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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XI

Quando se está apaixonado e vemos que não somos correspondidos, acabamos por tomar atitudes irreflectidas e completamente desapropriadas. Foi o que aconteceu na manhã que precedeu aquele triste dia.

Nos últimos tempos tinha vivido com a ideia de amar e ser amado. Naquele dia, conclui que não era bem assim. Na minha cabeça, tinha cimentado a ideia de que Mónica me amava, devido a toda a sua sedução e a forma como fizemos amor. No entanto, mais uma vez, a realidade mostrou-se muito diferente.

Nessa manhã, antes de sair para treinar com Rafaela, encontrei Mónica na sala a arrumar umas coisas num móvel.

Carente de afecto e julgando encontrá-lo nela, aproximei-me de si e, vindo de trás, abracei a sua cintura.

Mónica sentiu-me, mas não correspondeu aos meus mimos e afastou-me.

Eu não a larguei e comecei a beijá-la no pescoço.

— Marco, pára com isso! — pediu ela, aborrecida.

Eu continuei e interroguei:

— Já não gostas que te beije?

— Não é isso. Já te disse que o que aconteceu na outra noite, não se repetirá. — respondeu ela.

Indiferente à sua voz, continuei a beijá-la e a encaminhá-la para o sofá da sala.

Mónica, completamente farta que a agarrasse, empurrou-me com toda a força, de forma a libertá-la do meu abraço.

— Mete uma coisa na cabeça. — disse ela, irritada. — Entre nós não haverá mais intimidades deste genero.

Com a mente irracional, senti-me enganado e humilhado pela minha prima. E nesse momento, tornei-me mais violento.

— Não quiseste ir para a cama comigo? — questionei eu, furioso. — Que é que aconteceu? Já não te agrado?

Mónica tentou responder, mas antes que o conseguisse fazer, foi vítima de uma violenta estalada, dada por mim, que a atirou para cima do sofá.

Treslocadamente, atirei-me para cima dela e comecei a rasgar-lhe a camisa. Ela gritava para que eu parasse, mas eu estava surdo à sua voz. Mónica tentava afastar-me com as mãos. E eu já metia as minhas dentro da sua saia. Em desespero, a minha prima implorou:

— Por favor, Marco, não me faças isso!

Naquele momento, a minha cabeça parecia ter sido atingida por um relâmpago. Parei, imediatamente, o que estava a fazer e tomei consciência dos meus actos.

Desesperado, abracei-a com toda a força e pedi-lhe, sucessivamente:

— Desculpa, Mónica! Perdoa-me! Não sei o que me passou pela cabeça.

Mas, não obtive resposta. Nem por palavras, nem por gestos. Por isso, levantei-me e fiquei sentado no sofá.

Mónica recuperava daquela cena violenta a que eu a submetera. Depois, levantou-se e ajoelhou-se no sofá. Estava com a camisa num farrapo e as meias rasgadas. Compôs o cabelo que ficara despenteado e limpou algumas lágrimas que eu lhe provocara.

Naquele momento, esperava duas coisas de si. Ou o desprezo completo, ou uma violenta reacção por palavras, repudiando-me pelos meus actos. Em ambos os casos seria uma dura punição.

No entanto, para meu espanto, Mónica abraçou-me com grande afecto e começou a falar, com voz meiga:

— Marco, foste o primeiro homem na minha vida. O que sucedeu entre nós, foi a concretização de um desejo meu, em que tu acabarias com a minha virgindade. Mas, nada mais do que isso. Nós não nos amamos, sentimo-nos apenas mutúamente atraídos. E isso não é suficiente para uma relação duradora. Além disso, tu és apaixonado pela Rafaela...

— Não fales nisso. — interrompi eu.

Mónica sentou-se a meu lado e continuou:

— Seja como for, quero que saibas que te perdoo. E que ambos esqueceremos o que aqui se passou.

Eu sorri e beijei-a na face como agradecimento.

