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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XIV

Os torneios de volei de praia têm a duração de uma semana, desde a qualificação para o quadro principal até à final. O torneio começava na Terça-Feira com o apuramento, denominado qualifying. Na Quarta-Feira realizar-se-ia a segunda fase do qualifying. Findas estas fases, apuravam-se vários pares que se juntariam ao quadro principal com os pares mais conceituados.

Na Quinta-Feira realizavam-se, durante todo o dia, os dezasseis jogos da primeira eliminatória. Na Sexta-Feira realizavam-se, pela manhã, os oitavos de final e os quartos de final, à tarde. Os especialistas consideravam-no o dia mais desgastante da competição. No Sábado, à tarde, realizavam-se as meias finais. E no Domingo, o último dia de competição, seria jogado pela manhã o jogo para a medalha de bronze e à tarde o jogo da final.

Os participantes eram compostos por pares mistos, os quais obtinham pontos consoante a sua participação. Esses pontos acumulavam de torneio para torneio e contavam para o campeonato nacional de volei de praia em pares mistos.

Quanto ao campeonato nacional, este era composto por quatro torneios (Caparica, Carcavelos, Figueira da Foz e Espinho). O par melhor pontuado no fim do campeonato, sagrava-se campeão nacional e ganhava o direito de representar Portugal no Campeonato do Mundo em Copacabana, no Brasil.

Neste primeiro dia de competição, cheguei à porta do prédio de Rafaela, dez minutos antes do previsto. Mas, mesmo assim, ela já me esperava.

Entrou no carro e cumprimentou-me.

— Então, preparado para jogar? — perguntou ela.

— Penso que sim. — respondi eu, não escondendo o nervosismo que sentia.

Eu iniciei a marcha do veículo e seguimos para a Costa da Caparica. Durante o trajecto, Rafaela e eu fomos conversando sobre o torneio.

— Quais são as nossas hipóteses, na tua opinião? — perguntei eu.

Rafaela sorriu e respondeu:

— No ano passado, eu e o Tiago estávamos a jogar muito bem e quando entrámos em competição, não ganhámos um jogo. Sinceramente, se hoje perdermos não fico admirada.

— Isso é que é optimismo. — ironizei eu.

— É a verdade. — insistiu ela. — Treinámos muito, mas não temos o ritmo de jogo e o conhecimento entre nós que existia entre mim e o Tiago.

— A falar assim, até parece que se o Tiago já estivesse com o braço bom, eu não estaria aqui. — disse eu, aborrecido.

— Se dissesse o contrário, mentir-te-ia. — confirmou ela.

Eu, irritado, perguntei:

— O que é que eu te fiz? Hoje, ainda não paraste de me deitar abaixo.

— Desculpa. — pediu ela. — Foi sem intensão. É que o Tiago marcou a data do casamento. E isso deixa-me de mau humor.

— Sempre vais casar com ele? — interroguei eu, entristecido com a, cada vez mais confirmada, notícia do casamento.

— Já sabes que sim. Para que é que perguntas? — contrapôs ela.

— Mas, eu...

— Não digas nada. — interrompeu ela. — Não tornes tudo isto ainda mais doloroso.

Eu calei-me e não disse nada até chegarmos ao local da competição. Parei a cerca de cinquenta metros do recinto. Rafaela saiu do carro e eu segui-a. Ela estava mais habituada a todo aquele protocolo do que eu.

Dirigimo-nos à recepção, onde uma jovem em fato de banho prestava as informações aos concorrentes.

— Dupla Marco Oliveira e Rafaela Pereira. — disse ela, dirigindo-se à funcionária.

Eu fiquei a pensar. Tinha dado conta de que só, naquele momento, tivera conhecimento do apelido de Rafaela.

A jovem olhou para o papel que tinha na mão e disse:

— O vosso jogo é o terceiro do dia.

— E qual é o que se está a desenrolar? — questionou Rafaela.

— É o segundo. — informou a outra. — Começou há cinco minutos. Se quiserem, podem ir para a bancada assistir. Mas convém que estejam prontos, dez minutos antes da hora marcada.

— Está bem. — concordou Rafaela.

Rafaela e eu seguimos para umas escadas que davam acesso às bancadas. Sentámo-nos a meio, pois lugares era o que não faltava. A qualificação não atraia muito público.

