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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XV

No outro dia, voltei a levantar-me cedo. Só o meu ruidoso despertador conseguiu perturbar o meu descanso.

Após a rotina matinal, saí de casa e segui ao encontro de Rafaela.

O dia estava quente, muito quente mesmo. Mas, o céu estava nublado, o que até era bom, pois não teríamos o Sol a incidir sobre nós durante o jogo.

Depois de ir buscar Rafaela, ambos seguimos o trajecto do dia anterior. Chegámos por volta das 09h00 e fomos os primeiros a jogar. O jogo não era uma estreia, como fora o do dia anterior, mas estávamos igualmente nervosos. Iamos defrontar uma dupla de Tavira. Felizmente, o jogo correu melhor do que nós pensávamos e acabámos por ganhar pelos parciais de quinze a oito e quinze a sete.

 

Ao fim da manhã, Rafaela e eu voltámos a ir almoçar ao mesmo restaurante. Nesse dia, ainda tinhamos mais um jogo a disputar.

— Mais um jogo e estamos no quadro principal. — disse ela, visivelmente satisfeita.

— Ainda vamos ser campeões. — afirmei eu.

— Não digas disparates. — discordou ela. — Jogamos bem, mas não somos nada de especial.

— Tu não és nada optimista. — disse eu.

— Sou é realista. — contrapôs ela.

Eu, aborrecido com o seu pessimismo, disse:

— Tão realista que vais hipotecar a tua vida, casando-te com um tipo que não amas.

Rafaela ficou magoada com as palavras, baixou a cabeça e começou a chorar.

— Desculpa. — disse eu, ao vê-la, e já arrependido do que dissera.

Ela levantou-se da cadeira e afastou-se. Eu segui-a e segurei-lhe o braço.

— Deixa-me! — pediu ela. — Deixa-me, um bocado, sozinha.

— Mas eu já te pedi desculpa. — insisti eu.

Rafaela fez sinal com a mão para que eu não dissesse mais nada e afastou-se até à praia.

Eu regressei à mesa e fiquei a penetenciar-me por ter sido tão desagradável com ela. Rafaela não merecia ouvir aquilo.

Quinze minutos mais tarde, regressou e sentou-se junto a mim. Eu voltei a pedir:

— Rafaela, desc...

— Não fales mais nisso. — disse ela, num tom generoso. — Esquece!

A meio da tarde, realizámos o jogo que nos deu acesso ao quadro principal. Foi uma vitória mais difícil, mas conseguimos. Quinze a dez, onze a quinze e quinze a seis foram os parciais do jogo.

O regresso a Lisboa foi, todo ele, envolto num espirito de alegria. Estávamos eufóricos com a qualificação para o quadro principal.

O nosso primeiro jogo do quadro principal do torneio ficou marcado para o dia seguinte ao meio-dia. Os nossos adversários eram uma dupla de Aveiro.

Eram uma dupla conceituada a nivel nacional. Duas vezes campeões nacionais e uma vez vice-campeões entre outras classificações de destaque.

Naturais de Cabo Verde, eram ambos muito altos e com grandes capacidades técnicas. Eram um par com grande entendimento entre si. O seu aspecto era semelhante, pois ambos usavam o cabelo rapado. Não fosse o equipamento e difícilmente se destinguiria o homem e a mulher.

Perante este cenário, não podiamos estar muito contentes com o sorteio.

Como de costume, fomos cedo para o estádio para podermos observar os outros concorrentes. E naquele dia, as bancadas já começavam a ter mais gente.

Enquanto estávamos a ver um dos jogos, um casal veio sentar-se perto de nós. Ele era alto, cabelo muito curto alorado e corpo muito atlético, vestia apenas uns calções verdes e usava óculos escuros. Ela, igualmente atlética, era quase da altura dele, tinha o cabelo louro comprido preso com os óculos escuros que trazia na cabeça e usava uma saia de pano e a parte superior de um biquini verde. Ambos tinham um tom de pele muito bronzeado.

Inconscientemente, fiquei a observá-la com alguma atenção. Era, de facto, uma mulher bastante atraente. Mas, ao reparar em Rafaela, vi como ela me olhava. Parecia sentir ciumes, só que não o confessava, limitando-se a desprezar-me.

