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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO V

Hoje, apesar de não ter consumado o amor com Guida, não lhe guardo rancor. Possivelmente, nem tinha resultado e, para além disso, o futuro reservava-me algumas surpresas.

No entanto, naquela altura, eu estava tão deprimido que no dia seguinte nem queria sair da cama. Como me deitei às quatro da manhã, só acordei às duas da tarde.

Mal abri os olhos, logo as recordações do dia anterior me invadiram o cérebro, perturbando-me os pensamentos.

Não sei o que me fez pensar que ainda tinha hipóteses em ser amado por ela. Mas, o pior foi acordar para a realidade e ver as minhas esperanças arruinadas.

Quando me lembro do que senti nessa época, penso que o que me ajudou a ultrapassar isso, foi o facto de já não a ver há muito tempo. Só que a ideia que eu edifiquei na minha cabeça, criou-me uma ferida que me levou algum tempo a sarar.

Nesse dia, analisei a minha vida a nível sentimental e cheguei à conclusão de que nunca fora amado. A minha relação com as mulheres nunca passara de uma amizade ou puro sexo. Senti-me tão mal amado que quase perdi o sentido da vida.

Já tarde, com muito custo, lá me levantei da cama. Saí do quarto e vi que estava sozinho. Os meus pais tinham ido almoçar fora.

Fui até à cozinha e preparei qualquer coisa para comer. Regressei ao quarto, com umas sandes e uma cerveja, e voltei a sentar-me na cama, olhando para o exterior através da janela do quarto.

Completamente sem vontade de fazer o que quer que fosse, inclinei-me para trás e fiquei a olhar para o tecto, pensando na vida. Pensei tanto que voltei a adormecer.

Não dormi muito tempo, pois fui interrompido pelo som da campainha. Quem tocara, ainda teve que o fazer várias vezes, até que eu fosse abrir.

Zonzo e a cambalear, dirigi-me ao intercomunicador e perguntei:

— Quem é?

— Publicidade. — respondeu a voz, saída do aparelho.

Eu abri a porta, mas não deixei de barafustar para comigo, por me terem incomodado o repouso. Enquanto pronunciava frases soltas e descabidas de sentido, passei pelo espelho do corredor e vi a minha imagem.

Fiquei pregado ao chão, durante alguns minutos, observando o meu aspecto. Cabelo despenteado, olhos mal abertos, tronco nu, calças de pijama ainda vestidas, descalço, um cheiro a cama pelo corpo... Meu Deus, ao que eu tinha chegado.

Olhei para o lado e surpreendi-me com as horas, 17h30. Mal tirei os olhos dos ponteiros, lembrei-me de que tinha o treino com Rafaela. Bom! Nem sei se tinha, depois do que acontecera no dia anterior. Porém, não seria por minha causa que as coisas não dariam certo, pois eu cumpriria o meu papel.

Corri para a banheira e tomei um duche frio para me livrar daquele aspecto. A seguir, dirigi-me ao meu desarrumado quarto para me vestir.

Retirei o fato de treino da gaveta e vesti-o. Depois, sentei-me na cama e calcei os ténis. No momento em que apertava os atacadores, algo chamou a atenção dos meus olhos. Foi o frasco de perfume que comprara para Guida.

Levantei-me, caminhei até ao armário onde ele estava e arranquei-lhe o cartão. A primeira vontade que tive, foi deitá-lo fora. No entanto, uma ideia privou-me de fazê-lo.

Peguei no perfume, nas chaves do carro e nas chaves de casa e saí. Desci as escadas a correr e quando abri a porta da escada, encontrei os meus pais.

— Já voltaram? — perguntei eu, sorridente.

— Já? Então, são quase seis horas. — disse a minha mãe, olhando para o relógio.

— Onde é que vais? — questionou o meu pai.

— Vou treinar! — informei eu.

Os meus pais entraram no prédio e eu segui para o meu carro.

Antes de ir para o Estádio 1º de Maio, fui tomar um café à Avenida da Igreja. Só depois me dirigi ao local previsto.

Desta vez, deixei o carro na Rua Maria Amália Vaz de Carvalho, uma rua que liga a Avenida Rio de Janeiro, à Avenida de Roma. Estacionei em frente à Rua José Duro e fiz o resto do percurso a pé.

Quando entrei no complexo desportivo, comecei à procura de Rafaela. Não foi muito difícil encontrá-la, pois estava no sítio onde treinámos no dia anterior. Permanecia de pé, junto às arvores, já equipada e esperando que eu aparecesse.

