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AMOR, GLÓRIA E... MUITA AREIA

CAPÍTULO I

Decorria o ano de 1995, mais precisamente em Maio. Eu, Marco Oliveira, tinha na altura vinte cinco anos, feitos havia quinze dias.

Durante cinco anos, andei na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa, a tirar um curso de Ciências do Desporto. Sempre fui um desportista e gostava de participar em competições desportivas. Porém, nunca tivera oportunidade para o fazer, limitando-me a corridas pelo jardim ou jogos de futebol com os amigos.

Nesse ano viria a terminar o curso, pois já só faltava uma cadeira. Bastava, para isso, ter aprovação no exame que iria fazer, no principio de Junho.

Devido a ele, eu passava o dia todo a estudar. Só parava para comer e dormir. Era, mesmo, exagerado na absorção que empregava no estudo. Os meus pais insistiam comigo para que parasse um pouco e fosse apanhar ar.

Tanto insistiram que eu acabei por ceder. Eles tinham razão, estudar em excesso era tão prejudicial como não estudar. Tudo deve ser feito com conta, peso e medida.

Certa noite, depois do jantar, decidi sair para tomar um café. Apesar de viver na Avenida do Brasil e ter um café à porta de casa, não fui lá. Preferi ir mais longe e beber o café na Avenida de Roma, perto da Praça de Londres.

Desci até à rua, entrei para o carro e segui rumo ao local planeado.

A noite estava abafada e ainda não escurecera totalmente. Eu circulava pela avenida em ritmo de passeio e com as janelas abertas para refrescar. Poucos minutos mais tarde, cheguei à Praça de Londres, onde estacionei o automóvel. O resto do percurso fiz a pé.

Ao entrar no café, um dos empregados cumprimentou-me:

— Boa noite, senhor Marco.

— Boa noite! — retribui eu.

Já era cliente habitual e conhecido no local. O empregado indicou-me uma mesa e eu pedi um café. Havia já alguns anos que eu frequentava aquele café, era um local simpático e acolhedor. A música ambiente provocava um repouso que nos fazia ficar horas ali.

Enquanto esperava o café, passei os olhos pelo jornal desportivo que trouxera comigo. Porém, não tive tempo para ler muito, pois o empregado já vinha na minha direcção com a chávena de café na mão.

— Aqui tem, senhor Marco. Deseja mais alguma coisa? — perguntou ele.

— Não, obrigado. — respondi eu, agradado com o serviço.

Com a chávena em cima da mesa, peguei no pacote de açúcar, agitei-o e verti-o sobre a chávena repleta daquele líquido escuro tão saboroso. Enquanto o fazia, os meus olhos circulavam pela primeira página do jornal.

Aquela edição não trazia grandes notícias, por isso fui folheando o jornal e, ao mesmo tempo, agitando o café com a colher.

Depois de um sem número de voltas à chávena, com a colher, larguei o jornal e bebi o café. Estava magnífico, dos melhores que já bebi.

Uma vez tomado o café, voltei à minha inspecção do jornal. Continuei a desfolhar as páginas, interrompendo algumas vezes para observar as pessoas que entravam dentro do estabelecimento. Intervalos curtos se se tratasse de meros cavalheiros, ou então, intervalos longos se fosse alguma das belas mulheres que por ali passavam.

No entanto, nessa noite, um desses intervalos foi mais longo que qualquer outro. Dentro do salão, entrou uma mulher de rosto familiar. Os meus olhos seguiram o seu movimento até ao local onde se sentou.

Esquecendo por completo o jornal, levantei-me e dirigi-me a ela.

— Rafaela? — perguntei eu, um pouco intimidado com a possibilidade de estar enganado.

— Sim! — respondeu ela, com uma voz rouca, distante.

Com a certeza de que estava correcto, a minha preocupação virava-se para o facto de ela não se lembrar de mim.

— Sou o Marco, lembras-te? — questionei eu.

Ela pensou um pouco e franziu o rosto, em sinal de amnésia em relação à minha pessoa.

— Fomos colegas no secundário. — insisti eu.

Rafaela olhou para mim de relance e disse, em tom de afastamento:

— Ah, sim...

O diálogo acabou por ser interrompido pela chegada do empregado que trazia uma chávena de café para ela. Inconscientemente, o indivíduo intrometeu-se entre nós e eu aproveitei a oportunidade para me afastar. Ridícula, a figura que eu fizera.

