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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XXI

Sexta-Feira, o dia mais cansativo do torneio. Logo pela manhã, depois de me preparar, bati à porta de Rafaela para saber se também já estava pronta. Rafaela abriu a porta e mostrou-se preparada para o jogo. Porém, mantinha uma certa frieza para comigo.

Deixámos o hotel e seguimos para o estádio, sem dialogar nada. Nem uma palavra saiu das nossas bocas. Assistimos ao primeiro jogo da manhã, sentados nas cadeiras das bancadas. Mas, ao contrário de outras vezes, Rafaela não se pronunciou minimamente.

A seguir, descemos até aos balneários e mudámos de roupa, como de costume.

Antes do início do jogo, fizemos o aquecimento. Trocámos algumas bolas, mas continuámos mudos.

Após a escolha de campo, o jogo começou.

Como não havia comunicação entre nós, o primeiro parcial tornou-se um pesadelo. Não nos avisávamos mutuamente, não havia sugestões de jogadas e as nossas cabeças pareciam mais preocupadas noutras coisas do que no jogo em si.

Com a falta de diálogo e inexistência de interligação entre a dupla, não foi estranho que perdêssemos o primeiro parcial por dois a quinze.

Quando nos sentámos nas cadeiras para descansar, durante o intervalo, eu disse:

— Rafaela! Se continuarmos assim, não vamos a lado nenhum.

Rafaela manteve o olhar num ponto incerto e respondeu:

— Eu não sei se quero continuar a ter-te como colega de equipa.

A sua frieza surpreendia-me. Quase que me deixou sem palavras. Tive vontade de a deixar ali sozinha. Mas, em vez disso, disse:

— Faz uma trégua nas tuas divergências comigo e vamos tentar ganhar o jogo. Depois, no hotel, conversamos sobre o nosso futuro.

Rafaela não respondeu e levantou-se em direcção ao campo. E eu segui atrás de si.

Quando o jogo se reiniciou, eu pude constatar que as minhas palavras tinham tido efeito nela. Rafaela voltou a dialogar e passámos a jogar melhor. No entanto, a comemoração dos pontos ainda denotava uma divisão entre nós.

Conseguimos ganhar os parciais seguintes por quinze a cinco e quinze a treze. Tendo, assim, adquirido a passagem aos quartos de final.

Quando regressámos ao hotel, Rafaela tentou refugiar-se no seu quarto. Mas eu impedi-a de o fazer, agarrando-a pelo braço.

— Espera! Temos de conversar. — disse eu.

— Agora, não. — contrapôs ela.

— Agora, sim. — insisti eu, puxando-a para o meu quarto.

Enquanto a segurava pelo braço, direccionei-a para a cama, onde ela se sentou. Eu sentei-me a seu lado e perguntei:

— Rafaela, o que é que se passa?

— Nada! — disse ela.

— Diz a verdade. — insisti eu. — Porque é que queres deixar de jogar comigo?

Rafaela esperou um pouco, olhou para mim e disse:

— Tu já não mereces a minha confiança.

— Porquê? — continuei eu a interrogar.

Rafaela levantou-se da cama, deu vários passos pelo quarto e, olhando na minha direcção, informou:

— Ao namorares com uma adversária, eu deixo de poder acreditar no teu empenhamento, se jogarmos contra eles.

— Achas que eu era capaz de te prejudicar? — questionei eu.

— Acho! — respondeu ela com desprezo.

Desiludido com a sua postura e aborrecido por tal procedimento, levantei-me e propus-lhe uma solução:

— Se é isso que tu queres, vai lá baixo e informa a organização de que desistimos do Campeonato Nacional.

Rafaela ficou pálida com as minhas palavras. Não parecia acreditar que eu cedesse tão facilmente. Penso que o seu desejo era que eu continuasse a insistir e a convencesse de que podia continuar a confiar em mim. Mas, a sua rudeza, levou-me a ceder aos seus desejos.

