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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO VI

No dia que se seguiu, levantei-me cedo e fui com o carro à oficina para que lhe fizessem a revisão. Desloquei-me a uma oficina que ficava numa rua, ao cimo da Avenida do Brasil. Escolhi-a por ter um bom serviço e pessoal muito competente.

Quando saí de casa, já os meus pais tinham saído. Enquanto a minha prima continuava a dormir.

Como conhecia os mecânicos da oficina, não demorei muito tempo a combinar as coisas necessárias. O carro ficaria lá até Sexta-Feira, tempo mínimo para arranjarem tudo. Após as combinações com o mecânico, deixei a oficina e regressei a pé para casa. No momento em que chegava à porta do prédio, o telemóvel tocou e eu atendi. Era o meu pai.

— Marco! Eu e a tua mãe não vamos almoçar a casa. — informou ele.

— Está bem! — disse eu.

— Cuida da tua prima! — recomendou ele, antes de se despedir.

Desligado o telemóvel, subi as escadas e entrei em casa. Na sala, Mónica estava sentada no sofá, a ler revistas femininas. Tinha acabado de tomar banho, pois tinha o cabelo húmido e o seu corpo libertava um agradável aroma de maçã.

Ao ver-me, Mónica levantou-se e cumprimentou-me com dois beijos.

— Os meus pais não vêm almoçar a casa. — informei eu.

— Vais tu fazer o almoço? — perguntou ela, sorrindo.

— Não! Vou levar-te a almoçar fora. Queres? — convidei eu.

— Oui! — aceitou ela, imediatamente. — Vou vestir-me e depois podemos ir.

Mónica foi para o seu quarto, mudar de roupa. E eu fui ao meu, buscar dinheiro e deixar os papeis que trouxera da oficina.

Quinze minutos mais tarde, Mónica chamou-me, avisando-me que estava pronta. Mais uma vez, a minha prima estava lindíssima. Vestia umas calças de ganga preta, muito justas, e um casaco igualmente de ganga preta, desapertado sobre um top branco.

Como estava sem carro, fomos de transportes públicos até Alcântara.

Durante o trajecto, reparei nos olhares lânguidos que muitos homens lançavam a Mónica. Porém, ela ignorava-os.

Levei-a a almoçar à Doca. Era um sítio caro, mas como ela queria conhecer o local, não olhei as despesas, pois apresentaria a conta aos meus pais. Almoçámos na esplanada do café, à entrada do local. Eu pedi um bife de peru com batatas fritas e Mónica escolheu uma salada de alface com cenoura, tomate, pimentos e ovo cozido.

À hora de almoço não havia muita gente por ali. Por isso, Mónica não conseguia ter uma verdadeira perspectiva do ambiente.

— Isto costuma ser mais movimentado à noite. — disse eu, levando o garfo ao prato.

— Podes trazer-me cá, uma noite, para eu ver? — perguntou ela, depois de mastigar o pedaço de salada que estava a comer.

— Claro! — concordei eu, seguidamente.

Ficámos ali perto de uma hora. Após a refeição, tomámos um café e continuámos a conversar.

— Quando é que regressas a Bordeaux? — perguntei eu.

— No fim de Setembro. — informou ela.

Mónica olhou para mim e, na brincadeira, disse:

— Vais ter que me aturar, dois meses e meio.

Eu sorri com a sua frase, mas não disse nada. Contrariamente ao que estava à espera, a sua companhia agradava-me.

Já perto da altura de nos irmos embora, o Sol começou a desaparecer e o céu a ficar nublado.

— Queres ir a Belém? — perguntei eu, enquanto depositava o dinheiro na mão do empregado.

— Oui! — respondeu Mónica.

— Vamos ver é se não chove! — afirmei eu, olhando para as nuvens.

Depois de passado o recibo, Mónica e eu deixámos o local e dirigimo-nos à paragem do eléctrico que nos levaria a Belém. Seguimos a carreira do 15 até à Rua de Belém.

Por todo o lado por onde passávamos, Mónica concentrava as atenções sobre si, principalmente, os olhares masculinos. Com os seus dezanove anos, ela era possuidora de uma beleza espantosa. Andar a seu lado, aumentava o meu ego. Ela era atraente e sedutora. Mas, não despertava em mim, as mesmas sensações que Rafaela.