Rafaela, mal me viu, colocou uma postura séria. Fê-lo, não com a intenção de me intimidar, mas apenas como auto protecção perante mim. Notava-se, perfeitamente, que ela receava as minhas palavras, uma vez que me julgava aborrecido consigo.

Eu aproximei-me dela, com as mãos escondidas atrás das costas, e cumprimentei-a:

— Olá Rafaela!

— Olá! — respondeu ela, sem me confrontar no olhar.

— Vamos treinar? — perguntei eu, à espera de uma reacção sua.

Rafaela estava intimidada com a minha presença. Sentia-se culpada por me ter atirado com a bola. Queria pedir-me desculpa, mas não sabia como o havia de fazer.

— Marco, eu... — começou ela.

— Sim!... — disse eu, esperando que ela continuasse e adivinhando o que ela queria dizer.

As palavras custavam a sair. Rafaela, com algum nervosismo, olhou para mim e disse:

— Desculpa, aquilo ontem. Eu...

— Esquece! — exclamei eu, imediatamente.

— Eu não devia... — continuou ela.

— Eu já te disse para não pensares nisso. Vamos esquecer o que aconteceu. — sugeri eu, sorrindo para lhe demonstrar que não estava aborrecido.

Rafaela sorriu e perdeu o nervosismo. Foi como se lhe tirassem um peso das costas. Porém, eu ainda quis ir mais longe e, colocando as mãos na sua frente, disse:

— Como prova de que não estou zangado, até te trouxe um presente.

E entreguei-lhe o perfume. Ela não esperava aquela minha atitude. E isso sensibilizou-a bastante, fazendo-a largar a bola de volei para melhor segurar no presente.

Quando a vi pegar no pequeno pacote, contendo o frasco, tive a sensação de que Rafaela nunca recebera nada parecido. A surpresa dela foi tanta que eu cheguei a pensar, se não teria abusado da nossa, recém nascida, amizade.

No entanto, antes que eu continuasse a pensar disparates, Rafaela olhou para mim, com uma lágrima brilhante ao canto do olho, e sorriu.

— Gostas? — perguntei eu.

— Mais do que possas imaginar. — respondeu ela.

Rafaela, após alguma hesitação, colocou a sua mão no meu ombro e deu-me um beijo na cara. Depois, abandonámos o sentimentalismo e demos início ao treino.

Aquela minha acção provocou uma reacção em Rafaela que quebrou algum gelo entre nós. A partir daquele dia, o nosso relacionamento passou a ser diferente. Começámos a desenvolver uma amizade saudável.

O treino correu lindamente. Eu não acompanhei o ritmo de corrida dela, mas isso parecia não importar. Quando jogámos com a bola, combinando alguns passes e remates, fazíamo-lo com alegria.

Pela primeira vez, tive pena que o treino chegasse ao fim. Quando me despedi de Rafaela, dei-lhe dois beijos aos quais ela retribuiu. Foi desta forma que nos passámos a cumprimentar, quando nos reencontrávamos.

Regressado ao domicílio, encontrei a minha mãe muito contente e desejosa de me contar a novidade.

— Marco, tenho uma coisa para te contar. — informou ela, enquanto eu despia o fato de treino.

— O quê? — disse eu, sem grande interesse em ouvir a notícia.

— A tua prima Mónica vem passar as férias de Verão connosco. — comunicou a minha mãe, para meu desalento.

Mónica era seis anos mais nova do que eu e era filha da irmã do meu pai. Vivia em França com os pais que eram emigrantes. A última vez que a vira, naquela altura, ela tinha doze anos.

Sempre que ouvia o seu nome, associava-o a uma miúda birrenta e chata, com o cabelo entrançado e um ar mimado, vendo os pais a amparar-lhe as travessuras que fazia. Costumava vê-la nas férias, quando os pais nos visitavam, vindos de Bordeaux.

Tê-la em casa era igual a ter um animal selvagem. Ela mexia em tudo, espalhava tudo, estragava tudo... Era uma criança odiosa.

Aquilo que eu desejava era que ela não viesse. Mas uma vez que vinha, ao menos, que se portasse decentemente.

— Quando é que ela vem? — perguntei eu.

— Chega na semana que vem. — respondeu a minha mãe. — Talvez Segunda ou Terça-Feira.

Eu nem quis ouvir mais nada, peguei na toalha e fui tomar banho.
 

A semana passou sem que nada de especial se passasse. Os treinos com Rafaela corriam bem e a nossa capacidade desportiva aumentava. Ir treinar todas as tardes com ela, tornara-se um hábito cada vez mais agradável.

