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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XVII

Na Sexta-Feira seguinte, já com o mês de Julho a terminar, encontrei-me com Rafaela no sítio do costume. Havia três dias que não treinávamos, mas sentia-o como se tivessem sido semanas.

Rafaela entrou no carro e cumprimentou-me, como era habitual, mas não se pronunciou sobre os dias que não a vira. Sem querer confrontá-la com perguntas, mantive o silêncio e seguimos até à praia.

Quando chegámos, Rafaela seguiu pelo areal com um ar triste. E eu, a seu lado, contemplava o seu rosto, interrogando-me sobre aquilo que lhe queria perguntar.

Antes de começarmos, olhei para ela e questionei:

— Rafaela, o que é que se passou para não vires treinar?

A minha pergunta não se baseava na curiosidade pela sua vida, mas sim na estranheza por tão prolongada paragem, para uma pessoa que tinha no volei um objectivo prioritário.

— Não quero falar nisso. — disse ela, desviando o olhar.

— Já não confias em mim para conversar? — interroguei eu, num tom de mágoa.

— Não é isso! São assuntos pessoais. — justificou ela.

Vendo que ela não me queria contar, voltei-lhe as costas e preparei-me para o treino. Porém, quando já nada o fazia prever, Rafaela começou a contar:

— Na Segunda-Feira, quando te foste embora, eu e o Tiago subimos até minha casa. A minha mãe, que estava na cozinha, foi surpreendida pelos berros do Tiago. Ele protestava pela minha demora e dizia que eu o traía contigo.

Naquele momento, toda a minha atenção se concentrava na sua voz. E pressentindo que ela precisava de algum afecto, aproximei-me.

Rafaela afastou-se e prosseguiu o relato:

— Como tu sabes, os meus pais sempre tomaram o partido dele. Por isso, a minha mãe concordou logo com o Tiago e disse que eu não tinha vergonha. Quando o meu pai chegou a casa, a minha mãe contou-lhe o que se passara, mas numa versão em que eu já não respeitava o noivado e me relacionava com vários homens. A situação foi tão exagerada que o meu pai me chamou e tratou-me como se eu ganhasse a vida a fazer sexo. Tanto discutimos que o meu pai resolveu a discussão com duas fortes estaladas. Fiquei com a cara marcada e foi por isso que não saí à rua durante esse tempo. Esta é a explicação para não ter treinado nestes últimos dias.

A história que ela contou, revoltou-me. Senti um profundo ódio pela sua família que tão mal a tratava. Tive vontade de a vingar. Mas um sentimento maior controlou os meus movimentos. O amor que sentia por Rafaela levou-me a abraçá-la e a ter a sensação efémera de que a podia proteger de todos.

O abraço foi interrompido por Rafaela.

— Já passou! — disse ela, forçando um sorriso e dirigindo-se ao local onde pousara a bola.

Não voltámos a falar no assunto. Treinámos durante uma hora e regressámos a casa depois. Rafaela despediu-se de mim com grande tristeza. Notava nela uma vontade enorme de permanecer comigo. Parecia que o interior da sua casa se tornara um poço de medos e temores.

Amargurado por a ver assim, perguntei:

— Rafaela! Queres almoçar comigo? Podíamos ir comer a qualquer lado. E à tarde iamos ao cinema ou a outro lado qualquer.

— Não posso! — disse ela. — Os meus pais, agora, controlam-me as horas a que saio e entro em casa.

Eu fiquei incrédulo com a sua revelação. Rafaela agradeceu-me a oferta com outros dois beijos e disse:

— Obrigado, na mesma.

Rafaela saiu do carro e seguiu para o seu prédio sem olhar para trás. Era como se tivesse medo que alguém a visse e notasse nisso qualquer atitude menos digna de uma jovem noiva.

Isto parece absurdo e totalmente deslocado da época em que se insere. Mas, a verdade é que isto se passava e eu sentia-me impotente para a ajudar.

À tarde, pouco depois do almoço, apareceu em minha casa, o meu amigo Bento.

— Marco, queres vir jogar snooker? — convidou ele.

Costumávamos jogar muitas vezes. Com alguma frequência, visitávamos um salão de jogos, perto da Avenida Fontes Pereira de Melo.

Nessa tarde, o tempo convidava a tudo, menos a ficar em casa. Por isso, aceitei o convite e ambos seguimos até ao lugar habitual. O salão ficava numa cave de um prédio. Era um pouco sombrio e as mesas não eram muito boas. Mas, dava bem para passar um bocado a dar uma tacadas.