— Ao que parece, eu abri a porta a uma coisa que tu já querias. — sugeriu ela, dirigindo-se à porta.

Eu, enervado com a sua afirmação, agarrei-a pelo braço e disse:

— Não me culpes pelas tuas vontades!

— Isso não interessa. Se queres desistir, desiste. — continuou ela.

Eu continuei a agarrá-la e interroguei:

— Porque é que tu és assim?

— Assim como? — questionou ela com altivez.

— Porque é que estás com ciúmes? — reinterroguei eu.

Rafaela deu duas gargalhadas forçadas e contrapôs:

— Ciúmes? Deves estar a brincar. Porque razão teria eu ciúmes de ti?

Eu, agarrando-a com ambas as mãos, esclareci:

— Porque tu me amas, mas não és capaz de o confessar.

— Não sejas ridículo. — disse ela com desprezo, tentando afastar-me. — Larga-me! Estás a magoar-me.

— Já mo deste a entender! Porque é que não o assumes?

— Deves ter sonhado. Eu não amo ninguém! Larga-me estúpido!

Eu não a larguei. E Rafaela, numa tentativa desesperada de me afastar, levantou as mão e acertou-me com o punho fechado direito no nariz, o que me fez cair sobre a cama.

Parecia um dom de Rafaela, atingir-me sempre no nariz.

Quando recuperei o equilíbrio, reparei que o meu nariz sangrava. Voltei a sentar-me na cama e inclinei-me para trás, de forma a parar a hemorragia. Era a segunda vez que ela me punha a sangrar do nariz.

Rafaela teve a reacção de abandonar o quarto. Porém, não foi capaz de me deixar sozinho e veio auxiliar-me.

— Queres ajuda? — perguntou ela com uma voz carregada de remorsos.

— Não! Podes ir-te embora. — disse eu.

— Não sejas parvo. Estás a sangrar do nariz. — lembrou ela.

Eu não disse mais nada e deixei-a pôr em prática os seus dotes de enfermeira.

Quando terminou, eu segurei a sua mão e beijei-a, em sinal de reconciliação. Rafaela retirou a sua mão e levantou-se, mas eu não lhe soltei a mão.

— Fica aqui comigo. — pedi eu.

— Já não precisas de mim. — disse ela. — Se quiseres eu peço para chamar a Marta.

— Eu não quero a Marta! Quero-te a ti! — confessei eu com honestidade.

Rafaela cedeu totalmente e voltou a sentar-se na cama, não contendo a satisfação de me acariciar o rosto.

Eu coloquei a minha mão na sua perna e toquei-a com ternura, ao que ela não se opôs. E convidei-a a deitar-se a meu lado.

Ela aceitou e ambos ficámos a conversar, deitados lado a lado e de mão dada. No fim, já não nos lembrávamos das desavenças e a questão da separação da dupla.

Ao fim de uma hora, Rafaela levantou-se e eu segui-a. Interpelei-a, novamente, puxando-a pelo braço. Ela olhou para mim e sorriu. Eu inclinei-me levemente e tentei beijá-la. Rafaela impediu-me.

— Não! — disse ela. — Vamos continuar a ser amigos como antes.

E com aquelas palavras, recolheu ao seu quarto. Ela sabia que bastava uma palavra sua e eu deixaria Marta para me entregar ao amor que sentia por si. No entanto, ela continuou a erguer essa barreira, não querendo alterar as coisas.

Reencontrámo-nos ao almoço.

Durante o almoço, Marta apareceu e não teve quaisquer complexos em beijar-me publicamente, o que me surpreendeu.

Rafaela desviou o olhar e fez de conta que nem ligou ao que se estava a passar.

— Também conseguimos o apuramento. — disse Marta.

— Fico contente. — disse eu.

Marta voltou a beijar-me e foi-se embora.

Eu não gostei da sua atitude e fui atrás dela. Pedi desculpa a Rafaela por me ausentar e entrei no elevador com Marta.

— Não tínhamos combinado manter o romance secreto? — interroguei eu.

