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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XII

A partir desse ano, o dia 9 de Julho ficou gravado na minha memória. Tratava-se do dia em que fazia anos a mulher que eu amava.

Naquele ano, esse dia calhou a um Domingo, o que dificultou a minha surpresa. Mas, felizmente, a loja de flores a quem eu tinha encomendado o presente, trabalhava ao Domingo.

Claro que eu não estava presente, quando Rafaela recebeu o ramo de flores e a carta, o que me deixou em grande ansiedade.

Ainda hoje, recordo com exactidão, o conteúdo da carta. E tenho todo o prazer em o reproduzir nesta história:
 

"Rafaela,

Das coisas de que um ser humano mais se pode orgulhar, é das amizades que o rodeiam. Claro está que a amizade só existe quando é verdadeira.
Apesar de nos conhecermos há algum tempo, só há cerca de um mês nos começámos a conhecer melhor. No entanto, esse pouco tempo já me permite assegurar que entre nós existe essa verdadeira amizade.
Como teu amigo, ofereço-te este ramo de rosas, felicitando-te pelo teu aniversário. Jamais, poderia esquecer esta data comemorativa do nascimento de alguém que é tão importante para mim.
Peço que me desculpes, se alguma destas frases ultrapassar a confiança que existe entre nós. Porém, sinto que é minha obrigação revelar-te algo que tu desconheces.
Acredito que tu és minha amiga, mas mentir-te-ia se dissesse que te considerava de igual forma. Tu para mim, és muito mais do que isso.
Não vou escrever, o que realmente sinto por ti. Pois considero que devo dizer-to pessoalmente e não por carta. Por isso, se quiseres conversar sobre isto, eu estarei à tua espera, amanhã à noite, no local onde nos reencontrámos.
Para além disto, desejo que disfrutes o melhor possível deste dia. E que sejas feliz eternamente, ao lado de quem mais ames.
Espero, também, que gostes do meu presente, tanto quanto eu gosto de ti. Com ele, envio-te um carinhoso beijo por cada primavera comemorada.

Com toda a minha amizade e algo mais...

Marco."
 

Naquele dia, as horas pareciam não passar. Na minha mente, o tempo tinha ficado bloquedo. Eu esperava, esperava, esperava... e as horas não passavam. Estava desejoso que chegasse a altura de ir ao encontro de Rafaela.

Contudo, ao pensar nisto, a minha memória ficava ensombrada pela ideia de que ela não fosse. Eu estava a equacionar a hipótese de ela sentir o mesmo por mim, mas... E se ela não sentisse?

O que seria de mim, ali sozinho, à espera de alguém que não viria? E depois, como seria o nosso relacionamento? Ela poderia não ter coragem de me voltar a encarar. E isso comprometeria seriamente a nossa participação nos torneios de volei de praia. Seria o fim de um grande desejo dela.

Com tantos pensamentos, comecei a achar-me um egoísta que só pensara no seu interesse e nada mais. A minha atitude poderia por fim à nossa recém-nascida amizade.

O arrependimento acomodou-se em mim. Sem ter noção de qual a reacção de Rafaela ao meu presente, eu já pensava que não o devia ter mandado.

Estava muito confuso e sem conseguir encontrar a decisão mais correcta. Se por um lado, talvez tivesse agido mal, por outro, talvez tivesse agido bem. Quem sabe? O tempo o iria dizer.

Aquele dia foi todo passado comigo absorvido em pensamentos e deduções vãs que não levavam a nada.

Só o dia seguinte iria trazer a resposta a todas as minhas questões.

Nessa manhã, fui acordado pelo soar do telefone. Mónica foi atender.

Cheguei a pensar que fosse Rafaela, mas logo de imediato, me lembrei que ela só tinha o meu número de telemóvel.

Mónica ficou a falar no telefone, durante algum tempo. E eu não consegui perceber de quem se tratava.

Ao almoço, Mónica contou-me o telefonema.

— Era o Cajó, a convidar-me para sair com ele, logo à noite. — informou ele.

— Mónica, já te avisei para teres cuidado. — disse eu.

— Tu tens é ciumes. — contrapôs ela.

— Não digas asneiras. — neguei eu.

— Estás sempre a falar mal do Cajó. — continuou ela.

— Não é falar mal. — argumentei eu. — Só que eu conheço o Cajó, melhor que tu. E sei que ele é bem capaz de se aproveitar da tua ingenuidade.

Mónica olhou para mim, irritada, e disse:

— Não me interessa o que possas dizer. Eu vou sair com ele e pronto.

Nas horas que se seguiram, Mónica quase não falou comigo e fechou-se no seu quarto.

O tempo foi correndo. Eu continuava ansioso e o aproximar da noite aumentava a minha ansiedade e o meu nervosismo. Parte de mim queria ver Rafaela e dizer-lhe aquilo que sentia, mas outra parte acobardava-se e temia o encontro.

Durante o jantar, Mónica e eu mal conversámos. Ela apressou-se a comer e foi para o quarto, produzir-se para o encontro com Cajó.