O passar dos dias fez-nos chegar a Sexta-Feira. Eu, depois do almoço, recebi um telefonema de Guida, a convidar-me para a ir visitar ao hotel, pois precisava de falar comigo.

A meio da tarde, saí de casa e fui encontrar-me com ela no seu quarto de hotel. Após a travessia da Avenida de Roma, estacionei o carro perto da linha do comboio e entrei no edifício.

Lá dentro, dirigi-me ao elevador e subi até ao quinto andar, onde se localizava o quarto de Guida. Chegado ao seu número, bati suavemente na porta. Segundos mais tarde, ela veio abrir.

— Olá, Guida! — cumprimentei eu, dando-lhe um beijo.

— Olá, Marco! — respondeu ela, fazendo o mesmo.

Eu entrei e, não vendo ninguém, perguntei:

— O teu marido saiu?

— Regressou ontem à Austrália. Vai lá ficar mais uns tempos, até eu arranjar cá casa. — explicou ela. — Depois, volta definitivamente.

— E a tua filha?

— Está a dormir. — informou ela.

Guida sentou-se, ajeitou a saia do fresco vestido que usava e perguntou:

— Porque é que não vieste cá no outro dia?

— Tive que fazer. — respondi eu.

— Não sejas mentiroso. — disse ela, puxando um cigarro do maço que deixara em cima do armário.

— Eu não estou a mentir. — insisti eu.

Guida acendeu o cigarro, inspirou o fumo, expirou-o e disse:

— Vamos ser sinceros como éramos antes?

— Está bem. — concordei eu. — Apareceres casada, chocou-me. Tu devias ter-me contado.

— Marco! Eu não tenho que te dar satisfações daquilo que faço. — lembrou ela.

— Pois não! — respondi eu, levantando o tom de voz. — Aliás, eu nem sei o que é que estou aqui a fazer.

— Então, vai-te embora! — exclamou ela, impensadamente.

Eu levantei-me e dirigi-me à porta.

— Marco! Espera! — pediu ela, correndo na minha direcção.

— O que é agora? — interroguei eu.

— Porque é que nos aborrecemos, sempre que eu arranjo namorado ou marido, como agora aconteceu? — perguntou ela.

— Porque eu te amo. — respondi eu, prontamente.

Guida baixou o olhar como se já tivesse visto aquela cena. De seguida, voltou a olhar para mim e disse:

— Tu já sabes que eu gosto de ti como amigo. Estou farta de te dizer isso! Será que tu não compreendes?

— Compreendo! — continuei eu. — É por isso que acho melhor afastar-me.

— Mas, Marco! Eu preciso de ti como amigo. Não te afastes de mim! — implorou ela, quase a chorar.

Eu, irredutível, prossegui com a minha ideia:

— Eu não suporto ver-te e não te poder amar. Por isso, prefiro ficar longe de ti.

Guida, já em desespero, puxou-me pelo braço até junto da cama, ajoelhou-se sobre o colchão, começou a desapertar os botões do vestido e disse:

— Anda! Apalpa-me, beija-me, faz amor comigo, faz o que quiseres. Não está aqui ninguém e eu não me oponho. Se é isso que eu tenho que fazer para continuar a ter a tua amizade, eu faço. Vá, anda!

— Não sejas parva! — exclamei eu, afastando-me dela.

— O que foi agora? Não é isso que queres? — questionou ela, já com os seios a descoberto e a parte superior do vestido caída sobre a cintura.

Eu, completamente fora de mim, agarrei-a pelos ombros e gritei:

— O QUE EU QUERO É O TEU AMOR! E esse, eu sei que jamais será meu.

E com aquela frase, larguei-a novamente e voltei à porta.

Guida, a chorar, avisou:

— Marco! Se saíres essa porta sem nos entendermos, nunca mais te falo.

Eu olhei para trás e, também confrontado com as lágrimas nos olhos, pedi:

— Guida! Dá-me um tempo. Deixa-me habituar à ideia. Quando eu conseguir ultrapassar isto, eu procuro-te.

— Tens uma semana! — avisou ela. — Se até lá não me procurares, nunca mais te quero ver.

Aquelas palavras terminavam o nosso amargurado diálogo e eu saí do quarto. Desci até à rua, cimentando a ideia de que, Guida e eu, nos tínhamos tornado incompatíveis. As nossas discussões tinham-se tornado mais frequentes quando ela estava prestes a partir para a Austrália. E depois dela regressar, elas continuavam e cada vez mais acesas. Não queria tomar decisões precipitadas, mas continuava a pensar que o afastamento era a única solução. Ela dera-me uma semana e eu ia aproveitar esse tempo para reflectir.