Comecei por a levar a ver o Museu dos Coches. Mónica ficou maravilhada com a beleza dos coches.

Quando deixámos o Museu, o Sol já voltara a brilhar. Sendo assim, resolvi levá-la ao Jardim Botânico, onde o encanto das flores atraiu por completo a minha prima.

— Já vi que adoras flores. — disse eu.

— Oui! Sont trés jolies. — concordou ela, em francês.

— Quais são as que mais gostas? — perguntei eu, apontando para um mostruário delas.

— Rosas vermelhas. — respondeu ela, sem hesitar.

Perto da saída, havia uma florista. Eu aproximei-me da senhora e comprei uma rosa vermelha para oferecer à minha prima.

Quando regressei para junto de Mónica, coloquei-lhe a rosa no cabelo. E ela deu-me um beijo como agradecimento.

Continuando o nosso passeio turístico, levei-a ao Mosteiro dos Jerónimos. Uma visita curta, apenas para ver uma pequena exposição. Seguidamente, caminhámos um pouco pela Praça do Império. Era agradável passear pelo jardim, até porque a temperatura era amena.

A meio da tarde, fomos ao Centro Cultural de Belém tomar um café. Mónica reconhecera o edifício por o ter visto na televisão, quando Portugal chefiava a União Europeia. No entanto, nunca o vira pessoalmente.

Por fim, parámos junto ao Padrão dos Descobrimentos. Eu sentei-me no chão e encostei-me às pedras do monumento, enquanto Mónica se sentou, entre as minhas pernas, e encostou-se ao meu peito. E ambos ficámos a ver o pôr-do-sol. Regressámos a casa, já de noite. Antes de entrarmos, Mónica disse-me que adorara o dia que eu lhe proporcionara. Um dia que serviu para nos aproximarmos e formar uma boa amizade.

A seguir ao jantar, fiquei no meu quarto a ouvir música e a conversar com Mónica, até sermos interrompidos pelo toque do meu telemóvel. Finalmente, era a chamada de Rafaela.

Para falar à vontade, deixei Mónica no meu quarto a ouvir o C.D. e vim falar para o corredor.

— Desculpa não te ter telefonado antes. Mas, só regressei hoje. — justificou ela.

— Não tem importância. — disse eu.

— Podemos continuar os treinos amanhã? — perguntou ela.

— Sim! A que horas? — questionei eu.

— À hora do costume, no sítio do costume. — combinou ela.

— Está bem! Lá estarei... Adeus...

Desliguei o telemóvel e regressei ao quarto. Mónica estava deitada na cama com os olhos fechados, a disfrutar do som da música.

Eu pousei o aparelho na escrivaninha e perguntei:

— Estás a gostar da música?

Ela não respondeu, pois já estava a dormir. Aproximei-me dela e, com um suave toque no braço, acordei-a.

Mónica sorriu e perguntou:

— Era a tua namorada?

— Não. — neguei eu, correspondendo ao sorriso. — Era uma amiga.

— Estou com sono. Acho que me vou deitar. — disse ela.

Mónica levantou-se, despediu-se de mim com um beijo e saiu do meu quarto, dirigindo-se ao seu.

Aproveitando a solidão, voltei a pegar no telemóvel e telefonei para Guida, uma vez que o prazo que ela me dera, estava a chegar ao fim.

Passada a chamada para o seu quarto, foi possível falar com ela.

— Guida! Estou a telefonar-te para te dizer que continuo a ser teu amigo. — afirmei eu.

Guida, com a sua voz tão característica, disse:

— Vem visitar-me amanhã, que eu tenho uma coisa para te contar.

— Não podes dizer pelo telefone? — interroguei eu, com pouca vontade de a visitar, temendo uma réplica da última cena.

— Não! Tem que ser pessoalmente. — insistiu ela.

Eu aceitei o seu pedido e combinei-o para a manhã seguinte.

Como já passava da meia-noite, também eu me fui deitar. Ia mais satisfeito, pois sabia que no dia seguinte iria reencontrar Rafaela.

Na manhã seguinte, levantei-me cedo e saí em direcção ao Hotel Roma, onde Guida permanecia. A manhã estava cinzenta, mas o ar estava abafado e a temperatura alta. Caminhei pela Avenida de Roma e parei numa pastelaria para tomar um café. Após a sua ingestão, paguei e retomei o meu caminho. Cheguei ao hotel às 11h30. Depois de passar pela recepção, subi até ao quarto dela.

