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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XVI

No dia seguinte, a meio da manhã, dirigi-me a casa de Bento para o convidar a assistir ao jogo. Não duvidem que chegar às meias-finais de um torneio era difícil. E isso, era motivo de orgulho, ao ponto de convidar alguns amigos para nos apoiarem.

No entanto, nem Bento nem Madalena se encontravam em casa, pois tinham ido ao casamento de uns familiares. As muitas ausências durante a semana fizeram-me ignorar este facto. Bento chegou a ir a minha casa avisar-me, mas eu não estava, e acabou por dar o recado a Mónica.

Quando regressei a casa, comentei o facto com Mónica (que continuava sem me dar muita confiança) e ela, com muita frieza e desprezo, informou-me do facto.

— E tu, queres ir? — perguntei eu, ignorando o seu desprezo.

— Não! Vou sair com o Cajó. — disse ela, mantendo a postura.

Eu não insisti e deixei-a sozinha na sala.

Mesmo com estas contrariedades, mantive a ideia de levar apoio. Telefonei ao Carlinhos, mas este recusou-se a ir, justificando que tinha um compromisso. Não especificou o que era e eu também não perguntei. Seguiu-se um telefonema para Humberto. Porém, também ele não estava em casa.

Perante este cenário, acabei por desistir e fui almoçar, pois a hora da refeição tinha chegado.

Uma hora após o almoço, saí de casa para ir buscar Rafaela. Ia aborrecido por não levar ninguém. Tinha fixado aquela ideia na cabeça e não concretizá-la, deixou-me aborrecido.

Ao chegar ao prédio de Rafaela, já ela me esperava na companhia de Liliana. Eu saí do carro e cumprimentei-as com dois beijos na face.

Pelo aspecto de Liliana, calculei que ela nos acompanharia, pois vestia uma t-shirt, uns calções e chinelos, tal e qual quem vai à praia. A sua indumentária mostrava a formosura da jovem. Liliana era uma rapariga muito bonita. Mas, eu só tinha olhos para Rafaela, por isso, o facto passou-me praticamente despercebido.

Rafaela segurou-me o braço e pediu:

— Não te importas que a Liliana nos acompanhe?

— Não. — respondi eu, sorrindo para Liliana e demonstrando a minha boa vontade. — Até vai ser agradável, ter alguém a torcer por nós nas bancadas.

— Só eu, não devo fazer muito barulho. — constatou Liliana.

Eu e Rafaela sorrimos. Claro que não esperávamos dela uma claque estridente, mas por vezes, saber que está lá alguém que nos apoia, dá-nos motivação para jogar melhor.

Depois deste pequeno diálogo, entrámos no carro e seguimos rumo à Costa da Caparica, onde às três da tarde começaria o nosso jogo.

Chegados aos arredores do estádio, Liliana seguiu para as bancadas. Eu e Rafaela dirigimo-nos para os balneários.

Dez minutos mais tarde, saímos já equipados para o jogo e cruzámo-nos com Quim e Marta.

— Então, preparados para o jogo? — perguntou, simpaticamente, Quim.

— Sim. — respondi eu.

Marta aproximou-se, abraçou-nos e disse:

— Que vença o melhor!

— Sim! Que vença o melhor. — concordou Quim, unindo-se no abraço.

Eu, retribuindo o cumprimento, disse:

— Vamos lá para dentro dar espectáculo.

— Que o vencedor do torneio saia deste jogo. — desejou Rafaela. — Se ganharem, espero que ganhem também a final.

— Vocês parecem conformados. — disse Marta.

— Realistas! — corrigi eu, parafraseando Rafaela. — Vamos tentar ganhar, mas sabemos que vocês são mais fortes.

Não houve mais tempo para palavras, pois foi dado o sinal para o início do aquecimento.

Ao entrar no rectângulo, fiquei abismado com o aspecto das bancadas. Estavam completamente cheias. Não havia espaço para mais ninguém.

Naqueles degraus de ferro e madeira, dois milhares de pessoas dançavam ao som da música que tocava para entreter os espectadores.