Eu jantei mais calmamente e só meia hora mais tarde me fui preparar para o meu encontro. Quando me dirigi ao meu quarto, Mónica saiu do seu. Ia muito bem vestida com roupas justas e muito bem maquilhada.

— Marco, achas que estou bem? — perguntou ela, ajeitando a saia.

— Pareces uma... — disse eu, sem pensar e sem intenção de concluir.

Mónica olhou para mim ofendida e perguntou:

— Uma quê?

— Nada! — respondi eu. — Vai e diverte-te.

Enquanto passava a seu lado, Mónica olhou para mim e insistiu:

— Uma quê? Uma puta?

— Tu é que o estás a dizer. — afirmei eu, entrando no quarto e fechando a porta.

Mónica ficou furiosa comigo e saiu, batendo com a porta da rua e pronunciando vários palavrões em francês. Na rua, Cajó já a esperava. Depois de ela entrar no carro, ambos partiram sabe se lá para onde.

Eu fiquei a preparar-me. Estava cada vez mais nervoso e receoso da reacção de Rafaela.

Sai de casa por volta das 21h00. Tranquei a porta e desci até à rua. O carro estava estacionado alguns metros mais abaixo. Era uma bela noite de Verão e não havia muito movimento nas ruas, ali na minha zona. Entrei no carro e parti rumo ao café do costume, seguindo pela Avenida de Roma. Aí, o movimento de automóveis era maior.

A meio do trajecto pude ver o prédio de Rafaela, mas era impossível saber se ela lá estava ou se já tinha saído.

No restante percurso, fui olhando para o passeio, tentando ver se ela já ia a caminho. Das poucas vezes que o pude fazer em segurança, não avistei nem a sombra dela.

Estacionei o carro na Praça de Londres e caminhei até ao café.

Não havia muita gente lá dentro, meia casa talvez. Conforme ia andando pelo café, até à minha mesa, ia fazendo um gesto de cumprimento aos empregados do estabelecimento que já me conheciam.

Ao sentar-me na cadeira, um dos empregados veio interpelar-me:

— Senhor Marco! Há já algum tempo que não nos visitava.

— É verdade! — confirmei eu, sorrindo. — Não tem havido oportunidade.

— Então o que é que vai ser? — interrogou ele.

— Pode ser um café, por favor. — pedi eu.

Como era habitual, o café não demorava muito. Dois ou três minutos depois, lá vinha ele com a chavena sobre o pires que tazia na bandeja.

— Aqui está! — disse o empregado com gentileza.

— Obrigado.

— Trago-lhe, também, o jornal se quiser ver. — informou ele, entregando-me um jornal desportivo.

— Obrigado. — agradeci eu, mais uma vez, a amabilidade.

Após ingerir o café, fiquei a ler o jornal para fazer tempo até que Rafaela aparecesse. Se é que ela iria aparecer.

O jornal não trazia muitas notícias novas. Eu desfolhava-o sem paciência para o ler e ia olhando com impaciência para o relógio.

Eram já 22h00 e nem notícia de Rafaela. Já começava a pensar que ela não viria. Nessa altura, a minha visão concentrou-se no relógio, na porta do café e, esporadicamente, no jornal. Numa dessas olhadelas para a porta, vi duas pessoas conhecidas, Carlinhos e Humberto.

Ao verem-me, dirigiram-se imediatamente para a minha mesa.

Estava tramado, pensei.

Eu gostava da sua companhia, mas naquela altura, a presença de qualquer pessoa que não fosse Rafaela, era um completo impecilho e prejudicava os meus objectivos.

Carlinhos, que vinha à frente, indagou:

— Então Marco, por aqui?

— Boa noite! — respondi eu, em tom de desagrado pela presença de ambos.

— Boa noite! — cumprimentou Humberto, meio escondido atrás de Carlinhos.

Nenhum dos dois ligou importância ao meu desprezo e continuaram.

— Podemos sentar-nos? — perguntou Carlinhos.

Antes que eu pudesse responder, já ambos se acomodavam nas cadeiras.

Com muita paciência e seriedade, olhei para eles e disse:

— Eu estou à espera de uma pessoa. Não se importam de ir para outra mesa?

Humberto respeitou o meu pedido e já ia a levantar-se, mas Carlinhos agarrou-o e disse:

— A gente não demora! Ó rapaz, são dois cafés.

Para me acalmar com tamanha falta de senso, voltei a pegar no jornal e regressei à leitura, esperando que eles tivessem a iniciativa de se irem embora.

— Marco, afinal de quem é que estás à espera? — perguntou Carlinhos.

— Não te interessa! — respondi eu, friamente.

— O melhor era irmos embora. — sugeriu Humberto.

— Boa ideia! — concordei eu.

— Já vamos! — contrapôs Carlinhos.

Durante mais meia hora, eles permaneceram na minha mesa, com as chávenas de café vazias à sua frente. E Rafaela continuava sem aparecer.

Eu olhava, constantemente, para o relógio e para a porta. Humberto já se apoderara do jornal e Carlinhos olhava para duas raparigas sentadas noutra mesa.

— Se calhar não vem... — sussurou Carlinhos.

