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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XIX

Chegava o dia 8 de Agosto, aquele em que parti para Aveiro. Um dia quente e luminoso com os raios solares a mergulharem sobre o asfalto. Parti às 10h00 e segui rumo a Aveiro pela A1. Uma viagem monótona, já que a paisagem não varia muito. São quilómetros e quilómetros de alcatrão para percorrer. E com os olhos hipnotizados pelo movimento dos carros que vão e vêm de cada lado. Ao fim de hora e meia de viagem, saí no desvio para Aveiro. Do desvio à cidade não foram muitos mais quilómetros.

Ao chegar à cidade, parei o carro e confirmei a morada que Guida me enviara: Rua de São Sebastião nº 10, 2º andar.

Para ser franco, confesso que desconhecia por completo a cidade, por isso, pedi auxílio a um cidadão:

— Ó amigo, desculpe...

— Sim! — respondeu um homem que estava à porta de uma mercearia.

— Sabe onde fica a Rua de São Sebastião?

— Claro! Quem não sabe? — disse ele, gracejando.

O homem lá deu a explicação e encaminhou-me por esquerdas e direitas e "vá por aqui" e "vire ali"... Enfim, para o homem até parecia fácil, mas eu continuava a achar tudo um enorme labirinto.

Eu agradeci a gentileza e segui caminho. Com maior ou menor dificuldade, lá dei com a rua. Depois, foi só procurar o número 10.

Estacionei o carro ao fundo da rua e continuei a pé.

— 2... 4... 6... 8... — sussurrei eu, enquanto vislumbrava os números das portas. — 10. É aqui!

Toquei à campainha e esperei que abrissem. Em menos de um minuto, a porta abriu e eu entrei para a escada.

— Quem é? — perguntou uma voz, vinda de cima.

Eu reconheci, imediatamente, a dona daquelas palavras e constatei que estava no sítio certo. Aproximei-me do corrimão e disse:

— Olá Guida, sou eu.

Ao ver-me, Guida correu pelas escadas e só parou quando me abraçou com a força das saudades que sentia.

— Que bom, voltar a ver-te. — disse ela.

— Eu também gosto muito de te ver. — afirmei eu, beijando-a com amizade.

— Anda, vamos conversar. — sugeriu ela, puxando-me pela mão. — Vais conhecer a minha humilde casa.

Eu entrei na casa e observei o seu interior com a destreza de um leigo em decoração. Não era preciso ser especialista para ver que a casa de humilde não tinha nada. Toda ela estava muito bem decorada, tinha quadros nas paredes, os móveis eram da melhor madeira, bons electrodomésticos, etc... Tudo da melhor qualidade.

Guida convidou-me a acompanhá-la à sala e ambos nos sentámos a conversar. Ela estava igual à última vez que a vira. Continuava linda, mas agora, com o aspecto de uma dona de casa, prendada e eficiente.

Guida vestia uma camisola de algodão e uns calções de ganga. Um avental amarelo cobria-lhe a frente, até abaixo dos calções.

Sentámo-nos no sofá e conversámos. Na casa, só estava ela e a filha, Rebecca, que dormia tranquilamente no seu quarto.

— Então, o que tens feito? — perguntou ela.

Eu contei-lhe o mesmo que já vos contei, desde a sua partida para Aveiro até àquele dia. Em resposta, Guida contou-me como têm sido os seus dias desde que se estabeleceu em Aveiro.

O tempo a que me refiro não era muito, mas foi o suficiente para fazer conversa durante o almoço e o resto da tarde. Muito trabalho com a decoração da casa. O trabalho de cuidar da filha. E a tristeza de passar a maior parte do dia, sozinha. Resumindo, o diálogo andou à volta destes assuntos.

Finda a conversa, Guida foi surpreendida pelo choro de Rebecca. Não a deixou chorar por muito tempo, correndo de imediato para o quarto para ver o que se passava. Nada que uma carícia e uma cantiga não resolvessem.