O nervosismo crescia. O jogo era, sem dúvida, uma prova de fogo às nossas capacidades. Durante quinze minutos, as duplas aqueceram, trocando a bola entre si. Eu e Rafaela denotávamos alguma tremideira ao falhar os passes entre nós.

O Sol incidia ferozmente sobre todos os que ali se encontravam. Os termómetros do estádio marcavam 38 graus.

Findo o aquecimento para o jogo, regressámos às cadeiras postas à disposição das duplas para os tempos de descanso.

O speaker do torneio pegou no microfone e, num claro sotaque brasileiro, começou a anunciar o jogo:

— Agora, pessoal, vou pedir um forte aplauso para as duplas em confronto nesta primeira semi-final. Deste lado, a equipar de verde, Joaquim Campos e Marta Santos.

Quim e Marta correram para o campo e foram, enormemente, ovacionados pelo público. Eram muito acarinhados pelos espectadores. Amores que já vinham do ano anterior.

Finda a ovação, o speaker continuou:

— E deste lado, a dupla sensação do torneio, Marco Oliveira e Rafaela Pereira.

Após o anúncio, também nós corremos para o campo e cumprimentámos a outra dupla. O público presenteou-nos, igualmente, com aplausos.

Quim e eu aproximámo-nos do árbitro para decidir o lado do campo e a posse de bola. Uma rotina da competição.

— Cara ou coroa? — perguntou o árbitro.

— Marco, escolhe. — sugeriu Quim.

— Não. Podes ser tu. — ofereci eu.

— Convém que seja um dos dois. — disse o juiz, já impaciente.

Eu escolhi coroa e o Quim ganhou.

— Campo. — pediu Quim, no seu direito de escolha.

Eu fiquei com a bola e com o Sol pela frente.

Com os quatro elementos a postos, o árbitro sinalizou o começo do jogo.

Rafaela começou a servir. Mas Marta recebeu bem, Quim devolveu-lhe a bola e ela rematou, imparavelmente. E o serviço passou para eles.

Os seis pontos que se seguiram, não tiveram grandes momentos e caíram todos para o lado deles. Depois, nós recuperámos o serviço e reduzimos para três a seis.

No entanto, na segunda recuperação de serviço para eles, Quim fez cinco pontos directos e passou o resultado para três a onze.

Até ao fim do primeiro parcial, os pontos sucederam-se para ambos os lados e terminou, ao fim de trinta minutos, com o resultado de oito a quinze.

— Eles são muito bons. — constatei eu, enquanto descansávamos nas cadeiras.

— São muito fortes para nós. — adicionou Rafaela.

Findo o intervalo, todos regressámos ao campo para o início do segundo parcial.

Marta foi a primeira a servir. Rafaela recebeu, eu levantei a bola e ela rematou-a com força. Mas o remate foi bloqueado por Quim. Fazendo, assim, o primeiro ponto do parcial.

Seguiram-se dois serviços directos de Marta e dois blocos, feitos por mim, directamente para fora. Zero a cinco, o resultado quando pedimos um desconto de tempo.

Não foi para falar entre nós, foi apenas para nos interiorizarmos com nós próprios, acerca do jogo.

No retomar da partida, continuámos a tentar equilibrar a partida. Mas, eles eram melhores e aumentaram a diferença, colocando o resultado em quatro a dez.

O desenvolvimento do jogo, tornou-se uma caminhada para a derrota. E esta viria dez minutos mais tarde, com o fim do segundo parcial, cifrado no resultado de sete a quinze. Quim e Marta estavam qualificados para a final.

Mal tinham feito o último ponto, ambos se dirigiram a nós e felicitaram-nos pelo bom jogo que havíamos praticado. Nós também os felicitámos, pois eram eles os grande heróis da partida, ao vencerem-na com grande nível exibicional.

Quando regressámos aos balneários, Quim disse:

— Amanhã, vimos logo de manhã para assistir ao vosso jogo.

Quim referia-se ao jogo referente ao terceiro lugar que teria lugar no Domingo de manhã. A final seria à tarde.