— O quê? — interroguei eu, furioso.

— Quem tu estás à espera! Se calhar não vem. — explicou Carlinhos.

— Mete-te na tua vida. — disse eu, cada vez mais furioso.

Perante tanta rudeza, ambos se calaram.

Minutos mais tarde, Rafaela apareceu. Estava lindissima, vestia calças de ganga e t-shirt pretas, sapatos pretos e trazia o cabelo caido sobre os ombros. Nunca a tinha visto tão bonita.

Quando me viu, sorriu. Mas, o sorriso não demorou muito tempo, tendo desaparecido quando viu que eu não estava sozinho. Ao contemplar a mesa com o olhar, Rafaela parou e hesitou em prosseguir. Porém, depois de alguns segundos de indecisão, lá veio ao meu encontro.

— Boa noite! — disse ela a todos.

— Olá! — disse eu, sorrindo.

Os outros dois cumprimentaram-na com um pequeno som proferido entre dentes.

Rafaela aproximou-se de mim e deu-me dois beijos na face, dizendo:

— Obrigado pelas flores.

— Espero que tenhas gostado. — afirmei eu.

— Gostei... — respondeu ela.

Como ela não se sentou, eu convidei-a a fazê-lo, mas ela respondeu:

— Não posso. Tenho uns amigos à minha espera. Só vim cá agradecer-te o presente.

A resposta dela surpreendeu-me. Sempre pensei que ela lá fosse para ficar.

Antes que eu voltasse a dizer alguma coisa, ela presenteou-me com mais dois beijos e disse:

— Bem, vou-me embora.

— Espera! — disse eu. — Fica mais um bocado.

Rafaela olhou para mim e, com alguma frieza, disse:

— Não. Tu já tens companhia. Eu vou andando.

E com aquelas palavras foi-se embora.

Eu fiquei confuso e sem saber o que fazer. Sentia-me frustrado, pois um encontro que tanto ansiara, resumira-se a uma ligeira troca de palavras. No entanto, ficava com a desconfiança de que ela não gostara da presença de Carlinhos e Humberto.

Naquele momento, não sabia com que intensão ela fora ao meu encontro. Mas, fosse qual fosse, tinha sido prejudicada pela presença dos meus dois amigos.

Enquanto Rafaela abandonava o local, eu fiquei apático a olhar para ela. Só despertei, quando Carlinhos falou.

— Quem era? — perguntou ele, como se não soubesse de quem se tratava.

Eu não lhe respondi.

Humberto fê-lo por mim:

— Esta é a Rafaela, a colega de equipa do Marco.

Que designação tão estupida, "colega de equipa". Tive vontade de lhes gritar que ela era minha amiga e que, se quisesse, poderia ser mais do que isso. Mas não valeria a pena fazê-lo.

Desesperado por ver o encontro arruinado, corri até à porta e procurei-a pela rua. Porém, já era tarde, ela desaparecera naquele deserto de ruas e prédios.

Amargurado, voltei à mesa e sentei-me.

— Algum problema? — questionou Humberto.

— Não! — respondi eu, sem tirar os olhos da porta.

Era como se esperasse que algo a fizesse voltar e me desse a oportunidade de me explicar.

— Ó Marco! — chamou Carlinhos. — Vamos ali engatar aquelas duas tipas. — sugeriu ele, apontando para elas com o olhar.

— Vai à merda! Ou melhor, vão os dois à merda. — disse eu, furioso por me terem arruinado o encontro.

— Ó Marco que mal é que eu te fiz? — interrogou Carlinhos.

Eu nem lhe respondi. Levantei-me, paguei o meu café e deixei-os.

Dez minutos mais tarde, estava à porta do meu prédio. Entrei e comecei a subir as escadas. Porém, parei e voltei ao andar de baixo, mais exactamente à porta de Bento.

Pouco faltava para a meia-noite, mas mesmo assim, toquei à campainha. Foi Bento quem me abriu a porta.

— Marco, algum problema? — perguntou Bento, ao ver-me e estranhando a minha visita tardia.

— Preciso de conversar. — disse eu, com um semblante carregado.

Bento comprendeu, imediatamente, o que se passava e disse-me:

— Entra! Vamos conversar para ali para estarmos mais à vontade. A Madalena está na sala a ver televisão.

Eu entrei, passei pela sala para cumprimentar Madalena e segui para a cozinha, local que Bento apontara.

Sentámo-nos a conversar, junto à mesa da cozinha. Eu contei a Bento tudo o que se passara e ele deu a sua opinião:

— Espero que não tenha ficado tudo arruinado.

— Porque dizes isso? — indaguei eu.

— Pelo que me contaste, ela ia com alguma intensão. — disse ele.

— Qual? — perguntei eu.

— Não sei. Isso tens que lhe perguntar a ela. — esclareceu Bento. — Agora, eu acho que ela pode ter ficado magoada por tu não estares sozinho.

— Achas isso possível? — interroguei eu.

— Se não achasse, não te dizia. — continuou ele. — Mas, supõe que ela também gosta de ti. E hoje, quando te ia dizê-lo, tu estás ali com dois “jarrões de companhia", aquele caramelo do Carlinhos e o outro coitado, o Humberto. O que é que achas que ela ficou a pensar? Não concordas que poderá ter ficado magoada?