Passando-me a mão no cabelo, ela insistiu:

— Não me queres contar o que se passou, entre ti e a Rafaela, para não quereres que eu fale nela?

Voltei a sorrir, agradeci-lhe a preocupação, mas não quis partilhar com ela aquilo que tanto me transtornava.

Meia hora mais tarde, saí de casa em direcção ao carro, rumo a casa de Rafaela. Havia já algum tempo que a hora, a que diáriamente nos encontrávamos, estava préviamente combinada.

Apesar de não ter qualquer vontade de o fazer, lá arranquei ao seu encontro.

Quando cheguei, Rafaela veio ter comigo e entrou para o carro, cumprimentando-me seguidamente.

Eu não me manifestei, limitando-me a retribuir o beijo.

— Ainda continuas aborrecido? — perguntou ela.

— Não! — disse eu, friamente e arrancando abruptamente com o carro.

Rafaela compreendeu claramente que, o que quer que fosse que tivesse acontecido, eu ainda não a tinha perdoado. Por isso, intímidou-se e não disse mais nada.

Durante a viagem reinou um absoluto silêncio entre nós.

Estava um dia extremamente quente. O Sol brilhava por todo o lado e contranstava com o nosso estado de espírito.

Chegados à praia, a falta de diálogo manteve-se. Mas, enquanto caminhávamos pelo areal, Rafaela interpelou-me:

— É evidente que estás chateado comigo. Porque não me dizes o que te fiz para que eu possa reparar o mal?

Eu não respondi, limitando-me a pensar nas suas palavras.

Ela estava certa. Porém, eu não lhe podia falar no "mal" que ela me fizera, uma vez que ela não tinha culpa de eu me ter alimentado de falsas esperanças.

Convencido de que a minha postura podia levar à rotura do nosso relacionamento, optei por desanuviar o semblante e cessar a punição que lhe estava a impôr. Rafaela percebeu a mudança, mas receou falar mais no assunto, fingindo assim que tudo estava ultrapassado.

Em toda a manhã, não nos entregámos a grandes diálogos. Treinávamos rotineiramente e falávamos quando necessário.

Rafaela era muito tímida, mas não era parva e percebeu que da maneira como as coisas iam, se arriscava a um afastamento da minha pessoa. E se outro sentimento não houvesse, pelo menos precisava de mim para participar nos torneios.

Basicamente, ambos sabiamos o que o outro pensava, só que éramos demasiado tímidos para nos confrontarmos com isso.

Havia um desejo que Rafaela sabia que eu tinha. Era de que entre nós existisse uma verdadeira amizade. Sendo assim, a demonstração da mesma poderia melhorar o nosso relacionamento, segundo ela.

Foi com este pensamento que Rafaela concebeu um plano que pôs em prática no momento em que parei à porta do seu prédio, no regresso.

— Queres subir? — perguntou ela.

O convite deixou-me espantado. No entanto, senti-me tentado a aceitar, só que a timidez fez-me vassilar.

— Anda! — insistiu ela. — És meu amigo e eu gostava que conhecesses a minha casa.

Perante tanta simpatia (para não dizer doçura pois estaria a entrar no campo da imaginação), acabei por aceitar e subi com ela até sua casa.

Não havia duvida que o plano de Rafaela estava a resultar. Eu começava a sentir-me querido pela sua amizade. Só que a vida reserva-nos imprevistos que por vezes se tornam incontornáveis.

Ao entrar em casa, Rafaela convidou-me para a sala, onde poderíamos conversar um pouco. Porém, fomos ambos surpreendidos pela presença de Tiago.

— O que vem a ser isto? — interrogou ele, em tom de posse.

— Tiago, o que fazes aqui? — perguntou ela.

— Vim ver-te! — esclareceu ele. — Os teus país deixaram-me ficar à tua espera. Mas, ainda não me respondeste. O que faz ele aqui?

— O Marco é meu amigo e eu convidei-o a vir cá. — justificou ela.

Rafaela caminhou até junto dele. Enquanto eu fiquei a ver o que acontecia sem esboçar qualquer reacção. Tudo aquilo me apanhara tão desprevinido, como o convite de Rafaela.