Apesar de conscientes do valor deles e das nossas poucas possibilidades, tanto eu como Rafaela ficámos tristes com o resultado. E não pensem que jogámos mal. Jogámos até muito bem. Só que a dupla Quim / Marta era "apenas" a melhor do país.

Ao fim de meia hora, depois de reencontrarmos Liliana, regressámos a Lisboa. Fizemo-lo em absoluto silêncio no que diz respeito ao jogo. A tristeza impedia-nos de falar no assunto. Por momentos, tínhamos chegado a sonhar com a vitória. Mas, a realidade mostrou-nos o nosso verdadeiro nível e isso tornou-se um choque.

As únicas palavras que eu e Rafaela trocámos, foram a combinação da hora para o dia seguinte e as despedidas.

Regressei a casa com a desmoralização a apoderar-se de mim. Senti-me um completo falhado. Por vezes, somos nós próprios que exageramos os nossos sofrimentos. Ser uma das quatro melhores duplas de um torneio do Campeonato Nacional, era um feito extraordinário para uma dupla que se iniciava na competição. No entanto, o arruinar do sonho de vencer o torneio, fazia-nos menosprezar o que tínhamos conseguido.

No dia seguinte, já recuperados da tristeza, Rafaela e eu fomos para o estádio bastante motivados para a conquista do terceiro lugar.

Durante o jogo, fizemos uma boa exibição e vencemos sem grandes dificuldades com o resultado de quinze a seis e quinze a oito.

Como haviam prometido, Quim e Marta lá estavam nas bancadas a apoiarem-nos. Não houve muita gente a assistir ao jogo. O decidir de um terceiro lugar nunca atrai muitas atenções.

Quim e Marta, depois de deixarmos os balneários, felicitaram-nos pela vitória e convidaram-nos a assistir ao seu jogo. Nós aceitámos o convite.

Eu convidei-os a almoçarem connosco. E fomos ao restaurante do costume.

— Estão confiantes? — perguntei eu, referindo-me ao jogo.

— Sim! — responderam ambos.

Quim olhou para mim e indagou:

— E vocês, já traçaram os vossos objectivos?

— Continuam a ser os mesmos. — afirmei eu.

— Mas vocês, com este resultado, ficam em terceiro lugar no campeonato. — informou Marta.

— Nós sabemos. Mas o nosso objectivo continua a ser obter a melhor classificação possível. Se conseguirmos manter esse lugar até ao fim, já é muito bom. — disse eu, plenamente consciente das nossas capacidades.

Depois do almoço, Quim e Marta seguiram para o estádio, onde descansariam até perto da hora do jogo. E depois, iniciariam a preparação para a final.

Faltavam, ainda, três horas para o jogo. Por isso, eu e Rafaela fomos passear pela praia e ficámos, um pouco, sentados na areia a contemplar as ondas.

Eu olhava-a com admiração. Não conseguia desviar o olhar daquela mulher que eu tanto amava.

Rafaela, com o biquini que usava para os jogos, deitou-se na toalha e ficou a bronzear-se. E eu olhava para ela com uma ternura que só pecava por não poder ser concretizada fisicamente.

— Sabes? Gostava de ser o Sol. — disse eu.

Rafaela entreabriu os olhos, direccionou-os para mim e perguntou:

— Porquê?

— Para poder acariciar o teu corpo como ele o está fazer agora. — justifiquei eu, num tom amargurado.

Rafaela não se manifestou, preferindo manter uma certa distância na conversa.

Eu estendi-me na toalha, colocando-me a seu lado e perguntei:

— Rafaela! Eras capaz de te deixar amar por alguém que não te exigisse qualquer compromisso?

— Não! — respondeu ela, de imediato. — Era eu mesma que exigia esse compromisso.

— E se essa pessoa aceitasse esse compromisso? — reinterroguei eu.

— Continuaria a não aceitar porque estou noiva. — respondeu ela, com a mesma prontidão.

— Amas o teu noivo? — continuei eu a perguntar.

Rafaela levantou-se e, olhando irritada, disse:

— Sabes bem que não. E sabes as razões porque me caso. Para que é que me continuas a martirizar com esta conversa?

— Desculpa! — pedi eu, igualando a sua posição. — Mas tu não sentes necessidade de ser amada?