Guida abriu a porta e eu entrei, dando-lhe um beijo na face. Quando reparei no interior, vi as suas malas no chão, o que me fez desconfiar que Guida se preparava para partir.

Ela fechou a porta e sentou-se na cama. Estava muito bem arranjada e parecia pronta para sair.

— Vais-te embora? — perguntei eu.

— Vou! — confirmou ela. — Parto depois do almoço.

— Para onde vais? — interroguei eu.

— Vou regressar a Aveiro. — informou Guida. — Consegui arranjar casa lá. O meu marido regressa depois de amanhã e vai lá ter comigo.

— Foi para me dizeres isso que quiseste que eu cá viesse? — indaguei eu.

— Não! Eu precisava de falar contigo, antes de partir. — explicou ela. — Se não me tivesses telefonado, eu própria o teria feito.

— E o que é que queres falar? — questionei eu, sentando-me a seu lado.

Guida colocou as mãos nos joelhos e continuou:

— Sabes? Tenho pensado muito em nós e no que se passou no outro dia.

— E então? — interrompi eu.

— Cheguei à conclusão que é melhor não nos voltarmos a ver. — sugeriu ela.

— Se é isso que queres...

— Não concordas? — questionou Guida, esperando talvez que eu a contrariasse.

No entanto, naquela altura pareceu-me o mais apropriado e, por isso, respondi:

— Talvez seja melhor assim.

Finda a frase, levantei-me da cama e despedi-me. Mas, Guida agarrou-me a mão e pôs-se de pé à minha frente. Não disse nada, limitou-se a abraçar-me com toda a sua força.

Eu abracei-a, igualmente, sentindo o seu corpo junto ao meu e recordando a sua beleza. Não tinha vontade de a largar, pois sabia que quando o fizesse, daria início ao nosso afastamento. Se há coisas que são eternas, aquele abraço não era uma delas. Quando Guida se afastou, eu sorri e disse:

— Se alguma vez precisares de mim, não hesites em procurar-me.

Guida sorriu e voltou a abraçar-me e beijou-me carinhosamente.

— Adeus Marco, jamais te esquecerei. — afirmou ela, deixando escapar uma lágrima.

— Nem eu! Afinal... tu foste a primeira.

Abandonei o quarto sem olhar para trás, segui para o elevador e saí para a rua, não conseguindo conter as lágrimas. Era um afastamento doloroso. Até aquela altura, nunca amara tanto ninguém. E era esse amor, a verdadeira causa da nossa separação.

As horas passaram lentamente. A ansiedade de reencontrar Rafaela fazia-me pensar que as horas não passavam.

Passei a tarde sozinho em casa, pois os meus pais estavam a trabalhar e Mónica tinha saído. Estar só tornava ainda mais penoso o passar das horas.

A hora combinada estava quase a chegar, por isso, preparei-me para ir ao seu encontro. Vesti o fato de treino e saí de casa. Apanhei o autocarro e segui rumo ao Estádio 1º de Maio. Quando cheguei, entrei e avistei, de imediato, Rafaela junto à relva.

Não sei explicar o que senti quando a vi, só sei que tive vontade de a abraçar. Porém, o nosso relacionamento não ia a tanto.

Ao aproximar-me dela, dei-lhe um beijo na face e disse:

— Então, como estás?

— Bem! — respondeu ela. — Desculpa não ter vindo mais cedo, mas eu...

— Não precisas de te justificar. — interrompi eu. — Vamos treinar que não há tempo a perder.

Durante uma hora, fizemos o nosso treino como era costume. Rafaela continuava em forma e eu estava cada vez mais ao seu nível.

Enquanto treinava, pensava no que lhe havia de dizer para a convidar para o jantar. Passaram-me inúmeras frases pela cabeça, mas nenhuma parecia ser a ideal.

No fim do treino, quando nos preparávamos para as despedidas, eu ganhei coragem e disse:

— Rafaela... Queres?... Ou melhor... Hoje...

— Não percebi nada. — disse ela.

E tinha razão, pois eu não dizia nada que fizesse sentido.

Novamente, ganhei coragem, respirei fundo e recomecei:

— Hoje à noite há um jantar de aniversário. É um amigo meu que faz anos e ele convidou-me para o jantar. Queres vir comigo?