— Eu acho isso absurdo. — disse ela. — Se nos amamos porque é que devemos esconder isso.

— Eu já te expliquei. — contrapus eu.

— Desculpa, mas não concordo. E para além disso, eu quero que as pessoas saibam que tu tens namorada. — explicou ela.

Quando ela disse aquilo, eu percebi o porquê de tal cena. Marta suspeitara do que eu sentia por Rafaela e apressou-se a mostrar que ela é que ocupava aquele lugar.

Chegados ao quarto andar, Marta saiu e despediu-se de mim. Ia descansar para o jogo da tarde.

Eu regressei ao restaurante do hotel e terminei a refeição com Rafaela que não se demonstrava nada incomodada com o que se passara.

A meio da tarde, já jogávamos a nossa partida dos quartos de final.

As coisas corriam bem. Jogámos bem e ganhámos por quinze a seis no primeiro parcial.

No entanto, durante o intervalo entre o primeiro e o segundo parcial, vi Rafaela esfregar ligeiramente o joelho, o que me levou a pensar que ela não estava bem, por isso, perguntei-lhe o que se passava.

— Nada de especial. — disse ela.

Regressámos ao campo e recomeçámos a jogar. O parcial foi disputado e chegou a estar em oito a oito. E foi nessa altura que Rafaela tentou chegar a uma bola, atirando-se ao chão.

Rafaela apanhou-a e eu fiz o ponto, mas bateu com o joelho na areia e ficou caída com dores.

— Tempo! — pedi eu, ao ver o seu sofrimento.

O árbitro apitou e acedeu ao pedido.

Eu peguei em Rafaela e carreguei-a nos meus braços até à cadeira. Ela gemia devido às dores no joelho. Temia-se que tivéssemos de desistir, novamente.

Rafaela sentou-se na cadeira e eu ajoelhei-me a seus pés. Comecei a massajar-lhe o joelho e ela começou a sentir-se melhor.

Humedecia as mãos e esfregava-as no seu joelho, enquanto Rafaela mantinha a cabeça caída para trás.

O árbitro apitou e chamou de novo para o rectângulo de areia.

— Estás melhor? — perguntei eu.

Rafaela endireitou a cabeça e sorriu, levantando-se de seguida.

Fizemos o resto do jogo com Rafaela em inferioridade. Mas ela aguentou-se bem e nós vencemos por quinze a doze.

No fim, Rafaela cedeu por completo às dores e foi assistida pelos médicos do torneio que, mais tarde, a levaram para o hotel. Enquanto eu fiquei no estádio a assistir ao jogo de Quim e Marta, o qual também venceram.

Quando regressei ao hotel, dirigi-me ao quarto de Rafaela para saber como ela estava.

— Como é que estás? — indaguei eu.

— Melhor. — informou ela. — Mas... gostava que me fizesses um favor.

— Qual? — questionei eu.

Rafaela olhou-me nos olhos e disse:

— Podias dar-me outra massagem? Aquela que me deste, soube tão bem.

Eu sorri, sentei-me na cama e comecei a acariciar-lhe o joelho com ternura. Durante vários minutos massajei-a com delicadeza. O rosto de Rafaela, de olhos fechados, mostrava o prazer que lhe estava a dar.

Ao terminar, aproximei-me do rosto de Rafaela e beijei-a na face. Ela abriu os olhos e sorriu.

— Dá-me um beijo. — pediu ela.

Eu repeti o beijo na face. E ela corrigiu o pedido:

— Na boca, Marco.

Levei os meus lábios aos seus e beijámo-nos com doçura. O beijo prolongou-se e começámos a abraçar-nos e a repetir os beijos.

Senti-me tão bem que esqueci, completamente, Marta. Porém, ela não se esqueceu de mim.

Enquanto Rafaela e eu nos beijávamos, fomos interrompidos pelo toque do telefone do meu quarto. Eu levantei-me e fui atender.

