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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO X

O mês de Julho desse ano foi inesquecível. Nunca na minha vida me sentira como naquela altura. Estava apaixonado, mas incapaz de o confessar à pessoa amada.

Passava os dias a pensar nela, acordava a pensar nela e adormecia com ela no pensamento. No entanto, na sua companhia não tinha coragem de lhe confessar esse amor, com medo de ser rejeitado. Por vezes, preferimos a eterna esperança de um amor platónico, à cruel realidade da rejeição.

Só por uma vez, senti algo parecido. Foi quando me apaixonei por Guida. Porém, nem esse sentimento era tão forte como aquele que me ligava a Rafaela.

Apesar da estranha vantagem do platonismo, eu não me sentia feliz. Sentia a necessidade da consumação da paixão, em algo palpável. Algo real e não a mera ilusão do que poderia ser.

Tinha vontade de espalhar pelo mundo a notícia do meu amor por Rafaela. Mas, que amor era esse, se a própria pessoa amada não tinha conhecimento dele?

Depois de muito pensar e quase andar a cabecear as paredes, resolvi-me a fazer alguma coisa. E foi com essa intenção que cheguei ao dia 3 de Julho, uma Segunda-Feira.

Mesmo sendo Verão, o dia estava fresco e o céu não convidava a iniciativas veraneantes. Por isso, combinei com Rafaela que o treino se faria no Estádio 1º de Maio.

Durante uma hora, pela manhã, lá treinámos rotineiramente. E no fim, iníciou-se o meu pensado e repensado plano. Tinha feito um esforço tão grande para memorizar o que havia de dizer que, quando chegou a altura, fiquei completamente bloqueado.

— Então, ias a dizer alguma coisa? — perguntou, com estranheza, Rafaela.

Eu vi-me obrigado a abandonar as frases planeadas e partir para o improviso:

— Ia fazer-te uma pergunta.

— Diz lá! — pediu ela, como se concedesse uma entrevista.

Com a voz trémula, prossegui:

— Se te convidasse para sair, aceitavas?

— Em principio... — respondeu ela. — Já tenho saído contigo. Temos ido à praia.

— Sim! — continuei eu. — Mas, eu falo de uma saída de amigos. Algo feito por prazer e não pela obrigação de treinar.

— Não sei... — disse ela.

Com o medo aterrorizante de poder ouvir uma resposta negativa, enchi-me de coragem e convidei:

— Queres ir ao cinema, hoje à tarde?

— Hoje não posso. — informou ela.

"Hoje não posso" era uma frase que me enervava. Era a resposta habitual aos meus convites. Era a melhor forma de recusar sem justificar. Era simples, fria e desencorajava novos convites.

No entanto, naquela manhã, não aguentei e disse:

— Já vi que entre nós, os encontros limitam-se a treinos. Começo a concluir que estava errado, ao pensar que éramos amigos.

— Também não é bem assim... — contrapôs ela.

— Achas que não? — insisti eu, irritado. — Quantas vezes nos encontrámos, sem ser pela porcaria do volei?

Rafaela não deu resposta. O seu silêncio estava em concordância com a minha opinião. Ainda tentou proferir algumas palavras para argumentar em seu favor, mas não lhe saiu nada de concreto. Parecia, mesmo, não se importar comigo ou com os meus sentimentos, por mais simples que fossem.

Perante tanto desinteresse pela minha presença, afastei-me dela sem me despedir. Senti que me afastava para não a voltar a ver. Tudo o que sentira, naquele momento, foi demasiado complexo para exprimir em palavras.

Ao chegar a casa, com a tristeza na alma, fui confrontado pelos meus pais. Esperavam-me para me comunicar uma decisão.

— Vamos partir de férias. — informou a voz paterna.

— Sim! Vamos passar um mês à Madeira. — confirmou a voz materna.

O meu pai olhou para mim e, sorrindo, disse:

— Vamos aproveitar estes dias para fazer uma segunda lua-de-mel.

A minha mãe sorriu, igualmente, motivada pela alegria da ideia. Depois, mais séria, questionou:

— Tu e a tua prima ajeitam-se sem nós?

— Podem ir descansados. Nós cá nos desenrascamos. — afirmei eu, partilhando os seus sorrisos.