Eu concordei com Bento.

— Tu próprio dizes que ela é tímida. — insistiu ele. — À minima contrariedade, ela pode desistir. E pode pensar, até, que tu fizeste isto no gozo.

— Mas, não foi. — repliquei eu.

— Eu sei, tu sabes, mas ela não sabe. — avisou Bento. — Se queres um conselho, acho que deves esclarecer o assunto.

Ainda ficámos a conversar mais algum tempo. Só perto das 02h00, é que fui para casa. Pobre Bento, lá ficara com o sono prejudicado pelos meus aborrecimentos.

Quando entrei no meu quarto, carregava a frustração de um encontro falhado e a amargura por, possívelmente, ter magoado alguém que tanto amava. Nessa noite não dormi mais do que hora e meia. A minha cabeça atormentou-me o sono com a ideia da melhor atitude a tomar.

Levantei-me antes das dez horas. Estava mais cansado do que se tivesse ficado a pé. Mas, mesmo assim não tinha sono. Depois de muito pensar, decidi telefonar a Rafaela. Só que ainda era cedo. O melhor seria telefonar à hora do almoço.

Quando saí do quarto, reparei que a minha prima ainda dormia e por isso fiz os possíveis para não a incomodar. Após o pequeno-almoço, fui à rua comprar o jornal e tomar um café. Não demorei muito tempo, mas foi o suficiente para que Mónica já estivesse a pé e completamente arranjada, quando regressei.

— Vais a algum lado? — perguntei eu.

— Vou almoçar fora com o Cajó. — informou ela, sem olhar para mim.

— Vocês, agora, encontram-se todos os dias? — questionei eu, num tom de discordância. Mónica ainda estava aborrecida comigo pelas palavras que eu lhe dissera, por isso quase não falava comigo. — Ele hoje não trabalha?

Mónica olhou para mim e, com uma vocalidade de superioridade, disse:

— Tirou a tarde para estar comigo.

A nossa conversa ficou por alí, pois o som da campainha fez-se ouvir, assinalando a chegada de Cajó.

Ela nem se despediu e saiu apressada.

Enquanto descia as escadas, cruzou-se com Humberto que entretanto também chegara.

— Olá! — disse ele, com um sorriso babado.

Mónica passou por Humberto e, sem olhar para ele, retribuiu o cumprimento.

Triste pelo desprezo, Humberto continuou a subir as escadas até se aproximar de mim.

— Bom dia, Marco. — cumprimentou ele. — Espero que não te importes que eu tenha vindo sem avisar.

— Não! — disse eu, convidando-o a entrar.

Encaminhei-o para a sala, onde nos sentámos nos sofás para conversar.

— Venho pedir-te desculpa por ontem. — informou Humberto.

— Do quê? — perguntei eu.

Humberto explicou:

— Acho que, ontem, eu e o Carlinhos te estragámos o encontro com aquela tua amiga, a Rafaela. Eu não disse nada, mas o meu silêncio confirmou a suspeita de Humberto. — Fiquei com esta ideia, por ver a tua reacção quando te foste embora.

— Deixa lá! Não penses mais nisso. — disse eu, desculpando-o.

— Sabes! — prosseguiu ele. — Quem me dera também me ter ido embora nessa altura.

— Porquê? — interroguei eu, curioso.

Humberto começou, então, a contar o que se passou, depois de eu deixar o café. Uma história que eu reproduzirei de seguida:
 

Após a minha saída do café, Humberto e Carlinhos ficaram na mesa a conversar. E a certa altura, Carlinhos fez uma sugestão:

— Ouve! E se nós engatássemos aquelas duas?

— Não sei... — hesitou Humberto.

— Não sejas tímido, pá! — ordenou Carlinhos. — Vá, anda daí!

— Mas, eu nunca... — interrompeu Humberto.

Carlinhos olhou para ele e, com toda a falta de sensiblidade que lhe é característica, disse:

— Algum dia terá de ser a primeira vez.

Na outra mesa estavam duas morenas. Uma aparentava ter cerca de vinte anos, vestia um vestido azul de decote generoso. A outra andava na casa dos trinta, vestia calças de ganga azul e um casaco de algodão sobre a pele. Eram ambas muito bem feitas e extremamente atraentes.

Enquanto se dirigiam à mesa delas, Carlinhos distribuía:

— Tu ficas com a mais nova que eu fico com a outra.

Humberto dizia que sim, mas tremia mais que os arbustos em noite de temporal.

Carlinhos aproximou-se da mesa e começou o paleio:

— Boa noite!

— Boa noite! — respondeu a mais velha.

— Vocês desculpem. — continuou ele. — Mas, eu e o meu amigo estávamos alí sentados e não pudemos deixar de reparar na vossa presença.

Ambas sorriram, entendendo plenamente qual a sua intenção.

Carlinhos prosseguiu:

— Aqui o meu amigo, até disse: o que farão duas raparigas tão bonitas, ali sozinhas?