Enquanto a embalava, eu fiquei a observar junto à porta. Era um quadro encantador.

Esta imagem foi interrompida pela chegada de Mike.

Mike, ao dar pela minha presença, dirigiu-se a mim com hospitalidade e cumprimentou-me numa mistura de inglês com português. E eu retribui o cumprimento em perfeito inglês.

Nessa noite, após o jantar, recolhi ao quarto que me fora designado e descansei do cansaço que o dia me provocara.

Ao amanhecer, deixei a casa da família Greenland com o objectivo de visitar a Figueira da Foz. E avisei Guida de que voltaria depois do almoço.

Segui pelo IC1, a estrada que me encaminharia ao meu destino, e liguei o rádio para animar o ambiente. Em pouco mais de meia hora, estava na cidade costeira.

Rafaela indicara-me, antes de sair de Lisboa, qual o hotel onde havíamos de ficar. Um hotel muito conhecido que ficava junto à praia e que não foi difícil de encontrar. Era um edifício muito alto, a cerca de trinta metros do estádio edificado no areal da praia. As paredes beges do hotel reflectiam o brilho do Sol.

Estacionei a alguns metros da porta e entrei para o hotel. Mal passei a porta, senti logo o fresco do ar condicionado. Para terem uma ideia da mudança de temperatura, imaginem passar de 33 para 24 graus, no espaço de um segundo.

Dirigi-me à recepcionista que estava junto do balcão, perto do átrio, e esperei a minha vez. Nesse balcão estavam duas funcionárias, a que me atendeu e outra que dava informações a uma mulher.

Antes de pedir o que quer que fosse à funcionária, não pude deixar de reparar naquela bela mulher que estava a cinco metros de mim. Era alta e tinha cabelo louro, comprido e caído sobre as costas. Vestia uma camisola muito curta e justa, acompanhada por um par de calças, igualmente justo. Os pés estavam guarnecidos com um par de sandálias brancas, a mesma cor da roupa. Para além disto, todo o seu corpo era escultural e com uma beleza e perfeição que pareciam ter sido esculpidas manualmente por um génio. Não consegui avistar o seu rosto, mas ao ouvir a sua voz, esta soou-me a familiar.

No entanto, não tive muito tempo para pensar nisso, pois fui logo interpelado pela recepcionista:

— Posso ajudá-lo?

— Sim! — respondi eu. — Queria reservar dois quartos para a semana de 14 a 20 de Agosto.

— Com certeza! Vou providenciar tudo. — informou a jovem, enquanto procurava o livro de registo.

Eu fiquei à espera e voltei a contemplar a linda mulher que se mantinha no balcão. Também ela assinava o livro de registo, daí a razão da minha espera.

De súbito, ela puxou o cabelo para trás e direccionou o olhar para mim.

— Marta? — indaguei eu, ao ver o seu rosto.

— Olá Marco! Por aqui? — questionou ela, abandonando o livro e dirigindo-se a mim para me cumprimentar.

— Como o mundo é pequeno. — afirmei eu, dando-lhe um beijo no seu rosto bronzeado.

A recepcionista entregou-me o livro para que eu assinasse, confirmando a reserva dos quartos.

— Vejo que viemos fazer o mesmo. — disse Marta, enquanto eu assinava.

— É verdade! — confirmei eu.

— E vieste propositadamente de Lisboa para isto? — interrogou ela.

— Não! Estou de visita a uns amigos que vivem em Aveiro e aproveitei para tratar disto. — expliquei eu. — E amanhã vou fazer o mesmo a Espinho.

Marta olhou para o relógio e disse:

— Meio-dia. Tenho de ir almoçar porque à tarde vou treinar com o Quim. Queres almoçar comigo?

— Pode ser. — aceitei eu.