O local era composto por um rectângulo de areia com marcações brancas, uma rede no meio e bancadas em ferro que circundavam o campo de volei.

Daqui a pouco, vamos estar ali a jogar. — afirmou Rafaela.

Eu não disse nada. Ela continuava a falar, não comigo, mas com ela própria:

— Temos que ter atenção à forma como eles jogam.

— A deles e a de todos. — disse eu.

— Mas, estes principalmente. Porque se ganharmos, vamos jogar com o vencedor deste jogo. — esclareceu ela.

As suas palavras fizeram-me ter mais atenção ao jogo.

O jogo demorou meia hora e quedou-se por um resultado de dois parciais contra nenhum dos derrotados.

O speaker da competição avisou:

— Próximo jogo dentro de quinze minutos.

Eu e Rafaela dirigimo-nos aos balneários para mudar de roupa.

Os balneários eram formados por dois contentores onde os concorrente mudavam de roupa e tomavam banho, após o jogo. Cada contentor estava subdividido em duas partes para maior privacidade de cada membro da equipa.

Prontos para o jogo, deixámos o balneário e seguimos para o areal. Antes de entrarmos, Rafaela presenteou-me com um abraço e um beijo na face.

— É para dar sorte. — disse ela.

No nosso meio campo, começámos a aquecer, executando passes um para o outro. Não que precisássemos de aquecer, já que estava um calor abrasador e o Sol despenhava-se sobre nós, sem uma única pausa.

Rafaela estava lindíssima, revelando o seu lindo corpo com o biquini vermelho que eu comprara. Ambos envergávamos uma pequena camisola de alsas, com o nosso número de inscrição, o 17.

Iamos confrontar uma dupla vinda do Porto. Os nomes não me recordo, mas sei que eram muito experientes.

O árbitro aproximou-se da rede e chamou:

— Os capitães de equipa que se aproximem.

O homem da outra equipa dirigiu-se ao árbitro. Eu fiquei parado, pois pensava que Rafaela era a capitã de equipa.

— Então? — perguntou ela.

— O que é? — interroguei eu.

— Vai lá. Tu é que és o capitão. — informou ela.

— Eu???

— Sim, tu. — confirmou ela.

— Mas, eu não percebo nada daquilo. — constatei eu, confuso.

— Vai lá que aquilo é facil. — insistiu ela.

Eu estava relutante, mas o árbitro começou a ficar impaciente:

— Então, qual de vocês é o capitão?

— Sou eu. — respondi, de imediato.

A dupla adversária já ria com tanta inexperiência. Estavam a gozar-nos à grande.

— Cara ou coroa? — perguntou o árbitro.

— O maçarico que escolha. — disse o outro.

Eu não respondi à provocação e disse:

— Cara!

O árbitro lançou a moeda ao ar e eu ganhei.

— Bola ou campo? — perguntou-me o árbitro.

Eu olhei para o nosso adversário e respondi:

— Campo. O tripeiro pode ficar com a bola.

— Ouve lá... — tentou responder ele.

Porém, o árbitro interrompeu:

— Meus amigos, essas coisas resolvem-se no campo!

Eu regressei para junto de Rafaela e questionei:

— Porque é que não ficaste como capitã de equipa?

— Achas que ficava bem? Geralmente, é o elemento masculino que chefia a equipa. Se não fizessemos assim, tu eras visto como um jogador fraco que eu tinha arrastado para a competição. — explicou ela.

— Não andas muito longe disso. — contrapus eu.

— Não sejas parvo. — disse ela. — Tu até jogas bem.

Não tivemos tempo para mais conversa, pois o árbitro sinalizou o início da partida.

O primeiro serviço coube aos nossos adversários. Um serviço forte e directo. Nem eu nem ela o apanhámos.

No segundo serviço, ainda esboçámos a resposta, mas nada feito. O terceiro e o quarto serviço foram iguais.

— Marco, calma! — aconselhou Rafaela. — Não estejas nervoso.

Eu acenei, afirmativamente, com a cabeça.

Quinto serviço: ele atirou, eu apanhei, Rafaela passou e eu rematei em força. A bola foi bloqueada pela jogadora adversária e caiu no nosso campo.