Conforme as equipas jogavam, Rafaela ia dando algumas opiniões e chamava a minha atenção para determinados pormenores que só um olhar aguçado pela experiência seria capaz de detectar.

A dada altura, o par que estava perto de nós aproximou-se e ele interpelou-nos:

— Desculpem! Mas, vocês parecem perceber muito disto. Também jogam?

— Sim! — respondeu Rafaela.

— Até estamos a participar no torneio. — complementei eu, vaidosamente.

— Nós também! — disse a mulher que o acompanhava.

— Mas, nós não nos apresentámos. — concluiu ele. — Eu chamo-me Joaquim Campos, mas podem chamar-me Quim. E esta é a minha parceira, Marta Santos.

— Casados? — perguntei eu.

— Não, parvo. — corrigiu Rafaela com um rosto envergonhado pela presença deles. — São os campeões nacionais de volei de praia.

— Ah, desculpem! — pedi eu.

— Não tem importância. — disseram ambos, sorrindo com grande simpatia.

Marta olhou para nós e disse:

— Vocês ainda não se apresentaram.

— Marco Oliveira. — informei eu.

— Rafaela Pereira. — apresentou-se ela. — E estamos a tentar ganhar alguma coisa.

— É a primeira vez que participam? — perguntou Quim.

— Ele é. — informou Rafaela. — Eu é que já participei.

— E...? — interrogou Marta.

Rafaela sorriu e continuou:

— E nada de especial. Não ganhei nenhum jogo.

— E este ano? — interrogou Quim.

— Viemos para ser campeões. — disse eu, em jeito de brincadeira.

— Então temos de contar com vocês para o título. — afirmou Marta, correspondendo ao meu tom.

— Não liguem! — interrompeu Rafaela. — Ele não percebe nada disto.

Eu, num tom mais sério, perguntei:

— Então e vocês? Este ano é para serem campeões novamente?

— Vamos tentar. — responderam ambos.

A nossa conversa foi interrompida pelo anunciar do próximo jogo. Tratava-se do primeiro jogo de Joaquim Campos e Marta Santos.

— Bom! Chegou a nossa vez. — disse ela.

— E vocês, com quem é que vão jogar? — interrogou ele.

Rafaela explicou quem eram os nossos adversários, tal como eu descrevera anteriormente.

Quim, com um olhar sério, afirmou:

— São uma dupla muito forte.

— Mas têm pontos fracos. — completou Marta. — Se vocês rematarem a bola para o meio dos dois, pode ser que se safem.

Eu e Rafaela agradecemos a dica e eles afastaram-se rumo ao balneário, onde se preparariam para o seu jogo.

Após a conversa, eu ficara convencido de que eles eram casados. Porém, Rafaela informou-me da verdade, dizendo:

— Estás a ver? Para se fazer dupla no volei, não é preciso que exista um relacionamento íntimo entre os pares.

Uma afirmação com, claras, segundas intenções por parte dela, em relação ao que eu sentia por si. Mas, eu respondi:

— Mesmo que estivesse longe de ti, nunca deixaria de te amar.

Rafaela tentou contrapôr, mas também ela me amava, apenas não o queria aceitar. E por isso, limitou-se a acariciar-me o rosto e a dizer:

— Bons amigos, Marco! Somos apenas bons amigos.

Quim e Marta venceram os seus opositores com facilidade. Eram excelentes praticantes da modalidade. Havia poucas duplas que se pudessem gabar de os ter vencido.

Findo este jogo, chegou a vez do nosso.

Como de costume, preparámo-nos para o jogo, fazendo o aquecimento antes de começar a partida.

Estávamos muito nervosos com o jogo. Preocupava-nos mais o curriculo deles do que eles próprios. E isso prejudicava-nos.

Sendo assim, não foi estranho que começássemos a perder por zero a oito, um resultado parcial que se tornou irrecuperável, terminando com seis a quinze.

Durante o intervalo, Rafaela limpava-se cuidadosamente e dizia:

— Marco, estamos muito nervosos. Estamos a temê-los mais do que o próprio medo que eles provocam.

Eu concordei, mas não me expressei. Rafaela continuou:

— Estou com medo!

— Porquê? — questionei eu.

— Tenho medo de perder o jogo. — confessou ela.

— Mas, não eras tu quem se dizia realista? E que o mais provável era perdermos? — interroguei eu.