Marta conhecia bem a Figueira da Foz e levou-me a um restaurante junto à Foz do Mondego. Fizemos uma refeição de atleta com todos os condimentos que fazem bem à saúde. Marta era uma simpatia e o tipo de pessoa com quem dá gosto conversar. Mesmo depois de terminada a refeição, ainda ficámos uma hora a falar.

— Tu amanhã vais a Espinho, não é? — interrogou ela.

— Vou. — confirmei eu.

Marta pegou num pedaço de papel, escreveu umas palavras e disse:

— Toma, tens aí a minha morada. Vai visitar-me, se quiseres. Eu estou lá o dia todo, amanhã não treino.

— Está bem! Se eu não me atrasar, passo por lá. — disse eu.

Finda a conversa, pedimos a conta. Eu quis pagar, mas Marta opôs-se.

— Eu é que convidei, eu é que pago. — justificou ela.

— Pelo menos metade. — insisti eu.

— Já disse que não. — continuou ela.

Eu acabei por desistir da insistência.

Depois de deixarmos o restaurante, ambos partimos de regresso a casa. Fizemos o percurso juntos, cada um em seu carro, e separámo-nos em Aveiro, onde eu fiquei e Marta seguiu.

Ao entrar na casa de Guida, vi-a na companhia da vizinha do lado. Uma senhora de idade a quem Guida me apresentou. Uma simpatia de pessoa, muito gentil e atenciosa. Depois de a senhora sair, Guida perguntou-me se tinha corrido tudo bem.

— Na Figueira já está tudo resolvido. — informei eu. — Agora, só falta ir a Espinho fazer o mesmo.

— E quando é que vais? — indagou Guida.

— Amanhã, depois do almoço. — esclareci eu.

E no dia seguinte, assim o fiz. Após o almoço, segui de carro rumo a Espinho. Mais uma vez, usei a passadeira de alcatrão do IC1, mas desta vez no sentido inverso.

Novamente, desloquei-me ao hotel pré-estabelecido entre mim e Rafaela e tratei das reservas.

Com tudo tratado, procurei a casa de Marta. Andei a perguntar às pessoas, onde se localizava a rua e, ao fim de meia hora, lá encontrei a casa dela.

Marta vivia num prédio de oito andares, pintado de azul claro e com varandas panorâmicas. Parecia um sítio de gente rica. Toquei à campainha e ela abriu a porta do seu quinto andar.

Marta estava muito atraente, vestida com a mesma camisola justa e uma saia curta.

— Olá! — cumprimentei eu, beijando-a na face.

— Olá, Marco! Que bom que vieste. — disse ela, retribuindo o beijo.

Eu observei o interior da casa e, perante a sua riqueza, disse:

— Tens uma bela casa.

— Não é minha! — contrapôs ela com um sorriso, explicando de seguida a realidade. — Eu tenho um quarto alugado. Fica no fundo da casa.

Eu fiquei confuso e saiu-me uma pergunta idiota:

— Trabalhas cá?

— Não! — disse ela, tornando a sorrir. — Anda, não fiques aí fora. Senta-te ali na sala que eu já te explico.

Eu entrei, sentei-me no sofá e esperei por ela. Marta serviu-me uma cola fresca que retirou do bar. Depois, sentou-se a meu lado e começou a contar:

— Há menos de um ano, eu vivia com um homem. Ele é um industrial aqui da zona e tem uma vivenda na zona rica da cidade. Como já deves estar a adivinhar, tínhamos uma relação íntima, mas não éramos casados. Um dia zangámo-nos por causa de umas merdices... Acho que a nossa relação estava esgotada. Como a casa era dele, pôs-me na rua. Fui uns dias para um hotel e andei à procura de casa. Só que era tudo muito caro. E nem mesmo o dinheiro do volei chegava para os arrendamentos. Tempos mais tarde, li no jornal que um casal estava a alugar um quarto. Vim cá, gostei do sítio e do preço. E desde essa altura que cá vivo.