— Bom! — continuou o meu pai. — Nós partimos amanhã de manhã.

Eu acenei, afirmativamente, com a cabeça e segui para o meu quarto.

Antes do almoço, só tive tempo para um banho. A seguir, lá estávamos todos à mesa para digerir a refeição.

Após o almoço, aconteceu uma surpresa. O meu telemóvel tocou e do outro lado da linha estava Rafaela.

— O convite para o cinema, ainda se mantém? — indagou ela.

— Se quiseres? — disse eu, friamente.

— A que cinema vamos? — perguntou ela, entusiasmada.

— Pode ser ao Quarteto. — sugeri eu. — O que fica ao pé de ti.

— Está bem. — concordou ela. — Encontramo-nos à minha porta.

Estando ambos em concordância, o encontro ficou combinado para as três horas da tarde.

Na minha cabeça, edificara-se a duvida de tão súbito interesse pelo cinema. Mas, sem avançar mais na história, devo dizer que a duvida era despropositada.

Antes de sair, arranjei-me o melhor possível e fui ao seu encontro. Finalmente, poderia disfrutar de alguns momentos com Rafaela, sem ter de atirar bolas pelo meio.

Enquanto caminhava pela Avenida de Roma, pensava no cinema, pensava onde a levar depois e pensava, quem sabe, em confessar-lhe o que sentia por si.

A cada passo, o meu ego aumentava só de pensar naquele encontro.

Aumentava o ego e o nervosismo, pois quando se ama, tem-se medo de falhar e deitar por terra um relacionamento tão desejado. Daí, o aumento do nervosismo.

No entanto, a minha mente estava longe do que, realmente, se viria a passar.

Ao chegar ao seu prédio, vi Rafaela acompanhada de outra rapariga e ambas se despediam de um indivíduo que trazia um dos braços amparados no peito e envolvido em gesso.

Ao aproximar-me, houve ainda tempo para as apresentações. Rafaela informou-me de que se tratava do seu primo, o tal que jogava com ela e que eu estava a substituir, de seu nome Tiago.

Ele cumprimentou-me com frieza e despediu-se delas.

Depois, apresentou-me a sua amiga. Uma jovem de vinte e dois anos, ruiva de olhos escuros. Era notoriamente mais baixa que Rafaela e chamava-se Liliana. Não era espampanante, mas vestia-se muito femininamente, ao contrário do que fazia Rafaela.

Dirigimo-nos ao cinema em silêncio, sem dizer uma palavra. Para mim, o encontro estava gravemente comprometido, devido à presença de Liliana que eliminava, por completo, os meus planos.

Sem que se notasse, ia bastante aborrecido com tudo aquilo. A minha vontade era ir-me embora e deixá-las ali sozinhas. Sentia-me atraiçoado nos meus planos.

Rafaela e Liliana dialogavam entre si, deixando-me muitas vezes à parte.

Ao recordar-me disto, lembro-me que aos meus olhos, parecia que estava a ser levado ao cinema, em vez de ser eu a levá-las lá.

Naquela tarde, nada parecia correr bem. O filme demorou mais de três horas e não valeu nada. Já nem me lembro do filme, mas sei que não me deixou boas recordações, na altura.

No fim da sessão, ambas se despediram de mim, como se finalmente tivessem cumprido uma penosa tarefa.

Completamente frustrado com o encontro, regressei a casa.

A minha vontade era nunca mais ver Rafaela. Só que a paixão era mais forte e, por vezes, mais do que a própria razão.

À noite fui falar com o meu "confessor", com a pessoa que melhor me aconselhava, o meu grande amigo Bento. Os sentimentos de Rafaela eram, cada vez mais, uma incógnita para mim. Por isso, precisava de uma opinião, de alguém de fora. Sendo assim, depois do jantar, lá fui a casa de Bento. Fui recebido por Madalena que me encaminhou até à sala, onde ele estava.

— Então, como estás? — perguntou ele, apertando-me a mão.

— Mais ou menos... — respondi eu.

Bento olhou para mim e disse:

— Pela tua cara, algo não vai bem.

— Lá isso é verdade. — confirmei eu. — Foi por isso que vim até cá.

