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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO IV

O dia que se seguiu, foi daqueles que se mantêm mais frescos na minha memória. Lembro-me como se fosse hoje. Era Sábado, dia 10 de Junho, o que fazia dele feriado por todo o país. Estava um dia muito quente e muitas pessoas aproveitaram para ir à praia, inclusive eu.

Não tinha ideias de fazê-lo, mas fui convidado pelo Carlinhos que me telefonou, bem cedo, a desafiar-me.

Após alguma insistência, lá conseguiu convencer-me a ir com ele e com as amigas. No entanto, como o Carlinhos não dá ponto sem nó, estranhei o facto de tanta insistência. Uma estranheza que se esfumou, quando ele me pediu para levar o meu carro.

Depois de executados os rituais matinais, saí de casa para os ir buscar à estação ferroviária do Areeiro, local onde combináramos encontrarmo-nos.

Assim, lá fui eu de óculos de sol, saco de praia na mão, em calções de banho, camisola de alças e chinelos, rumo ao meu "bólide" que deixara estacionado a cinquenta metros do meu prédio.

Não demorei mais de dez minutos a chegar ao local combinado. E quando cheguei, já eles me esperavam à porta da estação.

Carlinhos vinha todo campeão, calções, chinelos, tronco nu, prancha de surf debaixo do braço e mochila às costas. Abraçada a si, beijando-o sem complexos, estava a mulher que o acompanhara ao jogo, dois dias antes.

Ela era um espanto, morena com um corpo de pecado, parecia respirar sexo por todos os poros. Vestia um biquini vermelho e trazia uma saida-de-praia colorida à cintura, a servir de saia. Para fazer conjunto, calçava umas sandálias vermelhas.

A acompanhá-los, vinha uma rapariga ruiva. Não era tão espampanante como a outra, mas também era muito bonita. Tinha um cabelo liso que terminava por cima dos ombros, um corpo formoso e um aspecto angelical. Vestia calções de ganga muito curtos, um top amarelo e ténis brancos com listas rosas.

Quando saí do carro, os três vieram cumprimentar-me. Carlinhos apresentou-me às duas acompanhantes.

— Olá! — disseram ambas.

— Esta é a Xana. — apresentou ele, apontando para a sua parceira.

Ela deu um passo na minha direcção para que eu a beijasse. Foi o que eu fiz. Ela cheirava, maravilhosamente, bem. Um aroma doce e quente que se adaptava, perfeitamente, à sua imagem.

Depois, por detrás de Xana, apareceu a segunda acompanhante.

— Esta é a Patrícia. — informou ele, piscando-me o olho.

Eu percebi o sinal. Carlinhos estava a indicar-me que ela seria a minha parceira.

Muito doce, Patricia dirigiu-se a mim e deu-me um beijo, o qual eu retribui. Usava um perfume igual ao de Xana, mas em si não tinha o mesmo efeito.

Carlinhos, dando-me uma pancada no ombro, disse:

— São irmãs! Para ti, qual é a mais bonita?

Eu sorri para disfarçar a situação em que ele me colocara e disse:

— São as duas.

Não lhe dando tempo para desenvolver a questão, regressei ao carro e esperei que me acompanhassem.

Carlinhos abriu a porta do lado oposto ao meu e disse:

— Ó Patricia, vem tu à frente que eu vou atrás com a tua irmã.

Patricia sentou-se a meu lado e Carlinhos foi atrás com Xana. Mal a última porta se fechou, todos partimos para a praia.

Eu conduzia com metade da concentração na estrada e a outra metade no interior do carro. Patricia olhava para mim como quem vai a uma galeria ver quadros, revistando-me todo com os olhos.

No banco traseiro, Carlinhos e Xana trocavam beijos, acaloradamente. As mãos de Carlinhos passavam por todas as partes do corpo dela e estacionavam, várias vezes, nos seus seios. Ela tinha uma mão no pescoço dele e a outra estava em parte incerta, pois o espelho retrovisor não deixava ver muita coisa.

Aquela cena começava a mexer comigo. E a concentração passava a estar mais no interior do carro do que na estrada.