Estivemos a jogar durante hora e meia. Depois, fomos beber uma cerveja a um café ali perto. Já não me recordo do que falámos, mas não eram assuntos muito importantes. Antes das 18h00, estávamos de regresso ao nosso prédio.

Bento quis vir mais cedo porque deixara Madalena sozinha.

Quando entrámos a porta da rua, Bento convidou:

— Vem até minha casa. Sempre podemos beber qualquer coisa e ver o jogo.

— Que jogo? — indaguei eu, completamente ignorante ao que ele se referia.

— O do Sporting! É um jogo particular na Holanda. — esclareceu Bento. — Já sabes que eu não perco os jogos do Sporting.

— E tu já sabes que esse não é o meu clube. — repliquei eu.

— Mas será. — disse ele, em jeito de profecia.

— Nem a brincar! — respondi eu. — Quem nasce encarnado, morre encarnado.

Durante esta troca de palavras, ficámos junto à porta dele. Bento meteu a chave à porta e abriu-a. Ao entrarmos, os nossos ouvidos foram surpreendidos por um som abafado, vindo do quarto.

O rosto de Bento mostrava uma estranheza profunda sobre a origem do som. Porém, eu comecei a perceber do que se tratava.

— Bento...

Antes que conseguisse dizer mais alguma coisa, Bento precipitou-se pelo corredor em direcção ao quarto.

— Bento, espera! — disse eu, não fazendo a menor ideia de como evitar aquela descoberta.

As minhas desconfianças foram confirmadas, quando Bento abriu a porta do quarto. O som abafado tornou-se num dueto de respirações ofegantes e gemidos.

Bento ficou perplexo com o que via. Ficou mesmo petrificado perante tão trágica revelação.

Eu aproximei-me dele e espreitei para o interior do quarto. Lá dentro, Madalena estava deitada na cama, na companhia de Carlinhos. O casal estava completamente nu e numa posição que não deixava qualquer dúvida daquilo que estavam a fazer.

Madalena ficou tão surpresa que não conseguiu expressar qualquer palavra. Já Carlinhos não parecia muito preocupado, pois sempre considerara Bento um coitado e um pobre que não fazia mal a uma mosca.

Só que Bento ficou completamente alterado. E, de repente, a sua paralisia temporária passou a um estado de fúria que o impulsionou na direcção deles.

Eu só tive tempo de agarrar Bento e ordenar a Carlinhos que se vestisse e desaparecesse dali.

Seguidamente, arrastei Bento para a sala, de forma a evitar que ele fizesse alguma loucura. Após algum esforço, consegui sentar Bento no sofá e acalmá-lo.

— Calma, Bento! Tudo tem uma explicação. — disse eu, tentando incutir-lhe alguma serenidade.

— Que explicação? — perguntou ele, irritado. — Ela estava na cama com aquele filho da puta. Eu devia era matá-los aos dois.

Bento fez um movimento para se levantar, mas eu voltei a agarrá-lo.

— Tem calma. Não faças nada de que te possas vir a arrepender. — aconselhei eu àquele meu conselheiro de sempre.

Bento ficou sentado e debruçou a cabeça sobre os joelhos, em sinal de completo desespero. Ele sabia que o seu casamento estava abalado e estava confuso em relação a atitude a tomar.

Passados alguns minutos, ouviu-se o bater da porta. Carlinhos deixara o apartamento. O ruído foi seguido do aparecimento de Madalena junto à ombreira da porta da sala.

— Bem... vou-me embora. Vocês precisam de conversar. — disse eu, num tom de despedida.

Madalena segurou-me o braço e pediu, sussurrando:

— Fica! Tenho medo da reacção dele.

— Isto é só com vocês. — disse eu. — Tu meteste-te nisto, agora encara as consequências.

Madalena não argumentou e soltou-me o braço.

Eu saí da casa e segui para o meu domicílio. A minha presença naquela discussão era despropositada. Mal entrei, o telefone começou a tocar. Era um telefonema rápido dos meus pais a avisar que chegavam no dia seguinte.

Nas horas que se seguiram, permaneci preocupado com o que se passava em casa de Bento. O resultado do confronto verbal era imprevisível.

A possibilidade de uma separação deixava-me triste. Havia já uns anos que estavam casados e eram ambos meus amigos. Ninguém lucraria com a separação e ambos sofreriam com isso. E vê-los a sofrer, era como se eu próprio sofresse.