Bento percebeu, imediatamente, o porquê da minha visita e convidou-me a sentar e a contar o que se passava.

Enquanto Madalena arrumava a cozinha, eu contava a Bento, tudo o que se passara nessa tarde.

— Tu estás completamente apaixonado por ela. — deduziu Bento.

— Olha, conta outra que essa já eu sei. — disse eu, num misto de aborrecimento e tristeza.

— Desculpa! — pediu Bento. — Não era para te aborrecer.

— Não, eu é que te peço desculpa. — contrapus eu. — Tudo isto me está a enlouquecer.

— O que precisas é de a conquistar. — exprimiu ele.

— E como? — interroguei eu.

— Sei lá. Faz algo romântico. — sugeriu ele.

— E o quê? — reinterroguei eu.

— Isso não sei. Tu é que tens de descobrir. — justificou ele.

Sem que déssemos por isso, a nossa conversa estendera-se pela noite. Quando olhei para o relógio, os ponteiros já passavam a meia-noite. Carregando na mente os conselhos de Bento, despedi-me dele e de Madalena e deixei a sua casa, regressando à minha.

Quando cheguei, já todos tinham recolhido aos seus quartos. O silêncio reinava no ambiente, provocado pelo sono de todos, ao qual eu me aliei depois de me deitar.

Na manhã seguinte, tive de me levantar cedo para levar os meus pais ao Aeroporto da Portela, onde eles iriam apanhar o avião que os transportaria ao Funchal.

Com as malas carregadas, partimos da nossa casa às 08h00. Eu a conduzir, o meu pai ao meu lado, a minha mãe e Mónica atrás.

Chegados ao aeroporto, foi necessário cumprir as etapas obrigatórias a quem deseja viajar de avião. Como o vôo estava atrasado, só às 10h30 é que os meus país partiram. Depois de nos despedirmos, telefonei a Rafaela para a avisar que não havia treino naquele dia e expliquei porquê, o que ela compreendeu.

Claro que se eu quisesse, poderia ter havido treino. Era uma questão de combinar para a tarde, em vez de ser de manhã. Só que a mágoa para com ela, devido ao último encontro, fazia-me optar por um ligeiro afastamento.

Em consequência disso, acabei por passar o resto do dia sozinho, pois Mónica teve de tratar de uns assuntos na embaixada francesa e só regressou ao fim da tarde.

Quando chegou, Mónica pediu-me para pôr a mesa, enquanto ela fazia o jantar. Executada a tarefa que me pedira, sentei-me no sofá e esperei por ela.

Mónica saiu da cozinha e disse:

— O jantar está pronto! Vou mudar de roupa e depois jantamos.

O "mudar de roupa" provocou-me algumas interrogações. Não compreendia o porquê de tal atitude. Mas, a resposta chegou com Mónica. A minha prima vinha, mais uma vez, vestida com grande sensualidade. Não a vou descrever, pois não fugia ao que era habitual.

Jantámos sossegadamente e conversámos sobre os mais variados assuntos.

Eu fingia não perceber a intensão de Mónica que se resumia a um desejo: Fazer amor comigo.

No fim da refeição, sentei-me no sofá e ela sentou-se a meu lado.

— Mónica, pára com isso! — ordenei eu.

— Quoi? — indagou ela.

— Tu sabes! — respondi eu.

Mónica levantou-se e afastou-se até à mesa.

Eu fiquei a olhar para ela. Desejava-a tanto quanto ela me desejava a mim. Mas, não esquecera que ela era minha prima. E o amor por Rafaela também me privava de saciar esse desejo.

Mónica voltou ao sofá, empurrou-me de forma a estender-me ao comprido e deitou-se sobre mim, beijando-me apaixonadamente. Eu estava quase a ceder e as forças faltavam-me (não por ela ter mais força, apenas porque a atracção começava a enfraquecer-me). Porém, num último esforço, empurrei-a para me libertar.

Em resultado disso, Mónica caiu ao chão e bateu com as costas numa cadeira.

— Desculpa Mónica, não foi por mal. — pedi eu.

Mónica, com a cara a reflectir a dor e com a mão direita sobre o local atingido, disse:

— Merde! Tinhas necessidade disto?