Em consequência disso, acabei por levar duas buzinadelas, pois estava a entrar na faixa contrária.

Para quebrar a influência erótica da cena, comecei a falar com Patricia.

— Hoje está um calor... — disse eu.

— Sim, hoje está muito quente. — confirmou ela, colocando a sua mão na minha perna.

Eu afastei-lhe a mão e perguntei:

— Quantos anos tens?

— Dezoito.

— Ainda és uma miúda! — disse eu, tentando fazer com que desistisse daquele jogo de sedução.

A frase pareceu aborrecê-la. Até porque, a partir daí, ela não disse mais nada, até termos chegado à praia, e passou a olhar para a estrada.

Ao fim de meia hora de viagem, estávamos no parque de estacionamento, à entrada da praia. Saímos do carro e tirámos as coisas do porta-bagagens, carregando-as para a praia.

Carlinhos e Xana iam à frente, agarrados um ao outro. Atrás deles, seguia Patricia. E por último, eu que me atrasara a fechar o carro.

Caminhámos pela areia até meio da praia, local onde acampámos. Olhei para o relógio e vi que já era meio-dia.

Xana estendeu a toalha, retirou o lenço da cintura e deitou-se. Carlinhos pegou na prancha e tocando-me nas costas, disse:

— Marco, vamos à água?

— Está bem! — aceitei eu, despindo a camisola e largando os chinelos.

Antes de ir, estendi a minha toalha no areal e guardei os óculos.

Enquanto nos afastávamos, Patricia ficou a estender a sua toalha junto à minha.

Fomos até à beira-mar, mas não entrámos logo na água porque estava fria. Por isso, ficámos a conversar, ao mesmo tempo que nos ambientávamos à temperatura.

— Então, o que achaste da miúda? — perguntou Carlinhos.

— Qual delas?

— A Patricia. — esclareceu ele.

— É uma miúda! — afirmei eu, sem hesitar.

— Uma miúda? Aquilo é um torrãozinho de açúcar. — disse ele. — Aproveita pá! Só um sinal teu e ela abre-se toda.

— Não sejas parvo! — exclamei eu, num tom sério.

A conversa ficou por ali. Carlinhos atirou-se à água com a sua prancha. E eu regressei ao local onde elas estavam.

Lá mais em cima, Xana continuava a torrar. Do outro lado, Patricia estava deitada de costas para o Sol, somente, com a parte inferior do biquini.

Eu aproximei-me da minha toalha e estiquei-a, um pouco. Patricia, sentindo a minha presença, virou-se de frente para mim. Porém, eu fingi que não reparei e deitei-me na toalha, absorvendo os raios solares.

Patricia era muito bonita e muito bem feita, mas a minha cabeça estava tão absorvida com outras ideias, que esse facto passava-me despercebido.

Enquanto o meu corpo repousava na toalha, a minha cabeça enchia-se de imagens. Pensava na chegada de Guida e em como seria o nosso reencontro. Seria desta vez que eu a conquistaria? E o seu coração me pertenceria?...

Depois, lembrava-me do treino com Rafaela. Ainda me interrogava, o porquê de ter aceitado ser seu parceiro no volei.

Por último, via a imagem de Xana e o seu ar sedutor. Sentia um enorme desejo por ela. Mas, o facto de ela namorar um amigo impedia qualquer atitude minha para concretizar esse desejo.

Poucos minutos depois, regressou Carlinhos, completamente molhado.

— A água está uma maravilha. — disse ele, espetando a prancha na areia.

Carlinhos pegou na sua toalha e estendeu-a ao lado de Xana. A seguir, deitou-se a secar a água salgada que trazia no corpo. Porém, não ficou quieto muito tempo. Ainda mal seco, colocou-se sobre Xana e começou a beijá-la e a acariciá-la.

Eu abstrai-me do assunto e continuei a disfrutar do Sol. Só que os meus ouvidos continuavam a captar o som dos seus beijos.