Mais uma vez, jantei sozinho. A presença de Mónica naquela casa começava a ser cada vez mais rara.

Mal eu acabara de jantar, soou a campainha da porta. Quando abri, vi Madalena com o rosto inchado pelas lágrimas, mas não me pareceu que tivesse sido vitima de alguma resposta física de Bento.

— Marco! Preciso que me ajudes. — disse ela, com a voz trémula.

— Diz! O que eu puder fazer... — acedi eu.

— Podes levar-me a qualquer lado, onde eu passe a noite? — pediu ela.

— Porquê? — indaguei eu, adivinhando a resposta.

— O Bento pôs-me na rua. — informou ela, sem conter as lágrimas.

Eu convidei-a a entrar. A sua presença causara-me tanta surpresa que me esqueci de a trazer para o interior.

— Anda, vamos conversar para a sala. — disse eu.

Ambos nos dirigimos para a sala e sentámo-nos no sofá. Madalena estava pálida e tremia como se fosse alvo de uma corrente de vento.

— Explica lá isso. — sugeri eu, dando-lhe um lenço para enxugar as lágrimas.

Madalena, com a voz soluçante devido às lágrimas, começou a relatar:

— Depois de teres saído, nós discutimos. Ele insultou-me e mandou-me sair dali. Disse que nunca mais me queria ver.

— Eu avisei-te, Madalena. — disse eu.

Madalena não respondeu e continuou a chorar.

— Ouve! Esta noite ficas aqui. — sugeri eu. — Amanhã, logo vemos como isto se resolve. Podes ficar no meu quarto. Eu durmo no quarto dos meus pais.

Madalena agradeceu a hospitalidade.

Eu fiquei inconformado com aquela situação. Deixei Madalena a acomodar-se e fui conversar com Bento.

Desci as escadas e toquei à campainha.

Ao fim de um minuto, Bento abriu a porta. Estava com um aspecto lastimoso. Tinha um rosto funerário e movimentava-se com a lentidão de um bêbado. Encontrara na bebida o refúgio para os seus problemas.

— Bento, como é que estás? — perguntei eu, enquanto o acompanhava à sala.

— Encornado. — respondeu ele com uma voz sumida.

— Não penses assim nas coisas. Tudo tem uma solução. — argumentei.

— Conversa! — ripostou Bento.

Eu retirei-lhe o copo da mão e disse:

— Vai-te deitar. Precisas de descansar. Ouve! A Madalena vai passar a noite em minha casa. Pensa nisto e lembra-te que todos nós erramos, mas isso não nos torna, obrigatoriamente, desprezíveis. Pensa! E amanhã voltam a conversar. Dá-lhe uma segunda oportunidade, ela não a desperdiçará.

Eu senti-me como um padre a falar. Uma figura que nada tinha a ver comigo. Naquele momento, era um conselheiro e amigo que procurava a melhor solução para dois amigos.

Bento ouviu as minhas palavras com grande atenção. Parecia disposto a perdoar e a dar nova oportunidade a Madalena. Afinal, ainda nada estava perdido.

Deixei Bento, com a certeza de que ficaria bem e seguiria o meu conselho.

Regressei a casa e contei, com contentamento, aquilo que lhe conseguira.

— Amanhã, falas com ele, aceitas o que ele te disser e fazem as pazes. — aconselhei eu.

No entanto, a reacção de Madalena surpreendeu-me.

— Não quero voltar para ele! — afirmou ela. — Amanhã, logo cedo, vou para casa do Carlinhos.

Conhecendo como conhecia o Carlinhos, não acreditei que ele a recebesse e fiz-lhe ver isso. Mas ela não quis aceitar e permaneceu com aquela ideia.

E assim foi. No dia seguinte, bem cedo, Madalena despediu-se de mim e disse que ia apanhar um táxi para casa do Carlinhos.

Quando Bento me perguntou por ela e eu lhe disse o que acontecera, ficou furioso e disse que jamais lhe perdoaria.

Como a minha presença já nada podia fazer por eles, parti rumo ao treino dessa manhã. Depois de recolher Rafaela, segui para a praia onde executámos o treino habitual. Findo este, regressámos ao carro.

Enquanto Rafaela colocava as suas coisas no carro, eu colocava as minhas. Inadvertidamente, aproximámo-nos um do outro até nos tocarmos. Rafaela olhou para mim e sorriu, achando graça ao acontecimento. Mas eu, perante a sua proximidade, senti uma enorme vontade de a beijar. E, naquele momento, não me pareceu incorrecto fazê-lo. Por isso, inclinei-me um pouco e beijei os seus doces lábios.