Humberto franziu os olhos, pois não compreendia o que ele estava a dizer. Ele não dissera nada daquilo.

Carlinhos, matreiramente, continuou a seu monólogo:

— E eu respondi: Tens razão, possívelmente não têm companhia. Foi então que pensámos em vir fazer-vos um pouco de convívio.

A mais velha sorriu novamente e convidou:

— Sentem-se.

Carlinhos puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dela. Humberto, hesitante, acabou por se sentar perto da outra.

Ficaram a conversar durante algum tempo. Humberto era o que menos falava, pois estava muito nervoso.

A certa altura, Carlinhos sugeriu:

— Eu tenho ali o carro. Podiamos sair daqui e ir para um lugar onde estivessemos mais à vontade.

A mais velha olhou para a sua amiga e, com a concordância desta, ambas aceitaram o convite. Tanto uma como outra sabiam ao que aquilo levaria. Somente, Humberto continuava ignorante no desenvolvimento da acção.

Quando sairam do café, Carlinhos já colocava as mãos, descomplexadamente, na sua parceira. Mais atrás, Humberto e a mais nova, limitavam-se a caminhar lado a lado.

Os quatro seguiram de carro até uma pensão, localizada na Praça dos Restauradores. Uma viagem de alguns minutos. Chegados ao local, Carlinhos foi até à recepção e alugou dois quartos, enquanto elas e Humberto esperavam junto da entrada.

Tratado o que havia a tratar, os dois casais subiram ao andar de cima, onde ficavam os quartos. Carlinhos e a sua parceira entraram no primeiro. Humberto e a outra jovem estraram no seguinte.

No interior do quarto, Humberto estava cada vez mais nervoso e andava de um lado para o outro.

A jovem aproximou-se dele e agarrou-o pelo cinto. Porém, ele afastou-a ligeiramente num acto reflexo.

Ela empurrou-o e sentou-o na cama.

Humberto, para disfarçar os nervos, começou a falar:

— Como te chamas?

Ela, enquanto desapertava o fecho do vestido, disse:

— Os nomes não interessam.

— Também acho. — concordou ele. — Então, o que fazes na vida?

— Não digas nada. Não vamos falar sobre nada. Certo? — recomendou ela, puxando a parte superior do vestido para baixo.

— Está bem! — concordou ele, ainda mais nervoso, ao ver os seios dela a nu.

A jovem agarrou-o pela camisa e puxou-o para si, dizendo:

— Não queres apalpar-me as mamas?

Humberto interpretou-o como uma ordem e agarrou-lhe os seios, num acto desastrado, magoando-a.

— Merda, pá! Tem mais cuidado. — avisou ela.

Enquanto Humberto a acariciava desajeitadamente, ela beijáva-o por todo o lado, excepto na boca. Depois, começou a despir-lhe a camisa e a lamber-lhe o peito.

Humberto tremia mais ainda. E ela, notando, disse:

— Estás a tremer? Eu não te faço mal, podes estar descansado.

— Não, não é isso. Deve ser frio. — respondeu ele, com a voz trémula.

Ela ajoelhou-se aos seus pés e despiu-lhe as calças, começando a "meter aquilo na boca", como o Humberto dizia.

Ele sentia-se bem com a acção dela, mas o nervosismo era tanto que ela não obtia reacção por parte dele.

Ora com a boca, ora com a mão, ela insistia na concretização do seu objectivo. Porém, não tinha muito sucesso.

— Ouve lá! És impotente? — perguntou ela, continuando ajoelhada.

— N... Nã... Não. — respondeu ele.

— Então, eu não te agrado, é? — questionou ela.

Humberto, cheio de medo de fazer má fugura, respondeu:

— Não... Não é... isso. Tu és... muito... bo... bonita.

A jovem percebeu que tudo não passava de nervosismo e prosseguiu.

— Descontrai-te. — disse ela, sorrindo.

A parceira de Humberto levantou-se e despiu o vestido. Depois, sentou-se na cama e tirou as cuecas.

— Despe-te e anda para aqui! — disse ela.

Humberto obedeceu e pôs-se completamente nu. Sentando-se, de seguida, à beira da cama.

Ela aproximou-se, novamente, dele e começou a massajá-lo no local onde já tentara. Desta vez, parecia estar a obter resultados.

Contente pelo progresso, a jovem interrogou:

— Sabes fazer um mi...?

— O que é isso? — perguntou ele, espantado.

— É meteres a tua lingua aqui. — informou ela, colocando os dedos entre as pernas.

— Não sei... — respondeu ele, temendo a sua ignorância.

Ela deitou-se na cama, abriu as pernas e disse:

— Experimenta!

Humberto não tinha a mínima noção de como o fazer. Mas com as indicações dela, lá se foi safando.

Algum tempo mais tarde, ela olhou para ele e disse:

— Vá, anda!

Humberto hesitou e ela começou a ficar impaciente. Estava completamente excitada e deparava-se com um parceiro excessivamente passivo.

— Então? Ainda é para hoje? — protestou ela.