— Não! — respondeu ela com firmeza. — O amor só serve para nos magoar.

Eu não consegui arranjar argumentos que a demovessem da sua opinião. E, por isso, calei-me.

Nos restantes minutos que ali ficámos, permanecemos em silêncio e a receber os raios solares que incidiam sobre nós.

Duas horas mais tarde, voltámos ao estádio para assistirmos ao jogo da final. Conseguimos encontrar um espaço onde nos sentar, com alguma dificuldade, uma vez que as bancadas estavam apinhadas de gente.

O jogo teve dois parciais equilibrados, próprios de uma final. Mas a superioridade de Quim e Marta vieram ao de cima e venceram ambos por quinze a treze e quinze a doze.

Após o jogo, a organização proporcionou uma autêntica festa de música e dança que se prolongou até ao pôr-do-sol.

Eu e Rafaela fomos felicitar os vencedores que se encontravam no areal, junto à bancada. Descemos até lá e cumprimentámo-los.

— Bem, temos que ir andando. — disse eu.

— Já! Fiquem até à noite. — convidou Quim.

— Obrigado, mas temos que ir. — contrapus eu.

— Certo! Encontramo-nos daqui a uma semana e meia em Carcavelos. — lembrou Marta.

Quim puxou-me pelo braço e disse:

— Deixa-nos o teu número de telefone. Podíamos combinar qualquer coisa.

— Está bem! — concordei eu.

Pedi um bocado de papel e uma caneta a um dos juízes do torneio e escrevi o meu número do telemóvel, entregando-o seguidamente a Quim.

Despedimo-nos e partimos de regresso a Lisboa.

Quando chegámos a casa, já a noite começava a cobrir o céu. Ao parar em frente ao prédio dela, fomos surpreendidos por Tiago que esperava junto às escadas.

— Olha! Lá está o teu noivo. — disse eu, em tom irónico.

Rafaela despediu-se de mim, mas evitou beijar-me devido à presença de Tiago. Saiu do carro e caminhou até ele. Eu fiquei a ver.

— Isto é que são horas? — repreendeu ele.

— Tiago, não me chateies. Estou cansada e quero descansar. — disse ela.

— Não ias jogar de manhã? Porque é que só vieste, agora? — indagou Tiago.

— Tiago, vamos subir e conversamos lá em cima. — sugeriu Rafaela.

Mas Tiago parecia querer fazer uma cena, mesmo em frente aos meus olhos, de forma a protagonizar o seu papel de posse. Por isso, agarrou-a pelos braços e, num tom de cólera, disse:

— Eu é que decido onde quero falar e tu obedeces.

— Estás a magoar-me, Tiago. Larga-me imediatamente! — exigiu ela.

A cena começava a enervar-me e já me preparava para sair do carro. Porém, achei melhor conter-me.

Tiago soltou-a, afastou-a e disse:

— Tu não me dás ordens!

E completou com um violento soco em Rafaela que a atirou ao chão.

Foi a gota de água. Eu saí do carro e corri para ele com o intuito de lhe responder da mesma forma.

No entanto, Rafaela, ao ver-me, levantou-se e agarrou-me, dizendo:

— Por favor, Marco, não te metas nisto!

O aleijado do primo dela, com o braço engessado pendurado no peito, insistia:

— Deixa-o vir. Deixa-o vir que eu ensino-lhe a não se meter com a mulher dos outros.

Eu esbocei nova tentativa de resposta, mas fui novamente impedido por Rafaela. Penso que se não fosse ela, eu tinha dado cabo dele naquela noite.

Como não queria ir contra a vontade de Rafaela, limitei-me às palavras:

— Ouve lá, ó palhaço! Se lhe voltas a bater, eu vou à tua procura e deixo-te o corpo igual ao braço partido.

Tiago riu como quem não ligava ao que eu dizia, mas percebeu bem que a minha ameaça era séria.

Rafaela, com o lábio a sangrar, apelava para que eu me fosse embora.

— Vem comigo, Rafaela. Deixa-me tratar desse lábio.

— Não posso, Marco. — disse ela, quase a chorar.