Do outro lado da linha estava Marta para combinar um encontro. Mas eu recusei, argumentando que tinha de repousar. Ela concordou e eu desliguei.

Quando voltei ao quarto de Rafaela, ela permanecia deitada na cama. Eu dirigi-me a ela, com a intenção de continuar o que fora interrompido.

No entanto, Rafaela travou-me com delicadeza e disse:

— É melhor não continuarmos.

— Porquê? — interroguei eu. — Não gostaste?

— Gostei! — confessou ela. Mas, justificou. — Somos ambos comprometidos e devemos respeitar isso.

— Mas...

— Não insistas, Marco. — continuou ela. — Deixa-me ficar sozinha.

Eu acatei o seu pedido e regressei ao meu quarto.

Fiquei algumas horas a olhar para a porta que ligava os nossos quartos. E fiquei a relembrar os beijos trocados com Rafaela. Mas a amargura permanecia, por não conseguir de Rafaela, aquilo que mais desejava, o seu amor.

Na tarde do Sábado seguinte, realizaram-se os jogos das meias-finais. Perante uma enchente de adeptos do volei de praia, Quim e Marta obtiveram o apuramento para a final.

Depois, foi a nossa vez de o conseguir. Porém, foi bastante difícil. Confrontando uma dupla de Sines, Rafaela e eu ganhámos o primeiro parcial por quinze a treze, perdemos o segundo por catorze a dezasseis e vencemos o jogo ao triunfar no derradeiro parcial por quinze a doze. Um grande jogo, mas que nos arrasou fisicamente.

Os torneios começaram a atrair tanta gente que a televisão se interessou pelo acontecimento, mostrando interesse em comprar os direitos de transmissão dos restantes jogos.

À noite, Rafaela foi chamar-me ao quarto para participar numa conferência de imprensa. Já antes, alguns jornalistas acompanhavam o torneio. Mas, a partir daquela altura, a fama dos torneios aumentou a um nível sem precedentes.

Sendo assim, o salão do hotel foi preparado para uma entrevista conjunta dos jornalistas às duplas finalistas do torneio.

Senti-me bastante nervoso, pois era a primeira vez que aparecia na televisão.

Os jornalistas interpelaram-nos acerca das nossas expectativas.

— Fazer o melhor possível. — disse Quim.

— Tentar dar espectáculo. — acrescentou Marta.

Eu e Rafaela não nos pronunciámos.

— Vocês são os favoritos ao título nacional. — afirmou um dos jornalista, referindo-se a nós os quatro.

— Talvez. — concordou Quim. — Mas, de certo que haverá outras duplas que terão uma palavra a dizer.

— Acha que vão revalidar o título? — questionou outro jornalista.

— Não sei! — respondeu Quim. — Aqui os nossos adversários têm tantas possibilidades quanto nós.

— Concordam? — perguntou o mesmo, dirigindo-se a mim e a Rafaela.

— Penso que não. — disse eu. — O Quim e a Marta têm muita experiência.

— E isso ajuda muito. — acrescentou Rafaela.

A conferência corria bem. Porém, há sempre alguém que gosta de destoar. Um dos jornalistas dirigiu-se a mim e perguntou:

— É verdade que você e Marta mantêm uma relação intima?

— É! — confirmou, imediatamente, Marta.

— E isso não é prejudicial à verdade desportiva? — questionou o jornalista.

— Não! — neguei eu. — Lá dentro, damos o nosso melhor e esquecemos o nosso relacionamento cá fora.

O jornalista ficou convencido com as minhas palavras. Mas eu, apesar de me safar bem na resposta, fiquei bastante sentido com Marta. Ela assumiu, publicamente, a nossa relação sem me pedir consentimento.

Passada a noite, chegava o dia da final. Durante a manhã, fui até à praia para relaxar. Estava um pouco nervoso com o jogo que tinha pela frente.

Não muito longe, ouvia-se o som vindo do estádio, provocado pelas poucas pessoas que assistiam ao jogo de atribuição do terceiro e quarto lugar.