— Mas tu não disseste que vivias sozinha? — perguntei eu, lembrando-me da conversa que tivéramos num almoço, durante o torneio na Caparica.

Marta esclareceu:

— Sabes? Eu considero isto como se vivesse sozinha. O casal dono da casa é muito simpático, mas não são pessoas com quem me relacione. Temos uma convivência baseada na honestidade. Por exemplo, eles foram para férias e confiaram-me a gerência da casa. Como vês, vivo sozinha em casa de outras pessoas.

— Está bem. — concordei eu, sorrindo.

Continuámos a conversar. Falámos sobre as nossas vidas, o volei, projectos para o futuro e quando chegámos ao tema da afectividade, Marta colocou-me uma pergunta:

— Já conseguiste convencer a tua paixão?

— Quem? — interroguei eu, confuso com a pergunta.

Marta refez a questão:

— Não te lembras? Contaste, uma vez, que gostavas de uma pessoa. Mas essa pessoa não te amava. E agora, ela já gosta de ti?

— Não! Continua tudo na mesma. — informei eu.

Marta, sentada a meu lado, chegou-se mais a mim, encostou a sua perna na minha e disse:

— Ela deve ser cega! Como é que é possível não gostar de ti?

— Obrigado! — agradeci eu, engolindo em seco perante um elogio tão inesperado.

— Não agradeças! É a pura verdade. — confirmou ela, colocando a mão na minha perna. Depois, cruzou as pernas de forma a subir um pouco a saia e continuou. — Tu és muito bonito.

Os elogios faziam-me corar e fiquei sem fala. Marta olhou-me nos olhos e interrogou:

— Achas-me bonita?

— Muito! — respondi eu num ápice, quase soluçando com uma estranha tremedeira na voz.

Marta sorriu, afastou-se um pouco, levou as duas mãos ao fundo da camisola e despiu-a num movimento. Os meus olhos ficaram hipnotizados pelos seus seios delineados em dois círculos perfeitos. Ela tocou suavemente neles, acariciando-os, e perguntou:

— Queres ir para a cama comigo?

Eu não respondi com palavras, limitei-me a puxá-la pela cintura e a sentá-la, de frente para mim, sobre as minhas pernas. Marta beijou-me sequiosa de sentir o sabor dos meus lábios e eu retribui com o fogo da paixão que me queimava e que alastrava pelo meu corpo. Ela puxou a saia até à cintura e eu vi que era a única peça de roupa que ela tinha da cintura para baixo.

Desconfiei logo que ela tinha tudo planeado, mas não me importei. Acariciámo-nos no sofá, excitando-nos mutuamente. A seguir, eu segurei-a pelas pernas e levantei-a, ficando de pé com ela nos braços.

— Onde é o teu quarto? — questionava eu, por entre os beijos.

Marta indicou com o dedo e eu levei-a para lá. Deitei-a na cama e despi-me por completo. Ela observava-me e excitava-se cada vez mais.

Todo nu e pronto para o que se seguia, saltei para a cama e fizemos sexo com ferocidade e dinamismo. Só parámos quando ambos explodimos num orgasmo libertador de toda a atracção que nos consumia.

Foi uma loucura, uma maravilhosa loucura. Quando acabámos, ficámos deitados lado a lado, a recuperar o ritmo normal da respiração.

No entanto, eu sentia um certo remorso por o ter feito. Via tudo como uma traição a Rafaela. Mas, logo a seguir a este pensamento veio outro mais real. Entre mim e Rafaela não havia qualquer tipo de relacionamento, para além de uma amizade.

Enquanto eu pensava, Marta levantou-se, ajoelhou-se na cama e perguntou num tom muito sério:

— Marco, posso fazer-te uma pergunta?

— Claro! — disse eu, olhando-a com a seriedade que ela iniciara.

— Queres andar comigo? — sugeriu ela.

Eu sorri com as suas palavras. Depois do que fizéramos, ela perguntava-me aquilo?