Voltei à mesa e sentei-me, mergulhando o olhar no jornal esquecido. Mas, o meu pensamento vagueava por recordações.

Rafaela fora minha colega no 12º Ano, nunca foi pessoa com quem me relacionasse, particularmente. Não por antipatia, simplesmente porque nunca tinha acontecido ela fazer parte do meu lote de amigos. Porém, conversávamos algumas vezes como colegas, mas também havia dias em que não dávamos um pelo outro.

Havia uma característica que a diferenciava de toda a gente, a sua aptidão para o voleibol. Na época em que fui seu colega, ela jogava nos juniores do Benfica. E que bem que ela jogava. Por uma ou duas vezes, cheguei a fazer parceria com ela no aquecimento das aulas de Educação Física. Eram mais as vezes que corria atrás dos remates dela, do que aquelas em que os apanhava.

Durante a leitura do jornal, desviava o olhar para ela, mas Rafaela nem reparava em mim. Possivelmente, já nem se lembrava do nosso frustrante diálogo de há pouco.

Rafaela estava quase igual a como eu a conhecera, alta, magra, com cabelos louros compridos e encaracolados e um rosto muito bonito, onde imperavam uns olhos azuis claros da cor do céu.

Apesar destas características, ela não era muito atraente. Vestia-se sempre da mesma maneira, com calças de ganga largas, camisolões compridos ou camisas largas, ténis... Enfim, não era muito feminina no vestuário.

Ela era um ano mais nova que eu. E havia quatro que não nos víamos. Após o término do secundário, só nos voltámos a ver mais meia dúzia de vezes, em insignificantes cruzamentos de rua.

Quando a interpelei, ali no café, foi com o objectivo de conversar com uma antiga colega. Para mim, é engraçado revermos os colegas e conversarmos com eles, sobre o passado. Mas, uma vez que eu não constava no seu arquivo de recordações, o assunto estava encerrado.

Depois de já ter desfolhado mais de metade do jornal, olhei para o relógio. Ainda era cedo, quando acabasse de ler o jornal, regressaria a casa.

A minha atenção centrava-se nas notícias do estrangeiro, às quais o jornal dedicava cinco páginas. Desde miúdo que era um consumidor de resultados, classificações, marcadores, etc... Gostava de estar actualizado no que diz respeito ao desporto nacional e internacional.

No entanto, ainda os meus olhos não tinham chegado a meio da classificação da liga italiana, quando uma voz se me dirigiu:

— Marco!

Olhei para cima e vi na minha frente, Rafaela. A situação pareceu-me tão estranha que os meus olhos procuraram o lugar onde ela estivera sentada, para ver se eu não estava com alucinações.

Uma vez confirmada a realidade, recebi a sua interpelação. Só que estava tão intimidado que acabei por lhe responder com uma voz rude e desprendida:

— Sim?...

Rafaela acabou por ficar, igualmente, intimidada e já não sabia o que dizer:

— Eu... Bom... Como eu estava ali sentada... E como nós nos conhecemos...

Perante um conjunto de frases sem nexo, tomei a iniciativa de a interromper e convidei-a a sentar-se e a fazer-me companhia.

Ela sorriu, perdeu um pouco do nervosismo e sentou-se.

Sentados à mesa, demos por nós a olhar um para o outro, sem saber o que dizer. Com tanta falta de vocabulário, peguei no jornal e refugiei-me na leitura. Enquanto ela olhava para todo o lado à espera que eu tomasse a iniciativa.

Eu observava as letras, mas não as lia. A minha concentração centrava-se em tentar dialogar com Rafaela.

À volta da mesa gerou-se um silêncio tão grande que ambos tivemos que falar. Só que, infelizmente, fizemo-lo ao mesmo tempo:

— Marco!

— Rafaela!

A coisa ia de mal a pior.

— Desculpa, diz tu. — entreguei eu a palavra.

— Não, não era nada importante. Diz tu o que ias a dizer. — sugeriu ela.

— Não, primeiro as senhoras. — contrapus eu.

Com tanta indefinição, acabámos por ficar novamente em silêncio. E mais uma vez, eu olhei para o jornal e ela para as redondezas. Isto, por mais uns segundos que pareciam horas.

