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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO XXXVIII

No dia seguinte, levei Rafaela à clinica para fazer os exames que o médico lhe receitara. A consulta estava marcada para as 15h30. E nós chegámos pontualmente.

Ao chegarmos à recepção, a recepcionista reconheceu-nos imediatamente e avisou o médico, da nossa presença.

Pleno de gentileza, o Dr. Aurélio veio ao nosso encontro.

— Então, como está a minha paciente favorita? — perguntou ele.

— Desejosa de largar esta cadeira. — disse Rafaela.

— Calma. — aconselhou ele, enquanto me apertava a mão.

Rafaela foi conduzida por ele, para o interior da sala de observações, onde o seu estado ia ser reavaliado, tal como o seu plano de recuperação.

— Venha também. — convidou o médico. — A menina não se importa que ele a acompanhe, pois não? — perguntou ele a Rafaela, num tom brincalhão.

Rafaela estendeu-me a mão e disse:

— Tenho muito gosto que ele esteja por perto.

Entrámos numa sala que parecia um ginásio. Estava repleta de aparelhos utilizados nos exercicios de recuperação de deficiencias fisicas.

— Marco! Espere aqui, um pouco. — pediu o médico. — Vou levar a Rafaela para fazer umas radiografias e já voltamos.

Eu assenti com a cabeça.

O Dr. Aurélio conduziu Rafaela por outra porta que continha um letreiro, a dizer "raio x".

Sentei-me numa cadeira de ferro, arrumada perto da parede, e esperei cerca de quinze minutos. Findo esse tempo, vi-os regressarem pela mesma porta.

O médico empurrava a cadeira, enquanto Rafaela abotoava a camisa. Possívelmente estivera a ser radiografada à coluna, para se ter a certeza do desaparecimento do hematoma.

O Dr. Aurélio deixou Rafaela a meu lado. E regressou novamente à sala das radiografias.

— Então? — interroguei eu.

— O doutor fez-me duas radiografias à coluna. — informou ela. — Fiquei com as costas geladas, por causa da chapa.

Eu sorri com o seu protesto.

Cinco minutos depois, o Dr. Aurélio retornou ao ginásio. Trazia uma pasta na mão e um sorriso nos lábios.

— Então doutor? — indagou Rafaela, ansiosa.

— O hematoma desapareceu. — comunicou ele.

Eu abracei Rafaela, felicitando-a por aquela maravilhosa notícia.

— Calma! — aconselhou o médico, num tom paternal. — Agora, a menina vai fazer uns exercicios para eu avaliar a sua força muscular nas pernas.

Rafaela prontificou-se, de imediato, a fazer os exercicios.

O Dr. Aurélio levou-a na cadeira, para uma passadeira de borracha, constituida por um corrimão de cada lado. A seguir, ajudou Rafaela a pôr-se em pé e pediu-lhe que se apoiasse neles. Retirou a cadeira e pediu-me para que eu me colocasse na outra extremidade da passadeira.

— Vá! Agora caminhe até ao seu namorado. — disse ele.

Rafaela ficou parada, tentando consciencializar-se da força que lhe restava nas pernas. Depois, começou a dar pequenos passos, muito devagarinho.

— Vá, coragem. — incentivou o médico.

Eu fiquei parado a observar, atentamente, os seus movimentos.

O Dr. Aurélio acompanhava-a do lado de fora da passadeira. E quando Rafaela deu o quarto passo, ele teve de a segurar, pois ela cedera ao esforço.

Rafaela sentiu-se como se tivesse fracassado e começou a chorar.

— Calma, Rafaela. — reconfortou o médico. — É natural que não tenhas força suficiente para caminhadas longas. Mas isto é um começo.

Eu aproximei-me para ajudar nos confortos.

O Dr. Aurélio, cheio de optimismo, pediu-me para ocupar a posição inicial e levou Rafaela a repetir o exercício.

O desgaste de Rafaela, devia-se ao tempo que os seus membros inferiores estiveram parados. Fisicamente, estava recuperada. Agora era necessário trabalhar os músculos das pernas para as habituar a caminhar como antes.

O médico obrigou-a a repetir várias vezes o exercício. A queda começava tornar-se um factor psicológico. Rafaela concebera a ideia de que não conseguia andar, no seu subconsciente, e isso estava a tornar-se um obstáculo na sua recuperação. Até porque a nivel fisico, os seus músculos estavam bem, devido à sua actividade desportiva.

O médico continuou a insistir. A cada vez seguinte, Rafaela conseguia ir mais longe. E isso funcionou como motivação para continuar.