— Tempo! — pediu Rafaela.

O árbitro suspendeu a partida para um desconto de tempo de um minuto.

Ambos nos sentámos nas cadeiras ali colocadas para os jogadores e repousámos.

— Cinco a zero. — disse Rafaela. — Isto está mal.

— Eles são muito fortes. — adicionei eu.

— Se estes são fortes para nós, nunca conseguiremos ganhar um torneio. — afirmou Rafaela.

O tempo terminou e o árbitro chamou-nos de novo ao campo. A dupla adversária olhava para nós e ria no gozo.

— Não ligues! — disse Rafaela.

Dado o sinal de recomeço, ele voltou a servir. Rafaela apanhou, eu passei a bola e ela rematou com toda a força. Sem hipóteses para eles.

Recuperávamos, assim, o serviço. E foi Rafaela quem o executou. E com uma potência que só visto. Os gozões nem viram a bola.

Por mais cinco vezes, Rafaela repetiu a façanha, virando o resultado a nosso favor.

Foi então a vez de eles pedirem um desconto de tempo.

Debaixo do chapéu-de-sol, que nos dava uma sombra maravilhosa, eu questionei Rafaela:

— Como é que consegues servir com aquela força?

Rafaela sorriu e respondeu:

— Penso em quem mais odeio e descarrego na bola.

— Espero que esse alguém não seja eu. — disse eu, olhando para ela.

Ela sorriu e disse:

— Se pensasse em ti quando sirvo ou remato, não tinha a menor força para o fazer.

Com o resultado de seis a cinco, regressámos ao rectângulo de jogo.

Rafaela voltou a servir, eles apanharam a bola e responderam com um remate cheio de efeito e enganaram-nos, retomando o serviço para eles.

Era a vez da nossa adversária servir. Fê-lo com tanta força que a bola foi directamente para fora.

— Vá, Marco! Agora és tu. — disse Rafaela, incentivando-me.

Eu peguei na bola, preparei-me para servir e atirei a bola. Mas estava tão nervoso que a bola colidiu com a rede.

Rafaela manteve-se em silêncio e olhou desiludida para mim.

O gozão pegou na bola e dirigiu-se à zona de serviço. Atirou-a bem alto e rematou-a com força.

Rafaela apanhou-a, desajeitadamente, e a bola seguiu um rumo contrário ao desejado. Foi então que eu corri e, em vôo, toquei a bola em manchete, levantando-a e permitindo um remate, pleno de sucesso, a Rafaela.

Não duvido que aquela bola nos tenha galvanizado. Recuperar uma bola quase perdida, aumenta o ânimo dos jogadores. A partir daí, os pontos sucederam-se para o nosso lado e o parcial terminou com o resultado de quinze a cinco, a nosso favor.

— Estamos no bom caminho. — dizia Rafaela, enquanto limpava a areia do corpo com uma toalha.

— O primeiro set já é nosso. — corroborei eu.

O intervalo durou três minutos. Depois, foi o regresso ao campo.

Fui eu quem começou a servir. Desta vez, foi bem executado, mas melhor respondido pelos adversários.

Serviço do lado contrário, eu recebi, Rafaela passou e eu rematei em habilidade, enganando completamente o meu adversário.

— Cabrão! — chamou o tipo, com mau perder.

Eu já ia a responder à ofensa. Porém, Rafaela segurou-me e disse:

— Não ligues! Eles são conhecidos por atitudes destas. O melhor é não ligar, senão isso pode ser-nos prejudicial.

Eu concordei e voltei ao meu lugar.

Rafaela foi, então, para o serviço. E fez, nada mais nada menos que, oito pontos seguidos. Foi o arrumar da questão. Eles já não recuperaram e nós controlámos o parcial até vencermos por quinze a sete.

Ao fazer o ponto de jogo, Rafaela pulou de alegria. Eu juntei-me a ela, abracei-a pelas pernas e levantei-a em peso. Ao que ela respondeu, abraçando-me a cabeça e aconchegando-a no ventre.

A dupla que nós vencemos tinha tão mau perder que abandonou o recinto sem cumprimentar ninguém.

— É a primeira vez que ganho um jogo! — rejubilava Rafaela.