Desajeitadamente, Humberto deitou-se sobre ela e tentou penetrá-la. Andava de um lado para o outro, sobre ela, mas não conseguia fazê-lo. Teve que ser auxiliado pela mão da jovem.

Quando conseguiu, ficou tão absorvido na sensação que se espojou sobre o corpo dela. Tendo a jovem, quase, ficado asfixiada com o seu peso.

— Vá mexe-te! Não fiques parado! — ordenou ela, perante a pacividade dele.

Humberto reagiu e começou a movimentar-se. No entanto, fazia-o desordenadamente. E o resultado foi que ao fim de meia hora, ainda, estavam no mesmo ritmo.

— Isto assim não resulta. — concluiu ela, afastando-o para o seu lado.

Seguidamente, levantou-se, colocou-se sobre Humberto, acopulou-se a ele e controlou o ritmo de forma a ter algum prazer.

No entanto, os problemas continuavam. A jovem continuava na busca do seu objectivo, chegar ao extâse, mas deparava-se com a inoperância do parceiro. Humberto não conseguia estimulá-la.

Ela fez vária tentativas. Só que acabou por desistir. Desesperada pelo inêxito da relação, saiu da cama e começou a vestir-se.

— Então e eu? — perguntou Humberto.

— Continua sozinho! — respondeu ela. — Já estou farta de tentar fazer com que te venhas. Prefiro um vibrador que essa “pele” que aí tens.

Humberto, completamente desmoralizado, levantou-se da cama e também se começou a vestir. E continuou:

— Não estás para terminar. Estás com pressa, é?

A jovem, já pronta, olhou para ele e, irritada, disse:

— Nunca tive uma relação sexual tão má. Foste uma merda.

Humberto ficou destroçado e escondeu o rosto com as mãos para que não se visse as suas lágrimas. E ela saiu, rumo ao outro quarto para que a levassem embora.

Ele, quando se recompôs, acabou de se vestir e saiu do quarto. Não tinham passado mais de quinze minutos, desde a saída dela.

No corredor procurou o quarto de Carlinhos que ficava logo ao lado. Como a porta estava encostada, entrou sem bater.

Humberto deparou, então, com o cenário de Carlinhos na cama com a mais nova a fazer o que ele não conseguira e, junto deles, a outra semi-nua a acariciar a sua amiga.

Perante esta imagem, Humberto sentiu-se completamente humilhado. Ainda mais, quando, por entre gemidos, a jovem ao vê-lo lhe disse que "é assim que se faz".

Estava completamente esmagado, psicologicamente. Nem aguentou ficar e foi-se embora, regressando a casa de táxi.

Humberto confiou-me a história, pedindo para que eu não a comentasse com ninguém. Eu respeitei o seu pedido.

 

Como estava sozinho, convidei-o para almoçar comigo.

— Eu encomendo umas pizzas e almoçamos. — sugeri eu.

— Está bem! — concordou ele.

— Vou lá dentro telefonar. — informei eu. — Fica à vontade.

Deixei o Humberto na sala, a ver televisão, e fui para o meu quarto onde teria mais privacidade. Comecei por ligar para as pizzas, encomendando duas.

Depois, a tarefa mais difícil, ligar para Rafaela. Marquei o número e esperei que atendessem.

Atendeu uma voz que pensei tratar-se do pai de Rafaela.

— Boa tarde! A Rafaela está? — perguntei eu.

— Quem fala? — interrogou a voz com alguma antipatia.

— É o Marco, um amigo dela. — esclareci eu.

— Só um momento... — disse ele.

Eu esperei, esperei, esperei... E esperei. Pensei que ela não estivesse em casa e que perante a ausência se esquecessem de me avisar. Porém, não tive tempo para mais pensamentos, pois Rafaela veio atender.

— Estou?

— Olá Rafaela. Sou eu, o Marco. — cumprimentei eu.

— Ah... Olá, tudo bem? — retribuiu ela.

Notei na sua voz, uma certa frieza, apesar da simpatia com que me tratava.

— Olha! Precisava de falar contigo. Podiamos encontrar-nos para conversar, hoje à tarde? — pedi eu.

— Não posso. Tenho de ir tratar das inscrições nos torneios. — recusou ela.

— E à amanhã? — insisti eu.

— Também não posso. — voltou ela a recusar e sem justificar.

Perdendo um pouco a paciência, indaguei:

— Será que não te podes encontrar comigo, alguns minutos?

— Quinta-Feira falamos. — disse ela, desligando o telefone.

Fiquei furioso com aquela atitude. Que mal eu lhe teria feito para tanta frieza.

Atirei com o telemóvel para cima da cama e disse:

— Nunca mais te telefono.

Mas, no amor as coisas nunca são como nós queremos. E eu estava muito apaixonado por ela, para desistir por tão pouco.

Alguns minutos mais tarde, chegou o entregador de pizzas. Humberto e eu almoçámos e, à tarde, fomos tomar um café à Avenida da Liberdade. Só regressei a casa, perto da hora de jantar.

Quando cheguei, Mónica já lá estava e tinha acabado de fazer o jantar.

— Marco! Ainda bem que vieste, vou pôr o jantar na mesa. — informou ela.