Rafaela não pareceu muito atraída pela ideia e disse:

— Hoje não posso.

Ela disse aquilo de forma tão seca que eu não fui capaz de insistir. Em vez disso, combinámos a hora para o dia seguinte e despedimo-nos.

Regressei a casa, triste por Rafaela não ter aceite o meu convite. Nestes últimos dias, convencera-me que ela era minha amiga, mas com reacções destas, ela fazia-me suspeitar que o seu interesse se limitava ao volei. Possivelmente, quando os torneios acabassem, não voltaria a ter notícias dela.

Todas estas ideias me perseguiram no autocarro, enquanto este fazia o percurso inverso ao anterior.

Quando cheguei a casa, fui tomar banho e arranjar-me para o jantar. Vesti uma roupa mais formal, pois a situação justificava-o. Enquanto vestia a camisa, tive uma ideia e apressei-me a executá-la. Saí do quarto e fui até à cozinha, onde estava a minha mãe.

— Mãe! A Mónica já chegou? — perguntei eu, apertando simultaneamente os últimos botões da camisa.

— Já! — respondeu a minha mãe. — Está no quarto.

Deixei a cozinha e segui até à porta do quarto de Mónica. Bati à porta e lá de dentro ela respondeu:

— Oui!

Eu entrei. Mónica estava deitada na cama, de barriga para baixo, a ler um livro francês. Eu caminhei até à cama e sentei-me a seu lado.

Ela olhou para mim e disse:

— Qu'est-ce que... Pardon, é o hábito.

— Não faz mal. — disse eu. — Olha! Queres vir comigo ao aniversário do Bento?

— Qui é o Bento? — perguntou ela.

— É um amigo meu. Ele mora cá no prédio. — informei eu.

— Está bem. — aceitou ela. — Deixa-me vestir. Eu não demoro.

Eu deixei o quarto e esperei por Mónica na sala. Dez minutos mais tarde, uma voz interrompeu a minha concentração na televisão.

— Estou pronta! — disse Mónica, atrás de mim.

Eu olhei para trás e nem quis acreditar no que via. Mónica estava soberba, toda maquilhada, com o cabelo apanhado na nuca. Trazia um vestido preto, justo e curto, acompanhado com umas meias pretas, que lhe moldavam as pernas, e umas sandálias da mesma cor. Simplesmente, lindíssima. Ambos prontos, despedimo-nos dos meus pais e saímos rumo à casa do Bento e da Madalena.

O jantar era às 20h00, mas nós fomos meia hora mais cedo para dar uma ajuda nos preparativos.

Depois de tocar à campainha, fomos recebidos pelo casal. Bento e Madalena vieram à porta. Após os cumprimentar e felicitar Bento pelo seu aniversário, apresentei-lhes a Mónica.

Finalizados os cumprimentos, entrámos e seguimos pelo corredor.

— Viemos mais cedo para vos ajudar. — disse eu.

— Não era necessário. — afirmou Madalena, com toda a sua simpatia.

— Não, não. Fizeram bem. — contrapôs Bento. — Já que estás tão prestável, Marco, dás-me uma ajuda ali na sala.

— Está bem. — aceitei eu, sorrindo.

— Eu ajudo a Madalena. — disse Mónica, dirigindo-se à cozinha.

Bento e eu fomos para a sala de jantar, arredar os sofás e abrir a mesa.

— Tens uma prima muito bonita. — afirmou Bento.

— É muito bonita! — concordei eu.

— Vocês andam um com o outro? — perguntou Bento, empurrando um dos lados do sofás.

— Não. — neguei eu, empurrando o outro lado. — Tu sabes de quem é que eu gosto.

— Como não a trouxeste... — argumentou ele.

Eu, ao mesmo tempo que puxava o tampo da mesa, esclareci:

— Ela não quis vir. Disse que não podia. Por isso, convidei a Mónica.

Bento abanou a cabeça, compreendendo a minha situação, e disse:

— Quando abri a porta, até pensei que fosse ela, só que não disse nada. Parece que fiz bem.

Por breves momentos, o silêncio fez-se sentir. Eu arrastei a mesa e Bento abriu a outra parte. Terminados os arranjos, Bento olhou para mim e indagou:

— Essa Rafaela deve ser lindíssima. Tendo tu uma prima como a Mónica e preteri-la em relação a ela, é porque é muito melhor.