— Eu sei isso. — concordou Rafaela. — E continuo a pensar dessa maneira. Mas não é perder assim. Nós não somos inferiores a eles.

Eu puxei-lhe o braço, olhei-a nos olhos e disse:

— Então, Rafaela, perde a merda desse medo que sentes! Pára de temer as coisas antes de acontecerem! Vamos para ali, vamos encarar o medo e vamos ganhar este jogo!

As minhas palavras motivaram-na. Ainda hoje não sei como disse tudo aquilo. Foi mais o coração a falar, do que outra coisa qualquer.

A verdade é que nós jogámos, brilhantemente, e vencemos os parciais seguintes com os resultados de quinze a cinco e quinze a um.

Ficámos loucos de alegria, por vermos mais uma etapa ultrapassada. Nem queriamos acreditar que pudessemos ter jogado tão bem. Mas, era bom que nos fôssemos habituando porque estávamos a exibir muitas qualidades, jogo a jogo.

Quando regressámos a Lisboa, Rafaela, antes de se despedir de mim, afirmou:

— Sabes? Foram as tuas palavras que me fizeram reagir, naquele jogo.

— É pena que tu não as sigas sempre. — disse eu.

— Em quê? — perguntou ela.

— Não vale a pena falar nisso. — contrapus eu.

— Marco, diz! — exigiu ela.

— Está bem, como queiras. Quando te disse que tu temias as coisas antes de acontecerem, referia-me ao teu medo de ser feliz. Tu não enfrentas aquilo que sentes no teu coração, tens medo do que os teus pais pensam, sofres por não seres feliz e, ao mesmo tempo, tens medo de o seres. E para não enfrentares nada, acomodas-te à situação de um casamento de conveniência dos teus pais e rejeitas uma pessoa que te ama.

Rafaela tentou argumentar:

— Marco...

Mas, eu continuei:

— Não querias que eu falasse? É o que estou a fazer. Estou a ser sincero. Olha-me nos olhos e diz que não sentes o mesmo por mim.

Rafaela recusou-se a fazê-lo e, em vez disso, disse:

— Eu estou noiva. Vou casar no fim de Setembro. E não passa pela minha cabeça, dedicar a minha vida a outra pessoa senão àquela com quem casar.

— Então casa comigo. — pedi eu, tendo nas palavras o tom mais sério que alguma vez tivera.

— Não, Marco. — recusou ela. — Já te disse que caso pela vontade dos meus pais. E já te disse, também, que não quero estragar a nossa amizade com coisas em que não acredito, como o amor. Sê meu amigo e compreende-me, peço-te!

Eu não escondi a tristeza que aquelas palavras me provocaram. Porém, terminei dando-lhe um beijo de despedida e aceitando as suas razões.
 

Apurados para os oitavos de final, partimos bem cedo para o estádio, na manhã seguinte. Estava uma Sexta-Feira bastante quente. Às 08h00, a temperatura atingia os trinta graus e previa-se para essa tarde que chegasse aos quarenta.

O nosso jogo estava marcado para as nove. Os nossos adversários eram um par natural de Lagoa. Não tinham grande curriculo, mas era certamente melhor que o nosso.

À hora a que jogámos, as bancadas estavam praticamente desertas. Era um costume organizativo, pôr as melhores duplas a uma hora em que houvesse mais público. Como nem eu nem Rafaela éramos conceituados, fomos logo os primeiros a jogar.

Para este jogo, eu e ela tinhamos duas preocupações: A primeira era ganhar o jogo, obviamente. A segunda era ganhá-lo sem um desgaste excessivo, uma vez que, em caso de vitória, teriamos de disputar novo encontro à tarde.

No entanto, houve um facto nesse jogo que nos beneficiou. No primeiro parcial, com um resultado de sete a três a nosso favor, o elemento masculino dos nossos opositores lesionou-se com alguma gravidade, obrigando-os a desistir da partida.

A vitória foi-nos atribuida, mas não teve qualquer sabor. Ganhar assim, não conta para a nossa mente, nem é contabilizada no nosso curriculo pessoal.

Antes do almoço, encontrámos Quim e Marta que tinham acabado de ficar apurados para os quartos de final, tal como nós.

— Então, ganharam? — perguntou Quim, ao ver-nos.