Eu fiquei muito tempo sentando na areia sozinho. Precisava da solidão para aclarar as ideias. A minha mente estava confusa, muito confusa.

Quando regressei ao hotel, encontrei Rafaela que acabara de chegar. Estivera a ver o jogo de volei. Almoçámos juntos e recolhemos aos quartos para iniciar a nossa concentração para o jogo. Este teria início às três da tarde.

Cerca das 14h30, Rafaela e eu saímos dos quartos e seguimos para o estádio. Não demorámos mais de cinco minutos a chegar lá.

Junto ao estádio, estavam dois camiões do canal televisivo que transmitiria o jogo. E lá dentro, já se ouvia o speaker do torneio a "puxar" pelo público.

— Nervosa? — perguntei eu a Rafaela, enquanto caminhávamos para os balneários.

— Um bocado. — confessou ela.

— Eu também estou. — disse eu com um sorriso calmo.

Entrámos nos balneários e preparámo-nos.

Quim e Marta, também, já lá estavam. Mas, nós não os vimos.

Às 14h45, estávamos os quatro, junto à entrada do campo.

— Boa sorte! — desejou Quim.

— Igualmente! — retribui eu.

— Que vença o melhor. — acrescentou Marta.

Ao sinal de um dos juízes, entrámos em campo e começámos o aquecimento. Cerca de dez minutos a fazer passes e remates.

O estádio estava esgotado. E, espalhadas pelas bancadas, estavam seis câmaras de televisão e uma sétima, junto aos jogadores.

O árbitro do jogo apitou para o fim do aquecimento e nós fomos para as cadeiras.

O ambiente nas bancadas era espectacular. Centenas de pessoas a saltar e a dançar, debaixo de um Sol escaldante. Homens em calções e mulheres em biquini caracterizavam a assistência.

15h00. O speaker começou a apresentar os protagonistas do espectáculo. A multidão respondia com aplausos a cada citação de um nome.

Fomos para o campo. Eu e Quim encontrámo-nos junto à rede, na companhia do árbitro.

— Cara ou coroa? — perguntou o árbitro.

— Quim, podes escolher. — disse eu.

Quim escolheu coroa e ganhou, aproveitando para escolher o campo. E pôs-me a mim e a Rafaela, a jogar contra o Sol.

Era a segunda vez que nos defrontávamos. A vantagem ia para eles, pois tinham ganho o primeiro jogo. No campeonato nacional, antes deste jogo, a classificação era comandada por mim e Rafaela, enquanto Quim e Marta estavam no terceiro lugar. Porém, a sua participação na final garantia-lhes a subida ao segundo lugar. E se vencessem o jogo, ultrapassavam-nos.

O jogo começou com muito equilíbrio. Bola aqui, bola ali e o resultado do primeiro parcial chegou aos nove igual. No entanto, Quim e Marta demonstravam-se mais concentrados e acabaram por vencer chegando aos quinze a onze.

Findo o primeiro parcial, Rafaela e eu regressámos às cadeiras para descansar e limpar o corpo de toda a areia acumulada.

— Não estamos concentrados. — disse Rafaela.

Eu concordei com a cabeça, mas não me pronunciei.

O jornalista televisivo que acompanhava o jogo, perto do areal, aproximou-se de nós e interpelou-me:

— Marco! O jogo ainda está ao vosso alcance?

— Se não o achasse, nem jogava o resto. — disse eu.

— E o que é preciso para dar a volta ao jogo? — insistiu ele.

— Marcar mais pontos. — informei eu, ironicamente.

O jornalista afastou-se e dirigiu-se à outra dupla.

Após sinal do árbitro, regressámos todos ao rectângulo.

O jogo recomeçou, mas o desenvolvimento não mudou. A concentração desapareceu por completo, deixou de haver entendimento entre mim e Rafaela. E o resultado foi a derrota no jogo, ao perder o segundo parcial por seis a quinze.