— Espera um pouco. — pedi eu. — Antes, tenho de telefonar.

Mónica foi para a sala e eu fui para o meu quarto, insistir novamente com Rafaela para que nos encontrássemos. Podia estar a ser chato, mas quem não arrisca...

Desta vez, foi a própria Rafaela quem me atendeu.

— Olá Rafaela! Sou eu, Marco. — cumprimentei eu.

— Olá! Algum problema? — questionou ela.

Eu, aproveitando a deixa, disse:

— Sim! Estou a precisar, deseperadamente, de falar contigo.

— Então diz! Estou a ouvir-te. — disse ela.

— Pessoalmente. — especifiquei eu.

De súbito, gerou-se um silêncio na conversação. Fui eu quem tomou a iniciativa de prosseguir.

— Rafaela, preciso de falar contigo pessoalmente. Não nos podemos encontrar amanhã? — pedi eu.

— Já te disse que não posso. — repetiu ela.

— Por favor... — implorei eu, com um tom de súplica.

Rafaela hesitou, guardou algum tempo de silêncio e depois disse:

— Está bem! Amanhã à tarde eu telefono-te a combinar o sítio.

— Está bem! — concordei eu, visivelmente contente por a ter convencido.

Nessa noite, estava tão ansioso que me faltava o sono. Porém, acabei por adormecer até meio da manhã seguinte. Pois a carga de sono não dormido, na noite anterior, fez os seus efeitos.

Na tarde posterior, esperei ansiosamente o telefonema de Rafaela. E por volta das 14h45, o telemóvel tocou.

— Estou? — atendi eu, esperando ouvir a voz de Rafaela.

— Marco, é o pai.

Surpreendido, alegre e, ao mesmo tempo, triste cumprimentei-o:

— Pai! Então, tudo bem?

— Tudo! E aí? — quis saber o meu pai.

— Está tudo pelo melhor.

— E a tua prima?

— Cá vai indo! — disse eu.

— Tem-la tratado bem?— insistiu ele.

— Tenho! — confirmei eu, sorrindo.

Quando respondi, veio à minha cabeça a imagem da noite que dormira com Mónica e isso fez-me ter um sorriso irónico.

— Olha, a tua mãe vai falar. Adeus, porta-te bem!

— Estou, Marco?

— Sim, mãe.

— Está tudo bem com vocês? — indagou a minha mãe.

— Está, está.

— Olha, nós devemos regressar lá para o final do mês. — informou ela.

— Cá vos espero. — respondi eu, em jeito de brincadeira.

— Adeus. Um beijinho para ti e para a Mónica.

— Adeus!

Eu gostei de falar com os meus país. Mas, estava a apressá-los um pouco porque eles estavam a ocupar-me a linha pela qual Rafaela me contactaria.

Desligada a chamada, continuei à espera do telefonema. Esperei mais meia hora até que o telemóvel voltasse a tocar. Desta vez, era mesmo Rafaela.

— Marco, ainda te queres encontrar comigo? — perguntou ela.

— Claro! — reafirmei eu.

— Sabes onde fica a Gulbenkian? — questionou ela.

— Sei! Porquê?

— Vai ter comigo ao anfiteatro no jardim da Fundação. — pediu Rafaela.

Eu concordei, apesar de estranhar o local.

Como já estava pronto, saí imediatamente de casa.

Estava um dia quente, apesar do céu nublado. O ar estava abafado e até parecia asfixiar os transeuntes.

Segui de carro pela Avenida de Roma, virei na Avenida João XXI e prossegui pela Avenida de Berna, onde consegui encontrar lugar para estacionar. Tudo isto não demorou mais de vinte minutos.

Entrei nos jardins da Fundação Gulbenkian e caminhei até ao anfiteatro. À entrada, procurei Rafaela por entre as pessoas que ali se sentavam. Descobri-a na quinta fila a contar de baixo.

Desci as escadas e sentei-me a seu lado.

— Olá, Marco! — disse ela, sorrindo e dando-me simpáticamente um beijo.

— Olá! — disse eu, mais sério e retribuindo o beijo.

Rafaela retirou um papel do casaco deu-mo para a mão, dizendo:

— Toma. É a copia do boletim de inscrição. A partir de agora, estamos inscritos no Campeonato Nacional.

Eu sorri, um pouco forçado, e tentei passar ao assunto que me levara ali. Porém, mais uma vez, a coragem faltava.

No entanto, foi Rafaela quem começou:

— O que é que me querias dizer?

Eu sorri, algo nervoso, passei a mão pela cara e comecei:

— Tenho uma coisa muito importante para te dizer.

— Então diz!

Eu, a cada compasso de respiração, tentava ganhar coragem para falar. Mas como ela ia faltando, passei a outro assunto:

— Gostaste das rosas?

— Gostei! Já não te tinha dito? — respondeu ela.

— Pois já. Tens razão. — confirmei eu, vendo como fora absurda a minha pergunta.

Rafaela esperou que eu continuasse. E perante o meu silêncio, foi ela quem se manifestou:

— Era só isso que me querias dizer?