— Não te rias! — pediu ela, mantendo a seriedade. Eu respeitei o seu pedido e ela continuou. — Isto que fizemos foi sexo. Mas, eu queria algo mais. Tu és giro, atrais-me, fazes sexo maravilhosamente... Procuro mais que isso, Marco. Procuro amor! Procuro alguém que me ame. Queria amar-te e que tu me amasses. Preciso de alguém com quem partilhar a minha vida, o bom e o mau...

Eu não respondi. Levantei-me e abracei-a com ternura. Enquanto o fazia, pensava no que havia de dizer. Gostava de aceitar o seu convite, mas o que sentia por Rafaela impedia-me de o fazer. Por fim, constatei que poderia estar a desperdiçar um amor sincero em prol de uma ilusão. Por isso, olhei para Marta e disse:

— É tudo o que eu mais quero!

Marta, felicíssima, beijou-me com todo o seu amor transmitido nos lábios e depositou o seu corpo em mim, como se sentisse toda a confiança do mundo na minha pessoa.

— Dorme cá comigo, esta noite. — convidou ela.

Eu aceitei.

Depois de nos vestirmos, fui até à sala e telefonei a Guida:

— Guida... Olá... Olha, surgiram algumas complicações... Não, nada de especial... Telefonei para avisar que passo cá a noite... Certo... Beijinhos e até amanhã.

Na manhã seguinte, fomos acordados pelo bater da porta da rua. Eu estranhei, mas ao ver o rosto apavorado de Marta, compreendi a situação.

— São os donos da casa. — avisou ela. — Eles não te podem ver aqui, senão põem-me na rua.

— Calma! — sussurrei eu. — Vai lá fora distrai-los que eu saio pela porta dos fundos.

— Qual porta dos fundo? — interrogou ela, irritada pela situação e sussurrando da mesma forma. — Isto só tem uma saída.

— Não há outra saída??? — questionei eu.

— Só a escada de emergência. — informou ela. — Fica ao lado da janela da cozinha.

— Eu saio por aí. — disse eu.

— Estás parvo? Olha que é perigoso. — avisou ela.

A voz da dona da casa a chamar Marta, interrompeu a nossa conversa.

— Já vou! — disse Marta.

— Leva-os para a sala e distrai-os. — pedi eu.

Marta beijou-me e disse:

— Tem cuidado! Quando chegares lá baixo, espera por mim que eu vou lá ter contigo.

— Combinado.

Marta saiu do quarto e dirigiu-se à sala onde os senhorios do seu quarto estavam. Pelo som das vozes, pude saber quando era seguro sair.

Abandonei o quarto e fugi para a cozinha, abri a janela silenciosamente e avistei a escada. Só que esta ainda ficava a uma distância considerável da janela.

— Não sei para que é que põem estas coisas nos prédios, se é tão difícil usá-las. — disse eu, em voz baixa, para os botões que não tinha.

A cena que se seguiu era digna de um filme. Coloquei-me de pé sobre o parapeito da janela e estiquei-me todo para alcançar a escada. Porém, nem mesmo com este esforço, o consegui fazer. Os meus dedos ficaram a escassos centímetros do corrimão.

Foi então que decidi saltar para lá. Atirei-me e... Bom, como devem calcular, alcancei a escada, senão eu não estaria aqui a contar a história.

Mesmo alcançando a escada, fiquei pendurado no corrimão, segurando-o com ambas as mãos. Quem passasse nas traseiras do prédio e olhasse para o quinto andar, veria um indivíduo todo mal arranjado, pendurado numa escada de ferro.

Após algum esforço, lá entrei para a escada e desci até à rua. Nunca me senti tão feliz por ter os pés no chão.

Recuperado daquela aventura, dirigi-me à porta principal e esperei por Marta. Ela não demorou mais de dez minutos, até me reencontrar.