No final, cumprimentámo-nos todos pelo belo espectáculo que tínhamos dado. Mas, mais uma vez, mostrámos ser inferiores à dupla formada por Quim e Marta.

Rafaela e eu regressámos aos balneários, enquanto Quim e Marta foram assediados pelo jornalista ali presente.

— Nunca pensei que fosses capaz... — disse Rafaela, muito aborrecida.

— Capaz de quê? — perguntei eu, surpreendido.

Antes de entrar no seu lado do balneário, Rafaela esclareceu:

— Capaz de a deixar ganhar.

Rafaela fechou a porta e não me deu hipótese para responder. No entanto, havia comunicação entre os dois lados e eu continuei a falar:

— Estás a ser injusta. Eu não a beneficiei. E ofendes-me com essa suspeita.

— Não sei! — respondeu ela, do outro lado. — Podes não o ter feito conscientemente. Mas de uma coisa tenho a certeza, não te empenhaste totalmente em ganhar.

— Não vale a pena continuar a discutir contigo. — concluí eu.

Não voltámos a falar, enquanto estávamos nos balneários.

Rafaela saiu primeiro e seguiu para o hotel. Eu pensei em ir falar com ela, mas fui interceptado por Marta, insistindo que a acompanhasse à festa do torneio.

Como costume, depois da final, havia uma festa que se prolongava pela noite. Este torneio não fugiu à regra.

Rafaela não apareceu na festa, permanecendo no quarto do hotel.

Eu fiquei a namorar com Marta, na festa, e regressámos ao hotel de madrugada.

Também Quim andava pela festa e deu algum espectáculo na pista de dança.

Já noite dentro, quando voltámos ao hotel, levei Marta para o seu quarto e passei o resto da noite com ela.

Na manhã seguinte, os jogadores hospedados no hotel começaram a partir. Rafaela e eu não fomos excepção. Cerca das 10h00, saí do quarto e chamei Rafaela. Porém, ela não abriu a porta, limitando-se a dizer que já saia.

Pedi ao empregado do hotel que levasse a bagagem para baixo e desci com ele. O funcionário deixou a mala junto ao meu carro e voltou a subir para ir buscar a de Rafaela.

Enquanto arrumava a mala, apareceram Quim e Marta que se preparavam para regressar a Espinho.

— Marco, viemos despedir-nos. — disse Quim. — Vamos partir.

— A Rafaela? — indagou Marta.

— Deve estar a descer. — informei eu.

Quim estendeu-me a mão e disse:

— Não podemos esperar! Temos que partir imediatamente. Dá-lhe um beijo por mim.

— Será entregue. — proferi eu, apertando-lhe a mão.

Quim afastou-se e dirigiu-se ao carro, deixando Marta comigo, por alguns momentos, para nos despedirmos à vontade.

Como dois apaixonados, trocámos vários beijos e permanecemos abraçados sem nos conseguirmos afastar.

— Vou ter muitas saudades tuas. — confessou Marta.

— Também eu. Mas, daqui a uma semana, voltamos a encontrar-nos. — lembrei eu, dando-lhe mais um beijo.

— Telefona-me. — pediu ela.

— Todos os dias. — informei eu.

Marta voltou a beijar-me e disse:

— Amo-te!

— Eu também. — retribuí eu, num último abraço e num último e prolongado beijo.

Findas as despedidas, Marta afastou-se e dirigiu-se ao carro de Quim, entrando seguidamente. Ambos me acenaram e partiram.

Cinco minutos depois, apareceu Rafaela acompanhada pelo empregado que carregava o saco. Este deixou a bagagem no chão e eu recompensei-o com uma gorjeta.

Rafaela cumprimentou-me com um beijo na face e não demonstrava qualquer ressentimento pela discussão do dia anterior. Sendo assim, também não falei no assunto.

— O Quim e a Marta já se foram embora. Deixaram um beijo para ti. — informei eu.

Ela não se pronunciou e entrou para dentro do carro.

Após colocar a bagagem no carro, também entrei e ambos partimos de regresso a Lisboa.

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