Ambos falaram em voz baixa, mas eu consegui perceber o que diziam.

— Tiago, tu andas a controlar-me? — perguntou ela.

— Não! Mas, ao que parece, devia. — disse ele.

— Ele é só um amigo. — explicou Rafaela.

— Isso não me interessa. Manda-o embora! — ordenou Tiago.

Rafaela aproximou-se de mim e, com muita delicadeza, pediu-me para que me fosse embora.

Eu concordei, dei-lhe um beijo de despedida e segui para a porta. Tiago, olhando para mim no momento em que saia, disse:

— A Rafaela é minha namorada, por isso vê se depois dos torneios desapareces.

Ao ouvi-lo, tive vontade de voltar a entrar e fazê-lo pagar as palavras com uns valentes socos. Mas, Rafaela olhou para mim e o seu olhar fragilizado pedia para que eu abandonasse o local.

Desci as escadas amargurado, pois via confirmadas as minhas suspeitas. E ainda por cima, de uma forma tão fria e frontal.

Horas mais tarde, em casa, a instabilidade sentimental apoderou-se de mim. Tão depressa amava Rafaela, como a odiava por me fazer passar por tudo aquilo. Também me odiava a mim, por me ter apaixonado pela mulher errada. Parecia ser a história da minha vida.

Estava tão confuso que precisava de desabafar com alguém. Foi então que desci até à casa de Bento, claro, o meu grande amigo que me aconselhava nas horas difíceis.

Mais uma vez, a sua sala servia de confessionário. Durante uma a duas horas, contei-lhe as situações passadas com Rafaela.

— Quase que me arrependo de te ter incitado a conquistá-la. — disse Bento.

— Tu não tens culpa. — contrapus eu.

— Porém, permite-me que te diga uma coisa. — continuou ele. — Parece que ela te concidera um amigo, verdade?

— Penso que sim. — concordei eu, sem perceber onde Bento queria chegar.

— Pois bem. Se queres um conselho, eu acho que se a amas, deves lutar por ela. — sugeriu ele. — Porque não transformar uma bela amizade, num grande amor?

Bento podia não estar certo, mas o facto, é que as suas palavras me deram a motivação que eu perdera. Assim, decidi continuar com os meus planos para conquistar o amor de Rafaela, tendo consciência que passaria a ter um inimigo nessa minha luta. Mas, isso não me desmotivava. Tudo o que é bom na vida, só à custa de muito esforço se consegue. E é isso que o faz saber melhor.

No dia que se seguiu, saí de casa logo de manhã e desloquei-me até uma loja de flores, na Avenida de Roma.

Lá dentro, fui interpelado por uma menina muito simpatica:

— Deseja alguma coisa?

— Sim! — respondi eu. — Queria saber o preço das rosas.

Não me lembro, ao certo, o valor que ela me disse. Mas, sei que concordei com ele.

— Fazem entregas ao domicílio? — questionei eu.

— Sim! — confirmou ela. — Basta deixar-nos a morada e dizer quando quer que a entrega seja feita.

As condições eram boas e o serviço parecia não ser menos, por isso, combinei que passaria lá no dia seguinte para tratar de tudo. Como Rafaela tinha telefonado, antes de eu sair, a combinar o treino para a tarde, eu pude tratar deste assunto um pouco mais cedo.

Após o almoço, fui buscar Rafaela para irmos treinar. Estava uma tarde maravilhosa e o calor abundava.

Quando nos encontrámos, cumprimentámo-nos e Rafaela disse:

— Devo-te um pedido de desculpa!

— Porquê? — perguntei eu, entrando no carro.

Rafaela reproduziu o meu movimento e continuou:

— A cena de ontem... Com o meu primo...

— Não te preocupes! — interrompi eu, sorrindo. — Já nem me lembro.

Rafaela não prosseguiu o assunto, mudando-o de seguida.

Fomos o resto do caminho a falar sobre volei e sobre os torneios.