— Já te pedi desculpa. — insisti eu.

Mónica levantou-se e foi para o quarto, sem mais nenhuma palavra para comigo.

Cansado, também eu recolhi ao meu quarto. Já não era propriamente cedo.

Quando estava apenas em cuecas, Mónica entrou no meu quarto. Os meus olhos nem queriam acreditar no que viam. Mónica, semi-nua, ornamentava o corpo com uma sexy lingerie azul escura, composta por um soutien, umas cuequinhas em renda e umas meias pretas transparentes subidas até meio das coxas e presas por duas molas cada, vindas de um cinto de ligas que usava.

Ela estava irresistivel. Por mais que tentasse, não era de ferro e tornou-se impossivel resisitir-lhe. Mal entrou, abraçou-me e começou a beijar-me, ao que eu respondi da mesma forma.

Depois, Mónica deitou-se na cama e esperou que eu a acompanhasse. Porém, dois motivos me faziam hesitar: Primeiro, o amor por Rafaela. Segundo, o ser completamente inexperiente no que diz respeito a fazer amor com uma virgem. Que raio, parecia que a palavra “virgem” não me saia da cabeça.

A seguir ao que se passara no dia anterior, o primeiro foi facilmente ultrapassado. Quanto ao segundo, com Mónica não haveria de ser muito diferente de como fora com outras.

Sendo assim, pus-me completamente nu e deitei-me sobre a minha prima. Estávamos ambos muito excitados. Enquanto a beijava, ia-a libertando da roupa que trazia até ela ficar como eu. Beijámo-nos, acariciámo-nos... até ficarmos tão excitados que já só havia um caminho a seguir. Com toda a ternura, deitei-a o mais confortavelmente possível e comecei a preparar a entrada ao acto tão desejado.

Mónica, ofegante, facilitava a minha colocação entre as suas pernas, abrindo-as o mais que podia. Completamente excitado, mas com todo o carinho comecei a desbravar o caminho, onde jamais alguém estivera, com a minha masculinidade.

Ao sentí-lo, Mónica vassilava e fechava ligeiramente a passagem.

Eu voltava a beijá-la e descontraia-a, de forma a facilitar as coisas.

Após várias insistências e algumas dificuldades, comecei a sentir que estava no bom caminho. Só que, a certa altura, o caminho parecia bloqueado. Era o sinal que tinha chegado a “mares nunca dantes navegados”.

Consciente da missão que me esperava, abracei-a, coloquei a sua orelha direita entre os meus dentes e mordi-a, ao mesmo tempo que forçava a passagem entre as suas pernas, com toda a força e meiguice disponíveis.

A dor na orelha foi tão grande que Mónica nem sentiu a outra, provocada pela sua defloração. No entanto, o passar dos segundos, ia substituindo a primeira pela segunda. Dentro dela, comecei a dar-lhe prazer, movendo-me, compassadamente, entre as suas pernas.

Passada a dor, só o prazer era sentido. Foi uma noite maravilhosa, onde nos esgotámos a fazer amor. Findo aquele acto de paixão, acabámos por adormecer entre os mesmos lençois, onde o inferior tinha bem visiveis a marca da perda da virgindade de Mónica.

Foi a única vez que o fizemos. Mónica acabou por perder a obsessão que tinha por mim e o seu coração ficou aberto a novos amores. Até porque o seu amor não era correspondido por mim, que continuava apaixonado por Rafaela.

No dia seguinte, quando acordei, Mónica já não se encontrava na minha cama. Nem tão pouco, em casa. Deixara-me um bilhete a dizer que ia sair para tratar de uns assuntos.

Ainda ensonado, fui completamente despertado pelo som do telemóvel, a tocar.

— Marco? — perguntou a voz de quem me ligava.

— Sim! — respondi eu, atordoado. — Quem fala?

— Sou eu, a Rafaela. — informou ela.

— Desculpa, não te reconheci a voz. — justifiquei eu.

Após os cumprimentos da praxe, a conversa continuou:

— Hoje vamos treinar? — perguntou ela.

— Na praia? — interroguei eu.

— Sim! Se não te importares. — sugeriu ela.