─ A Mónica é minha prima.

─ Mesmo assim...

Eu sorri. No meu pensamento passavam imagens de Rafaela. Em beleza estava muito longe de Mónica. Porém, ela atraía-me mais que qualquer outra.

— Sabes Bento? Às vezes a beleza exterior não é tudo.

Bento olhou para mim e, em tom sério, disse:

— Isso vindo de ti, dá que pensar.

O nosso diálogo acabou por ser interrompido pelo soar da campainha. Madalena saiu da cozinha e foi abrir a porta. Segundos depois, chegava aos nossos ouvidos uma voz inconfundível. Carlinhos acabara de chegar.

Bento, que estava junto à porta da sala, foi o primeiro a vê-lo. Só quando se cumprimentaram é que eu o vi. Vinha mais vestido para um arraial do que para um jantar. Camisa aberta até à barriga, calças de ganga e uns sapatos de pele, muito brilhantes.

Consigo vinha Xana. Ao vê-la, Bento nem conseguia desviar o olhar. Xana vestia uma camisola vermelha muito justa, com um decote até ao umbigo (sem exagero) e uma saia preta. Via-se quase por completo as suas pernas bronzeadas. Para completar, calçava uns sapatos de salto alto vermelhos.

Cumprimentámo-nos todos e eu apresentei-lhes a Mónica que entretanto regressara da cozinha.

Como estava tudo pronto para o jantar, Madalena pediu a nossa atenção e disse:

— Se me dão licença, eu vou mudar de roupa.

Madalena foi até ao quarto, trocar a roupa de casa por algo mais apropriado à ocasião.

Carlinhos segurava o braço de Bento e, petiscando um aperitivo, disse:

— Então? Hoje à noite vai haver festa com a patroa?

— Vê lá o que é que dizes. — avisou Bento, aborrecido com o comentário.

Eu, para evitar desentendimentos, separei-os e disse:

— Ó Bento, o Carlinhos está a brincar.

Mais uma vez, os diálogos foram interrompidos pela campainha.

— Deixem estar que eu vou abrir. — disse eu, dirigindo-me à porta.

Desta vez era o Humberto, também ele fora convidado para o jantar. Vinha muito bem vestido, mas não trazia companhia.

Depois de fechar a porta, dirigimo-nos à sala para que ele cumprimentasse os restantes convidados. Humberto ficou encantado com a minha prima. Cumprimentou-a com a delicadeza de quem acaricia uma flor. Mónica não pareceu ligar muito ao rapaz.

Ainda Humberto não tinha cumprimentado todos, quando Madalena regressou à sala. Estava deslumbrante, vestia uma camisola em veludo azul, que terminava acima da barriga. A acompanhar, trazia uma saia apertada, de cor preta, que lhe cobria os tornozelos e continha uma abertura do lado esquerdo, até meio da sua coxa.

Aquele jantar parecia um desfile de moda.

A campainha voltou a tocar. Mais uma vez, voluntariei-me para ir ver quem era. Agora era a vez do casal Victor e Helena. Também eles eram possuidores de grande elegância. Cumprimentei-os e indiquei-lhes o caminho da sala.

— Não trouxeram a vossa filha? — perguntei eu, em jeito de brincadeira.

Helena, que estava mais perto de mim, respondeu:

— Deixámo-la com a babysitter. Ela é muito nova para isto.

O casal seguiu ao encontro de Bento e eu segui-os. Porém, os meus passos foram interrompidos por novo toque da campainha.

Dei meia volta e voltei à porta. Mónica foi ter comigo.

Ao abrir, dei de caras com o meu primo Cajó que fora, igualmente, convidado.

— Cajó, como é que vais?

— Bem! — respondeu ele, apertando-me a mão. — Espero não vir atrasado.

— Não! — disse eu.

— Quem é esta jovem lindíssima? — perguntou Cajó, beijando a mão de Mónica.

— É a nossa prima Mónica. A que vive em França. — expliquei eu.

Cajó parecia não se lembrar, mas também não se esforçou muito por o fazer. Dado o beijo cavalheiresco, Mónica afastou-se e regressou à sala.

— A miúda é boa. — afirmou ele.

— Então, Cajó? Ela é nossa prima. — contrapus eu.

Cajó deu-me uma pancada no ombro e disse:

— Já sabes o que se diz das primas...