Ao fim de inumeras tentativas, Rafaela conseguiu chegar até mim, pelos seus próprios pés, caindo-me nos braços e a chorar por ter conseguido. Mas mesmo agarrada a mim, não deixou de se apoiar nos seus membros.

O Dr. Aurélio ficou satisfeito com os resultados. E acabou por substituir a cadeira de rodas por um par de muletas.

— Deves usá-las até à próxima consulta. — avisou ele. — Vais continuar com estes exercícios, durante mais uma semana e, depois, fazemos nova avaliação.

Rafaela assentiu com a cabeça e agradeceu a atenção do médico.

— É o meu trabalho. — lembrou ele. — É o meu trabalho.

Algum tempo após as recomendações do médico, deixámos a clinica. Rafaela caminhava apoiada nas muletas, satisfeita por já não andar na cadeira de rodas.

Auxiliei-a a entrar no carro, coloquei as muletas no banco traseiro e entrei para o meu lugar. Levei Rafaela para casa, uma vez que ela declinara o meu convite para irmos dar um passeio.

No entanto, quando cheguei à sua morada, Rafaela pediu-me para continuar e não parar.

— Que aconteceu? — perguntei eu, estranhando a sua reacção.

— Estava ali o carro dos pais do Tiago. — disse ela. — Devem ter ido visitar os meus pais. Por favor, Marco, leva-me para bem longe daqui. Não quero encontrar-me com aquela gente.

Rafaela não perdoava o que eles lhe fizeram, querendo que ela casasse com o primo. Ainda mais, depois das consequências que teve a sua recusa. Já que não podia castigar o filho, que se suicidara, direccionava o ódio para os pais dele.

— Vamos até Belém. — sugeri eu.

Rafaela concordou em silêncio. Ficara abalada pela presença dos tios em sua casa. Irritava-a, profundamente, o facto de os pais continuarem a recebê-los no seu domicílio.

No resto dessa tarde, permanecemos em Belém, junto ao rio. Ficámos a trocar beijos e carinhos, ouvindo o rio a passar vagarosamente, com uma ligeira ondulação devido ao vento. Contemplámos o pôr-do-sol, encostados aos farois do carro e de mãos dadas.

Só ao anoitecer é que regressámos a casa. Cerca de duas horas a fazer tempo para que Rafaela não encontrasse os tios em sua casa.

Mas, infelizmente, quando voltei a parar junto do prédio de Rafaela, o carro dos seus tios continuava lá. Notei no rosto de Rafaela o aborrecimento que sentia.

— Queres jantar em minha casa? — convidei eu.

— Não. Deixa estar. — recusou ela, percebendo a minha intensão de a privar daquele aborrecimento. — Não os suporto, mas não vou fugir deles.

Rafaela despediu-se de mim com um prolongado beijo.

— Até amanhã!

— Até amanhã!

Rafaela saiu do carro e seguiu para sua casa, apoiada nas duas muletas.

Depois de fechar a porta do prédio, Rafaela seguiu para o elevador. E eu parti, retornando a casa.

Após o pequeno trajecto que separava as nossas residências, estacionei o carro a cinquenta metros de casa. Foi o único lugar que encontrei. Tranquei o carro, liguei o alarme e encaminhei-me para o meu prédio.

Cheguei à porta, meti a chave na fechadura e abri a porta do prédio. A seguir, fechei-a, acendi a luz da escada e comecei a subir.

Pela escada, ecoavam sons vindos dos vários apartamento. Até se ouviam os carros que atravessavam a avenida.

Subi as escadas até alcançar o meu andar. Meti a segunda chave à porta e abri-a.

Mal a fechei, apareceu a minha mãe.

— Ainda bem que chegaste. — disse ela, preocupada. — Está ai o Humberto. Há uma hora que te espera. Parece que quer falar contigo.

Eu estranhei aquela visita repentina. Ainda para mais, com a pressa em querer falar comigo. Comecei a ficar preocupado, pois poderia ser um assunto grave.

O meu pai já tinha chegado. Estava no quarto, a passar os olhos pelas notícias do jornal. Era um dos seus passatempos, ir para o quarto, sentar-se na poltrona em frente à cama e ler o jornal do dia, à luz de um cadeeiro alto que o iluminava por cima da cabeça.

A minha prima estava na cozinha, a ajudar a minha mãe. Ultimamente, disponibilizava-se cada vez mais para ajudar. Sentia que era uma forma de pagar tudo o que os meus pais faziam por ela. Muitas vezes, era a minha mãe quem a mandava descansar.

Quando cheguei à sala, encontrei Humberto sentado no sofá. Ao ver-me, levantou-se com prontidão.

— Olá! — cumprimentei eu, estendendo-lhe a mão.