No entanto, sentia que Rafaela estava constrangida a encarar-me olhos nos olhos. Parecia que transportava uma mágoa profunda. Sempre que falava, a voz tremia levemente. E quando ouvia, o seu olhar estava distante como se procurasse, no horizonte, a resposta para os seus problemas.

Mais tarde, na praia, treinava completamente desconcentrada e falhava a bola demasiadas vezes. Porém, eu não disse nada acerca do seu estranho estado. Talvez fosse a porcaria da timidez que me conservava as palavras na boca.

A meio do treino, Rafaela saltou para apanhar a bola e acabou por torcer o pé, na queda. Ficou deitada na areia a queixar-se do tornozelo.

— Estás bem? — perguntei eu, preocupado.

— Torci o pé! — respondeu ela.

Eu ajoelhei-me perto dela e segurei-lhe o pé, massajando-o para parar a dor. Não era nada de grave.

Quando a dor passou, ajudei-a a levantar-se. Nesse momento, Rafaela abraçou-se a mim, como se tivesse medo que fugisse, e começou a chorar.

Eu abracei-a com ternura e perguntei:

— Que se passa, Rafaela? Ainda te doi o pé?

Rafaela continuava a chorar e sussurrava:

— Marco, promete-me que serás sempre meu amigo! Jura que não te afastarás de mim, quando acabar a competição.

As suas palavras surpreendiam-me. Mas mesmo assim, respondi:

— Calma, Rafaela! Eu sou e sempre serei teu amigo.

Disse aquilo com a vontade de lhe confessar que a amava, mas não tive coragem para o fazer.

Rafaela não parou de chorar. No entanto, acalmou-se progressivamente.

O treino acabou alí. Mas, eu continuava curioso e indaguei:

— Rafaela, queres conversar um pouco?

— Não, deixa estar! — disse ela. — Eu já estou melhor.

Eu aproximei-me dela, coloquei-lhe a mão no ombro e disse:

— Chorar assim, não é natural. Não me queres contar o que se passou para ficares assim?

— É melhor não! — respondeu ela.

— Será que eu não sou tão teu amigo como pensava? — questionei eu.

— Não é isso...

Perante tanta insistência, Rafaela viu que podia confiar em mim e decidiu contar-me o que se passava. Daria, assim, uma prova de confiança na minha amizade.

Caminhámos até à esplanada da praia, sentámo-nos numas cadeiras, bebemos uma cola e ela começou a relatar o que a afectava:

— Para melhor compreenderes, vou contar-te tudo desde o início. Antes de eu nascer, os meus pais viviam em Angola, onde tinham casa e um estabelecimento que lhes dava o rendimento necessário à sua vida. Poucos anos depois de eu nascer, a guerra obrigou-os a fugir do país. Só que, dias antes de partirem, foram roubados nas pilhagens populares e ficaram sem meios para fugir. O que nos valeu, nessa altura, foram os meus tios que estavam cá e que nos enviaram o dinheiro para podermos fugir. Desde essa altura, os meus pais ficaram com uma enorme dívida de gratidão para com eles. ─ Fez uma pausa. ─ Agora, esta parte vai parecer-te estranha, mas é a mais pura verdade. — Deu um golo na cola. ─ Quando eu tinha dezassete anos, o meu primo Tiago que é filho deles, apaixonou-se por mim e quis namorar comigo. Eu não sentia nada por ele e recusei. Só que os meus pais obrigaram-me a aceitar, sendo o nosso casamento, o pagamento da dívida. Eu tentei demovê-los, mas não tive sucesso. Senti-me como as jovens da idade média obrigadas a casar com quem não queriam. Perante isto, tive que aceitar namorar com o Tiago. A partir dessa altura, tornei-me tímida, insociável, antipática, distante, etc... Tudo para evitar que alguém se apaixonasse por mim. O Tiago, sempre que queria algo de mim, usava os pais para pressionarem os meus, que por sua vez me "aconselhavam" a ceder. Durante o namoro isso aconteceu no primeiro beijo, nas caricias e por aí fora... Tempos mais tarde, a minha mãe veio falar comigo e disse-me que se o Tiago quisesse fazer amor comigo, eu deveria aceitar e ser completamente submissa aos seus intentos. Isso acabou por acontecer dias mais tarde. Foi a minha primeira vez e foi das piores recordações da minha vida. Nesse dia, disse-lhe que só o voltaríamos a fazer quando nos casássemos. Ele ainda se queixou aos pais, mas eu não mudei de opinião. Desde essa altura que coisas como o amor, a beleza e a felicidade deixaram de me interessar. Continuamos a namorar, mas temos um relacionamento péssimo.