— Tem juízo, Cajó. Ela tem idade para ser tua filha. E além disso, tu és casado. — insisti eu.

— Divorciado, Marco! Divorciado. — contrapôs Cajó.

A nossa conversa terminou ali e ambos nos dirigimos à sala de jantar.

— Parece que já estão todos. — afirmou Bento, olhando para os presentes.

— Então vamos jantar que a comida está na mesa. — acentuou Madalena.

Todos nós ocupámos os nossos lugares e demos início à refeição. O jantar era um suculento lombo de porco, acompanhado por um puré de batata delicioso. Madalena era uma excelente cozinheira.

Estavam todos deliciados com o comer. E para beber, tínhamos um vinho verde maravilhoso. O Bento era um conhecedor e apreciador de vinhos e nós já sabíamos que, vinho escolhido por ele, era de nota máxima.

Victor, entre duas garfadas de carne, disse:

— Madalena, este jantar está uma maravilha.

— Obrigado, Victor. — agradeceu Madalena, com um sorriso vaidoso.

Cajó, que estava sentado à minha frente, não parava de olhar para Mónica. E isso parecia incomodá-la.

— Tens que me dar a receita. — pediu Helena, quebrando a minha vigia aos olhares de Cajó.

O jantar prosseguia lentamente. Os convidados disfrutavam da refeição e, simultaneamente, conversavam.

— Ó Bento! — chamou Carlinhos. — Quantos anos é que fazes?

— Vinte sete! — respondeu Bento.

— Estás a ficar velho. — afirmou Carlinhos. — O tempo passa a correr. Quando menos esperares, estás a "olhar" para o chão.

Bento não lhe deu resposta, preferindo ignorá-lo. Porém, eu achei que Carlinhos começava a ser inconveniente e por isso reagi, dizendo:

— Fica como tu estás.

Carlinhos deu duas gargalhadas e disse:

— Aqui a Xana nunca se queixou.

— Possivelmente, leva pouco ou então leva com muitos. — sussurrei eu.

— O quê? — reagiu ela, de imediato.

— Nada! Nada! — respondi eu.

O jantar continuou, desta vez silenciosamente. Era chegada a hora da sobremesa, composta por uma salada de frutas e uma magnífica mousse de chocolate.

Victor olhou para Bento e disse:

— A tua esposa é uma excelente cozinheira.

Bento sorriu e agradeceu o elogio. Mas, o sorriso foi interrompido por Carlinhos, com mais outra frase:

— Ó Bento, é só na cozinha que ela é boa?

Bento levantou-se da mesa e avisou:

— Se continuas com as tuas bocas, eu ponho-te na rua.

— Calma, Bento! O Carlinhos não disse por mal. — tentei eu apaziguar os ânimos exaltados.

Os convidados ficaram a olhar expectantes com a reacção. Bento voltou a sentar-se e todos voltaram aos seus pratos.

Deliciados com os doces, todos elogiavam Madalena.

— Fico contente por terem gostado do jantar. — disse Madalena.

— Magnifique. — concordou Mónica.

— Ó miúda, fala português que aqui não há francius. — disse Carlinhos com uma voz rude.

— Ó Carlinhos tem maneiras. — disse Cajó, partindo em defesa da nossa prima.

— Tu hoje estás impossível! — concluí eu, segurando a mão de Mónica para a reconfortar.

Cajó mudou de assunto e sugeriu:

— Podíamos combinar e irmos todos à praia no Sábado.

— Eu e a Helena não podemos. Temos de ir a Guimarães, este fim-de-semana. — justificou Victor.

— Cá por mim, está combinado. — aceitei eu.

— Moi aussi. — disse Mónica, concordando igualmente.

— Eu também vou! — afirmou Carlinhos.

Cajó olhou para Bento e perguntou:

— Então, vocês também vêm?

— Não sei... — respondeu Bento.

— Claro que vamos. — confirmou Madalena.

— Então e tu, Humberto? — perguntou Cajó.

Humberto era um pouco tímido e sentia-se à parte. Nós sabíamos isso e tentávamos englobá-lo, cada vez mais, no nosso círculo de amigos, de forma a que a sua companhia não se limitasse aos jogos de futebol.

Um pouco espantado, Humberto perguntou:

— O convite também era para mim?

— Claro! — respondeu Bento. — Afinal, tu também fazes parte deste grupo.