— Então, foi difícil? — perguntou ela.

— Não! — disse eu. — Facílimo. A escada até devia estar mais longe.

Marta percebeu a ironia e sorriu, complementando depois o sorriso com um terno beijo nos meus lábios.

Eu pedi-lhe um minuto de atenção e disse:

— Marta! Vamos manter o nosso relacionamento secreto.

— Porquê? — indagou ela.

— Não fica muito bem, dois adversários nos torneios serem namorados. As pessoas podem pensar que combinamos os resultados.

Marta concordou comigo e aceitou o secretismo até ao fim do campeonato.

Não querendo demorar mais, despedi-me de Marta com um prolongado beijo na sua boca e parti para Aveiro.

Cabe-me esclarecer que a minha preocupação em manter o namoro secreto, não se devia à opinião das pessoas, mas sim em escondê-lo de Rafaela.

Não duvidem que naquela altura, eu estava, no mínimo, atraído por Marta. Mas, o amor por Rafaela era maior que o mundo e resistia a todas as paixões que pudesse sentir. No entanto, mesmo escondendo o namoro, eu tentava acreditar que ele tinha um grande futuro pela frente. Já estava conformado de que o amor por Rafaela não passava de platonismo.

Eram 11h00 quando cheguei a Aveiro. Estacionei o automóvel perto do prédio de Guida e saí do carro, trancando-o e seguindo para o interior do edifício.

Guida, que me vira chegar, abriu-me a porta e eu entrei.

— Resolveste tudo? — perguntou ela.

— Resolvi! — respondi eu sem mostrar vontade de explicar o que sucedera.

Guida foi para a cozinha fazer o almoço. E eu fui para o quarto arrumar as minhas coisas.

Minutos mais tarde, Guida entrou no quarto e questionou:

— Sempre te vais embora hoje?

— Vou. — confirmei eu. — Tenho de regressar a Lisboa para reiniciar os treinos. O próximo torneio começa na Terça.

— Pelo menos, ficas para o jantar? — pediu Guida.

Eu olhei para ela e vi a sua tristeza por me ir embora. Fora tão pouco tempo que eu estivera ali. Comovido pela sua tristeza, abracei-a e prometi-lhe que a voltaria a visitar.

— Mas, podes contar comigo para o jantar. — disse eu. — Só depois é que parto.

Almoçámos juntos e ficámos toda a tarde a conversar. Foi, quase, uma cópia do dia em que cheguei de Lisboa.

O jantar foi bastante acolhedor e muito dialogante. Guida preparou uma refeição própria para quem ia fazer a viagem a pé.

Durante o jantar, conversámos com variações de inglês para português e de português para inglês. Foi memorável. Perto das 21h00, despedi-me deles, pois tinha que partir antes que se fizesse demasiado tarde.

Guida e Mike acompanharam-me ao carro. E antes de partir, convidei-os a irem assistir aos torneios. Guida disse que se houvesse oportunidade que iam.

Feitas as despedidas, arranquei em direcção à A1.

A viagem caracterizou-se por andar muito e parar nas estações de serviço espalhadas pelo percurso. Fazer aquela viagem à noite e num percurso tão monótono, era propício a adormecer ao volante e a ter um acidente. Por isso, parei algumas vezes para tomar café e despertar.

Cheguei a casa às 23h30. E mal entrei em casa, fui logo recebido com alegria pelos meus pais. Parecia que tinha chegado da guerra ao fim de meia dúzia de anos. Já Mónica nem ligou à minha chegada.

Cansado, pousei a mala no chão do quarto e deitei-me na cama, adormecendo imediatamente.

Este meu passeio até Aveiro trouxe-me uma nova realidade, uma nova paixão, um novo amor que tinha de saber gerir de forma a não acabar com o outro que sentia por Rafaela.

Quanto à estadia em casa de Guida, ficou-me a desilusão, por ter sido tão pouco o tempo que passei com ela.

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