme felicidade. O convite de Rafaela deixava-me expectante.

Reencontrámo-nos a meio da tarde. Rafaela esperava-me junto ao cinema da Avenida de Roma, o local que havíamos combinado.

Observá-la, fez-me ver que começava a abandonar as roupas largas e a denunciar a sua formosura. Eu sabia que ela era bonita, mas ela superava as minhas expectativas.

Nessa tarde, fomos ver um filme muito bonito. Uma história de amor entre dois jovens de famílias inimigas, os quais venceram todas as dificuldades para consumar o seu amor. Parecia escolhido meticulosamente, aquele filme.

Quando saímos da sala, notei uma certa comoção em Rafaela, que sentira demasiadamente o filme.

— Gostaste? — perguntei eu.

Rafaela passou a mão pelo rosto e respondeu:

— Gostei! O filme era muito parecido com...

— Com quê? — questionei eu.

— Nada, nada. — disse ela, não querendo revelar a sua opinião. E mudou de tema. — Queres tomar um café?

— Está bem. — aceitei eu.

Saímos do cinema e fomos à pastelaria do costume. Aquela onde nos havíamos reencontrado em Maio e onde eu já era conhecido. Foi uma tristeza para mim, meia dúzia de anos mais tarde, quando a fecharam e tornaram aquele espaço num restaurante de fast-food.

Sentámo-nos numa mesa e pedimos dois cafés. O empregado, que já me conhecia, apressou-se a satisfazer os nossos pedidos. Rafaela parecia-me muito nervosa e com vontade de me dizer qualquer coisa. Mas, sempre que ia para falar, arrependia-se e falava de coisas sem importância. Eu também não fui capaz de a interpelar sobre o facto e acabei por não saber o que a importunava.

Ao fim de uma hora, a conversar sobre futilidades, abandonámos o café e eu acompanhei-a até casa. Despedimo-nos e eu prossegui, mantendo a curiosidade que me perturbava.

No entanto, essa ideia quase desapareceu quando cheguei a casa.

Recolhi ao meu quarto e fui telefonar a Marta. Fiquei ao telefone, mais de uma hora, a conversar com ela e a trocar carinhos pela linha.

Sentia-me muito apaixonado por Marta, mas não conseguia esquecer Rafaela. Contudo, o assunto que ela guardava, desaparecera da minha memória, por essa noite.

Na manhã seguinte, voltei a ir treinar com Rafaela. As manhãs eram cópias sucessivas.

Quando a deixei em frente ao seu prédio, Rafaela pediu-me um favor:

— Podemos encontrar-nos, à tarde, para conversar?

— Podemos! — acedi eu. — Mas, não podemos falar agora?

— Não! — disse ela, numa voz engasgada. — Vem a minha casa, logo à tarde.

— A tua casa? — interroguei eu com estranheza.

— Sim! — confirmou ela. — Não há problema.

Eu aceitei o seu convite e despedimo-nos por algumas horas.

Retornei a casa, tomei banho e almocei. Duas horas depois, dirigi-me a casa de Rafaela.

Toquei à campainha e foi a própria Rafaela quem me atendeu. Abriu a porta e eu entrei no prédio, subi as escadas e dirigi-me à sua porta.

Rafaela abraçou-me, deu-me um beijo e convidou-me a entrar.

— Senta-te! — disse ela, apontando para o sofá da sala.

Eu sentei-me e ela sentou-se junto a mim.

— Que me queres dizer? — interroguei eu.

— Ah... Nada de especial. — disse ela. — Eu queria di...

Algo interrompeu o seu discurso. O seu olhar centrou-se em algo atrás de mim e disse:

— Anda, vamos conversar para o meu quarto.

Mais uma vez fiquei confuso, mas não me pronunciei, limitando-me a segui-la. Quando passei pelo corredor, reparei na mãe de Rafaela, escondida atrás da porta da cozinha, a escutar a nossa conversa.

Rafaela convidou-me a sentar num sofá do seu quarto e sentou-se na sua cama.

— Queres ouvir música? — perguntou ela.

— Pode ser... — disse eu com um sorriso sincero.

Rafaela levantou-se da cama, dirigiu-se a um aparelho com leitor de CD e colocou um de música romântica.

"Teria aquilo alguma razão especial?" Interrogava-me eu, em pensamentos.

Rafaela voltou ao seu lugar e começou a falar:

— Estou cansada deste relacionamento com o Tiago. Sinto que precisava de outra relação.

Eu ouvia-a e, quase, adivinhava o objectivo daquelas palavras.

Rafaela, com a sua voz acompanhada por uma bela melodia vinda das colunas de som, continuou:

— Achas que devia desistir do noivado?

— Já sabes que sim. — respondi eu.

— E achas que valeria a pena quebrar com os compromissos existentes? Achas que ganharia alguma coisa com isso? — voltou ela a interrogar.

Eu percebi, onde ela queria chegar com aquelas perguntas. E sabia que esperava ouvir da minha boca, a afirmação de que ganharia o meu amor se o fizesse. Era isso que eu lhe ia responder, mas fui interrompido pelo meu telemóvel.

— Estou?... — atendi eu. — Marta? Olá, tudo bem?

Era uma chamada de Marta. Estivemos a falar durante cinco minutos, os quais eu evitei palavras como "querida", "amor", entre outras, pois estava na presença de Rafaela. Mas, no fim, não me pude esquivar a um "amo-te", o que importunou Rafaela.

Quando desliguei o telemóvel, olhei para ela e disse:

— Continuando a nossa conversa...

— É melhor ficar para outro dia. — sugeriu Rafaela com desprezo.

Eu tentei indagar o porquê de tal aborrecimento, mas fomos ambos surpreendidos pelo soar da campainha da porta.

— Onde é que eles estão? — questionava uma voz, vinda da sala.

— No quarto dela. — informou a voz da mãe de Rafaela.

Rafaela olhou para mim e disse:

— A minha mãe deve ter telefonado ao Tiago, a dizer que estavas aqui. É melhor que te vás embora.

— Tudo bem. — aceitei eu, compreendendo o seu pedido.

Saímos do quarto e demos de caras com o Tiago.

— Rafaela, o que é que este gajo está aqui a fazer? — questionou Tiago com a sua tão característica má educação.

— Nada! — respondeu Rafaela com dureza.

Eu continuei a andar, não lhe ligando nenhuma. O melhor, com gente assim, é dar desprezo.

Rafaela acompanhou-me à porta e despediu-se de mim, lembrando o treino do dia seguinte. Tiago ficou a olhar, ao fundo do corredor, mas não teve coragem de me confrontar.

Após deixar o edifício, comecei a pensar mais pormenorizadamente na conversa com ela. E concluí que perdera uma grande oportunidade de ganhar o amor dela. As suas palavras denotavam uma clara vontade de se entregar a mim. E eu desperdicei, devido ao meu azar e ao péssimo timing daquele telefonema de Marta. Péssimo timing para mim, pois para Marta, fora no momento exacto.

Regressei a casa, completamente desiludido pela minha incompetência. Poderia ter desperdiçado a maior oportunidade de namorar Rafaela.

Total de Visitas 275178