— Não, tudo bem. — confirmei eu. — Vou buscar-te daqui a uma hora.

Sem mais assunto para além do volei, o que era habitual entre nós, desligámos. E eu dei início à rotina matinal.

Uma hora mais tarde, lá estava eu à porta de Rafaela.

Rafaela já me esperava, junto à porta, vestida como era costume.

Ao entrar no carro, colocou o saco no banco de trás e cumprimentou-me com um beijo na face. Fizemos o caminho até à praia, sem grande troca de palavras. A mim não me apetecia conversar e Rafaela também não insistiu muito. Porém, não deixou de estranhar o facto.

Quando chegámos à praia, ambos cumprimos a rotina dos treinos, parando momentâneamente para um mergulho no mar. Rafaela olhava para mim, como que interrogando a minha frieza para consigo, nessa manhã. No entanto, não tinha coragem para me confrontar com o assunto.

Por volta das 14h00, abandonámos a praia e regressámos a Lisboa. Mais uma vez, um trajecto em quase total silêncio.

Quando parei junto à porta do seu prédio, Rafaela despediu-se de mim com um beijo, mas hesitou em sair do carro.

Ganhou coragem, olhou-me nos olhos e indagou:

— O que tens?

— De quê?... — questionei eu, como se não percebesse.

— Não sei. Estás estranho, hoje. — disse ela. — Quase não falaste o tempo todo.

— Não é nada! — respondi eu, friamente.

Rafaela não disse nada, esperando que eu adicionasse mais alguma palavra à oração. Mas eu continuei silencioso.

Perante isto, Rafaela voltou às perguntas:

— É alguma coisa contra mim?

Eu não respondi, limitando-me a olhá-la com um olhar de raiva que escondia um coração magoado, o que significava um "sim" à sua pergunta.

— Se é, diz-me! — insistiu ela.

— Não quero falar nisso. — interrompi eu. — Até amanhã!

Com tanta frieza, Rafaela saiu do carro sem proferir qualquer palavra. Mas, antes de fechar a porta, inclinou-se para o interior e disse:

— Se por acaso tiveres duvidas, digo-te que te considero meu amigo. E mesmo não sabendo do que me acusas, se algum mal te fiz, desde já te peço perdão.

E com aquela frase, fechou a porta e correu para casa. Não me deixando qualquer hipótese de resposta.

Era a primeira vez que a ouvia expressar um sentimento para comigo. E esse facto, pareceu-me tão irreal que tive necessidade de o confirmar. Por isso, saí do carro e chamei-a.

Rafaela olhou para trás, esperando as minhas palavras.

— Isso é verdade? — questionei eu.

— O quê?

— Seres minha amiga?— esclareci eu.

Rafaela deu dois passos à frente e afirmou:

— Não só sou tua amiga, como tu és... o meu único amigo.

Aquelas palavras eram tão inesperadas que fiquei aparvalhado e não disse mais nada. Quanto a Rafaela, receosa do resultado das suas confissões, refugiou-se no interior do prédio.

Regressado à realidade, dei por mim repleto de felicidade. A amizade era o primeiro passo para chegar ao meu objectivo principal, conquistar o coração de Rafaela.

Enquanto me dirigia a casa, pensava como fora burro, em não a ter convidado para sair à tarde, de forma a explorar aquele assunto. Mas, nem mesmo isso diminuia a minha felicidade. As palavras de Rafaela tinham-me feito perdoar-lhe todas as suas atitudes que me haviam magoado.

No entanto, nem tudo estava tão bonito como parecia. Irreflectidamente, encarei a amizade de Rafaela como uma declaração de amor. Na minha mente ingénua, parecia só haver um caminho possível no nosso relacionamento. O caminho para o amor.

Mas, como já disse, nem tudo era o que parecia.

Depois de almoçar, ainda persistia na minha cabeça a ideia de a ver naquele dia. Sem coragem para lhe telefonar e convidá-la, optei por ir passear para a Avenida de Roma, fazendo-me encontrado caso a visse.

Com esse pensamento, sai de casa e lá fui. Caminhei até à estação de Metro de Roma, onde encontrei Humberto que saia dela.

— Por aqui?... — indaguei eu.