Apesar de muito atento ao seu relato, não me contive a interropê-la:

— Mas, isso não foi a causa daquele choro, pois não?

— Não! — continuou ela. — Ontem, quando viste o Tiago em minha casa, a sua presença tinha um motivo. Ele foi pedir-me em casamento. Eu não tive coragem para lhe dizer que não, mas disse-o aos meus pais quando eles me falaram no assunto. Estava decidida a fazer valer a minha vontade. Porém, os meus pais ameaçaram por-me fora de casa, se eu recusar o pedido de casamento. Tudo isto me tem acompanhado todo o dia, daí a desconcentração que tu provavelmente terás reparado. E quando me magoei, a dor conjugada à tristeza fez-me chorar...

Mais uma vez, Rafaela voltou a emocionar-se e os seus olhos verteram as lágrimas da sua tristeza.

Eu com o coração dilacerado, levantei-me e abracei-a, dizendo:

— Rafaela, eu amo... Eu sou teu amigo e podes confiar em mim, sempre que precisares de um amigo.

Por momentos, quase lhe dizia o que sentia, mas a coragem voltava a faltar.

Quando a deixei em casa, ela fez questão de se despedir de mim com um abraço e alguns beijos na face que ia dando enquanto me agradecia a paciência que tivera consigo. Confesso que trocava de boa vontade, aqueles quatro ou cinco beijos por um único nos seus lábios.

Não tenho duvidas de que, a partir daquele dia, o nosso relacionamento mudou definitivamente. Começava a edificar-se uma grande amizade. Até porque, só entre amigos se confessa o que ela confessou.

Já em casa, sentia-me feliz por isso. Mas, quando pensava na história de Rafaela e no que ela ainda estava a sofrer, a tristeza apoderou-se de mim.

No dia seguinte, o treino decorreu com normalidade. O único facto diferente, é que havia mais gente na praia, por ser Sábado. Quando me despedi de Rafaela, nesse dia, ela disse-me que os treinos iam parar por uns tempos, combinando o próximo para Quinta-Feira e não me dando tempo para perguntar porquê.
 

À tarde, estava eu na sala a ver televisão com Mónica, quando a campainha da porta soou. Eu fui ver quem era. Quando abri, vi o Bento que vinha à minha procura.

— Então, como vai isso? — perguntava ele, sorridente.

— Bem! E tu? — respondi eu.

— Cá se vai indo. — disse ele. — Olha, queres vir jogar futebol com o pessoal?

— Pode ser. — concordei eu.

— Já combinei com os outros. Encontramo-nos lá todos. — informou Bento.

— Tens cinco minutos para conversarmos? — interroguei eu, interrompendo o seu assunto.

— Tenho! — disse ele, seguindo-me até à sala.

Quando entrámos na sala, Bento e Mónica cumprimentaram-se. Eu pedi à minha prima que se retirasse para que nós pudessemos conversar.

Ela acatou o meu pedido, mas olhou para mim como se me quisesse despedaçar.

Sentados no sofá, contei a Bento o tipo de relacionamento que Rafaela tinha com Tiago, ocultando-lhe as partes mais intimas.

— Achas que devo continuar a...? — questionei eu, sem saber que palavra usar.

— Acho! — respondeu, perentoriamente, Bento.

— Mas eles vão ficar noivos. — referi eu.