Humberto sorriu, parecia até comovido com as palavras de Bento.

— Então, como é? Posso contar contigo? — insistiu Cajó.

— Claro! — respondeu Humberto com satisfação.

O jantar aproximava-se do fim. Madalena levantou-se e foi à cozinha buscar o bolo. Eu fui ajudá-la.

Na cozinha, Madalena retirou o bolo do frigorífico e eu acendi as velas.

Quando entrámos na sala, eu apaguei as luzes e ela entrou com o bolo. Todos se levantaram e todos cantaram os parabéns a Bento.

Madalena pousou o bolo na mesa e eu fiquei junto ao interruptor da sala. Depois do cântico, Bento apagou as velas e todos aplaudiram, enquanto eu acendia novamente as luzes.

Madalena foi novamente à cozinha e trouxe uma garrafa de champanhe que entregou ao marido.

Bento começou a abri-la e Madalena ia distribuindo fatias de bolo por todos.

— Bento, cuidado com isso. — avisou Victor. — Ainda acertas com a rolha em alguém.

Tanto puxou que a rolha lá saiu, só que lhe escapou das mãos e passou rente à cabeça de Carlinhos.

— Que pena! — disse Bento.

Carlinhos olhou para Bento com cara de poucos amigos. Porém, não proferiu qualquer palavra.

— Discurso! Discurso! Discurso! — pedíamos todos, esperando que Bento falasse.

Bento sorriu e disse:

— Não! Não vou fazer discurso. Quero apenas agradecer a vossa presença e a vossa amizade.

Todos brindámos com as taças de champanhe e comemos as nossas fatias de bolo.

Terminado o jantar, Madalena começou a arrumar a mesa. Mónica e Helena fizeram questão de a ajudar. Carlinhos sentou-se no sofá, beijando e acariciando Xana, descomplexadamente.

No outro sofá, estava eu, o Bento e o Humberto. Dava para ver dali claramente as cuecas de Xana.

Victor ficou em pé, a ler o jornal. Cajó aproximou-se de nós e disse:

— Bem, tenho que ir andando. Amanhã é dia de trabalho e a minha casa fica longe.

— Tudo bem, Cajó. — concordou Bento. — Obrigado pela tua presença.

Cajó despediu-se de todos e depois foi à cozinha despedir-se das restantes.

— Até Sábado! — disse ele, pouco antes de fechar a porta da rua.

Mónica e Helena regressaram à sala de jantar. Ambas se sentaram nas cadeiras, perto da mesa.

Poucos minutos mais tarde, também Humberto se despediu e saiu. Mónica aproveitou o espaço vago no sofá e veio sentar-se junto a mim.

Madalena continuava na cozinha, a acabar as limpezas. Na sala, todos conversávamos sobre futilidades. Já nem me lembro do que falámos.

Passado algum tempo, Madalena regressou à sala, mas não chegou a entrar, ficando junto à porta. Olhou para Carlinhos de uma forma estranha, o que me deixou desconfiado. E, a seguir, abandonou a sala e continuou pelo corredor.

Segundos depois, Carlinhos levantou-se e disse:

— Vou à casa-de-banho.

— Vê lá se sabes onde fica. — disse eu, para o aborrecer.

— Está descansado. — respondeu ele, sem dar mais conversa.

Tudo aquilo me parecia suspeito e provocou-me alguma curiosidade. Porém, Victor aproximou-se de nós e comunicou:

— Bento! Eu e a Helena vamos andando.

— Está bem. Eu levo-os à porta. — ofereceu-se Bento.

— Deixa estar que eu acompanho-os. — sugeri eu.

Bento estranhou, mas não pôs qualquer entrave.

─ Dá um beijo à Madalena por nós.

─ Será entregue.

Victor e Helena despediram-se e eu acompanhei-os à porta. Enquanto o fazia, não pude deixar de reparar que a casa-de-banho estava vazia, o que acentuava a minha desconfiança.

Depois de eles saírem e eu fechar a porta, regressei pelo corredor. Nesse momento, vi a luz do quarto acesa e a porta entreaberta.

Silenciosamente, passei pela porta da sala e aproximei-me do quarto. Quanto mais perto estava da porta, mais audíveis eram os sons de beijos e de sussurros vindos do interior.

Não era preciso raciocinar muito para saber de quem eram as vozes. Chegado junto à porta, empurrei-a e fui surpreendido com uma visão que jamais pensei possível.