Eu dirigi-me ao árbitro e cumprimentei-o, sendo seguido da minha parceira.

— Eu vou andando. — disse Rafaela, dirigindo-se ao balneário.

Eu fiquei a ver o quadro de jogos e conversava com um dos fiscais:

— Estes tipos são mesmo mal educados.

— E vá lá que hoje nem foi dos piores dias. — afirmou o fiscal.

— O quê? Não me diga que já fizeram pior. — interroguei eu.

— No ano passado, envolveram-se à pancada com o outro par. — contou o fiscal. — O mal é dar-lhes conversa. O melhor é deixá-los falar e continuar a jogar.

Ao ouvir aquelas palavras, verifiquei como era inexperiente naquelas coisas. Eu já estava pronto a partir para as agressões, se não fosse o bom senso e a experiência de Rafaela.

Quando regressei aos balneários, ia tão eufórico e tão distraído que, por engano, entrei no lado de Rafaela. E fiquei com ela, na minha frente, de costas a tomar banho completamente nua.

Ao ver-me, Rafaela escondeu as partes mais intimas e ordenou:

— Saí daqui, Marco! Saí imediatamente daqui!

Eu fiquei aparvalhado com o engano e demorei a raciocinar. Mas acabei por deixar o seu lado e fui para o meu.

Rafaela ficou convencida de que eu o fizera intensionalmente.

Minutos mais tarde, ao sair do balneário, pedi-lhe desculpa.

— Foi sem intensão. — disse eu.

— Esquece! — disse ela, ainda séria.

Eu olhei para ela e, com muita seriedade, disse:

— Eu jamais faria algo que abusasse da tua confiança.

Rafaela sorriu e respondeu:

— Eu sei, Marco. Eu sei.

Terminado o desentendimento, fomos para a bancada, assistir aos restantes jogos da manhã. Continuava a haver muito pouca gente nas bancadas.

Antes de almoço, foram divulgados os próximos jogos do qualifying. Nós só voltávamos a jogar no dia seguinte pela manhã.

— Rafaela, vamos embora? — perguntei eu.

— Não queres almoçar comigo? — sugeriu ela.

— Adorava. — concordei eu.

Almoçámos num restaurante, junto ao mar. Tinha um ambiente magnífico. Sentámo-nos na esplanada e ficámos a conversar ao som das ondas a bater na areia.

— Nunca me contaste, ao certo, a tua participação no ano passado. — disse eu.

Rafaela que denotava grande felicidade por aqueles momentos, sorriu e perguntou:

— Queres que te conte agora?

— Se quiseres...

Rafaela acedeu à proposta e começou a falar:

— Como já te disse, eu participei com o Tiago. Como meu namorado, ele não permitia que mais ninguém fizesse par comigo, a não ser ele. Por isso, se eu queria participar, tinha de ser com ele.

— E havia mais alguém, a quem pudesses recorrer? — indaguei eu.

— Não. Mas, também, não procurei. — continuou ela. — Bom, mas o Tiago não jogava mal. Só que o nosso relacionamento não era bom e isso reflectia-se no jogo. Participámos neste torneio e perdemos logo. Participámos no de Carcavelos e voltámos a perder no início. E acabámos por desistir de participar nos outros dois.

— Qual de nós joga melhor, eu ou o Tiago? — perguntei eu, vaidoso.

Rafaela derrubou a minha vaidade:

— Ele joga melhor. Mas, eu prefiro jogar contigo.

Depois do almoço, regressámos a Lisboa. Sentia-me feliz ao ver a felicidade dela.

Quando parei em frente ao seu prédio, perguntei:

— Rafaela! Queres sair comigo, logo à noite. Só um bocado para conversar.

Rafaela olhou para mim com uma ternura nos olhos que, quase, me comoveu. Tinham tanto carinho que me senti acariciado só com o seu olhar.

— Marco, já sabes que não posso. — disse ela com ternura.

Eu não insisti, pois compreendia o porquê da sua recusa.

Combinámos a hora para o dia seguinte e eu parti, rumo a casa.

Nessa noite, dormi descansadamente. O cansaço levou-me a ter um sono repousado e sem sobressaltos. Não sei o que sonhei, ou até se sonhei.

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