— Que interessa? Ela não o ama! E se tu apareceres na corrida, ela pode preferir-te. Quem te diz a ti que ela também não te ama? — contrapôs ele.

— Achas? — duvidei eu.

— Se não achasse, não te estava a dizer. — respondeu ele, de imediato.

Bento tinha o dom de me motivar com as suas palavras.

Depois de combinar a hora a que chegaria ao campo, ele deixou a minha casa e eu preparei-me para sair. Enquanto me vestia, Mónica veio ao meu quarto e perguntou:

— Vais a algum lado?

— Vou jogar futebol. — informei eu.

— Posso ir contigo? — interrogou ela.

— Também queres jogar? — indaguei eu, sorrindo.

— Claro que não! — respondeu ela, aborrecida. — Só vou assistir. É melhor do que ficar aqui sozinha.

— Está bem. — concordei eu.

Poucos minutos mais tarde, saímos de casa rumo ao Estádio 1º de Maio. Mas antes, fiz um pequeno desvio até à loja das flores, onde fui ultimar os pormenores para a surpresa a Rafaela. Deixei a morada, a carta que escrevera nessa noite e, obviamente, o pagamento. Mónica, muito curiosa, quis saber o que eu fora fazer. Porém, eu ocultei-lhe tudo.

Quando cheguei ao complexo desportivo, já todos me esperavam para começar o jogo. Bento, Cajó, Victor e Humberto aqueciam no campo, enquanto Carlinhos (lesionado devido às agressões já relatadas), Madalena e Helena assistiam do lado de fora.

Mónica foi sentar-se junto de Helena. Ao vê-la, Humberto ficou muito contente, mas ela não lhe ligou.

Eu entrei no campo e cumprimentei todos.

— Então Humberto, parece que hoje vais ser titular. — disse eu na brincadeira.

Humberto todo satisfeito, disse:

— É! Há males que vêm por bem. O Carlinhos ainda não está totalmente bem, por isso jogo eu.

— Vê é se jogas bem. — avisei eu.

— Jogo, com certeza. — respondeu ele. — E com a tua prima a assistir, vou de certeza fazer o melhor jogo da minha vida.

Eu não disse nada, mas pensei na sua infelicidade quando visse que Mónica nem reparava nele.

Do outro lado do campo, estava uma equipa de futebol vinda de uma firma da construção civil. Tinham todos mais aspecto de lutadores do que de jogadores de futebol.

Do lado de fora, estava a claque de apoio, formada pelas mulheres e pelos filhos. Os suplentes eram em igual número dos titulares e vinham todos equipados a rigor.

Com tanto profissionalismo, comecei a pensar em qual seriam as nossas hipóteses. E antes do jogo começar, fui falar com o Bento:

— Ouve lá! Onde é que encontraste estes tipos?

— São pedreiros nas obras. — informou ele. — Não jogam nada.

Bento estava confiante na vitória e convenceu-me do mesmo. Porém, o desenrolar do jogo mostraria que estávamos errados.

O jogo começou. Ao primeiro remate do adversário, ficámos imediatamente em desvantagem.

— Ó Bento mexe-te! — gritava Carlinhos, cá de fora.

Bento respondeu-lhe com um palavrão que eu me recuso a reproduzir.

O jogo continuava. Humberto, cada vez que tocava na bola, punha-se a fantasiar e depois perdia-a, quando via que Mónica nem olhava para ele.

Perda de bola e mais um golo para os outros.

O Cajó desmarcava-se, mas deixava metade da atenção na minha prima que respondia aos seus olhares com outros não menos provocadores. Em resultado disso, depois de eu fintar dois adversários, passei a bola a Cajó e ele só deu por ela, quando esta já morava nas mãos do guarda-redes.

O intervalo chegava para nossa felicidade, pois o resultado já ia em sete golos sem resposta.

— Bento! Não jogavam nada, não era? — interroguei eu, ironicamente.

— Que queres? Uma pessoa também não adivinha. E além disso, é com os bons que se aprende. — justificou Bento.