Uma hora mais tarde, já estava novamente a treinar com Rafaela. Um treino como os outros, sem que nada de especial tivesse acontecido.

Quando terminámos, eu conversei um pouco com Rafaela, acerca dos treinos, e fiz uma pergunta:

— Não devíamos começar a treinar na praia?

— Devíamos. — respondeu ela. — Se puderes, começávamos para a semana.

— Cá por mim, pode ser já amanhã. — sugeri eu, expectante com a resposta.

Rafaela guardou a bola no saco e disse:

— Amanhã não posso! Vou para fora, este fim-de-semana.

— Então, para quando é que combinamos? — interroguei eu.

— Não sei! Não tenho a certeza se regresso na Segunda. — informou ela, com um ar triste de quem não parecia agradada com a ideia de se afastar.

— Vamos fazer assim: Eu dou-te o meu número de telefone e tu, quando regressares, telefonas-me. — voltei eu a sugerir.

— Está bem! — concordou ela.

Rafaela pegou num bloco que trazia no saco e escreveu o número que eu lhe ditei. Dei-lhe o número do telemóvel para que ela me contactasse em qualquer altura.

Ao despedir-me dela, voltei a questioná-la:

— Posso fazer-te uma pergunta?

— Sim!... — aceitou ela, temendo uma pergunta pessoal.

— Em que lugar é que tu e o teu primo ficaram? — perguntei eu.

Rafaela sorriu, olhou para mim e respondeu:

— Ao certo não me lembro. Mas, ficámos muito perto do último lugar.

Com aquela informação nos despedimos. E eu regressei ao carro, equacionando as nossas hipóteses depois do que ela me dissera. Não fiquei nada esperançado.

Durante o fim-de-semana, fiquei em casa ansiando o passar do tempo. Os minutos pareciam horas. E as horas pareciam dias.

Sentia saudades dos treinos, de ir ao estádio treinar e dos momentos passados com Rafaela. Foi então que comecei a aperceber-me de que o que eu sentia falta era da própria Rafaela. Porém, ainda não compreendia o significado daquilo que sentia.

No Domingo, ao fim do dia, eu andava de um lado para o outro, olhando para o telefone, esperando que ele tocasse e que do outro lado surgisse a voz de Rafaela. Mas, a espera foi em vão. As únicas pessoas que telefonaram nesse dia, foram os meus tios a avisar que Mónica partiria na Quarta-Feira.

No dia seguinte, passei uma manhã e uma tarde horríveis, pois continuava à espera do telefonema de Rafaela. Estava tão obcecado com a sua falta que tudo à minha volta perdia importância.

Para me distrair um pouco, saí de casa e desci até à casa de Bento. Eu costumava passar por casa dele para conversarmos. Considerava-o muito sábio em relação aos conselhos que me dava. Era aquela pessoa com quem eu contava para ter uma palavra amiga e um ouvinte dos meus desabafos.

Foi ele que me abriu a porta, depois de eu tocar à campainha. Antes de o acompanhar à sala, passei pela cozinha para dar um beijo a Madalena.

— Então Marco, que se passa? — perguntou Bento.

— Nada! Vim só conversar um pouco contigo. — respondi eu.

Bento e eu sentámo-nos nos sofás da sala. Ele serviu dois whiskies e disse:

— Há algum tempo que não tínhamos estes serões.

— É verdade! — confirmei eu. — Sabes como é, não tem havido oportunidade.

— Tens razão. — concordou ele. — Sabes? Devíamos combinar um dia por semana para nos reunirmos.

A ideia não era má, mas só de pensar na obrigatoriedade de fazer reuniões todas as semanas, já me deixava sem vontade. Os encontros entre amigos devem ser espontâneos.

— Ouve! Gostava que me desses a tua opinião, sobre um assunto. — pedi eu.

— Diz!

— Aqui há uns tempos conheci uma mulher... — comecei eu.

Bento interrompeu e, sorrindo, afirmou:

— Ó Marco, no que diz respeito a mulheres, tu és mais experiente que eu.

— Está bem! Mas, isto é diferente. — continuei eu. — Conheci... ou melhor, reencontrei-a há cerca de um mês. Tenho-a visto todos os dias, exceptuando os três últimos. E isso tem-me deixado numa ansiedade horrível. Sinto a falta dela e passo o dia à espera que ela telefone. Diz-me, Bento, o que é que achas disto?

Bento soltou duas gargalhadas e disse:

— Marco, tu estás apaixonado por ela.