Estiveram a deliciar-se, mutuamente, durante uma hora. E eu, já contava mentalmente ovelhas, vacas, éguas, grãos de areia... Tentava não os ouvir, pois isso estava a enlouquecer-me. Tive mesmo que ficar virado de costas para o Sol, sob perigo de acertar em alguma avioneta publicitária.

A certa altura, Carlinhos e Xana levantaram-se e ele disse:

— Nós vamos dar uma volta.

— Está bem. — disse eu, com os olhos semi-abertos, devido ao Sol.

Os dois foram até às dunas. Eu fiquem a vê-los, até ambos desaparecerem entre elas. — Todos sabemos o que eles iam fazer. — Depois, continuei deitado a bronzear a pele.

No entanto, não deixava de pensar no que eles tinham em mente, ao dirigirem-se para as dunas desertas. Mas, o meu pensamento foi interrompido pela voz de Patricia:

— Marco! Podes pôr-me creme nas costas?

— Posso. — respondi eu.

Levantei-me, peguei no frasco com protector solar e pus um pouco na mão. A seguir, coloquei as mãos sobre as costas de Patricia e comecei a esfregá-las com o creme.

As minhas mãos alastravam o creme pelas costas dela, mas a minha cabeça mantinha-se curiosa relativamente a Carlinhos e Xana.

Quando acabei, Patricia virou-se de costas para a toalha e pediu:

— Podes pôr-me, um pouco, no peito?

Eu, continuando a olhar para as dunas, nem percebi bem a pergunta e entreguei-lhe o frasco, dizendo:

— Põe tu que eu tenho de ir dar uma volta.

Patricia irritada, depois de eu me afastar, atirou com o frasco para longe. Estava furiosa por não conseguir os seus intentos. Ela já deveria estar a considerar-me algo "abichanado".

Quanto a mim, tinha que satisfazer a minha curiosidade. Por isso, caminhei até às dunas para os ver. Procurei por entre os montes de areal, até os encontrar.

Carlinhos e Xana estavam escondidos entre duas dunas. Ela estava deitada de costas, liberta do biquini e gemendo em voz baixa para não atrair atenções. Ele estava sobre ela, com os calções ao fundo do rabo e fazendo movimentos ascendentes e descendentes entre as pernas dela.

Vê-los assim, excitava-me cada vez mais. Como eu gostava de estar no lugar dele. Que sorte ele tinha em estar ali assim com ela. Eu estava prestes a explodir.

Antes que eles me vissem, afastei-me. Regressei à minha toalha, sempre a pensar no que vira.

Quando cheguei perto de Patricia, olhei para ela e sentei-me na minha toalha. Continuei a olhar para ela, só que naquele momento estava tão alterado, devido ao que vira, que também desejava possuí-la.

Ela, sentindo novamente a minha presença, levantou-se, ajoelhou-se à minha frente e muito frontalmente, perguntou:

— Eu não te atraio?

Eu estava tão possesso de excitação que perante uma pergunta tão directa, dei uma resposta, ainda mais, directa. Puxei-a para mim e beijei-a na boca.

Ficámos deitados na areia a disfrutar dos nossos corpos, até o desejo ser tão grande que acabámos por ir para as dunas, fazer o mesmo que o Carlinhos e a Xana.

No entanto, devo confessar um segredo. Enquanto estava a fazer sexo com Patricia, imaginava que o fazia com Xana.

Mas Patricia também não era nenhuma menina de coro. Apesar de ter somente dezoito anos, ela demonstrou-se mestrada no que estávamos a fazer.

Quando regressámos ao nosso pequeno acampamento, já Carlinhos e Xana lá estavam. Ao ver-nos chegar, Carlinhos sorriu para mim como quem vencera uma aposta. Parecia dizer: “Não querias, mas foste.”

Eu olhei para o relógio e vi que já eram 14h30. E, lembrando-me do que o resto do dia me reservava, disse:

— Vamos embora.

— Já? — interrogou Carlinhos, à espera que eu dissesse que não.

— Sim, agora. — confirmei eu. — Tenho coisas para fazer e preciso de regressar.