Rafaela correspondeu, mas somente por breves instantes. Depois, respondeu com uma forte estalada na minha cara.

— Nunca mais voltes a fazer isso! — ordenou Rafaela.

Eu fiquei envergonhado com o meu acto e nem tive coragem de lhe pedir desculpa.

Entrámos no carro e regressámos às nossas casas. Não dissemos nada durante o percurso. E só quando ela se despediu de mim, é que eu me desculpei.

— Tudo bem. Esquece! — disse ela com um sorriso. — Encontramo-nos amanhã de manhã.

Nessa tarde, os meus pais regressaram. Foram recebidos com grande alegria pela minha prima que, assim, se via livre da minha autoridade. Eu estava igualmente feliz, mas era mais contido nos actos.

Na noite desse Sábado, Rafaela e Liliana saíram. Foram até ao cinema, ali perto. Foram ver um filme protagonizado por um actor muito famoso, daqueles que muito impressionam o sexo feminino.

No regresso, Rafaela ficou no seu prédio e Liliana seguiu para o seu que ficava do outro lado da avenida.

A poucos metros de casa, um indivíduo desconhecido interceptou-a e exigiu que lhe desse o dinheiro.

— Deixe-me em paz! Não tenho dinheiro. — disse ela sem medo.

O homem bateu-lhe e atirou-a ao chão. Liliana tentou gritar, mas ele não a deixou. A seguir, agarrou-a pelos braços e tornou a exigir dinheiro. Liliana, em desespero, voltou a dizer que não tinha. E ele voltou a tentar agredi-la.

Não o fez porque foi impedido por outro sujeito que, entretanto, aparecera. O sujeito era Humberto que corajosamente correra em auxílio da jovem.

Humberto afastou o indivíduo de Liliana e deu-lhe dois socos na cara, dizendo:

— Põe-te a andar daqui para fora.

Amedrontado, o desconhecido correu desequilibradamente pela avenida abaixo.

— Está bem? — perguntou Humberto.

Liliana, com a cara avermelhada, disse:

— Nada de importante.

— Quer que a acompanhe a casa? — indagou Humberto.

— Não, obrigado. Eu moro já ali. — informou ela.

Os dois afastaram-se e cada um seguiu o seu caminho.

Algumas dezenas de metros mais à frente, Humberto ficou com pena de não lhe ter perguntado o nome. E, assim, ficou sem hipóteses de reencontrar aquela bela jovem que ajudara.

No dia seguinte, depois de eu regressar do treino, Humberto veio a minha casa e relatou-me o que acontecera. Quanto à identidade da jovem, só mais tarde eu viria a descobrir, algo que aconteceu na Segunda-Feira posterior. Durante o treino, Rafaela contou-me uma história idêntica à de Humberto. Eu informei-a do que Humberto me contara. E acabámos por chegar à conclusão de que se tratava da mesma história.

— O Humberto é bom rapaz! — disse eu. — Mas tanta timidez, nem foi capaz de lhe perguntar o nome.

— A Liliana também é tímida. — afirmou Rafaela.

— Ela tem namorado? — indaguei eu.

— Não! — respondeu Rafaela.

Eu, muito sério, olhei para ela e sugeri:

— Podíamos aproximar os dois. Possivelmente, até se davam bem e acabavam por gostar um do outro.

— É uma boa ideia. — concordou ela.

Cumplicemente, ambos engendrámos um plano para os aproximar. Um plano que pusemos em prática na tarde seguinte.

Rafaela levou Liliana ao café do costume, uma coisa que fora previamente estipulada entre nós. E eu convidei o Humberto a acompanhar-me ao mesmo café.

Quando chegámos, cumprimentámo-nos como se não soubéssemos uns dos outros. Humberto e Liliana reconheceram-se imediatamente.

Apesar de tímidos, ambos se libertaram da timidez e conversaram descontraidamente. No fim, ficaram com o contacto um do outro e acabaram por combinar sair noutra altura. Davam-se tão bem que ao fim de uma semana, ele lhe confessou que gostava dela e ambos começaram a namorar. Senti-me muito feliz em ter desencadeado aquela felicidade que passou a existir nos dois.

Eu e Rafaela tínhamos interpretado o papel de Cupido na perfeição. Nós que tão competentes éramos para unir os outros, mas completamente incapazes de consumar o amor que ambos sentíamos.

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