— Rafaela, este animal não te merece...

— Vai-te embora, Marco! — interrompeu Rafaela. — Por favor!

— Não ouviste, pá. — protestou Tiago. — Desaparece daqui!

— Não lhe ligues. — implorou Rafaela. — Vai! Nós amanhã conversamos.

Perante tantos apelos de Rafaela, acabei por abandonar o local e deixá-la entregue àquele animal.

Enquanto me afastava, ainda o pude ver a arrastá-la pelo braço para o interior do prédio.

Regressei a casa com os nervos à flor da pele. E descarregava-os, acelerando pela Avenida de Roma. Era quase um suicídio, aquilo que eu estava a fazer. Só parei no sinal do cruzamento da Avenida de Roma com a Avenida do Brasil.

Parado, consciencializei-me do que estava a fazer e decidi não continuar.

O sinal ficou verde e eu segui, calmamente, rumo a casa.

Ao chegar, dei por mim sozinho. Mónica não estava e nem veio dormir a casa nessa noite. Estava a fazer uma vida de completo desprendimento pela família e dedicava o seu tempo a Cajó. Perto das 22h00, telefonou a dizer que ficava em casa do Cajó. E quando eu tentei argumentar, ela desligou-me o telefone na cara. Eu fiquei furioso, mas guardei a raiva para o momento em que a reencontrasse.

No dia seguinte, Mónica chegou a casa, pouco antes das 09h00.

Eu já estava levantado, pois tinha o treino com Rafaela. Ao vê-la, chamei-a com autoridade. Mas ela não me ligou e seguiu para a sala.

Irritado, fui atrás dela. E encontrei-a sentada no sofá.

— Ouve lá! Não me ouviste a chamar-te? — perguntei eu, aproximando-me dela.

— Sim, ouvi! Já ia falar contigo. — disse ela com superioridade. — Que é que queres?

Eu permaneci autoritário e questionei-a:

— Quem é que julgas que és para passares a noite fora de casa?

Mónica levantou-se e disse:

— Quoi? Agora és meu pai para mandares em mim?

— Não! Mas sou responsável por ti, enquanto os meus pais estão fora. — contrapus eu.

— Deixa-me em paz! — exigiu ela com repugnância.

— Se voltas a repetir o que fizeste esta noite, não voltas a sair com o Cajó. — avisei eu, mantendo a autoridade.

— Vai à merda! Tu não mandas em mim. — disse ela.

Eu não me contive com a sua falta de educação e castiguei-a com uma estalada na cara. Foi mais o som estridente da chapada que propriamente a dor que lhe causou. Depois, num tom austero e pleno de poder, avisei:

— Vê se começas a obedecer ao que eu te digo, senão dou-te uma tareia que ficas de cama durante um mês.

Mónica fugiu para o quarto sem querer ouvir mais nada. Mas sabia que, enquanto os meus pais não voltassem, ela teria que me obedecer.

Hoje, concordo que fui um pouco severo com ela. Talvez, inconscientemente, a tivesse feito pagar as afrontas de Tiago na noite anterior.

De súbito, fui interrompido pelo tocar do meu telemóvel. Era Rafaela que me ligava.

— Ia agora mesmo a sair de casa. — disse eu.

Rafaela não ligou ao que eu disse e informou:

— Hoje não posso ir treinar.

— Porquê? — indaguei eu.

— Depois falamos. Encontramo-nos amanhã de manhã para o treino. — combinou ela, despedindo-se e mostrando claramente que não queria prolongar a conversa.

Com aquela notícia, fiquei sem nada para fazer de manhã. Como não estava para aturar Mónica, até porque o nosso relacionamento não estava muito bom, saí de casa e fui tomar um café.

Antes de sair do prédio, fui ver a caixa do correio. E, para meu espanto, encontrei uma carta com um remetente que dava pelo nome de Guida Greenland.

Levei-a comigo e dirigi-me ao carro, com o qual segui para o café do costume.

A Avenida de Roma estava muito movimentada e sem lugares para estacionar, por isso, vi-me obrigado a deixar o carro na Avenida João XXI.