Madalena estava encostada ao tampo da cómoda, enquanto Carlinhos lhe beijava os lábios com uma fogosidade lânguida. As mão dela apoiavam-se na superfície do móvel. Já as de Carlinhos, dividiam-se por duas partes, a direita entrava na saia e viajava entre as pernas dela e a esquerda punha a nu um dos seios que agarrava pegajosamente.

Ao verem-me, ambos se afastaram e tentaram recompor-se.

— Marco! Isto não é o que estás a pensar. — tentou Carlinhos, justificar-se.

Eu continuei a aproximar-me, mas sem dizer uma palavra.

— Marco... — proferiu Madalena sem saber o que dizer.

— Carlinhos, sai daqui! — ordenei eu.

— Marco, eu... — insistiu Carlinhos.

— Sai daqui, antes que eu chame o Bento. — ameacei eu.

Carlinhos, sem argumentos, abandonou o quarto, deixando-me sozinho com Madalena.

— Nunca pensei que fosses capaz de fazer uma coisa destas. — exclamei eu, irritado.

— Tu não compreendes. — afirmou Madalena, ao mesmo tempo que cobria o peito.

— Compreender o quê? — questionei eu. — Que tu és uma puta? Que és capaz de pôr os cornos ao teu marido, no seu próprio quarto, em pleno aniversário?

— Marco, eu não te admito! — repreendeu ela.

— E quem és tu para admitir o que quer que seja? — contrapus eu.

— Tu estás em minha casa. — avisou Madalena. — Eu ponho-te na rua!

— Se quiseres, podemos chamar o teu marido? — sugeri eu.

Madalena não disse nada e virou-me as costas.

— Está descansada que eu não conto ao Bento. — informei eu. — Não o faço por ti. Faço-o pelo Bento, para o poupar.

Madalena voltou a não proferir qualquer palavra e eu deixei o quarto, voltando posteriormente à sala.

Bento, Mónica e Xana não se aperceberam de nada. Quando cheguei à sala, já Carlinhos lá estava, novamente, agarrado a Xana.

Sentei-me ao lado de Mónica e não disse nada. Pouco depois, apareceu Madalena com um rosto sério e frio.

Eu sentia-me enraivecido com a atitude de ambos. Sentia um enorme desejo de vingança. Em relação a Madalena, não me ocorreu nada. Mas, no que diz respeito a Carlinhos, lembrei-me de como o podia castigar. Ia pagar-lhe na mesma moeda "roubando-lhe" a Xana.

No resto do tempo em que lá estivemos, eu não parava de olhar para Xana. Ela sorria e parecia gostar daquele jogo de sedução.

Carlinhos observava, mas não dizia nada, com medo que eu contasse o que sabia.

Eu puxei, suavemente, Mónica e sussurrei:

— Deixa-te ficar aqui.

Mónica acenou afirmativamente com a cabeça e eu levantei-me, dirigindo-me à varanda. Não foi preciso muito tempo para que Xana também lá fosse.

Discretamente, ela puxou de um cartão e entregou-mo.

— Telefona-me! — pediu ela, com a sua voz quente.

Eu guardei o cartão, não respondi e regressei à sala. Carlinhos levantou-se e chamou Xana.

— Nós vamos embora. — informou Carlinhos.

Carlinhos e Xana despediram-se e sairam.

Ao sair, ele olhou para mim, pressentindo a minha ideia e odiando-me por ela.

Eu e Mónica aproveitámos a deixa e também nos despedimos, deixando o casal sozinho para que pudessem gozar alguma privacidade.

Quanto a nós, regressámos a casa para descansar. O dia fora cansativo e a noite não foi menos.

Subimos as escadas e entrámos em casa. Era tarde, por isso os meus país já estavam a dormir.

O silêncio predominava e nós fizemos tudo para não produzir qualquer som. Após o fecho da porta, Mónica e eu despedimo-nos um do outro com dois beijos e recolhemos aos nossos quartos.

Enquanto me deitava, pensava na revelação que vira. O filme de todo o jantar, passou pelo meu pensamento. Pensei no pobre Bento que não sabia a mulher que tinha em casa. O comportamento de Carlinhos e o seu caso com Madalena. O convite de Xana. Revi tudo na minha cabeça e divaguei sobre isso, até o sono tomar conta de mim.

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