— Não digas disparates! — disse eu, irritado com a sua teoria.

— Não querias a minha opinião? Eu dei-ta.

— Mas, não compreendo. Eu olho para ela e não sinto um desejo louco de ir para a cama com ela. — contrapus eu.

— Responde-me sinceramente. — pediu ele. — Ela é bonita?

— Bom! Não é feia. — respondi eu, não querendo dizer abertamente que a achava bonita.

— Gostas da sua companhia?

— Ultimamente, sim!

— Sentes-te ansioso, se não a vires?

— Sim!

— Sentes vontade de a beijar?

— Por vezes...

— De a acariciar?

— Ó Bento... — interrompi eu.

— Sim ou não. — insistiu ele.

— Sim!

— De partilhar os teus segredos com ela?

— Não sei...

— Gostavas de partilhar a sua intimidade?

— Talvez!

Bento, num tom ainda mais sério, fez uma última pergunta:

— Gostavas de ter prazer com ela ou de lhe dar prazer?

— De lhe dar prazer! — respondi eu, imediatamente.

— Então, eu tinha razão! — insistiu Bento. — O que tu sentes é amor! O que tu sentes por ela, vem-te do coração e não do...

— Está bem, Bento. Já compreendi. — atalhei eu.

Poucos segundos depois, larguei o copo, levantei-me e disse:

— Mesmo assim, não sei. Quando olho para ela, parece-me tão pouco atraente e tão distante. Por vezes, chego a pensar que não me liga nenhuma. Mas, simultaneamente, parece-me que gosta de mim e a sua beleza sobressai ao meu olhar...

— Pode ser timidez! — sugeriu Bento.

— Não sei! Sinto-me tão confuso. — afirmei eu.

— Ouve, Marco! Vai para casa e pensa no que te disse.

Bento acompanhou-me à porta e quando eu ia a sair, ainda houve tempo para me convidar para o seu aniversário, na Quinta-Feira seguinte. Também me disse para levar companhia, desafiando-me a convidar Rafaela para o jantar.

Nessa noite, quando me deitei, fiquei a pensar no que Bento me dissera. Acabei por adormecer e sonhar com Rafaela.

No dia seguinte ao almoço, os meus pais tentaram convencer-me a ir buscar Mónica ao comboio. Estava prevista a sua chegada para o dia posterior. Para além disso, ainda queriam que eu a levasse a passear.

— Nem pensem! — recusei eu, de imediato.

— Não custa nada, seres amigo dela. — disse a minha mãe.

— Para mim, já me chega tê-la debaixo do mesmo tecto que eu.

— Ela não te fez mal. — afirmou o meu pai.

No entanto, antes que eu respondesse, a campainha tocou. Eu levantei-me da mesa e disse:

— Deixem que eu vou lá. Mas, ficam já a saber que eu não aturo crianças birrentas.

Caminhei até à entrada e ouvi dois toques leves na madeira da porta. Quando a abri, nem quis acreditar no que os meus olhos viam.

Na minha frente estava uma mulher, de cabelos louros a cair pelos ombros e olhos azuis claros contornados por uma sombra azul escura. A boca estava muito bem pintada de um vermelho tórrido. E as unhas eram compridas e pintadas de pérola.

Vestia uma camisa branca quase transparente que deixava ver a sombra de um soutien escuro a amparar os seios. Da cintura para baixo, trazia uma saia preta curta que mostrava umas pernas longas e esculturais. Por fim, calçava umas botas, igualmente brancas, que lhe contornavam as pernas até aos joelhos.

— Marco? Lembras-te de moi? — perguntou ela.

— Mónica? — tentei eu adivinhar, gaguejando e não deixando de ficar incrédulo, em relação à sua transformação.

— Oui! — confirmou ela, abraçando-me e dando-me dois beijos na face.

— Tu não eras para vir amanhã? — perguntei eu, refazendo-me do choque que a sua beleza me provocara.

— Oui, mas como hoje havia voo directo para cá, eu vim. — explicou ela.

Entretanto, apareceram os meus pais que logo a reconheceram. Abraçaram-na e ficaram muito felizes com a sua chegada. No entanto, sentiram-se um pouco chocados com o seu aspecto "avant garde".

Os meus pais encaminharam-na para o seu quarto, enquanto eu tive que carregar com as malas e levá-las para o local. Sempre que me cruzava com Mónica, ela olhava para mim e sorria sedutoramente.

Nunca pensei que uma criança chata e birrenta, se pudesse tornar numa mulher tão bela e atraente.

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