A certa altura, ela olhou para mim e perguntou:

— Então, alguma novidade?

— Não e tu? — respondi eu, estupidamente, pois ela estava a referir-se às notícias do jornal.

Com uma resposta tão absurda, Rafaela calou-se definitivamente.

Eu, afogado no jornal, batalhava comigo mesmo para arranjar uma fonte de diálogo. Nunca houvera tanta timidez junta.

Hoje, quando me lembro, até me dá vontade de rir. Mas, naquela altura, estava a ficar desesperado. Foi então que me lembrei de falar daquilo que ela tanto gostava, voleibol.

— Rafaela, ainda jogas volei? — perguntei eu, largando o jornal, aliviado por ter o que dizer.

— Não, deixei de jogar quando entrei para a Universidade. As duas coisas eram incompatíveis. — explicou ela.

— Ah... Então deixaste de jogar porque as duas coisas eram incompatíveis.

Boa! Agora estava a repetir o que ela dizia.

— E tu o que é que tens feito? — perguntou ela.

— Estudado. — respondi eu, prontamente. — Falta-me uma cadeira para acabar o curso.

— E que curso é? — questionou ela.

— Ciências do Desporto. — informei eu.

Rafaela sorriu, não porque achasse graça, mas sim para disfarçar que não sabia como continuar o diálogo.

Eu, segurando de novo o jornal, perguntei:

— E tu?

— Eu o quê? — estranhou ela.

— Também estás a estudar? — reformulei eu a pergunta.

— Não, acabei o curso o ano passado. — respondeu ela.

— E que curso era? — perguntei eu.

— Comunicação Social. — disse ela.

— E depois disso, o que é que tens feito?

— Nada. Ainda não consegui arranjar emprego. — explicou ela.

Era, agora, a minha vez de ficar sem assunto. Parco em vocabulário, voltei ao meu jornal.

Rafaela, enquanto eu desfolhava o jornal desordenadamente, chamou o empregado para que este viesse receber. Nesse momento, uma notícia despertou a minha atenção e eu partilhei-a com Rafaela.

— Diz aqui que vai começar em Julho, o circuito nacional de volei de praia. — informei eu, achando que aquilo lhe interessaria.

Ela, não tirando os olhos do empregado, disse:

— Sim...

— Sabes? Houve uma altura em que pensei em jogar volei de praia. — continuei eu. — Mas nunca tive par e por isso desisti da ideia.

Rafaela já não me dava atenção e contava as moedas para pagar o café. Eu aproveitei a oportunidade e paguei a minha despesa.

— Bem, vou andando. — disse ela, levantando-se da mesa.

— Espera, eu levo-te. — sugeri eu.

— Não deixa estar. — recusou ela.

— Faço questão! — insisti eu. — Ainda vives no mesmo sítio?

Rafaela acabou por ceder e confirmou:

— Sim, na Estados Unidos da América.

Eu sabia onde Rafaela morava porque me cruzei algumas vezes com ela, quando vinha do cinema e a via entrar para casa.

Depois de saldarmos a conta do café, saímos e caminhámos até à Praça de Londres, onde eu estacionara o carro. Durante aquele pequeno percurso, não dissemos uma palavra.

Quando chegámos ao carro, eu destranquei as portas e ela entrou, ao mesmo tempo que eu o fazia no lado oposto.

Lá dentro, liguei a ignição e arranquei, rumo a casa dela.

A viagem não foi demorada, uma vez que ficava perto dali. O silêncio entre nós permanecia.

Como a quis deixar à porta de casa, tive que dar a volta à rotunda, ao fundo da Avenida Estados Unidos da América, o que não demorou muito tempo.

Parei mesmo em frente ao prédio dela. Nessa altura, tivemos que nos despedir. Porém, ficámos a olhar um para o outro sem saber como o fazer, até que ela tomou a iniciativa e estendeu-me a mão.

Nunca na vida, tivera uma despedida tão absurda. Despedimo-nos como se fossemos dois empresários a chegar a acordo sobre um negócio. Simplesmente ridículo.

Rafaela saiu do carro e deslocou-se até à porta de casa sem olhar para trás e sem um sinal de despedida. E eu arranquei de regresso a casa, com a esperança de esquecer aquela noite, tão ridícula aos meus olhos.

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