— É verdade! — respondeu ele. — Vou ali abaixo, entregar uma encomenda.

— Andas a trabalhar? — questionei eu.

Humberto sorriu e apressou-se a explicar:

— Não! Estou a fazer um favor à minha tia que me pediu para entregar isto.

— Fazes bem! — concordei eu.

— Ouve, isto não demora muito. Se quiseres, podiamos ir beber qualquer coisa, depois.

Eu concordei e ficámos de nos encontrar na esplanada do café que ficava na esquina da Avenida de Roma com a Rua Frei Amador Arrais.

Enquanto ele foi fazer a entrega, eu fui até ao Centro Comercial Roma para comprar o jornal. A seguir, desloquei-me ao café onde haviamos combinado. Até àquela altura, nem sinal de Rafaela.

Provavelmente não saiu de casa, pensei eu, enquanto caminhava.

Ao chegar à esplanada, já Humberto me esperava numa mesa, junto aos vidros. Sentei-me e pedi um café.

Humberto falava a maior parte do tempo, sobre assuntos que, sinceramente, não me ficaram gravados na memória, uma vez que a minha atenção se virava para a rua, na esperança de encontrar Rafaela.

No entanto, ele passou a um assunto a que eu tive, obrigatoriamente, de prestar atenção.

— Como está a tua prima? — perguntou ele.

— Está bem. — respondi eu, sabendo que o tema não acabaria ali.

— Sabes? Não consigo deixar de pensar nela. — afirmou ele.

— Acredito. — disse eu. — Mas, já te disse que ela não está interessada em ti.

— E se tu... — sugeriu ele.

— Não me metas nisso! — interrompi eu, imediatamente.

Humberto calou-se e ficou a pensar para consigo. Entretanto, a minha atenção voltava à rua. Um minuto mais tarde, os meus olhos foram surpreendidos por uma das últimas coisas que eu desejaria ver na minha vida. Do outro lado da avenida, passeava Rafaela de mão dada com um indivíduo que reconheci como sendo o seu primo Tiago, o tal que me fora apresentado dois dias antes.

A visão chocou-me profundamente. Sentia-me mesmo traído por Rafaela. Absurdamente, via-me como o marido confrontado com a visão da mulher com o amante.

Eles atravessaram a avenida, passaram em frente ao café (sem me verem) e seguiram rumo à Avenida Estados Unidos da America.

Só quando sairam do meu campo de visão, é que a minha mente voltou a ter consciência da realidade à sua volta. E dei por mim, completamente abalado.

Humberto não deu por nada e ia proferindo algumas palavras, às quais não dei atenção.

Durante o restante tempo que fiquei ali, a minha mente passava e repassava aquela imagem e obrigava-me a tirar uma conclusão: Rafaela namorava com o seu primo Tiago.

O facto de me ver fora do seu coração e ver o lugar que eu queria, ocupado por outro, deixava-me muito deprimido. Sem mais paciência para conversa, despedi-me de Humberto e regressei a casa pelo mesmo caminho que me trouxera.

Caminhava inconsciente ao caminho, pois continuava a ver a imagem de Rafaela e Tiago a passear de mão dada. O meu coração estava despedaçado. Aquela visão fez-me acordar para a triste realidade de que entre mim e Rafaela não existia mais do que uma simples amizade. A mágoa também morava no meu espírito, pois não equacionava a hipótese de substituir Tiago no coração de Rafaela.

Chegado a casa, cruzei-me com Mónica que já lá estava. Desalentado, procurei algum carinho nos seus braços. Mas, ela afastou-me e disse:

— A noite de ontem foi maravilhosa, mas jamais se repetirá.

E foi para a cozinha continuar a fazer o jantar.

Desesperado, tranquei-me no quarto e entreguei-me completamente à depressão que sentia. A minha única vontade era nunca mais ver Rafaela. Só o não querer faltar ao prometido, me fez continuar a treinar, uma vez que seria mais doloroso fazê-lo, tendo que confrontá-la com a situação, expondo os meus sentimentos.

Nessa noite, apesar da insistência de Mónica, não jantei. Acabei por adormecer na cama, envolto em pensamentos, até ao amanhecer do dia seguinte.

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