Carlinhos chamou Xana, conversou alguns minutos com ela e depois disse:

— Nós ficamos. Depois, regressamos de autocarro.

— Está bem. Então, vou andando. — disse eu, pegando nas minhas coisas.

Patricia, que desde que viéramos das dunas não pronunciou uma palavra, disse:

— Espera! Eu vou contigo. Podes deixar-me na estação?

— Está bem. Mas despacha-te. — concordei eu.

Enquanto esperei por ela, Carlinhos e eu afastámo-nos um pouco, pois ele quis falar comigo.

— Então? Não querias...!? — gozava ele.

— Não me chateies. — interrompi eu.

— Agora a sério. — continuou ele. — Que tal é ela?

A conversa estava a cansar-me e para evitar que nos desentendêssemos, disse:

— Depois falamos.

Entretanto, já Patricia tinha vestido o top amarelo e os calções. Estava a despedir-se da irmã, segurando os ténis na mão.

Feitas as despedidas, Patricia e eu regressámos ao parque, onde eu deixara o carro. Ela não falava comigo. Não entendia porque ela o fazia. Mas, também não me interessava por entender. Estava mais preocupado em me ver livre dela.

Fizemos o trajecto de retorno, ao som do rádio e sem trocar uma sílaba. Naquela altura, não compreendia o porquê do silêncio. Estava assim, desde que havíamos terminado o sexo nas dunas.

Quando parei em frente à estação, Patricia abriu a porta e saiu. Depois, fechou-a, inclinou-se sobre o vidro e disse:

— Quando voltares a fazer amor com uma mulher, não lhe chames o nome da irmã.

As suas palavras surpreenderam-me de tal forma que levei alguns segundos a compreendê-las. Quanto a ela, foi-se embora depois de as pronunciar.

Dentro do carro, fiquei a pensar no que fizera. E isso, fez-me sentir um animal. O que é que me passou pela cabeça para ter feito o que fiz? Eu também não gostava de estar com uma mulher e ela chamar-me "Manuel" ou "Francisco". Sentia-me mal com a minha consciência.

Como era o culpado, era eu que tinha de tomar uma atitude. Saí do carro e corri para o interior da estação. Lá dentro, Patricia esperava o comboio, sentada num banco e com a cabeça sobre as pernas. Conforme me aproximava, apercebi-me que ela estava a chorar. E saber que era o culpado daquele choro, dilacerava-me o coração.

— Patricia! — chamei eu.

Ela olhou para mim com olhos inundados de lágrimas e de raiva e perguntou:

— Que é que queres? Deixa-me em paz!

Eu ajoelhei-me em frente às suas pernas e pedi:

— Patricia, perdoa-me!

— Não! Jamais te vou perdoar. — afirmou ela com a voz trémula de uma mistura de mágoa e raiva. — Eu só queria curtir. Não esperava de ti nenhum compromisso. Mas, entregar-me a ti, sentindo prazer em curtir contigo e tu estares a pensar noutra... Não, isso eu não posso perdoar.

Antes que eu pudesse argumentar alguma coisa, o comboio chegou e ela entrou para o seu interior.

Ainda fiquei a vê-la partir. Mas não pronunciei qualquer palavra.

Não estava apaixonado, nem a amava. Mas, a dor que lhe causara fazia-me ficar triste e mal comigo mesmo. Tinha actuado de forma condenável e penitenciava-me por isso.

Nunca mais vi Patricia. O dia em que a conhecera fora também o único em que a vira. No entanto, ela ensinou-me uma grande lição. Uma lição que ainda hoje recordo.

Após a partida do comboio, deixei a estação e regressei ao carro. Dirigi-me a casa para tomar banho e comer. Mas, a imagem de Patricia a chorar permanecia cravada na minha memória. Parecia que tinha o estômago às voltas, indisposto comigo mesmo.
 

Depois de comer, fui para a sala ver televisão. Sentado no sofá, vi a final da Taça de Portugal em futebol, entre o Marítimo e o Sporting. Já foi há tanto tempo que nem me lembro quem ganhou.