— Não! — respondi eu, imediatamente, com medo que ela se fosse embora. Rafaela olhou para mim e esperou que eu falasse. Respirei fundo, olhei-a nos olhos e, num ápice... — Estou apaixonado por ti.

Ela ficou surpresa com a minha afirmação e interrogou:

— O quê? O que é que disseste?

Desta vez, mais calmamente, voltei a repetir:

— Rafaela, estou apaixonado por ti. Não consigo deixar de pensar em ti, de estar ao pé de ti. Eu amo-te como nunca amei ninguém na minha vida.

Ela baixou a cabeça, respirou fundo e levantou-se sem dizer nada. Depois, olhou para mim e disse:

— Marco, lembras-te quando nós conversámos na praia?

— Sim!?

— E eu te disse que coisas como o amor e a felicidade, há muito que deixaram de ter importância para mim?

— Sim!

— Nada disso mudou. — informou ela.

— Mas, isso deixou de ter importância para ti porque ainda não as encontraste na pessoa certa. — contrapus eu.

Rafaela, metendo as mãos nos bolsos, contestou:

— E achas que és a pessoa certa?

— Acho!

Ela voltou a sentar-se junto a mim e disse:

— Ouve! Quando li a tua carta, suspeitei que tu sentisses isso por mim. Mas, quando fui ao teu encontro, vi que tu me esperavas com outras pessoas, o que me levou a pensar que teria interpretado mal a carta. Agora vejo que não.

— Eles estavam lá porque... — tentei eu explicar.

No entanto, Rafaela interrompeu-me:

— Isso agora não interessa. Tu és meu amigo e é, unicamente, assim que eu te vejo.

Eu comecei a perceber que o meu amor não era correspondido e entristeci-me.

Rafaela continuou a falar:

— Se o que tu sentes por mim for inultrapassável, eu compreendo se quiseres terminar com a nossa dupla.

— Não! — disse eu, de imediato. Mas mantendo a tristeza — Isso mantém-se como previsto.

— Obrigado, Marco. Não imaginas como isso me deixa feliz. — disse ela.

Feliz não estava eu, perante a constatação daquela triste realidade. De coração partido, preparava-me para a deixar quando ela continuou:

— Quero pedir-te um favor.

— Diz!

— A partir de agora, os nossos encontros têm que se resumir aos treinos e aos jogos. — avisou ela.

— Porquê? — interroguei eu.

Rafaela explicou:

— Como eu te disse, o Tiago pediu-me em casamento e eu resolvi aceitar.

— Mas, tu não o amas! — disse eu, quase gritando de desespero.

— Eu não amo ninguém! Isto é apenas o pagamento de uma dívida. — disse ela.

Ouvi-la dizer aquilo, deixava-me desesperado. A mulher que eu amava ia casar com outro e nem sequer o amava. Tudo se começava a tornar demasiado doloroso para mim, por isso disse-lhe adeus e comecei a subir as escadas.

— Espera! — pediu ela.

Eu, com os olhos húmidos, perguntei:

— O que é?

— Não te vás embora assim. — voltou ela a pedir, com uma voz doce.

— Rafaela, as tuas palavras são como facas as espetarem-se-me no coração. Eu amo-te e sempre te amarei. Só que tu insistes em submeter-te à vontade alheia, em vez de procurares a felicidade. Se queres que sejamos, apenas, colegas de equipa, será isso que passaremos a ser. — afirmei eu, dirigindo-me novamente às escadas.

Rafaela segurou-me pelo braço, virou-me de frente para si e abraçou-me, dizendo:

— Marco, tu és meu amigo. Possívelmente, o melhor que tenho. Por favor, não estragues isso, pois é das poucas coisa boas que eu tenho na vida. Acredita que neste momento, o mais importante para mim, é ter um amigo em quem confio.

Perante tanta emoção, caímos nos braços um do outro sem conseguir conter as lágrimas. Ela beijou-me várias vezes a face e eu fiz-lhe o mesmo.

— Bem, Rafaela. Já chega de emoções fortes, por hoje. — disse eu, sorrindo por entre as lágrimas.

Ela respondeu ao meu sorriso, mas não disse nada

— Queres que te leve a casa? — ofereci-me eu.

— Não, obrigado. Eu ainda fico. — disse ela.

Antes que a deixasse, ela voltou a abraçar-me e, sem que eu esperasse, deu-me um carinhoso beijo na boca.

Findo o inesperado beijo, Rafaela disse:

— Marco, é a única vez que isto acontece. Mas quero que saibas que foste a única pessoa que eu beijei com prazer.

E com aquelas palavras, afastou-se de mim.

Eu, completamente aparvalhado, só tive tempo de perguntar quando nos voltaríamos a encontrar para treinar.

— Amanhã de manhã. — respondeu ela, já a vinte metros de mim.

Regressei a casa com o sabor daquele beijo nos lábios e o pensamento amargurado por não ter sido bem sucedido nos meus planos. Mas, o que me doía ainda mais era o facto de ela se ir entregar a uma pessoa que não amava. E eu não tinha duvidas de que isso a arrastaria para a infelicidade.

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