Ao entrar no café, este estava praticamente vazio, o que não era de estranhar para aquela hora.

Pedi um café e um bolo, pois não tinha tomado pequeno-almoço.

Enquanto o empregado foi buscar o pedido, eu abri a carta e retirei duas ou três folhas, completamente, escritas.

Antes que pudesse ler o que quer que fosse, o empregado trouxe o café e o bolo.

— Deseja mais alguma coisa, senhor Marco? — perguntou ele, gentilmente.

— Não, obrigado. — agradeci eu.

Desdobrei as folhas e coloquei-as sobre a mesa, deixando-as livres da minha atenção, até terminar de beber o café e comer o bolo.

Depois, peguei novamente nas folhas e comecei a ler:
 

"Marco:

Espero que esta carta seja recebida com a amizade que sempre me devotaste. Sinto que apesar das nossas desavenças, nunca deixámos de ser amigos.

Podes não acreditar, mas todos os dias penso em ti e tenho saudades das nossas longas conversas e desabafos. Nunca confiei a ninguém tantos segredos quantos aqueles que te confessei.

Tu ajudaste-me nas piores alturas da minha vida e estiveste sempre presente quando precisei de ti. Mesmo que não me consideres como tal, serás para mim um grande amigo e um irmão, em quem eu depositaria a minha alma, se necessário.

Gostava muito de te voltar a ver. Desde que vim para aqui, passo os dias sozinha a cuidar da minha filha. Por falar nela, digo-te que está cada vez mais forte e bonita. As pessoas dizem que se parece comigo. É uma bebé forte, mas mesmo assim, já me obrigou a levá-la ao médico por causa de uma constipação, durante o tempo que cá estou.

O Mike arranjou trabalho e é raro o tempo que passamos juntos, se não contarmos o Domingo. Tem uma vida atarefada, mas ganha bem por ela.

Quando a Rebecca estiver mais crescida, estou a planear arranjar um emprego para não ficar parada.

O tempo por aqui tem andado bom. Muito sol e muito calor. Gostava de ir à praia, mas a Rebecca ainda é muito nova e eu não a posso deixar sozinha.

Eu e meu marido gostávamos muito que nos viesses visitar. A tua presença fazer-me-ia muito feliz. Podíamos passar um dia inteiro a conversar como antigamente. Olha que conversar é coisa que quase não tenho feito neste ultimo mês, desde que cheguei.

Se não poderes vir, pelo menos dá notícias. Escreve ou telefona. Mando-te juntamente com a carta, uma folha com a nossa morada e o número de telefone.

Espero sinceramente que tudo te esteja a correr bem. E fico à espera de receber notícias tuas. Mando-te também um beijo e o Mike envia um abraço. A Rebecca não tem idade para pensar nisto, mas sei que, se te conhecesse como eu, te mandaria muitos beijos.

A tua sempre amiga,

Guida."
 

A carta surpreendeu-me e deixou-me muito feliz. Durante aquele tempo que estivéramos separados, eu amadureci as minhas ideias em relação a Guida. Também o amor que sentia por Rafaela me libertava do outro que outrora sentira por Guida.

Ter notícias de Guida, era como ter notícias de uma irmã que já não via havia algum tempo. E reatar a amizade com ela, era um presente inesperado.

Quando regressei a casa, peguei numa folha e respondi à sua carta.

Contei como estava e como ficara feliz com a sua carta. Escrevi que tinha todo gosto em passar uns dias em sua casa e que, se fosse de sua vontade, poderia fazê-lo já em Agosto. Mandei cumprimentos para todos e fiquei de telefonar para combinar o dia.

No dia seguinte, coloquei a carta no correio logo pela manhã.

Passaram-se três dias, nos quais eu não vi Rafaela que me telefonara a dizer que durante esse tempo não podia treinar. Só nos voltaríamos a ver na Sexta-Feira seguinte.

Mas antes, na Quinta-Feira, mais precisamente à noite, Guida telefonou-me. Ficámos uma hora ao telefone a conversar e a relembrar os velhos tempos. Por fim, combinámos que eu a visitaria no dia 8 e ficaria por lá uns três ou quatro dias.

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