Por volta das 18h30, saí de casa, meti-me no carro e arranquei para o Estádio 1º de Maio, onde combinara encontrar-me com Rafaela.

Como não havia lugares junto aos portões, estacionei nas traseiras, junto à bomba de gasolina. Tranquei o carro e entrei pelo portão secundário do complexo desportivo.

Calculando que ela viria por ali, esperei junto aos campos de ténis. Ela apareceu, minutos mais tarde.

— Vá lá, hoje vieste. — disse ela, passando por mim.

Eu segui atrás dela, mas não dei resposta ao que dissera.

Atravessámos as instalações e parámos junto aos balneários. Rafaela pousou o saco no chão e disse:

— Vou mudar de roupa, já venho.

Eu acenei afirmativamente com a cabeça e fiquei à sua espera na relva. Como já vinha equipado não precisava de mudar de roupa. Mas, mentalmente, estava sem paciência para aquilo.

Rafaela não demorou muito. Saiu dos balneários com o seu horrível fato de treino e com uma bola de volei na mão.

— Vamos? — interrogou ela com um sorriso.

— Vamos... — respondi eu, como se caminhasse para a forca.

Começámos por correr à volta do estádio. Ao fim de três voltas, ao ritmo dela, eu já estava arrebentado. E ainda faltavam mais sete.

Acabei por ficar para trás, terminando a dezena de voltas muito depois dela.

Suado e estoirado, passei à fase seguinte. Durante uma hora, treinámos com a bola de volei. Passes, remates, manchetes, serviços... Passei mais tempo atrás da bola do que a jogar com ela.

Quando terminámos, Rafaela expôs as suas ideias:

— Não estás muito em forma. Amanhã, tens que fazer melhor.

— Arranja outro! — exclamei eu, indiferente ao que ela dissera.

Rafaela olhou para mim, com um ar muito sério e questionou:

— Marco! Isto para ti é uma brincadeira, não é?

— Não é isso...

— Vai-te embora! Não queres jogar, eu também não te obrigo. — continuou ela, completamente alterada.

As palavras dela, fizeram-me ver conscientemente a parvoíce que estava a fazer. Com a cabeça no lugar, voltei atrás:

— Não, espera! Eu continuo.

— Não preciso que me façam favores. — afirmou ela, virando-me as costas.

— Espera... — pedi eu, segurando-lhe o braço.

Rafaela virou-se e atirou-me com a bola, acertando-me em cheio na cara e derrubando-me ao chão.

Meio tonto, reparei que ficara a sangrar do nariz. Puxei da fralda da camisola e tapei-o. Ela, vendo o que fizera, aproximou-se de mim.

— Marco, desculpa. Eu não queria... — pediu ela, tentando auxiliar-me.

Eu estendi o braço para que ela se afastasse e disse:

— Amanhã, estou cá à mesma hora. Se quiseres que eu continue a ser o teu par, aparece.

Com aquelas palavras, abandonei-a e regressei ao carro. Rafaela ficou muito arrependida. Eu sabia que ela não o fizera intencionalmente. E eu tinha, em parte, sido responsável pela sua atitude. No entanto, deixei que ela se sentisse culpada.

Dentro do veículo, limpei o nariz com um lenço que trazia no porta-luvas. Felizmente, o sangue já tinha parado. Mas, a minha camisola ficara com uma enorme mancha vermelha.

O céu começava a ficar com aquela cor de fim de dia. Liguei o motor do carro e parti para casa. E, àquela hora, ainda apanhei algum trânsito na Avenida de Roma.

Quando cheguei a casa, cruzei-me com os meus pais que ficaram aterrorizados com a mancha na camisola.

— O que é que aconteceu? — perguntou, em pânico, a minha mãe.

— Não é nada de grave. — disse eu, sorrindo para a descansar.

O meu pai aproximou-se, colocou a mão no meu ombro e, com ar preocupado, perguntou:

— Como é que fizeste isso?

— Caí, quando estava a jogar. E bati com o nariz no chão. — contei eu.

Não havia necessidade de relatar o que se tinha passado. Por isso, preferi contar uma pequena mentira para os descansar. Não queria que eles ficassem a antipatizar com Rafaela.