— Olá! — retribuiu ele, num tom seco e ignorando a minha mão.

Eu percebi que algo se passava. Algo que eu desconhecia e que estava a produzir aquela antipatia em Humberto.

— Senta-te. — convidei eu.

— Estou bem assim. — disse ele, mantendo o tom rude.

Como não conseguia perceber o porquê da sua atitude, fui directo ao assunto:

— Que te tráz por cá?

Humberto deu dois passos para trás. Hesitou em começar a falar. Porém, lá começou:

— O Cajó telefonou-me ontem à noite.

A nomeação de Cajó na frase, deixou-me apreensivo.

— Telefonou-me a perguntar se eu sabia que tu andavas a "comer" a minha namorada.

— Isso é ment...

Não tive tempo para acabar. Humberto pregou-me um soco na cara. Um acto de quem tentava vingar a sua honra.

Eu fui projectado para cima do sofá.

Humberto ficou a olhar para mim, mantendo o ar severo, mas sem saber o que fazer, a seguir. Parecia que alguém o instigara a fazer aquilo e não lhe dissera o que fazer depois.

Percebendo que Humberto fora enganado por Cajó, tentei levar as coisas com calma. Verifiquei que estragos o soco fizera. Quase nada, uma dor no queixo, simplesmente. De facto, Humberto não era grande pugilista.

Levantei-me do sofá e tentei dialogar. Mas, Humberto tentou repetir a agressão. Como eu estava prevenido, desviei-me e atirei-o para o chão.

A queda derrubou um prato e provocou algum barulho. Devido a isso, a minha mãe veio ver o que se passava.

— Não é nada. — disse eu. — Estamos a conversar.

A minha mãe achou, por bem, não se intrometer e regressou à cozinha.

Eu estendi a mão a Humberto, para o auxiliar a levantar do chão, e perguntei:

— Será que podemos conversar como gente civilizada?

Humberto aceitou a ajuda, mas não quis conversar.

— Vou-me embora. — avisou ele.

— Não! Vais ter que ouvir a verdade. — ordenei eu, travando-lhe o caminho.

— Que verdade? — interrogou Humberto.

Eu insisti para que ele se sentasse. E desta vez, Humberto aceitou.

Eu sentei-me na poltrona da sala e comecei a explicar-lhe:

— Eu, ontem à tarde, encontrei a Liliana...

— Então eu tinha razão. — interrompeu ele.

— Não, não tens. — disse eu. E olhando-o com irritação, perguntei. — Será que posso acabar?

Humberto tremeu com o meu tom de voz e permaneceu calado.

— Encontrei-a e perguntei-lhe se ela queria tomar um café. — continuei eu. — Claro que o fizemos como amigos. Ó Humberto, achas-me capaz de te roubar a namorada? Logo agora que estou tão feliz com a Rafaela.

Humberto não se manifestou, mas apresentava alguns indicios de arrependimento.

Eu prossegui o relato:

— Fomos tomar café ao Monumental. E quando nos preparávamos para vir embora, apareceu o Cajó, acompanhado com outra mulher. Tu sabes que desde aquilo... entre ele e a Mónica, eu deixei de lhe falar. Mas o tipo apareceu tão insensivel ao que fizera que eu não me contive e contei à mulher, o que ele fizera a Mónica.

Humberto já concordava com a cabeça.

— Penso que lhe devo ter estragado o arranjinho. — concluí eu. — E por isso ele decidiu vingar-se, inventando essas infamias contra mim.

— É um filho da puta. — protestou Humberto. — E enganou-me.

Eu levantei-me e estendi-lhe a mão, dizendo:

— Vamos esquecer o que aconteceu.

Humberto levantou-se e apertou a minha mão, não deixando de se penetenciar por ter actuado daquela maneira.

Tudo terminou com um abraço fraternal.

— Quando encontrar o Cajó, dou-lhe a resposta. — bramou Humberto.

— Esquece isso. — aconselhei eu.

— Não posso. — insistiu Humberto. — Por culpa dele, ia estragando a nossa amizade.

— Não penses nisso. O importante é que o bom-senso pervaleceu. — argumentei eu.

Humberto acabou por concordar comigo. E mais uma vez, lamentou a cena que fizera.

— Vê lá, não vás contar isto à Liliana. — avisei eu. — Com certeza que não queres que ela te tome por parvo.

— Claro que não. — concordou ele, firmemente. — Já chega o que fiz aqui.

— Já nem me lembro. — disse eu. E convidei. — Queres cá jantar?

Humberto aceitou o convite e ficou a acompanhar-nos na refeição. Mas a questão com Cajó não ficou esquecida no meu pensamento.

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