— Teorias. — contrapôs Carlinhos, indignado com o resultado.

Victor não falava, pois estava muito cansado e não parava de beber água.

Cajó afastou-se de nós e foi conversar com Mónica. Não consegui ouvir o que diziam, devido à distância e ao barulho.

A minha atenção foi interrompida pelas palavras de Carlinhos:

— Eu vou entrar no jogo.

— Vê lá se consegues. — avisei eu, preocupado com a sua saúde.

— Posso, posso. Sempre é melhor do que ver esta miséria cá de fora. — explicou ele, continuando muito indignado.

— Miséria? — questionou Bento.

— Sim, pá. — confirmou Carlinhos. — Tu estás um frango...

— Se quiseres, vai tu à baliza. — respondeu-lhe ele.

Carlinhos continuou com as críticas:

— ...O Humberto parece que está no circo. Veio fazer malabarismo.

Este nem lhe ligou. Estava completamente absorvido na visão de Mónica com Cajó.

— O Cajó está na lua.

Também daqui não ouviu resposta.

— E o Victor...

— Se quiseres, podes entrar no meu lugar que eu estou estoirado. — disse Victor, inundado em suor.

— Então e eu? — perguntei, à espera das suas críticas.

Carlinhos fez uma careta e disse:

— Tu escapas...

O intervalo terminava e nós regressámos ao campo. A única alteração era o Carlinhos a jogar no lugar de Victor.

Na segunda parte, a nossa capacidade não aumentou, chegando mesmo a diminuir com o passar do tempo.

Cajó e Humberto continuavam de espírito ausente. Eu interceptava os lances de perigo que conseguia. Carlinhos lançava a bola em ataques que se perdiam nos pés de Cajó. E Bento nada podia fazer, em muitos dos remates dos nossos adversários.

Com tudo isto, o jogo terminou com o humilhante resultado de dezasseis a zero.

No fim, cumprimentámos os nossos adversários pela sua vitória.

O mais inconformado era Carlinhos que insistia em que se tivesse jogado, de início, não teríamos perdido.

Os primeiros a despedirem-se foram Victor e Helena. Pois tinham alguma pressa em chegar a casa.

Nós ainda ficámos, um pouco, a conversar. Eu, Carlinhos e Bento discutiamos alguns lances do jogo. Até parecia que queriamos justificar-nos da pesada derrota.

Cajó continuava a conversar com Mónica. Numa das vezes em que observei que estavam a conversar, reparei numa troca de papeis entre eles.

Humberto e Madalena estavam sentados num dos bancos, perto do campo. Ele contemplava a minha prima com o olhar, enquanto a esposa de Bento lia uma revista de moda.

Alguns minutos mais tarde, também Bento e Madalena decidiram partir. Com eles, seguiram Humberto e Carlinhos que aproveitaram a boleia que o outro lhes oferecera. Nós também regressámos a casa. A caravana composta pelo meu carro e o de Bento partiu rumo à Avenida do Brasil.

Comigo seguia Mónica, com quem ia conversando.

— Estavas muito entretida com o nosso primo. — afirmei eu, esperando uma reacção.

— Ele é muito simpático! — disse ela.

— Só simpático? — indaguei eu.

Mónica não me respondeu.

Após breves momentos de silêncio, disse:

— Convidou-me para sair com ele, um dia destes.

— Cuidado! — avisei eu. — Ele é um mulherengo.

Mónica voltou a não me responder.

No restante percurso, mudámos de assunto e falámos de futilidades.

Nessa noite, Mónica e eu fomos, a convite dela, até ao teatro ver uma peça de um encenador português, inspirada num autor francês. Muito sinceramente, não me lembro de pormenores, até porque nunca fui muito adepto de teatro. Quem gostou imenso foi Mónica que no regresso a casa, traçou rasgados elogios aos intervenientes.

Quando chegámos a casa, a minha cabeça já só pensava no dia seguinte, aquele que marcava o aniversário de Rafaela.

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