— Ganhámos! — informei eu, sorrindo com a sua simpatia.

— Já viram o quadro de jogos? — perguntou Marta.

— Porquê? — interroguei eu.

— É que se ganharmos os jogos dos quartos de final, vamos defrontar-nos nas meias-finais. — esclareceu Quim.

— Era giro! — disse Rafaela.

Eu olhei para o relógio e convidei:

— Vocês querem almoçar connosco? Sempre podemos conversar, um pouco.

— Boa ideia! — disse Quim, aceitando o convite.

Os quatro, lá fomos ao restaurante do costume, onde estacionámos na esplanada e onde comemos.

— Falem um pouco de vocês. — sugeriu Marta, olhando para nós.

— Bom. — comecei eu. — Eu e a Rafaela andamos a tentar ganhar uns joguitos.

— Isso é que é modestia. — gracejou Quim. — Já estão nos oito melhores e ainda dizes que só vieram “ganhar uns joguitos”.

Todos sorrimos com aquelas palavras.

— E vocês são namorados? — perguntou Marta.

— Não! — apressou-se a responder Rafaela. — Apenas, bons amigos.

— Habituem-se a perguntas destas. — avisou Quim. — As pessoas pensam sempre que os pares mistos ou são namorados, ou amantes, ou casados... Enfim, são tudo menos aquilo que realmente são.

— E vocês? — indaguei eu.

Quim olhou para Marta com um sorriso e contou:

— Conhecêmo-nos no volei em recinto fechado, o habitual seis para seis. Ambos jogávamos no Sporting de Espinho, aliás, local donde somos naturais. Começámos a treinar juntos e decidimos jogar juntos. Foi assim que iniciámos a carreira no volei de praia, tinha eu vinte e quatro e a Marta vinte e dois, já lá vão seis anos.

— Quim! Não chegaste a dizer qual o vosso relacionamento. — disse eu, na brincadeira.

— Marco! — protestou Rafaela. — Não tens nada a ver com isso.

— Não, ele tem razão. — disse Quim, aceitando a pergunta com naturalidade. — Olha! Nós nunca fomos mais do que amigos. Quando conheci a Marta, já era casado. Há pouco tempo, divorciei-me e, actualmente, vivo com a minha namorada que não é a Marta.

Marta sorriu e disse:

— Não sou eu, não. Olha, Marco, eu sou solteira e vivo sozinha em Espinho. Tenho muitos amigos, mas ainda não conheci a pessoa ideal para partilhar a minha vida.

— E tu Marco? Já encontraste a mulher da tua vida? — questionou Quim, no seu jeito brincalhão.

— Já! — respondi eu. — Mas, ela não gosta de mim.

— És capaz de estar enganado. — corrigiu, imediatamente, Rafaela.

— Conhece-la? — indagou Marta.

— Conheço! — confirmou Rafaela, não deixando transparecer que se referia a si própria.

Quim olhou, então, para Rafaela e questionou-a da mesma forma que fizera comigo. Rafaela respondeu:

— Vou casar no fim de Setembro.

— Parabéns! — felicitaram ambos.

A conversa não me agradava. Era um assunto doloroso para mim. Por isso, sugeri:

— Vamos mudar de assunto.

Quim e Marta notaram alguma amargura nas minhas palavras e aceitaram a sugestão. Não questionaram o porquê da minha atitude, mas ficaram curiosos sobre o que se passava.

Nessa tarde, Quim e Marta qualificaram-se para as meias-finais sem grandes dificuldades. Não jogaram ao mais alto nível, apenas o suficiente para garantir a vitória.

Depois, foi a nossa vez de jogar.

Antes de entrarmos no campo, Quim aconselhou-nos:

— Eu vi os vossos adversários a jogar. Tiveram um jogo muito desgastante. Cansem-nos no primeiro set e eles já não conseguirão resistir nos restantes.

Mais uma vez, agradeci o conselho. E de facto foi isso que aconteceu. Nós jogámos com bastante garra, prolongámos muito as jogadas e vencemos o primeiro parcial por quinze a dez. No segundo, eles estavam completamente arrebentados e perderam por quinze a um.

Assim, estávamos qualificados para as meias-finais de Sábado. E pela nossa frente, o dificil confronto com Quim e Marta.

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