Eles ficaram descansados e eu fui tomar um banho. Já era o terceiro, naquele dia. Enquanto me libertava do suor, debaixo do chuveiro, lembrava-me de Rafaela e sentia remorsos por ter sido tão duro com ela. Mas, simultaneamente, a situação agradava-me, pois deixava-me em vantagem sobre ela.

Com o passar das horas, aproximava-se a altura de ir buscar Guida ao aeroporto. Para o reencontro, vesti umas calças de ganga preta e a minha melhor camisa. Calcei uns sapatos pretos de camurça e banhei-me em perfume.

Saí de casa às 23h00 e, em menos de meia hora, estava perto da porta de desembarque do aeroporto. Donde estava, podia ver o quadro electrónico com a indicação das partidas e chegadas.

Passaram cerca de quarenta e cinco minutos até aparecer no quadro a indicação de que o avião proveniente de Sidney acabara de chegar. Mas, antes de chegar até mim, Guida ainda tinha que passar pelas etapas próprias de um desembarque, o que levou mais meia hora.

Quando a vi, reconheci-a imediatamente. Tinha um ar mais maduro, resultante dos seus trinta anos, mas conservava a beleza que tanto a caracterizava.

Contudo, fiquei surpreendido ao vê-la. Guida amparava no braço esquerdo, um bebé de poucos meses e vinha acompanhada por um homem alto e alourado.

Mal saiu a porta de desembarque, Guida reconheceu-me e dirigiu-se a mim, abraçando-me com o braço que trazia disponível. Um abraço muito apertado, próprio de quem já não se via há muito tempo.

— Marco, é tão bom voltar a ver-te. — disse ela, beijando-me fraternalmente na face.

— Eu também estou muito feliz por te voltar a ver. — afirmei eu, ainda sem compreender algumas coisas.

— Marco, apresento-te o meu marido, Mike Greenland. — apresentou ela, vendo o meu ar surpreso.

Eu apertei-lhe a mão, com um sorriso amarelo e quase sem olhar para ele.

A seguir, olhei para o bebé.

— Esta é a minha filha Rebecca. — informou ela, satisfazendo a minha curiosidade.

— Que idade tem? — perguntei eu, fazendo uma festa nas suas mãozinhas.

— Seis meses. — respondeu Guida.

Após o pequeno diálogo, deixámos o aeroporto. Fui levar Guida e a sua inesperada família ao Hotel Roma, onde tinham reservado um quarto.

Durante o trajecto, eu parecia o motorista que levava os patrões a passear, pois a família Greenland ia toda no banco traseiro.

Enquanto conduzia, pensava na desilusão que sentia, ao ver a mulher que tanta paixão me despertava, casada com outro e já com uma filha. Fiquei completamente desmoralizado.

Chegados ao hotel, Mike saiu primeiro, dirigindo-se à recepção. Guida foi posteriormente, acompanhada por mim.

— Por que é que não me contaste que tinhas casado, quando me telefonaste? — perguntei eu.

— Não sabia como receberias a notícia. Por isso, preferi dizer-te pessoalmente. — explicou ela. — Achei que seria a melhor solução.

— Achaste mal! — afirmei eu, com um olhar triste.

— Tive medo que a notícia acabasse com a nossa amizade. — justificou Guida.

— Devias ter confiado em mim. — contrapus eu.

Antes que pronunciássemos mais alguma palavra, passou por nós o empregado do hotel para carregar a bagagem. E atrás dele, veio o marido de Guida que lhe disse em inglês que estava tudo tratado.

Já era madrugada quando me apercebi das horas. Dei um beijo a Guida, despedi-me do seu marido com um acenar de mão e regressei ao carro.

— Vem ter comigo amanhã para conversarmos melhor. — pediu ela, antes de eu entrar no carro.

Não respondi ao seu pedido, mas olhei para ela em sinal de concordância.

Nesse momento, vendo aquele retrato familiar, vi que perdera definitivamente a mulher por quem estava apaixonado. E isso deprimia-me imenso.

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